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setembro 26, 2010

No rádio

(...)

One!
You're biting my tongue.
Two!
I'm kissin' on you.
Three!
Is he better than me?
 

One!
Two!
Three!
Four!

The word's on the streets and it's on the news:
I'm not gonna teach him how to dance with you.
He's got two left feet and he bites my moves!
I'm not gonna teach him how to...

Dance... dance... dance... dance...


*(créditos pela sugestão de trilha sonora ao Fuck Art, Let’s Dance! do Seje Menas.)

Conceito

_Quem está cantando? – a Mia sorriu, sentando no meu colo, com uma perna de cada lado do meu corpo.
_Uma banda indie pra caralho... – eu ri, olhando-a, ainda deitada no tapete – chama Black Kids.
_Hm, e o CD é deles?
_Não, o CD é seu.
_É meu?! – ela sorriu – mas o que mais tem nele?
_Por que... – eu levantei metade do corpo, indignada, me apoiando nos cotovelos e com as mãos acidentalmente largadas nas coxas da Mia – ...você não lê o bilhete?! Eu expliquei todo o conceito lá. E tem a tracklist, né.
_Prefiro ouvir você explicando...
_Ahm... Faz sentido... – eu ri.
_Então? – ela me olhava, curiosa, impaciente.
_É uma compilação de músicas – deixei os cotovelos escorregarem, me dando por vencida, e deitei de novo no tapete; sem tirar os olhos e as mãos dela, no entanto – de todas as músicas que eu perdi para você.
_“Perdeu”?!
_É.
_Como assim “perdeu”?!
_Ah, sei lá... Um bando de músicas que eu gostava antes e que agora só me fazem pensar em você. As que ouvi quando a gente estava junta também. Ou as que deixei de ouvir por sua causa. Literalmente, digo. No sentido de me ver obrigada a sair da sala ou de onde quer que eu estivesse, justo quando a minha música favorita começou.
_Mas sair por quê? – ela parecia genuinamente chateada com o fato de eu ter perdido alguma faixa que eu gostava, alguma vez na vida, e eu me encantei com o quanto esse tipo de coisa também era relevante para ela, quer dizer, aquela valorização acima do normal de determinadas músicas.
_Porque... ah, sei lá – respondi, sem intenção de fazê-la sentir-se mal com aquilo, mas a Mia me olhou insatisfeita, então continuei – é que... às vezes... às vezes, é difícil ficar perto de você. Ou do Fer, não sei... – tentei me explicar e consertar, para não soar dramática demais – tipo, não é como se fosse realmente um problema, mas... é só que... quando é assim eu prefiro simplesmente sair, sabe? É mais fácil... – ela me observava apreensiva e eu sorri, propositalmente, para quebrar aquele clima idiota que eu havia começado... eu e a minha boca grande demais, né – não é grande coisa, meu... só um Bowie ou outro sacrificado... de vez em quando.
_Mas é o Bowie, porra! – ela riu.
_Ok... é, é grande coisa – eu ri também, admitindo.
_Meu, eu acho que eu te mataria se você me fizesse perder... sei lá... Distillers ou, tipo... Misfits.
_Eu jamais faria você perder Misfits... – eu ri, de novo, e me aproximei um pouco dela, apoiada novamente nos cotovelos – ...isso já é pecado.
muito pecado. Eu diria até imperdoável! – ela riu junto, chegando inconscientemente mais perto de mim também – e foi o Bowie, meu. O Bowie e você têm uma história...
_...ah, lá das antigas...
_...é! – ela sorriu, ainda olhando nos meus olhos – nossa, preciso muito te compensar pela sua perda. Muito.
_Olha, eu gosto dessa idéia, viu... – eu ri mais uma vez, subindo minhas mãos pela sua coxa, e senti seu corpo inclinando-se na minha direção.

setembro 21, 2010

Percepção

Minha perna se encaixou entre as da Mia; os fios do seu cabelo moreno entre os meus dedos; o corpo dela contra a minha respiração; a minha língua pela sua; a sua boca deslizando pela minha; e a minha mão por baixo do seu moletom, apertando  a sua cintura, sentindo a sugestividade das suas curvas... enquanto a tela gritava silenciosamente, azul e brilhante, há minutos. A luz do televisor invadia o quarto escuro de um jeito grosseiro, cortando o clima sutil dos meio-tons vindos das cortinas e o conforto de tapetes felpudos, indicando o término do DVD e demandando alguma atitude nossa. E nós ignorávamos, é claro. De olhos fechados, para lá e para cá, fingindo não nos dar conta. Dançando pelo chão, rindo e não prestando.

