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junho 27, 2012

Partners in Crime

"I couldn't tell her what my private thoughts were
But she had some way of finding them out"
(Bob Dylan)

_Você?! – ela acenou envergonhada que ‘sim’ com a cabeça, os olhos ainda escondidos entre os dedos – Você, mano? Com, com a minha Marina?!

Dei um passo para trás, uma das mãos sobre a testa, e comecei a rir ainda mais. Em silêncio – para não chamar atenção. A festa seguia, desavisada, atrás de nós. Olhava para a Clara, que me fazia um gesto com as mãos como se dissesse “e agora?”, constrangida, e tudo o que eu conseguia fazer era rir. Não, não é possível! A Marina não é assim. Eu conheço a Marina, conheço bem, e ela não tem nada a ver com as noites e a vida bandida paulistana da Clara. Estiquei o pescoço novamente para a cozinha e observei a minha ex em seu vestidinho de inverno preto, a meia-calça vinho, os sapatos de boneca e o cabelo castanho semi-preso com duas pequenas fivelas; os seus olhos irresistíveis, atentos ao fogão, por detrás dos óculos pretinhos. Estava linda, meu, como sempre. E esta, cara, esta é a melhor fofoca do ano, eu tornei a encarar a Clara, rindo. A revelação repentina me intrigava e eu achava graça, toda santa vez, bastavam as palavras da Clara voltarem à minha cabeça. “Sua?”, ela me questionou.

_Ela... – expliquei, rindo – ...é minha ex; nós namoramos por quase um ano, alguns anos atrás. Eu e a Marina somos muito, muito amigas.
_Cê tá me zoando, né?!
_Não. Eu fui a primeira namorada dela, cara. Amo demais esta garota.
_Inferno... – a Clara então se desesperou, subindo as mãos novamente ao rosto e xingou a si mesma – ...merda! Eu não sab...
_Como? – eu ria, interrompendo – Quando, quando vocês duas, digo, como?! Como isto?!
_Não... pára, não torna isto pior, vai. Por favor!

Insisti e ela choramingou, recusando-se a falar. Quando a puxei pela mão para entrarmos de vez na cozinha e cumprimentarmos as meninas ali – momento pelo qual eu, agora, ansiava –, a Clara grudou as costas na parede, a pouco mais de um metro da porta, e se negou a mover. Determinada, em teimosia. Eu não podia evitar senão rir ainda mais da situação. “Isto é ridículo!”, eu dizia, “ela não vai te morder, boba, todo mundo aqui já saiu uma com a outra! Vem”. “Nem pensar!”. A Marina seguia cozinhando, inadvertidamente, junto às meninas. E não havia argumento que convencesse a Clara a entrar lá do meu lado. De repente, foi que me ocorreu:

_Voc... você deu bolo nela! – eu a olhei, como se desvendasse um grande enigma e ela me desprezou com os olhos – Filha da mãe! Você muito, muito deu bolo nela!
_Eu não dei bolo em ninguém.
_Deu, sim. Alguma coisa! Alguma coisa você fez, para estar agindo assim – eu ria, empolgada – Parece eu quando cruzo com ex-casinho indesejado na rua, você não consegue nem esconder, meu. Olha o medo na sua cara! Desgraçada, sua des-gra-ça-da. Piranha! O quê?! O que você fez? Me conta, por favor, por favor, me conta. Eu juro que não conto pra Má que você me contou, juro mesmo. Mas conta, vai, o que foi?! – a Clara virava o rosto, eu a apertava ainda mais contra a parede – Você deu bolo nela, não deu? Deu?!
_Não! Não dei bolo nela, pára... – sussurrou, constrangida – ...eu, eu só nã...
_O quê? O quê?!
_Não fica pulando aí de felicidade, meu, pára. Não é legal! Ela é sua amiga, você é besta ou o quê?! – me deu bronca, fugindo do assunto, e eu revirei os olhos, nem aí, voltando a rir.
_Vai, só me conta logo!
_Não.
_Vai, vai logo!
_Tá. Mas faz, faz muito tempo.
_Ahm...
_Faz uns dois anos já; três, sei lá. A gente saiu uma vez só, ela é amiga da irmã da Lu e ela dormiu lá em casa depois e eu... meio namorava na época – a Clara suspirou, sem conseguir me olhar direito –, outra menina. E ela a, apareceu na porta de casa, no dia seguinte. Aí eu tive que mandar a menina ir passear e fui pedir, correndo, para a Marina sair.
_Você acordou ela, na sua cama, e pediu pra sair?!? – quase gritei.
_Ela já estava acordada, idiota, eu só pedi para ela ir.
_Ainda assim, mano. Você chutou ela do seu apartamento! – eu me divertia, e como, com a situação de merda em que a Clara se encontrava; e ela se estressava comigo.
_Você quer o quê?! Fazer soar pior do que já é, meu?!?
_Cara... – eu ria ainda mais – ...eu te odeio muito agora, você tem noção? Muito.

Ela enfiava o rosto nas mãos, constrangida. E me olhava depois, desesperada por qualquer salvação daquela festa, sem querer estar naquela posição e comigo, ainda por cima. Eu não conseguia parar de rir, como uma boba idiota, sem qualquer intenção de ajudá-la naquela. Me divertia, não sabia nem o porquê, mas me divertia. Ela ria, às vezes, quando não conseguia se segurar. Encostadas ali já há algum tempo, eu tirava sarro da Clara aos sussurros e ela me dava tapas no braço, implorando para que eu parasse. Escondidas atrás de uma parede.

_Ela me mandou à merda, cê sabe, né... – comentou.  
_E você mereceu, muito. Muito filha da puta, mano. É a, a Marina!
_É, bom. Se eu soubesse... – ela riu, arqueando as sobrancelhas de leve.

As maçãs do seu rosto estavam ainda um tanto coradas, resultado dos minutos de desespero anteriores – mas estava linda –, ela agora já se comportava mais tranquila, mais calma. Não era fácil, eu sabia. Ficar conhecida como “a mina que deu uma puta mancada com a Marina” entre as minhas amigas era a última coisa que ela esperava daquele primeiro encontro. Levou então uma das mãos ao topo da cabeça, entrelaçando os dedos no cabelo, e riu. Me olhou, as pupilas estreitas em discrição. Bandida. “Tá, vamos entrar logo” – tomou coragem, enfim, e disse ao desencostar da parede. “Vamos”, eu ri e segurei a sua mão.

Um passo e ela logo mudou de idéia: “Não. Isto vai ser feio”, me conteve, hesitante. “Muito, muito feio”. Balançou a cabeça. “Cara, ela não vai falar nada. Relaxa...”. A Clara me contrariou imediatamente com os seus olhos argentinos, castanhos. Não acreditava numa só palavra minha. “Sério”, reafirmei, rindo. “É! Fácil pra você dizer, né...”. “Eu conheço ela, besta. Estou te dizendo...”. “Mano, eu não acredito que ela é sua ex! Não acredito!!”, irritou-se consigo mesma. “Calma”, eu ria. “Eu quero morrer, juro. Sou uma idiota!”. “Vai ficar tudo bem...”. “Que merda!”. “Relaxa!”. “Eu...”. “Meu, só entra logo, vai. Eu te protejo...”, ri. “Não, não. Não posso entrar, mano! Não dá!!”. “Deixa disto... vem, vem logo”. “Não”. “Vem!”. “Por favor, não me faz fazer isto...”. “Vem logo!”. “Meu, eu não consigo. Eu não posso. Que cara eu vou fazer?!”. “Deixa as caras comigo, vem”.

Suspirou.

