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janeiro 24, 2013

Of all the strangers

Foram os dois minutos que eu precisava. Junto a todos aqueles outros, soltos pela cama. Sem ela e com tudo mais que me cercava, em pensamento – bêbada. Eu só queria você, me..., começava cada frase dela. Em tom sussurrado, as palavras desmedidas. De alguma forma a voz da Mia tinha um efeito insidioso em mim. Perdia o fôlego. Os seus lábios, o seu corpo todo pareciam contornar as letras que saíam da sua boca. Por que você, de todas as garotas? Eu me perguntava, agora ofegante, com o rosto amassado contra o travesseiro e sozinha, tendo terminado a que se dava aquela ligação. Nós ficamos em silêncio. Ouvia-a respirar do outro lado da linha e o meu corpo ainda pulsava, inebriado e cansado. Recuperava o fôlego, a sanidade.

Sorri. Por um breve momento, achando graça. Hmm. Logo, porém, o escuro do quarto impregnou. E senti os meus braços e pernas afundar no colchão – tomada por uma densidade alcóolica, de endorfina. O telefone ainda no ouvido. A presença sóbria da Mia do outro lado. E não sei por que porra não desliguei. Aqueles. Aqueles segundos que se seguiam eram quando ficava perigoso. Pois era quando nos dávamos conta de que ela, ela estava lá; e eu não. Eram os segundos comuns designados para qualquer carinho depois de um orgasmo extasiante, de uma puta foda. E quando, inevitavelmente, nos sentíamos sozinhos.

_Não é – a minha boca soltou, sem reconsiderar – suficiente.
_O que?!

A voz da Mia pareceu se assustar, como se não tivesse ouvido.

_Eu...

Pausei então. A minha linha de pensamento se engasgava em si, bêbada. E suspirei, afundando o rosto no travesseiro. Merda. Deixei o celular de lado por um instante – a parte sã que me restava sabia que eu não queria ter aquela conversa. Não conseguia, todavia, evitar me sentir confusa. Parada, ali. A minha cabeça rodando, o formigamento silencioso nas extremidades. As minhas veias ainda latejavam. Por que quando se está sozinha, em plena madrugada, com a garota que amou por tanto tempo no telefone, algumas coisas simplesmente parecem fazer sentido? Ainda que não o façam no resto do dia. Temos a ilusão de que as nossas palavras não vão soar tão sérias. Nem “tão ruins assim”. E as falamos conscientemente.

Retomei o celular e as murmurei:

_Você deveria estar aqui, Mia.

Os meus pulmões sentiam o peso da bebida. Havia seriedade na minha voz. E ela não respondeu de imediato, apenas suspirando, pesado. Imaginei se sorria do outro lado, surpreendida com as minhas palavras; ou se tinha os olhos apertados em lassidão, o coração complicado. Me escuta, garota. Eu te queria aqui, eu. Você. Pela primeira vez em muito tempo eu me permitia pensar tão apaixonadamente dela – ainda que embriagada até os ossos. E queria o seu cheiro ao meu lado. O toque das suas pernas, o colchão afundado no centímetro seguinte do meu corpo. Não pensava em mais ninguém. Não ainda.

_Eu também queria estar aí – ela respondeu então, com a voz fraca; e eu soube imediatamente que os seus olhos estavam fechados – Vamos, vamos ver se a gente se encontra esta semana, tá?

Acordei, “uh-hum”. E não sei quanto tempo se passou naquele quarto vazio, depois que desligamos, até que eu conseguisse fechar os meus olhos. Acordei na tarde seguinte com o sol atravessando a janela aberta, direto na minha cara agora já queimando de tão quente. A primeira coisa que avistei foi o cinzeiro sobre a mesinha de cabeceira, as bitucas apagadas pela metade na ansiedade da noite anterior. Levantei com certa dificuldade – a cabeça e o meu corpo doíam, como uma maquinaria enferrujada. Argh. Meti qualquer calcinha nas pernas e me dirigi, descabelada, até a cozinha. O Fer estava sentado frente à mesa, sem camisa.

_Bom dia, ressaca – ele disse e riu, ao me ver.
_Bom dia.
_Ô, não sabia se você ou o maluco tinham comprado – ele disse, comendo uma tigela de sucrilhos com leite –, mas peguei. Tem problema?
_Não. De boa. Acho que o Du nem comprou nada ainda, ele só fuma o dia inteiro.
_Isto... não faz sentido.

