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dezembro 26, 2009

El Infierno

Desci a Augusta, enfrentando todo o caos degradante de sábado à noite. Em direção ao Inferno – literalmente ou não. Vestia uma calça skinny de couro e uma resgata preta com (quase) todas as tatuagens à mostra. De um jeito ou de outro, a minha noite tinha que ser boa. O problema agora era só conseguir ultrapassar os porcos nojentos, tarados e todos aqueles malditos hipsters burgueses que lotavam a calçada rua abaixo. Os caras esbarravam em mim no meio da multidão.

Argh. Homens são definitivamente mais insuportáveis bêbados e em bando.

Entrei no Inferno e o lugar estava tão cheio quanto o lado de fora, mas o público era mais agradável aos olhos – a primeira coisa que vi, claro, foi a Mia. Estava em pé ao lado do Fernando, ambos encostados no bar. Me aproximei, cumprimentando todo mundo na roda, e tentei não olhar muito para ela.

O Fer agia normalmente, discutindo qualquer coisa com o cara ao lado, empolgado, enquanto a Mia ria da conversa deles. Todos já mais bêbados do que a Amy antes da rehab. Quem sou eu para destoar do povo? Tratei de me embebedar também, em um ritmo bem pouco saudável. E logo estava me acabando de dançar na pista, me divertindo horrores. Graças a Deus pelo Inferno, não é?

As horas passaram voando e todo o nosso juízo também. Lá pelas tantas da madrugada, vi o Fer acendendo um cigarro disfarçadamente em um canto da balada e, com uma certa dificuldade, cortei caminho até ele e a Mia.

_Você vai ser expulso! – gritei, competindo com o som ambiente ridiculamente alto.
_Cala a boca, não vou nada, eu conheço todo mundo nessa porra – ele riu – ...quer?

Peguei o cigarro da mão dele e traguei duas vezes, o máximo que pude, então soltei a fumaça para baixo na tentativa de encobrir nosso pequeno delito. Levantei a cabeça de novo e olhei para a Mia, absolutamente maravilhosa, encostada ali no canto. Estava com um coturno baixinho e um vestido minúsculo preto, o cabelo solto. Não dá. Eu não aguento isso.

_Vem dançar comigo... – pedi indelicadamente, colocando minhas mãos em volta da cintura dela – ...você vai ficar parada com esse molenga a noite toda?
_Vai se foder! – o Fer riu, colocando o cigarro na boca.

Eu olhava para a Mia, argumentando bêbada.

_Vem... – sorri – Vem se divertir um pouco!

Eu estava embriagada demais, perto demais. Ela sorriu de volta e negou o pedido atenciosamente. Estava gata pra caralho. Vai se ferrar, Mia, você é boa demais. Fiquei olhando encantada para ela por uns segundos, logo após ter sido sutilmente dispensada. Em seguida comentei com o Fer que ele deveria levar sua garota para dançar.

_Ela está entediada, meu! – falei, numa tentativa de me auto-disfarçar, e saí.

Voltei para a pista, mas continuei trocando olhares com a Mia por uns instantes. Era mais forte do que eu e a bebida juntas, acreditem. A Mia me olhava de volta, impossível de decifrar. E eu a olhava muito, muito mais. O Fer colocou o seu braço ao redor dela e os dois se beijaram, ela sorria para ele distraída. Qual é a sua, garota? Foi nessas que os meus olhos encontraram algo – ou melhor ainda, alguém – mais interessante com que se distrair: uma filha de mãe argentina e pai brasileiro chamada Clara. Uma paulistana “muy” linda e “muy” disponível.

Ah, é você mesmo. Decidi, totalmente bêbada.

Alguns minutos e muita conversa fiada minha depois, e eu me encontrava nos braços dela em uma das paredes do Inferno. No maior amasso. Beijos intermináveis e intensos, os cabelos bagunçados e as mãos para todos os lados. Fantástico. Fiquei puxando-a contra o meu corpo, ambas perigosamente bêbadas e não tirei meus olhos dela pelo o que me pareceram ser horas e horas. Deus, como é bom ser sapatão. Eu devia agradecer diariamente pela sorte de não ter nascido hétero.

