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abril 30, 2012

Ineficiência

É. Oito e cinco da manhã, após uma noite mal dormida decorrente de uma série sucessiva de cigarros e pensamentos menos saudáveis ainda, e lá estava eu: frente ao funcionário mais incompetente de toda assistência técnica de celulares da capital. O visor quebrado e a porra toda não ligava. O conserto em si me custaria pouco, felizmente, mas eram os dias de espera pela peça substitutiva que me incomodavam. Por que eu tenho que ser tão imbecil?, revirava os olhos a mim mesma. Já podia até ouvir o Fernando dando-me sermão assim que eu chegasse em casa. Sobre como eu devia ter comprado uma porra de um smart phone meses atrás, sob infindáveis recomendações dele, ao invés de insistir naquele atraso tecnológico do período Jurássico que sequer chip tinha.

Não, amigo. Não! Você não está entendendo, seu nerd imbecil..., ouvia impaciente os argumentos do atendente para que eu desistisse de consertar aquele e optasse logo por levar um novo, ...que se eu perco esta porra desta lista de contatos, eu perco a minha vida inteira. Soltei o ar vagarosamente, tentando não me irritar ainda mais. Dali, se ao todo eu soubesse os números de cinco garotas de cor já era muito. Os nomes delas, então, nem se fala. E se aquele visor não voltasse a funcionar, tão logo, as chances de uma tentativa de suicídio estirada propositalmente no chão da Sé em plena hora do rush aumentavam consideravelmente para a minha pessoa.

_Escuta, cara, você quer o grana do serviço ou não?! – me enchi de vez daquela ladainha toda, batendo irritada no balcão – Porque eu posso levar em outro lugar para consertar, se for muito trabalho pra você, viu...
_Não, dona. Se você quer, segunda-feira tá na mão!

Argh. Isto era uma semana toda sem celular. Bem o que eu merecia por ser uma descontrolada e por todo o meu drama sapatão. Desci o degrau em frente à loja na Av. Paulista e saí pela calçada, andando nos meus All Stars surrados, indo em direção à produtora nas redondezas da estação Brigadeiro. Acendi um cigarro e observei o maço quase vazio – resultado infeliz das horas acordada naquela madrugada, uff. O meu dia começara mal.

Parei na esquina para esperar o sinal abrir aos pedestres e uma garota sorriu para mim, do outro lado da rua. Sorri sem pensar de volta, fazendo um gesto sutil com a cabeça. Tinha os cabelos claros logo abaixo do ombro, os olhos escuros e a expressão como de quem é boa moça; lembrava-me o jeito da Marina, assim de relance. Observei-a conforme me ultrapassou ao atravessarmos, virando a cabeça para notar discretamente os movimentos atraentes da sua calça – nada como uma noite de pensamentos intensos em excesso para me deixar com o espírito tão superficial pela manhã. Ri para mim mesma, esquecendo daquilo já no passo seguinte.  

E talvez me fizesse bem, no final das contas, este tempo longe dos meus contatos. Das mensagens emocionalmente inconvenientes da Mia. Impedia-me ainda, mesmo que parcialmente, de adotar o meu método mais tradicional em lidar com qualquer problema que surgisse a minha vida. Ou seja, calhordice e inconseqüência. O único telefone que eu tinha na memória era o da Marina, de quem eu lembrara havia menos de um minuto. E para quem eu não tinha intenção nenhuma de contar sobre o rolo todo – não tão cedo, não depois da minha ligação dois dias antes garantindo o meu não-envolvimento com a Mia. Eu ia ficar bem sossegada, isto sim, planejei enquanto caminhava.

Por outro lado, eu também ficava impedida assim de me comunicar direito com a Clara, exceto pelos meios online que eu pouco utilizava.  Passo lá mais tarde, talvez?, considerei a alternativa. Não nos falávamos direito desde a minha última ida-surpresa ao seu apartamento, o que me fez cogitar se a minha declaração inusitada talvez a tivesse assustado. Mas depois resolvo isto, virei a esquina com a cabeça cheia, já tenho demais com que me preocupar agora. Conforme me aproximei da produtora, no entanto, encontrei de repente o Fernando, sentado na calçada da frente e fumando.

_O que você está fazendo aqui? – perguntei já a alguns passos dele, a sua expressão estava péssima, carregada.
_Eu... tentei te ligar, não consegui te achar!
_Meu celular quebrou, acabei de vir da assistência técnica. O que foi?? Tudo bem?!
_Fui demitido, meu – respondeu.

Mesma velha história

A minha respiração oscilava pesada, insegura. Os olhos ainda fechados, a parte de trás da minha cabeça apoiada contra a grade. Poucas pessoas passavam pela calçada frente ao prédio, já eram mais de 23h. Soltei a fumaça, nervosa; o cigarro anterior estava amassado contra a sarjeta. Conversara com a Mia por mais de 40 minutos na última hora e o que começara como uma noite de grandes decisões e amadurecimento pessoal tomara, aos poucos, a direção contrária. Sentia-me agora mais perdida do que quando começara. Inferno de garota na minha vida, balancei a cabeça em negação e bati as cinzas sobre o cimento.