“Tá”. “Sem medo. Vamos”, peguei de novo na sua mão. Me olhava, no entanto, com uma cara de você-me-paga-por-esta. E eu achava graça. “Aii, vai ser feio”. “Olha, relaxa... te amo, ok”, ri do seu nervosismo, “aconteça o que acontecer”. “Tá. Vamos!”. Colocamos então as nossas melhores caras de não-estávamos-discutindo-há-dez-minutos-atrás-desta-parede para entrar de vez na cozinha. Corajosamente, isto é. Faltavam apenas dois passos até a porta; e eu ia na frente. Sem dar-me conta, porém, do que acabara de falar para a Clara.

_Flor!

junho 23, 2012

Os Casos

Cumprimentamos todo mundo de longe, um pouco afastadas do centro da sala, e a Camila veio logo falar comigo. Pelo que pude notar, graças à mesa posta atrás de nós e aos aperitivos caseiros improvisados, ia rolar uma espécie de jantar ali. Começamos a conversar. Senti que não via aquelas garotas há décadas – algumas fazia um, dois anos, de fato. Estavam todas com outras namoradas, novos rolos, solteiras de novo, recém-mudadas ou em empregos mais sérios. Menos a Flavinha, que se juntou à rodinha alguns minutos depois, e que ainda morava com a Ju.

_E cadê ela, falando nisto? – perguntei, já abrindo a minha primeira cerveja.
_Em Piracicaba, foi visitar os pais lá. A Lê avisou a gente muito em cima, meu...
_Os velhos tão mais sussa agora?
_Ah, a mãe dela é aquela coisa... cê sabe. Mas pelo menos não fazem mais “intervenções” surpresa, aquela merda toda da igreja; acho que desistiram já da gente... – riu.

A história era que, anos antes, mais ou menos na época em que eu namorava a Marina, elas se mudaram oficialmente e os sogros da Flá começaram a aparecer sem avisar no pequeno apartamento que elas dividiam na Vila Mariana. Cada vez era uma desculpa, mas na maior parte das vezes obrigavam a filha a ir com eles à missa, a passar o dia em família, rezar, aquele lance todo. Achavam que mudaria algo na “amizade” – cof, cof... – das duas. O que com o tempo, óbvio, transformara todos os domingos delas num dia de passeio forçado, sempre fora de casa, em que iam pedalar no Ibirapuera para fugir da possibilidade da pobre Ju ter que passar outras duas horas dentro de um salão de igreja. Expliquei o rolo todo para a Clara e ela achou graça na “solução”.

_E eu costumava ir encontrar elas umas vezes, de domingo... eu acordava e já ia! – ri – Pra fumar um, não fazer exercício, é claro.
_É, é. A gente ficava na beira do lago lá, todas bonitas, fodendo de vez com todas as horas saudáveis de bicicleta que tínhamos acabado de pedalar; era uma ótima influência ela... – a Flavinha brincou, falando de mim – Daí a Marina chegava, vocês começavam a brigar...
_É. Toda vez, né.
_Toda santa vez! – a Camila repetiu.
_E por falar nisto, cadê ela? Vi o carro aí fora...
_Tá lá na cozinha, ajudando como sempre. Vai lá! A Jéssica tá lá também, veio aí, chegou não faz nem vinte minutos.
_Puta mano, ela e a Lê? Ainda?! – perguntei, argh.
_Ah, sei lá, meu. Eu não perguntei, não falei nada, né. Deixa elas... – a Camila riu – ...mas deve estar, sim. Tão num puta rolo faz meses, não sei o que a Lê tanto vê nela, cara!
_A Ana disse que ela dormiu aí estes dias, mas não sei se hoje vai.

Olhei para a Flavinha como se nós duas soubéssemos a resposta para aquela. Ugh. Era estranho. Realmente estranho. A Jéssica era a única ali que não fazia “efetivamente” parte do grupo. E a nossa reação ao seu comportamento não era puritanismo nosso, vejam bem: todas nós já havíamos dormido ou ficado umas com as outras – ou com quase todas, pelo menos –, em algum momento daquela nossa longa amizade. A diferença era que a Jéssica havia conseguido realizar a exata mesma façanha sem nunca, de fato, entrar para a turma.

Ela não saía com nenhuma de nós, não mantinha amizade, não ligava, não vinha. Apenas aparecia numa festa ou noutra e acabava na cama com alguma de nós. E nem era lá tão boa assim..., pensei, recordando. O fato é que desde que a Lê terminara com a outra Ju, não a namorada da Flávia e, sim, a sanguessuga que nos usurpou a Letícia por oito eternos meses, ela e a Jéssica andavam se “esbarrando” por aí. E me parecia muito esquisito elas manterem qualquer tipo de relacionamento.

_Não! Espera, espera... – a Clara me puxou pelo braço quando já estávamos quase na porta da cozinha, de repente – ...espera, só um segundo!
_O que foi?! – eu a olhei, assustada, e ela se escondeu envergonhada atrás das próprias mãos.
_Ai, ai! Tem uma mina que eu já peguei aí!
_Quê?? Quem?!? – estiquei a cabeça pela porta e vi a Jéssica cozinhando perto do balcão, junto com a Marina e a Ana, que se juntara às duas; pareciam preparar um molho de macarrão em meio a uma zona de pratos e louça suja – A Jéssica? A loira baixinha?!
_Não! Não! A outra!!
_A Marina? – eu comecei a rir.

Bullying

A expressão de surpresa da Lê, ao abrir a porta e deparar-se ali conosco, quase me fez sentir como se eu devesse ter ligado antes. Dado um jeito de ligar, sei lá. Fiz merda, a Marina falou demais e eu fiz merda de vir, pensei. Todavia, ela logo abriu um sorriso de orelha a orelha e me cumprimentou com um abraço violento, já notavelmente embriagada.

_Porra! Porra, mano!! Não sabia que você vinha, meu! – disse, em alto e bom som no meu ouvido. e se afastou, olhando para nós duas paradas ali, alternadamente – Que legal, cara... pô, que legal mesmo...
_Podia vir, né? – ri.
_Tá brincando?! Lógico!! Tentei te ligar a semana toda, porra; seu celular tava desligado. Te xinguei para meio mundo já porque você não tava aí!
_É, então... meu telefone tá no conserto, longa história. Mas e aí, que que tá rolando hoje?
_Como o que tá rolando?! – ela riu, me dando um tapa no alto da cabeça – É meu aniversário na terça, ô sua merdinha. Dá pra acreditar nesta mina, meu?! – ela me apontou para a Clara, ofendida.
_Foi mal, foi mal, foi mal... – eu me desculpei, a cabeça ainda abaixada.

E a Letícia, troglodita, partiu para cima de mim com os punhos fechados e me encheu de “socos” no estômago, na costela, argh. Bêbada maldita. “Nem um parabéns você ia me dar, né, nem um presente!”, ela ria, gritando. Durou seis ou sete segundos apenas, nem doeu também, mas eu dispensava completamente aquela demonstração caminhoneira de somos-sapatão-mesmo-e-a-gente-se-comporta-assim-normalmente bem em frente à Clara. Ótimo. Quando enfim me soltei da minha amiga, ultrajada pela minha memória de maconheira que deixava a desejar, a Lê virou-se à minha convidada e sorriu imprestável, “e você, quem é?”.