Tudo com a Mia era muito adolescente, mas de um jeito bom. "Bom" porque eu gostava... dos beijos intermináveis e escondidos, do que era só nosso, do que ninguém via, na casa dos pais dela ou mesmo na minha. Das segundas intenções inocentes, da demora constante para cruzar a linha, para abaixar aquele jeans. Ultimamente, a cena lésbica paulistana se resumia a uma baixaria desmedida - da qual eu sempre gostei, não me entendam mal: qualquer outra garota que desse uma de Mia para mim, não teria a menor chance. Eu levantaria e iria embora assim que minha paciência se esgotasse. E ela ia, sim, se esgotar. Mas eu gostava... com a Mia eu gostava. Podia ficar horas ali, rolando com ela no tapete, me divertia. 
 
Não achava ruim, pelo contrário. É interessante como, com o tempo, a pessoa passa a se moldar em você. Eu percebia a Mia se sentindo confortável, progressivamente, comigo (de fato comigo) ou com a idéia de mim. Os seus quadris começavam a se soltar sob a pele da minha mão, a se desamarrar daquele bloqueio incômodo, a se desprender daquela situação absurda na qual nos encontrávamos, a se desligar do resto do mundo, e a se encaixar nas minhas curvas. Junto com as pernas e os fios do seu cabelo e a cintura e o restante do corpo inteiro, como eu disse antes. E aí, aos poucos, ela vinha. Vinha mais, sabe... mais perto. Mais do que nas outras vezes. E vinha mais certo, também, mais como deveria ir. E eu ia moldada nela - sabendo mais a cada segundo, a cada milímetro. Adquirindo conhecimento "dela".

De um jeito ou de outro, minhas one night stands de merda me tiravam um pouco aquilo. Aquela percepção mútua inevitável. Culpa daquela adolescência toda, da prática incessante. Das longas horas de chove-não-molha que me tiravam do sério. Caralho, viu... E quando quase choveu, claro, ela foi lá e cortou a água. Filha-da-puta. (E o pior é que eu gostava... de sofrer). Mas foi, foi lá e desligou, secou a fonte por um instante, e levantou para ir desligar a luz forte que vinha da televisão. Rindo, despreocupada com o tempo juntas como se tivéssemos a tarde toda, reclamando que estávamos lá gastando energia - ah, você nem imagina...  - e eu fiquei, deitada no chão, olhando-a com carinho de volta.

_Não quer pôr o CD? - ela disse - eu queria ouvir... pode?!
_Claro que pode... - eu ri, me esticando para pegá-lo a alguns centímetros de mim, jogado no tapete.
_E o que é?
_Põe e escuta, ué... Tem um bilhete explicando dentro.

Ela fez uma careta, sem gostar da resposta, fazendo graça. Pegou a capa das minhas mãos, tirando o disco, mas sem deixar sair o papel que estava dobrado ali. Aí colocou-o no rádio da sala, que ficava encostado contra uma das paredes perpendiculares à da televisão, a qual estávamos encarando de frente no tapete. O som começou a sair, alto, das duas caixas retangulares que acompanhavam o estéreo. E eu olhei a Mia, enquanto ela caminhava de volta, passo a passo, na minha direção. O ritmo a fez sorrir... e aí as palavras começaram a soar pela sala. Cantadas no rádio e, silenciosamente, nos meus lábios também... enquanto meus olhos se voltaram para o teto acima do meu corpo, viajando na melodia, despreocupados com a reação da Mia.

"You are the girl that I've been dreaming of 
Ever since I was a little girl..." ♫

setembro 18, 2010

The thrill of it all

Meus dedos andavam lentamente pela sua barriga, descoberta sem querer pelo moletom, entre a linha do seu jeans e poucos centímetros acima do umbigo. A Mia estava deitada, contra o mesmo tapete felpudo do quarto de televisão de semanas atrás, e eu a olhava apoiada de lado. Observava o caminho das pontas dos meus dedos, tentando inutilmente não pensar besteira, enquanto ela me contava distraída sobre um trabalho que tinha que fazer para a faculdade.