O que eu não havia reparado, todavia, era que outra pessoa também não conseguia tirar os olhos de mim. A cada minuto que eu passava com a argentina, o olhar da Mia se direcionava com mais frequência a nós duas, me desconcentrando. Isso muda tudo. Assim que consegui, arrastei a Clara até o bar a fim de arranjar-nos duas doses de tequila, estacionando bem ao lado do Fer e da sua namorada visivelmente curiosa. Bem-vinda ao vale dos homossexuais, pensei e ergui as sobrancelhas na direção da Mia.

Apesar de termos nos tornado muito próximas com o tempo e de sempre conversarmos sobre tudo, a Mia nunca havia me visto com nenhuma garota. Viu inúmeras delas passando pelo corredor na manhã seguinte do apê, claro, ou indo comigo para o banheiro da balada. Mas não pegando de fato. Aquilo era perfeito.

_Essa é a Clara – apresentei – E Clara, esses são o Fernando e a Mia.

Introduções concluídas, empurramos as tequilas para dentro e eu tratei de agarrar a minha chica guapa ali mesmo. Contra o bar. Bem em frente ao Casal 20. Toda aquela curiosidade da Mia me deixava intrigava. E me motivava: eu não conseguia me conter. Gostar de mulher é assim, pensava em lhe dizer, enquanto beijava a Clara e imaginava os olhares discretos da Mia em nossa direção. Eu era capaz de levar aquela garota para o apartamento e comer ela a madrugada inteira caso isso chegasse aos ouvidos da Mia.

E de alguma forma, foi o que eu acabei fazendo.

Cara, eu sou genial. 

dezembro 25, 2009

Sábado à noite... e daí?!

É melhor assim, tentei me convencer.

Sentei em frente ao computador e, por algumas horas, procurei me distrair com as mesmas coisas de sempre. Os mesmos sites, as mesmas conversas e as mesmas pessoas. Internet, grande bosta. Uma amiga tentava insistentemente me convencer a sair, afinal, segundo ela, era sábado à noite e a possibilidade de eu ficar em casa sozinha parecia um grande absurdo. Pelo menos, para a minha amiga e umas quatro outras pessoas que surgiram indignadas no meu messenger sem saber o que raios eu estava fazendo online àquela hora.

Quando eu estava prestes a ceder ao pedido original, o da minha amiga – de acompanhá-la a um barzinho sem sal na Vila Olímpia, credo –, o meu celular tocou. Roberta, logo pensei. E decidi ignorar, mas o telefone continuou tocando até cair. Na segunda vez, tirei a bunda da cadeira já levemente irritada e fui procurá-lo na sala. Lá estava ele, próximo à porta, largado no sofá. Mas o monitor não indicava mais nenhuma chamada da Roberta e, sim, duas ligações perdidas de “Fernando”. Minha cabeça foi a mil. Droga, o que ele quer?

Fiquei agitada, eu não sabia o que pensar.

Meu pessimismo incorrigível e eu chegamos à conclusão de que ele provavelmente ficou bêbado e consequentemente disposto a me xingar pelo telefone. Nisso, o celular começou a chamar novamente. Era ele de novo. Merda, atendo ou não atendo? Fiquei aflita, andando de um lado pro outro enquanto o celular gritava na minha mão, sem saber o que fazer. Merda, merda, merda, um bilhão de vezes merda. Não posso atender. Seja lá o que ele vai falar, eu não quero ouvir. Mas que merda. Pára de tocar, por favor... Pára de tocar, pára de tocar... ahh, droga!

_Alô?
_Porra, mano, tava dormindo?
_Não! Quer dizer... mais ou menos – me enrolei, um pouco nervosa – Estava quase. Aqui na... Na, na sala. Digo, na Roberta! Eu tô na casa da Roberta, na sala dela. Estava quase dormindo aqui. Sabe como é... Eu vim... Ficar com ela e...
_Você está bem?
_Claro! – forcei um tom indignado – Por que?

