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novembro 30, 2010

Opiniões em excesso

Sair com meus pais não tinha tanto segredo assim: uma calça jeans, um tênis simples e uma blusa mais menininha para parecer que eu estava arrumada – nunca falha, pensei. Voltei antes que o Fer pudesse terminar o seu cigarro, sentado no sofá ao lado do meu pai, dando uma consultoria técnica gratuita ao velho. Minha mãe se entretia em pé no canto esquerdo do cômodo, próxima à janela, observando a nossa respeitável coleção de CDs, re-organizada por mim e pela Lê na noite anterior.

_E aí? Vamos? – perguntei, animada.

Almoçar fora com os meus pais sempre significava comer decentemente – como há muito eu não fazia, é óbvio, morando sozinha e subsistindo de pizza, congelados, cerveja e macarrão. Sendo assim, eu estava bastante empolgada. O Fer levantou-se quase na mesma hora, apertando a mão do meu pai, como se já se despedisse, e veio na minha direção, dirigindo-se provavelmente ao corredor.

_Bom almoço para vocês – ele disse para mim, tocando no meu ombro, mas virou-se mais uma vez para apagar o cigarro na mesinha de centro e acabou fazendo um tchau rápido que estava faltando para a minha mãe, com a mão agora já livre.
_E esse casamento, hein, vocês dois?! – meu pai brincou e o Fer me olhou, rindo, conforme voltava na direção do corredor.
_É, você sabe, eu tento... – ele me abraçou, fazendo graça, virando mais uma vez para os meus pais – ...mas ela não me dá bola. O que eu vou fazer, né, meu, sua filha que não me quer – ele riu e eu revirei os olhos.
_Babaca... – ri também, tirando-o de cima de mim, enquanto meu pai se divertia com a cena – ...vamos embora, por favor?!

Eles acenaram que “sim” com a cabeça, ainda achando graça, e começaram a se dirigir até a porta. A Lê passou atrás de nós, levando o copo vazio de volta à cozinha, e cumprimentou meus pais rapidamente com um “oi” de longe, uma vez que não se conheciam. Me despedi do Fer num gesto breve com a cabeça e gritei para a Lê, agora na cozinha, que se ela fosse embora naquele meio tempo, era só avisar o Fer para ele fechar a porta depois. E, então, saímos os três juntos para o elevador.

(...)

_Você está saindo com aquela garota? – minha mãe perguntou, de repente, no meio da descida.
_Quê?! – me espantei, encarando-a.
_Aquela que estava na sua casa – ela disse, como se desaprovasse.
_Meu deus... – eu arqueei as sobrancelhas, sem acreditar naquilo.
_Vocês estão namorando? Fale a verdade – ela insistiu, intrometida.
_Não, mãe. Não estamos namorando, a Lê é minha amiga.
_Sei. Olha, eu não... não quero me intrometer na sua vida, você faz o que quer, você sabe... – ela começou um discurso não-agressivo, mas que eu já sabia bem antes, só pelo tom da sua voz, que seria interminável – ...a gente não liga, eu e o seu pai, você pode sair com meninas.
_“Posso”? – eu interrompi e ela me ignorou.
_Só que essa garota é meio... estranha. Você não achou, bem? – meu pai olhou para o outro lado, evitando ter parte na conversa, e minha mãe prosseguiu mesmo assim – sabe, eu não entendo porque essas garotas precisam andar como se fossem moleques, cortar o cabelo curtinho daquele jeito, usar aqueles... como chama mesmo? – ela me olhou, fazendo um movimento esquisito perto da orelha.
_Alargadores? ! – sugeri, conforme saíamos do elevador.
_É. É muito estranho. E com as tatuagens também, enormes, no braço... bom, você sabe minha opinião sobre tatuagens... – ela me olhou feio – ...fora que não tem necessidade! Se ela só colocasse um vestidinho, deixasse o cabelo crescer... você viu aquela roupa que ela estava usando?! Parecia um garoto! Com aquela calça larga, de regata... Ah, eu não gosto. Por que você não arruma uma garota mais... estilo a... aquela que você namorou... a... a Natália! Ou a Marina, ah, eu gostava tanto da Marina. Ou, então... como era mesmo o nome daquela bonitinha, bem? A que eu sempre comentava?
_Raquel – meu pai respondeu, a contragosto.
_Isso! Hein, por que você não sai com umas meninas assim? Sabe, mais femininas... Você é tão bonita, minha filha, não precisa namorar com uma menina que parece um moleque desse jeito.
_Mãe, a gente não está namorando – enfatizei, de novo, enquanto andávamos na calçada em direção ao shopping – eu sequer saí com a Lê, meu! Que parte de “nós somos amigas” você não entendeu?
_Ah! Você vai me dizer que ela chegou às oito da manhã para te visitar? Num domingo?!
_Nããão... – eu bufei, perdendo a paciência – ...mãe, eu não disse que ela não dormiu aí. Ela dormiu. Só que não comigo, ué. Caramba, viu! Eu não sei qual é o problema de vocês, pais, que não conseguem entender que nós, lésbicas, temos amigas. Aliás, eu tenho um monte de amigas e não é porque elas são mulheres que eu vou me interessar. Não funciona assim, não está todo mundo dormindo com todo mundo.

Quer dizer... em tese, pelo menos.

_Hmm... – ela me olhou, ainda não convencida, mas eu a ignorei com uma careta – e, se não é com ela, com quem você está saindo, então?
_Ai, meu deus... – me enchi, olhando para o lado oposto.
_O quê? – ela questionou retoricamente, como se não entendesse o que havia feito de errado – eu só quero saber, oras. Não tenho direito?!
_Não é da sua conta, mãe... Não tô saindo com ninguém, pô. Com umas meninas aí, sei lá. Mas que saco.  
_Benzinho, deixa a menina em paz – meu pai se manifestou, enfim.

Salve, salve papai.

Em família

_Aí... Você sabe quem é “Renata Campos”? – a Lê me perguntou, sentada no meu computador.
_I am on a lonely road... – eu cantarolava em cima da cama, com um baseado na mão, sem dar atenção à pergunta – And I am travelling... travelling... travelling... travelling...
_Ei, Joni Mitchell? Me ouviu, porra?! – ela falou alto e riu.
_Ouvi, não faço idéia de quem é – respondi despreocupada, tragando mais uma vez, e soltei a fumaça lentamente antes de continuar a me mover de um lado pro outro.
_Hm, está nos amigos em comum – argumentou, já de costas para mim, murmurando mais para si mesma do que se dirigindo à minha pessoa – sei lá, vou adicionar.
_Do you wanna take a chance on... – continuei cantando, ignorando-a, e brisando sozinha – ...maybe finding some sweet romance with me, baby? Well, c’mon! – eu fechava os olhos e sentia a música correr, tranqüila, pelo meu corpo.

O dia havia amanhecido – o relógio já marcava 12:06, na verdade – mais ensolarado do que os anteriores, que foram nublados e tomados por um frio do cacete. A temperatura fresca daquele domingo me permitia, porém, ficar à toa de calcinha e blusa pelo quarto, enquanto a minha amiga se entupia de Coca-Cola, aprovando novos pedidos de amizade no Facebook e, claro, fuçando na vida social online da ex-namorada. Mesmo com uma leve ressaca mútua, o nosso humor estava excelente, tanto o meu quanto o da Lê, desde que acordamos.

_Do you see... do you see... do you see how you huuurt me, baby? – eu seguia cantarolando e meus olhos vagavam pelo quarto, assistindo-o de cima da cama, inconscientemente dançando – ...so I hurt you too... – tragava mais uma vez, entre um verso e outro, conforme meus pés descalços passeavam lentos pelo colchão – ...then we both get soooo bluuuuuuueeeeee.

No meio da música, contudo, alguém interrompeu a minha viagem boa. Era a porta, sendo esmurrada pelo meu melhor amigo. Tá, exagerei. Na realidade, ele só bateu, mas interrompeu mesmo assim. Desci da cama, me sentindo mais leve do que o normal, e virei a maçaneta, abrindo-a. No corredor, com um dos antebraços apoiados no batente acima da altura da minha cabeça, estava parado o Fernando, já devidamente vestido, trajando um jeans e camiseta branca.

_Pois não? – perguntei, levemente chapada.
_Seus pais tão aí na porta. Eu disse que ia te chamar... – ele resmungou, com cara de sono –  ...não ouviu a campainha?
_Nem... – sorri, meio amarelo, percebendo que talvez o tivesse acordado e que aquela era, na verdade, a mesma roupa do dia anterior – ...já... já tô indo lá, valeu.