O filme rodava na nossa frente, já completamente esquecido. Toda vez que eu me aproximava do plástico que cobria a sua nova tatuagem, do lado de lá da sua cintura, a Mia se esticava preguiçosamente e murmurava qualquer sobre “assim começa a coçar”. E aí continuava a falar, encarando o teto, e dois dos meus dedos obedeciam, caminhando sutilmente de volta... pela Mia... até uma pintinha discreta alguns centímetros abaixo do seu umbigo.

Senti sua pele se arrepiar, sob meus dedos, e o mero pensamento me subiu à cabeça violentamente. Percorrendo minha coluna, minhas costas, minha nuca... e tirei a mão rapidamente do fogo, como num reflexo. Você vai fazer besteira, pensei, me precavendo contra a minha própria falta de auto-controle. Subi, então, os olhos para o televisor e demorei uns três ou quatro segundos até entender o que se passava no filme, que eu já havia visto duas vezes no cinema. Minha sorte é que o nosso gênero favorito também é, coincidentemente, o menos sugestivo possível e não inspira quaisquer pensamentos indecentes - me servindo como um balde de água fria toda vez que eu chegava perto de cruzar a linha daquele jeans.

_Olha essa cena, meu... é muito boa – comentei empolgada com a Mia, que interrompeu na mesma hora o que estava dizendo para observar a movimentação na tela.
_O que eles estão fazendo?!
_Ela vai decidir ficar mais uma noite na casa. Tá quase no final. Presta atenção na cara dela, mano... é genial.

Pude sentir a Mia segurando a respiração, enquanto seus olhos encaravam atentos o desenrolar da história que ela mais-ou-menos acompanhou. Escorreguei o braço pelo seu corpo, no mesmo trecho de pele descoberta que meus dedos passaram minutos percorrendo, e me aconcheguei abraçada à sua barriga com a cabeça apoiada no seu ombro, para assistir ao final.

Meus olhos, no entanto, estavam mais no rosto da Mia do que na tela. Eu gostava de mulheres que não se intimidavam por filmes de terror – pois mesmo que as mais medrosas sejam alvos mais fáceis numa sala de cinema, do ponto de vista imprestável, eram as garotas como a Mia que me realmente impressionavam. E com quem eu tinha sempre assunto, uma vez que todo o susto acabava.

No entanto, não foi assim. Não como eu esperava - apesar de já ter visto a cena, over and over. A poucos segundos do final, quando o lençol já tinha sido arrancado e a garota puxada da cama – por forças malignas, é claro –, seguindo-se a série de gritos de desespero... ali, à iminência de um desfecho brutal: a Mia se virou para mim. E aí me virou para ela, direcionando meu rosto com a sua mão, como se não quisesse mais assistir. A ponta do seu nariz encostou no meu, estávamos deitadas próximas demais no tapete, e seus olhos se esconderam nos meus pouco antes do fim.

_Ficou com medo? – perguntei séria, baixinho.

Ela balançou a cabeça, como se dissesse que não, e se moveu na minha direção. Até seus lábios encostarem nos meus e abrirem minha boca para um começo de beijo. Puxei-a para perto do meu corpo, mais ainda, com certa força, enquanto suas mãos continuavam segurando o meu rosto e me apertando na sua direção. A beijei de volta, com vontade, e nossos olhos não se abriram mais até o final dos créditos - o que, convenhamos, foi bem melhor.

setembro 15, 2010

As boas intenções mal-interpretadas

_Ah, você trouxe minha camiseta! – a Mia sorriu, ao reconhecê-la na minha mão, enquanto rodávamos aleatoriamente entre as fileiras intermináveis de DVDs, pelos corredores da locadora.

HÁ, se você soubesse o problema que esse maldito pedaço de pano me causou ontem..., pensei comigo mesma e achei engraçado, sabe-se-lá porque, de um jeito certamente masoquista. A pergunta havia sido retórica, mas ainda assim a encarei de volta, lá pela seção de desenhos animados, e confirmei com a cabeça.

