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setembro 26, 2010

No rádio


(...)
 
One!
You're biting my tongue.

Two!
I'm kissin' on you.

Three!
Is he better than me?

One!
Two!
Three!
Four!

The word's on the streets and it's on the news:
I'm not gonna teach him how to dance with you.
He's got two left feet and he bites my moves!
I'm not gonna teach him how to...
Dance... dance... dance... dance...


*(créditos pela sugestão de trilha sonora ao Fuck Art, Let’s Dance! do Seje Menas.)

O Conceito


_Quem está cantando? – a Mia sorriu e sentou por cima de mim, com uma perna de cada lado do meu corpo.
_Uma banda indie aí... – eu ri, olhando para ela, ainda deitada no tapete – Chama Black Kids.
_Hm, e o CD é deles?
_Não, só essa música. O CD é seu.
_É meu?! – ela sorriu – Mas o que mais tem nele?
_Por que você não lê o bilhete? – eu sugeri e levantei metade do corpo, me apoiando nos cotovelos e com as mãos acidentalmente largadas nas coxas da Mia – Eu expliquei todo o conceito lá. E tem a tracklist também, é só ler lá.
_Eu prefiro ouvir você explicando.
_Ah, mano... Não... – eu ri – Não quero.
_Deixa de ser boba, eu vou ler de qualquer jeito... – ela me olhava, curiosa, insistindo.
_Então lê, uai. Por que eu que tenho que explicar?
_E qual o problema nisso?
_Ah, sei lá... Dá vergonha. Não quero – deixei o corpo cair de novo, escorregando os cotovelos no tapete e me deitando – Só lê lá, vai.

A Mia balançou a cabeça. Enfiei um dos braços sobre o meu rosto, incomodada com a situação e sem querer me expor para ela. Ela continuou sentada no meu colo, achando graça da minha birra. Cruzou os braços e me encarou – como quem diz “para de manha e fala logo”. Inferno.

_Tá – suspirei a contragosto e tirei o braço da cara, me dando por vencida – Mas não é nada demais, é idiota. É só uma compilação...
_Ahm...
_De todas as músicas que eu perdi para você.
_“Perdeu”?!
_É.
_Como assim “perdeu”?!
_Ah, sei lá... Um bando de músicas que eu gostava antes e que agora só me fazem pensar em você. Ou que ouvi quando a gente estava junta, ou que deixei de ouvir por sua causa.
_Por que você deixaria de ouvir uma música por minha causa?
_Ah, não por nenhum motivo ruim. Eu digo, literalmente deixei de ouvir. Tipo, em situações que me vi obrigada a sair da sala ou de onde quer que eu estivesse com você por perto, sabe, justo quando uma das minhas músicas favoritas tinha começado. E aí eu perdia, sabe?
_Mas sair por quê? – a Mia parecia genuinamente chateada com o fato de eu ter perdido alguma faixa que eu gostava, alguma vez na vida, e eu me encantei com o quanto esse tipo de coisa também era relevante para ela, quer dizer, aquela valorização acima do normal de determinadas músicas.
_Porque... ah, sei lá – respondi, sem intenção de fazê-la sentir-se mal com aquilo, mas a Mia me olhou insatisfeita, então continuei – é que... às vezes... às vezes, é difícil ficar perto de você. Ou do Fer, não sei... – tentei me explicar e consertar, para não soar dramática demais – tipo, não é como se fosse realmente um problema, mas... é só que... quando é assim eu prefiro simplesmente sair, sabe? É mais fácil...

Ela me observava apreensiva e eu sorri, propositalmente, para quebrar aquele clima idiota que eu havia começado. Eu e a minha boca grande demais.

_Não é grande coisa, meu... só um Bowie ou outro sacrificado, de vez em quando.
_Mas é o Bowie, porra! – ela riu, indignada.
_Ok... é, é grande coisa – eu ri também.
_Meu, eu acho que eu te mataria se você me fizesse perder... sei lá... Distillers ou, tipo... Misfits.
_Eu jamais faria você perder Misfits... – eu ri, de novo, e me aproximei um pouco dela, apoiada novamente nos cotovelos – ...isso já é pecado.
_É muito pecado. Imperdoável até! – ela riu junto, chegando inconscientemente mais perto de mim também – E Bowie, meu. O Bowie e você têm uma história...
_Pois é.

Arqueei a sobrancelha e baixei o olhar brevemente, pensando na situação que havia originado todo aquele CD. Nós duas na sala com o Fernando e a porra da minha incapacidade de ficar ao lado dela sem querer beijá-la, perigando por tudo a perder.