_Ah! Esta é a Clara. Você lembra dela, não... – eu fiz as devidas apresentações, ainda me recuperando – ...a gente se trombou aquele dia lá, na Calixto.
_Oi! Tudo bem?
_Ah, então é vocêêê, hum... – a Lê desafinou, rindo, e eu implorei mentalmente para que o comentário parasse aí; mas, não, é claro que não – ...essa aqui, meu, ó... – colocou o braço pesado ao redor do meu pescoço, argh, e eu dei um sorriso amarelo, envergonhada – ...essa aqui ficou toooda, toda quando te encontrou lá, cara. Não queria nem me falar teu nome! – a Clara achou graça e me olhou, eu quis morrer – Eu sabia! Sabia que tinha coisa! Sabia!! Voltou toooda apaixonadinha pro estúdio, ficou o resto do dia agindo esquisit...
_Tá bom, tá bom já! Chega!
_Quê?!
_Já deu, vamos. Se comporta, você! – apontei pra Lê e virei pra Clara – Vamos entrar, Bi, vem...

Puxei-a para longe da minha amiga claramente fora de si – e sem amor à vida, vadia de merda! –, que riu. Menos de três minutos aqui e eu já me arrependi de ter vindo, valeu hein. “Ah, não, mas eu tô achando interessantíssimo...”, a Clara ria também, defendendo-a, e eu a olhei com cara de você-só-pode-estar-brincando-né. Não, não. Estamos entrando, agora, vem. A Clara me seguiu, mas as duas ainda achavam graça, e nós passamos pelo corredor lateral da entrada da casa. Ali moravam a Lê e uma outra garota, uma amiga hétero. Que todas nós já havíamos, claro, em algum momento daqueles anos todos, tentado à nossa maneira “converter”. Uma castanho-arruivada com sardinhas, simpática, alguns anos mais velha que nós e nutricionista. Ana Maria.

_Aninha! – a cumprimentei e sorri, não a via há uns bons dois anos.
_That’s me! – ela riu, me abraçando de volta.

E então olhou para a Clara, curiosa.

_E esta moça, hun, quem seria?
_Clara, Ana. Ana, Clara.
_Prazer... – a Clara sorriu.
_Ó, cuidado com esta daqui, hein?

A Ana riu, avisando-a sobre mim. Me deixa só chegar antes? Respirar, talvez?, revirei os olhos. As duas riram. A Lê passou por trás de mim, dando outro tapa no topo da minha cabeça e achando graça da situação. “Agora você tá me achando menos ruim, né?”, cochichou no meu ouvido. “Não. E você não tá perdoada ainda!”, retruquei baixinho. A sala estava ocupada por umas sete ou oito garotas, espalhadas, todas conhecidas. A nata lésbica de São Paulo – ou assim gostávamos de pensar sobre nós mesmas, isto é. Uma oitava ou nona desconhecida acompanhava ainda a Paula, uma das garotas que estudaram com a Marina. Ah, é! A Marina..., passei os olhos pelo cômodo e não a vi.

junho 21, 2012

Inconseqüências monetárias

_Tem?! – eu repeti, indignada, encarando-o já em pé.
_Não. Não tem. Não tem! – o Fernando gritou de volta, ofendido – Mas isto é problema meu, porra. Meu! Que você tá se metendo?!
_Ah, não. Não mesmo... – eu ri, revoltada – ...isto é problema nosso! Nosso!! E você sabe.
_Ah! E por isto você vai ficar controlando tudo o que eu faço de agora em diante?!? Vai à merda!! Meu, vai à merda mesmo!! Eu não preciso disto, cara!!
_E você vai ficar saindo todo dia então, estourando verba que não tem?! Porra, Fer, caralho. Não é assim!! Você tem que pensar no apê, meu, pensar em mim também, no que a gente paga junto...
_Mas, mano... Eu nem vou gastar, porra!! – ele berrou, com as mãos contra o rosto e irritado; aí me olhou, gesticulando – Não pago pra entrar, eu vou com os caras, caralho! Vou tomar só umas!
_Só que não interessa!! Não interessa quanto você “acha” que vai gastar, meu. É a sua atitude que tá errada!!
_Escuta aqui – ele se aproximou, puto –, quando a MERDA da conta cair pro seu lado, aí você vem abrir a matraca pra mim! Falou?! Se não, na boa, não precisa se incomodar...
_Ah! Se é assim, então por que eu não saio hoje também, hein?! Ou melhor: por que eu não saio e torro TODA a minha metade da “merda da conta” que eu não tenho que pagar já que você já, ohh, já tem TUDO resolvido mesmo, não é?!?
_Sai! Sai, então!! Sai! Faz o que você quiser da sua vida, inferno, eu não tô nem aí!!
_Vou! Vou sair mesmo! – gritei, já fora de mim de tanto nervoso, e ele me olhou sem paciência – Você é um babaca, cara! Um BABACA, Fernando!! Não me venha pedir grana quando você não tiver um PUTO pra pagar o chão que você pisa!
_Vai à merda! Você acha que eu vou te pedir dinheiro?!? – respondeu, conforme eu já voltava para dentro, puta da vida – Sai! Sai logo!! Vai lá, vai cuidar da sua vida!!

Filho da puta do caralho. Bati o pé apartamento adentro, me dirigindo ao mais longe que conseguia dele. Desgraçado, folgado de uma figa! Vem, vem então me pedir um tostão que seja agora, vem..., revirei os olhos, com ódio, ...você vai ver só. Soquei a parede do corredor com a lateral da mão. Argh! Uma das piores características minhas e do Fer sempre fora o nosso pavio curto, a inconsequência que rolava à solta dentro daquela casa. A nossa incapacidade de medir as palavras que saíam da nossa boca, os nossos “bons” modos.

Era sempre assim. Toda vez. Toda maldita vez! Nos irritávamos e nos ofendíamos, aí baixávamos o nível até insultarmos cada um dos nossos parentes mais irrelevantes por qualquer porcaria de discussão que começássemos. Não importava se era o aluguel ou se era uma louça suja esquecida por três dias no meio da sala. Eu perdia o controle, invariavelmente, e o meu coração subia à garganta de tanta raiva. Ele não ficava atrás, vermelho até a testa, soltando fumaça e chutando a primeira coisa que aparecia na frente. Quem não nos conhecia podia até se espantar, achar que nunca mais falaríamos um com o outro. Na saída, o Fer quase quebrou a porta – enquanto eu, na entrada, quase arrombei a minha.

_Levanta! – avisei grosseiramente à Clara, que dormia sem um traço de roupa ou consciência na cama, assim que cheguei no quarto – Levanta, a gente vai sair.
_Hum... quê, agora?! – ela me olhou por cima travesseiro como se eu fosse uma louca, descontrolada; eu já tirava a regata próxima ao armário.
_É. Agora, vai! Se o Fernando idiota acha que pode sair, então eu também posso... Você vem ou não?
_Vou, vou... – ela murmurou, rindo.

Trocamo-nos rapidamente, eu estava acelerada. A mil. E a Clara achava graça nisto. “Vocês parecem duas crianças, cara, na boa”, riu. Foda-se. Eu só não queria estar lá quando ele voltasse. Chame isto de orgulho, chame do que for. Emprestei-lhe uma camisa minha, a do Billy Idol, e uma calcinha limpa. Vesti os jeans que usara naquele mesmo dia na Augusta. E saímos para o corredor em menos de 5 minutos. Todavia, antes de deixar o apartamento, escrevi um bilhete “bem educado” para o Fernando e grudei com uma fita na porta de entrada. Vingança!

_E aí, se sente melhor agora? – a Clara ria por detrás do seu celular, apontado para mim, gravando o meu ato de rebeldia “pra lá” de maduro.
_Muito. Vem logo.

Fui na sua direção, abrindo a boca, como se comesse a câmera – e ela afastou o telefone para evitar possíveis danos. Ainda ria, no entanto. Vem comigo, garota. Chegamos ao elevador em poucos passos; e logo começamos a subir tranqüilas a rua do lado de fora, fazendo pouco caso do frio. O metrô não era tão longe. Descobrimos já frente ao caixa que a Clara estava sem troco nos bolsos, então paguei pelas duas entradas. Passamos as catracas ligeiras e esperamos, juntas, pelo próximo que passasse. Ela fazia graça sobre a linha no chão; e eu a assistia ainda na minha, sorrindo.