O Fer ponderou e eu ri, concordando. “É. Não mesmo”. Me juntei a ele, puxando uma cadeira. E comemos o café-da-manhã, conversando como se ainda morássemos juntos. O Fernando fazia sentido naquela cozinha, mais do que qualquer outra coisa. E por mais estranho que fosse, não me sentia mal quanto à Mia na noite anterior. Convivemos por tanto tempo com a culpa que nos acostumamos com ela, talvez. Sentamos no sofá e rimos por toda a tarde, jogando videogame até escurecer do lado de fora. O Fer repetiu algumas vezes que não queria ir embora. Evitando o máximo que pode voltar para a casa dos seus pais naquele domingo. E pedimos uma pizza, convidando o Du no quarto para comer também. Quando ele, enfim, deixou o apartamento, me vi sentada na sala cercada de latas vazias de cerveja, vendo com o Du a reprise de algum reality show muito ruim gringo. Apenas dois pedaços remanescentes na caixa da pizza e um baseado sendo preparado sobre a mesa de centro, nas mãos dele.

_Você já sentiu – eu perguntei, aleatoriamente – como se pudesse amar muitas pessoas, ao mesmo tempo?
_Já. Não sei. Depende do que você considera “amar”...
_É estar realmente esmagado, o tempo todo. O seu corpo. De cima para baixo, como se o céu te empurrasse pra dentro de você.
_Acho que não.
_Hum.

janeiro 14, 2013

Mono

“Não sei”, digitei assim que o cigarro chegou ao fim, ainda na calçada frente ao bar, “desci com o fer pra augusta, acho q. vms pro ape dps”. Pausei por um instante com os olhos na mensagem, apoiada contra a parede imunda do boteco. Sentia-me estranha falando com a Mia depois da noite que tivera com a Clara; e sabendo que o Fer provavelmente dormiria em casa – mas, por outro lado, tudo agora parece tão, sei lá, distante de mim. Não aprendera ainda a lidar com o interesse dela; entre SMS repentinos ou indícios que vazavam das conversas com o Fernando. “Você está compensando todo aquele não saber de antes, quando ficava angustiada e sofrendo”, a Marina me disse uns dias antes, quando liguei para contar da ida da Mia ao meu sofá na quarta-feira.

Dane-se. Eu estava mesmo. Gostava de vê-la correr atrás de mim, num vai-dar-merda impagável. Sem escrúpulo algum e foda-se. Enviei a mensagem e voltei para dentro. Não tinha como encontrá-la, pelo menos não naquela noite. A última coisa na minha mente era ter que dispensar o Fer por uma trepada com a sua namorada, ainda que o canalha do meu amigo se encontrasse agora em um papo interessantíssimo com a nossa companheira de mesa, em num canto do bar. Egocêntrico. “Vamos, vai”, os interrompi, meio grossa, “vamos acabar esta rodada”. Pisquei para ele. Colega, se eu não vou me dar bem, você também não vai. E calculei, conforme eles se apossavam mais uma vez dos tacos de bilhar, ainda que as probabilidades dele fazer algo fossem bem menores do que as minhas.

Buenas a promessa de “só mais uma” obviamente virou duas. Que se tornou três e quatro, para depois perdermos a conta. Ficou rapidamente de noite. E as nossas vitórias nem eram mais computadas. O movimento de sábado na Augusta é algo caótico, sem precedentes. Os garotos resolveram ir ao Flamingo comer algo, um lounge chiquê favorito dos hipsters nos últimos tempos, que ficava umas quadras acima. Eu e o Fer decidimos não ir. E a partir daí, evidentemente, a minha carteira se esvaziou num ritmo desenfreado. Continuamos bebendo, ainda no bar. Uma garrafa levou à outra, a conversa fluiu incessante. E o dinheiro se foi. Um cigarro também se acendia após o outro, divididos ou individuais. Primeiro acabou o meu maço, depois o dele. E então decidimos ir para outro boteco, mais abaixo na Augusta, onde poderíamos comprar outro.