_E esse CD aí... o que é, hum?! – ela disse e olhou-o rapidamente, andando a alguns passos na minha frente.
_É o seu presente – respondi, enquanto pegava um dos encartes para ver, meio a esmo, sem saber bem por que.
_Então quer dizer que existe mesmo um presente?! – a Mia pareceu surpresa, de forma positiva; e se aproximou, como quem não quer nada, para espiar o filme que eu estava vendo.
_Tem... – eu coloquei-o de volta na prateleira e estranhei a pergunta – ...por que?
_Ah, sei lá, quando eu li a mensagem eu pensei... – ela explicou enquanto dava alguns passos para trás, como se sugerisse que continuássemos para a próxima seção, mas ainda de frente para mim, me observando – ...que o presente era, tipo, você.

Ô, meu deus... Meu rosto se iluminou involuntariamente, como se eu não pudesse evitar. Ela falava mas, de repente, eu não escutava direito. E essa vontade, hein? De te agarrar aqui mesmo..., eu a olhava, enquanto continuávamos caminhando pelos corredores vazios, conversando. Puta que pariu, viu.

 _Não pensei que tinha... realmente... alguma outra coisa, sabe?! – ela prosseguiu se justificando e eu achei uma graça, ao ouvir de novo, sem conseguir conter mais um sorriso.
_Bom, não precisa falar duas vezes. Eu jogo isso fora e problema resolvido! – eu ri, fingindo que ia largá-lo no chão.
_Nããão! Eu quero ele! – ela reclamou, manhosa, e tentou pegá-lo da minha mão, a fim de garantir que o receberia.
_Não, não, não, não... – desviei dela, escondendo-o atrás de mim, entre o meu corpo e a prateleira, já toda imprestável e tirando sarro dela – ...eu gostei mais da sua idéia.
_Não foi minha idéia! Eu achei que você tivesse pensado isso!
_Eu?! – forcei um tom de indignada, rindo – você que pensa besteira aí e depois vem botar para cima de mim... eu não falei nada disso! Eu disse que tinha um pre-sen-te.
_É, mas eu achei que era só uma desculpa para... – ela argumentava, enquanto tentava puxar meu braço de volta para frente, espiando o CD por cima pelo lado do meu ombro.
_...para ver você? – eu ria, mais ainda, resistindo aos esforços dela – mas tá se achando, hein.
_Quer parar com essa de falar que eu tô me achando? De novo, meu?! – ela se fingiu de ofendida e eu continuei rindo, enquanto ela seguia tentando pegar o CD – é você que se acha, para começo de conversa.
_Não o suficiente para me oferecer como presente de aniversário... Isso, assim, só na sua cabeça.
_Ai, pára! – ela riu, desistindo, e me olhou com os braços cruzados – deixa eu ver, vai? Eu não sei nem o que tem aí, meu. Agora eu quero saber, poxa...
_Você vê na sua casa... não é nada demais, é idiota – eu sorri, deixando a brincadeira de lado.
_Tá – ela concordou, satisfeita.
_Já a sua idéia... – retomei, fazendo graça de novo.
_Pára, meu! – ela riu, revoltada – e nós, vamos alugar um filme ou não? Preciso devolver esses lá no caixa, mas vamos ver um?
_Vamos, vamos... – eu ri junto.

E, sem combinar, nós duas seguimos automaticamente para a seção de terror/suspense/thrillers. Of fuckin’ course.

setembro 13, 2010

Ventando...

Joguei o cigarro ainda aceso na sarjeta, soltando meu último lance de fumaça num céu cinzento das duas e meia da tarde e meti a mão no bolso da calça. Pus-me a andar novamente. Devia ter trazido um casaco, pensei por um momento, enquanto caminhava de braços de fora contra o vento numa calçada fria de um dos bairros mais nobres da cidade.

Ahh... Se a casa da Mia fosse três ou quatro quadras mais para lá do que pra cá, dava para ir de metrô. Se fosse quatro ou cinco mais pra cá do que para lá, dava para ir a pé – mediante a uma certa disposição minha e, claro, aquela bela colaboração climática. Mas, não, ela tinha que ser bem ali, no único ponto que requer manobra em Higienópolis. Na pior porra de lugar possível – e eu só digo isso por pura inveja da boa vizinhança, porque sou eu quem mora nas proximidades do “pior lugar possível” de verdade de São Paulo. Porém acessível, defendi meu próprio apartamento mentalmente ao chegar ao meu destino, concluindo o pensamento iniciado no ponto de ônibus.