Dei dois passos para trás, na direção do meu armário, e vesti um shorts qualquer. A porta permaneceu aberta.

_Mano... – o Fer botou a cabeça dentro do quarto e começou a rir – ...tá puta marofa aqui dentro! Seus pais não vão achar ruim, não?
_Sério isso?! – olhei em volta, meio assustada, e a Lê achou graça.
_De boa. Vai lá, vai lá... Eu vou abrir a janela... – o Fer riu, de novo.

Conforme entrou, eu saí simultaneamente do quarto. Não sabia se meus pais iam, de fato, pisar ali dentro, mas era sempre melhor não arriscar. A minha sorte, todavia, é que ambos nunca souberam reconhecer cheiro de maconha em mim. Se pudessem, certamente, a minha adolescência teria sido bem diferente do que foi e os meus intermináveis castigos e broncas recorrentes teriam sido, de fato, intermináveis. Não havia risco quanto a isso. Contudo, uma fumaceira daquelas acumulada bem no meu local-de-dormir com certeza desencadearia um longo e desnecessário "papo".

Logo me dirigi à porta de entrada, que estava aberta, e achei meus pais conversando do lado de fora no corredor. Minha mãe me apertou assim que me viu, não esperando nem eu terminar o meu “oi” inicial. Há meses não a via, apesar de morarmos na mesma cidade e de ela me telefonar com freqüência. O mesmo acontecia com meu pai, exceto pelos telefonemas. Ele, contudo, eu havia visto por último, em um jantar perto do meu trabalho. Meu pai estava mais gordo e simpático do que nunca, a uma primeira vista, enquanto minha mãe aparentava ter perdido dois ou três quilinhos e encurtado as madeixas loiras. Elogiei-a, é claro.

_Você acordou agora? – meu pai perguntou, me abraçando pelo ombro.
_Acordei faz pouco tempo – respondi – espera dois segundos aí na sala, eu vou trocar de roupa e a gente sai pra comer em algum lugar aí depois, pode ser? Vocês querem ir almoçar lá no shopping?
_Por mim, tudo bem – minha mãe disse.
_Ah! E chama o Fernando aí, quero trocar uma palavrinha com ele.
_Seu pai comprou um laptop novo... – minha mãe revirou os olhos, explicando.

Eu ri e deixei-os aguardando no sofá, enquanto ia chamá-lo. No meu quarto, o Fer havia acendido um cigarro normal e estava fumando na janela, enquanto conversava com a Lê, ainda sentada na cadeira da escrivaninha. Olhei para ele e fiz um gesto para que voltasse à sala, indicando que meu pai queria falar com ele, para variar.

A admiração do velho pelo Fer, às vezes, me cansava. Ele me adorava, evidentemente, sempre fui a filha com a qual ele podia beber cerveja aos domingos e assistir futebol junto. Mas a questão é que eles dois se davam muito bem também. O Fer viveu boa parte da nossa adolescência lá em casa, quando eu ainda morava com eles, e acabou se tornando o filho que meu pai nunca teve. Ou, pelo menos, essa era a minha teoria.

Agora, parei em frente ao armário, meio brisada, com que roupa?

novembro 25, 2010

Sonolência

Por fim, não fomos à Clash. Após algumas horas de papo furado e muitos litros de cerveja, a Lê acabou capotada no meu sofá. Já eu me encontrava jogada sobre o outro encosto, bêbada e acabada de sono, assistindo não sei nem porquê – certamente por preguiça de desligar a porra da TV –  a um documentário lenga-lenga sobre aviões militares.

Minha imaginação estava, porém, longe. Passeando pelas curvas e pelo sorriso da garota que foi assunto para mais de horas de conversa com a minha amiga naquele sofá. Falar dela, assim, permear todas as coisas bonitas e aspectos tão confusos, me deixava num estado meio anestesiado. Pensando, sem perceber, nela e em tudo aquilo.  Contudo, depois de tanto dar voltas na mesma história e na mesma garota, sua mente uma hora se cansa de girar. Dá uma tontura, do nada.

E, em algum momento, vendo minha amiga desmaiada ao meu lado, criei coragem para levantar-me e apagar as luzes. Vagarosamente, coloquei os pés no chão, um por vez, derrubando algumas latinhas vazias que estavam largadas ao redor do sofá, num movimento lento e desajeitado. Que sono..., senti com pesar, ...caralho. Fiquei em pé. Aí andei até a TV e a desliguei, voltando logo em seguida até a lateral do sofá, ao lado da sapatão adormecida que ali jazia, e me curvei para falar com ela.

_Lê... – a cutuquei, de leve, acordando-a – ...tô indo pra cama.
_Tá... – ela murmurou, ainda meio inconsciente.
_Você vai dormir aí? Quer que eu arrume um colchão pra você lá no quarto?
_Não... – continuou sem abrir os olhos e engolindo as letras, sem querer, afundada na almofada – ...deixa eu aqui. Tô de boa.
_Beleza... – disse e desejei boa noite, sem ouvir resposta.

Sem muito ânimo, recolhi as latinhas no chão e levei todas as que consegui empilhar nos braços até o lixo da cozinha. Então, voltei e recolhi os pratos e talheres, deixando-os na pia. Lavo amanhã de manhã, pensei, sem vontade alguma de colocar as mãos na água fria. Apaguei todas as luzes – antes descalcei os tênis da Lê, que sequer acordou, deixando-os ao lado do sofá – e arrastei os meus próprios pés pelo corredor até fechar a porta meu quarto atrás dos meus calcanhares.  

Ai, que preguiça do mundo.

Observei as minhas coisas arrumadas no escuro, sentada tranqüila na beirada da minha cama. O cômodo parecia até outro sem minhas tralhas largadas pelo chão. O tempo continuava frio do outro lado da janela, mas o excesso de álcool e lasanha daquela noite havia me deixado com calor. Tirei o moletom que estava vestindo, substituindo-o por uma camiseta larga qualquer que havia pegado no armário.  

Deitei-me sem sono, agora apenas cansada, puxando o edredom gelado para cima dos meus ombros. Alcancei o meu celular no chão e pus-me a encarar por alguns segundos aquela tela acesa, ali meio ao escuro, clicando aleatoriamente para cima e para baixo com o polegar direito nos botões, vagando pela minha lista de contatos.  Passei três ou quatro vezes pelo nome da Mia.

Ah, Mia. Senti vontade de falar com ela.

E, claro, antes que percebesse, os toques sucessivos do seu telefone estavam cortando, suaves, o silêncio do meu quarto – ecoando como vibrações indiferentes na minha mente vazia, que sequer se deu conta do que estava fazendo. Ou do horário, não é. Acompanhava lentamente a borda da cama, envolta num lençol branco macio, com a ponta do dedo, sentindo a textura. E não percebi, em momento algum, que ela poderia, de fato, atender.

_Alô?! – ouvi sua voz sonolenta do outro lado da linha.
_... – arregalei os olhos, caindo atrapalhadamente na real, tentando entender o que se passava.
_Alô?! Você... – insistiu, baixinho – ...está aí?
_“Oi”...?
_Hm... – ela pareceu estar com preguiça, como se ainda dormisse – ...oi.
_Oi – repeti e apertei os olhos imediatamente, arrependida, assim que percebi que aquele era o terceiro “oi” de uma conversa de cinco segundos.
_Está tudo bem? – perguntou, lenta, provavelmente sem entender porque a acordei – aconteceu alguma coisa?!
_Está... não... eu só... – me enrolei para me justificar – eu... não sei, na verdade. Desculpa, não pensei direito... – eu ri, brevemente – ...não sei porque liguei.
_Ahm... – ouvia-a rir do outro lado – ...sei.
_Muito ridículo dizer que estava pensando em você...?
_Um pouco... – ela riu, de novo.
_Tudo bem, vai, não é como se eu tivesse alguma reputação a preservar mesmo... – ri, achando graça.
_Ah, é bonitinho até.

Sorri, sem dizer-lhe nada.

_Onde você tá? – sussurrou.
_Em casa... – continuei, com a cabeça apoiada no travesseiro, falando tranqüila – ...te disse que não ia sair. Como foi o lance com seus pais?
_Ah, foi legal – conversava comigo, lentamente – e você, conseguiu arrumar tudo?
_Sim – sorri.
_Hmm... – ouvia-a como se ela fosse adormecer a qualquer momento – ...que bom.
_Oi? – perguntei, sem entender a última parte.
_Oi...
_Oi – eu ri.
_Que bom que você ligou... – disse, baixinho, sonolenta.