_Foi ontem, não foi? – a Mia perguntou, olhando nos meus olhos – O Bowie.
_É, foi...
_Bom, não se preocupa. Que eu vou te compensar pela sua perda...
_Olha, eu gosto dessa ideia, viu... – o clima se tornou imediatamente mais leve e eu ri, subindo minhas mãos pela sua coxa, sentindo o seu corpo inclinar-se na minha direção.

setembro 21, 2010

Percepção


Minha perna se encaixou entre as da Mia, os fios do seu cabelo moreno entre os meus dedos – o corpo dela contra a minha respiração, a sua boca deslizando pela minha, a minha língua pela sua. E a minha mão por baixo do seu moletom, apertando a sua cintura, sentindo a sugestividade das suas curvas. Enquanto a tela gritava, silenciosamente, num azul brilhante – a luz do televisor invadia o quarto escuro de um jeito grosseiro, cortando o clima sutil de meio-tons das cortinas e o conforto de tapetes felpudos, indicando o término do DVD e demandando alguma atitude nossa. E nós ignorávamos, é claro. De olhos fechados, para lá e para cá, fingindo não nos dar conta. Dançando pelo chão e rindo.

Tudo com a Mia era muito adolescente, mas de um jeito bom.

"Bom" porque eu gostava... dos beijos intermináveis e escondidos, do que era só nosso, do que ninguém via – na casa dos pais dela ou mesmo na minha. Das segundas intenções inocentes, da demora constante para cruzar a linha, para abaixar aquele jeans. Ultimamente a cena lésbica paulistana era uma baixaria desmedida. Ou talvez fosse a minha idade. Dificilmente saía com alguma garota duas ou três vezes sem acabar na cama – não por pressa, só por facilidade. Os vinte e poucos anos nos levam a ter nosso próprio cafofo e certas liberdades das quais não pudemos desfrutar na adolescência. Não era ruim. Não me entendam mal: eu semprei gostei de baixaria. Eu certamente fazia parte do grupo que não via sentido em esperar muito.

Mas com a Mia eu gostava.

Podia ficar horas ali, rolando com ela no tapete, que isso me divertia. Não achava ruim. É interessante como, com o tempo, a pessoa passa a se moldar em você. Eu percebia a Mia se sentindo progressivamente mais confortável comigo. E com a ideia de estar nos meus braços. Os seus quadris começavam a se soltar mais sob a minha mão, a se desatar daquele bloqueio, a se desprender de toda a situação absurda na qual nos encontrávamos e se desligar do resto do mundo. Ela ia se encaixando na minha pele, nas minhas curvas. As suas pernas e os fios do seu cabelo e a sua cintura e o restante do seu corpo inteiro. E aí, aos poucos, ela vinha. Vinha mais, sabe, mais perto. Mais do que nas outras vezes. E vinha mais certo, também, mais como deveria ir. E eu também ia – moldada nela –, sabendo mais sobre ela a cada segundo que se passava. A cada milímetro que percorria com os meus dedos e a minha boca. A conhecendo cada vez mais.

De um jeito ou de outro, as minhas one night stands de merda me tiravam um pouco aquilo. Aquela percepção mútua, aquela sintonia inevitável. E aquela adolescência toda me forçava a me envolver. Eram longas horas de chove-não-molha que me tiravam do sério. Caralho, viu. E quando quase choveu naquele tapete – claro – ela foi lá e cortou a água. Secou a fonte por um instante. Filha-da-puta. O pior é que eu gostava de sofrer. Quase não acreditei quando ela parou tudo, quando nos aproximávamos da melhor parte, e se levantou.

_O que você tá fazendo aí? – me contorci no tapete, já com saudade – Volta aqui...
_Vou desligar essa luz, meu, tá muito forte – ela caminhou até a televisão e a apagou – Estamos gastando energia.

Ah, você nem imagina..., eu fiquei, deitada no chão, olhando-a de volta com carinho. A Mia voltou na minha direção, rindo, despreocupada com o tempo juntas, como se tivéssemos a tarde toda.

_Ah! Posso pôr o CD? – ela disse – Eu queria ouvir...
_Claro que pode... – eu sorri, me esticando para pegá-lo a alguns centímetros de mim, jogado no tapete.
_E o que é?
_Põe e escuta, ué...
_Ui. Que misteriosa você... – zombou.
_Não é mistério, besta. Tem um bilhete explicando dentro!

