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julho 29, 2010

2:44

De repente, acordei. Num susto.

O quarto inteiro estava em silêncio. Estranho. Tirei o lençol amontoado de cima de mim, olhei em volta e o cômodo continuava escuro, muito embora a janela estivesse aberta. Minha conclusão, prontamente, foi de que ainda não era dia e, portanto, eu não estava atrasada para porra nenhuma. Não havia nada, nada ali que indicasse um bom motivo para a interrupção do meu sono. Nada, a não ser... Espera. Espiei curiosa para baixo da cama e lá estava o meu celular, ali, largado.

Com a tela semi-acesa.

Mensagem nova, pensei automaticamente. O barulho devia ter me acordado. Tal teoria até que fazia sentido, considerando a lógica da coisa; no entanto, o contato de terceiros para comigo em plena madrugada de segunda-feira me parecia algo extremamente improvável. Mesmo que já fosse terça... isto é. Pouco importa. Me espichei para alcançar o meu detonado e fiel companheiro antes que a luz dele se apagasse novamente e eu passasse uns possíveis cinco minutos tentando tateá-lo no chão, no escuro. Olhei para a tela, sem conseguir prever o que estava estampado ali, despreparada.

Arregalei os olhos e li novamente:

“É meu aniversário, ñ consigo dormir... eu ñ sei oq. tá acontecendo cmg. Com a gnt.”, a Mia me enviou, às 2:44.

Suspirei. O que mais eu poderia fazer senão suspirar? Que confusão infernal, meu deus. Àquela hora da madrugada, eu já não saberia como lidar com uma mensagem daquelas e muito menos com o “a gente” ao final. Soltei o ar pouco a pouco, completamente vazia de ideias, e retornei à tela inicial do celular. Eram 2:46. E agora?, passei as mãos no rosto, agoniada.

Por mais que eu quisesse ignorar aquele rolo de merda e voltar a enfiar o meu rosto no conforto do travesseiro, eu não conseguia. Ela está acordada. Eu a imaginava, incessantemente, e o meu sono se esvaía. Sabia que, deitada em sua cama – a que eu já conhecia –, a Mia esperava por uma resposta minha. Algo que lhe acalmasse, que simpatizasse com a sua falta de direção, qualquer coisa que lhe devolvesse o sono. Mas por que eu deveria fazer isso?, refleti, rancorosa.

Desisti de digitar uma resposta.  Por que responderia agora se quando bem quiser ela me trata como... como... “Como um nada”, eu queria concluir, mas a memória de quinta me impediu de seguir em frente com aquele pensamento. Veio o show e o carro e o quarto, um por um na minha cabeça. A sucessão de eventos perfeitos. Eu não sou um nada, concluí.

Só que essa também era uma situação igualmente difícil de encarar. Para mim e para ela. E eu sabia disso, afinal, estava atolada na mesma lama. Empatia era o mínimo que eu poderia ter. Mas aí tinha o sábado, não é, uma lembrança nada agradável. E para ajudar, tinha também o Fer – tanto para mim, quanto para ela – deitado no quarto ao lado, desavisado de todo o contexto. E o resultado, após minutos de indecisão, é que eu simplesmente não conseguia responder...

E nem dormir.

julho 28, 2010

Então, passou.

O resto daquela noite e a manhã seguinte e a tarde inteira e o fim de tarde de domingo. Passaram. Indiferentes, numa velocidade involuntária e constante. E eu, se é que eu estava lá, sempre naquele estado dormente de inconsciência.

Aí veio segunda. E o trabalho também passou, como um nada na minha vida. Casa, jantar, TV, banho, internet, livro, cama e a segunda-feira já era passado. Incrível como uma só pessoa pode te fazer tão bem numa noite e, dois dias depois, te transformar em um vegetal só por cruzar o seu pensamento. Imagine se tivesse cruzado meu caminho... De qualquer forma, dali até o fim da estrada não faltava muito. Já eram meses e meses da mesma merda instável.

