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maio 31, 2010

Ah, se vou...

Ah, se vou... – 2010-05-31 05:57


“When I was tired of looking around, oh yeah, I found her!”, ouviu-se ecoar lá do palco e a plateia inteira pôs-se a dançar, conforme os músicos aceleravam o ritmo do show. No auge da minha pretensão, eu puxei a Mia na minha direção, pegando-a pela cintura, e grudei o meu rosto momentaneamente no seu.

_Essa é a nossa música – eu disse, no seu ouvido, competindo com as caixas de som.

Ela sorriu para mim e eu fiz graça, olhando-a de perto. Cantava: “She was really one of a kind, I know that so”, a música prosseguiu e eu continuei com as mãos ao redor dela, numa serenata alcoolizada. A minha memória tentava acompanhar a letra, cantando com um charme descompassado na direção da Mia, que sorria a cada palavra bonitinha que saía da minha boca. Whenever that old foolish heart of mine was by that little girl”, eu pisquei, “time would stop and kindly give us the way”.

A Mia sorriu, lisonjeada.

“Ficou romântica, é?”, ela perguntou no meu ouvido, “tem certeza que é para mim?”. Ela riu e me olhou, me zombando. Eu fiz um gesto para que ela escutasse, apontando com o dedo para o meu próprio ouvido, como se soubesse o que estava por vir. “Well, nothing in my life happens like in the movies”, continuei cantando, olhando para a Mia, que se divertia comigo ali fazendo graça. E foi quando, junto aos caras do Peixoto & Maxado, eu expliquei: “she had another guy that loved her just the same”.

Aí, sim, a Mia começou a rir de verdade.

_Agora parece a nossa música! – ela brincou, no meu ouvido.

Eu ergui o braço e a fiz girar, dançando com ela na pista de dança. Enquanto confessava: “No, I don’t really like to spoil nobody’s marriage”, cantarolei, dando de ombros, “but I’m caught in the scent that something here is just not right”. A Mia ria, indignada, conforme eu implicitamente discordava do seu relacionamento com o meu melhor amigo, gesticulando a letra da música e piscando na sua direção. “C’mon, woman! I’m the one who’s gonna do you good”, a puxei ainda mais para perto de mim, nitidamente convencida de que aquela ceninha ia dar certo.

I will have no peace until you’re mine”, eu sorri e a Mia balançou a cabeça, desacreditada com as similaridades. A graça na brincadeira toda era que eu, de fato, queria dizer cada uma daquelas palavras. Aquela era sinceramente a minha música para ela e a Mia sabia disso. Ao decorrer dos minutos, ela se divertia mais e mais com as coincidências e ria da minha cara de pau, dançando junto comigo.

Enquanto isso no palco, a música se seguia: “Until you’re mine, until you’re mine, until you’re mine…”. A pista inteira balançava de um lado para o outro, conforme o vocalista repetia a última frase e, depois, o refrão. Nisso, segurei a mão da Mia e a virei, abraçando-a pelas costas e fazendo-a se mover comigo. Aquela era a primeira vez que nós dançávamos juntas assim. Eu estava adorando cada segundo. Antes da música acabar, a voltei novamente na minha direção, de frente para mim.

Senti que poderia beijá-la naquele momento.

Mesmo que todos os olhos fossem se voltar a nós, de repente tive a impressão de que ela não se incomodaria. Os meus últimos dois minutos de clichê romântico haviam me garantido isso. No entanto, eu não queria perder o gran finale. Olhei bem no fundo dos seus olhos e cantei, por fim:

I’ll do... I’ll do you.
I’ll do... I’ll do you.
I’ll do... I’ll do you.
I’ll do... I’ll do you good.*



*A expressão “I’ll do you good”, em inglês, significa “Eu vou te fazer bem”. No entanto, só “I’ll do you” quer dizer “Eu vou te comer”. Fica aberto a interpretações.

Garotas prendadas

Depois de cometer o nosso pequeno delito, eu e a Mia voltamos pelo mesmo lugar que entramos – por baixo da fita amarela –, agora nos sentindo um pouco mais dignas de estar ali. Isto é, na cena do crime. Andei na frente, segurando-a atrás de mim pela mão, e fui direto para o bar no lado de dentro. Todo aquele ar fresco do Itaim havia nos deixado ligeiramente mais sóbrias e isso era inaceitável. Claro. Peguei o menu de bebidas e comecei a passar o olho. Nada de tequila, pensei. E por sorte, a Mia concordou comigo.

Não dissemos nada, apenas nos olhamos e rimos, conforme o nome da diaba apareceu na lista. O problema é que: se não fosse tequila, o que mais poderia ser? Não queria nenhuma daquelas batidas emperiquitadas, com um bilhão de frescuras e licores doces e cerejinhas e guarda-chuvinhas. Não, nada atraente. Isso aqui é São Paulo, baby. E aqui se mostra valor mandando doses puras de destilados garganta abaixo. Isso, sim, é classe!

Eu preciso de um whisky, concluí.

E o meu desejo foi rapidamente concedido. Isto é, após anotarem uma taxa salgada na minha comanda. Tomei coragem e virei meu copo de Jameson assim que ele chegou, enquanto a Mia colocava sua boca maravilhosa ao redor de um shot adocicado de B52. No palco, a banda ia a toda velocidade e a pista de dança a acompanhava enlouquecida. Naquele ska gostoso, ô maravilha. Eu já estava no pique de dançar desde que entramos, então, resolvi me enfiar no meio das pessoas e arrastei a Mia comigo.

A ausência de espaço daquele bar lotado e a minha falta de vergonha natural alcoólica nos empurravam para perto uma da outra. Por outro lado, toda aquela heterossexualidade latente ao nosso redor quebrava um pouco o clima – quer dizer, para ela. Eu nunca me inibi por ser sapatão. Bom, para falar a verdade, eu nunca me inibi por nada e nem ninguém. Ainda assim, o meu empenho em fazer a Mia se divertir do meu lado tentava compensar o fato de que eu era seu primeiro encontro com uma garota. E tão publicamente assim.

Ao final da terceira ou quarta música que dançamos juntas, a Mia já estava completamente na minha. E eu totalmente em cima dela. Graças àquela plateia toda, porém, eu não estava conseguindo beijo nenhum. Ganhei vários sorrisos – o que já me deixava feliz –, mas eu queria mais. E sabe como é: se todo o charme e tequila do mundo não for suficiente, um pouco de Peixoto & Maxado resolve o problema.

Resolveu o meu, pelo menos.

maio 27, 2010

Gracinha, gracinha...

_Você estava querendo isso desde o começo, não?

A Mia riu, depois do beijo. As minhas mãos ainda estavam ao seu redor e eu a olhei, sem qualquer filtro.

_Querendo o que? Você?!
_É... Desde que a gente chegou aqui...
_Eu te quero o tempo todo, gata... Não só aqui... – respondi, sinceramente bêbada e falando mais do que devia – Eu te quero desde sempre.
_“Desde sempre”?! – ela repetiu.
_Ihh... – eu ri – ...agora vai ficar se achando aí.
_Que absurdo, claro que não... – ela riu comigo.

Coloquei uma mão de cada lado do seu rosto, segurando-a carinhosamente, e a beijei mais uma vez. Dei uns passos para trás, enquanto nos beijávamos, encostando num carro que estava na rua. Meus pés espaçados na calçada, as minhas costas apoiadas no vidro da porta e a Mia no meio das minhas pernas, abraçada contra o meu corpo. Ficamos assim por, pelo menos, uns 20 minutos. Nos beijando intensamente, sem parar. E a cada beijo, eu sentia mais o peso dela em mim – o seu quadril fazia pressão entre as minhas pernas, o seu corpo pressionava o meu. E isso foi me deixando mais e mais, progressivamente, sem vergonha.