Ela fez uma careta, sem gostar da minha resposta, fazendo graça. Pegou a capa das minhas mãos, tirando o disco, mas sem deixar sair o papel que estava dobrado ali. Colocou-o para tocar no rádio da sala, que ficava encostado contra uma das paredes, perpendicular à da televisão – a qual estávamos encarando de frente no tapete. O som começou a sair, alto, das duas caixas retangulares que acompanhavam o estéreo. E eu olhei a Mia, enquanto ela caminhava de volta, passo a passo, na minha direção. O ritmo a fez sorrir... e aí as palavras começaram a soar pela sala. Cantadas no rádio e, silenciosamente, nos meus lábios também.

"You are the girl that I've been dreaming of 
Ever since I was a little girl..."

setembro 18, 2010

The thrill of it all

Meus dedos deslizavam lentamente pela sua barriga, descoberta pelo moletom, entre a linha do seu jeans e poucos centímetros acima do umbigo. A Mia estava deitada, contra o mesmo tapete felpudo do quarto de televisão de semanas atrás, e eu a olhava, apoiada de lado. Observava o caminho das pontas dos meus dedos, tentando inutilmente não pensar besteira – enquanto ela me contava, distraída, sobre um trabalho que tinha que fazer para a faculdade.

O filme rodava na nossa frente, já completamente esquecido. Toda vez que eu me aproximava do plástico que cobria a sua nova tatuagem, do lado de lá da sua cintura, a Mia se esticava preguiçosamente e murmurava qualquer coisa do tipo “assim começa a coçar”. E aí continuava a falar, encarando o teto, e os meus dedos a obedeciam, caminhando sutilmente de volta. No decorrer da sua pele.

Foram deslizando até uma pintinha discreta alguns centímetros abaixo do seu umbigo. Senti a sua pele se arrepiar, sob meus dedos, e o mero pensamento do que podíamos fazer juntas, ali, me subiu à cabeça. Percorrendo minha coluna, minhas costas, minha nuca. Então tirei a mão rapidamente do fogo, como num reflexo. Não faz besteira, pensei, me precavendo contra a minha própria falta de auto-controle. Subi os olhos para o televisor e demorei uns três ou quatro segundos até entender o que se passava no filme, que eu já havia visto duas vezes no cinema.

Minha sorte é que o nosso gênero favorito também era, coincidentemente, o menos sugestivo possível e não inspira quaisquer pensamentos indecentes – me servindo como um balde de água fria toda vez que eu chegava perto de cruzar a linha daquele jeans.

_Olha essa cena, meu... – comentei empolgada com a Mia, que interrompeu na mesma hora o que estava dizendo para observar a movimentação na tela – ...é muito boa!
_O que eles estão fazendo?!
_Ela vai decidir ficar mais uma noite na casa.
_Eu não entendo quem escreve esses roteiros, quem em sã consciência decide ficar “mais uma noite” na casa? Não faz sentido!
_Faz, sim. Cê vai ver... Presta atenção na cara dela, mano, é genial. Tá quase no final!

Pude sentir a Mia segurando a respiração, enquanto seus olhos encaravam atentos o desenrolar da história que ela mais-ou-menos acompanhou. Escorreguei o braço pelo seu corpo, no mesmo trecho de pele descoberta que meus dedos passaram minutos percorrendo, e me aconcheguei abraçada à sua barriga, com a cabeça apoiada no seu ombro, para assistir o final.

Meus olhos, no entanto, estavam mais no rosto da Mia do que na tela.

A poucos segundos do final, quando o lençol já tinha sido arrancado e a garota puxada da cama – por forças malignas, claro –, seguindo-se a série de gritos de desespero, ali, à iminência de um desfecho brutal, a Mia se virou para mim. Ela segurou o meu rosto com a mão, como se não quisesse mais assistir, e a ponta do seu nariz encostou no meu. Estávamos bem perto uma da outra, deitadas no tapete. Os seus olhos se esconderam nos meus pouco antes do fim.

_Deu muito medo? – perguntei séria, baixinho.

Ela balançou a cabeça, como se dissesse que não, e se moveu na minha direção. Até seus lábios encostarem nos meus e abrirem minha boca para um beijo. Puxei-a para perto do meu corpo, mais ainda, a segurando firme, enquanto as suas mãos continuavam acariciando o meu rosto e me apertando na sua direção. A beijei de volta, com vontade, e nossos olhos não se abriram mais até o final dos créditos.

O que, convenhamos, foi bem melhor.

setembro 15, 2010

As boas intenções mal-interpretadas


_Ah, você trouxe minha camiseta? – a Mia sorriu, ao reconhecê-la na minha mão.