Não, eu não tinha me acostumado. Ainda.

#FAIL

Duas derrotas depois e eu perdi o meu ânimo. Fancha maldita. E então, o excesso de bebida e a falta recorrente de dinheiro começaram a ter o efeito contrário em mim. Claro. O charme momentâneo da Thaís escapou por entre meus dedos; o barulho no bar parecia aumentar, junto com as horas; as cervejas não paravam mais de vir; a minha cabeça já rodava de um jeito desagradável; o meu estômago se revirava; e o que é pior: meu coração começava a ficar sóbrio.

Mia... ah, Mia.

Ô, inferno. A questão é que eu não deveria ter beijado ninguém com aquela vontade toda. Nunca podia fazer nada do gênero, não com tamanha determinação, não sem a desgraçada voltar violentamente aos meus pensamentos e me impedir de dar um passo sequer adiante. Então, sem muita outra escolha, fiquei parada. Parada e emburrada, em um canto. Me larguei sentada numa mesa qualquer, mergulhada no meu mau humor – que nunca realmente me deixava, não por tempo suficiente. E cada vez que alguém se aproximava – em geral, a Thaís – eu fingia interesse, mentia cansaço e sorria para não dar sinais daquela esquizofrenia romântica recorrente.

O resultado, a longo prazo, é que eu tive que sair dali. Não podia mais ficar. E quando não deu mesmo para aguentar mais, inventei qualquer desculpa e me coloquei a caminho de casa. Alguém deveria me internar, pensei, enquanto acendia um cigarro, irritada. Me revoltava com a minha própria inconstância, conforme soltava a fumaça no ar e atravessava a rua em direção à Frei Caneca. Aquilo era o que eu merecia por ultrapassar os limites, de todos os lados possíveis, daquela porra de confusão em que me meti. Droga.

Eu tentava me lembrar do que a Marina costumava dizer – que ninguém sabe o que está fazendo, todo mundo está na mesma merda –. Mas ainda que me convencesse que ninguém sabe realmente lidar com os próprios sentimentos e com os dos outros, não podia deixar de reparar na cara da Marina toda vez que eu contava sobre as babaquices que fazia. Nunca era para iniciantes.

E justamente por não ter meio termo, voltei para casa – de onde eu sequer deveria ter saído. Passei pela sala, pelo corredor e entrei no quarto... Não, não havia ninguém ali, de novo. Sábado à noite, concluí a contragosto, é claro. Eu já havia aprendido a lógica, mas não queria me lembrar. Então arranquei a roupa, jogando-a no chão, e tomei um banho gelado. Deixar a água escorrer na minha nuca por uns minutos amenizou a minha dor de cabeça e o peso nos meus ombros.

De banho tomado e uniforme-de-ficar-em-casa dos Stooges, por fim, me forcei a dormir. Para acabar logo com aquele dia, que já se prolongava muito além do que eu queria, numa sucessão de situações desagradáveis. Mais do que isso, eu precisava pegar no sono para me livrar de mim mesma. Para tirar a Mia ou qualquer garota da minha cabeça.

Uma hora isso tem que passar...

julho 26, 2010

Pequena trégua

Nove e meia e nós continuávamos enfurnadas num snooker bar sujo da Augusta, cercadas de outras sapatas, um bando de alcoólatras e garotas com idade suficiente para estarem no ensino fundamental – que provavelmente se sentiam mais em casa ali, no meio das caminhoneiras, do que frente aos olhares de julgamento dos seus pais. Eu gostava daquela imundice dyke paulistana, dos tão estimados botecos de sinuca da Augusta. De certa forma porque, em algum momento, anos e anos antes de sair do armário, aquilo também tinha sido o meu “lar” fora de casa.

O clima geral agora estava completamente diferente do que no quarto, horas antes. Com a ajuda de cinco ou seis cervejas, claro. Eu me encontrava entre a Thaís e as suas amigas em duas das mesas, entre garrafas e cinzeiros e tacos, bebendo e falando mais do que deveria. Como sempre.