_Ela disse que vai descer... – o porteiro me avisou, simpático, e me deixou esperar do lado de lá do portão.

Acenei em agradecimento com a cabeça e entrei. Mantive uma das mãos no bolso, numa tentativa frustrada de me manter minimamente aquecida, enquanto olhava os canteiros de flores da entrada do edifício. Isto é, sem prestar realmente muita atenção. Na minha outra mão, estava a blusa da Mia, dobrada, e um CD. Já o meu cabelo provavelmente se encontrava naquele estado nada atraente pós-ventania, mas eu estava com frio demais nos dedos para me importar o suficiente com aquilo. E, afinal de contas, descabelar-se tem lá o seu apelo charmoso nos dias de hoje... ou não. Ah, sei lá. Sei que quando dei por mim, a Mia já estava atravessando o pátio de entrada do prédio e eu sorri, automaticamente.

_Você não está congelando, meu?! – ela riu olhando para mim, ao se aproximar, afundada em um moletom cinza-claro com um cadarço de cada lado e dois pompons pretinhos na ponta.
_Eu?!
_É, aí toda “verão” com essa blusa... não tá com frio?!
_Pra caralho... – eu ri junto e ela achou graça, revirando os olhos.
_Ah, mas então desencana, é melhor a gente subir.
_Desencana do que? – perguntei.
_Ia falar para a gente passar na locadora, preciso devolver uns filmes e também queria comprar cigarro, mas você tá toda descoberta aí, meu. Vamos para cima, eu faço isso depois...
 _Não, mano, nada a ver... Vamos lá, eu vou com você, é de boa.
_Certeza?!
_Demorou... – eu sorri para ela e ela fez um sinal para o porteiro para ele liberar a porta da frente.

A tranca estalou ao abrir e o portão rangeu brevemente ao puxarmos a grade, soando mais cansado do que velho.  A Mia saiu primeiro e eu a segui, logo atrás. Na rua, no entanto, começamos a andar lado a lado e o seu braço se enroscou no meu, deslizando aquele tecido fofo e confortável, quentinho, na minha pele gelada. A locadora não era longe, mas o vento estava incessante.

Foi só quando paramos no meio-fio para atravessar que eu a olhei com atenção, enquanto os seus olhos se distraíam com o movimento dos carros na direção oposta da minha, e então notei o quão linda ela estava era. De certa forma, o frio lhe caía tão, tão... bem. A sua pele ficava bonita, parecia mais pálida ainda – com exceção do contorno das suas bochechas, que ganhavam tons rosados com o vento – e os fios escuros do seu cabelo eram jogados contra o seu rosto, enfatizando o contraste por milésimos de segundo. Até mudarem novamente de posição ou voarem para o outro lado, como se dançassem. Observei-a encantada por o que me pareceu uma eternidade, ali, de perto.

_Vem, vem, vem... – ela me apressou de repente e riu, desenrolando rapidamente o seu braço do meu assim que o trânsito liberou, e me puxou pela mão para cruzarmos a rua.

Perfeita oportunidade de beijo perdida. Droga.

setembro 10, 2010

Expectativa

As horas passaram voando, sentada em frente ao PC, tomada por uma energia repentina. Meu coração se ocupava em acalmar todos os impulsos mesquinhos que corriam pelas minhas veias, enquanto minha mente trabalhava compulsivamente, e eu... eu esquecia. Esquecia de todo aquele ciúme às cegas; aquela sensação injustificada de abandono; aquele não-comparecimento-cretino que, é, era conseqüente da óbvia falta-de-convite. Ou de percepção, não é... afinal... nem eu e nem ela gozávamos realmente de plena consciência na hora do tal queria-que-você-viesse em que ela não foi. E aí eu deixava para lá, vagarosamente, o tanto que eu havia acordado magoada.


Que se dane ontem, pensei, enfim. Hoje... Hoje, como diria o clichê dos clichês, hoje era outro dia – e eu estava absolutamente livre. E focada; prestes a completar o que eu tão animadamente havia começado. Peguei, então, o celular ali no meio das minhas coisas e pensei logo em chamar. Não, não, ainda é cedo, calculei ao olhar as 11:24 marcadas no relógio do computador. Mas queria falar, sei lá, queria pegar embalo na minha empolgação – que não era muito comum naquela hora da “madrugada”, naquele friozinho em pleno quase-meio-dia. Todavia me controlei. Não. Não era hora de ficar ansiosa, não na iminência de um possível fora daqueles. Então, eu simplesmente digitei.