Ao começo dos beijos, minhas mãos estavam posicionadas na sua cintura. Comportadas e sem ultrapassar os limites. Agora, elas já iam direto do rosto da Mia até bem mais abaixo, para testar o comprimento daquele vestidinho.

_Você está ficando abusada, hein? – a Mia me zombou, entre um beijo e outro.
_Desculpa, desculpa... – eu ri, tirando as mãos de cima baixo dela – Vou me comportar.
_Nós estamos em público, meu... – ela riu.

Falou a que não agarra o Fer em plena Augusta, sentada no colo dele numa sarjeta lotada, com todo mundo passando, pensei. Né.

_Que público? – eu ri – a rua está mais deserta do que...
_Tá, mas é que... – ela me interrompeu –  sei lá... é que é estranho!
_Estranho por quê?!
_Ah, não sei... Porque somos garotas, duas garotas... – ela riu.
_E daí?
_Ah, sei lá. E se passa alguém e vê a gente aqui?
_Mas então... justamente porque somos garotas, a gente pode se safar – argumentei.
_Você acha?
_A gente disfarça, finge que é amiga e tudo certo.
_Bom, se é assim... – a Mia levantou as sobrancelhas, fazendo charme para mim, e insinuou o seu corpo na direção do meu – ...por que você não me dá umas aulinhas ali no capô?!

Porra, mano.

_É brincadeira, viu? É brincadeira! – ela retirou na mesma hora, rindo, ao ver minha nítida expressão de “nossa, é para já”­ – Nem começa.
_Ah, não. Não, senhora... Quem começou foi você. Agora vamos terminar...
_Eu estava brincando... – ela ria, enquanto eu a agarrava, determinada a erguê-la e colocá-la em cima daquele capô.
_Ninguém mandou sugerir... – eu argumentava, bêbada.
_Perdão, perdão! – ela implorava.
_Sobe nesse capô!
_Não, não... – ela ria – Eu não estava falando sério! A gente está em público! Eu nem sei de quem é esse carro!
_Ah, não interessa... – eu fazia cócegas nela, para provocar.
_Sai! Eu não vou subir!
_Sobe!
_Não!
_Ah, não vai?! – eu a olhei, segurando o riso, fingindo seriedade.
_Sem chance – ela riu.
_Tá bom, então.

Bati as mãos no carro, como se encerrasse o assunto, e me virei para ir embora.

_ONDE VOCÊ VAI?!
_Vou embora, né, já que não me querem aqui... – dei de ombros e saí andando, me fingindo de ofendida, assim como ela havia feito meia hora antes.
_Volta aqui... Não vaaai...
_Não. Fica aí brincando com os meus sentimentos, falando que quer umas aulas, assim, sem consideração nenhuma... Fica aí sozinha, então!
_E os seus sentimentos ficam na sua calça, por um acaso?
_Vai à merda – eu a olhei de volta, tentando não rir. 

maio 25, 2010

Inside + Out

“I'm the girl
Who loves you inside and out
Backwards and forwards
With my heart hanging out
I love no other way”
(Feist)

Itaim Bibi

 _Livres! Até que enfim!

A Mia sorriu, aliviada, virando a esquina ao meu lado e se metendo comigo pelas ruas do Itaim, noite afora.

_Porra, que cara mala, meu!
_Nem me fale... – concordei, sem paciência nenhuma – Babaca. Dando em cima de você na minha frente, mano. Qual é o problema dele? O cara é louco, né? – eu reclamei, tagarelando bêbada num tom de indignação – Puta falta de respeito, mano. Juro. Puta macho sem noção. Não tem amor à vida esse...
_“Não tem amor à vida”, é?

A Mia começou a rir, me olhando. E eu passei a mão no rosto, constrangida.

_Ah, velho, eu fico irritada... Esses machos acham que podem tudo.
_Sei – a Mia riu e me provocou – Não achei que você fizesse muito o tipo ciumenta.

Que é isso. Eu? Nem um pouco. Só morro internamente toda vez que chego no apartamento e a porta do quarto do Fer está fechada, torturada pela mínima possibilidade de você estar na cama com ele. Mas fora isso sou 100% tranquilona.

_Não é, é que... – eu ri – Ah, sei lá...
_Ahm...
_O problema é que, porra, sabe? Não dá, meu. Não dá. Quando você cê já colocou a porra da sua boca no meio das... – subi as mãos para a lateral do rosto, como se estivesse segurando um par de pernas, uma de cada lado da minha cara – ...sabe? Numa mina, assim... – a Mia se divertia com a minha embriaguez descarada – ...quer dizer, esse é o máximo de intimidade que você pode ter com alguém. Depois disso, não. Não dá. Não dá! Qualquer babaca que vier colocar a mão na sua garota depois... Porra! Vai se foder! Ainda mais se for homem...
_Hmm, você não parece ligar muito com quem põe ou deixa de pôr a mão nas suas vinte mil namoradinhas por aí...
_Ahh, meu... Não fala isso! – eu olhei para o outro lado e a Mia riu, me zombando – Não é nem um pouco assim. Sério.
_Imagina. Está mais para um milhão!
_Pára, mano... Um milhão?! – eu ri, achando um absurdo – Nem tem isso tudo de lésbica em São Paulo! Eu não saio com tanta mulher assim.
_Ah não, é?!

A Mia levantou a sobrancelha, me encarando.

_Quem é a ciumenta agora? – a zombei.
_Eu não estou com ciúmes. Só estou constando fatos!
_Lógico que não! – eu retruquei, levantando a voz e rindo, indignada – Eu sequer estou saindo com alguém agora, tô de boa, na minha.
_É... Faz uma semana. Uma semana inteira. Nem isso! Desde domingo, mano, domingo! – ela riu – Nooossa, hein? Impressionante.
_Mas você é chata, hein, mano. Puta que pariu.
_Ahh, desculpa aí, mas para quem está falando de respeito, integridade e sei lá mais o quê...
_Olha, eu sinceramente não sei nem de onde vem essa minha fama, porque a minha vida amorosa é um lixo – eu balancei a cabeça e a Mia achou graça, me olhando de volta – E de qualquer maneira, você não é uma das minhas “namoradinhas”. Tá? Cê é diferente.

A Mia balançou a cabeça e olhou para o chão, deixando um sorriso discreto escapar. Eu não gostava falar dos meus sentimentos, mas estava bêbada demais para ligar. Um silêncio se instaurou logo após a minha pequena confissão apaixonada. Demos mais alguns passos, lado a lado, ambas procurando em nossas cabeças algum assunto para engatar. Paramos numa esquina, esperando os carros passarem para atravessarmos, já bem distante do nosso ponto de partida.

_Você tem alguma ideia de onde nós estamos? – a Mia riu.
_Sei, sim...
_Sabe?! – ela me olhou, rindo, como se duvidasse.
_Sei, meu! – respondi, ofendida – Tem um bar lésbico a umas duas ou três quadras para lá.
_Aham, tá...
_Tem, mano! Você acha que eu estou inventando? – achei graça – O Vermont, fica aqui pertinho.
_Nunca ouvi falar.
_Ah, é legalzinho até... – eu comentei, atravessando a rua com ela – ...meio schiki-miki demais.
_Meio o quê? – ela riu.
_Meio fresco... tipo, lá vão umas sapas velhas cheias da grana.
_E você já foi?
_Já, mas nem curto muito. Quer dizer, o lugar é legal e tal, só que lota dumas menininhas filhas-de-papai, cheias da grana... tipo você, assim... – brinquei – ...sabe?
_Vai se foder!
_Quê?! Não digo no mau sentido, meu... – eu ri – Até curto umas princesinhas.