Fiz amizade com uma das mais sapatonas, que entrou no boteco trajando uma bermuda larga e um par de tênis masculinos, acompanhada da namorada – juntas há quase seis anos –, e previsivelmente acabei perdendo quatro das cinco vezes que jogamos uma com a outra. A aposta – porque eu nunca me privo de uma péssima ideia – envolvia álcool o suficiente para deixar minha patrocinadora atual bastante irritada, caso ela não estivesse tão respectivamente bêbada e interessada em mim.

_E aí? Revanche?! – a minha admirável adversária me provocou, enquanto virava parte da quarta garrafa que “eu” lhe pagava.
_Vamos nessa! Agora peguei o jeito, meu.
_Você está tão morta... – ela riu.

Empinei o queixo de volta para ela, encarando-a. Autoconfiança em excesso é sempre um sinal evidente de alcoolismo ou, pelo menos, deveria ser tomado como tal. Nós rimos e eu a deixei brevemente ali para ir pedir apoio financeiro. Afinal, quem perdia providenciava também a ficha para o jogo seguinte. A Thaís estava sentada na mesa de trás, a poucos metros de mim, e me olhou como se pudesse prever o motivo da minha visita àquelas bandas.

_O que você quer agora? – ela riu, conforme eu me encaixei bêbada entre as suas pernas, apoiada na mesa, e coloquei os braços ao seu redor.
_Pô, vê mais uma fichazinha para mim... – eu pedi, toda dócil.
_Você não tem vergonha na cara mesmo, não é, não? – ela se divertia comigo.
_Ah, meu! Olha quem você me apresenta, mano! Maior cretina profissional, porra... sério, ela tem habilidades além da minha compreensão. Eu preciso ganhar minha dignidade de volta.
_Tá, tá... – ela continuou, sorrindo, e tirou alguns trocados do bolso – ...mas não pense que eu vou deixar barato. Você está em dívida comigo.

Não, não foi o dinheiro. E nem o álcool ou a felicidade de poder dar continuidade à minha saga claramente-fadada-ao-fracasso de vencer uma partida contra minha oponente. Por algum motivo, naquele momento, pela primeira vez desde que entramos no bar, eu realmente quis beijar a Thaís. Pois é. Olhei-a sorrir e senti uma vontade incontrolável de pegá-la de jeito, como sabia que ela estava há horas esperando que eu fizesse.

Então, sem pensar muito, o fiz.

Por longos e longos minutos, dispensando intervalos. Talvez o álcool tivesse algo a ver com isso –bom, provavelmente tinha. Que se dane. Ruim nunca é, né. E saber que eu ia, inevitavelmente, pensar agonizada na Mia logo depois nunca me impediu de fazer nada. Então, a beijei. Pelo tanto de tempo que me deu vontade e depois agradeci brevemente pelas moedas, satisfeita, seguindo direto para a minha sexta derrota da noite.

Agora vai... Vou ganhar essa porra.

julho 23, 2010

Marasmo

_Posso fumar aqui? – quebrei, sem querer, o silêncio no quarto.
_Hmm... na janela, gata.
_Ok – disse, quase suspirando, me sentando na cama.

Alcancei meu maço no bolso dos shorts, ainda no colchão, depois me desenrolei dos braços da Thaís, que abraçavam a minha cintura. E aí me levantei, deixando-a sozinha na cama. Atravessei o quarto sem uma roupa sequer no corpo, desinibida, e senti os seus olhos me acompanhando. Abri a janela, ignorando toda a atenção, e me apoiei no parapeito para acender um cigarro.

Pus-me a observar a cidade parada, calma, inanimada, naquele fim de tarde preguiçoso e abafado. O tempo estava passando devagar nas últimas horas, desarticulado, como se num plano diferente de realidade. A ponto de eu quase me indagar onde estava e o que estava fazendo ali – só que, no caso, eu simplesmente não me importava.