“Ontem não te dei seu presente, meu... oq vc vai fazer dps da aula? ;) ps. como ta indo a tattoo, hm?”. E esperei a resposta, sentada na cadeira, ainda com os pés sobre a mesa.

setembro 09, 2010

Ócio criativo

Mas não veio. E eu sei disso não porque me lembro, mas porque quando o frio me acordou e o sol já começava a amanhecer – gelado – do lado de fora, ela não estava lá. Minha cama estava vazia, como sempre esteve. E minha memória custava a me esclarecer como eu havia chegado ali. Deve ter sido a bebida, pensei ao abrir os olhos, afundada no meu próprio cabelo. Meu braço despencava, descoberto, do colchão e a minha cabeça parecia pesar mais do que o normal contra o travesseiro. Ressaca, sei lá. Tinha preguiça de me mexer, o restante não-ocupado da cama não estava tão quente quanto onde eu me encontrava e isso me tirava toda a coragem de me mover, de despertar um músculo sequer.

Ainda assim, me estiquei. Empurrei o corpo levemente para cima, apoiada no braço direito, e usei o que estava caído para alcançar a coberta amassada ao pé da cama. Puta manhã ingrata, resmunguei azeda. A lã estava gelada – de tanto tempo jogada ali, abandonada –, mas só de cobrir aquele tanto de pele exposta, de quem dormiu de calcinha e sutiã com a janela aberta, já me fez mais confortável.  Me aconcheguei e fechei o olho, por um instante.

Daí reabri, de repente.

Tive a impressão de que o “instante”, pressuposto em dez segundos, havia sido bem mais do que aquilo. Ou do que me pareceu. Chutei as cobertas para baixo novamente, pulando apressada da cama – eu odiava levantar assim bruscamente, ainda mais de ressaca e com a cabeça doendo – e corri para pegar meu celular no bolso da jaqueta, que continuava largada no chão, próxima à porta.

Merda, xinguei para mim mesma, ao ver as horas. Apoiei a testa contra a madeira do batente, apertando os meus olhos fechados, já com preguiça de um dia que mal havia começado. Devia ter saído há vinte minutos para trabalhar. Que ótimo. Arrastei-me lentamente até o corredor, abrindo a porta, e fiquei parada por um tempo, observando o silêncio no apartamento. Atravessei, depois, até o banheiro e escovei os dentes, para tirar aquele gosto de vício da boca. Segui ignorando o meu atraso, me deixei tomar por aquele estado contemplativo melancólico de quarta-feira-de-manhã, aquele cansaço desanimado, uma lentidão sem fim.

Cheguei na cozinha. Aí parei, por alguns segundos, em frente à geladeira... até me decidir pelo ovo. Cura-ressaca. Ovo mexido, colocado numa torrada, com uma fatia de queijo por cima – anos de eficiência. Lá fora, o dia estava cinza. Feio e escuro, bem paulistano – mas ainda assim eu me recusava a acender qualquer luz na casa, insistindo no meu mau-humor. Peguei meu prato e levei-o para o quarto, deixando-o em cima da cama, enquanto me enfiava em um moletom-de-dormir.

Não vou pro trampo, decidi para mim mesma. E a desculpa até colava, considerando o quanto eu supostamente já não me sentia bem no dia anterior... Então, liguei lá e avisei. Que se dane. E, depois, terminei de comer. E aí... aí... Bom, aí o dia ficou livre...

Ai, droga.

Parei e pensei: mil vezes droga. Eu tinha horas – horas e horas! – desocupadas pela frente e nem um maldito plano do que fazer. E, para ajudar, a blusa da Mia continuava junto ao resto das outras coisas largadas no chão. Ali, quietinha, só incomodando. Que inferno. Tentei ignorá-la, enquanto ela me lembrava cruelmente de com quem eu não havia dormido naquela noite, e pus-me a pensar no que fazer com o meu dia... mas decidi que ali, sentada sozinha na cama, não dava. Então, liguei o computador. E meti o som no último volume, claro.