Ele riu, me chamando de doida. E perguntou se eu não queria encontrá-lo na balada, umas quadras para baixo da nossa casa, na Rua Augusta. Como é que é? E precisa ligar três vezes para isso, seu estúpido? O meu coração quase infartado começou finalmente a se acalmar. Estava quase recusando, quando ele mencionou que estava lá com alguns dos nossos amigos e... advinhem? Claro, a Mia. Aceitei na mesma hora. Isso se chama falta de neurônio e um instinto suicida de quem não aprendeu nada o dia inteiro. Por que diabos eu queria vê-la?

Perguntei em qual balada eles iam e disse que chegaria em meia hora.

_Estamos no Inferno, cola aí – ele respondeu.


Nossa. Que apropriado.

Maldito silêncio.

Tentei virar aquela chave um milhão de vezes, mas algo sempre me impedia. Acho que tive medo do que pudesse encontrar do outro lado. Imaginava dar de cara com o meu melhor amigo e estimado colega de apartamento, me esperando no meio da nossa sala, puto da vida, depois de descobrir que eu havia chegado perto da garota dele. Perto o suficiente para beijá-la, caso eu quisesse – e eu queria. Antecipei mentalmente cada insulto que ele cuspiria na minha direção. E não conseguia abrir a maldita porta.

Quando finalmente superei o meu medo ridículo de virar a chave, a Roberta já havia deixado dois recados na minha caixa postal e o meu celular registrava inúmeras ligações perdidas, todas dela. Criei coragem e abri a porta. Nada. Que estranho. Entrei silenciosamente pelo escuro e, como ninguém se manifestou, acendi as luzes.

O apartamento estava vazio. Sem ninguém, sem nada, sem reações ciumentas explosivas, sem reprovação alguma, sem nenhuma conclusão para todo aquele rolo que eu havia começado, sem desfecho e sem indícios do quanto havia sido falado entre aquelas quatro paredes na minha ausência. Nada.

Ah, isso era bem pior do que eu esperava.

Andei pelo corredor até o quarto do Fer e a porta estava aberta. Pude constatar que realmente não havia ninguém ali, mas percebi que os lençóis estavam desarrumados. Argh. Como eu odiava aquilo. Odiava as coisas que passavam pela minha cabeça quando via a cama bagunçada depois da Mia ter estado lá. Era horrível.

A minha ansiedade tomou conta. Queria ter certeza do quanto ele sabia. Queria olhar nos olhos dela e ver se tinha feito alguma besteira ou se todo aquele surto era resultado da minha própria paranoia. Queria alguém ali. Queria alguma certeza. Qualquer uma.


Nada. Só a droga do silêncio.

dezembro 19, 2009

Indesculpável

_Nossa, isso foi intenso – suspirou a Roberta, enquanto retomava o fôlego – você não costuma ser tão... Ahm...

Babaca? Infantil? Egoísta?

_...sei lá. Tão intensa assim.
_Hm... – hesitei, olhando para ela do meu lado – mas foi bom?

Ela riu de novo, como se a resposta fosse óbvia, e eu sorri rapidamente de volta. A verdade era que aquilo não havia adiantado de nada para mim. Eu tentei, tentei mesmo, tentei ao máximo tirar a Mia da minha cabeça. Tentei por horas seguidas arrancá-la à força, à exaustão de mim. Mas ela simplesmente não foi embora. Inferno.

_E quando você vai me fazer sua namorada, hein? – a Roberta perguntou, meio brincando, enquanto acendia um baseado.
_Talvez você mesma devesse se fazer a minha namorada...
_É, eu tento... – murmurou – ...caso não tenha percebido.