De repente, ouvi a Thaís murmurar algo, ao fundo. E me virei novamente para dentro.

_Você disse alguma coisa?! – apoiei as costas contra a janela, encarando a lateral da cama, e mantive a mão direita do lado de fora enquanto a brasa seguia queimando.
_Disse... – riu – ...eu perguntei... – ela apoiou a cabeça em uma das mãos, com o corpo deitado de lado, para prestar melhor atenção em mim – ... por que você veio.

Importa?

_Ah, meu, sei lá... – eu dei de ombros, me virando para fumar mais uma vez, apoiada no parapeito da janela – ...porque sim.
_Mas por que eu? Por que hoje, do nada? – ela continuou e eu me vi obrigada a encarar novamente o lado de dentro, um pouco incomodada com o interrogatório.
_Não sei, mano, porque sim – respondi – Porque deu vontade, sei lá. Por que você quis me encontrar?! Hum?!
_Ah, me pareceu uma boa ideia – ela riu – Não tinha nada para fazer. Achei que ia ser divertido...
_E foi?
_Foi.
_Então, pronto – retruquei, sem paciência.

E me virei outra vez para fumar.

_...você terminou com alguém?
_O quê? – encarei o quarto mais uma vez, para escutar direito.
_Eu perguntei... se você acabou um namoro.
_Não. Eu... – estranhei – Por que essa pergunta?
_Você não seria a primeira a fazer isso...
_Isso o quê?
_Ligar pra mina antiga, sabe, quando “volta pro mercado”.
_Não. Eu não namoro.
_Nunca? – ela riu, sem querer.
_Tá, não “nunca”... de vez em quando. Mas, sei lá... não, na verdade, não.
_E se você se apaixonar? Ou isso também não acontece nunca? – ela zombou.
_Se eu me apaixonar, aí eu ligo pra minas tipo você... – respondi, grosseiramente.

Me arrependi na mesma hora. Qual é o meu problema?

_Nossa... – a Thaís revirou os olhos brevemente, soando chateada – Você sempre trata as garotas com quem você sai assim? – perguntou retoricamente, sem esperar resposta.
_Não... Merda. Olha, desculpa. Não é isso... foi... foi um comentário idiota. Me desculpa.

Droga. Traguei uma última vez, soltando a fumaça rapidamente para o lado de fora, e joguei o cigarro janela abaixo. Caminhei de volta para a cama e sentei na frente dela, pegando suas mãos com as minhas. Ela me olhou como se esperasse qualquer desculpa filha-da-puta de mim, qualquer pretexto cafajeste que amenizasse a situação e me desse passe livre para o meio das suas pernas novamente. Não podia culpá-la, né.

_Olha... minha cabeça tá em outro lugar.
_É, percebi... – ela me interrompeu, com razão.
_Não, sério, meu. Me escuta... Não é você. Eu tô falando sério, não é. E não é do nada, não é agora. Eu já estava assim... – continuei olhando-a e sendo, uma vez na vida, realmente sincera – eu estou assim e faz, meu, meses. Com todas as garotas. Não é você, não mesmo, eu juro. Eu... sei lá... eu queria te ver, sair, fazer alguma coisa legal, espairecer. E aí eu te vi na minha lista e pensei que poderia ser divertido, não foi de sacanagem. Não quero descontar meu mau-humor em ninguém, muito menos em você, que não tem nada a ver com a história. Eu tô com uns outros problemas, é complicado... Ultimamente tem sido difícil sair com qualquer pessoa sem pensar a respeito e aí eu fico de mau-humor, porque não queria realmente estar saindo e... enfim. É uma merda. Eu te acho da hora pra caralho, não queria ser estúpida. Me desculpa?
_Não tem problema... Eu tô de boa, relaxa – ela sorriu para mim, possivelmente comovida com a minha cara de eu-não-sei-o-que-estou-fazendo-com-a-minha-vida, e então se levantou para ver as horas no relógio da cabeceira – Olha, são quase 6... Quer ir tomar umas na Augusta? Jogar sinuca, talvez, sei lá?
_Meu, acho uma ideia fantástica – eu ri, aliviada.