23:31. A estação abrigava animados grupos, como nós, de 20-e-tantos anos que apanhavam os últimos trens da noite. Tínhamos ainda que chegar até lá (lá, lá...) na Barra Funda – duas baldeações, bem pouco tempo. Já dentro do vagão, sentamos com os nossos pés apoiados nos bancos da frente e dividimos os fones do iPod dela durante todo o percurso. Trocamos de veículo. No segundo vagão da noite, a viagem era mais curta, então ficamos em pé. A Clara fazia sutis movimentos, dançando discreta ao som da música que escutávamos, e eu achava graça.  

Estávamos segurando no cano imundo, centralizado no corredor. Podia observá-la dançar para sempre, assim, cada um dos seus passos. Jolene, jolene, jolene. As suas mãos escorregavam pelo cilindro de metal, ela me olhava com a melhor cara de imprestável e ria. Eu ria também. I’m begging of you... please, don't take my man! – o Jack White cantava nos nossos ouvidos, numa trilha suja e imprestável. Apoiou-se contra o cano, pelo ombro, chegando perto o suficiente da minha boca. Um beijo, ou quase um. Hum, esperta... volta aqui, vai! Tornou a deslizar, no entanto, fazendo graça, antes que eu recebesse o meu beijo; as curvas da sua cintura desciam tentadoras no ar. Jolene, joleeene..., cantei junto então, entrando na brincadeira. E ela me acompanhou, cantávamos dramaticamente. Um teatro público.

Fez então que virava, meio de repente, esquecendo-se dos fones, e acabou toda enrolada. Presa na própria falta de atenção, ela riu, sem envergonhar-se. E ajudei-a a se desenroscar, besta você, hein..., rindo também. Os outros passageiros ignoravam as nossas risadas, altas. Por precaução, porém, guardamos o fone na terceira e mais breve das viagens, chegando logo à estação Barra Funda. Saímos na rua já à beira da meia-noite e pegamos um táxi até a casa da Lê, o que me custou mais alguns bons reais. Quem foi o infeliz que inventou a bandeira dois? Batemos na porta da casa modesta – e um pouco acabada – da Letícia e a Clara teve frio na barriga, ia conhecer minhas amigas. Podíamos ouvir a música alta vinda lá de dentro e eu reconheci o carro da Marina com outros dois – um era o corsa preto da Lê, o outro não sei – na garagem.

junho 17, 2012

No corredor

Os olhos dela fechados, os meus bastante despertos. Três, quatro rounds passados – e o sono não vinha nem por decreto. A luz acesa do corredor que entrava por debaixo da porta, porém, mostrava que eu não era a única. As horas anteriores – os toques, os orgasmos, as pernas, os fôlegos, os perdidos e os recuperados, os abraços, os braços, as mãos, as posições e os gemidos, os beijos, os beijos da Clara e as suas palavras, principalmente as palavras, cada uma das suas palavras, os seus olhos, a sua boca, as maneiras argentinas, as risadas, os sorrisos, os dentes, a força, a indecência, as mordidas e as línguas, os dedos, a profundidade, os maus modos, os gostos, as costas, as unhas, os gestos, os rounds, o primeiro, o segundo, a promessa do quinto, a promessa futura de contentamento – não saíam da minha cabeça. Que horas será que são? A minha mente estava inquieta.

Umas onze, se eu tivesse que adivinhar. Eu levantei com cuidado, atravessando o quarto na ponta dos pés para não acordá-la, indo até o armário. Peguei uma calça velha de pijama e vesti a primeira regata que encontrei. Fechei a porta cautelosamente, em silêncio. Andei pelo corredor aceso e, ao contrário do que imaginei, a sala estava vazia. Ninguém. Apenas o celular do Fer sobre a mesinha de centro, um cigarro apagado no cinzeiro e a porta do seu quarto fechada. O idiota ainda deixou a TV ligada, observei e a desliguei antes de me dirigir à cozinha.

De todo caos restante da festa, aquele cômodo acumulara o pior dele. Desviei das latinhas e garrafas vazias espalhadas, odiando o meu colega de apartamento inútil por não ter arrumado nada naquela tarde. Busquei na geladeira uma cerveja e abri a long neck desajeitadamente com a mão, machucando de leve a minha palma. Ótimo, hunf, revirei os olhos, mais um para a conta. A Clara já tinha, pouco mais cedo, deixado duas mordidas no alto da minha cintura e costas. Era aficionada por fazê-las; desde que voltáramos, o meu corpo parecia um campo de batalha. E não que eu esteja reclamando, isto é..., sorri sozinha.

Pensei, por um momento, nela dormindo no meu quarto; encostada contra a mesa da cozinha. Bebi enquanto refletia. De alguma forma, um sentimento positivo ficara em mim desde aquela conversa no fim da tarde. É. Hum, dei outro gole, e senti uma vontade impulsiva de falar com a Marina. Olhei para o relógio pendurado na parede. São 23:14 – não está tarde ainda. É sábado. Desencostei então da mesa e voltei para a sala, pegando o celular do Fernando que vi, antes, emprestado. Digitei rapidamente o telefone dela – o único que eu sabia de cabeça, além dos do Gui e do próprio Fer. E a Marina atendeu.

_Má? – saí pela entrada do apê, descalça; pro corredor do prédio – Sou eu, te acordei?
_Ah! Oi, flor! Não. Nossa... de onde você tá ligando?!
_Eu...

Sentei no chão próxima à porta, encostada contra a parede.

_...tô sem celular, este é do Fer. Você pode falar?
_Posso, estou só terminando de me arrumar. Vou indo lá pra Lê daqui a pouco, você vai, né? Precisa de carona?!
_Não. Nossa, nem tava sabendo! Que tem na Lê hoje?! Ninguém me avisou; na real, fiquei desconectada a semana inteira, cara... uma merda! – tomei outro gole e prossegui – E, de qualquer forma, nem rola... tô sem grana pra sair, a gente tá duro. O Fer perdeu o emprego.
_Você tá brincando?! Quando isto??
_No começo da semana... mas não, não era isto que eu queria falar.

Dei mais um gole e apoiei o antebraço no joelho dobrado, pendendo a garrafa entre as minhas pernas, solta no ar.

_Hum... – a Marina soava como se, de fato, estivesse ocupada arrumando a roupa ou algo assim – E o que era?!
_Conversei com a Clara hoje, mais cedo. A gente foi na Ouro Fino ver umas roupas, eu fui com ela, e aí acabamos conversando sobre... nós duas, tipo, pela primeira vez. Depois a gente voltou pro apê e conversamos mais aqui. Não sei, Má. Eu estou muito feliz, sabe, com ela. E, sei lá, eu não ficava assim há muito tempo...
_Nossa! Mas, mas isto é ótimo!! – ela pareceu pular de alegria, do outro lado – E então qual é o problema?
_Nenhum – eu ri –, só queria te contar. Falar pra alguém, sei lá.
_Você falou isto para ela?
_Falei. Quer dizer, mais ou menos. Meio por cima, mas, mas falei... – a Marina reprovou-me com um “hum” discreto; ri e tomei outro gole – Eu... acho que pode dar mesmo certo com ela, Má. E, cara, sabe quanto tempo faz que eu não penso isto? De alguém, de qualquer mina?!
_Sei. Lógico que sei... meia São Paulo sabe.
_Então, e esta é a questão, meu. Ela não liga! Não tá nem aí, cara. Nós somos muito parecidas! E na cama, mano... puta merda. Má, eu não sei nem como te falar. PUTA MERDA! Sempre foi, né, meu. Desde o começo, a gente se entende muito bem. Ela é demais, demais. E não sei, este lance com a Mia fodeu a minha cabeça...
_Ah! Que lindas! Lindas! – parecia sorrir do outro lado da linha; eu ri ainda mais – Mas e aí, e a Mia? Como vocês estão? Tudo bem??
_Não sei. Hoje de manhã, rolou alguma coisa. Tipo, teve uma festa ontem aqui e nós duas ficamos muito bêbadas, muito, daí rolou um monte de coisa. E aí hoje, eu acordei, e ela tava lá. Conversou comigo, ela tá num momento diferente. Acho que quer alguma coisa. Mas, não sei, o dia parece que virou ao contrário depois, sabe?! No resto dia. E eu estou pensando muito na Clar...