Rodávamos aleatoriamente pelos corredores da locadora, entre as fileiras intermináveis de DVDs. Se você soubesse o problema que esse maldito pedaço de pano me causou ontem, pensei comigo mesma e achei engraçado, com um humor ligeiramente masoquista. A pergunta havia sido retórica, mas ainda assim a encarei de volta, lá pela seção de desenhos animados, e confirmei com a cabeça.

_E esse CD aí, o que é?! – ela olhou rapidamente para a minha mão e depois continuou, sem dar-se conta, andando a alguns passos na minha frente.
_É o seu presente – respondi.
_Então quer dizer que existe mesmo um presente?! – a Mia parou e me olhou de volta, surpresa.
_Tem... – disse casualmente e peguei um dos encartes para olhar, logo colocando-o de volta na prateleira – ...por que?
_Ah, sei lá... – ela explicou, rindo – ...quando eu li a mensagem, eu pensei... – foi dando uns passos para trás, na direção da outra seção – ...que o presente era, tipo, você.

Não faz isso com o meu coração, garota. O meu rosto se iluminou involuntariamente. A Mia continuava falando mas, de repente, eu já não escutava direito. E essa vontade como fica, hein? De te agarrar aqui mesmo, eu a olhava, enquanto continuávamos caminhando pelos corredores vazios, conversando. Puta que pariu.

 _Não pensei que tinha realmente alguma outra coisa, sabe?! – ela prosseguiu se justificando e eu achei uma graça, ao ouvir de novo, sem conseguir conter mais um sorriso.
_Bom, não precisa falar duas vezes. Eu jogo isso fora e problema resolvido! – eu ri, fingindo que ia largá-lo no chão.
_Nããão! Eu quero ele! – ela contestou na mesma hora e tentou pegá-lo da minha mão.
_Não, não, não, não... – desviei dela, escondendo-o atrás de mim, entre o meu corpo e a prateleira, já toda imprestável e tirando sarro dela – ...eu gostei mais da sua ideia.
_Não foi minha ideia! Eu achei que você tivesse pensado isso!
_Eu?! – forcei um tom de indignada, rindo – você que pensa besteira aí e depois vem jogar para cima de mim... Eu não falei nada disso! Eu disse que tinha um presente. Pre-sen-te.
_É, mas eu achei que era só uma... – ela argumentava, enquanto tentava puxar meu braço de volta para frente, espiando o CD por cima do meu ombro – ...uma desculpa para... para...
_...para ver você? – eu ria, mais ainda, resistindo aos esforços dela – mas tá se achando, hein.
_Quer parar com essa de falar que eu tô me achando? De novo, meu?! – ela se fingiu de ofendida e eu continuei rindo, enquanto ela seguia tentando pegar o CD – Você é que se acha, para começo de conversa.
_Não o suficiente para me oferecer como presente de aniversário... Isso, assim, né, só na sua cabeça.
_Ai, pára! – ela riu, desistindo, e me olhou com os braços cruzados – Deixa eu ver, vai? Eu não sei nem o que tem aí, meu. Agora eu quero saber, poxa...
_Você vê na sua casa... – eu sorri, deixando a brincadeira de lado – Não é nada demais, é idiota.
_Eu tenho certeza que não é idiota – ela sorriu, de volta.
_É, sim. Bem besta. Já a sua ideia... – retomei, fazendo graça e me insinuando na sua direção.
_Pára, meu! – ela riu, revoltada, e me empurrou para trás.

A Mia se virou e continuou andando pela seção de filmes de ação. Dei uma corridinha para alcançá-la e coloquei meu braço sobre os seus ombros, dando-lhe um beijo na bochecha.

_E nós? Vamos alugar um filme ou não?
_Achei que você só queria devolver esses aí – indiquei, com o olhar, os DVDs que estavam na sua mão.
_Preciso devolver esses no caixa, mas se você não for fazer nada agora à tarde... Vamos ver um? Ou você tem outras coisas?
_Gata, eu sou toda sua – eu sorri para ela.

E sem combinar, nós duas seguimos automaticamente para a seção de terror e suspense. Eu ainda vou casar com essa mulher.

setembro 13, 2010

Ventando...

Joguei o cigarro ainda aceso na sarjeta, soltando o último lance de fumaça em direção ao céu cinzento. Eram duas e meia da tarde. Meti a mão no bolso da calça e pus-me a andar novamente. Devia ter trazido um casaco, me arrependi por um instante, enquanto caminhava contra o vento com os braços de fora, numa calçada fria de um dos bairros mais nobres da cidade.