julho 20, 2010

Perfect timing

Pronto. Você já veio, já fez o que tinha que fazer. Tentou e não deu certo, agora pega suas coisas e vai embora, comecei a me apressar. E sem pensar, sentei no colchão e peguei o celular para ver as horas. A Thaís continuava deitada ao meu lado, falando desavisada sobre qualquer coisa, quando de repente eu vi uma resposta tardia da Mia na tela.

Não a havia notado ali e mal li. À primeira impressão, a economia de palavras me empurrou de volta para a cama. Já o “desculpa” seguido de um “não” e, um pouco depois, do “Fer” me tirou a calcinha automaticamente.

E dessa vez, não foi nada difícil.

Botequinho

_Você não mudou nada, hein? – a Thaís riu de qualquer besteira que eu falei.

Provavelmente tinha sido uma daquelas cantadas fáceis, prontas, que não exigem pensar muito e que era o que eu fazia de melhor.

_E isso é bom ou ruim?! – sorri, com os olhos nela.
_Não vou responder... – ela se inclinou na minha direção, com uma das mãos pouco acima dos meus joelhos, sentada no banco ao lado – ...senão você vai ficar se achando.
_Olha... – traguei o cigarro e olhei rapidamente para a mão dela em mim – ...eu já tô me achando.

Ela riu mais uma vez, me secando como se quisesse me beijar. No entanto, ali não era lugar. Nos encontramos próximo do prédio dela, que ficava escondido na A. de Queiroz, um pouco pra baixo do bar da Alôka. A região – clássico trash paulistano – dispensa apresentações e, portanto, é mais do que desnecessário dizer que um beijo, ali, naquele horário, causaria respostas proporcionais aos frequentadores de nível do local.

Sábado à tarde: só nós, a atração principal há bons vinte minutos, e os realmente alcoólatras no bar. Aquela nossa brincadeirinha remeteu, sem querer, a uma conversa que eu tive com a Mia duas noites antes, memória essa que eu tentei apagar da minha mente conforme soltava a fumaça, por um espaço pequeno entre os lábios. O que eu to fazendo aqui, mano, eu pensava, enquanto sorria falsamente para qualquer merda aleatória que a tal Thaís tagarelava naquele momento.

_Meu, está afim de, sei lá, ir pra outro lugar? – eu a interrompi, já apagando o cigarro no balcão.
_Ahm... – ela me olhou, meio confusa com o corte, como se reformulasse a pergunta na sua cabeça – ...acho que sim, não sei. Você quer?!
_É – eu suspirei, já sem paciência e sem entender porque nos encontramos lá para começo de conversa – Sua casa, talvez?
_Err... Pode ser... – ela me olhava, ainda perdida, processando a mudança súbita de planos.

Para a minha sorte, a instabilidade do meu humor estava um nível acima da compreensão dela naquele momento – e pode-se considerar que eu também disfarçava suficientemente bem. Me levantei e esperei por ela, colocando a mão delicadamente nas suas costas e a acompanhando, numa demonstração de pura gentileza hipócrita. E fomos até o caixa, pagar a única long neck que consumimos.

Dali para o seu apartamento, contando os prováveis cem passos (ou menos) necessários, levamos dois minutos. Da porta até eu colocar minhas mãos nela foram menos de dois segundos. Mas aquele primeiro beijo foi estranho. Não pelo gosto de cerveja, porque isso nunca me incomodou, mas porque pareceu... sei lá, deslocado. O que há com você, porra, me indignei comigo mesma. É só uma mina, vê se faz direito. Forcei os olhos, fechados, e me obriguei a ignorar tudo de errado que havia naquela situação. Não queria pensar na Mia. Queria fazer o que sempre fiz. Mas queria estar fora de casa ou na sarjeta, estar "por aí" pelos motivos certos. Não por culpa.