De repente, a porta abriu bruscamente, a alguns metros de onde eu estava, e eu ergui os olhos. O Fernando. Me encarou, estressado, como se estivesse atrasado para algum lugar, e veio na minha direção já com a mão esticada.

_Meu celular! Tá com você, caralho. Eu tava procurando!  
_Peraí, linda... só um segundo... – pedi para a Marina e abaixei o aparelho, olhando para ele parado em pé na minha frente – Mano, precisa ser agora? Agora? Eu tô sem o meu, cara, peguei rapidinho. Já devolvo!
_Não, porra, preciso sair. Dá aí!
_Sair?? Onde você vai?!
_No Carniceria, com os moleques.

Você só pode estar brincando. Coloquei o telefone mais uma vez no ouvido e disse à Marina que passava na sua casa no dia seguinte, terminaríamos a conversa lá. Rapidamente, ouvi-a dizer mais uma vez que estava feliz em saber de tudo aquilo, o que eu faria sem você, bonita?, e eu sorri, desligando logo em seguida. Não entreguei, contudo, o aparelho para o Fer e coloquei a mão com o celular para trás do ombro. O cotovelo apoiado na perna. Olhei-o, brava.

_Como assim você vai sair? Cê tá louco, com que grana cê vai pagar?!
_Ah! Qual é?! Vai virar minha mãe agora?
_Aparentemente, né... se sou eu quem vai pagar o aluguel do bebezão! – levantei a voz, já indignada com a postura dele – Fer, mano. Eu sei que ainda falta meio mês, mas... na boa, se você acha que eu vou bancar tudo da casa pra você ir fazer festa todos os dias da porra da semana, cara, você tá muito enganado. Eu não sou milionária, ninguém aqui é. Eu também tô deixando de sair...
_E eu pedi pra você bancar alguma coisa, porra?! – ele gritou, irritado com o confronto e sem saber lidar bem com aquilo.
_Ah! E você acha então que tem dinheiro sobrando?!?

Folgado. Levantei do chão, puta da vida.

junho 14, 2012

Lares insólitos

_Posso te contar uma coisa? – a Clara sorriu, sussurrando.
_Pode – eu sentei na cama; completamente despida.

Acendi o isqueiro, acendendo um baseado pequeno próxima à janela aberta. Estávamos de volta ao apartamento; o sol terminava de se pôr lentamente. A luminosidade no quarto agora dependia quase unicamente dos postes do lado de fora, praticamente nula. O cômodo estava escuro e os nossos olhos, já acostumados. Os presentes comprados para ambas amigas pendiam em múltiplas sacolas na maçaneta, um exagero. As pernas da Clara moveram-se no lençol, encaixando-se na lateral do meu corpo. Ela encostou os seios descobertos na minha pele fria, esfriada pela proximidade da janela. E ela, morna. Déjà-vu. Desde o último fim de semana que eu não fazia sexo; traguei e segurei nos pulmões, aliviada.

_Na segunda, eu... – apoiou o rosto nas minhas costas, suavemente, e revelou – ...eu não estava com uma amiga, quando você passou lá. No apê.
_Não? – soltei a fumaça.
_Não...
_Hun. Mas você estava com alguém... é isto?
_Estava... – ela suspirou, envolvendo o braço na minha cintura – ...quer dizer, era uma amiga, mas não... do tipo que... que você não precisa se preocupar a respeito. Tipo, era uma amiga mais... do... do outro “tipo”.
_Hum.

Eu sentia a sua respiração oscilar sobre a minha pele. Sabia. Preparei-me para mentir, então.

_Clara, eu... não estou preocupada – complementei, convicta, e traguei mais uma vez.
_Nã... não era isto que eu queria te contar... foi depois. Depois que você apareceu lá. Foi o que eu te mandei no SMS que você não recebeu, esta semana. Sabe, eu, eu estava jantando, com ela, e tudo normal e aí você veio e... e eu te vi, ali, e percebi que não... não tinham passado nem 24 horas desde... sabe?

Desde que você deixou a minha cama, ali pronta para pular em outra; eu balancei a cabeça e pensei.

_Sei – murmurei.
_E eu, não sei, acho que foi o... o jeito como você falou o que falou, a situação toda, não sei; eu me senti feliz. Mesmo que você tenha ficado dez segundos lá. Só de te ver! E eu sei que a gente não se vê como... como outras meninas ou outros casais se vêem e tal, sabe... com frequência ou a semana toda, sei lá. A gente não é assim! Mas eu, eu fiquei mesmo feliz.

Eu sorri, em silêncio; as costas ainda viradas para ela.

_Cara, você vai rir... – ela comentou, apoiando o queixo pouco abaixo do meu ombro, e continuou – Mas foi como se você estivesse me salvando de uma segunda-feira idiota, uma como qualquer outra, sem sentido nenhum; me tirando de um jantar que eu realmente não queria ter, e... e era você, sabe, você... eu queria estar ali, estar com você; meu, acho que você é a única que pode interromper qualquer jantar ou livre escolha de agenda minha...
_Hum... – eu ri; quieta.
_E eu, eu só... você é diferente, Bo; sabe? – murmurou, apoiando em mim de novo a lateral do rosto – Eu só queria que você soubesse; você é, sei lá, importante.

Sorri discretamente, num impulso natural. Não – eu não sabia. Eu não costumava ser importante para as garotas; não as com quem eu dormia assim. Eu. Puxei então mais uma vez o baseado, tragando demoradamente. Um sentimento estranho de felicidade me contaminava, à surdina, bem mansinho. Se eu o era, certamente não ficava perto tempo o suficiente para ouvir. Sofria de déficit de atenção. Ou de prestabilidade, ponderei. E soltei a fumaça, aos poucos; avaliando mentalmente os meus relacionamentos anteriores, como num flash. Argh, mano. Toda a importância e a ausência que eu, ao mesmo tempo, havia tido para garotas como a Roberta, a Patti – e não num sentido positivo. Dei outra bola, contrariada.

Os fios do seu cabelo deslizaram suaves pela minha coluna, a Clara ajeitou o rosto. Aquilo. Aquilo era diferente – porém; e eu sabia. Desci a mão sobre os joelhos, a seda ainda entre os dedos. Um sentimento incomum, um contentamento. Não sei bem. Eu me sentia bem com ela. Ouvindo-a falar, em silêncio, no quarto escuro. O THC preenchia os meus pulmões e os seus movimentos, sutis, tornavam-se cada vez mais perceptíveis. As pontas dos seus dedos percorriam meu abdômen; faziam cócegas pela minha cintura, subindo delicadas. E ela, por sua vez, ficava cada vez mais e mais real.

