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junho 26, 2010

Friday is casual (sex) day

O café-da-manhã foi constrangedor – e adorável.

Talvez fosse o pé da Mia no armário ou talvez só coisa da minha cabeça, mas sentar numa mesa com Sr. e Sra. Pais-da-Mia enquanto eu fingia ser amiga dela, depois de uma noite daquelas, me fazia sentir como uma adolescente de novo. A começar que eu não tomava café-da-manhã numa mesa de família há anos. Mal sabia o que fazer comigo mesma. O meu comportamento social nunca foi lá muito exemplar e, entre membros responsáveis de uma geração mais velha, eu era um fracasso absoluto.

Não que eu ligasse muito, isto é, o que eu queria era ter sucesso com a filha – e isso eu já tinha garantido, em cada olhar e risadinha discreta que trocávamos, entre um gole e outro de suco fresquinho. A proporção era algo como 100g de comida para cada 5 litros de bebida. Ressaca, né. Terminado o momento embaraçador obrigatório, pulamos da cadeira e nos apressamos para sair o quanto antes daquele apartamento.

Me despedi dos meus “sogros”, certa de que não havia causado nenhuma boa impressão. Ainda assim, o pai da Mia nos ofereceu carona. Recusamos educadamente e eu menti a existência de um carro próprio "estacionado logo ali na esquina" – e a existência de uma carta de motorista também. Pouca vergonha. Descemos de elevador aliviadas e saímos andando pela rua, puxando papos furados e os cigarros do bolso. O dia estava gostoso. A Mia não conseguia parar de rir, zombando da minha performance desconfortável em frente aos pais dela, e eu sorria envergonhada, achando graça também.

Entramos no primeiro ônibus que passou em direção à Consolação e nos apertamos com aquela multidão-das-8-e-meia típica de São Paulo. Entre mochilas e corpos em excesso, coloquei minha mão ao redor da Mia, segurando-a nas costas para que não se desequilibrasse com os trancos do busão, enquanto eu me apoiava num dos canos de metal. Conversamos e rimos o caminho todo, num estado de felicidade quase involuntário, sem sequer notar o cansaço que ficara de uma das noites mais longas (e incríveis) daquele ano.

Descemos, por fim, nas redondezas do Mackenzie. Calculei os meus passos, lentamente. Queria aproveitar o máximo de tempo possível ao lado dela. Sabia que aquele não era o meu lugar: estava abarrotado de amigos dela e de gente que conhecia o Fer. Uns prováveis dedos-duros, eu não podia me meter à besta. E isso era uma tendência na minha vida...

Então olhei. Observei atenciosamente cada esquina e porta e comércio fechado ao longo do caminho, que também estava freneticamente movimentado pela massa paulistana, até encontrar um bar fechado, cuja porta entrava cerca de dois metros parede adentro, escondida. Sem pensar duas vezes, meti a Mia ali, rapidamente, e dei-lhe um último beijo antes de entregá-la atrasadíssima para a sua aula.

Meu deus. Eu precisava daquilo.

O beijo roubado tinha gosto de adolescência, de proibido. Voltamos para a rua com na mesma presteza que sumimos dela, mas agora com uma despedida decente na memória. Acompanhei-a até a porta da universidade e tentei não me despedir mais, apenas voltei os passos, andando de costas e sorri para ela. Ela se virou e entrou no corredor. Caralho. Eu era a mina mais feliz da porra do mundo. Aquilo tinha sido maravilhoso – tudo aquilo. Subi a rua repassando na minha cabeça cada segundo daquela noite, cada centímetro daquela mulher. Eu nunca estive tão feliz.

Entrei e saí do metrô como se nada fosse, sem perceber o que estava fazendo ali – ou no mundo –, completamente imersa nos meus próprios botões. Cheguei no estúdio não-sei-como, passei por todo mundo sem abrir a boca, mas provavelmente sorrindo de ponta a ponta da cara, desavisada. Sentei na minha cadeira e olhei para a frente, dando de cara com um dos meus colegas engraçadinhos de trabalho, que me observava pacientemente.

_Você não dormiu hoje, né? – ele concluiu, rindo. 

junho 22, 2010

Muridae nata

_Daqui a pouco minha mãe vem me “acordar”... – a Mia sorriu, com as pernas ainda cruzadas sobre o lençol e me olhando com carinho.
_Te “acordar”, né... – eu pisquei para ela, rindo.
_Vamos, a gente precisa se vestir... – a Mia fez um gesto para nos tirar dali.
_Ah não, meu... Tá cedo demais!

Eu me enfiei no travesseiro, rapidamente, enquanto ela tentava me puxar e ria.