Lá, onde a princípio nem íamos “ficar muito”, mudamos de cerveja para rum. O que é sempre um mau indicativo quando se trata de mim e do Fernando, em particular. Somos tão acostumados que nem sentimos mais o gosto. E este é o problema de se beber por longas horas, sempre temos a impressão de que estamos distribuindo o álcool com alguma moderação. E é claro que não estávamos. Eu menos ainda, de ressaca acumulada. Algumas doses depois, sem saber bem quantas, voltamos cambaleando para o apê. Com nenhuma ideia sobre o horário e apoiados um no outro, em uma demonstração bêbada de afeto. Como eu te amo, moleque – pensei. Afinal, com quem mais eu trançaria as pernas Peixoto adiante até a nossa calçada na Frei? O Fer me segurou subitamente pelo pulso.

_Agüenta aí, velho... – me pediu, curvando-se sobre um canteiro de grama – ...vou gorfar.

E não demorou dois segundos para que vomitasse, ruidosamente. Bem em frente ao prédio. Comecei a rir dos seus modos e o porteiro nos encarou como se o nosso legado naquele condomínio fosse o pior de todos os moradores. Ou de todos os tempos. Subimos pelo elevador e o Fer capotou de qualquer jeito no sofá. Notei a porta do Du fechada, adiante no corredor, e segui até o meu quarto no maior silêncio que podia. Descoordenadamente, tirei então as calças, me livrando daquele jeans todo. Estava com elas desde a festa da amiga da Clara. Argh. Peguei uma blusa larga no armário e fui até o banheiro, entre alguns tropeços, com o celular em mãos. Só então notei mais uma mensagem da Mia. “Que pena...”, ela respondera, inconclusiva. Estava ali há algumas horas. Sorri e deixei o celular de lado na pia, achando graça na mensagem. Tirei a blusa e a calcinha, num lapso de consciência, e fiquei nua sem nem perceber direito. Aí me meti no chuveiro, para curar a embriaguez.

Sem sucesso. Conforme a água descia pela minha nuca, fazendo as mechas do meu cabelo deslizar pelas minhas costas molhadas, a minha cabeça se enchia de imagens irreais da Mia naquela noite. De como me esperara. Ou de como movia os lábios ao escrever a mensagem. E a forma como estava sentada sobre a sua cama, no quarto. Eu tinha ambas as mãos na parede, inclinada sob o chuveiro. Sou uma idiota. Desliguei a água e saí, ainda consideravelmente bêbada, do chuveiro. Retomei a mensagem no celular e escrevi “pq?”, enviando antes de me enxugar com a toalha. Vesti então a blusa larga, me secando de qualquer jeito, e chutei as roupas anteriores sujas para debaixo da pia. Sentia certa dificuldade em me locomover com precisão. Os pingos caíam dos fios do meu cabelo sobre a blusa, voltei para o quarto tateando no breu. E me estiquei na cama, ainda fresca. Poucas coisas para uma garota se equivalem ao conforto de se deitar sem calcinha ou alças de sutiã te apertando.

O celular, agora jogado em meio ao novo maço e às chaves de casa na mesinha, se acendeu. Ela está acordada – foi o meu primeiro pensamento, num impulso. Estiquei a mão para o lado e alcancei o aparelho, abrindo a mensagem recebida. O seu nome estava lá. “Está bêbada? Aposto”. “Ñ inteerssa”, respondi. Podia senti-la sorrir em todas as ramificações nervosas da minha pele, nos meus pelos. Como uma brisa, era irreal. Sentada em seu quarto em Higienópolis e eu encarando a tela acesa, deitada no escuro do meu. “Está, sim, rs” – o meu celular apitou novamente. Ri ao ler, breve. E digitei: “Oq cv t áa fzendo?”, numa dislexia alcóolica. Então me acomodei com as costas num travesseiro meio atravessado, erguido contra a cabeceira da cama. A resposta não veio de imediato. Hm?! Está pensando em mim? O silêncio no apartamento tornava os meus arredores ainda mais lentos. Eu observava fixamente o celular nas mãos. Diz que está pensando em mim, garota. E eu, ah, eu, pensava nela sem comedimento.