A casa da Mia ficava na pior localização possível. Se fosse três ou quatro quadras mais para lá do que pra cá, dava para ir de metrô. Se fosse quatro ou cinco mais pra cá do que para lá, dava para ir a pé – mediante a uma certa disposição minha e, claro, uma bela colaboração climática. Mas não, tinha que ser bem ali, no único ponto que requer manobra em Higienópolis. Daqueles que só se chega bem de carro. Bem coisa de rico mesmo. Na pior porra de lugar possível. E sim, eu só digo isso por pura inveja da boa vizinhança, porque sou eu quem mora nas proximidades do “pior lugar possível” de verdade de São Paulo. Porém acessível, defendi mentalmente o meu próprio apartamento ao chegar ao meu destino, concluindo o pensamento iniciado no ponto de ônibus.

_Ela disse que vai descer... – o porteiro me avisou, simpático, e me deixou esperar do lado de lá do portão.

Acenei com a cabeça, em agradecimento, e entrei. Mantive uma das mãos no bolso, numa tentativa frustrada de me manter minimamente aquecida, enquanto olhava os canteiros de flores da entrada do edifício. Sem prestar realmente muita atenção. Na minha outra mão, estava a blusa da Mia, devidamente dobrada, e um CD. O meu cabelo provavelmente se encontrava naquele estado nada atraente pós-ventania e sei lá quantas quadras andadas desde o ponto, mas eu estava com frio demais nos dedos para me importar o suficiente. E afinal de contas, descabelar-se tem lá o seu apelo charmoso nos dias de hoje. Ou não, sei lá. Sei que quando dei por mim, a Mia já estava atravessando o pátio de entrada do prédio e eu sorri automaticamente.

_Você não está congelando, meu?! – ela riu, olhando para mim, afundada em um moletom cinza-claro com um cadarço de cada lado do capuz.
_Eu?!
_É, aí toda “verão” com essa blusa. Cê não tá com frio?!
_Pra caralho... – eu ri e ela achou graça, revirando os olhos para a minhas escolhas de roupa burras.
_Tá. Então desencana, acho que é melhor a gente subir...
_Desencana do quê?
_Ia falar para a gente passar na locadora, preciso devolver uns filmes e também queria comprar cigarro, mas você tá toda descoberta aí, meu. Vamos lá para cima e eu faço isso depois...
 _Não, mano, nada a ver... Vamos lá, eu vou com você, é de boa.
_Certeza?!
_Claro. Demorou...

Eu sorri para ela. E ela fez um sinal para o porteiro para que ele liberasse a porta da frente. A tranca estalou ao abrir e o portão rangeu ao puxarmos a grade, soando mais cansado do que velho. A Mia saiu primeiro e eu a segui, logo atrás. Na rua, começamos a andar lado a lado e o seu braço se enroscou no meu, me envolvendo naquele tecido fofo e confortável, quentinho contra a minha pele gelada.

A locadora não era longe, mas o vento estava impetuoso.

Foi só quando paramos no meio-fio para atravessar que eu a olhei com atenção, enquanto os seus olhos se distraíam com o movimento dos carros, na direção oposta à minha. Foi só então que notei o quão linda ela estava era. E o meu coração acelerou, enquanto tudo ao redor parecia mais lento. O frio lhe caía tão bem. O vento fazia com que o contorno das suas bochechas ganhassem tons rosados e os fios escuros do seu cabelo eram jogados contra o seu rosto. Aí se prendiam sutilmente à sua boca, entreaberta, até mudarem novamente de posição ou voarem para o outro lado, como se dançassem no ar. Observei-a, encantada, por o que me pareceu uma eternidade. Essa garota vai acabar comigo.

_Vem! Vem! Vem! – a Mia me apressou de repente e riu, desenrolando rapidamente o seu braço do meu assim que o trânsito liberou, e me puxou pela mão para cruzarmos a rua.

Perfeita oportunidade de beijo perdida. Droga.

setembro 10, 2010

Expectativa

As horas passaram voando, sentada em frente ao PC, tomada por uma energia repentina. Meu coração se ocupava em acalmar todos os impulsos rancorosos que corriam pelas minhas veias, enquanto a minha mente trabalhava compulsivamente, e eu... eu esquecia. Esquecia de todo aquele ciúme às cegas, aquela sensação de abandono, o não-comparecimento-cretino da Mia na noite passada. Se pensar bem, fui eu que não convidei, argumentava comigo mesma, assumindo a culpa. Afinal, nem eu e nem ela gozávamos realmente de plena consciência na hora do tal queria-que-você-viesse em que ela não foi. Como ela poderia saber? E que opção ela tinha? Eu me convencia e, vagarosamente, deixava para lá o tanto que eu tinha acordado magoada.