_Eu preciso ir pra faculdade!
_Claro que não precisa.
_Ah, não preciso? – ela riu, de novo.
_Não... – eu sorri, satisfeita, olhando para ela como se o simples fato de eu negar tal necessidade fosse o bastante para desfazer a sua existência – ...não precisa, não.
_E você também não precisa ir trabalhar, então?
_Para tudo dá-se um jeito, garota... – eu sorri, imprestável.
_E você não acha que já causou um estrago grande o suficiente?
_Estrago em quê?
_Em mim, na minha vida, na minha cama... – ela riu.
_Não.
_Não?! – ela se indignou, rindo.
_Ainda dá para estragar mais um pouquinho... – eu sorri, soando quase malvada.
_Ah, você acha que ontem não foi o bastante?
_Aquilo não foi um estrago... foi meia noite de caos controlado.
_Ahh... certo. E o que mais você poderia querer de mim?
_Tudo, oras. Todo o resto.
_Olha, não sei se tem muito mais para eu te dar... – ela mordeu a língua, toda bonitinha em sua indecência admirável – ...mas você pode pegar o que quiser.
_O que eu quiser? – eu ri, já puxando-a pela cintura na minha direção – Olha o perigo...

A Mia riu e logo se abaixou para me beijar. Numas carícias matinais, despreocupadas. Você é minha, eu pensei, contente, enquanto a abraçava pela cintura e a apertava contra o meu corpo. Mas não era tão simples assim. E imediatamente, a lembrança da nossa realidade me bateu violentamente. Não, não bateu na consciência – que é exatamente onde deveria ter batido. Me bateu foi no peito, como uma dor aguda e quase insuportável.

A Mia não era minha.

Inferno. É o tipo de dor que sufoca, que te faz sentir encurralada. Como um rato contra a parede. Eu estava metida até a porra da minha garganta em um problema sem solução – perdidamente apaixonada, naquela cama, pela namorada do meu melhor amigo. Pois é. No fundo, quem se acha esperta demais para cair na armadilha, acaba se ferrando mil vezes mais. Porque o orgulho te enfia no fundo da boca do gato, faz você continuar e continuar e continuar, errada e cheia de si. Quando você se dá conta, já não tem mais volta: você foi longe demais. E acaba engolida pelo escuro, sem luz alguma para indicar o lado de fora, incapaz de ver por onde entrou. Seria melhor ser uma trouxa, do tipo que não se aventura por aí, e só me meter pelos buracos pequenos. Não é? Do que se achar boa o suficiente para o queijo da ratoeira. Agora eu estava fodida. Tudo o que me restava era esperar para ser mastigada e digerida de vez por aquela merda toda. Era só uma questão de tempo.

Então cumpri meu papel. Afinal, quem se mete pelos buracos e esgotos da vida, sabe ser sujo como ninguém. É quase intuitivo. Deslizei sem dificuldade pelo seu corpo e intercalei as pernas da Mia nas minhas, apoiando um dos meus joelhos contra o seu ombro, enquanto a beijava. Puxei-a firmemente contra mim, ainda com as mãos na sua cintura, e senti o seu calor me contagiar. Hmm. Bem quando a indecência começava a afastar, enfim, os pensamentos inapropriados da minha cabeça... Surgiu um barulho na porta, do nada.

_É a minha mãe!

A Mia saiu de cima de mim, na mesma hora. Num só pulo.

_Está trancada, gata... – argumentei, agarrando-a de volta.
_Não, é sério... – ela riu, nos meus braços, tentando sem muita determinação se livrar das minhas mãos mal-intencionadas.
_Vamos fingir que estamos dormindo, vem...
_Não dá, eu preciso ir lá... – a Mia insistia, rindo.
_Vem aqui, vai, deixa ela bater...
_Para! Preciso mesmo abrir.
_Ok. Eu sei... – retomei o bom senso e a educação, soltando-a, e me ergui com os cotovelos apoiados no colchão – E eu, o que faço?
_Assim, o ideal seria que ela não te visse sem roupa na cama da filha dela, não é...
_Quer que eu me esconda no armário?
_Junto comigo? – ela riu.

E eu comecei a rir, também.

_O quê? – tirei sarro dela, desacreditada – Já está fazendo piadinha com a própria sexualidade? Nossa, mas isso é que é bichice, hein...
_Se veste aí, vai... – ela me puxou da cama e empurrou para o centro do quarto, onde as nossas roupas estavam largadas.
_Tá bom, tá bom...

Eu me rendi, pegando as roupas no chão. Fui colocando a calcinha e a camiseta de qualquer jeito; e a Mia fez o mesmo.

junho 17, 2010

Intimidade

_Você trancou a porta? – a Mia me perguntou, quando os passos de alguém despertaram o corredor, que antes estava em silêncio.