Exagerei e a Mia se indignou. Tentei trazê-la para perto de mim, enquanto ela se desvencilhava das minhas mãos e atravessava a rua, voltando na direção do bar que estávamos.

_Vem cá, meu!
_Não, não... – ela respondeu, se fazendo de ofendida, e eu ria mais ainda – Depois dessa, eu vou voltar. Não vou ficar aqui sendo humilhada!
_Você não sabe nem o caminho, Mia... Volta aqui!

Eu corri para alcançá-la na outra quadra. Ela já estava a uns cinco metros do limite da calçada, quando eu a apanhei. Peguei ela pela mão, virando-a, e a puxei na direção do meu corpo. A prendi com os meus braços ao redor da sua cintura, impedindo-a de fugir, enquanto ela permanecia fazendo graça, de rosto virado e emburrada. Eu, por outro lado, não conseguia parar de rir. Culpa da tequila. Quanto mais eu ria, tentando convencê-la a continuar passeando comigo, mais indignada – “de mentirinha” – ela ficava.

_Retire o que disse! – ordenou.
_Eu não falei nada demais...
_RETIRE O QUE DISSE!
_Ok, ok! Você não é filhinha-de-papai – eu admiti e ela continuou à espera do resto da desculpa – ... nem princesinha, nem cheia da grana.
_E nem schiki-miki.
_Nem schiki-miki – eu reiterei e ela sorriu, satisfeita – ...e claro, também não mora com os pais num prédio imenso de um apartamento por andar em Higienópolis.
_Ah, vai à merda!

Ela se indignou, de novo. Eu ri mais ainda e ela me empurrou para trás, se soltando dos meus braços, se virando novamente para ir embora. Pôs-se a andar, reclamando bêbada da “impressão errada que eu tinha dela”, mas não chegou a dar nem três passos adiante. Eu a segurei, de novo, pela mão e a puxei mais uma vez na minha direção. Dessa vez, mais apertada ainda nos meus braços.

_Você é besta, meu? – eu a abracei e a olhei, com seriedade – Eu te acho maravilhosa, garota.

As palavras mal tinham saído da minha boca, quando ela me beijou. 

maio 24, 2010

O Pasto

Desde que a porra da Lei Anti-Fumo foi aprovada, a cidade de São Paulo entrou em estado de sítio. Os fumantes viraram umas porras de terroristas em potencial, perdendo seus direitos para o Estado. O que não me incomodava tanto, não é, sempre curti uma ação contra-cultural. Dou qualquer desculpa para desafiar o governo. O que eles fizeram foi só me dar uma oportunidade a mais de quebrar as regras: deleite total.

Mas, porra, puta que pariu, esses cercadinhos de vaca são foda.

Sair da balada para fumar numa área protegida por grades, me faz sentir a escória da humanidade. Pior ainda é quando o estabelecimento resolve economizar uns trocados e restringir nossos metros quadrados com aquelas fitas listradas de amarelo e preto. Me sinto uma merda de uma criminosa. Assassina serial de tabaco.

E o bar onde estávamos naquela noite era adepto desse estilo “homicídio ao ar livre”. Em meio à cena do crime, dividindo a calçada com umas outras vinte pessoas que se espremiam no perímetro demarcado pela fita, estávamos eu, a Mia e o babaca. Mais babaca do que nunca, aliás. Conforme o tempo passava, a babaquice só piorava. Todo assunto que começávamos era interrompido por aqueles 1,73m de pura preguiça e vergonha alheia. Que sequer fumando estava!

Praticamente babando em cima da Mia, ele se aproximou e disse:

_Acho sexy pra caralho ver mulher fumando...

Jesus, eu revirei os olhos.

_É? – a Mia tirou o cigarro lentamente do meio dos seus lábios e olhou na minha direção – Eu também...
_Pô, me dá um aí – o idiota me cutucou com as costas da mão.

Mas é muita audácia mesmo, eu pensei, enquanto negava o pedido mais absurdo da noite, alegando descaradamente já estar no final do meu maço. Ele a cercava como um abutre.

_Hm, e esse “Mia”... É diferente, não? – ele continuou, abusando da minha paciência – É o quê? Nome inglês? Russo?
_Italiano – ela respondeu.
_“Mamma Mia!” – ele brincou, num xaveco cafona, e nós duas reviramos os olhos imediatamente – Quer dizer “minha”, não é?
_Não “sua”... – a Mia comentou baixinho, levantando as sobrancelhas ironicamente.

Eu comecei a rir. Dei um tapinha nas costas dele e comentei:

_É, amigo, acho melhor você ir pedir aquele cigarro para outra pessoa... – aconselhei – ...vai pastar um pouquinho.
_Por quê?
_Só vaza.
_Você tem namorado? – ele perguntou, se virando para a Mia.

Claro. O imbecil não podia ter feito uma pergunta mais desconfortável. Que merda. Olhei para a Mia e ela abaixou a cabeça, fumando. Provavelmente sem saber o que responder, dadas as circunstâncias. Droga. Droga. Eu precisava fazer alguma coisa.

_Vem cá, deixa eu bater um papo com você... – coloquei o braço nas costas do mano e o virei para a direção oposta de onde estávamos, tentando tirá-lo de lá.

Começamos a nos afastar, lado a lado, e a Mia nos observou – os seus olhos pareciam aliviados por não ter que responder. Aquele era pior tópico que poderia ter surgido naquela noite e ia ser uma catástrofe caso ele insistisse no assunto. Juro. Não sei qual é a dificuldade de entender que alguém pode não querer ficar com você, mesmo sem namorar. Ainda assim, parece que a maioria dos homens só respeita uma mina quando tem outro macho envolvido. Argh.

Andamos cerca de cinco metros adiante, parando em um canto próximo à parede.

_É o seguinte, colega... Não vai rolar. Todo mundo aqui já sacou a quantas andam as suas intenções e simplesmente não vai rolar com a Mia.
_Cê me desculpa, cara, mas quem tem que me falar se está interessada ou não é ela – retrucou, ofendido.
_Mano, ela veio comigo. Acredite quando eu digo que ela NÃO ESTÁ  INTERESSADA.
_E daí que ela veio com você?
_Como eu posso deixar isso mais claro? – suspirei, me irritando – Ela está “comigo” no sentido Cássia Eller da coisa, entende? – expliquei e ele me olhou, confuso – Não?! Ok. Eu estou falando de colar o velcro, sabe? Lamber carpete, clube da Luluzinha, sapa no brejo, sapataria, caminhoneira, rachar a bolacha com a amiga.
_Não. Não mesmo. Nem a pau.

Justamente sem isso, colega...

_Você está tirando com a minha cara... – ele negou, balançando a cabeça, genuinamente surpreso – você e a...?
_É.
_Ela veio com você, assim, “com você” mesmo?!
_Pois é.
_Pára, cara, sem chance. Aquela mina não é sapatão...
_Olha, é. E tá comigo – comecei a perder a paciência –, então eu agradeceria se você não ficasse dando em cima dela.
_É que... Porra, ela não parece do tipo que...
_Pois é.
_Mano, você está falando sério?
_Bastante – respondi, mais uma vez, já de saco cheio daquele descrédito todo – Estamos entendidos, então?
_Opa. Desculpa aí, meu! É só que eu não...
_Ótimo – interrompi o que ele ia dizer e encerrei por ali.