“Nada. Só imaginando...”. Disse – conforme a minha mente disparava, imaginando-a de todas as formas mais magníficas, e sujas, manifestas. E imaginava. Imaginava descontrolada o seu jeito. O seu contorcer. E imaginava também o seu rosto, deitado sobre o colchão. As formas como a sua cintura se encaixava nos meus dedos. Os seus cabelos. Os movimentos dela. Os lençóis bagunçados. Ou como pronunciava as palavras. Cada uma, na minha cozinha aquela noite. Os sons de quando gozava. É como você sabe que encontrou alguém especial. Alguém especial”, ela repetia, na minha mente. Os meus pensamentos começaram a se sobrepor, com vida própria. Sentia a tensão das suas pernas nas minhas. E imaginava a sua boca, o seu gosto. Inebriada pelo álcool e um tanto confusa nas sensações, misturando-as com memórias e não-memórias, como parte de uma fantasia embriagada. Os toques; os seus beijos nas minhas costas; a sonolência; o estar juntas; os recomeços lentos; os orgasmos; os cigarros divididos; aquela manhã no apartamento, na quinta; e as conversas; as não-conversas; as nossas línguas; as irresistibilidades da Mia; as suas pernas sobre a pia; o seu olhar, quando a Marina veio; as melhores, arqueou as sobrancelhas; o piso frio; o seu apartamento; e as luzes da Sarajevo; o frio na calçada da Augusta, ao seu lado; o calor; e os meus dedos dentro dela; os meus lábios nos seus; a umidade; o sal que eu lambia no seu pescoço, no seu abdômen; o suor se misturando; os seus movimentos lentos; ou quando pedia para que eu fosse mais forte. A minha pulsação começou a aumentar, contorcendo-me na cama. Imaginava sem controle, um flash atrás do outro. A minha mão sobre os seus tornozelos, as suas canelas, os seus joelhos, a sua cintura; apertando-a contra a parede do meu quarto; as mordidas, os seus dentes na minha pele; os seus beijos; e a primeira vez que bateu na minha porta, naquela madrugada anos antes, completamente perdida. Isto era recorrente. E imaginava a sua mão onde estava a minha. Entre as minhas coxas.

Como se eu levara tempo demais para a responder, a Mia tornou a me escrever, prosseguindo. “...o que você poderia estar fazendo, se eu estivesse aí.”ah, pra puta que pariu. Quis morder o travesseiro com as reticências, agora completas. Subindo pelas paredes de vontade dela. A sentia em mim e me retorcia com o respirar dela entre as minhas pernas, ia imergindo em cada uma das sensações irreais que me sucediam. E demorava-me, solta na cama, extasiada e bêbada; a porta do quarto fechada. Em todo o meu corpo, o sangue parecia correr bruto nas veias. Peguei o celular num impulso e disquei o seu número, os meus dedos ininterruptos; pouco me fodendo para o quão alto ressoaria no seu apartamento. Ouvia-a atender, apenas o som do telefone.

_Me conta... – me adiantei e disse, um tanto ofegante, pouco antes de explodir com o mero som da sua voz na resposta – ...me conta... o que eu poderia estar fazendo.

janeiro 08, 2013

Os ratos de boteco

_Arrasa-corações – cantei no ouvido do Fer, antes de encaçapar a próxima ímpar.

Ele riu do comentário e me contrariou com a cabeça, besta. Cinco pares na mesa, apenas três ímpares. Nem cinco da tarde no relógio. Ele assistia eu me debruçar sobre o bilhar, escada abaixo num boteco da Augusta. Em negação. Dividíamos a mesa com um cara que acabáramos de conhecer e a sua amiga, devidamente hétero e encantada pelas histórias que o Fernando contava. Tinha lá o seu charme cafajeste, o Fer. Já o cara era franzino, completamente gay. Nem uma hora antes, esperavam ao lado da nossa mesa para revezar partidas e, em algum momento, umas duas rodadas mais cedo, os convidamos para se juntar a nós. Eu e o Fernando começávamos já a ficar bêbados, entrando naquele clima sociável da Augusta. Agora, os dois haviam ido buscar mais cerveja no bar e nós ficamos.

_Nada a ver, mano – o Fer cruzou os braços, achando graça nos meus comentários, e se curvou para checar as pernas da garota escada acima na fila.
_Caralho, vai por mim...
_Nem. Conheço mulher, cara, sei como funciona. Ela é destas que dá abertura o dia todo só pra ver se pesca uns elogios, aqui e ali, mas na real não quer nada. Tô te falando, meu...
_Ah! E eu não conheço? – encarei-o, rindo.
_Não f...
_Você vai querer discutir mulher comigo?! – interrompi, aumentando o tom de voz, e ele se divertiu, me ouvindo falar bêbada – Sério? Você vai me dizer como funciona a cabeça das minas?! Fer, na boa. Escuta o que eu tô falando, essa aí tá te querendo.
_Não está.
_Tá bom, então. Fica vendo...