Me senti péssima. Ela desviou o olhar subitamente frustrada pela minha cara de pau, ainda que tentasse não demonstrar, e eu não conseguia sequer digná-la com uma resposta. O que diabos eu estou fazendo? Talvez eu devesse ter percebido mesmo, talvez eu devesse ter me importado mais, talvez eu lhe devesse todo o carinho que ela merecia. No final das contas, fingir amor com boas intenções é mais íntegro do que ser sinceramente filha-da-puta? Eu devia simplesmente deixar as pessoas em paz. Longe da minha confusão amorosa.

Eu não te amo, pensei. E a beijei carinhosamente no rosto. Eu tinha feito tudo errado, tudo aquilo, cada movimento, cada palavra. E a culpa era inteira minha, droga.

_Isso está errado, eu estou errada. Eu não devia ter vindo hoje. Me desculpa... – levantei da cama, colocando a calcinha de volta. 

Medidas drásticas

Quarenta minutos, dois sanduíches, três Coca-colas e muitos cigarros depois e estávamos de volta ao apartamento. A fome e a resistência da Roberta haviam ido embora, levando junto alguns dos meus poucos reais restantes, gastos em um novo maço. Até que, finalmente, voltamos.

PJ Harvey, "Beautiful Feeling". Eu observava a Roberta dançando lentamente de calcinha pela sala... A música pesada de alguma forma se misturava com a sua personalidade. As cortinas escureciam todo o cômodo, mas eu conseguia vê-la, de costas para mim, se movendo de um lado para o outro. Quando se virava de frente, ela sorria para mim de longe. Eu poderia me apaixonar por essa mulher, pensei. Por um instante, me esqueci do que me levara até a casa dela mais cedo naquele dia. Me esqueci dos motivos, me esqueci do meu único motivo, me esqueci dela...

Mia. Assim, de repente, ela voltou. Por que eu fui pensar logo nisso, porra? Mia. Mia. Mia. De novo e de novo. De repente, a desgraçada tomou conta de todos os meus pensamentos. Contra a minha vontade. Me irritei. Você está estragando isso, inferno. E ela estava. A Mia estragava a Roberta, estragava tudo. Sabe, se a namorada hétero do seu amigo é capaz de estragar uma garota magnífica dançando só de calcinha para você numa sala vazia, meu bem, você está perdida. E eu já era.

Droga. Larguei o cigarro, incomodada, e me levantei do sofá. Eu consigo fazer isso. Fui até o meio da sala e segurei a Roberta com toda minha força. No entanto, quanto mais eu a beijava, mais a Mia enchia minha cabeça. As minhas mãos apertavam a Roberta carinhosamente numa tentativa de que a Mia desaparecesse. Eu queria que a Mia desaparecesse, que ela sumisse de todas as extensões do meu corpo e do meu coração – sobretudo do coração. Nada. Ela continuava lá. Em mim, insistentemente. Aquilo estava me enlouquecendo e me dominando. Era horrível.

Resisti. Eu vou fazer você sumir.

dezembro 18, 2009

Roberta

Desembarcamos, eu e as minhas más intenções, numa ruazinha inclinada de Perdizes. Lá estava eu em frente ao interfone. Apto 42, Roberta. Sim, esse era o nome da garota que eu estava prestes a sacanear por motivos totalmente egoístas. A mesma que provavelmente me chutaria de volta para Baixo Augusta caso descobrisse que eu alguma vez a imaginei como uma vítima indefesa da minha própria falta de integridade – que era exatamente o que eu estava pensando, parada ali em frente ao seu prédio.

Muitos degraus depois – quarto andar, mano! – e ela abriu a porta nitidamente feliz com a minha visita. Encostou no batente como se já me esperasse há algum tempo e eu sorri. Um sorriso sincero, estava realmente linda. É, a Roberta é uma exceção. Minha cabeça não costumava virar para loiras, exceto por ela. Ela tinha aquele jeito dyke de ser, cabelo curtinho e personalidade forte e independente, era verdadeiramente irresistível. Desenvolvemos uma cumplicidade uma com a outra com o tempo que eu não tinha com outras garotas com quem ficava – mas algo me impedia de estar realmente com ela.

A minha imaturidade, provavelmente.