A conversa nada saudável havia passado por cada momento nosso, numa nostalgia estúpida de se permitir, logo eu e ao telefone, em meio à noite paulistana. Os beijos, o sexo, as nossas mãos dadas no escuro. Toda a porra da nossa história. Cada um destes apartamentos, olhei para o alto do prédio no outro lado da rua, certamente é ocupado por algum outro ser humano fodido. É o que estamos. Todos nós estamos. Pensei num instante que o amor nada mais fosse que a forma doentia do universo de nos compensar a sorte da vida. Tudo está em equilíbrio – e eu sabia. A lógica é repugnante; às vezes, cruel. Bati mais uma vez as cinzas na calçada ao meu lado. Até mesmo da Marina, e as minhas noites com ela, a Mia lembrara.

O fofoqueiro do Fer foi quem abriu a boca na Sarajevo, no seu aniversário, e ela chegou a insinuar no fumódromo que ainda tínhamos algo, lembrei, enquanto tragava com calma. O que nos levou ao andar de cima... A pista escura, a música dos Distillers atravessando o chão sob os nossos pés – eu quase podia sentir o seu corpo no breu, frente ao meu, a estática que nos cercava; por um breve momento; os nossos toques leves, a intensidade dos acontecimentos durante aquela festa. Enquanto isto, ali na Frei Caneca, progressivamente, a noite esfriava. Cada vez menos os passantes interrompiam a minha linha de pensamento. A rua estava ficando vazia.

O problema, pensei, é que em cada um destes momentos, dos quais eu tinha saudades tão vívidas (e, aparentemente, ela também), o meu melhor amigo também estava lá. Entre nós duas: e exatamente onde ele continuava no presente momento. Só que por mais que eu a questionasse, era ali que ele sempre ficava. Pelo menos agora eu questiono, achei graça sozinha, irônica. “É, é possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?”, ela me perguntou receosa ao telefone, após muita insistência da minha parte. Possível é, né, retirei o cigarro da boca.

Judiava dos meus lábios entre uma tragada e outra, mordiscando-os distraída. Os meus pés agora inquietos na calçada. Metida naquela porra daquela confusão de novo – inacreditável! –, argh. Não: não existe uma bendita alma neste planeta com maior tendência à imbecilidade deliberada do que eu, puta que pariu, viu. A situação já estava até tediosa de tão familiar. Ok, mentira – eu continuava, não obstante, tão ansiosa quanto. E fumava como se a minha única solução estivesse para ser encontrada no final daquele filtro. Maldita Nicotina way of life. A verdade é que eu a entendia. Sem que o quisesse, mas mais do que qualquer outra garota, a entendia. Sabia o que era gostar de duas pessoas simultaneamente e sentir-se dividida entre ambas. Passara por isto inúmeras vezes, enxergava em outros amigos. Era como todo mundo na porra da cidade de São Paulo parecia se relacionar!

Mas esta não pode ser a solução. Não para nós. Por mais que eu tivesse entrado naquela com ambos os olhos abertos – sabendo, portanto, que a compartilhava com ambas as mãos do meu melhor amigo –, aquilo eu não podia aceitar. Não mais. Já havia sofrido demais por aquela garota, por toda aquela merda de situação; gostar de duas pessoas estava fora de questão àquela altura. E muito, muito longe dos limites toleráveis do meu ciúme insano dela, de tudo o que dizia respeito à Mia. Cara, como você ainda pode estar em dúvida?!, me revoltei, sentindo o meu coração entalar na garganta, sentada ali na calçada. Depois de tudo, tudo o que te ouvi dizer hoje, porra! Não, o seu “argumento” não entrava na minha cabeça.

Sequer sabia se queria mesmo que ela se decidisse, que se decidisse por mim, que me escolhesse. Havia ainda a Clara para eu cogitar, para eu somar à conta. Inferno. Passei a mão pela cabeça, segurei-a por um instante contra a nuca em hesitação. Por mais que o meu coração acelerasse com cada palavra da Mia naquela noite, eu tinha todo o restante na minha vida pesando contra ela e a sua irresistibilidade de merda. Todo o meu bom senso – ou o que restara dele, pelo menos. Após anos, anos seguidos atrás daquela garota, que maldição. Sentia como se tivesse gastado tempo em excesso numa corrida que eu sempre soube que não era minha para ganhar.

Por que, então, correr, porra?

Talvez eu gostasse mesmo de endorfina, talvez fosse uma imprestável incurável e todas as minhas ex-namoradas insuportáveis tivessem enfim razão. Sabe, eu bem poderia alcançar a chegada, algum dia – disto eu não tinha dúvidas! –, mas sempre dividiria o pódio e o prêmio. Ou seja, não levaria os créditos e nem a garota. Tê-la pela metade é mesmo melhor do que não ter nada sequer dela? Era o que parecia ter sido a minha linha de raciocínio por todos aqueles meses. E agora não fazia mais sentido – talvez o meu fôlego acabara.