Dei de ombros, com o taco ainda em mãos e afastei-me da mesa. Ele deu mais uma olhada nas pernas da garota escada acima. Usava um shorts curto jeans e uma destas sandálias rasteiras que trançam na canela, lembrava-me alguém com quem ficara não tão recentemente. Talvez a Patti, pensei, vendo-a descer agora com uma Itaipava nas mãos. Novinha. Tinha 19 ou 20 anos, começava Arquitetura e meia tatuagem no braço. O amigo era um tanto geek, tinha cabelos ruivos e voz afeminada. Ambos consideravelmente mais novos do que nós; o que causava com que eu e o Fernando, claro, nos exibíssemos compulsivamente. Tagarelando caso atrás de caso das merdas que já havíamos feito nas sarjetas da Frei e da Augusta, alcoolizados; enquanto acabávamos com eles sem o menor esforço na mesa de bilhar.

_Cadê?! – o ruivinho se espantou ao aproximar-se – Vocês acertaram mais uma?
_Três a cinco – disse.
_Puta merda.
_Mas, assim... Três mesmo ou vocês “encaçaparam” uma com a mão, enquanto a gente tava fora? – a menina argumentou, encarando o Fer com uma atitude esperta; ela era bonita e agia como se mais velha do que realmente era.
_Três, porra... vou mentir? – ele confirmou, rindo.
_Acho melhor a gente mudar as regras...
_É. Troca aí esta aposta! – o amigo concordou com ela, oferecendo a garrafa.

O combinado era que os perdedores bancariam a cerveja da rodada seguinte. O que me economizou uma grana desde que os convidamos para jogar – logicamente. “Aposta é aposta”, retruquei e mandei que dessem sequência sem reclamar, pegando a garrafa. Era bom – até então eu é que estava desembolsando todas as loiras que eu ou o Fer pedíamos. Por insistência estúpida minha, óbvio, em homenagem à visita dele naquele sábado, agindo meio exageradamente como se não nos víssemos há meses. Uma semana para quem viveu junto a adolescência e os últimos anos todos, num apê daquele tamanho, cara, porra! É muito, eu me convencia, toda emocional depois de uns copos americanos de cerveja barata. As marcas redondas se acumulavam na lateral do bilhar.

Tive impressão que aquela semana durara uma eternidade, cheia de idas-surpresa da Mia e idas-e-vindas com a Clara. Não chegava sábado nunca, ao que pareceu. Virei mais um copo gelado, num só gole. E o Fernando matou mais duas na mesa, seguindo uma jogada nula deles. O garoto se revoltou e entregou o taco para ele, irritado, como se desistisse. Numa ceninha, todo dramático. Comecei a rir do outro lado do bilhar. A morena de shorts havia se sentado próxima ao Fer, que estava encostado contra a parede. Segurando os dois tacos, ele ergueu o queixo pro outro, o que abdicava, e disse com bom humor:

_Deixa de ser bicha, cara. Joga aí!
_Pra quê?! Cês já ganharam! – deu com as mãos no ar, de um lado pro outro.
_E daí, porra?!
_E daí que, que, sei lá. E, e que você tem contra bicha? – fingiu estar ofendido, já sem argumentos.
_Nada. Moro com uma aí, ó – o Fer me apontou, rindo.
_Morava.
_É. Morava.
_Nossa, mas até você?! – a garota me olhou, assustada – Caralho, meu, não existe mais hétero na Augusta!

Nunca existiu, pensei comigo mesma.

_Na Augusta?! Mano, nunca existiu... – o Fer comentou, então, do lado dela e achei graça na nossa sintonia – Por isso não é uma merda que nem o resto de São Paulo.
_Vamos dominar o mundo... – comentei, cogitando ir até o lado de fora para fumar, na seca.
_É. Talvez mesmo.
_Tô vendo que vai sobrar pra gente, hein, repovoar a Terra... – ela brincou, cutucando o Fernando, e ele ficou imediatamente sem graça, erguendo os olhos na minha direção atrás de ajuda, enquanto eu me divertia.

Vai, eu ri, quem é que estava certa agora.

_Não, meu – ele respondeu e riu, disfarçando o nervosismo –; acho que a minha namorada não ia gostar, não.