Conforme a primeira música aleatória rolava, comecei a rodar a minha playlist, atrás de algo que combinasse com o meu humor. Sabe-se-lá quantos GBs de obsessão musical; centenas de nomes pequenininhos correndo pela tela. E aí, como quem não estivesse procurando, achei a que eu havia perdido. A mesma noite anterior. Ahh, doce vingança. Coloquei os pés cruzados em cima da mesa e a faixa para tocar, satisfeita, me sentindo instantaneamente melhor.

Foi, então, que eu tive uma idéia – no sentido mais babaca e apaixonado da coisa – de como aproveitar o meu tempo livre. Isto é, de forma mais, hmm... produtiva.

setembro 05, 2010

Perdendo melodias

Apoiei a lateral do meu All Star direito na borda no meu tênis esquerdo. Aí deslizei meu pé para cima, enquanto empurrava a borracha para baixo, tirando-o como se tropeçasse na minha própria lentidão enmaconhada. Mal havia entrado no quarto. Pisei de meia no chão e, em seguida, fiz o mesmo com o outro lado. Minha mão continuava na maçaneta, segurando desajeitadamente a instabilidade embriagada do meu corpo.

Ao contrário da sala, o meu quarto estava em silêncio. Me virei no escuro, ainda brisando com uma certa intensidade, e desabotoei a calça com gestos pesados. Qualquer movimento parecia me cansar, dada a lentidão com a qual o tempo se passava na minha cabeça. Minha mente, no entanto, estava vazia. Ocupada somente em terminar a tarefa e ir para a cama – mesmo que eu não estivesse, de fato, com o sono que eu havia há pouco declarado. Comecei a descer a calça pelas minhas pernas, me apoiando contra a porta, e larguei-a no chão, empurrando-a com o pé para o lado.

Não, não tinha sono... não de verdade. Aquilo era rotina, automático. Deslizei o zíper da minha jaqueta para baixo, ociosamente, até abri-la por completo. E aí deixei cair um dos lados, descobrindo o ombro esquerdo, para depois terminar de tirá-la pelo direito. Então, soltei-a também no chão. Preguiça de andar até o armário, no fundo. E era mesmo. Subi (em seguida) meus dedos pela minha pele, sentindo-os ligeiramente gelados, até encontrar a borda da blusa. Aí escorreguei o tecido corpo acima... passando pelo meu umbigo... depois o sutiã... e aí o cabelo, que caiu no meu colo descoberto.

Foi, então, que... foi, então, que eu reparei. Que, não, a blusa não era minha. E, olha, a idéia precisou de alguns segundos – estáticos, parada ali encarando-a, tomada por um raciocínio lento e distorcido – para enfim ser processada. Não é minha, pensei, levemente incomodada... não é minha. Era dela. Era dela e estava ali, estava em mim, o tempo todo, e eu havia esquecido.

...e agora não sabia o que fazer com ela.

Então, fiz o que não queria. Justamente o que não deveria ter feito, é claro. Deixei meus dedos se afundarem no tecido, involuntariamente, ao invés de largá-lo junto aos outros no chão. Deixei, deixei minha pele correr contra o algodão e puxei-a para perto de mim. A Mia... a blusa. E, é, era idiota. Eu sabia disso – ou deveria saber –, mas não estava em condições de julgar qualquer uma das minhas ações. Simplesmente continuei, dei trela para mim mesma e segui agindo como uma adolescente.

Como se aquilo me derrubasse, minhas costas deslizaram pela porta, vagarosamente. Cheguei ao ponto mais baixo que poderia chegar e sentei ali, sem saber direito o que pensar, segurando aqueles três palmos de pano contra o peito. Apegada, de um jeito bobo. Não estava realmente deprimida, não estava aborrecida. Não estava pensando em nada. O problema era só aquela... aquela “coisa”, sabe... dentro de mim.

Talvez fosse o horário, não sei; talvez fosse só meu coração. Ou, mais provavelmente, o tanto de bebida que eu havia bebido e o tanto de fumaça que eu havia fumado. Ou talvez fosse tudo. Sei lá. Mas o que ficou em mim não era um sentimento ruim, era só irracional. Uma coisa meio conto-de-fadas, uma prepotência quase infantil. De que uma hora ela vinha. De que uma hora a porta abria. De que uma hora, por mágica, ela ainda mudava de idéia. E aparecia lá, sabe, passava a noite comigo. Não com ele, mas comigo. É. Talvez..., pensei sem querer, talvez ela venha.