Traguei o cigarro já quase terminado; só mais uma tragada. Mas talvez eu seja mesmo capaz de tê-la por inteiro, raciocinei, contra todo amor próprio que me restava, agora que ela está... mudad. Mudara mesmo? Seguia atenta ao som dos meus pensamentos, olhando para o vazio da rua e segurando o filtro inquieta entre os meus dedos. Minha mente tomava rumos solitários quando era cercada assim de escuridão, da ausência de pessoas com quem falar. E quantas vezes mais eu vou me perguntar as mesmas perguntas? As mesmas coisas, de novo e de novo, caralho? – até quando, meu?! A minha cabeça doía em agonia constante, exausta. Todavia, havia sempre alguma coisa. Um olhar, um “talvez” dela, qualquer coisa. Algo que me puxava de volta e me impedia de, de fato, decidir. Desta vez, a sinceridade inédita nas suas palavras. Merda.

O meu celular vibrou, por um instante curto e logo então cessou. Era um SMS. Alcancei-o na parte de trás do meu jeans, abrindo a mensagem instantaneamente, e por falar no diabo... Li: “Queria que você tivesse subido hj”, enviada às 23:44. Ah, garota, como se você ligasse para as consequências disto..., apertei o celular nas minhas mãos, meu humor instável. Como fizesse a mínima diferença, como se uma subida minha mudasse a importância que o Fer ainda tem na sua vida. Levantei-me, agora realmente inquieta.

Não mudou antes e não muda agora, não é mesmo? Encostei a cabeça contra o portão do prédio, irritada, tentando me acalmar; segurando a grade fria nas mãos e procurando bom senso. O que você quer de mim, o que você espera que eu te responda? Pressionei as faixas de metal e senti, apesar de tudo, uma vontade demente, impensada de largar tudo e subir no primeiro táxi que encontrasse para a porra do seu apartamento e subir. Subir. Subir e te beijar, incansavelmente, mais uma vez. Bati o celular forte contra a grade, num impulso de frustração, de raiva, de irracionalidade; puta merda!

abril 23, 2012

Devidos créditos

Mal fechei a porta da entrada, cumprimentando o Fer que assistia TV largado no sofá, e o meu telefone começou a tocar no bolso detrás da minha calça. Eu, no pior humor do mundo. Conforme passava pela sala, caminhando apática, ergui-o frente a mim e logo vi o nome da Mia chamando. Droga. Continuei até o meu quarto, sem dizer nada. Atendi apenas ao encostar a porta, tentando falar baixo para que minha voz não vazasse ao corredor.

_Já chegou em casa? – perguntou, do outro lado da linha.
_Acabei de entrar... – disse, a minha cabeça ainda doía da conversa – ...precisei dar uma volta.
_Hum... – ela ficou em silêncio, por um instante.
_Mas... Tudo bem por aí?
_Sim. É só que... – ela suspirou – ...você não, não subiu.

É. E ainda estou me matando por isto, acredite.

_Não, eu... desculpa, eu achei melhor não. Mas aí o cara lá já tinha ido avisar.
_É. Eu imaginei...
_Bom, você conhece o meu autocontrole, então não ia ser uma boa ideia... de um jeito ou de outro, né... – forcei uma brincadeirinha, numa tentativa espontânea de quebrar o clima tenso que estava no ar e ela concordou, achando graça no comentário; enquanto eu descalçava os All Stars de qualquer jeito, deitando-me na cama com o telefone apoiado no ouvido – E eu gostei da conversa, Mia. Sabe, gostei mesmo. Não queria que terminasse de outra forma, não sei, de repente eu ia e subia de novo e fodia com tudo sem nem pensar antes. Pra variar, sabe?
_Nossa. Isto é tão “maduro” da sua parte...
_Não é?! – comecei a rir da improbabilidade daquilo, junto com ela.

Ainda te surpreendo, garota; quem diria?

_E você ligou por isto? – continuei, desabotoando as calças, que me incomodavam no segundo que eu entrava no apartamento.
_Não, eu... também fiquei pensando, sabe, depois que você saiu.
_Sobre?
_Ah, tudo o que você disse. E como você disse, por que disse, sei lá. Foi... "diferente" te ouvir. Fiquei pensando só. Achei que você merecia saber algumas coisas também... do que, manja, do que eu venho passando.
_Humm... – senti como se ela quisesse confessar algo – ...algumas coisas, mas, tipo o quê?
_Bom, tipo a, a garota que eu...

Não. Não fala, não fala, não fala.

_...beijei – argh – ...aquele dia lá, na festa, e que o Fer te contou.
_... – não consegui falar nenhuma amenidade e então me segurei, aquela vadia garota era o motivo da minha falta de controle perto da Mia nas últimas semanas.
_Quando voc... – ela fez uma pausa, como se juntasse coragem para continuar – ...quando você voltou com a Clara, eu... eu pensei muito em você, quer dizer, eu voltei a pensar. Não sei, eu já... eu já estava incomodada, acho, porque você já não me... não olhava mais para mim, saca, você não falava comigo e não era como se você estivesse brava, nem nada. Você só... só não se importava mais.
_Mas você sabe o porquê disto, né, Mia... – a interrompi, por um instante.
_Eu sei. Eu sei. Lógico que eu sei! Mas eu, não sei, era estranho... – aí veio outra pausa, hesitante; podia imaginá-la cerrar os olhos do outro lado da linha, como se estivesse a um centímetro de um salto que temesse dar – ...é que... nunca foi "assim" com a gente. Mesmo quando eu sumia e depois voltava a ir no apê, você sempre, sabe, sempre foi muito atenciosa comigo. E de repente, eu era um nada. Eu não fazia diferença, voc... você não me odiava, não me amava, nada. E aí quando a, a Clara re-apareceu, não sei. Eu já te vi com tantas meninas, sabe, mas com ela... eu, eu sei o que vocês tem, o que vocês tiveram, pelo menos. Eu já te vi mal por ela, meu. Muito mal; chutando tudo no seu caminho, brigando com os outros, sem sair por dias. Ela, ela é diferente. E não sei...