Desejei-lhe, então, boa noite e ela me respondeu, doce. Não queria roubar-lhe muito mais do seu sono, portanto desliguei. Desligamos. Restou, depois, um sentimento discreto, um sentimento de conforto... algo, não sei, simpesmente bom.

A tal cafeína

_Ô, gostosinha aquela Mia, hein...

A lasanha quase engasgou na minha garganta. Caralho. Olhei para a Lê em absoluta desaprovação quanto ao seu último comentário e ela riu, bebendo uma cerveja do outro lado do sofá, enquanto assistíamos a qualquer merda na televisão. Como se não bastasse a Marina..., revirei os olhos e voltei a comer, ainda inconformada. Ela já havia terminado e agora se espaçava, despreocupada, em cima de uma almofada.

_Não vai pensando que te dei essa liberdade toda, não, hein... – brinquei, sem tirar os olhos do prato, já quase terminando.
_Relaxa... – ela riu – ...não tô interessada na tua mulher.
_Se ela fosse “minha”, pelo menos... – comentei, entre uma garfada e outra.
_Cara, mas e essa história com o teu amigo? – a Lê se ajeitou no sofá, agora me olhando – o que você vai fazer?
_Não sei... não sei, mano... – lamentei, suspirando.
_Mas você acha que ela não te assumiria?
_Quem? A Mia?! – eu comecei a rir.
_É, ué... vocês não estão saindo aí todo dia?
_Não, Lê... a gente “saiu” – enfatizei, colocando o meu prato vazio em cima da mesinha de centro e me reacomodei no meu canto do sofá – na boa, se eu beijei ela mais de dez vezes esse tempo todo é muito.
_Tá me tirando, né?! – ela me olhou assustada.
_Não, meu, sério. Quer dizer, bom... –  passei a mão na nuca, enquanto contabilizava mentalmente – talvez tenha sido mais de dez vezes. É que, sei lá, é tudo meio complicado, meio mal-conversado... sabe? Não sei nem se tem algo a ser assumido, não sei o que ela pensa disso tudo.
_Mas, vem cá, você já...? – ela me olhou, com segundas intenções.
_O que?
_Você sabe.
_Se eu comi? – eu ri de novo e a Lê confirmou com a cabeça – Que foi, meu? Decidiu economizar palavrão?
_Ah, sei lá, porra... tô tentando ter respeito.
_Sexo não é falta de respeito – argumentei.
_É, só que você encanou com o meu “gostosa” não faz nem dois segundos, né... Quer dizer, de agora em diante, só me refiro à sua garota como “vossa senhoria”.
_Babaca! – joguei uma almofada nela, rindo.
_Tá – ela ignorou o ataque e continuou, interessada – mas, e aí?
_Comi – respondi, sem fazer grande caso –, comi duas vezes.
_E ela? – seguia, curiosa, me encarando como se eu soubesse do furo do século.
_Ela, o que? – perguntei, dando uma de desentendida.
 _Mandou bem? Tipo, ela nunca tinha dormido com uma mina antes...  ou tinha?
_Não, eu fui a primeira – enrolei.
_Então, meu... deve ter sido, sei lá, estranho... não? Não foi uma merda?!
_Não – eu ri – Lê, na boa, não tinha nem como ser uma merda. Cara, foram meses... meses, mano, de preliminares; só olhando ela e imaginando... tem noção do que é isso? Meu, quando chegou a hora... eu estava subindo pelas paredes. Bastava ela encostar em mim! Nem isso! Porra, eu nunca estive tão fácil... – suspirei, brevemente, com calor só de lembrar – E fora que... ela, também... – me incomodou um pouco, sei lá; nunca fui de dar muito detalhe dos meus casos – ...meu, ela é... – pensei com cuidado – ...“intensa”.
_Intensa?!

A memória da noite que passamos juntas voltou, de repente, vívida e indecente, à minha cabeça. A nossa sincronia, o calor que transpirava de mim e dela, o jeito bonito como a Mia se contorcia em mim... puta que pariu. O nosso ritmo parecia correr novamente pelas minhas veias, mesmo sentada ali, sem ela, na sala.

_É que... sei lá, nós... nós não nos largamos um segundo. O tempo todo sentia as mãos dela me apertando, amassando o corpo dela contra o meu, sentindo cada movimento que eu fazia... tão... sabe... compenetrada naquilo. Nossa, foi impressionante – suspirei, passando a mão na cabeça – e ela me beijava com tanta vontade, Lê, acho que não teve um centímetro de mim que a boca dela não percorreu e vice-versa. Sério, meu... perdi a conta de quantas vezes me faltou ar.
_Pára, mano... eu tô quase suando aqui só de assistir você falando dela!
_Tonta... – eu ri.
_“Tonta” eu, é? Precisava ver só a sua cara... aí, toda derretida pela mina, morrendo de tesão.  
_Qual é?! Você não pediu para eu contar?! – me irritei, de birra.
_Pedi, pedi... – ela riu.
_Na boa... – olhei para a Lê como se fosse lhe confessar um segredo – ...ela é máximo. Ela... ela pode não ser nenhuma... digo, não ter  aprendido tudo... ainda... mas, cara, ela... ela é demais.
_Ai, ai... “É o amooor...” – ela começou a cantar, rindo, só para me provocar – “...que mexe com a suuua cabeeeça e te deeeixa assiiiim...”.

E, claro, sucedeu-se o segundo ataque violento de almofadas.

novembro 21, 2010

(TRILHA)

Queridíssimas (os),
Muitos de vocês têm me pedido a nova edição da "Trilha Sonora" do blog. Desde que coloquei a primeira, já foram citadas aqui muitas outras músicas e estava faltando mesmo uma segunda OST. Sendo assim, esperei juntar o mesmo número de faixas (15) e pedi ajuda à minha amiga, Noelly, que ontem baixou todas elas e juntou-as num arquivo! :)

As trilhas sonoras contêm as músicas que foram citadas ou transcritas no blog. A primeira incluía duas extras também, mas essa segunda é só com faixas que realmente apareceram aqui. Todas, até o momento... nenhuma ficou de fora! Enfim, espero que gostem!

Seguem os links para download:
- 1ª Trilha Sonora Fucking Mia 
- 2ª Trilha Sonora Fucking Mia (nova)

Obrigada, sempre, pelos comentários e visitas! ♥
Mel M.

O Programão

Com ou sem Marina, a minha noite de sábado começou. Mas começou sem Mia também. Sozinha, no apartamento, sentada no chão frio em frente à máquina de lavar. Foi, foi assim que começou. Assistindo minhas roupas rodarem, rodarem e rodarem, enquanto o cigarro durava aceso na minha mão. Entediada com a minha responsabilidade improvável. Uma vez na vida, para variar, fazendo o que deveria ao invés de me meter em encrenca.

O meu olhar se perdia nas cores, que seguiam girando e girando, molhadas. Entre uma tragada e outra, mantinha a minha cabeça vazia. Mesmo que não pensasse em nada específico, no entanto, sabia que pensava nela. Porque era sempre nela – ainda que não percebesse, ainda que ficasse à toa... era sempre na porra da Mia. Contudo, assim, daquele jeito, não me incomodava. Não enquanto fosse inconsciente, isto é, e não me lembrasse do que eu poderia estar fazendo de imprestável com o meu sábado à noite.

_Nossa, você está aqui? – ouvi e olhei para cima, encontrando o Fer à porta da nossa pouco utilizada área de serviço.
_Meus pais vêm aí amanhã... – justifiquei.
_Ahh... – ele riu como se, de repente, a minha presença ali fizesse sentido – ...escuta, e você vai lavar mais alguma coisa?
_Vou. Faltam as brancas ainda, por quê?! – traguei mais uma vez.
_Pô... posso trazer umas minhas aí? Você pendura depois para mim? Preciso lavar o lençol também.
_De boa... – coloquei o cigarro na boca e já levantei do chão para ajudar.

Fomos juntos até o quarto e, enquanto ele recolhia todas as peças brancas sujas do chão/armário, desfiz a sua cama. Tentando, sem muito sucesso, não pensar em quem dormia ali com ele. Desde que esse rolo todo começou, entrar no quarto do Fer me incomoda imensamente. Isso é ridículo, refleti enquanto amassava tudo numa trouxa “carregável”, é só uma porcaria de lençol.

Levei tudo de volta para a área de serviço e o Fer me acompanhou com uma pilha de camisetas, cuecas e meias. Todas brancas. Deixamos tudo no chão, ao lado da máquina, e ele se despediu de mim. Ia sair, já estava consideravelmente atrasado, me disse – não perguntei para onde, muito menos com quem. Antes de ir, porém, me agradeceu e eu fiquei para trás com o suficiente para me ocupar por ao menos duas horas.   