O sexo era de fazer qualquer uma agarrar os lençóis quase até rasgá-los. E eu gostava de pensar que era para isso que nos ligávamos de tempos em tempos – ainda que essa fosse provavelmente só a minha perspectiva. E não a dela.

_Então quer dizer que você ainda está viva? – ela perguntou, rindo, ainda encostada no batente e de braços cruzados.
_É... Eu ando meio ocupada... Correria no trampo.

Mentira.

Ela levantou a sobrancelha como se não acreditasse em mim, ainda rindo, e em resposta eu a beijei contra o batente. Meu deus, como eu precisava disso. Tem umas bocas que simplesmente se encaixam.

_Posso entrar? – perguntei, fazendo graça.

E como se já soubesse a resposta, fui me dirigindo para dentro do apartamento com uma confiança desmedida.

_Na verdade – ela me segurou, tirando as chaves do bolso –, eu estava saindo para almoçar agora mesmo. Vamos?

Espera. O quê?! O meu mundo virou de cabeça para baixo. Fiquei parada olhando para ela, sem resposta. E indignada. Eu preciso de horas intermináveis de sexo, você está realmente sugerindo que eu fique sentada por sabe-se-lá quanto tempo em um restaurante? Ah não. Não, não. Só podia ser brincadeira.

_Olha, eu posso até te acompanhar, gata... – não me dei por vencida e a encostei de volta contra o batente da porta, da forma mais indecente possível – ...mas duvido que qualquer lugar ofereça o que eu estou com vontade de comer.

Bem, era isso, eu estava pronta para tirar a roupa ali mesmo. Admito. Danem-se os vizinhos. Precisava de qualquer coisa que ocupasse a minha cabeça. E a Roberta era ideal. O clima entre nós duas começou a funcionar a meu favor. Ela colocou os braços ao meu redor e se aproximou do meu ouvido, enquanto eu descia pelo seu pescoço fazendo graça e beijando sua pele.

_Eu estou morrendo de fome... – sussurrou propositalmente sexy e, antes que a minha mente poluída pudesse achar que ela tinha entrado na minha, ela me afastou – É sério. Eu estou mesmo morrendo de fome! Vamos?!

Aquilo era vingança pura. Desgraçada. Eu podia ver ela se divertindo com toda a situação e achando graça na minha nítida cara de frustração. Isso porque, dez minutos antes, eu estava plantada em frente ao seu prédio imaginando-a como a minha vítima indefesa. Pois é. Agora eu era arrastada para um almoço totalmente inoportuno, a três quadras dali, com a cara mais emburrada do mundo. Que ironia!

É isso que se ganha por achar que as pessoas estão à sua disposição, refleti, mas que droga.

dezembro 15, 2009

Merda, merda.

Não sabia por que estava tão irritada, mas sentia que havia feito uma besteira muito grande. Acendi um cigarro e tentei não me preocupar. Em vão. A minha cabeça estava cheia de pensamentos sobre a Mia, sobre tudo o que aconteceu desde que a conheci, como ficamos próximas e como pude interpretar as coisas de forma tão equivocada.

Mas será estou tão errada assim?

Nunca tinha me enganado antes – não desse jeito –, o que porra a Mia tinha que me confundia tanto? Não interessa, retomei, não importa se eu estou certa ou errada sobre ela. É uma péssima ideia. Eu sabia que não podia dar em cima da garota do Fer, o que me perturbava mesmo era que eu não conseguia evitar.

Desci a rua impaciente e nervosa, fumando compulsivamente e judiando dos meus lábios, que eu mordia entre uma tragada e outra. Estou exagerando, pensei, é só uma garota. Argh, garotas. Por que diabos eu fui gostar de garotas? Homens são mais fáceis, são tão simples, até óbvios. Já as garotas são de uma complexidade infernal e, infelizmente para mim, viciantes pra porra.

Garotas, garotas, garotas.