É impossível te ignorar, garota – pensei –, garanto. Deixei a fumaça escorregar aos poucos para fora da minha boca, dos meus lábios. Na minha vida, na minha cabeça; eu coloquei a ponta restante do baseado sobre o parapeito da janela. E me virei então, olhando-a por cima do meu ombro. A Clara sorriu. Podia senti-la ainda na minha pele, era um sentimento descomplicado. Tranqüilo. E talvez fosse mesmo simples, talvez eu pudesse ser assim o tempo todo. Calmamente, não sei, a minha mente contemplava os caminhos sinuosos do seu corpo, do que tínhamos juntas. Deitei-a sob mim, os lençóis desarrumados; as minhas mãos acompanhavam o seu perímetro. Deslizavam por cada uma das suas curvas. Pelo entendimento que possuíamos, uma da outra.

_Sabe... – eu sorri para ela, encarando os seus olhos castanhos argentinos sobre a linha da sua cintura; e é engraçado o quanto quatro paredes podem afetar a sua percepção – ...que você, garota... – do que lhe basta para ser feliz; os meus lábios encostaram na sua pele morna, entre uma palavra e outra – ...você, você faz as coisas ficarem tão mais difíceis... – os meus dedos percorriam os contornos conhecidos do seu quadril, das suas pernas – ...tão mais difíceis, para qualquer outra.

E vamos lá – segundo round!

junho 08, 2012

Etiquette

Peguei o cigarro de volta das suas mãos, sem querer o confronto, e virei dois passos para trás. Sentei no degrau frente à galeria Ouro Fino. As botas contra o chão de cimento; a cabeça baixa voltada para elas, observando-as. Traguei uma vez, demoradamente. E a Clara abaixou-se, agachando-se na minha frente. Colocou os braços apoiados nos meus joelhos e me olhou nos olhos. Soltei a fumaça e a encarei de volta, firme. Vamos acabar com isto logo, então; respirei fundo.

_Olha, eu... – ela emendou suave; me olhava de perto – ...não estou, aqui, achando que aconteceu alguma c...
_Não aconteceu.

Ela segurou o fôlego, interrompida.

_O quê, meu? – a conversa e a reação dela me deixavam inquieta; gesticulei um tanto nervosa – Você sabe que não! Não aconteceu nada, cara. Então por que você tem que vir e começar isto agora?!
_Eu não estou c... A gente só tá conversando, Bo.
_”Conversando”, tá... sei...

Balancei a cabeça, revoltada, e traguei mais uma vez. Durante todo o tempo, as pessoas passavam por nós, ali no degrau, e entravam na Ouro Fino. Olhei para a minha mão; o cigarro dela já estava quase no fim. Soltei o ar lentamente, meio tensa. Não perde o controle, meu. Eu tendia a estragar este tipo de conversa, argh, sem nem sequer dar chance de começar. E não queria fazer isto com a Clara, definitivamente. Mas é, inferno, difícil manter a calma quando não se tem certeza da sua própria culpa!

Dei mais uma tragada, aproximando fatalmente a linha da brasa do filtro e ofereci o pouco restante para a Clara, que recusou com um gesto breve com a cabeça. Disse para eu jogar, então o terminei. Apaguei-o contra a calçada de cimento, os seus olhos castanhos argentinos me observavam. Suspirei. Alguns lojistas conversavam e fumavam metros adiante na calçada, uma semi-conhecida acenou para mim e eu dei-lhe um rápido sorriso, por educação. Tornei a olhar então para a Clara, na minha frente. E retomei:

_Olha, eu sei porque... porque você acha que temos que conversar, mas... não temos. Não temos mesmo. Porque não tem nada! Não aconteceu nada.
_Então, você está me dizendo que você não sente nada pela Mia? É isto?! E nem ela por você?
_E o que você tem a ver com isto, cara?!?
_Nossa... – ela arregalou os olhos e, ofendida, riu.

Com um gesto de mãos para cima, ela saiu da minha frente, ficando novamente em pé. “Aparentemente, nada”. Ela balançou a cabeça, suspirando, e desistiu de tentar conversar numa boa comigo. Como eu sou idiota, mano. Me arrependi, na mesma hora, da minha atitude. Fechei os olhos e passei a mão no rosto – por que eu não calo a boca? A Clara deixou para lá, ainda de pé, e disse para entrarmos antes que as lojas fechassem. Eu levantei e a acompanhei galeria adentro.

O clima agora estava uma merda, todavia. Passeamos por algumas das lojas do térreo, eu a seguia com as mãos nos bolsos, e a Clara não gostou de nada do que via. Agíamos como meras conhecidas – droga. Não posso magoá-la toda vez que fico ansiosa; não esta garota. Subimos a escada rolante para o primeiro piso. Eu me arrependia, mas continuava quieta; e ela tentava se mostrar indiferente, olhando as roupas apática e fazendo comentários breves, curtos. Procurava um presente para duas das suas amigas, cuja festa conjunta de aniversário aconteceria na outra sexta-feira.

Nada no primeiro andar, continuamos para o segundo. Demos a volta toda em silêncio. Está feliz agora? A culpa é sua, besta, eu dizia a mim mesma mentalmente. Observei a Clara dar alguns passos adiante, na sua jaqueta de inverno e com o lenço de flores pequeninas. Parou frente a uma vitrine com roupas vintage e aquele feeling dos anos 60, bem-decorada. No entanto, não entrou; desanimada com tudo o que via. Alcancei-a, andando novamente ao seu lado, e ela ignorou um sorriso espontâneo meu. Cruzara o meu olhar com o dela, mas nada. Nos aproximamos do elevador, em semi-piloto automático na direção ao terceiro piso.

_Espera, não; vem aqui... – peguei-a pela mão e encostei gentilmente numa das paredes – ...espera só um pouco, vai.
_O que?
_Eu... – apertei os olhos fechados, arrependida, e abaixei a cabeça; encostando com a testa no seu ombro; e aí a olhei novamente – ...eu sou uma idiota, cara. Uma idiota, me desculpa. Eu não queria ter sido grossa com você...
_É, né.
_...e eu, eu sei que você não tava me cobrando, nem nada, aquela hora.
_Eu só queria conversar numa boa, meu! – ela se irritou, concordando comigo.
_É, eu sei. Desculpa!
_Sério, cara, você precisa melhorar esse... esse seu “jeito”, sabe, e urgente. Você me trata como se...
_Eu sei, eu sei – a interrompi, de fato arrependida; tentando me explicar –; é que eu... eu gosto de você, gosto, e muito mesmo e eu não quero estragar tudo com a minha boca grande, só que eu... sou, tipo, muito ruim com este tipo de conversa e, sei lá, eu fiquei nervosa na hora e aí acabo dando respostas piores ainda, manja. Saiu tudo errado, meu! Não era a minha intenção, não era mesmo...

Hum. Ela me olhou, os braços ainda cruzados; o meu corpo pendia sobre o seu, as suas costas contra a parede e a expressão aborrecida, invariável. Deixa passar esta, garota. Por favor, vai. Eu a encarava de volta, na mais adorável cara de pau. Queria mesmo que ficássemos bem, mesmo, vamos lá. A Clara então abaixou a cabeça, cedendo, e empurrou o meu corpo com um dos seus ombros, num movimento contínuo e leve. Ainda de braços cruzados.

_Eu, eu também gosto de você... – ela murmurou, admitindo pela primeira vez; e aí me olhou um tanto brava, agora fazendo mais graça do que intencional – ...mas você é MUITO babaca!
_Eu sou mesmo... – eu ri.
_Não; não, não... – ela achou graça, me empurrando de volta com o corpo – ...não vai achando aí que é engraçado, que você pode se safar desta assim, toda vez... – descruzou os braços, apontando-me o dedo na cara e eu ria ainda mais, com ela – ...você vai ter que aprender a conversar que nem uma pessoa normal, cara, vai mesmo; se a gente for mesmo ficar ju...
_Ah! Então você quer ficar junto?! Comigo?
_Cala a boca! Eu não terminei.
_Clara Villares desistindo do seu mar de amantes paulistanas... impressionante, hein...
_Olha – ela me encarou, indignada; mas irresistível como era –, seria muita sorte sua.
_De repente, né... – concordei, seria mesmo.