E a garota então cochichou algo em seu ouvido, colocando uma das mãos sobre a sua perna. O Fernando pareceu ouvir, calmo, como quem não tem nada a perder, mas logo balançou a cabeça para ela e sorriu, encarecidamente declinando. Não escutei o que era. E nem me importava, virando no instante seguinte para ir fumar do lado de fora. Sabia que ele, apesar do incidente anos antes com a ex, até que era honesto. Ao contrário de mim, concluí. E saí na calçada abafada da Augusta, acendendo um cigarro, um dos últimos do maço. Conforme soltei a fumaça, checando o celular, dei-me conta de uma mensagem que chegara alguns minutos antes. Era da Mia. “Vai estar sozinha hj?”, ela perguntou, num SMS. E eu guardei o celular de volta no bolso, tornando a me concentrar no cigarro.

janeiro 03, 2013

Luto breve

O movimento no quarto me acordou na manhã seguinte. A Clara levantara para trabalhar e a luminosidade machucava os meus olhos, entreabertos. Estava de ressaca. Escondi o rosto nos lençóis. E afundei inconsciente no cheiro que ela deixara. She sought death on a queen-sized bed. Escutava-a mover-se pelo cômodo, atravessando o piso de madeira, com calma e não tão distante de onde eu estava na cama. Os meus dedos deslizavam mornos pelo tecido frio em fluidez. Estiquei o braço por debaixo dos lençóis, até alcançar as suas pernas descobertas na beirada do colchão.

E toquei a parte de trás da sua coxa, estava a poucos centímetros da cama. O meu carinho por aquela garota matava um pedaço de mim, ainda que pequeno. Me desviava de quem eu era. E quem era mesmo? Observava-a sob os lençóis, admirada – mas em seus encaixes irreais comigo, eu não conseguia evitá-la. Sentia-me impelida a não machucar a Clara como fizera com outras. Ela era de alguma forma diferente. Estendi-me sob os lençóis e beijei a sua perna, logo atrás do joelho. E subi aos poucos pela sua pele macia. Touch me, yeah. Ela arrumava a chave e os documentos sobre a cômoda, ainda sem roupas. Procrastinava para sair. Make me feel like I am breathing, feel like I am human. Os meus lábios subiram pela linha da sua calcinha. E murmurei, desassossegada:

_Volta pra cama... – a sua mão afundou em meu cabelo e acariciei o rosto em sua cintura – ...vem, meu.
_Tenho que sair em quinze minutos, Bo...
_Você já foi na semana passada, porra – argumentei –, ninguém pode ir hoje pra você?

Ela sorriu, se deixando envolver pelos meus braços sôfregos. Ajoelhei na cama, ia perdendo o lençol conforme subia pelo seu corpo. E me esticava contra o dela. A minha boca engolia cada um dos seus meridianos, dos seus trópicos em curvas. Em linhas geográficas imaginárias. E eu navegava então pela fraqueza que ela ainda sentia por mim, pelos meus erros, e não a deixava ir. Fica, supliquei, injusta. E apesar dos meus esforços, recompensados com um orgasmo e quarenta minutos de atraso, ela não ficou. E eu também tive que ir, é claro. Sentada no metrô como se tivesse deixado o meu quarto há dias, numa viagem curta até a estação Consolação.

Desci a Frei Caneca num estranho stand by. Ao passo em que me aproximei do meu quarteirão, no entanto, avistei um rosto conhecido do outro lado da rua e não consegui evitar um sorriso. Sentado em frente ao prédio, fumando um cigarro, estava o traste do Fer. Com as tatuagens à mostra e aqueles ares de cachorro imprestável. Puxei-o pela mão e nos abraçamos forte, cumprimentando-nos. Fiquei feliz. Feliz de verdade, de vê-lo ali, mesmo que apenas dias tivessem se passado. Filho da mãe, que saudade. Ele me ofereceu um trago antes de jogar a bituca fora e aceitei, ainda sorrindo, meio boba. Pegou então a mochila no chão, encostada contra a grade do prédio. E apaguei o resto do cigarro num poste, soltando a fumaça e arremessando o resto na sarjeta, mais adiante.

_Vamos subir? – ele colocou uma das alças da mochila, rindo – Quero ver aí a cara do panaca que tá morando contigo.