Com o cigarro já quase terminado entre os lábios, ergui as mangas do moletom, peguei um dos All Stars largados no tanque e pus-me a lavá-lo com as mãos na água gelada. Frio do caralho, argh. Tão logo o Fer saiu pela porta, poucos minutos depois, o meu celular tocou. Era um SMS da Lê, querendo saber – daquele jeito amigável meio estúpido dela – o que havia se passado comigo na madrugada anterior, quando sumi de uma hora para outra sem me despedir.

“Tenho q. lavar roupa e arrumar a casa... se tiver afim passa aí mais tarde q. te conto. Puta bad, meu. Vc ficou mto mais lá? E a mina?”, escrevi de volta e mandei. Já ia voltar para o meu monte excessivo de tênis sujos, resultado do tanto que eu não ligava diariamente para isso, quando me ocorreu um detalhe importante. “Ô, traz umas brejas se for vir. Bjs.”

Cinqüenta minutos depois, eu me encontrava esticando roupas no nosso mini-varal detonado e a campainha tocava prolongadamente pela segunda vez. Do outro lado da porta, já irritada com a minha demora, estava a minha amiga e dois engradados bastante generosos. Aí, sim, porra!, sorri ao vê-la parada no corredor.

_Que merda você está fazendo com esse pijama, mano?! – ela me olhou, indignada.
_Quê?! Eu tô estendendo calcinha na lavanderia, porra, você quer que eu vista o quê?! – disse, ajudando-a a levar os engradados para dentro.
_Mas a gente não vai sair depois?!
_Não, meu, onde diabos você leu isso?
_Eu supus, né, caralho.
_Tá vendo? Aí a culpa já não é minha – eu ri – eu não disse nada disso.
_Por que não quer sair, meu? Vamos na Clash... tô muito afim.
_Nem pensar! É do outro lado da cidade, mano.
_E daí? Eu tô de carro aí... vai, se troca lá. Eu vou pôr as brejas pra gelar.
_Não, nada a ver... sério, vou ficar sussa hoje – insisti e a acompanhei até a cozinha.
_Mas é uma bicha mesmo, hein. Puta que pariu.
_Não é... Meus pais vêm aí amanhã, ô cabeção! Preciso botar ordem nessa porra... – começamos a colocar as latinhas no refrigerador, uma a uma, ainda debatendo o programa das próximas horas – e fora que eu tô sem grana também. Tipo, zerada. Só se você pagar pra mim...
_Gracinha... – ela me encarou, irônica.
_Então, não – concluí, sorrindo, fechando a porta do congelador, e ela fez uma careta qualquer para mim – ô, que horas eram quando você chegou aí?
_Sei lá, umas nove... nove e dez, acho.
_Hum. Tô fazendo uma lasanha, daqui a pouco preciso tirar... você já comeu?
_Nem... tô morta de fome – aceitou o convite e me seguiu até a área de serviço.

(...)

_E ontem lá, com a mina? – continuei, voltando a esticar minhas roupas molhadas no varal e a Lê sentou-se na borda do tanque.
_Num deu em nada, cara... – puxou um maço do bolso – ...ô, de boa se eu fumar aqui?
_Claro, mano... está achando que está na casa de quem? – eu ri.
_Ah, sei lá, né... – ela riu também e acendeu – ...mas, então, aí depois, no final das contas, acabei dormindo lá na Jéssica.
_Nossa, que horas você saiu de lá pra casa da menina?
_Umas seis, acho... ela que me mandou uma mensagem, tava voltando da Outs, disse que queria me ver. Acho que está sabendo que eu não estou mais com a Bah. Aí, sei lá... eu fui lá, né.
_Porra, mas na Jéssica, mano?
_Que tem?
_Ah, não sei... – dei de ombros, como se não me importasse, pegando uma regata molhada para estender – ...ela já deu pra todo mundo, né, meu, você sabe.
_“Todo mundo” você quer dizer o que?
_Eu, a Marina, a Flavinha, a Cá...
_Até aí, né. Todo mundo já pegou todo mundo – justificou.
_Espera. Você pegou a Marina?
_Nossa, antes de você até!
_Que mentira, mano! – debochei dela – eu fui a primeira dela, ô babaca!
_Ah, bom, então foi depois... – ela riu.
_Filha-da-puta.

novembro 17, 2010

Iniciativas

_Oi.

_Oi... – escutei-a dizer, dócil.
_Você me ligou?
_Liguei. Espera um segundo... – ouvi uma porta fechar-se, segundos depois – ...liguei faz pouco tempo, mas caiu na caixa postal. Queria só saber como você está.
_Estou bem, por quê? – eu ri, brevemente, achando graça – de ressaca, né, mas tomei banho, coloquei um pijama e agora estou sossegada aqui. E você? Muita dor de cabeça?
_Nossa! – ela riu também – cheguei em casa quase sete da manhã. Não consegui comer nada hoje ainda.
_É, eu só bebi litros de Coca-Cola...
_Liguei porque queria saber de você. Se está tudo bem... sei lá... - ela hesitou - ...por causa do que rolou com o Fê.
_Está – o assunto me incomodou – está, sim. A gente conversou hoje mais cedo.
_Ele perguntou alguma coisa?
_Não – respondi, sem vontade alguma de falar sobre aquilo, sentindo o peso de horas antes voltar à minha cabeça.
_A gente... a gente discutiu, ontem, depois que você foi embora...
_Eu sei.
_Ele te contou da discussão?
_Não, só comentou. Mia, olha... – pensei em lhe dizer o quanto havíamos ultrapassado a linha, o quanto o Fer significava para mim, o quanto aquilo havia me incomodado, mas não consegui.
_O que? – ela perguntou, após segundos de silêncio meu.
_Não, nada...
_Você está bem?
_Sim. Só meio… sei lá, estranha.
_Hm... – ela pareceu hesitar, pensativa, depois mudou de tom e assunto – e o que você vai fazer hoje?
_A roupa, a louça... – brinquei.
_Que programão, hein?! – ela riu.
_É, foi o que eu pensei também – respondi e o clima da conversa mudou, ficou mais leve – não estou afim de sair e nem tenho grana também. Não sei... Acho que vou ficar por aqui. Ver um filme, fumar um, sei lá.
_Hum... a Marina não vai ficar com saudades de você?
_Quê?! – eu comecei a rir.
_Ué, você não andava “passando as noites lá”? Vai deixar ela sozinha justo no sábado à noite? Que maldade, não... – continuou, fazendo graça.
_Jesus... – balancei a cabeça, rindo, sem acreditar – ...memória de bêbado é uma desgraça mesmo, hein?!
_Memória seletiva, meu bem...
_É, estou vendo – ri – e você lembra do resto da noite, pelo menos?! Da parte que importa de verdade?
_Claro que lembro... – ela respondeu e minha imaginação foi longe... meu deus, as lembranças daquela pista voltaram vivas à minha mente, enquanto ela não dizia nada ei, mas você não me respondeu o que eu te perguntei.
_Não tem o que responder! – o meu foco retornou à conversa – Para começo de conversa, não foram “noites”. Foi uma. Ou duas, no máximo. E não tem nada a ver. O Fer aumenta as coisas. Então, nem começa...
_Não estou começando nada... – ela ria – ...só estava curiosa para saber o que tem de tão interessante na casa dela.
_Olha, já teve muita coisa interessante... – respondi, imprestável – mas hoje em dia, não. Não mais.
_Sei. Então, não tem nada?
_Tem. Tem, sim. Tem você, sua tonta – eu ri e expliquei – ela é uma das únicas que sabe de você.
_É? Hm, e você falou bem de mim?

E tem algum outro jeito de falar?!

_Isso não é da sua conta... – disse, já achando graça na reação que ela sequer havia tido ainda.
_Que absurdo! Como não é?! – ela riu, indignada.
_Um dia, quem sabe...
_Um dia, o que?
_Eu te conto... o que ando falando de você por aí... a minha opinião sobre a senhorita.
_Não quer me contar hoje?
_Hoje?!
_De repente, você podia vir aqui...
_É?
_Ah... Sei lá, queria... te ver.
_Não dá.
_Não?
_Não, meu, já vou sair com a Marina... – comecei a rir, de novo.
_Idiota – ela riu junto e eu podia vê-la fazendo a sua cara de indignada, apertando aqueles olhos lindos na minha direção, como ela costumava fazer toda vez que eu ou o Fer soltávamos qualquer piadinha sem graça na sua presença.