E ainda ríamos, quando nos beijamos.

junho 06, 2012

Duas coelhas, duas cajadadas

_Não, ele... – tentei responder naturalmente, disfarçando – ...saiu, foi levar uns amigos que estavam aqui.
_Uhm.

O seu olhar oscilou, voltando para mim no batente da porta. Parada, ali. A Clara me encarou, refletindo rapidamente, procurando achar alguma explicação plausível – a que fosse – para a minha cara de culpada, em silêncio, e para a Mia apenas de blusão no chão do apartamento vazio. Mas... rolou alguma coisa, afinal?! Nem eu sabia dizer; eram sempre estes momentos tão dispersos. A Mia nos observava de longe e os seus olhos, os da Clara, não se enraiveceram diante da situação; permanecia tranquila. Ainda assim, ao fundo deles, destoava uma constatação magoada; uma decepção comigo e consigo mesma, pelas possibilidades menos admiráveis que o meu comportamento podia vir a tomar. E eu me dava conta agora, de repente, que era importante para mim o que ela pensava.

_Então.... mas eu, eu vou com você! – eu disse, afobada.

Em meio aos segundos ali de constrangimento, sem saber bem o porquê – eu estava nervosa. A simples pergunta inicial dela já me subira o estômago até a boca. Pedi que esperasse eu me trocar, bem rapidamente, e que iríamos juntas até a Ouro Fino do outro lado da Augusta. Me virei na direção do corredor, meio às pressas. Ela se surpreendeu com a minha decisão de aceitar o convite – e a Mia também. Com as pernas de fora no blusão marinho, ela me seguiu até o quarto e fechou a porta atrás de nós. Por que diabos você veio? Agora é que a Clara vai pensar que está rolando alguma coisa, porra.

_Você vai mesmo com ela? – ela me perguntou, em tom baixo e levemente indignado.

Respondi que “sim”, começando a tirar as roupas do meio da zona que estava o meu armário. Ela ficou em silêncio, cruzou os braços. Vesti os meus jeans rasgados e coloquei a primeira camiseta que vi na frente, junto com um lenço vermelho palestino. Enquanto procurava pela minha jaqueta no bolo de roupas, largadas ali de qualquer jeito, ouvi-a suspirar irritada. Um metro atrás de mim. Achei a jaqueta. Me virei e a Mia ainda estava lá, aquilo não me ajudava em nada a manter as aparências para a Clara – o que você ainda está fazendo aqui, meu?! Por favor, volta para a sala. Desviei novamente o olhar, enquanto calçava um par de botas curtas, baixas. Cruzando e descruzando sistematicamente os braços, a Mia era incapaz de esconder os ciúmes e me observava arrumar o cabelo às pressas no espelho.

_Sério mesmo – ela sussurrou, ainda mais indignada – que vai com ela? Agora? Assim?!
_E o que eu deveria fazer, Mia? – respirei fundo, colocando a jaqueta para sair logo; olha quem fala – Hum?! Esperar aqui com você até o Fernando voltar?
_Não foi o que eu quis dizer... é só que, sei lá, eu achei que a gente estivesse lá n...
_É um ótimo plano – a interrompi, indo já em direção à porta –; só que isto só funciona para uma de nós.
_Não. Você não precisa ir...

A sua mão alcançou a minha, me segurando. Havia carinho no toque dos seus dedos. Eu suspirei, tentando não me deixar afetar por cada gesto seu, e a olhei ainda decidida. Sentia-me capaz de ser cada vez mais sincera com a Mia.

_Não. Não preciso ir. Não preciso mesmo... – retruquei inquieta, também sussurrando – E você também não precisa ficar com ele. Mas você, você fica. Não é?! E enquanto você fizer o que você quiser, eu também faço.

Ela me encarou, perplexa. E envergonhada. Desviou o olhar do meu, por fim; grande corajosa você, hein. E não era como se eu odiasse a Mia por estar com o Fer. Não era isto! O Fer era meu amigo. E a Mia era a, bom, a Mia. Eu entendia todas as nuances. Entendia desde que entrara de cabeça naquela confusão. Acontece que eu não podia tolerar (nenhum) ciúmes, menos ainda do tipo hipócrita. E estava, ainda por cima, desesperada para sair logo daquela situação – os olhos da Clara, a mão da Mia, o próprio apê vazio. Fechei a jaqueta, apressada, soltando-me dela e abrindo para a porta do quarto.

Ela me dera passagem, quieta. Não respondera nada. Andei pelo corredor sem voltar atrás, sem nem olhar, e encontrei a Clara ainda na porta. Dei-lhe um beijo breve e fomos. Descemos pelo elevador, péssimo timing. Eu respirava inquieta. E ela agia de maneira um tanto estranha e sem qualquer afeto, forçando-se a conter. Procurei ignorar todos os sinais e saímos do prédio juntas, subindo a Frei Caneca em direção ao lado “bom” da Augusta. Isto é, a área em que as casas de strip e as baladas indies sujas são substituídas em massa por restaurantes hypes e lojas de estilistas em começo de carreira. Acendi um cigarro.

Um pouco depois de atravessarmos a Paulista, parei para pegar café. O dia estava mesmo frio, o termômetro da rua marcava 14ºC e a ressaca me maltratava, junto com o vento. Nenhuma palavra da Clara no caminho todo – e isto era pior que os dois fatores anteriores juntos. Por favor, por favor... eu lhe implorava mentalmente, em silêncio. não começa, por favor! Cruzou a minha cabeça, involuntariamente, a época em que eu ainda namorava a Marina. Não, vai. Tentei evitar pensar naquilo, não começa você agora, todavia sem muito sucesso. As nossas antigas discussões entravam cada vez mais alto na minha mente, escandalosas e carregadas de drama. Naquele tempo, os meus atos eram motivo muito mais concreto para se ter, de fato, ciúmes.

A Clara não é a Marina, eu me convencia, escuta aqui. Mas o que ela era, então?! Desde que voltamos a nos ver, não discutimos premissa alguma do nosso “relacionamento” – para qualquer coisa que fosse, eu odiava estabelecer premissas. O problema é que, sem isto ou qualquer conversa nossa, eu não sabia até onde ela tinha direito de agir daquela forma. Simplesmente por eu estar sozinha na sala com a Mia, isto é. E se havia uma coisa na qual eu era realmente péssima, realmente péssima; era, sem dúvida, em discutir o meu comportamento com outras garotas. O meu ego e a porcaria da minha defensiva automática: realmente péssimos. Eu sequer sabia se a Clara andava saindo com outras pessoas!

Atravessamos a Lorena lado a lado, ainda em silêncio. Nenhuma de nós dizia nada desde a Paulista. As ruas estavam relativamente cheias naquele horário, os alternativinhos e os compradores de plantão circulavam com o seu melhor look inverno. Descemos a última quadra entre eles, apenas até a metade. E já em frente à galeria, a Clara me segurou para que eu esperasse ela acender um cigarro; o meu acabara no quarteirão anterior. Acendeu. Deu a primeira tragada, me oferecendo-o num gesto automático. Aceitei. Traguei duas ou três vezes também, devolvendo-o logo em seguida para ela. Os seus olhos não saíam de mim; os dedos seguravam o filtro e pressionavam os lábios, suavemente.