Mas, não, não era assim que eu me sentia.

E foi difícil, como nunca antes. Garotas eu já havia comido aos montes, podia fazer aquilo de olhos fechados –  de preferência abertos –, uma vez que eu começava era como se não precisasse mais pensar. No entanto, cada vez mais frequentemente, nos últimos meses, a minha mente se enchia de todo tipo de conflitos internos e imagens extremamente inadequadas para a ocasião. Segurar alguém, com o coração em outra, é mais complicado do que pode parecer. E aquela rodada, em especial, foi bastante difícil...

Mas, enfim, foi.

E no fim, restei eu – acompanhada de uma garota semi-nua e sem paz alguma de espírito. Eu já deveria ter aprendido, passei a mão no rosto, frustrada com o fracasso absoluto da minha tentativa de consertar o presente com os métodos do passado. É, eu deveria saber. As coisas mudaram, eu repetia para mim mesma o que eu há tempos já sabia. Era o fim da linha.

Boa vizinhança

Eu não precisava sequer transar com alguém. Não era esse o objetivo: só queria sair dali e ocupar a minha cabeça com qualquer coisa que não fosse a presença do Fer ou a ausência da Mia na minha vida. E àquela hora ociosa da tarde, garotas me pareciam uma ideia melhor do que os meus amigos.

Que se dane. Larguei a dignidade de lado e comecei a rodar a minha lista de contatos no celular. O problema é que eu estava sem um puto no bolso – e isso reduzia consideravelmente as minhas possibilidades. Passei nome por nome, sentada na calçada em frente ao prédio. Que situação. Achar alguém que não fosse uma completa má escolha e que, ainda por cima, morasse perto não era tão fácil assim. E para completar, sempre havia a chance de desligarem na minha cara. Porque uma coisa era eu tê-las no meu celular, outra bem diferente era alguma daquelas garotas ainda me terem no delas. E sinceramente, eu não estava lá colecionando muitas opiniões positivas a meu respeito.

Não. Não. Não. Não. Definitivamente não. Não. Não. Não. Talvez.

Os meus olhos pararam sobre a Thaís, um esqueminha antigo que morava a poucos quarteirões dali e a quem eu não via há mais tempo do que pudesse me lembrar. Nós duas não éramos realmente exs e nem fixas. Ela era a amiga de um casinho meu, que eu peguei à surdina duas ou três vezes, e até onde eu sabia nunca tinha desenvolvido qualquer forma de afeto por mim – o que a tornava perfeita para a ocasião.

O problema é que não fazia sentido nenhum eu ligar, agora, meses e meses depois, assim do nada. Nós não nos ligávamos, nunca. Não éramos próximas. Qualquer contato injustificado meu ia carregar inevitavelmente o meu desespero. “Oi, tô afim de comer alguém e você é o que tem para hoje. Vamos aí, gata?” – ou algo assim. A que ponto do ridículo um ser humano consegue chegar? Eu não tinha a cara de pau necessária para ligar para a Thaís naquele sábado.

E o pior era que saber que poderia estar almoçando com gosto em Higienópolis, se as coisas não fossem tão erradas para mim. Isto é, sem precisar botar meu nome sujo de volta nas ruas paulistanas. Olhei para a tela do celular e para a barra de notificações, que continuava vazia. Nenhuma mensagem da Mia. Que se foda. Após segundos de hesitação, resolvi ligar para a Thaís.

Quatro toques do telefone e ela atendeu, soando estar sozinha, o que era bom sinal. Sua voz parecia confusa a princípio, sem saber direito quem estava falando. Depois de uma explicação constrangedora da minha parte, o tom da conversa mudou. Afinal, não precisava ser muito esperta para sacar o motivo da minha ligação e ela, claro, percebeu todas as minhas segundas intenções antes mesmo de eu começar a me empenhar. Aí eu me empenhei – e funcionou. 