“Eita, não lembro”, eu respondi, aflita. E não lembrava mesmo. Álcool, determinação, endorfina demais. A Mia se levantou, rindo, e se apressou até a porta, descalça, virando a fechadura antes que o alguém do corredor resolvesse causar um constrangimento enorme. As horas naquele quarto haviam passado lentas e maravilhosas, eternas, perdemos a noção do tempo.

A luz da sexta-feira já entrava pela janela, mas eu não tinha reparado até então. O quarto da Mia tinha cortinas amarelas – ou eram transparentes? Talvez fosse o sol daquela manhã que as coloria, sinceramente eu não sei. Sem a Mia ao meu lado, as observei calmamente, cada desenho e pequeno contorno que subia o tecido e depois as argolas, a madeira e o teto, sem pressa, deitada entre os lençóis bagunçados.

O conforto da cama começava a esfriar sem ela ali, mas a preguiça me impedia de me mover. E eu não mexia, de barriga para cima e com as mãos embaixo da cabeça, sentindo minha pele descoberta arrepiar de saudades dela. Volta para cá, pensei. E a olhei de longe, em pé do outro lado do quarto. Os meus olhos acompanharam cada curva descoberta do seu corpo, conforme ela mexia no seu armário. Eu me sentia bem, me sentia completa.

Estava esgotada de pensamentos sujos, ainda que a observasse nua – só me restaram os sentimentos difíceis de admitir. Aqueles. Enquanto isso a Mia deslizava as pernas uma na outra, se esquentando, provavelmente com aquele mesmo frio solitário repentino que eu, subindo e descendo os pés descalços no piso gelado. Não tinha uma só roupa cobrindo o seu corpo, nem vestígio algum de vergonha ou desconforto. Só ela. E era encantador.

Por mais que eu estivesse fisicamente cansada, sentia uma vontade tranquila de não dormir nunca mais. Queria só ficar ali, em paz, olhando a Mia esquentar as pernas uma na outra. Não eram as memórias da noite anterior que me mantinham desperta, nem mesmo as expectativas do que estava por vir. Era só... sei lá, o jeito descomplicado como eu existia naquele momento. Não sentia isso há muito tempo. Essa plenitude. A Mia caminhou de volta para perto de mim e sentou-se ao lado do meu corpo na cama, com as pernas cruzadas em cima do colchão.

Aquela era a primeira vez que eu a olhava assim, parada, a uma distância tão pequena de mim, sem que isso me causasse ansiedade. Ou qualquer complicação emocional. Olhei para a Mia como quem olha, sem surpresa, para uma parte da sua própria vida. Como se fosse natural que ela estivesse sentada ao meu lado, escondendo um sorriso bobo de quem ficou acordada a noite toda comigo. Como se ela sempre tivesse estado ali.

E por um momento, eu esqueci que não.

junho 14, 2010

Marco Polo

Eu não tinha certeza se eu era, de fato, tão boa professora ou se era ela tão boa aluna assim, mas não importava. A verdade é que, com aquela mulher no meio das minhas pernas, eu não precisava de muito mais além daquilo. Aliás, eu mal precisava de coisa alguma. Era capaz de gozar sem que aquela garota tocasse um só dedo em mim – e ela encostou bem mais do que isso.

Porra, mano.

A Mia me deixava de um jeito inexplicável. Eu perdi o ar muito, muito antes de ir para a cama com ela. Me tirava do sério, me dava aquela agonia irresistível e deliciosa. Não que fosse novidade – o meu coração nunca bateu direito perto dela. Pulava umas batidas. Parava, então voltava. E acelerava. Agora então, que nos faltava tanta vergonha, acelerava mais do que nunca. E eu me forçava a registrar aquele ritmo frenético: queria me lembrar de cada segundo daquele momento.

Quando terminou, a Mia se deitou ao meu lado, enquanto eu me forçava a recuperar rapidamente o fôlego. Precisei de uns 3 segundos e não mais do que isso – não com aquela mulher ali. A minha vontade era de lhe recompensar imediatamente. A noite e a manhã inteira. Mas os meus olhos se perderam por um instante na boca entreaberta da Mia, ofegante; no sutil enrubescimento do seu rosto.

_Isso foi... – ela interrompeu as minhas más intenções, falando mais do que a sua respiração lhe permitia no momento, mas sem conter a empolgação – ...isso foi tão, tão fantástico.

Ela passou as mãos no rosto, como se não acreditasse. Tornando a respirar, ofegante. O suor fazia com que alguns fios do seu cabelo, bagunçado, grudassem na sua testa. Eu a observei e comecei a rir, encantada pela cara de boba que ela estava fazendo. Completamente extasiada. Havia um certo charme ingênuo naquela animação vitoriosa toda. A Mia me olhava, não se aguentando. E parecia não conseguir descrever o que sentia. Eu meio ria e meio sorria, achando graça.