_Eu vou te perguntar... – ela disse, bastante segura – ...isto... – a Clara me encarava, tranqüila – ...antes de a gente entrar e eu não quero que você pense que me deve alguma coisa, mesmo. Mas eu queria que você falasse a verdade...
_Cara... não, meu, por favor.

junho 01, 2012

52 ways to murder anyone

Uma tonelada. Este era o peso da minha cabeça no dia seguinte, afundada contra o travesseiro e tentando suportar o estômago retorcido. Passei mais de quarenta dos minutos inicias da manhã deslizando de um lado para o outro, inquieta na cama; sem voltar a dormir e também sem acordar de vez. No limbo da ressaca. Maldição. Levantei, num azedume indescritível, e arrastei os pés até o piso gelado do nosso banheiro. Coloquei então os dedos na garganta e forcei para fora do meu corpo todas as doses erradas da noite anterior; os meus braços estavam fracos e trêmulos. Sentia as mãos frias. Molhei o rosto e escovei os dentes, repetidas vezes. Me olhei no espelho, argh.

De volta ao quarto, vesti um moletom cinza – o mais confortável do meu armário – para tentar me esquentar. Coloquei ainda um par de meias grossas e, já me sentindo melhor, fui até a cozinha pegar um copo de Coca-cola. Abri a geladeira; a minha cabeça e o meu corpo resmungavam a cada movimento. De lá, com o copo em mãos, andei preguiçosamente até a sala de estar, onde me deparei com o caos silencioso restante da madrugada. O apê parecia ter sido saqueado ou ainda sobrevivido a uma guerra. Envolvendo copos vazios, garrafas e latas amassadas de cerveja.

Empurrei uma jaqueta e algumas das coisas largadas sobre o sofá, despejando-as de qualquer jeito no chão. Liguei a TV, demorando um pouco para achar o controle, e acendi um cigarro ao me deitar; a barriga virada para cima. Mudei o canal para um seriado qualquer que passava. Fiquei ali por algum tempo – fumei o cigarro apenas até a metade e o apaguei na mesa de centro. O meu cabelo amassava-se contra o encosto, tinha uma das mangas do moletom apoiadas na testa; estava confortável. Tanto que acabei cochilando. Não sei bem quanto tempo se passou e nem quando eu despertei de vez. Senti alguém acariciar levemente os dedos da minha mão, que pendia sozinha para fora do sofá. Em ritmo lento, como se deslizasse suavemente a ponta dos dedos sobre a extensão dos meus.

Abri os olhos e a vi ali. A Mia estava sentada ao pé do sofá, no chão da sala; só de blusão e apoiada num dos braços com a cabeça. Descansava-a, bem próxima às minhas pernas. Ei, você , sorri. As suas mãos desenhavam caminhos nas minhas, no pequeno trecho descoberto do meu antebraço. O sofá havia repuxado o moletom, apenas um tanto. Já a outra manga do agasalho cobria parcialmente os meus olhos, o meu braço largado sobre a testa escorregara; eu a observava dali, por baixo. Estava confortável, mas um pouco fora da realidade. Aquele era, provavelmente, o primeiro carinho que eu recebera da Mia. Em todo aquele tempo.

Foi deslizando dois ou três dos seus dedos pela minha pele, livre. E despreocupada. Mas onde está o... de repente, eu voltei à realidade de uma só vez e arregalei os olhos na mesma hora, puta merda. Ajeitei-me no sofá, mais para cima, tirando o braço do alcance dela. Tinha me dado conta de onde e com quem eu estava e em plena vista. Merda, merda. A Mia levantou a cabeça do apoio do braço no sofá, como se despertasse junto comigo, assustada. Sem entender minha reação, os seus olhos procuraram os meus.

_O, o que você está fazendo? – eu murmurei primeiro, estava eu tão sonolenta assim? Onde estava com a cabeça? – Cadê o Fer?!
_Relaxa, meu, ele saiu... – ela riu, trazendo novamente a minha mão para perto de si e olhando os meus dedos com carinho – ...faz tempo já, foi levar o Binho e o Rafa lá em Santana.

Hum, sei”. Encostei de novo o corpo contra o sofá, um pouco mais tranquila. Não sabia, porém, o que pensar da situação. A minha ressaca continuava me impossibilitando qualquer sentimento decente, a minha cabeça estava confusa. E as suas mãos ainda estavam com a minha. Me sentia estranha assim.  

Não faz isto, não deixa começar. Argh. 

Parte de mim gostava. Gostava de qualquer interação, de cada pequena atitude da Mia. O problema era que a outra parte não pararia de gritar nos meus ouvidos, suplicando, pedindo para eu me afastar. Eu não tinha condições de voltar ao caos que fora no passado; àquelas incontáveis madrugadas surtando na cozinha, sozinha, imaginando ela com ele e me odiando por cada passo que eu dava, por cada palavra que dizia para ela, fumando um cigarro atrás do outro. Você não faz bem para mim, garota. Você não faz bem nenhum. Só que lá estava ela, tão bonita e tão confortável, ali, comigo. Eu não conseguia tirar a minha mão das dela.

_Cara, não acho que a gente deveria estar segurando as mãos, assim – eu comentei com ela, ainda sonolenta –, no meio da sala...
_Por que?! Ué, se alguém chegar, eu digo que estava só agradecendo por aquele beijo de ontem... – ela fez graça, se debruçando de leve sobre o sofá.
_Sei... – eu ri.

Ela colocou a cabeça levemente apoiada sobre a minha barriga, sem pedir permissão; e ajeitou o cabelo atrás da orelha. O rabo que usara na lateral do pescoço durante a festa havia deixado uma leve marca, ondulando aquele trecho. Achei fofo, sorri. Ela me olhava, numa liberdade incomum, principalmente para ela. Uma curiosidade me tomou, de repente.

_E como... como você conseguiu que a sua amiga me desafiasse, afinal? – perguntei, achando graça em lembrar da história.
_Eu pedi.
_Mas ela não achou estranho, meu? Do nada assim?!
_Não... Disse que sempre tive curiosidade – ela riu, falávamos em tom de segredo –, mas que preferia que fosse você, que eu já conhecia. E ela topou.
_Nossa. Você não tem noção de como eu quis te matar ontem, cara. Juro.
_Eu disse para ela não contar pro Fer que eu que tinha pedido.
_Sei. Muito esperta voc...

Foi então que a campainha tocou, subitamente. Nós duas nos entreolhamos, na mesma hora, e nos afastamos num gesto automático. Mas... espera, trancaram a porta? O Fer esqueceu a chave?, estranhei. Levantei-me do sofá, passando por cima do braço, e fui na direção da entrada. Com o meu cabelo amassado, a branquelice nítida da ressaca. A Mia continuou no chão, sentada, e observou. Virei a chave na fechadura e notei que já estava aberta; então girei a maçaneta. Dei um passo para trás ao olhar, o que diab...? Era a, a Clara. Com uma jaqueta preta, botas por cima do jeans e um cachecol com flores pequenas, indicando que estava mesmo frio do lado de fora. O seu cabelo castanho caía, bonito e desfiado, por cima do lenço.

_E... e aí, meu?! – eu a cumprimentei, surpresa – O que você tá fazendo aqui?
_Ah! Eu dei uma passada na Augusta, queria ir lá na galeria Ouro Fino comprar umas coisas e aí pensei em te chamar para ir junto. Ia te mandar mensagem, não sei quão cruel está a ressaca aí ou não... – ela riu e olhou por cima do meu ombro.

A sua expressão mudou na mesma hora, merda, certamente ao ver a Mia sentada ali e notar nós duas sozinhas na sala. Ela então tornou a me encarar, agora menos confortável, e hesitou.

_O Fer... – ela disse baixo e voltou a olhar para a sala, por cima dos meus ombros – ...está aí?