Dei as costas, largando ele entre outros fumantes desconhecidos, e voltei o mais rápido que pude para... bem, ela. Sentia como se tivesse tirado um peso das nossas costas. A Mia me viu chegar sozinha e riu, achando graça da situação toda, consideravelmente bêbada. Eu me aproximei e a segurei pela mão, puxando-a entre as outras pessoas.

_Vamos dar uma volta, eu e você... – eu disse, levantando a fita ilegalmente, em direção à rua. 

maio 23, 2010

Mojo

_Ei, quer beber alguma coisa? – perguntei, assim que entramos.
_O que você vai tomar?
_Tequila.
_Tomo com você, então – a Mia olhou direto nos meus olhos.
_Essa é a minha garota... – eu ri.

O primeiro shot foi fácil. Sal. José. Limão. Colocamos nossos copos vazios de volta no bar e nos olhamos, a Mia arqueou a sobrancelha na minha direção. Imprestável. O segundo veio logo em seguida, num impulso irracional – e corajoso – dela. E eu me obriguei a acompanhar. Para não ficar feio, né. Já o terceiro foi sugerido intimado pelo Gabriel uns quarenta minutos depois, um pouco antes da banda entrar no palco. Eu e a Mia combinamos de dividir o copo, já consideravelmente bêbadas. O nosso plano, todavia, acabou sendo descoberto e a mesa inteira reclamou da nossa covardia. Merda.

_Que se dane, vamos lá... – eu respirei fundo e virei tudo de uma vez.

E essas foram as minhas últimas palavras sãs da noite. O que se seguiu foi uma gritaria crescente, competindo com os músicos, Peixoto & Maxado, naquela zona divertida e caótica típica dos bares paulistanos. Entre as cinco ou seis conversas paralelas que rolavam simultaneamente, indo e vindo de um lado para o outro da mesa, me mantive constantemente virada para a Mia – já com uma das minhas mãos confortavelmente acomodada na sua perna e ocupada em entretê-la com as minhas histórias e o meu papo furado.

...e estava funcionando, surpreendentemente.

Isto é, não fosse pelo babaca sentado do outro lado dela. Um dos colegas publicitários do meu amigo insistia em puxar assunto com o meu date, todo interessado na minha garota. Homens e a sua ausência completa de percepção, argh. Odeio como as pessoas imediatamente pressupõem amizade entre duas meninas. Porra, não está vendo que ela veio comigo?! Aquilo me tirava do sério. Mesmo que as ações dele se limitassem a uma “simpatia excessiva” na direção da Mia, eu sabia quais eram s intenções. E eu só queria que ele vazasse.

A atenção da Mia continuava em mim. Ignorando as investidas do macho, os seus olhos buscavam os meus em meio àquele caos. E ela se movia perigosamente, cada vez mais ao alcance das minhas mãos. E da minha boca. Perto demais, porra. Eu podia quase sentir o seu gosto, mas queria fazer aquilo direito. Desta vez eu preciso fazer direito. Não sabia quando ia ter outra chance de estar sozinha assim com ela. A questão é que eu não queria entrar só na sua boca – e em outras partes do seu corpo, por assim dizer –, isso eu já tinha feito antes e não duvidava da minha capacidade de fazê-lo de novo. O que eu queria mesmo era entrar na sua cabeça. No seu coração. Entrar e ficar, sabe? E isso, com certeza, requer um esforço maior.

Mas aquele inconveniente estava me empatando. Mesmo que sem muito sucesso – afinal, a Mia não estava nem aí para ele –, ainda era um saco. Não entendo essa incapacidade biológica do sexo masculino de notar quando as minas simplesmente não estão afim. Toda a linguagem corporal da Mia o ignorava. O seu corpo estava inteiro voltado para mim. Os seus olhos desviavam toda vez que ele abria a boca. E o fuzilava mentalmente. Mas o trouxa continuava lá, inabalado, se achando a pica das galáxias. Não. Chega. Eu não estava disposta a aceitar muito mais daquilo. E como já estava no pique de tirar a Mia dali sair para fumar, sugeri que fôssemos dar uma volta sozinhas lá fora.

(...)


Pois é, o imbecil não captou a parte do “sozinhas”.

maio 22, 2010

Conspirando

Quadrados, comprimidos e amarrotados: chegamos. Até que enfim. Nós estávamos todos ansiosos – ou pelo menos, nós quatro do banco de trás – por um pouquinho de ar e espaço. Descemos atrapalhadamente do carro, num certo desespero. O ar nós conseguimos assim que saímos, aleluia, mas não demorou muito para notarmos que o espaço deixaria a desejar logo que pisássemos bar adentro. Estava lotado.

Destemidos, os garotos e a namorada socialmente muda do meu amigo seguiram em direção à porta, prestes a enfrentar a muvuca do show. Eu, por minha vez, não estava lá muito animada em perder o espaço e o ar que eu tinha conquistado há menos de dois minutos. A Mia hesitou em meio à calçada, meio perdida. Ela parecia não saber direito como agir do meu lado, fora do apartamento ou sem a iminência do Fernando. Ela mal olhava na minha direção de tanto nervosismo. Fez um movimento para segui-los e eu a segurei pela mão, impedindo que entrasse.

_Vamos ficar um pouquinho aqui? – pedi.

Ela me olhou e acenou que sim. Me acompanhou até a lateral do bar, a poucos metros da entrada. Encostei na parede do estabelecimento e me curvei na tentativa de bloquear o vento, acendendo um cigarro, enquanto a Mia esperava em pé na minha frente. Levantei o rosto, uma vez que consegui fazer a brasa pegar direito, e olhei para ela. Podia te olhar a noite toda, sabia? A Mia tinha uma pintinha minúscula no canto do olho. Logo acima da curva formada pelas maçãs do rosto. Bem pequena, ali. Fiquei observando o seu rosto a meio metro de distância do meu – sem sorrir – e ela ensaiou um sorriso, por sua vez, meio sem graça.

Aquela proximidade me dava vontade de beijá-la. Você é linda demais, meu deus. Desviei o olhar para o chão, sem querer me precipitar, e traguei mais uma vez. Aquele seria um beijo público demais para lhe pedir. Assim que abaixei a minha mão novamente, senti a dela encostando na minha e roubando o cigarro de mim, casualmente. Levantei o olhar mais uma vez para ela e, sem saber bem por quê, tomadas por um nervosismo adolescente, nós duas rimos.

A Mia apoiou na parede ao meu lado, tragando duas ou três vezes. Ombro a ombro comigo. O silêncio começou a me incomodar um pouco – mal tínhamos nos falado desde que saímos de Higienópolis – e eu resolvi fazer qualquer gracinha para chamar a sua atenção.

_Hmm... E o Florian semana passada, hein? – comentei, assim que ela me passou de volta o cigarro.