_Eu nunca... – ela continuou, desarticuladamente.
_Eu sei, gata... – eu ri.
_Não, não, foi tipo... – ela tentava explicar, com as mãos, e achar as palavras.
_Hmm... Foi o quê?
_Eu estava... digo... era em você... mas eu sentia como se estivesse...
_Como se fosse em você, certo? – eu sentei na cama, rindo, e olhei para ela.
_Sim! Eu nunca senti isso na minha vida – ela disse, impressionada pela sincronicidade biológica e me encarando de volta, como se me confessasse algo inédito – Meu deus, é genial.
_Cuidado, hein... – eu a adverti, brincando, e passei a perna para o outro lado do seu corpo, subindo em cima dela – ...esse sentimento, essa coisa que você sentiu, vicia...
_Juro. Eu nunca... – ela prosseguiu, ainda tropeçando na própria ansiedade de falar, desviando o olhar para fora da cama – nunca tinha... feito uma mina... sabe?! – ela me olhou de novo, séria – Caras são diferentes, sei lá. Mas você... E-eu sabia exatamente o que estava acontecendo, o que o seu corpo estava sentindo, não sei explicar. Caralho... – suspirou – É intenso demais.

Eu a observava, achando mais graça ainda. Era como assistir a uma criança, orgulhosa, contando da primeira vez que... sei lá, andou de bicicleta. Digo, era adorável. A Mia percebeu e me perguntou do que eu estava rindo, sem entender. Não respondi. Coloquei a mão no seu rosto, carinhosamente, e me abaixei na sua direção. A Mia me observava. Então encostei a boca no seu ouvido:

_Agora que você já sabe que gosto eu tenho... – disse, baixinho – ...deixa eu te mostrar o que fazer com o resto do seu corpo. 

junho 13, 2010

Olha...

_Se você não vai fazer nada a respeito... – a Mia se encheu, de repente, e me virou na cama, subindo em cima de mim. Colocou uma perna de cada lado do meu corpo, me prendendo entre elas, e segurou as minhas mãos sobre a minha cabeça, contra o colchão. Beijou minha boca com uma intensidade vingativa – amor, amor... – e em seguida pôs-se a descer pelo meu corpo, maravilhosa, com a ponta da sua língua arrepiando a minha barriga. Aí parou quase lá, lá embaixo, e me encarou mais uma vez – ...então, vamos ver se já deu tempo de eu aprender.

Puta que pariu, eu podia casar com essa mulher.

junho 11, 2010

Amor, amor

E não é doente e distorcida a nossa ideia de amor? A realidade dos apaixonados. Amor não passa de um sadomasoquismo involuntário do caralho, sempre foi. E o motivo é simples: porque se não for filho-da-puta passa despercebido. Se não te destruir, é porque o sentimento era pequeno. A própria linguagem deixa escapar a sua natureza, nas entrelinhas, o amor está atrelado ao sofrimento. Ninguém “se alegra” de amor: não, as pessoas “sofrem” de amor. Para o bem ou para o mal.

E eu já havia sofrido demais por aquela garota.

Se fosse qualquer outra, eu teria dado de cara o que ela queria. E pegado o que era meu, também. Sem complicações. Mas acontece que não era qualquer garota: era a Mia. E ela, sim, merecia sofrer. E sofrer muito. Porque amor é vingança pura – pelos meses em que eu a quis desesperadamente, por todos os dias em que ela me enlouqueceu e todas as vezes em que eu me contorci de ansiedade e de dúvida e de ciúmes e não a tive. Agora, quem ia se contorcer era ela.

Depois que sujei minhas mãos, não havia mais volta. A tortura ia começar – e dessa vez, para valer. Ah, se você soubesse o que eu estou prestes a fazer com você, eu me divertia, maldosa, enquanto descia beijando suas costas. E a sua cintura. E as suas pernas, até tirar o pouco que lhe tinha sobrado de roupa. Deslizei a calcinha pela sua bunda e a beijei, mordendo a sua pele brevemente, ajoelhada atrás dela no chão. O seu corpo me tirava do sério. Que mulher da porra. Virei-a de frente para mim, numa ansiedade de sentir o seu gosto. E me pus a fazer o que eu sabia fazer de melhor: não prestar, descaradamente.