Sem entender bem o porquê, sem nem pensar direito a respeito, senti o meu coração acelerar e afogar-se a cada palavra que ela dizia. Não estava preparada para ouvi-la falar desta forma. Puta merda, o que está acontecendo? Permaneci apreensiva, deitada na cama, com as calças descidas só até a metade das pernas.

_...de repente, eu não estava mais só incomodada, eu estava... pensando, sabe... em... em você e como era quando era eu a, a garota que você... você... queria. No quanto eu... gostava de...

Chutei o jeans pelos pés, sentando em seguida num movimento brusco. E tentei respirar. Apoiada contra a parede, ainda sobre a cama; já inquieta. Caralho.

_...disto. Eu, eu ia dormir e... – sua voz tremia, sutilmente; eu podia sentir a sua insegurança escapar em cada uma das sílabas – ...e tudo o que eu conseguia pensar era na... naquela última vez que a gen... que você veio, aqui, e que a gente foi... lá... atrás...

O banheiro da área de serviço, me lembrei momentaneamente e os meus olhos se fecharam na mesma hora, as horas contra os ladrilhos frios e aquela luzinha que passava pela janela no box.

_Eu senti a sua falta de... de um... – os meus olhos reabriram-se então, atentos, e ela pareceu deixar-se marejar, como se algo engasgasse timidamente em sua garganta – ...de um jeito físico e, e estúpido.

Ah, garota, não faz isto, eu me contorci na cama. Puta merda!

_E aí aquela, aquela menina, ela... – eu pressionei a cabeça contra a parede em agonia, ouvindo-a soar completamente desamparada – ...ela me olhava como, como você me olha. Ou olhava... sabe, interessada. Não só no que eu dizia, não sei, eu... eu estava confusa e eu nem sei direito o que aconteceu... ou o porquê, eu... eu tava muito bêbada. E eu nunca, nunca quis ficar com... com outra menina. Que não fosse voc...  – respirou fundo, meio desesperada para se explicar – Mas aí, o... o Fer ficou com esta... merda... desta história... na cabeça! E ele ficava falando e falando e eu só queria esquecer e aí você, você apareceu com a Clara, no outro dia. E eu... eu só queria que... que... você...

...que eu reparasse em você.

abril 21, 2012

“Don't want nobody to follow me...

...except maybe you.” (Ani DiFranco)


O silêncio entre nós agora já não era mais constrangedor. Era uma quietude sincera, tranquila. Todas as nossas palavras – as minhas, no caso – haviam sido gastas na última meia hora. Não havia muito mais o que dizer. As cartas todas na mesa. Restara um sentimento de compreensão mútua no ar, de carinho ou respeito, algo assim; talvez fosse apenas a exaustão daquele clima tenso, uma hora havíamos de ter gastado toda a nossa seriedade neurônios.

O relógio da cozinha, chique e bem-equipada, da família da Mia ressoava na parede conforme terminávamos as nossas bebidas. Ela, um copo gelado de Coca-Cola com algumas poucas pedras de gelo e eu, uma lata de cerveja que ela me oferecera. A qual eu tomava sentada sobre o balcão, o mesmo das últimas duas vezes que fui àquele apartamento, pensei. Memórias bobas, agora distantes; eu tentava me concentrar, pára com isto, por que entrar nessas? Respirei. Afinal, de que me adiantavam nostalgias àquela altura? Era tudo, de repente, tão diferente. Tirei as mãos da superfície do balcão, ignorando a sensação/saudade, e tomei outro gole, me distraindo.

_Você tem algum problema com cadeiras? – ela falou baixo, deixando escapar um riso breve.
_Não, é tipo um bloqueio... com a opção mais comum, sei lá... – sugeri, rindo, sem falar sério – Nada, eu só gosto de balcões.
_Balcões, pias... – foi listando, apoiada na direção oposta e contra a geladeira, desatenta.

É, pensei e abaixei a cabeça, evitando olhá-la de novo. Um sentimento estranho me tomou. Aquele momento desconfortável em que se sabe demais uma sobre o jeito da outra, por observação de meses a fio. Suspirei. A Mia ficou em silêncio em seguida, desviando também o olhar de mim e do caminho que a conversa tomara, mesmo que por acidente. Merda, preciso falar alguma coisa, porra, respirei fundo, ou isto vai tomar proporções maiores do que teria sentido tomar. As minhas mãos inquietas de novo contra a superfície fria do balcão – não conseguia formular frase nenhuma, porém; nem um som sequer saía da minha boca e o silêncio então cresceu. A Mia se moveu, colocando o copo na pia.

_Você quer mais uma? – perguntou, agora por mera educação.
_Não, eu... já vou indo, mas valeu.