Mormaço

Quando enfim saí – do banho mais demorado da história da humanidade –, a luz do sol já perigava a desaparecer, ainda que disfarçada pelo céu coberto, e transformava-se deprimentemente num pôr-do-sol acinzentado. Um fim de tarde bem paulistano – com uma garoa à espreita em meio àquele tempo frio – e que me desanimava de tudo. Contudo, sentia-me melhor. Andava pelo quarto só de calcinha e moletom, cabelo molhado preso em um coque mal-feito, procurando calças-de-ficar-em-casa que não me apertassem.

Achei!, celebrei sentindo uma felicidade bobinha ao encontrar a parte de baixo de um pijama antigo engruvinhado sob a cama. Vesti-a, uma calça branca de algodão com listinhas ultrafinas azuis na vertical, depois me sentei confortável na cama, com as pernas cruzadas sobre no edredom. Olhei para a janela, fechada, mas não tive paciência de observar o frio do cão que fazia do outro lado do vidro. Queria um cigarro agora. Mas não tinha um sequer, me lembrei ao pensar no maço vazio largado há tempos na sala. E, dentre todos os fumantes do mundo, não queria pedir “emprestado” logo para o Fer. Isso não, né. Não seria apropriado, não naquele momento, pelo menos de acordo com o meu conceito deturpado de moral – “Já fiquei com a sua garota, não vou mexer nos seus cigarros”, ou algo do tipo.

A ressaca e o tempo ruim haviam inutilizado o meu sábado. Apenas a idéia de sair para a rua me causava pesadelos do pior tipo. Tomada por uma preguiça imobilizadora, me sentei ali por o que me pareceram minutos intermináveis de tédio, até que o vício enfim me venceu. Num movimento lento, observei o meu jeans largado em frente à cama e pensei no quanto andava precisando lavá-lo. Programão para o meu saturday night, hein, revirei os olhos. Procrastinando, enrolando o máximo que me fosse possível para tomar uma atitude, continuei a olhá-lo, sem coragem de trocar as calças naquele frio, dividida pela minha moleza pós-horas-de-choro-e-um-banho-quente e a minha maldita necessidade por nicotina.

Que se foda, enfiei um All Star velho no pé e peguei dinheiro em cima da mesa do computador, sem trocar calça alguma. A banca não era tão longe, afinal, praticamente só atravessar o lado da rua. E eu não estava com paciência, não demoraria mais do que cinco minutos. Desci e cruzei até a outra calçada, sentindo aquele vento gelado na cara e no cabelo molhado preso – porra, São Paulo! –, aí contei minhas moedas em frente ao atendente da banca de jornal, para ver se conseguia pagar um Marlboro vermelho, mas o dinheiro não deu.

_Me vê qualquer um, então – disse irritada, meio de saco cheio da minha pobreza crônica, resultante do excesso de cervejas e baladas.

Acendi o primeiro logo que virei as costas, enquanto esperava os carros terminarem de passar na minha frente. Atravessei a rua de volta, morrendo de frio com aquelas calças finas inapropriadas, e parei no portão do meu prédio para terminar o cigarro. Por que não se fuma em elevadores?, me indaguei descontente, como se alguma autoridade da administração de edifícios pudesse me ouvir, congelando ali, do lado de fora.

Distraída, observava o cimento que compunha a sarjeta e a sujeira ao redor, conforme caminhava lentamente e a esmo pela beira da calçada, um pé na frente do outro. O fim de tarde atraía um bando de bêbados, putas, indies, filhinhos-de-papai metidos, pseudo-cults, baladeiros de plantão e adolescentes em fase de auto-afirmação para as redondezas da minha rua. Ou melhor, para a do lado, a Augusta. Todavia, a minha sempre se enchia por tabela, é claro. E eu era obrigada a agüentar comentários masculinos deploráveis – argh –, da população que subia e descia por ali, enquanto a porra do cigarro não terminava.

Pouco depois, joguei a bituca no chão, pisei na brasa e entrei no prédio. Subi pelo elevador, entrei no apartamento, peguei o maço antigo, joguei-o fora, meti as chaves no bolso direito do moletom e chequei o celular. Uma chamada não-atendida. E, óbvio, era a Mia. Ótimo, suspirei, meio inquieta. Coloquei o que restava de dinheiro da noite anterior, que estava espalhado sobre a mesinha de centro, e juntei ao troco de dez mínimos centavos da banca de jornal, no bolso esquerdo do moletom.

Fui para o meu quarto, uma verdadeira zona àquela segunda vista, e tranquei a porta atrás de mim. Sentei na cadeira do computador e olhei um bilhete, um post-it amarelo grudado na torre do PC – uma auto-notificação escrita por mim mesma, dias atrás, de que meus pais me visitariam naquele domingo. Inferno, lembrei com desgosto do compromisso, que me dava mais um motivo para lavar a porcaria da roupa suja, que se amontoava vergonhosamente pelo chão do quarto. Eu odiava como aquelas visitas familiares desnecessárias tiravam o caos – cultivado com tanto carinho – da minha rotina.

Peguei o celular novamente, na mão, e olhei para a tela. Mia, respirei fundo, preciso ligar de volta. E sem pensar muito mais, apertei o botão verde sob o meu dedo, vendo o seu número chamar pacientemente.

Recorrente

I've come to my senses...
That I've become senseless.
I could give you lessons...
On how to ruin your friendships.

Every last conviction...
I smoked them all away.
I drank my frustrations...
Down the drain, out of the way.

So I sit and wait and wonder:
"Does anyone else feel like me?"
Someone so tired of their routines
And disappearing self-esteems

I'll sing along... yeah, with every emergency!
Just sing along... I'm the king of catastrophes!
I'm so far gone... that deep down inside,
I think it's fine by me.

I'm my own worst enemy.
(Less Than Jake)

novembro 11, 2010

We define our moral ground

O almoço – ou a janta, não sei – ficou pronto(a), enfim. Isto é, minutos depois da minha entrada triunfal. Até então o silêncio havia dominado o clima entre nós dois. De ressaca, a minha cabeça se recusava a pensar na confusão daquela madrugada. De alguma forma, à surdina, aquilo estava machucando o meu coração. E se eu, de fato, deixasse o pensamento escapar, ele se alastraria pela minha mente. Por mim toda, aliás.

Eu odiava brigar com o Fer. E o pior era que, numa dessas, nós nunca medíamos palavras. Acabávamos dizendo qualquer coisa que nos vinha à cabeça, nos ofendendo sem nem pensar duas vezes – muita convivência tem mesmo dessas coisas, cria-se conforto mútuo para xingar até a nona geração um do outro. Era uma droga. E, mesmo sem perceber, eu me sentia um lixo por isso.

Todavia, inconscientemente, evitava de pensar no contexto completo. Isso, sim, acabaria comigo. E, uma vez confessado, mais ainda com ele. Fiquei então quieta, apática, olhando distraída para a mesa, conforme o Fer colocava frente a mim uma panela com arroz requentado do dia anterior, misturado com almôndegas, dessas que se compra já prontas. Depois veio o seu prato, os talheres um a um, duas latinhas de cerveja e o que restava de uma salada de cenouras com tomate. Observei-o misturar tudo no prato – homens têm essa tendência pedreira no sangue, imagino.

_Quer? – perguntou baixo, ao reparar meu olhar acompanhando seus movimentos, tentando soar natural.
_Não, tô de boa... meu estômago está zoado, não sei – respondi, tomando parte naquele nosso fingimento babaca de não-aconteceu-nada.

Então, ele me encarou, levantando os olhos na altura dos meus, e depois tornou a encarar o prato, voltando a comer normalmente. Sem ódio, nem remorso. Foi um gesto normal. Dois segundos de absolutamente nada no olhar dele, cruzado com o vazio inerte do meu. E foi quando reparei que éramos só eu e ele, sozinhos, ali. Eu, vestida com a roupa amassada da noite anterior, e ele, com um trapo não-bonito qualquer de ficar em casa.

_A Mia não está aí? – perguntei, automaticamente, ao concluir o raciocínio.
_Não – disse e eu não consegui ler direito as expressões no seu rosto; bebeu um gole da cerveja, depois continuou a falar, intercalando com uma garfada ou outra – ...ela foi pra casa dela depois da Sarajevo, a gente brigou ontem.
_Brigaram, por quê?

O Fer me olhou novamente. E ficou quieto, comendo, quase como se não quisesse falar, como se carregasse alguma culpa nisso. Talvez apenas abatido de sono, não sei. Não conseguia interpretar direito. E então prosseguiu, normalmente, segundos depois.

_Não brigamos de verdade, a gente só discutiu... mas ela ficou irritada, quis ir embora. Eu voltei sozinho depois – concluiu, já quase terminando o prato.