A Mia estava totalmente na minha mão. Entrando em mim, o seu gosto na minha língua –, mas não. Não vou perder a linha, ainda não. E quando as suas pernas começaram a tremer, já fraquejando, eu parei. Não pensa que vai ser tão fácil assim, sorri, e me coloquei no meu caminho de volta para cima. Acompanhando cada contorno do seu corpo, com as minhas mãos cheias. Cheias de vontade dela. Conforme eu me afastava do meio das suas coxas, mais os seus olhos e as suas pernas se apertavam, insatisfeitos, com aquele sentimento de terem sido interrompidos.

Segurei o seu rosto, enroscando as minhas mãos no seu cabelo, e a beijei intensamente. Os seus dedos me agarraram de volta, determinados e ligeiramente provocados. Eu deixei. Isto é, por uns poucos minutos até a tomar pelos pulsos, colocando os seus braços atrás das suas costas. E a beijar de novo. E de novo. E então de novo. Aí a minha boca desceu, foi descendo, dos seus lábios para o seu queixo, para o seu pescoço. E eu a empurrei contra a cama.

Que se danem as aulas, eu pensei, enquanto me livrava da minha calça e da calcinha, sem tirar os olhos da Mia. Vamos fazer do meu jeito primeiro.

Subi na cama e coloquei em prática todos os truques sujos e baixarias que aprendi naqueles anos de vida bandida. Um por um. E toda vez que a Mia estava prestes a gozar, eu parava o que quer que eu estivesse fazendo e a obrigava a mudar de posição comigo. D E S G R A Ç A D A – eu podia sentir cada uma dessas letras presas em seus lábios, na forma como a sua pele friccionava contra a minha; em cada movimento angustiado, ansioso, do seu corpo.

Cada centímetro daquela garota imploraria por um orgasmo, se o seu orgulho não estivesse no caminho. Atingimos um ponto tão extremo que, mesmo que ela não ousasse confessar, cada gesto seu deixava nítido que ela estava prestes a explodir. Nem que fosse comigo, verbalmente, me xingando de todos os nomes e ofensas que lhe viessem à cabeça – mas alguma coisa ela teria que extravasar, e logo. Era um tesão cru. O seu corpo reagia da forma mais instintiva e descivilizada. O meu espírito imprestável me forçava a insistir cruelmente naquela sacanagem. Até que ela estivesse louca. Louca por mim, sim, se arrastando naquela cama e me implorando, de joelhos, para eu comer ela de uma vez. Ahh, o amor...

Pois é, um sentimento tão bonito.

E só quando eu comecei a achar que estava, enfim, chegando onde eu queria; quando cogitei lhe tirar daquele sofrimento gostoso, daquela angústia; e acabar com aquele joguinho romântico e sádico...

...a Mia me surpreendeu.

junho 08, 2010

Premeditado

Os seus olhos em mim, os meus olhos nela. O elevador subia eternamente em silêncio, cada uma de nós em um canto. O meu corpo inteiro estava faminto, numa vontade absurda de tê-la. Meu inconsciente me atraía, tendendo sem perceber para a sua direção, mas o meu conhecimento de jogo me empurrava de volta para a parede do elevador. Ela me observava, interessada na seriedade dos meus olhos.

Me insinuava de forma inteligente para ela. Sem gracinhas, contida. A intensidade crescia e a sua respiração aumentava de ritmo conforme passávamos os andares. Um por um, lentamente. Até que a sua respiração ficasse pesada, oscilando no peito, enquanto me encarava do outro lado do elevador.

Nós sabíamos o que ia acontecer.

A porta se abriu e, de repente, nos despertou daquele estado subentendido de tensão. De expectativa. Olhei para baixo e a Mia suspirou, quase aliviada, indo em direção à fechadura do seu apartamento. Não nos encostamos o caminho todo. Esperei que ela abrisse a porta e só então entrei, atrás dela. Todas as luzes estavam apagadas e a Mia se dirigiu à cozinha no escuro, acendendo a lâmpada que ficava sobre a mesa.

_Eu sei que eu não preciso beber mais nada... Assim, por um mês... – ela falou fazendo graça, sem me olhar, enquanto abria a geladeira e debruçava-se rapidamente nela – ...mas é que tem... cerveja... em algum lugar por aqui.
_Olha os primeiros sinais de alcoolismo aí... – eu ri, já sentada sobre a tal mesa, e ela fechou a porta da geladeira com o pé, segurando duas latinhas de Itaipava na mão.
_Você bebe também, né?
_Manda aí... – eu sorri, enrolando as mangas da minha camiseta e deixando os ombros à mostra.

Ela me entregou a latinha e eu a abri, apoiando os cotovelos nas pernas, ainda sentada na mesa. Ganhávamos tempo. A Mia encostou na pia, do outro lado, me encarando. O clima entre nós voltou. Bebemos calmamente, a latinha toda, sem conversar. Apenas nos entreolhando. Estou prestes a me dar tão bem, eu pensava e sorria, imprestável. Nós duas sabíamos onde aquela tensão toda ia dar – isto é, com sorte, na cama.