Era tudo o que vinha na minha cabeça enquanto eu descia a Frei Caneca. Isso e a boca da Mia. Ela é hétero, eu insistia mentalmente, mas quanto mais eu tentava não pensar em mulher alguma – ou partes delas –, mais eu enlouquecia. De repente, parei de andar e respirei fundo. Estava em uma esquina e a senhora ao meu lado me olhava esquisito, como se eu fosse uma descontrolada. Ótimo, estou assustando velhinhas agora. Olhei em volta e vi que havia descido mais do que imaginava, já estava quase no buraco sujo da Rua Augusta que segue o final da Frei Caneca e o sol indicava impiedosamente que já passava de meio dia.

Merda, vou ter que subir tudo de novo nesse calor insuportável.

O pessimismo e um desânimo preguiçoso – resultante da minha vida como uma paulistana sedentária – afastaram meus pensamentos inapropriados por um instante, mas eles logo voltaram, empurrando mais um cigarro para dentro da minha boca. Preciso de uma garota, concluí. E precisava naquele mesmo segundo. Analisei rapidamente as minhas opções, peguei o celular e, após minha segunda ligação, subi no primeiro táxi que parou.

_Perdizes, por favor.

Eu não tinha dinheiro para o táxi. Quer dizer, dinheiro eu até tinha, mas não para o que eu estava prestes a cometer. Uma fuga desnecessária para o apartamento de uma semi-fixa que não tinha culpa de nada na história e a quem eu provavelmente ia acabar machucando. Eu poderia pensar em um milhão de maneiras de gastar melhor o meu restrito dinheirinho. Foda-se, contestou o meu ego gigantesco, é uma emergência. De qualquer forma, eu já havia entrado no táxi e dito o meu destino, então pouco importava.

Tudo o que eu queria era esquecer o fiasco daquela manhã e me dar bem – o que pode soar bastante pretensioso e egoísta... e era – , mas há anos sigo a teoria de que se enrolar nas pernas de uma menina é a melhor forma de tirar a boca e todo o resto de outra garota da sua cabeça. E era exatamente disso que eu precisava.


Perdizes, baby, aqui vou eu.

dezembro 14, 2009

Papa-anjo, eu?!

_Mas, espera, quantos anos você tem?
_Vinte e três – respondi.
_Nossa, como você é ridícula... São só dois a mais do que eu!

Sem problemas, gata, não sendo ilegal.

_O que foi? – indagou, como se eu risse dela.
_Nada – respondi.

A Mia continuou me olhando, insatisfeita.

_Você acha que eu nasci nos anos 2000, né?
_Desculpa aê, mas semana passada você me perguntou a música no meio do...
_EU JÁ DISSE QUE CONHECIA E SÓ NÃO SABIA O NOME!
_Era Blondie. Quem não conhece Blondie?
_Eu conheço Blondie. Eu só não sab...
_É a coisa mais pop dos anos 80! – interrompi, rindo.
_Não é a coisa mais pop dos anos 80...
_É a coisa mais pop que eu ouço dos anos 80.

A Mia revirou os olhos, achando graça na minha provocação.

_Você deve me achar uma pirralha...
_Acho – respondi e levantei da mesa, rindo.
_Babaca.

Caminhei até a pia e abri a torneira, jogando água sobre o prato. Olhei por cima do meu ombro e vi a Mia sentada à mesa, de birra comigo; achei graça.  Pisquei na direção dela, segurando o riso:

_Até que eu gosto dumas novinhas...

“Ei!”, ela protestou, rindo. Terminei de lavar o prato e sequei a mão na minha camiseta. Agachei para pegar o filtro de café sobre a pia e me levantei, procurando qualquer coisa limpa no escorredor onde pudesse ferver água. A Mia me observava a uns metros, ainda sentada.

_É bonita essa sua calcinha aí...

Ela comentou e eu olhei para baixo sem lembrar o que estava vestindo. Balancei a cabeça, rindo.

_É assim? Um chaveco meu e você já é lésbica?
_Ah, nossa, aquilo foi um chaveco?
_Poderia ser...