Eu não sabia quem era Florian. Obviamente. Eu não fazia ideia. Duas horas antes, na maior cara de pau, joguei “UFC” e “lutas recentes” no Google para descobrir. E a Mia mordeu a isca: desembestou a falar imediatamente, detalhando empolgada cada round da última luta, no que era praticamente um monólogo. Ouvi ela descrever todos os movimentos e golpes deferidos com a mesma emoção que fãs de futebol discutem as partidas e suas respectivas minúcias. E enquanto isso, eu fumava ali na minha, quieta, achando graça. Após alguns minutos, sem ouvir uma só opinião sair da minha boca, ela parou de repente de falar:

_Você não viu a luta, né? – se deu conta.
_Não.

Eu sequer consegui conter o riso. Ela já tinha gastado um tempo considerável tagarelando sobre um embate que eu não havia visto, com dois caras que eu desconhecia por completo, numa competição que eu mal fazia ideia do que se tratava. Numa das minhas sinceridades acidentais, eu ri e olhei para ela:

_Eu só estava tentando te impressionar, gata...
_Meu deus – ela revirou os olhos e riu, indignada – Você é ridícula, sabia?

Sem argumentos para defender o contrário, eu concordei, rindo, apoiada contra a parede e com o cigarro ainda aceso.

_Espera só até a gente entrar e tomar umas... – pisquei na sua direção – Vou te contar tudo o que eu aprendi hoje sobre o “The Terror”, “El Conquistador”, o “Aranha”. Na internet tem tudo!

A Mia me olhou por um segundo e balançou a cabeça, como se não acreditasse na minha honestidade. Pegou mais uma vez o cigarro da minha mão e se virou para mim, encostando a cabeça na parede.

_Você gosta de tirar uma com a minha cara...
_Olha, sinceramente... – justifiquei – ...eu acho essa a coisa mais sapatão que tem em você, então sou 100% a favor.
_Mais sapatão do que estar aqui com você?

Tem razão. Eu sorri, envergonhada.

_E outra – a Mia continuou, indignada porque eu realmente jogara aquilo no Google –, eu achei que eu já tivesse te ensinado tudo isso...
_Ahh, gata, eu estava bêbada demais aquele dia... Não é nada pessoal! – me justifiquei – E também, né, quer dizer, eu fumo maconha desde os quinze. A minha memória é seletiva.
_”Seletiva”, sei... – ela arqueou as sobrancelhas, rindo.
_Não consigo guardar tudo na minha cabeça. Então, seilá, escolho lembrar dos momentos mais... relevantes... daquela noite na sua casa.
_Hum...
_E bom, sempre tem mais para se aprender, não é?! – olhei para ela, insinuando todas as minhas segundas intenções, com a cabeça já nas aulas que eu lhe devia.

A Mia riu, indignada, me olhando como se eu não prestasse um centavo. E eu não prestava nem meio. Joguei o cigarro na sarjeta e coloquei o meu braço ao redor da sua cintura. 

_Vem, vamos entrar... – eu ri, indo em direção à porta. 

maio 18, 2010

A.S.C. - Agonia dos Sem-Carro

Quinta-feira à noite e o menor ponteiro do relógio da cozinha escorregava para o número “10”. Eu o encarava, impaciente, segurando o cigarro de n° 39 entre os dedos. Vestia a minha melhor regata “quero te comer” preta por cima de um skinny jeans desbotado que beirava a promiscuidade deliberada. Um par de All Stars, os braços de fora e cabelo solto.

Pronto.

Na verdade, eu é que estava “pronta” já já quase vinte minutos. Cadê a porra do Gabriel, mano?, eu apoiava os cotovelos na mesa e tragava mais uma vez, olhando para o relógio na parede. O combinado era que ele passaria com o carro para me pegar às 21:45 e eu, que nunca fui pontual, estava milagrosamente a postos antes disso. Agora esperava ansiosamente pela minha carona, a um minuto de distância de um enfarte.

O apartamento estava vazio, silencioso. E era bom que estivesse – eu não queria encontrar com o Fer. Nos falamos horas antes, por SMS, e ele avisou que chegaria só mais tarde, mas não disse quando. E “mais tarde” já poderia ser naquele exato momento. Isso não é bom, eu me precipitava. Com todas as minhas forças, eu torcia para que o Gabriel chegasse antes e, assim, evitasse um encontro constrangedor com o namorado da garota que eu estava prestes a levar para sair. A culpa acabaria com a minha noite. E eu não conseguia evitar senão pensar que se isso acontecesse, seria um puta de um desperdício.

E o prêmio “Canalha do Século” vai para...

...enfim, o meu telefone tocou. Para a minha sorte, era a minha carona. Saí com pressa da cadeira, sem gastar mais um segundo naquele apartamento. Apaguei todas as luzes rapidamente, coloquei o celular no bolso e peguei as chaves de casa antes de sair. Eu gostava de andar por aquele corredor sem saber quando iria voltar – com sorte, na manhã seguinte. Atravessei o meu andar em direção ao elevador, tentando terminar o cigarro antes de chegar na porta metálica.

A rua estava semivazia, ocupada por um vento leve e frio tipicamente paulistano, e o carro do meu amigo estava mais cheio do que eu esperava. Dividi o banco de trás com dois colegas de faculdade dele – rodeada, de repente, de futuros publicitários –, enquanto o Gabriel assumia a direção com a namorada sentada do seu lado. E ainda faltava a Mia.

O Gabriel era um amigo de alguns anos já. Havíamos nos conhecido ao acaso num buraco indie chamado Atari e desde então mantivemos contato. Na época, eu estava me separando de uma garota-problema que eu arranjei – numa das piores decisões da minha vida – como consolo para me distrair por algumas semanas desastrosas, infernais, após o fim turbulento e bem mal-resolvido do meu namoro de onze meses com a Marina.

O resultado foi um caos. E envolveu uma quantidade inacreditável aspirinas para combater minha enxaqueca constante, uma ressaca após a outra, seguidas de centenas de ligações psicopata-possessivas para o meu celular. Ou seja, não podia nem ver mulher na minha frente quando resolvia sair e, numa dessas, acabei trombando com um Gabriel bêbado no Atari. Foi amizade instantânea.

Apesar da grande consideração que ele havia adquirido por mim, ao longo dos anos, e das furadas que enfrentamos juntos, não foi fácil convencê-lo a ir buscar minha garota lá em Higienópolis. Sendo que, né, o bar ficava no Itaim. Era até sacanagem fazer um pedido desses. Eu podia sentir o ódio mudo de cada integrante daquele carro enquanto seguíamos na direção oposta... por longos minutos.

_É aqui! – eu anunciei, assim que avistei o prédio da Mia.

Dei um toque no seu celular e ela logo saiu pelo portão, como se já estivesse esperando lá embaixo há algum tempo. A namorada do Gabriel me deu passagem e eu desci do carro, empolgada, ganhando um sorriso imediato da Mia assim que ela me viu. Todos os marmanjos que esperavam dentro do veículo espiavam atentamente o motivo maravilhoso pelo qual havíamos dirigido até ali, enquanto ela atravessava a calçada naquele vestidinho curtíssimo, com as tatuagens e as pernas de fora. O meu coração não ia aguentar.


Simplesmente perfeita, meu.

maio 16, 2010

Antecipação

Pessimismo. O pessimismo nada mais é do que a capacidade que alguns têm de ver o lado ruim de absolutamente todas as coisas, inclusive as boas. E dentre os muitos dotados de tal competência, inclui-se a minha pessoa. O que começou com um “sim” e o sentimento de finalmente ter obtido algum sucesso naquele triângulo amoroso todo, transformou-se rapidamente num “chega logo” e naquela agonia esmagadora e insuportável de ainda ser segunda-feira. Claro.