Preciso ir. Eu e ela nos olhamos mais uma vez, ainda em silêncio, e eu desci da pia num salto sem muita força de vontade. A tranquilidade conquistada nos minutos antes já havia desaparecido. Vai embora logo, repeti para mim mesma. Não queria prolongar o desconforto que restara. Por mais filha da putagem que fosse, todavia, me era difícil de repente deixar aquele apartamento. Deixar tudo o que fora nosso. Perto do fim, os pensamentos se tornam mais drásticos, apocalípticos. Caminhamos até a porta juntas e ela a abriu, apoiando-se na madeira aberta. Encostei contra a parede oposta. Olhei-a por um instante e abaixei a cabeça, mais uma vez. Enrolava, nitidamente, mas sem premeditar.  

_Você... – murmurei, subitamente confusa; e aí ergui novamente o queixo na sua direção – ...você acabou não me dizendo o que, o que sentia.
_Ah, eu achei que não fazia mais sentido, né... – respondeu, cruzando os braços um tanto introspectiva, e sorriu – ...você sabe, depois de tudo o que você disse lá no quarto e o que nós... – nossos olhares se cruzaram mais uma vez – ...concordamos.

Diabo. Vê-la sorrir, por mais acidental que fosse, me quebrava as pernas de tal forma – e elas pareciam mesmo se recusar a sair dali. É a Mia, porra! Toda a minha segurança no que me preparara tanto para dizer, no que fora em sua casa só para fazer, perdeu a força. Estar ali, já tão na linha da porta. E o que foi, hein, que concordamos mesmo? A sua boca respirava, entreaberta, a meio metro de mim. O seu corpo, a sua pele morna. Por um instante, os meus olhos se fixaram nela, hesitantes. Tão óbvios que ela percebeu. Respirei fundo; olhando-a.

E observava-me de volta, apoiada contra a porta; as mãos escondidas atrás do corpo sutilmente. Como se esperasse – um movimento, um gesto meu, qualquer coisa bastaria. E eu o quis – toda a nossa história até aquele momento, todas as dificuldades, as falhas minhas, aquela falta de atitude dela, tudo o que conversamos na meia hora anterior passou quase que invisível pela minha mente. De repente, irrelevante. Por um milésimo de segundo. Ah, como o quis. Estava deixando tudo para trás e de forma tão consciente. Me odiava, em partes, por isto. E ela me olhava, tentando em vão me entender.  

_É... é melhor eu... – hesitei, virando o corpo na direção do corredor – ...eu, eu ir.
_É. É melhor...
_É. Certo.

Fui, sem olhar mais. “Se cuida”, ela disse então, carinhosamente, antes de fechar a porta. Por que diabos as garotas sempre dizem para eu me "cuidar" ao invés de se despedir de vez?! Como quem se preocupa, como quem continua ali e não como quem de fato te quer fora do radar. Argh! Andei até o elevador, sentindo o meu coração ser subitamente atropelado pelas minhas emoções. Nada daquilo. Eu parecia não ter planejado nada daquilo, como se não o quisesse. Quando foi que decidi por isto?! 

Um a um, comecei a descer os andares dentro do elevador. Um desespero fora de controle tomava conta de mim, a maldita da imprevisibilidade do futuro. De quando a veria de novo, de como tudo seria dali em diante. Eu devia tê-la beijado mais uma vez, só mais uma vez. Passei a mão na cabeça, agoniada. Me irritava, descontando em gestos impulsivos. A minha respiração me sufocava progressivamente, merda. Aquela era a Mia. A Mia! A única coisa na porra da minha vida, na droga do meu coração, por anos! Anos! Mas que... caralho!

Deixei o elevador me sentindo uma idiota. O que eu estou fazendo?! Não queria voltar atrás; com todas as minhas forças, não queria. Inferno. Imagens de quando a Mia fora minha, o seu sorriso, a sua boca, me enchiam a cabeça violentamente, contra a minha vontade, porém. E assim que passei pelo portão de entrada, pisando na rua e alcançando um cigarro no maço, me bateu um arrependimento quase estabanado, uma vontade de retirar cada uma das minhas palavras. Eu não posso fazer isto, eu não consigo. Tirei o cigarro da boca, voltando cinco passos apressada até a guarita e pedi que interfonasse de novo, eu precisava subir. 

O guarda entrou. Não. Merda!

Eu não podia fazer aquilo. Não era justo com a Mia, comigo, com a porra da Clara. Puta que pariu, mas que inferno. O meu corpo parecia relutar, brigando com a minha racionalidade, fixado na ideia de tê-la de novo. Por um breve momento que fosse. Só um beijo... Caralho, não. Não! Um beijo e eu mudava a porra do rumo da minha vida de novo. De volta para o domínio dela, à mercê da sua atenção. Da sua indecisão, da sua vida com o Fer no quarto ao lado. Não. Não dá, não mais. Dei um passo para trás. Eles ainda estão juntos e eu... não, não mais.