Que se dane a noite de ontem, pensei. Hoje, como diria o clichê dos clichês, hoje era outro dia – e eu estava absolutamente livre. Livre e focada, prestes a completar o que eu tão animadamente havia começado. Peguei o celular, ali no meio das minhas coisas, e pensei logo em ligar para ela. Não, não, é cedo demais, calculei ao olhar as 11:24 marcadas no relógio do computador. Mas queria falar, pegar embalo na minha empolgação – pouco comum naquela hora da “madrugada” e com aquele friozinho a quase-meio-dia. Mas me controlei: não. Não era hora de ficar ansiosa, não na iminência de um possível fora daqueles. Então, ao invés de chamar, decidi digitar.

“Ontem não te dei seu presente, meu... oq vc vai fazer dps da aula? ;) ps. como ta indo a tattoo nova aí?”. E esperei a resposta, sentada na cadeira, ainda com os pés sobre a mesa.

setembro 09, 2010

Ócio criativo


Mas não veio. Sei disso – não porque me lembro, mas – porque quando o frio me acordou e um sol gelado começava a fazer amanhecer do lado de fora, a Mia não estava lá. Não tinha ninguém ali comigo. A minha cama estava vazia – como sempre. E eu estava sozinha nos lençóis. A minha memória custava a recordar como eu havia chegado da porta até ali. Deve ter sido a bebida, pensei, ao abrir os olhos e sentir um enjôo horrível, afundada no meu próprio cabelo. O meu braço despencava do colchão, descoberto, e a minha cabeça parecia pesar mais do que o normal contra o travesseiro. Ressaca, argh.

Tinha preguiça de me mexer – o restante da cama não estava tão quente quanto o pedaço onde eu estava deitada e isso me tirava toda a coragem de sair dali. Despertar um músculo sequer parecia um esforço desnecessário. Mas ainda assim, me estiquei. Empurrei o corpo levemente para cima, apoiada no braço direito, e usei o outro para alcançar a coberta amassada ao pé da cama. Ô manhãzinha ingrata, resmunguei mentalmente, azeda. A lã estava gelada de tanto tempo jogada ali, às traças, mas só de cobrir aquele tanto de pele exposta de quem dormiu equivocadamente só de calcinha e com a janela aberta, ah, já me fez mais confortável. Me aconcheguei e fechei o olho por um instante.

Daí reabri, de repente.

Tive a impressão de que o “instante” – que era para ter durado dez segundos – tinha sido bem mais do que aquilo. Merda. Chutei as cobertas para baixo novamente, pulando apressada da cama. Argh, eu odiava levantar assim tão bruscamente. Ainda mais de ressaca e com a cabeça doendo. Mas saí do meio dos lençóis e corri para pegar meu celular no bolso da jaqueta, que continuava largada no chão, próxima à porta.

Bosta, xinguei para mim mesma ao ver as horas. Apoiei a testa contra a madeira do batente, apertando os meus olhos fechados, já sentindo uma preguiça descomunal do dia que mal havia começado. Devia ter saído vinte minutos antes para trabalhar e não estava sequer vestida. Que ótimo. Arrastei-me lentamente até o corredor, abrindo a porta, e fiquei parada por um tempo, observando o silêncio no apartamento. Então atravessei até o banheiro e escovei os dentes para tirar aquele gosto de vício da boca. Segui ignorando o meu atraso, me deixando tomar por aquele estado contemplativo melancólico de quarta-feira-de-manhã. Aquele cansaço desanimado – uma lentidão sem fim. Aí cheguei na cozinha e parei por alguns segundos em frente à geladeira. Até me decidir pelo ovo. Cura-ressaca: ovo mexido, colocado numa torrada e com uma fatia de queijo por cima. Anos de eficiência. Lá fora, o dia estava cinza – feio e escuro e bem paulistano. Ainda assim, eu me recusava a acender qualquer luz na casa e a interferir no meu mau-humor. Tinha dias em que fazia questão de meter o pé na fossa jaca. Peguei meu prato e levei-o para o quarto, sem qualquer senso de urgência por causa do atraso. Deixei o prato em cima da cama, enquanto me enfiava em um moletom-de-dormir.

Então decidi: não vou pro trampo.

Concluí que a desculpa até que colaria, considerando o quanto eu supostamente já não me sentia bem no dia anterior. Liguei e avisei. Que se dane. Terminei de comer. E aí... aí... Bom, aí o dia ficou livre, né. Droga. Eu tinha horas – horas e horas e horas – desocupadas pela frente e nem um maldito plano do que fazer senão me recordar de que continuava sozinha naquela porra de quarto. Sendo um fracasso ambulante. Para ajudar, a blusa da Mia continuava junto ao resto das outras coisas largadas no chão. Ali, paradinha, só incomodando. Que inferno. Tentei ignorá-la, enquanto ela me lembrava cruelmente com quem eu não havia dormido naquela noite, e pus-me a pensar no que fazer com o meu dia.