Matei o último gole da minha cerveja e fiquei em pé no chão. Por mim, te comia aí mesmo, garota. Eu a encarei. Minha vontade era de colocá-la contra a primeira parede que viesse na minha frente. A Mia tomou a frente e perguntou – sem esperar resposta – se eu não queria deixar minhas coisas lá no quarto, já se dirigindo ao corredor. E eu a segui, pensando muito bem em cada passo que eu dava.

Ela entrou na frente, abrindo a porta e acendendo a luz, caminhando não-muito-sóbria até a cabeceira da cama para deixar sua carteira e celular ali. Eu entrei segundos depois, fechando a porta e apagando de novo a luz, para então caminhar não-muito-bem-intencionada até ela. Como eu disse: cada passo.

Encostei nas suas costas e beijei o seu ombro por trás, colocando as mãos na sua cintura. A sua pele estremeceu. Subi a boca pela pelo pescoço e então pela lateral do seu rosto; e puxei seu vestido para cima, continuamente. Até deixá-la com bem menos roupa do que eu. O vestido foi para o chão. Só então tirei minha camiseta, jogando-a também e pressionando o meu corpo despido contra as suas costas. A Mia suspirou, os seus olhos se fecharam. Ela continuava parada, em pé. Eu a abracei, escorregando minhas mãos pelo seu corpo e descendo pela sua cintura. Beijei-a com mais força e senti ela pesar na minha direção, colocando a sua cabeça para trás, apoiada no meu ombro.

Subi minha boca, esfomeada, pelo seu pescoço. Indelicadamente. E as minhas mãos desceram direto pela sua pele, por baixo da calcinha, acompanhando as suas curvas até o meio molhado das suas coxas. É. Grosseria, eu sei. Mas eu já estava de saco cheio de ser educada. 

junho 04, 2010

D2

E o que aconteceu foi mais ou menos assim:
“Quer subir?”, ela disse pra mim
“Quer ficar?”, ela disse pra mim
“Vai com calma, vai...”, ela disse pra mim

Por amor ou besteira
Foi o que ela disse pra mim

(Aí já era, né...)




Amassando o resto

Ok. Matematicamente falando, não faz o menor sentido. Aliás, já não tinha muita lógica antes e depois só piorou. Um mistério. Ainda assim, no banco de trás do carro, no mesmo lugar onde mal couberam quatro pessoas na ida para o bar, nós fomos capazes de colocar o mesmo número de pernas, apertadas lado a lado, e ainda um par de mãos dadas entre duas das coxas em questão. Isto é, a minha e a da Mia – tanto as mãos, quanto as coxas. Espremidas uma na outra e, consequentemente, espremendo mais ainda o restante dos corpos envolvidos.

O mais impressionante é que nenhum dos demais passageiros do banco de trás reclamou dos 10 centímetros a mais de espaço ocupado. Pelo contrário, nós quatro voltamos mais felizes e animados do que antes. Pois é. Embriaguez é mesmo uma benção, não é? Foi como um milagre: um pouquinho de ar fresco, assim que pisamos para fora do bar, e todo mundo recuperou toda a energia. Aí, claro, voltamos o caminho inteiro atazanando o pobre do nosso motorista, o Gabriel.

Anestesiados de qualquer tipo de dor ou incômodo, devido à quantidade de bebida ingerida, nós éramos pura encheção de saco, em alto e bom som. Até a Mia deu uma acordada e, sob o efeito da saideira destilada, também tomou a liberdade de aborrecer o meu querido amigo junto a mim e os colegas publicitários. Não me lembro qual era a piada – me recordo bem pouco do caminho de volta –, mas envolvia gritos súbitos e a probabilidade séria de um acidente automobilístico caso nós tivéssemos sucesso em assustar a nossa infeliz vítima ao volante.

Ao chegarmos em frente ao prédio de um apartamentos por andar da Mia – ou Mansão Palace, como eu o apelidei em algum momento, entre uma tequila e outra –, estávamos todos rindo e nos divertindo além do normal por qualquer declaração boba. E o Gabriel, já rabugento de tanta asneira no seu ouvido, apressou a descida da Mia do veículo e sugeriu que nós três também saíssemos junto, deixando claro que a nossa má companhia não era mais bem-vinda. Todo mundo ignorou o seu mau-humor e ficou.

Não sei se as coisas aconteceram rápido demais ou se foi culpa da bebida – inconsciência alcoólica, memória em flashes etc. –, mas quando dei por mim, a Mia já havia me dito “tchau” e o meu amigo embriagado-na-bad estava prestes a sair novamente com o carro.