Imaginei, a contragosto, a discussão. Violenta, desnecessária, regada a álcool. A idéia me reverteu ainda mais o estômago. Senti um mal-estar imenso, quis sair dali.

_Escuta... – ele me encarou, de repente – desculpa por ontem. Eu... eu... sei lá, não era pra você ter ido embora – pareceu chateado –, desculpa.
_Não pede desculpas, meu – olhei para baixo.
_Eu te tratei mal, sério. Quase não dormi essa noite... – ele passou a mão na cabeça, como se tudo aquilo fosse realmente difícil, e eu o observei, me sentindo a pior pessoa do universo – ...aí juntou com a briga com a Mia também, sei lá. Eu tava chapado pra caralho, nem sei que merda eu tava falando...
_Não, eu que estava errada – contestei, olhando-o de volta, sincera – eu que tenho que te pedir desculpas...
_Pára, meu... não tem nada a ver. Pedir desculpas, por quê? Puta lance idiota, eu nunca fui ciumento, você sabe disso. Sempre fui de boa...
_Mas dessa vez você tinha razão. Eu... sei lá... eu bebi demais também – suspirei, arrependida, falando sem pensar – e aí chegou uma hora que nem me dei conta de com quem eu tava dançando, acabei saindo da linha. Eu não queria, de verdade. Eu não sei, não sei o que deu em mim.
_Não, meu, relaxa. Eu que fui um babaca – disse, sossegado.
_Fer – fiz com que olhasse para mim, pegando em sua mão, por cima da mesa – me desculpa, meu. Me desculpa, por favor.
_Relaxa... – ele sorriu para mim.

Não consegui dizer mais nada. Eu nunca estive tão errada em toda a minha vida e a consciência disso me engasgou dolorosamente na garganta. Ele voltou a comer, despreocupado, agora com um ar menos sério, como se tivesse tirado um peso de cima das suas costas. E eu, completamente perdoada, não conseguia me sentir bem. Muito pelo contrário, aliás, e não entendi bem por quê.

Alegando que precisava tomar um banho, me levantei assim que pude e saí dali. Precisava sair – e com certa urgência até. Involuntariamente, os meus olhos começavam a inchar, a me doer. E o engasgo na minha garganta piorava progressivamente, conforme eu andava pelo corredor. Não conseguia sequer pensar a respeito, não racionei; estava sentindo uma culpa sem nome, nem controle. Me fechei apressada no banheiro e tranquei a porta, escorregando contra ela até sentar-me no chão, com os joelhos dobrados à minha frente.

E aí chorei, inquieta e sem entender.
Por minutos ininterruptos.

Indistinto

Minha cabeça doía, doía. Meus olhos se abriram, lentos e desnorteados, feridos pela luz que invadia o cômodo. Os raios cinzentos de sol que entravam frios pela janela me machucavam. Não só o olhar – como também pioravam aquela dor aguda que pulsava por todo o meu cérebro. A agonia... por qualquer líquido que fosse... se alastrava pelas minhas veias, me dobrava o estômago no meio do caminho e chegava seca à minha garganta. Completamente desidratada, após uma noite daquelas.

Senti vontade de vomitar e ignorei. Foda-se. Continuava deitada, imóvel. Minha posição me incomodava de alguma forma, porém demorei um certo tempo para perceber tal agravante. Toda torta, largada no sofá. Espera, sofá? Olhei em volta, movendo apenas as minhas pálpebras, judiadas pela noite mal-dormida, e nem um só músculo do corpo ou rosto. Meus pés continuavam calçados com os Nikes preto e vermelhos, sobre uma almofada e o azul-marinho do sofá. Estranhei. A minha jaqueta me apertava e o encosto vultoso me impedia de deitar com ambos os ombros confortavelmente acomodados. Puta merda, eu tinha mesmo desmaiado na sala.

Alcoolizada, é claro, em algum momento da madrugada anterior, imaginei. Forcei minha mente sonolenta, tentando refazer os meus passos Augusta abaixo e até a porta de casa. Não consegui. Porra. Um pedaço me faltava na memória. Passei as mãos pesadas pelo rosto e suspirei, virando-me e esticando um dos braços em seguida para a mesinha de centro, onde aglomeravam-se o meu celular, um maço de cigarros e as chaves de casa.

Peguei o aparelho: nenhuma mensagem. Ufa. A caixa de saídas estava vazia, para a minha sorte. E o maço também, merda. Meu estômago se revirava, oco, como se fosse dar a volta em si mesmo, de fora para dentro. Quis vomitar de novo. Não... não, porra. Num ato de protesto comigo mesma, levantei o corpo e arranquei a jaqueta, largando-a longe, já sentada na beirada do sofá. Me forcei então, mentalmente, a ficar bem. Era só uma vadia de uma ressaca, eu sabia e insistia teimosa, já passei por piores.

Um cheiro enjoado vinha da cozinha, as luzes todas acesas do corredor para lá, e um barulho de panelas me irritava o ouvido – até então, não havia percebido-o. Que horas são?, pensei, sentindo-me confusa quanto ao ritmo e à linha temporal daquele fim de semana. Aquilo devia ter me acordado; o cheiro ou o som, tanto faz – mas que inferno. Levantei-me meio rabugenta, a cabeça pesada e o corpo esvaziado, e caminhei pela sala na máxima velocidade que aquela dor de cabeça, aquela ressaca desgraçada, me permitia. Ou seja, extremamente lenta e tropeçando nos meus próprios pés. Patético, argh.

Encostei-me, com as duas mãos, no batente. O Fer estava cozinhando no fogão, de costas para mim, com uma calça de moletom cinza e uma camiseta velha de dormir. Olhei-o por dois segundos, indiferente à nossa discussão na noite anterior. Não era apatia minha, sei lá, era algo diferente. Entrei e sentei-me à mesa, numa das cadeiras, cujo som contra o piso frio denunciou a minha presença e o fez notar-me, brevemente, por cima do ombro. Sem se importar comigo, continuou cozinhando e eu desabei apoiada nas minhas palmas, cotovelos sobre a mesa, com o rosto bagunçado no meu próprio cabelo. Fisicamente fodida, que merda.

novembro 09, 2010

Os bem-educados

_Tá se divertindo?! – perguntou, me olhando direto nos olhos.
_Que? – fiz como se não entendesse.
_Tá se divertindo, porra?! – repetiu, claramente.
_Que foi, Fernando?! – retruquei, ofendida com o tom de voz elevado dele – sei lá, meu... tá normal.
_É, tô vendo mesmo... – disse, irônico, e eu revirei os olhos.
_Que foi, mano?? – perguntei, irritada com o ataque de ciúmes dele.
_Como o que foi, porra?!? – ele bateu no balcão, bravo, virando de frente pra mim – você tá lá dançando com a Mia, caralho, como se...
_Como se o quê?! Hein? – briguei de volta.
_Você sabe por que eu tô puto, não faz essa cara aí.
_Que cara?! Fernando, porra, a gente tá só dançando!!
_Só “dançando”?? – ele gritou comigo – só faltou você entrar dentro da roupa dela!! Você acha que eu não tava olhando?! Você acha que eu sou idiota, porra?!
_Ah, mano... pára, sério, que nóia... – eu ri, debochando dele.
_Não fica rindo aí – ele me apontou, nervoso, depois colocou a mão novamente no balcão e me olhou de frente –, você sabe muito bem o que tava fazendo de errado.
_Você fumou, caralho?! Tá louco?? “O que eu tava fazendo de errado”?! Eu não fiz nada!! A gente só tava dançando! Ela que tá bêbada, Fernando, pelo amor de deus.
_Ela que tá bêbada?? Você tava quase comendo a mina no meio da pista! A minha mina, porra!! – ele argumentou, tão embriagado quanto eu e ela, puto da vida – você tem merda na cabeça?? Hein?!
_Não! Claro que não! – gritei de volta, sentindo vontade de ir embora naquela mesma hora, mas depois encarei-o, baixando a voz – Fer, eu não fiz nada. Olha para mim: a gente estava só dançando. Você acha que eu ia pegar a sua mina? A sua mina, porra?! A sua?? E na sua frente, mano?! Eu nunca ia fazer isso... nunca!!
_Não sei... – ele virou desconfiado para o lado, se apoiando de novo no balcão, e respirou fundo – ...por que você foi lá dançar com ela?!
_Por que eu não iria dançar com ela?! - retruquei indignada, levantando o tom da discussão mais uma vez, nitidamente bêbada – é aniversário dela! Fer, todo mundo dançou com a Mia. Todas as meninas. Todas. Aliás, aquelas amigas dela... né... vamos concordar. Mano, até selinho elas deram uma na outra! E você vem encanar comigo, porra?!?
_Cê acha, meu... elas estão de graça. Isso não é nada!! – ele se irritou.
_Ah, e elas podem?? Elas podem fazer graça e você não tá nem aí?? É isso?! – comecei a dar bronca nele, exaltada, na pachorra de ainda me achar a certa na história – isso é uma puta hipocrisia do caralho e você sabe!! Nossa, você muito sabe! Porra, Fernando, sério mesmo?! Você vem aí esquentar na minha, que não fiz merda nenhuma. Sou sua amiga, mano!! As meninas estavam fazendo mil vezes pior, eu tava de boa lá, só dancei duas, três músicas com a Mia...
_Duas ou três músicas com a mão metida nas coxas dela, né, caralho!! – ele ficou bravo, de novo, e tornou a levantar o tom comigo, que respirei fundo – olha, eu posso te garantir... garantir... que as amigas da Mia não estavam dançando com ela daquele jeito...
_Claro que estavam!! Você é cego?? – gritei e ele me olhou puto da vida.
_É, mas nenhuma delas não tá nem minimamente interessada no que ela tem no meio das pernas...
_Eu também não, porra!!! Você tá louco?? – cheguei mais perto do rosto dele, revoltada, olhando-o nos olhos – você está levando isso pro lado pessoal, Fernando... Sério, porra!! Ninguém fez nada!! Qual é o seu problema comigo?!
_Meu problema com você é que você não tem limite!
_Não tenho limite, caralho?? Sempre tive o maior respeito pela sua mulher, meu! Você tá achando o que?? Puta paranóia, mano, que é isso?! Eu e a Mia somos amigas...
_Não! – ele me cortou – Eu e você somos amigos, eu e você. Entendeu, porra?! – ele me ameaçou – então toma cuidado com o que vai fazer.
_Olha, eu não preciso ficar aqui ouvindo essa merda... – peguei minha comanda no bolso, como se me dirigisse para ir pagar e cair fora, mas ainda encarando-o – ...na boa, vai tomar no meio do seu cu, Fernando.