Tá. Sentada ali, sozinha na cama, não ia rolar. Levantei e liguei o computador. Meti o som no último volume, claro, na esperança de que aquilo ocupasse o cômodo vazio. A primeira música aleatória estava tocando quando comecei a rodar a minha playlist, atrás de algo que combinasse com o meu humor. Sabe-se-lá quantos GBs de obsessão musical; centenas de nomes pequenininhos correndo pela tela. E aí, como quem não estivesse procurando, achei a que eu havia perdido. A mesma da noite anterior. Coloquei os pés cruzados em cima da mesa e pus a faixa para tocar, satisfeita, me sentindo instantaneamente vingada.

Foi, então, que eu tive uma ideia de como aproveitar o meu tempo livre de forma mais produtiva – isto é, no sentido mais babaca e apaixonado da coisa.

setembro 05, 2010

Perdendo melodias

Apoiei a lateral do meu All Star direito na borda no meu tênis esquerdo. Aí deslizei meu pé para cima, enquanto empurrava a borracha para baixo, tirando-o, como se tropeçasse na minha própria lentidão enmaconhada. Mal havia entrado no quarto. Pisei de meia no chão e, em seguida, fiz o mesmo com o tênis direito. Minha mão continuava na maçaneta, segurando desajeitadamente a instabilidade embriagada do meu corpo.

Diferente da sala, o meu quarto estava em silêncio.

Me virei no escuro, ainda brisando com uma certa intensidade, e desabotoei a calça com gestos pesados. Qualquer movimento parecia me cansar, dada a lentidão com a qual o tempo se passava na minha cabeça. Minha mente, no entanto, estava vazia. Ocupada somente em terminar aquele lento despir e ir para a cama – mesmo que eu não estivesse, de fato, com o sono que eu havia há pouco declarado. Comecei a descer a calça pelas minhas pernas, me apoiando contra a porta, e larguei-a no chão, empurrando-a com o pé para o lado.

Não, não tinha sono. Não de verdade. Aquilo era rotina, automático. Deslizei o zíper da minha jaqueta para baixo, vagarosamente, até abri-la por completo. E aí deixei cair um dos lados, descobrindo o ombro esquerdo, para depois terminar de tirá-la pelo direito. Soltei-a também no chão. Preguiça de andar até o armário para jogar essas roupas. Em seguida, subi meus dedos pelas minhas coxas, sentindo-os ligeiramente gelados na minha pele, até encontrar a borda da blusa. Escorreguei o tecido corpo acima, passando pelo meu umbigo, depois o sutiã e aí o cabelo, que caiu no meu colo descoberto.

Foi, então, eu reparei: a blusa não era minha.

A ideia precisou de alguns segundos – parada ali encarando-a, estática, engasgada num raciocínio lento e distorcido – para enfim ser processada. Não é minha, pensei, levemente incomodada. Era dela. Era dela e estava ali, estava em mim o tempo todo, e eu havia esquecido. E agora não sabia o que fazer com ela.

Então, fiz o que não devia: deixei meus dedos se afundarem no tecido, involuntariamente, ao invés de largá-lo junto aos outros no chão. Deixei, deixei minha pele correr contra o algodão e puxei-a para perto de mim. A Mia. A blusa. E é, era idiota. Eu sabia disso – ou devia saber? –, mas não estava em condições de refltir sobre qualquer uma das minhas ações. Simplesmente continuei, dei trela para mim mesma e segui agindo como uma adolescente. Com o rosto enfiado no tecido, sentindo o cheiro dela.

Inferno. Sentei no chão, ainda no escuro, com as costas apoiadas contra a porta. Por que eu faço isso comigo mesma? Tinha chegado no ponto mais baixo que poderia chegar, sem saber direito o que pensar e segurando aqueles três palmos de pano contra o peito. Apegada, de um jeito bobo, à lembrança dela. Não estava realmente aborrecida. Não estava pensando em nada, aliás. As minhas mãos pareciam sentir o jeito da Mia no tecido, o seu toque. Como eu queria você aqui, garota. E me veio uma, uma “coisa”, sabe? Dentro de mim. Irracional. Talvez fosse o horário, não sei; talvez fosse só meu coração. Ou mais provavelmente, o tanto de bebida que eu havia bebido e o tanto de fumaça que eu havia fumado. Ou talvez fosse tudo junto e misturado. Sei lá. Mas o que ficou não era um sentimento ruim. Era estranho. Uma coisa meio conto-de-fadas, uma prepotência quase infantil. De que uma hora ela vinha. De que uma hora a porta abria. De que uma hora – por mágica – ela ainda mudava de ideia. E aparecia lá, passava a noite comigo. Não com ele, mas comigo. A Mia vinha e me beijava.