Do momento em que baixei o celular na mesa – satisfeita com a resposta positiva da Mia para o meu convite – em diante, os segundos passaram a se prolongar de uma maneira terrivelmente cruel e a memória de que cada minuto tem 60 desses segundos e cada hora tem 60 desses minutos e cada dia tem 24 dessas horas e que para a noite de quinta ainda faltavam três dias inteiros, divididos entre 8 horas de trabalho e uma hora de almoço e algumas horas de sono e mais outras de absolutamente nada nos intervalos... digamos... piorava minha ansiedade. Exponencialmente. Eu era pura expectativa pelas minhas horas e minutos e segundos sozinha num encontro com a Mia. E ainda era a porra de uma segunda-feira.

Pois é. Em três dias, adivinhem quantos cigarros eu fumei...

maio 14, 2010

R$ 4,10

Dei uma nota de cinco para o tiozinho do caixa e disse que ele poderia guardar o troco. Saí andando pela calçada, sem pressa, com um cigarro numa das mãos e o celular na outra. Nenhuma mensagem de volta, ainda. Entre uma tragada e outra, eu olhava para a tela para me certificar se o alerta de um novo SMS não teria passado despercebido por mim. Não. Nada, droga. E depois de dez segundos eu checava, de novo.

Obsessivamente.

Apesar dos passos lentos, cheguei no estúdio antes de terminar o meu cigarro – bad timing! – e fui obrigada a parar na porta por algum tempo. Por fim, joguei a bituca na rua e me preparei para voltar ao trabalho. Quando estava passando pelo corredor, meu celular vibrou. Minha cabeça foi a mil no mesmo segundo. Olhei apressada para a tela e me deparei com um SMS aleatório de um amigo meu, me convidando para um show naquela quinta. Eu era pura frustração feat. raiva. Decidi não responder, só de birra.

Trabalho, trabalho, trabalho – Mia, Mia, Mia. Quinze minutos de labuta depois e nada, resolvi desistir e parar de encarar meu telefone a cada segundo. Como diria minha avó: se você ficar espiando no forno, o bolo não cresce. Sendo assim, voltei aos meus afazeres rotineiros e entediantes. Pouco tempo depois, a sabedoria da "Nona" provou-se verdadeira – claro! – e o nome da Mia piscou na minha tela, de repente:

“Eu tb. Qria sair qqr dia com vc... pra qqr lugar, vms?”

Ô, se vamos, eu sorri na mesma hora, sentindo uma felicidade boba enchendo meu estômago de borboletas. Já a minha mente suja, ah, essa automaticamente pôs-se a formular uma lista imaginária de todos os lugares com uma cama disponível que eu conhecia. Não dá pra convidar ela pro motel, pensei. Grosseria, né. Chamá-la para passar o fim de semana na casa dos meus pais em Santo Amaro, convenientemente longe da Augusta e do Fernando, também parecia estranho.

Coloquei minha cabeça para pensar, urgentemente, em qualquer programa que soasse legal. Não queria pedir que ela desse as cartas, queria mostrar que eu sabia jogar. O problema era que todos os lugares que eu frequentava estavam abarrotados de conhecidos, meus e do Fer. E isso incluía todas as baladas e bares próximos do nosso apartamento... Exceto pelos LGBTs, onde eu também não gostava de ir acompanhada, muito menos de alguém tão significante – como a garota que há meses ocupava a minha cabeça. E o meu coração. Droga.

A questão – mesmo que não colocada dessa forma – era que aquele poderia ser o meu primeiro “encontro” com ela. E era ela. A Mia. E como todas as coisas relacionadas a ela, uma simples mensagem se tornou um grande problema para mim. Eu sabia que podia levá-la para qualquer lugar, ela não era do tipo que ligava. Mas, sei lá, eu queria que ela realmente se divertisse. E que quisesse sair comigo de novo. Então precisava fazer direito.

Um jantar? Não, sem graça. Sinuca? Ela não tá preparada para toda essa lesbiandade. Cinema? Hétero demais. Barzinho? Não, também não, puta coisa playboy. Boteco? Mano, não é possível que eu não consiga pensar em nada melhor. A tarefa começou a se revelar mais difícil do que o esperado. Até que, de repente, me lembrei da mensagem do meu amigo. A que eu ignorara meia hora antes. É, essa. E ela resolvia todo o problema. Porra, como não pensei nisso? 

Apressei-me em responder – tanto para ela, quanto para ele – e me senti aliviada.

Ok, talvez aquela fosse a resposta mais falsa do mundo, considerando que eu não estava sequer interessada na proposta do meu amigo para começo de conversa, mas, conforme descobri depois, aquela foi a sugestão perfeita. 

maio 12, 2010

Na pausa

O shoot demorou uma eternidade para terminar e, somente horas depois, eu estava finalmente liberada para o almoço. Antissociabilíssima, ignorei os convites dos meus colegas de trabalho de ir para um restaurante arrumadinho nas redondezas e optei por ir no boteco da esquina encher meu estômago com um sanduíche barato e meio litro de Coca-Cola, acompanhados por um ou dois cigarros.

Bem saudável.

Enquanto sentava lá, apreciando minha refeição "orgulho junkie", olhei para o celular inúmeras vezes, ainda com a Mia impregnada na minha cabeça. Não, raciocinei, nada a ver eu ligar agora. Mas a ideia me perseguia e eu sentia uma vontade incontrolável de esquematizar um possível encontro. Terminei o lanche e acendi um cigarro, o segundo desde que saíra do estúdio. Além do que, ela provavelmente está na aula a essa hora, retomei meu pensamento.

Será que está mesmo?

Dois caras sentados a alguns metros de mim no balcão me olhavam daquele jeito irritante de macho, me enojando até a morte. Argh. Voltei a focar no celular e nas minhas expectativas improváveis para aquela noite. Desisti da ideia de ligar para a Mia – os limites do nosso relacionamento, do que era ou não natural fazermos, não estava muito claro. Ainda assim, sabia que precisava iniciar qualquer tipo de contato, caso quisesse mesmo levar meus planos a diante. E como sempre, a única solução restante me parecia ser um SMS. O problema, no entanto, eram as evidências. Quando se trata da namorada do seu melhor amigo, é melhor não ter nada com o seu nome assinado embaixo. Ou em lugar nenhum.

Eu ainda vou me ferrar nessa, hesitei, olhando para a tela do celular. Mas conforme o meu cigarro chegava ao fim, eu simplesmente não me aguentei e comecei a digitar:

“Meu, não consigo parar de pensar em você e no que você disse ontem. Quero te ver.”

Mandei. 

Olheiras

…e um humor fantástico pra caralho. Me espremi entre os outros assalariados que enfrentavam a superlotação insuportável do metrô naquela segunda-feira de manhã. O aperto me obrigava a entrar em contato físico direto com cinco ou seis completos desconhecidos, além de me causar aquela claustrofobia matinal desprezável. Argh. Odeio São Paulo, pensei toda rabugenta.

Mas a Mia quer me comer. E isso melhora o dia de qualquer uma, não? Sorri imediatamente.

Devo esclarecer que, apesar dos estereótipos, nunca fui muito nesse papo de ativa ou passiva. Sempre achei isso uma puta mentalidade heterossexual e, portanto – desculpa –, um tanto quanto limitada. Já dormi com garotas passivas e, tá, tudo bem, legal, mas nada supera as participativas. Quando vou para a cama, não gosto de usar um lado só, prefiro garotas que me acompanham pelo perímetro inteiro. E mais ainda, as que me levam para fora dele. Para o chão. A parede. O corredor. Onde for.