“Fica quieto, vai”, fitei-o, avisando para que se comportasse lá dentro. E pegamos o elevador. Besta. Abri a porta do apartamento com a minha chave, indo adiante do Fer, e ele largou a mochila de qualquer jeito na sala, ao lado da entrada. Seguimos até a cozinha, onde parecia haver certa movimentação, e encontramos os garotos ali. Sentado sobre a mesa da cozinha, o Du dividia um baseado com o convidado da noite anterior, o a la The Week, ambos sem camisa. Apresentei o Fernando para ele e cumprimentou o Du com um breve aperto de mão. “Este é o meu amigo que morava aqui e este é o Du. E você, sei lá, não sei quem você é”, eu disse. O acompanhante riu e me informou um nome qualquer, que eu esqueci nos primeiros três segundos. Tirei o Fernando dali antes que fizesse algum comentário idiota e nos sentamos no sofá da sala.

_E aí, que cê tá fazendo por aqui? – perguntei, enquanto descalçava os tênis.
_Vim numa entrevista na Haddock. O velho que arranjou pra mim, é a empresa de um amigo.
_Hum... E é legal? Parece que vai rolar?
_Que nada. Puta tédio, um bando de engravatado. Mesma merda. Mas paga, né. Sei lá, vamos ver... – riu, apoiando contra o encosto – E você, onde tava agora de manhã?
_Ah, dormi na Clá. A gente foi numa festa em Pinheiros ontem.
_Boa?

Ô, arqueei as sobrancelhas, sendo irônica.

_Quê?! Tava zoado?
_Não, a festa foi boa. Eu é... que fiz merda.
_Lógico – deu um tapa na parte de trás da minha cabeça, achando graça – Fala aí.
_Ah. Não foi uma merda tão grande – murmurei, sem muito orgulho do feito – Eu só meio que, tipo... dei em cima de outra mina na frente da Clara. E ela, óbvio, não gostou muito.
_”Não gostou muito”? – ele riu.
_É. A gente tinha bebido pra caralho também, meu, e eu ainda cheirei. Foi uma bosta. Ela quis brigar na saída, aí acabei discutindo de volta. Depois fui atrás dela... Na boa, puta rolo. Não sei de onde eu tiro tanta merda pra jogar nos outros, cara. Rolou maior drama. Ela não queria me deixar subir no prédio, fiquei lá embaixo implorando...
_Ah, podia ter sido pior...
_É – ri também, me conhecendo.  
_E fora isto, tudo bem?
_Normal. Sei lá. Saudades de você aí no apê, meu. E você ainda fica me mandando mensagem bicha, porra! Nem ia falar com a mina lá ontem, não fosse você aparecendo do nada de madrugada.
_Ah, é. Foi “culpa minha”, sim, aham – ele riu ainda mais, passando a mão na nuca –. Pô, mas é foda, mano. Tive puta noite de merda ontem com a Mia também. Cheguei em casa louco pra falar com você, meu. É muito estranho morar com os velhos de novo, parece que tô morando com duas paredes.
_Mas, espera... Noite de merda, por quê?

Talvez porque eu tenha comido ela. Duas horas antes.

_Ah, sei lá. Ela começou com aquelas paradas de novo! Tá fresca, acha tudo o que eu faço ruim, não sei explicar – talvez eu saiba... –. Ficou implicando com cada coisa que saía da minha boca, manja? Não queria ir dormir lá em casa... sei lá, mano.

É. Fiquei quieta. O desinteresse da Mia pelo Fernando, numa filha da putice involuntária e sem tamanho, cutucava cada uma das minhas palavras para a Clara na madrugada anterior. E me contradizia, colocando-me de novo para boiar numa piscina de incertezas. Ótimo. Quão errado é pensar isto agora, olhei para a cara do Fer e não disse nada, alcançando o meu maço na mesa.

_Mas, e aí? – ele se reajeitou no sofá, ao meu lado, mudando de assunto – E o aniversário, já sabe o que vai fazer?
_Não... – abaixei a cabeça, constrangida, pegando um dos cigarros.
_Ah, pode parar. Se você não fizer nada este ano, eu que vou fazer e você não vai poder dar um piu. Te obrigo a ir, mano. Sem chance! Cê nunca faz nada, porra.
_Por um motivo...
_Ou motivo nenhum.
_Por um bom motivo – desafiei-o, insistindo, e ele riu – Com a minha lista de amigos, não dá pra convidar todo mundo e não dar merda. Simplesmente.
_Ou amigas, né...
_Besta.
_Qual é! Cê vai fazer vinte e cinco, cacete!
_E daí? Aniversários são idiotas, mano.
_Cara, você não tem escolha... – ele riu e eu sabia, a partir daí, que estaria ferrada.