_Ela disse que a senhora pode subir... – o porteiro ressurgiu, me avisando.
_Não, não. Deixa...

abril 19, 2012

Untouchable face

Aquelas paredes. Os livros, as estantes, as pequenas formas redondas no papel de parede; como se eu nunca houvesse deixado aquele cômodo. Paradas ali, em constante estado contemplativo de nós duas. O quarto dela continuava o mesmo, à nossa história, igual aos meses antes quando cambaleamos adentro mais bêbadas do que qualquer outro que deixara o show no Itaim aquela noite. Os beijos, as horas gastadas em segredo. Os sentimentos me voltaram, tão vívidos e comuns, assim que passara pela porta. A sua mão entrelaçada à minha no escuro, semanas antes do nosso encontro no bar; todas as suas amigas nos colchões ao lado e a nossa respiração acelerada, denunciando-nos. O que aconteceu no meio do caminho, garota? Eu a olhava, agora, tão diferente. Os cabelos presos para trás, morenos e opacos, sem vida; os seus olhos tristes. E um sentimento de culpa, brotando em mim. O seu corpo não me queria ali, eu podia notar facilmente; havia algo de desconfortável. Na minha presença, naquele quarto. Não era mais natural... Deixara de ser e talvez a culpa fosse minha, ou dela – eu não sabia mais dizer. Importava?

_E então? – me encarou brevemente, num jeans claro e num confortável moletom azul escuro; cansada. A frase, a pergunta parecia continuar na sua cabeça. Afundou-se contra a parede, sentada no colchão macio. Parecia não querer ouvir o que eu tinha para lhe falar, para acertar entre nós. As pernas cruzadas sobre o edredom branco, fino; me evitava olhar nos olhos.

Nós merecíamos mais, eu e você, pensei, vendo-nos tão distantes.

_Eu queria me desculpar.
_Ah, é... Por o quê, exatamente? – falou, como se eu lhe devesse mais de uma.
_Por brigar com você. Por tudo. Pelas coisas que eu te disse, pelo o que fiz.
_Eu acho que nós duas nos arrependemos... – ela cedeu um pouco, mas mantendo os braços ainda cruzados.
_Mia... – a olhei direto nos olhos e me curvei na sua direção, também sentada na cama – ...eu também queria... – respirei, tranqüila – ...te dizer, pelo menos uma vez, e este é um dos motivos pelos quais eu quis vir aqui, sabe... só te falar, com calma e não no calor de briga nenhuma, uma vez que fosse, o quanto eu gostei de você nos últimos meses, nos últimos anos.

As suas pálpebras abaixaram-se, desviando-se do que eu acabara de lhe dizer.

_Olha – pedi e ela tornou a prestar atenção em mim, a contragosto –, a verdade é que eu me apaixonei por você. E eu não sei como, não sei por que você. Sei menos ainda por que eu não impedi isto. Eu acho que eu nunca consegui... te evitar, sabe? – suspirei, me forçando a dizer de uma vez todas as palavras que eu ensaiara na minha cabeça no caminho até a sua casa, sentada no ônibus – E eu sei que parte de você acha que foi sacanagem minha por eu já, não é, teoricamente, lidar melhor do que você com... com isto. Com outras garotas – ela arqueou as sobrancelhas, como se concordasse com a minha presumida culpa no início daquilo – Mas eu não procurei isto, não como você disse ontem; eu nunca quis, nunca, nada disto! Eu tenho o maior respeito do mundo pelo Fer, ele é meu amigo, cara, e eu amo ele, muito antes de te amar...
_É. Eu também amava ele – ela me interrompeu, rancorosa –, mas aí você veio e... e por que? Por que você tinha que ter começado tudo isto, meu?!
_Eu sei, eu sei... – respirei fundo, tentando me esclarecer – Mas a real é que, antes que eu pudesse me dar conta, que eu pudesse me segurar, você... sei lá... você entrou em mim, de uma forma! E eu não disse nada, na época, mas, cara, eu te amei e amei muito antes de fazer qualquer coisa a respeito – ela deixou escapar um leve sorriso, ainda que melancólica, nunca ouvira eu falar tão abertamente assim sobre o que sentia por ela – E você não sabe, meu, não sabe como eu me odiei depois que tudo isto acabou por, por não ter te dito antes. Por ter te levado talvez a, a achar que você era só uma gracinha, uma brincadeira para mim. Você não era. Eu devia ter te dito antes, eu sei! E mesmo quando eu disse... – ri, um tanto nervosa comigo mesma –  ...sabe, eu sei que eu nunca te disse isto com calma, nunca me expliquei direito, nem nunca falei a verdade antes daquele dia lá, da briga, do elevador. E aí já era tarde demais, o contexto era todo errado... mas você tem que entender que, que eu também estava lutando com isto e você, você tinha o Fer, porra... Eu... – me senti machucada, confusa – ...eu podia perder vocês dois, entende.
_Mas agora você tem a Clara... não é...
_Tenho. Tenho mesmo, Mia. Mas, sabe, eu ainda queria te dizer... pelo menos uma vez, com a cabeça no lugar, o que você foi para mim. E continua sendo, de alguma forma... – a olhei, sincera; o meu coração doeu em silêncio – ...só não mais como foi naquela época.

Os seus olhos se encheram, marejaram, algo neles ainda estava além da minha compreensão. Por que não?, eu li, nas suas entrelinhas. E ela seguiu sem me dizer nada, sem sequer querer estar ali, conversando comigo.