E aquela disposição toda da Mia estava me deixando louca, desde a noite anterior. As tais prometidas aulas transbordaram a minha cabeça de sonhos impuros e da sacanagem de mais baixo nível até eu conseguir pegar no sono. Sozinha no quarto com aquela vontade desgraçada, argh. E o pior nem era isso, era a ausência completa de cansaço: para quem acordou às cinco da tarde no domingo, não havia chance de eu dormir tão cedo. A minha tortura se arrastou por horas.

Excelente.

Cheguei no trabalho na segunda de manhã, atrasada e nitidamente destruída depois de um fim de semana interminável, seguido improdutivamente por uma madrugada inteira de autotortura. Ainda assim, não conseguia evitar aquele sorriso de um lado ao outro da cara – não pensava em outra coisa e nem queria. Ficava revendo o nosso beijo na minha cabeça e me lembrando inúmeras vezes de como a boca dela pronunciou cada uma daquelas palavras. Ah, existem vários tipos de maldade, mas aquele era o mais delicioso deles.

_Pelo jeito, você continua casada... – a mina da recepção me zombou ao me ver entrar feliz pela porta – ...é um recorde, hein?!

A memória indesejada da Dani àquela hora da manhã me fez querer retrucar a piadinha e mandar a porra da recepcionista à merda. Entretanto, eu não estava disposta a deixar que qualquer comentariozinho insignificante alterasse o meu humor. Sorri, ironicamente, de volta e isso bastou.

Passei na cozinha e descolei-me um café. Em seguida, entrei no estúdio e meu chefe imediatamente me puxou para um canto para me dar uma bronca daquelas por ter chegado consideravelmente atrasada num dia de sessão. Moda, revirei os olhos, quem se importa? As palavras dele atravessaram batido pelos meus ouvidos e a única coisa que continuava na minha cabeça era ela. A Mia. Mil vezes a Mia.

Perambulei de um canto a outro do set, obedecendo tudo o que me era requisitado, a fim de manter meu emprego, mas sem prestar muita atenção. Tudo o que eu conseguia pensar, mesmo que com muita imaginação, era em sair dali às 18h e ir direto para a casa da Mia. Para lhe dar umas aulinhas, bem dadas.

Mano...

A possibilidade me tirava do sério e eu sorria, boba, no meio da sessão de fotos. A minha mente se enchia de expectativas e imagens desconcertantes da garota dos meus sonhos metida no meio das minhas pernas. E eu mordia os lábios de vontade. Porra. Não via a hora. 

maio 09, 2010

Não é justo

Estávamos metidas, eu e a Mia, em um beijo contínuo de dez minutos. Sem fim à vista.

A intensidade começava a aumentar, mas não saía muito do nível ingênuo. É difícil se controlar com uma mulher daquelas praticamente sentada no seu colo, né, mas eu não queria me arriscar. Não com o Fer em casa. Um beijo flagrado ainda é mais justificável do que “perdi minha integridade e fui procurá-la no meio das pernas da sua namorada... com a boca”. É, pensei, vamos evitar ideias potencialmente idiotas. Não que agarrar a garota do meu colega de quarto fosse muito inteligente, para começo de conversa.

A Mia, claro, não estava ajudando em nada.

Mina gostosa dos infernos. Como você impede a sua mente de ter os pensamentos mais sujos? As suas mãos de abrir espaço entre aquelas coxas? Meu deus. Não dá. Sofrido demais. Os dedos da Mia se mantinham agarrados à minha camiseta, me puxando e me desejando controladamente, enquanto as minhas mãos ensaiavam e abortavam todos os tipos de movimentos mais indiscretos. Detidas sempre pela memória da porta destrancada, bem ao nosso lado.

Mas conforme o tempo passava, o autocontrole se tornava uma tarefa cada vez mais difícil. A Mia me puxava contra ela e eu sentia a sua língua na minha, aquilo me enlouquecia. Num desses impulsos, perdi a linha e a trouxe para o meu colo. Ela entrou na minha, me beijando ainda mais forte com uma perna de cada lado do meu corpo.

E aí a brincadeira começou a ficar perigosa.

Ah, se o Fer entrar..., eu pensava e enchia minhas mãos com as pernas da Mia. Mano, se o Fer entrar..., eu sentia o seu corpo oscilar contra o meu. Perto demais. Porra, se o Fer entrar..., ela me agarrava pelo cabelo e eu a beijava com vontade. Caralho, se o Fer entrar..., eu comecei a subir minhas mãos lentamente por debaixo da sua blusa. E ela, ali, toda facinha. Puta que pariu, isso vai dar merda.

_Melhor... – eu tirei rapidamente as mãos de dentro da sua camiseta e me afastei, antes que fosse tarde demais – ...melhor a gente parar por aqui.

A Mia me olhou com aqueles olhos castanhos, enormes, confusa.

_V-você... não acha? – hesitei.
_É... – ela murmurou, concordando – Acho que cê tem razão.
_O Fer... – argumentei, recuperando o fôlego.
_É, eu sei.

Feito. Até que não foi tão ruim assim, pensei, orgulhosa da minha maturidade e prudência. A Mia continuava no meu colo – tinha os cabelos levemente bagunçados. Sorri para ela, tudo para nós parecia ser uma porra de um jogo. Óbvio que a considerável falta de malícia lésbica da Mia colaborava significativamente para todo esse meu autocontrole repentino. Isso e o fato da tranca da porta não estar ao alcance das minhas mãos.

Fora essas coisas, o crédito era meu.

Bravo.

Levantamos, comportadas, e ajeitamos nossos cabelos para não dar bandeira. O clima ficou estranho. Pelo menos, estávamos fora de perigo. A Mia arrumou sua blusa e eu a minha, ambas ligeiramente amarrotadas. Ela indicou que ia sair e dei passagem, já que estava mais perto da maçaneta. A Mia se dirigiu para o corredor e um pouco antes de fechar novamente a porta, apoiou no batente. E me olhou:

_Você... – sussurrou – ...ainda me deve umas aulas, viu?
_Umas aulas?!
_É – um sorriso escapou no canto da sua boca – Já se esqueceu das suas promessas?
_Como assim? Não. Espera! – eu a puxei de volta para dentro e a coloquei contra a parede, achando graça – Vai. Fala direito.

Aquela sugestão mudava tudo. A Mia riu e eu sabia que ela estava falando da nossa conversa no pátio do seu prédio. Só de pensar a respeito já me dava calor. Foda-se o autocontrole. Uma coisa é você querer um doce, outra bem diferente é o doce pedir para você comer ele.

_Me conta o que você quer aprender...
_Não, num outro dia...

Eu me insinuava toda para cima dela e ela retrucava, fazendo graça.

_Me lembra, vai? – insisti – O que era mesmo...
_Hoje, não... – ela se divertia com a minha mudança de atitude.
_Não faz isso... – eu agarrava ela e quase implorava, numa vontade de dar aquelas aulas ali mesmo – Por favor, não faz isso comigo.
_Outro dia, outro dia...

Ela riu, me empurrando. E se virou para sair novamente.

_Você está de sacanagem! – eu me indignei, olhando ela deixar o quarto e segurando o riso – Como eu vou dormir agora, mano? Volta aqui, vai. Sério, Mia...