É. Talvez, pensei sem querer, talvez ela venha.

(...)

setembro 04, 2010

Crack in the sky


Pisquei e olhei de novo para frente. A Mia. A Mia continuava lá, exatamente onde eu a havia deixado, nem um milímetro sequer fora do lugar. Irracionalmente disponível para mim. E ah, como continuava linda. Tão linda. Mas eu já tinha piscado e isso eu não podia mais desfazer: não se desfaz consciência, não dá. Uma vez que a realidade volta, assim, em nuances bem menos admiráveis de cor, diante dos seus olhos, quem é que consegue voltar a sonhar com a porra do arco-íris? E eu nem queria, àquela altura. Sabia que as consequências não seriam nada agradáveis.

Isto é, caso eu continuasse na direção que estava indo – a dela.

Aquela parada brusca me rendeu uma dor de cabeça instantânea. Num susto, me movi automaticamente para trás. Mano, que perigo! Que perigo, repeti para mim mesma, conforme recuava inconformada, argh. Aqueles dois ou três minutos de inconsequência podiam ter se transformado numa verdadeira catástrofe. Ah, se podiam. Arqueei a sobrancelha sem muita coragem, espiando rapidamente por detrás da Mia, para checar o quanto o Fer havia visto de tudo aquilo – que não foi muito, tudo bem, mas que podia ter sido o suficiente.

Nada. Seus olhos estavam dispersos, em outra direção que não a nossa, vagando pelo teto, imersos nos versos que saíam da caixa de som. Oh you pretty things / Don’t you know you’re driving / Your mamas and papas insane?”. Observei-o deitado a poucos-centímetros-de-Mia de mim, com o pensamento longe. Eu, por outro lado, me encontrava mais ali do que em qualquer outro momento daquela meia hora ou sabe-se-lá há quanto tempo já estávamos largados ali. Provavelmente mais. Deitei com as costas novamente no chão e subi meus olhos para o mesmo teto que o meu melhor amigo contemplava. Suspirei. Entre nós dois, a garota que bagunçava todo o cômodo.

Escutei por um instante a canção que tocava na sala. “What are we coming to? No room for me, no fun for you”. Argh. Eu odiava ter que perder boas músicas.

_Eu... eu vou pro quarto – disse, interrompendo todo o clima e a brisa da sala de estar, olhando sem querer para a Mia, ao passo que me levantava ao lado deles.
_Quê? Agora?! – o Fer me encarou, sem entender – Mas você adora essa música!

Pois é. Advinha o que mais eu adoro nessa sala.

Respirei fundo. A Mia se ajeitava ao lado dele, desavidada e ainda meio fora de órbita, esticando os braços acima da cabeça, paralelos ao chão, como se num espreguiçar lento.

_Acho que não bateu muito legal, sei lá... tô cansada também.

Justifiquei já em pé, tentando não olhar tanto na direção da Mia, mas sem muito controle sobre os meus olhos – e o meu coração. O Fer me desejou boa noite, estranhando a situação. Me virei para juntar as minhas coisas, que ficaram largadas no sofá. Só então percebi o quão fora de mim eu ainda estava. Preciso parar com essas merdas, pensei. Em vão. “Em vão” porque, no fundo, eu gostava de daquelas merdas e sabia que não ia desencanar tão cedo. A questão é que: o problema, o problema mesmo, sempre está muito mais no seu estado de espírito do que nas substâncias que correm pelas suas veias. E o meu estado de espírito atual, bem, era um lixo.

Que seja. Terminei de enfiar nos bolsos da jaqueta todas as minhas chaves e o celular e o restante ainda espalhado sobre o sofá. Peguei meu lenço com a mão e resmunguei qualquer coisa ao cambalear, sem muita estabilidade, fazendo uma meia-volta em direção ao corredor. Por fim, consegui andar direito. E conforme o atravessava, correndo lentamente a ponta dos meus dedos por uma das paredes, ouvia a voz do Bowie diminuindo... progressivamente... até desaparecer por completo com o fechar da porta do meu quarto.

Droga, eu realmente gostava dessa música, pensei, fechando a maçaneta.