_Porque, Mia... – continuei, respondendo-lhe sem que ela o pedisse; ela me observou de volta, prestando atenção – ...lidar com os meus sentimentos por você e com as nossas idas e vindas e com a minha desonestidade com um cara que foi o meu melhor amigo há mais tempo do que eu posso me lembrar, meu, acabou comigo. E eu sei que não foi fácil para você também, eu sei. E me mata te ouvir falar como você falou ontem, sabe, no telefone... mas eu só posso dizer do que eu penso, do que eu sinto. Do que eu senti por muito tempo. E o que eu tive por você drenou todas as minhas energias, acredite: todas as minhas lágrimas, os meus surtos de raiva, de frustração, me sugou a vida inteira. Por meses. E talvez você nunca tenha visto isto, o meu sofrimento, sabe, toda vez que eu te via com ele, toda vez que eu olhava para o Fer em casa e todos os meses de agonia por alguns poucos dias de felicidade absurda contigo, sabe? Por um segundo da sua atenção, por um beijo seu, mas... – ela me olhava, sensibilizada com tudo que passei – estava lá. Tudo isto estava lá. E eu não podia dividir com ninguém! Eu carreguei sozinha e eu, eu não quero mais isto para mim. Eu quero ficar com a Clara – a sua expressão mudou, fechando –. Eu quero, sabe, só... ficar bem.
­_É, mas você tem um jeito muito “estranho” de mostrar isto... – retrucou ofendida, referindo-se à noite no banheiro, após o teatro.

Mais alguma coisa, caralho?!
 
_Não faz isto, cara... não fala assim, eu sei que... – abaixei a cabeça, irritada com a atitude insistente dela em descreditar o que eu dizia e frustrada comigo mesma, com a minha responsabilidade naquilo – ...eu sei que eu faço as coisas sem pensar, que eu posso ser uma completa idiota, às vezes. E eu espero que você me perdoe, meu, por um milhão de coisas que eu já fiz... – a encarei novamente e ela me olhou, contrariada, como se eu estivesse falando a coisa errada; como se não quisesse me perdoar por aquilo e, sim, pelo o que veio em seguida – ...mas eu tô tentando aqui, tô mesmo. Eu quero ficar bem com você! Eu não quero ficar brigando, meu, entende? Você, porra, você é importante pra caralho. E acredite... – ri, o meu peito se esmagava de dor só em olhá-la – ...não é fácil pra mim pensar em todas estas coisas para te dizer, falar tudo como se não tivesse uma parte de mim que te quisesse. Porque tem. E sempre vai ter, Mia, eu me dei conta disto ontem. Mas eu não posso mais...
_Então, por que você vem até aqui... – me encarou, como se eu a magoasse – ...até a minha casa, o meu quarto, sabendo que eu, manja, eu tô pensando em você, que eu tô confusa... pra... pra me dizer que tem parte de você que quer dizer “sim”, meu?!
_Porque eu não quero ter que dizer! Eu não quero te negar o tempo todo, cara. Não você! – levantei um pouco o tom de voz, incomodada pelo excesso de sinceridade – Eu... eu não sei se eu consigo, Mia. E eu acho que você também sabe... Prova disto é o que rolou na, na merda do apê anteontem, meu! Não devia ter acontecido. E a gente não devia ainda estar nessa! Você está com o Fer, porra. Você ainda está com ele e, bom, agora eu tô com a Clara. Eu quero estar! E eu quero conseguir, mas... mas a gente tem que se resolver primeiro.

Ela abaixou a cabeça, colocando uma mecha solta do cabelo para trás da orelha. Respirou fundo, olhando para o lado e só então, voltou o olhar a mim.

_Ok, eu, eu acho que sei o que você... quer... dizer. E eu entendo – ela parecia se conformar, para me agradar que fosse, e eu sorri –, entendo mesmo.

abril 11, 2012

Os Placebos

_Ei! O que acontece com você?! – estalou os dedos, quase me despertando.

Estava no balcão de uma padaria em Jardins. Havia ido encontrar o Gabriel ali, não o trombava há tempos, e nos vimos rapidamente antes do expediente para um café. O seu trampo ficava numa agência na Av. Paulista, a algumas quadras da produtora. Balancei a cabeça, como se acordasse, e ele riu. Desde a noite anterior eu não andava fazendo muito sentido – no que dizia ou fazia, whatever –, confusa. Ele achou graça na minha alienação ao presente momento – parada ali segurando o meu salgado por alguns segundos no ar, enquanto encarava o nada, pensativa.

_Que que cê tá toda sonhando aí? – se divertiu com a minha cara, descendo mais um gole de expresso quente; a roupa formal denunciava o seu emprego provisório no banco – Tem nome?!
_Ih, não. É mais complicado do que isto...

E a única coisa mais complexa do que uma mulher, são duas. Na vida de uma terceira.

_Compartilha aí, mano. Que que tá pegando...?

É. O Gabriel era a única pessoa viva que me vira junto com a Mia, pensei, ainda que sem saber direito a história. Mãos dadas, beijos roubados: viu a parada toda. E o motivo para isto era simplesmente o seu pertencimento a um círculo diferente de amigos. Ou melhor, o não-pertencimento ao círculo meu e do Fer. Conhecemo-nos no Atari, logo após meu término com a Marina, e eu estava sozinha aquela noite. Em termos de Mia, portanto, o Gabriel fora a minha Suíça. Não que eu tivesse tido a dignidade de explicar a ele que aquela era a namorada do “Fernando que morava comigo”, a quem ele conhecia apenas por nome. Claro.