Ela revirou os olhos, negando com a cabeça, e eu ri.

_Triste, hein? Essa é a sua melhor cantada?

Não, quis responder. Mas a observei em silêncio. A Mia se levantou e pegou o meu maço sobre a mesa, achando graça de mim. Acendeu um cigarro e olhou de volta por trás da fumaça. Por um segundo, pensei que tivesse percebido uma abertura. Não sei por que diabos concluí isso, mas... Sei lá, parecia que havia algo a mais no jeito que ela me olhava. O clima mudou. Ela estava encostada na parede, com aqueles olhos castanhos imensos, quase me desafiando. E eu, claro, entrei na brincadeira sem pensar duas vezes.

Andei até ela, a encarando de volta. No meu melhor jeito lésbico – como se isso fosse preciso – e observei as suas pernas naquele vestido, numa vontade absurda de entrar ali. Já não parecia mais tão brincadeira. Eu estava confortável e ela curiosa, mas imóvel. Podia sentir a sua respiração ficando tensa. Me apoiei na parede, colocando a mão por cima de seu ombro. Quase nos encostamos.

Continuei olhando para ela.

_O dia que eu der em cima de você – retomei minha resposta –, você vai saber.

Ela sorriu meio sem jeito, após intermináveis segundos me encarando. Eu, por outro lado, achei certa graça naquilo. Estou dando em cima da namorada do meu colega de apartamento, pensei, onde foi que eu deixei minha integridade? Ela me olhava sem jeito. Passei a mão na sua cabeça, bagunçando um pouco seu cabelo propositalmente, como se indicasse que estava só brincando. Não estava.

_Quer ver TV? – mudei rapidamente o assunto, cortando o clima, como se nada estivesse acontecendo.

A Mia continuava me observando. Dei uns passos até a porta da cozinha, em direção à sala, a convidando.

_Não, eu... – ela respondeu, com um certo receio – ...acho que vou tomar um banho e deitar um pouco até o Fê chegar.

Certo. Concordei com a cabeça, sem me virar para ouvir a sua resposta, e liguei a TV na sala. A Mia passou pelo corredor e entrou no banheiro, fechando a porta. Deitei no sofá, passando a mão no rosto e me forçando a cair na real. Merda, pensei. Decidi ignorar minha vontade de desaparecer do mundo e afundei numa almofada, olhei para a televisão e ela continuava na droga da TV Jockey. Me arrependia de ter feito, falado, insinuado qualquer coisa para a garota. Preciso me controlar, repeti para mim mesma, me sentindo uma idiota. Essa brincadeira vai acabar mal.

Olhei novamente para a TV e as malditas corridas de cavalo continuavam lá. Aquilo me irritou profundamente e eu desliguei a televisão num impulso, impaciente. Estava subitamente inquieta. Preciso sair. Coloquei uma calça, peguei dinheiro, o maço de cigarros e fui para rua, puta comigo mesma.


dezembro 13, 2009

Muffins e cavalos

O Fernando saiu para fazer a segunda via de um dos seus documentos, enquanto eu morria deitada de calcinha e camiseta na sala, torturada pelos meus pensamentos. Algum tempo depois  não sei quanto  a Mia saiu do quarto no fim do corredor e apareceu atrás do sofá com o mesmo vestido da noite anterior. Tinha os cabelos soltos e bagunçados. Era sábado, quase onze da manhã, e o dia estava um marasmo que só.

_Mano, o que diabos você está assistindo?  ela riu, levemente indignada.

Olhei para a televisão e vi um monte de cavalos correndo com uns homenzinhos grotescos montados em cima deles.

_Nossa – estranhei – não sei. Quer dizer, à TV Jockey aparentemente... O que não sei é por que está aí.
_Você não estava assistindo?  ela riu, de novo.
_Não, tava pensando...
_Ah, é? E sobre o quê? – ela passou as pernas por cima do sofá e sentou ao lado dos meus pés, aguardando a resposta.