Me virei e saí andando, deixando-o falar sozinho.

É

Me fodi legal agora.

Portanto, bandeira branca

Não é como se eu quisesse, de fato, ficar inteira em cima da Mia... ali... naquele canto subversivo da pista... justo na Sarajevo... em meio à tanta gente... não, eu não queria. A questão é que meus pés já não se agüentavam mais, cedendo “sem querer” a toda hora, e as minhas mãos se recusavam a me obedecer. Já os meus olhos, bom, esses eu nunca consegui tirar de cima dela mesmo – sóbria ou não, que fosse.

Resultado é que, assim que ela terminou de me guiar pela multidão e se virou na minha direção, eu já havia apertado a tecla do “que se foda” há muito tempo. E, antes que eu pudesse perceber, as minhas pernas já estavam entre as suas e o meu corpo, perto demais do dela. É exigir demais do meu auto-controle, porra, ter aquela mulher nas minhas mãos e dançar de qualquer outra forma senão como eu a estava segurando. Com todo o respeito, isto é.

Quer dizer, mais ou menos...

Mas não beijei, ok. Em momento algum, nem de relance, encostei na boca da Mia. Não naquela boca. Aquela. Sabe, aquela... boca. E aqueles lábios... maravilhosos. Puta que pariu, eu pensava, enquanto olhava-a descer rebolando, deslizando pelo meu corpo, com a boca logo ali, na minha cara, porra. Um só movimento, um milésimo de segundo na sua direção, e eu poderia beijá-la. Contudo, não fazia nada. Nada. Só a olhava, ali, me olhando de volta, virando de costas para mim e deixando o rosto de lado, com as mãos para trás e o corpo encostado em mim, segurando-me e escorregando as mãos de cada lado da minha cintura, pelas minhas pernas, conforme abaixava na minha frente, deslizando o seu jeans no meu... Caralho, como aquilo me deixava louca. Tinha dias que eu simplesmente queria matar a Mia, sabe, simplesmente por existir do meu lado. Ou, então, fugir o quanto antes dali. Todavia, eu sempre ficava. Eu sempre ficava. Com o coração na garganta, aquele verão de 40º dentro das calças e os olhos irremediavelmente nela.

Tem gente que rouba o seu ar e nem percebe – e ela sempre foi assim, para mim. Contudo, agora, a Mia começava a perceber o que podia fazer comigo e a desgraçada gostava, adorava, se divertia em me deixar completamente idiota por ela. Como se fosse preciso grande coisa... e eu continuava ali, dividida entre amá-la ou odiá-la por isso. Porque bom era, não é. Inegavelmente bom. Mas aquela minha impotência circunstancial acabava comigo.

Chega a doer, viu, – com pontadas agudas no peito – ter a garota que você quer nas suas mãos e, por motivo de força (ou melhor amigo) maior, não poder fazer todas as muitas sem-vergonhices que te enchem a cabeça com ela. Atinge tal ponto do absurdo que, uma hora, de repente, você simplesmente precisa sair de perto. Ir tomar um ar, esfriar a cabeça, fumar um cigarro... qualquer porra. Sei lá. Qualquer merda que tire ela da sua cabeça.

E foi isso que eu fiz, uma meia hora depois, quando enfim a tortura se tornou insuportável. “Já volto”, disse subitamente no seu ouvido e a larguei sozinha na pista. Apenas o ato de sair daquele calor humano aglomerado já me fez respirar melhor – mas eu sabia que, no fundo, eu precisava sair era das redondezas de uma só pessoa. Encostei no balcão do bar ali da frente, onde batia uma leve corrente de ar vinda da porta, e pedi uma cerveja gelada para o cara de dreadlocks que me encarava do outro lado, à espera do meu pedido.

O primeiro gole naquela loira foi como sentir o paraíso descer frio – e gostoso – por todas as paredes de fogo do meu corpo, acalmando vagarosamente aquele inferno interno. Ah, eu precisava disso..., concluí aliviada, olhando para a garrafa e abaixando-a no balcão. Mal a encostei e já subi ela sedenta novamente, nas minhas mãos, tomando mais um gole, logo em seguida. Abaixei a cerveja e os olhos mais uma vez. Pressenti alguém ao meu lado, em toda a minha embriaguez distraída. De relance, vi um braço tatuado emparelhado com o meu, apoiado também no balcão. Subi os olhos e o Fer me encarava, a dez centímetros de mim, com cara de poucos amigos.

novembro 04, 2010

Rendida

_Onde você tava, mano? Você sumiu! – a Lê me perguntou, já bastante bêbada, com os braços ao redor da aparentemente-universitária de antes, conforme eu me aproximava sozinha das duas.

_Ahh, tava por aí... – eu sorri, imprestável, apoiando os cotovelos no balcão, de costas.
_Sei... – ela riu, me olhando, e pegou uma cerveja já pela metade apoiada ao meu lado – a gente tava indo pra pista, vamos?!
_Não, meu... – virei para o balcão, agora sob os antebraços, e encarei-a de volta – ...deixa, vamos dar um tempo aqui.
_Hum... O que você aprontou, hein? – a Lê me olhou, desconfiada, e riu.
_Nada... – eu ri como se não fosse contar e, de lado, me aproximei do seu ouvido para cochichar – peguei a Mia na pista de cima, meu.

A Lê se afastou do meu rosto e arregalou os olhos, como se não acreditasse. Reafirmei a veracidade dos fatos com a cabeça, encarando-a com todo o meu ar de credibilidade. E, então, ela começou a rir mais ainda, indignada. A garota ao seu lado ficou sem entender coisa alguma do que estávamos falando, evitando de nos olhar para não parecer excluída do assunto.

_Você é louca, mano! Sério, você tem problema... – a Lê riu – ...vem, vou te pagar uma bebida. Você merece, vai... – ela se divertia comigo.
_Não, não... já to alta pra caralho, mano. Se eu beber mais, vou passar mal aqui...
_Larga de ser mulherzinha, porra... vai, meu, o que você quer?

Tá. Pedi uma vodka, sabendo que não deveria – fazer o que, né. A Lê terminou sua long neck, enquanto eu virava a minha dose generosa, e depois me apresentou propriamente a garota. Que fazia Letras na USP, é claro – sabia!. Conversamos por um tempo, as três, sobre qualquer coisa que não me recordo. Quando enfim saímos para a pista, uns bons vinte minutos mais tarde, minha distinção da realidade já estava consideravelmente prejudicada. Andando, eu olhava o mar de gente à minha volta, trombando em todos os meus lados, e não conseguia, de fato, raciociná-las.