Merda, não.

As rodas chegaram a cantar no asfalto, por meio metro que fosse, antes que eu caísse na real e gritasse desnorteada para ele parar. Meu deus, espera! Abri a porta correndo, com o carro ainda em movimento, e subi na calçada a alguns metros da Mia. Recuperei a postura, enquanto me apressava atrás dela. Enfiei as mãos nos bolsos da frente do meu jeans e a chamei:

_Ei, eu não ganho um beijo de despedida?

A Mia sequer esperou eu terminar a frase e se virou, aliviada, acenando um “sim” animado com a cabeça. Tirei as mãos do bolso e a puxei imediatamente na minha direção, roubando um beijo ali na calçada.

junho 02, 2010

Bochechas amassadas

_O que tá pensando aí? – eu perguntei para a Mia, olhando-a.
_Não sei... – ela respondeu, também deitada, sonolenta – ...só pensando.
_Hm, eles vão nos chutar daqui logo, logo...

Eu disse, aleatoriamente, mas a Mia parecia imersa em seus próprios pensamentos. Os seus olhos castanhos me observavam com aquela lassidão bêbada, como se levassem minutos para percorrer cada milímetro do meu rosto. Até reencontrarem os meus olhos.

_O que é “desde sempre”? – ela me perguntou, de repente.
_Desde sempre?!
_É. Você disse... lá fora... que queria me beijar “desde sempre”.
_Disse?! – indaguei, embriagada, tentando me lembrar quando tinha dito aquilo.
_Disse, sim... – ela riu, ainda encostada na mesa, e a moleza dela começou a me contagiar – O que cê quis dizer com isso?
_Sei lá... – eu ri, ainda sem lembrar – Acho que isso mesmo, o que eu disse.
_Mas... Não pode ser desde sempre...
_Por que não? – achei graça.
_Porque não faz tanto tempo que...
_Eu quis te beijar quando te vi no Starbucks – a interrompi, numa sinceridade bêbada – Foi quando o Fer te apresentou pra mim, pela primeira vez... – eu confessei calmamente, apaixonada, sem ideia do que estava fazendo – Você era maravilhosa. E assim que você abriu sua boca, que a gente começoua conversar e se dar tão bem, não sei, só foi piorando...
_Nossa, eu não lembrava do dia que te conheci.
_Obrigada pela parte que me toca, hein... – eu ri.
_Boba... não foi isso que eu quis dizer – ela riu também – Eu acho que só não lembro de como foi direito. Do que conversamos. Eu lembro do dia, mas não lembro o que pensei sobre você ou o que fizemos, sei lá. Você era só a mina que morava com o Fer e essa história de lésbica não colava muito para mim.
_Como assim? “Essa história”?!
_Ah, eu achava que era desculpa dele para eu não ficar com ciúmes.
_Mano... – eu tirei com ela – Que paranoica!

A Mia deu um sorriso envergonhado e eu ri, os seus olhos estavam meio à deriva. Haja tequila nessa menina. Eu lembrava de cada segundo do dia em que a conheci. Podia descrever a forma exata como o seu cabelo caía sobre o ombro, os sorrisos distraídos, cada vez que ela olhou na minha direção. Meu deus. Como eu invejei o Fernando naquele dia. Saí do Starbucks com uma sensação estranha, não entendia. Demorei para entender.

_Qual a primeira memória boa que você tem de mim? – murmurei – Você sabe?
_Hum... – a Mia pareceu pensar – ...para falar a verdade, acho que um dia que você me chamou no seu quarto. Que fumamos ouvindo Zappa, lembra disso?
_Mano... Foi, tipo, dois meses depois da gente se conhecer! – eu comecei a rir.
_Tá... Não é a primeeeira coisa que eu me lembro, mas é a primeira memória inteira, sabe? Acho que foi a primeira vez que eu conversei direito com você... Antes eu, sei lá, não ia muito com a sua cara. Você era a mina descoladinha que morava com o Fer, eu achava esquisito – ela explicou e eu ri, indignada – Mas naquele dia eu vi que você era gente boa. Achei que ia ficar lá plantada na sala até o Fer voltar e você foi tão legal comigo.
_Eu não estava sendo legal, eu queria te beijar... – brinquei.
_Né? – ela riu e bocejou, com os olhos já quase se fechando, como se o sono lhe tivesse batido assim de repente – Às vezes, eu sinto que é tão fácil ficar perto de você... eu gosto quando... a gente fica assim... pertinho.