(...)

setembro 04, 2010

Crack in the sky

Pisquei e olhei de novo. A Mia... A Mia continuava lá, exatamente onde eu a havia deixado, nem um milímetro que seja fora do lugar. Irracionalmente disponível para mim. E, ah, continuava linda. Tão linda. Pisquei, no entanto, e isso eu não podia mais desfazer. Não se desfaz consciência, não dá. Uma vez que a realidade volta, assim, em nuances bem menos admiráveis de cor, diante dos seus olhos... quem consegue tornar a sonhar com a porra do arco-íris?!

E nem eu queria, àquela altura, pois sabia que as conseqüências seriam bem menos agradáveis. Isto é, caso eu continuasse na direção que estava indo – a dela. E a parada brusca me rendeu uma dor de cabeça instantânea, como eu disse. Num susto, me movi automaticamente para trás. Que perigo, mano, que perigo, eu repetia para mim mesma, conforme recuava inconformada. Aqueles dois ou três minutos de inconseqüência poderiam ter se transformado numa verdadeira catástrofe... ah, se podiam.

Arqueei a sobrancelha sem muita coragem, espiando rapidamente por detrás da Mia, para checar o quanto o Fer havia visto de tudo aquilo – daquilo, que não foi muito, mas que poderia ter sido o suficiente. Nada. Seus olhos estavam dispersos, em outra direção que não a nossa, vagando pelo teto, imersos nos versos que saíam da caixa de som. Oh you pretty things / Don’t you know you’re driving / Your mamas and papas insane?”. Observei-o deitado a poucos-centímetros-de-Mia de mim, com o pensamento longe. Eu, por outro lado, me encontrava mais “ali” do que em qualquer outro minuto daquela meia hora ou sabe-se-lá há quanto tempo já estávamos largados ali. Provavelmente mais.

Deitei com as costas novamente no chão e subi meus olhos para o mesmo teto que meu melhor amigo contemplava naquele momento. Suspirei. Entre nós dois, a garota que bagunçava todo o cômodo. “What are we coming to?”, lembrei por um instante da canção que tocava no shuffle, “no room for me, no fun for you”. Argh. Eu odiava ter que perder boas músicas para situações assim.

_Eu... eu vou pro quarto – disse, interrompendo todo o clima e a brisa da sala de estar, olhando sem querer para a Mia ao passo que me levantava em pé ao lado deles.
_Agora?! – o Fer me viu, sem entender, achando estranho – mas você adora essa música, meu!

É. Advinha o que mais eu adoro nessa sala..., respirei fundo, conforme a Mia se ajeitava desavisada ao lado dele, ainda meio fora de órbita, e esticava os braços acima da cabeça, paralelos ao chão, como se num espreguiçar lento.

_Acho que não bateu muito legal, sei lá... tô cansada também – justifiquei, tentando não olhar tanto na direção da Mia, mas sem muito controle sobre os comandos do meu corpo – ...vou dormir.

Ele deu de ombros e me desejou boa noite. Então, juntei minhas coisas, largadas no sofá, e só então percebi o quão fora de mim eu ainda estava. Preciso parar com essas merdas, pensei, em vão. “Em vão” porque, no fundo, eu gostava de todas aquelas merdas e não ia desencanar delas tão cedo. A questão é que o problema – o problema mesmo – sempre está muito mais no seu estado de espírito do que nas substâncias que correm pelas suas veias. E, bom, o meu estado de espírito atual estava um lixo.

Oh, well... Terminei de enfiar nos bolsos da jaqueta todas as minhas chaves e o celular e o restante ainda espalhado sobre o sofá. Peguei meu lenço com a mão e resmunguei qualquer coisa ao cambalear, sem muita estabilidade, fazendo uma meia-volta em direção ao corredor. Por fim, consegui andar direito até lá. E conforme o atravessava, correndo lentamente a ponta dos meus dedos por uma das paredes, ouvia a voz do Bowie diminuindo... progressivamente... até desaparecer por completo com o fechar da porta do meu quarto. Droga, eu realmente gostava dessa música, lamentei ao virar a maçaneta, já do lado de dentro.