Lá estava aquele olhar de novo. Sobre você, pensei, pateticamente encantada por ela. A Mia me observava curiosa. Como era linda – que mulher maravilhosa! –, do tipo que pára o trânsito com seus cabelos morenos e aquela boca deliciosa. Puta que pariu. Linda e inaceitavelmente hétero. Tamanho absurdo simplesmente não entrava na minha cabeça: nada de tão bom poderia ser hétero. Não dá. A heterossexualidade é sempre meio brega e a Mia...

A Mia ainda me olhava. O silêncio na sala começou a crescer, tornando-se desconfortável.

_Nada demais – desconversei – tava pensando, sei lá... na vida.

Mentira.

Ela sorriu e eu levantei um pouco o corpo, me apoiando nos cotovelos. A Mia tinha flores de cerejeira tatuadas ao longo do corpo, que desciam o seu ombro e acompanhavam as suas curvas pelas costas. Eram delicadas e bonitas. Observei os traços meio distraída e ela pareceu se constranger. Dei um sorriso amarelo. E mudei bruscamente de assunto, perguntando se não queria alguma coisa da cozinha. Eu ia pegar algo para comer.

_Não, mas te acompanho – ela respondeu –, acho que o Fê ainda vai demorar.
_Ah, certeza... O Poupa Tempo é na puta que pariu e não poupa tempo nenhum, tá sempre lotada aquela merda!

Ela concordou, revirando os olhos, como se já tivesse passado por isso. Fomos até a geladeira e eu peguei um pedaço de lasanha que tinha sobrado do jantar. Acendi uma das bocas do fogão com o meu isqueiro e joguei aquele resto de comida numa frigideira. A Mia observava todo o processo, uns metros mais pra lá na cozinha, recriminando a minha estratégia.

_Cê vai mesmo esquentar isso assim? – arregalou os olhos.
_Que tem? – respondi, acendendo um cigarro com o mesmo isqueiro, e ri da cara de horror da Mia – Ah, me deixa... Puta preguiça de pôr no forno!  

Sem frescura. A Mia deu com as mãos para cima, como quem não ia mais dar pitaco, e eu me virei para o fogão. A sua família era dessas bem burguesas. Para completar, o seu irmão trabalhava como chef num restaurante da Lapa. Coloquei uma tampa consideravelmente maior do que a frigideira por cima, para aprisionar o calor, e encostei na pia para esperar. Não demorou muito até eu me encher. Tirei a lasanha daquele jeito mesmo, ainda fria por dentro, e me sentei para comer.

_Ninguém se enche de comida pretensiosa diariamente – disse entre uma mastigada e outra, tagarelando minha teoria sobre como chefs de cozinha secretamente preferem comer enlatados e outras porcarias quando estão sozinhos – Refeições industrializadas foram cientificamente projetadas para serem mais gostosas. Nada consegue superar uma porra dum miojo, meu!

A Mia riu durante toda a conversa e logo iniciamos um papo saudosista e empolgado sobre as tranqueiras que comíamos quando éramos crianças. Me pegava a olhando, encantada, enquanto ouvia ela falar de bolachas recheadas e muffins e balas coloridas.

Isso não vai acabar bem. 

dezembro 12, 2009

Call me crazy, but...

Quanto mais eu me convenço de que ela é hétero, mais eu pareço perceber sinais de uma verdade não revelada. Não, não pode ser. Ela tem aquela vontade retida no olhar, aquela... ahm... fome, sabe? Do tipo que outras meninas não têm.

Garotas héteros não me olham assim, elas me vêem com uma certa indiferença. Não no sentido ruim: eu simplesmente não tenho nada a lhes oferecer. É como servir bife a um vegetariano, não causa a menor reação, no máximo um sentimento de repulsa. É o mesmo que colocar um homem bombado sem roupas na minha cama e querer que eu coma aquilo... Argh. Nojento.

Não, a Mia não me olha assim. Os olhos dela são interessados – interessados demais –, mas não me provocam, não me dizem nada, e é isso que não faz sentido.

A dúvida vai me enlouquecer. Sério.