E a porta se fechou. Filha-da-mãe. 

maio 07, 2010

Estática

Os olhos dela me encaravam de volta. Na minha imaginação, aqueles dez ou quinze centímetros entre a minha boca e a dela se comprimiam lentamente. Só o tempo se esticava, conforme o silêncio insistia, mudo, entre meus lábios. O que eu quero fazer? O que eu quero... fazer... com você, minha mente divagava perigosamente. No fundo, minha consciência me impedia de lhe responder, me alertando aos berros sobre o Fer e a porra da tranca na porta. Ele não vai entrar, a minha inconsequência protestava, atraída pela garota na minha frente.

O tempo parou. Os olhos da Mia meramente piscavam e o meu coração já pulava duas batidas, olhando-a de volta, naquela distância cruel. A vontade de beijá-la começava a me dominar por inteiro. Era insuportável. O que eu quero fazer, ah, o que eu quero fazer com você. Sem querer, ela se mexeu. Um milímetro para frente, um milímetro na minha direção. O que eu quero fazer, meu deus. E no fim das contas, eu nunca fui muito boa com o autocontrole.

Minha mão subiu no ar, como se fosse natural que o fizesse. E as pontas dos meus dedos deslizaram pela lateral do seu rosto, colocando uma mecha de cabelo atrás da sua orelha. Como mera desculpa para tocá-la. Não pensei. Percorri o contorno da sua orelha e continuei ao longo da sua face, pouco a pouco, até os seus lábios. Ela fechou os olhos, como num reflexo, e eu me aproximei. Tirei minha mão e a substituí com um beijo.

Era quase adolescente, um beijo assim. Sentadas no chão, com as pernas cruzadas e os pés descalços, movidas por aquela atração irresistível, aquela hesitação excitante e o medo de sermos pegas. Fazia sentido – para a Mia, não para mim. Afinal, é aquele sentimento de primeiro romance, tudo de novo. Mas, e eu? Qual é a minha desculpa? O meu armário já estava aberto e escancarado há tempos, não havia nada de novo ali. Nada que justificasse aquele comportamento juvenil. Muito pelo contrário.

Mas eu queria a Mia.

Queria. Com toda a minha vontade, com todo o meu coração – por mais imprestável que ele fosse. Eu queria cada pedaço daquela garota. Não por um dia, nem por uma noite. Queria ela para mim. Então, a tomei. Coloquei as duas mãos no seu rosto, uma de cada lado, segurando-a enquanto a beijava. Ela me beijou de volta, intensamente. Agarrou a lateral da minha camiseta e nos movemos, juntas, sem intenção de nos soltar. Eu encostei novamente na parede. A Mia se apoiou contra mim e nos beijamos, sucessivamente, mesmo sabendo que não deveríamos. Ou não sob aquelas circunstâncias, pelo menos. Mas a essa altura... Quem se importa?

As circunstâncias nunca estiveram ao nosso favor, de qualquer jeito. 

maio 06, 2010

Tenso, tenso.

Ficar sozinha com a Mia entre quatro paredes é sempre complicado. Mas ficar sozinha com a Mia entre quatro paredes e com o Fer no apartamento – ahh – aí já é mais complicado.

Eu podia sentir cada batida do meu coração. Os dedos dela entrelaçados nos meus, a sua pele morna contra a minha. Evitava sequer olhar para o lado. Não posso fazer isso. Simplesmente não podia confiar em mim mesma – não com a Mia. Para a minha sorte, o punk irlandês tocando ao fundo quebrava todo o possível clima que pudesse se insinuar ali. Ficamos em silêncio, por alguns minutos. Desde que eu menti descaradamente sobre “estar bem”, isto é. Eu evitava olhar para ela, mas podia sentir os seus olhos em mim o tempo todo. Nossos braços estavam apoiados um no outro, a sua mão segurava a minha insistentemente.

E o rádio ecoava, discretamente, ao fundo.

_Você sempre ouve... – a Mia riu, quebrando o silêncio – ...Dropkick Murphys na fossa?
_Fossa?! Você está dando muito crédito para a Dani.
_Estou?
_Eu fiquei puta porque ela armou aquela ceninha, não porque ela foi embora... – parcialmente verdade, digamos – E o que você tem contra os Murphys, afinal?
_Nada. Mas ouvir punk irlandês é meio nada a ver, né...
_O quê?? – eu me revoltei, rindo.
_Posso? – ela perguntou, indicando o rádio com os olhos, como se pedisse minha permissão para trocar de faixa.

Eu ergui as mãos, sem me opor, me soltando dela. Grande erro. A Mia se levantou do chão, ficando de joelhos, e apoiou uma das mãos na frente das minhas pernas cruzadas. Esticou seu corpo a dois palmos acima dos meus jeans e, com a outra mão, alcançou o rádio. Que estava do outro lado. E começou a rodar a playlist do meu iPod, lentamente, praticamente de quatro sobre mim. Meu deus. Fiquei encurralada, observando cada curva dela, logo ali. Mano, eu juro. Ela faz essas coisas de propósito, me estressei. Puta que pariu.

Fiquei grudada na parede. Não me movia nem um centímetro para frente, tentando a qualquer custo não encostar nela. Esse é o pior sofrimento que uma garota apaixonada pode passar: olhar para aquela mulher, assim, e não poder se mexer, ter que se controlar. Ficar na sua. Ô, pai... Claro que seria bem menos agonizante se eu não insistisse em ficar a encarando daquele jeito, mas eu não conseguia evitar. Os meus olhos simplesmente não saíam daquela curva insinuante entre as suas costas e o seu quadril. Puta merda. Não. Não tinha como.

A Mia fez qualquer comentário, desavisada, sobre a minha lista de músicas e eu ri brevemente, sem prestar realmente atenção – nem me lembro o que foi que ela disse. A minha atenção estava toda nos quinze ou vinte centímetros de absolutamente nada que separavam o meu corpo do dela. Caralho, viu, mas que caralho. Ela tão perto assim e o Fer, o Fer, ali, no cômodo ao lado. Respirei fundo e ela, enfim, escolheu qualquer banda dos anos 70 para tocar.

À medida que começou a voltar para sentar-se ao meu lado, só piorou. Observei o seu abdômen se dobrar, curvando lentamente as costas e deslizando na minha frente. Me deu água na boca. Diabo. Senti uma vontade irracional de sentir o seu gosto de novo, subindo por dentro de mim, naqueles devaneios insuportáveis de tê-la mais uma vez na minha boca. E na minha mão. Ela foi voltando, quase em câmera lenta, exibindo cada pedacinho de si na frente dos meus olhos. Cacete. Pára com isso, garota.

Quase sem querer, ela subiu os olhos na minha direção e a minha expressão me denunciou imediatamente. Aí ela parou – no meio do caminho. Droga. Não faz isso.

_O que foi? – me perguntou, hesitante, já ciente da minha resposta.

O meu coração estava prestes a sair pela minha boca. A Mia me encarava, a uma distância pequena demais do meu rosto.

_O que você disse para o Fer? – eu inclinei a cabeça para trás e perguntei de volta, olhando para ela, tentando me controlar.
_Para o Fer?
_O que ele acha que estamos fazendo, Mia?
_Eu disse que ia ver como você estava... – ela respondeu e eu podia ver a sua vontade de me beijar escapando pelos seus olhos – ...que talvez você quisesse conversar.

Respirei fundo. Ah, garota.

_Eu não quero conversar... – eu a olhei, completamente tomada pela tensão entre nós.
_E o que você quer fazer, então?

Ela suspirou, engolindo seco. Podia sentir a sua boca me chamar. Eu quero arrancar sua roupa e te colocar na parede, porra.