Porra, mano.

Uma das minhas qualidades, porém, sempre foi ter a capacidade de perceber o quão bêbada eu estava – e isso eu já havia reparado há um bom tempo. O problema é que raramente eu faço algo a respeito. Óbvio. Cheguei na pista sem conseguir delinear uma pessoa sequer ao meu redor, com o corpo leve e a cabeça pesada, e já bastante tonta. A Lê, amiga da onça, começou a dançar exclusivamente com a pseudo-cult e eu, evidentemente, sobrei.

Sem outra opção, apanhei a garrafa – ainda fechada – que ela segurava nas mãos e procurei me distrair com a cerveja que estava dentro, mas logo senti que aquilo não ia dar certo. Poucos minutos depois, no entanto, quando o DJ embalou um Seu Jorge remixado e eu esbocei uma careta de desgosto, encarando-o descontente, a Mia apareceu toda irresistível ao meu lado. Lá vem merda, pensei logo que a identifiquei, com medo de mim mesma.

_Você não vai dançar comigo? – ela perguntou toda interessada, me pegando pela cintura, possivelmente mais bêbada do que eu.

Apenas respondi que “não”, com a cabeça, e sorri para ela – que insistiu, me segurando pela mão. Caralho, viu..., suspirei. Olhei em volta, à procura do Fer, e passei a mão na nuca, já preocupada. Eu sabia que aquilo não ia dar certo. A Mia me puxou de novo na sua direção, ainda pela mão, fazendo charme, e eu a olhava como se dissesse o que ela já sabia. Como uma criança manhosa, ela insistia ainda mais, e eu ria.

_Cadê o seu namorado? – questionei, no seu ouvido.
_Tá com os amigos dele... já fui lá, tava com ele até agora – respondeu e sorriu para mim, me puxando – veeem...

Mais uma vez, fiz que “não” com a cabeça, relutante, mas meus pés cederam na sua direção. A Mia me olhou, já quase me convencendo, e sorriu. Você é maravilhosa, hein, puta que pariu, eu a observava fazendo graça para mim, ciente que a guerra estava perdida antes mesmo de começar.

Uma hora, contudo, ela simplesmente se virou. Ainda com as mãos nas minhas, a Mia começou a se enfiar no meio daquela bagunça que estava na Sarajevo, me puxando para segui-la por entre as pessoas. Hesitei por alguns segundos, mas não estava realmente em condições de lhe negar qualquer coisa. Ah, que se dane, pensei, pouco antes de ir atrás dela.

O Troco

E, assim, ela perdeu o Distillers para mim. Por longos minutos, no escuro. Não ganhei de volta os meus Bowies e nem álbuns inteiros perdidos por ela, é verdade, mas... um só beijo daquela garota e, de repente, que me importava a porra da trilha sonora?

novembro 02, 2010

Matemática

É simples assim... Quanto mais escuro, maior a estática entre as duas. Um corpo busca o outro, às cegas e, portanto, em constante estado de alerta – naquela expectativa entorpecente de, enfim, encontrar. A qualquer momento, minha respiração falhava, oscilando entre uma batida e outra da caixa de som, e meus olhos abertos encaravam, perdidos, a ausência completa de cor, de formas, de Mia, à minha frente. Sentindo a presença dela – apenas – nas mínimas partículas de ar que separavam o seu corpo do meu.

Escuro. E quanto maior a quantidade de álcool no seu sistema – pelo motivo mais óbvio –, pior é o cálculo. Maior ainda é, então, a imprevisibilidade do encontro. Solta no espaço, no breu, no vazio, à espera de seja-lá-o-que-vier. Mas vem... ahh, se vem, pensava. O importante era que vinha – se vinha –, não quando e nem de onde. Isso não dá para calcular. A sua cabeça não está em condição de pensar e aí, em contrapartida, compensando a falta de raciocínio, a sua pele é tomada por uma ultra-sensibilidade. À espreita, dominada pelas extensões alucinantes do momento imediato. E quanto mais arriscada a porra da situação, mais longos são os segundos. O seu coração bate inevitavelmente mais rápido e o sangue se esvai das suas extremidades com uma rapidez maior ainda. É... o escuro.

Meus dedos – frios –, à mercê dela, seguravam o seu rosto morno e delicado e desenhavam-no na minha imaginação. Pouco a pouco... cedendo espaço... lentamente, no escuro... sentia-a vindo cada vez mais na minha direção. Até que as suas mãos encontraram os meus ombros. Vieram leves, escorregando pela minha camiseta e – enquanto o meu coração disparava, uau! – subiram quase íntimas pelo meu pescoço... cruzando-se brevemente atrás, na minha nuca, depois soltando e continuando a deslizar pela minha pele acima.

Subiu por mim. Seus dedos ultrapassaram o meu cabelo e, em seguida, contornaram a parte debaixo das minhas orelhas, passeando continuamente pela lateral do meu rosto... até encontrarem os meus lábios, correndo-os de leve e depois voltando para as bochechas, me fazendo arrepiar – ali parada, estática, e ansiosa. Terrível. Terrível e delicioso. Segurou-me por fim, com uma mão em cada lado da minha face. Podia senti-la movendo-se no escuro, mas não via nada. Absolutamente nada. Mas, de alguma forma, eu sabia. Ahh, sabia. Pura iminência. E, de repente, antes de qualquer outra parte do seu corpo, a sua boca encontrou com o canto da minha.

Senti a sua blusa amassando-se contra o meu corpo, na minha camiseta de algodão, e os seus lábios deslizaram pelos meus, se acertando delicadamente. Havia mãos demais entre os nossos rostos – duas minhas, duas dela – e pouco espaço entre nós. Quis dar-lhe passagem, então desci as minhas. Contornando vagarosamente a sua silhueta, no escuro, até alcançar a sua cintura – minha parte favorita (ou uma das...) – e, com um gesto terno, trouxe-a para mais perto ainda.

A sua boca abriu a minha e, simultaneamente, as suas curvas se moviam sinuosamente sob os meus dedos. Porra. Eu sentia a minha cabeça se perdendo, afundando no seu gosto, no seu cheiro, e naquela vontade incontrolável – agora realizada – de tê-la comigo. A sua língua sincronizava-se com o meu ritmo...  me deu um calor violento, caralho, senti toda a minha falta de controle latejar em cada célula do meu corpo. As suas mãos me apertavam cada vez mais, as minhas a ela.  E estávamos, enfim, respirando juntas; meu pulmão contra o dela, nossos peitos apertados, abraçados, nos movendo em perfeita simultaneidade, os rostos e corpos oscilantes, nossas bocas molhadas e as mãos cada vez mais quentes, de um lado pro outro naquele enrolar intenso.

Coloquei-a de volta contra a parede e abri caminho entre as suas pernas com o meu skinny jeans surrado. Meus Nikes esbarravam nos Converses dela, nossas coxas se enroscavam, os zíperes roçavam um no outro. Os seus dedos correram para a parte de trás da minha cabeça, entrelaçando-se nos fios do meu cabelo, e as minhas mãos desceram até os bolsos de trás da sua calça, segurando-a, enquanto eu a beijava com toda a força.

Anônimas, as pessoas passavam por detrás de nós duas, trombando vez ou outra com a gente naquele breu absoluto. Os braços da Mia subiam agarrados pelas minhas costas e eu a apertava mais ainda contra mim, a cada empurrão mínimo de corpos alheios – minha mão ainda nos seus bolsos. A sua boca desenhou, então, um caminho lento pela lateral do meu rosto, descendo pela minha pele, percorrendo o meu pescoço. Senti vontade de lamber o seu corpo, o meio das suas pernas, de colocá-la de vez contra a parede. Meu coração estava saltando pela minha boca, engasgado na minha garganta, e as minhas mãos subiram até enfiarem-se no meio dos seus cabelos. Esbarrei o meu rosto no seu, apoiando-me contra ela, e encostei os lábios no seu ouvido.

_“Baby, you make my heart beat faster. I know.” – sussurrei para ela, como se cantasse a música que ela havia perdido para mim, e as suas mãos me puxaram mais ainda para si.

Os seus beijos se tornaram mais intensos, sua boca voltou para a minha e minhas pernas, metidas e intercaladas entre as dela, já quase a sustentavam na parede. Minhas mãos a seguravam contra mim, levantando-a na minha direção, e seus pés apoiavam-se apenas de leve no chão. Com a vontade que eu estava, era capaz de erguê-la até os meus ombros, colocando cada uma das suas coxas ao redor do meu rosto. O mero pensamento me fazia enlouquecer... puta que pariu. Que vontade de te levar para a cama, garota.

(...)