_Cê lembra da... daquela menina que eu... – tentei achar alguma referência, mas a verdade é que saíamos tão poucas vezes no ano que era impossível que não recordasse – ...levei naquele show que a gente foi lá no Itaim? Fomos eu, você, sua mina e dois amigos seus... uma morena, a Mia?
_Ah, não namoro mais esta mina aí...
_Não? Nossa! Cês terminaram? – caralho, sou a amiga mais desnaturada do Planeta!
_Faz tempo, meu. Ela era puta desregulada, terminei uma ou duas semanas depois daquela parada lá... – tomou outro gole, me encarando de volta – ...mas, ahm, fala! A morena, a Mia; lembro.
_É, então, eu... meio que fui apaixonada – argh, a palavra me incomodava, ainda – por ela por, tipo, muito tempo. E agora eu tô com essa outra mina que, meu, tem lá seus problemas e tal. Tipo, no passado, comigo e enfim... mas ela é divertida, é linda pra caralho e é... sei lá, ela é na real uma das garotas que eu mais quis que desse certo, saca. Desde o começo. A gente se entende, não sei.
_Hum... Mas, e aí?
_E aí que agora acontece que, de repente, a outra lá percebeu que talvez... sei lá... – eu ia e vinha na história, me enrolando; ele me olhava um tanto confuso e ria – ...não sei se a Mia realmente sente alguma coisa por mim, mas ela tá, sabe? Toda mal lá e me... me procurando, do nada, manja. E eu fiquei um pouco, não sei. Eu... eu não queria dar bola, mas, entende?
_Ihh... – falou como se já conhecesse bem o “tipo” – é só aparecer outra na parada que a coisa muda, né?!
_É – ri – Mas é complicado também, porque ela nunca decide o que quer, manja. E ela... ela namora um... cara... e tá sempre nesta também, não sei. Saca? Não sei se eu quero entrar de novo numas com ela e me arrepender depois, sofrer o cão de novo, sei lá. Só que aí ontem a gente brigou no telefone e eu fui ver a Clara, à noite...
_Clara?
_A menina lá, a que eu tô saindo... – ele sorriu e eu prossegui falando, enquanto comia mais um pedaço do salgado, esbanjando desnecessariamente a minha caminhoneirice – ...enfim, e daí eu achei tudo muito complicado. Porque eu gosto da Cla e tal, mas eu curti a Mia por muito tempo. Tipo, muito tempo. E não sei se, se eu consigo ignorar esta nova “descoberta” de sentimentos dela ou vontade ou seja lá o que for.
_Ah, mano, na boa... eu não me metia de novo com ela, não. A mina é problema, cara. Já foi uma vez e vai ser de novo. Certeza! E a outra é mó de boa, pá, meu, tem tudo o que você quer... pra quê cê vai ficar indo atrás do que já acabou, cara?
_É, sei lá... é que, eu pensei que, não sei... – suspirei – ...tipo, se ela continua sendo um problema tão grande é porque talvez eu ainda curta ela, saca?

E então ele me disse algo que eu não esperava ouvir:

_Gostar é estar bem, cara. E se você não está, então não vale a pena... você tem que ficar com quem te faz bem, mano. Foda-se a outra!

Eu ri, subindo a xícara mais uma vez à boca para um gole de café. É, talvez o Gabriel tivesse razão. Alguma coisa dentro de mim, no entanto, seguia incomodada com a minúscula fagulha de Mia reativada dentro do meu coração. E eu precisava fazer algo a respeito. No restante do dia, submersa entre as tarefas da produção de um anúncio para a TV, procurei me ocupar com trabalho e a pensar exclusivamente na Clara. Não era lá tão difícil assim. As suas curvas e o seu sorriso, o foco todo nela. A minha cabeça ficava mais tranquila assim.

O relógio já se aproximava, agora, das três da tarde.

Aquela era a primeira vez, em toda a minha vasta experiência, pensei, que eu me encontrava em um relacionamento nos meus “moldes”. Livre e numa estranha sincronia. Ao mesmo tempo, feliz – como há muito não ficava – por estar junto a alguém. E eu não posso levar isto em desconsideração, porra. Só agora começava a me dar conta do quanto, de fato, gostava da Clara. Mais do que gostava. Como nunca fora capaz de amar, por exemplo, da Dani. Ela era a primeira garota que acalmava a minha consciência e acendia os meus ânimos simultaneamente. Ainda assim, refleti, acendendo um cigarro do lado de fora da produtora, se eu vou mesmo fazer isto... suspirei e soltei a segunda tragada do dia. Eu sabia que precisava fazer direito.

E então fiz o que nós duas nunca havíamos conseguido fazer antes. Peguei o celular e disquei, obstinada, para a Mia. Os toques se estenderam, consecutivos, ressoando no meu ouvido atento – a cada um deles. Atende, vai... Por um instante, achei mesmo que não o fosse fazer. Mas apesar da maneira como a nossa discussão terminara no dia anterior, ouvi a sua voz surgir do outro lado da linha. “Por que você está me ligando?”, pude senti-la ainda amargurada comigo, suspirando.

_A gente precisa conversar... – respondi; o silêncio da parte dela mantinha-se, rancoroso – ...direito. Posso passar aí hoje, depois do trabalho? Eu não quero mais brigar, Mia.