Os olhos da Mia se fecharam, momentaneamente. Ela parecia tranquila, como se cochilasse na mesa, só um pouquinho, depois de uma noite com pausas de menos e tequilas de mais. Eu, por outro lado, continuava com os olhos bem abertos, olhando para ela. Sequer piscava, observando-a com o meu rosto também deitado na mesa, contente com o pouco que ela havia acabado de me dar. Ela me fazia bem sem perceber.

_Hmm... – ela abriu os olhos de novo, como se tivesse lembrado de algo para falar – antes que eu me esqueça: a She-Ra e o He-Man são irmãos, sim.
_O quê?! 
_Não discuta.
_Mas eles... Argh, tá. Ok, ok... – eu ri, convencida, achando graça no retorno inesperado do assunto – ...só que, olha, não conta para o Gabriel. Ele ia ficar insuportável... Sério, vamos manter essa informação só entre nós duas.

A Resistência!

A tiazinha da limpeza já começava a varrer o chão do bar e os atendentes empilhavam os copos molhados no balcão. E nós continuávamos lá, persistentes. A Mia estava com a cabeça encostada na mesa, ouvindo a discussão fervorosa – e nonsense, óbvio – que eu estava tendo com o Gabriel. Os outros nos ignoravam em conversas paralelas, igualmente bêbados e animados. Fim de festa total, aquela decadência. As luzes acesas, o clima completamente destruído.

E a gente ali, insistindo, abusando da paciência do segurança, que nos olhava feio a cada dez segundos. Virei para trás, puxando um cigarro do maço e implorei para o tal segurança – com os olhos e um gesto torto, mais ou menos compreensível – que me deixasse acender lá dentro.

Ele negou, claro. E eu acendi mesmo assim, claro também.

Traguei três ou quatro vezes, rapidamente, antes que ele atingisse a mesa e ordenasse grosseiramente que eu o apagasse. Bosta. Às vezes, acho que seguranças de balada são como os assassinos de filmes de terror. Os filhos da puta andam naquela lentidão constante e macabra, mas, ainda assim, conseguem te pegar. Não importa quanto você corra: eles sempre – sempre – te alcançam. Diabos.

Afundei a brasa cuidadosamente na sola do meu All Star, com aquela cara de merda para ele, enfiei o cigarro inacabado de volta no maço e recomecei a minha briga com o Gabriel, ignorando o pedido do cara para que pagássemos logo e nos retirássemos do bar. Que se foda. Se eu não posso fumar, vou ficar mais quarenta minutos nessa porra e quero ver alguém reclamar, eu dei de ombros. Se nos expulsassem antes de pagarmos, eles perderiam metade da arrecadação da noite – só pela quantidade absurda de bebida que nós seis havíamos consumido nas últimas horas.

_Primos, talvez – eu continuei, tirando com a cara do Gabriel.
_Tá, tá... Mas você tem que admitir que rola um parentesco!
_Eu to zoando, cabeção. Óbvio que não rola!
_Rola sim, mano. Eles são irmãos!
_A She-Ra e o He-Man?!
_Gêmeos, meu... pode ver, o cabelo é igual, os dois lutam igual, os traços são parecidos...
_O que tem a ver, mano?! É só o mesmo artista, porra! Só por isso eles são irmãos?! Então o Mickey é irmão da Minnie...
_Não – ele revirava os olhos, irritado – É sério! Eu li isso em algum lugar...
_Onde? – eu o encarava, duvidando.
_Não sei, meu, não lembro! Sei lá, na internet... mas eu li!
_Ah, que fonte confiável... – eu retruquei, irônica.
_Eles são irmãos, mano... Tô te falando!
_Se eles são irmãos, qual é o sobrenome? Porque tem que ser igual, né...
_Não sei o sobrenome, mas isso n...
_Aí! Tá vendo?! – eu interrompi, como se aquilo demonstrasse que ele estava errado e eu, certa.
_O pai deles é um rei, eles foram separados quando eram pequenos.
_Eu assisti esse desenho minha infância inteira, maluco! Você acha que eu não ia saber?!
_É, sim, meu! Eles são, tipo, um príncipe e uma princesa... Mas ela foi roubada bebezinha para ser discípula do Mal!
_Aham, Cláudia, senta lá.
_Ah, mano... Não dá pra discutir com você! – ele ficou nervoso.

Eu cruzei os braços, rindo, enquanto o Gabriel reclamava trêbado de mim para a namorada. Balancei a cabeça, como se encerrasse o assunto, e olhei para a Mia, ainda deitada ao meu lado. Abaixei e encostei a cabeça na mesa, ficando no mesmo nível que ela. Observei, por uns segundos, os seus olhos quase fechando sobre a madeira.

_Oi – ela sorriu, ainda de lado, para mim.
_Oi – eu sorri de volta.