Ótimo.

Antes de devolver o celular ao bolso, digitei um “Queria te ver, meu...” sincero e rapidamente enviei para a Mia. Afinal, a esperança é a última que morre e, àquela altura, só ela poderia me salvar de mim mesma. Ou dos meus maus hábitos. Enquanto isso não acontecia, eu ia lá me ocupar com a vizinha...

julho 19, 2010

Déjà-vu

Subi um mini-shorts pelas minhas pernas, enfiei minhas tralhas nos bolsos, o All-Star sujo nos pés e fui para a rua sem um puto. É, o Fer tinha razão. Eu sequer morava mais naquele apartamento. Pelo menos, nos últimos dias. Por que será, né? Tudo bem que eu sempre fui de entrar e sair assim, sem hora ou dia para voltar, mas nunca como andava sendo. E de todas as possibilidades, ultimamente eram sempre as minhas más intenções, o ciúme ou a porra da culpa que me tiravam de casa. E eu gostava mais quando a primeira opção prevalecia.

Naquela tarde de sábado, no entanto, bati a porta de raiva. De mim mesma ou do Fer, eu não sabia. Mas que diferença faz, não é mesmo? De um jeito ou de outro, era sempre eu que acabava parada na sarjeta, fumando um cigarro atrás do outro, sem saber onde meter a minha confusão e aquela minha cara imprestável. Esse é o problema quando se tem um segredo desse tamanho, você sempre paga a merda da conta sozinha.

Olhei sem pensar para o celular, como num ato involuntário, e já revirei os olhos com desgosto. Ela não vai te escrever, sua idiota. Coloquei o maldito de novo no bolso, frustrada. E tornei a tragar o meu cigarro. Argh. Eu odiava essa dependência doentia de alguém. Era a única coisa que eu simplesmente não conseguia suportar nas mulheres, aquele meu atrelamento involuntário e estúpido a algumas delas.

No caso, à Mia.

...à Mia e às memórias daquela quinta à noite. Rodando, de novo e de novo, na minha cabeça. O bar, as ruas do Itaim, o carro na volta, o elevador, o quarto, nossas roupas no chão, ela embaixo de mim, as suas pernas, o seu gosto, as suas mãos, eu embaixo dela, os lençóis bagunçados de manhã, a tranca da porta, as risadas, as nossas conversas preguiçosas, o sorriso dela e aquele sentimento bobo, tudo. E agora ela não me escrevia, nada, há horas. Desde que reviu o Fer e voltou para a sua droga de realidade heterossexual de merda, para aquele namoro, aquela bosta daquele namoro. Porra, Mia. Por que você não pega a porra do celular e me responde, caralho?

Aquilo estava acabando comigo. O fato é que eu precisava me distrair até as horas inúteis e à toa – convivendo comigo mesma – do fim de semana acabassem. É, isso era um fato. O problema, ah, o problema era que eu notavelmente não sabia me distrair de outra forma que não envolvesse álcool ou mulher. E eu já me encontrava de ressaca graças ao exagero desnecessário dos dois dias anteriores. Então, vejam bem, que opção me restava?

Éé... Hora de acordar, São Paulo.

julho 16, 2010

Birra.

_Nossa, “mãe”, fiz alguma coisa errada?!?! Fiquei até com medo de responder agora! – ele começou a rir – O que é essa cara de poucos amigos aí, meu?
_Nada... – eu voltei ao meu prato, com indiferença – foi só uma pergunta, Fernando.
_“Fernando”?
_“Fer”, tá, que diferença faz?
_Meu, você tá estranha, na boa... – ele continuou rindo.
_Que seja... – respondi, soando rancorosa, e enfiei o macarrão na boca, tentando encerrar a conversa o quanto antes e sair dali antes que a minha estupidez fizesse um mal maior a mim mesma e à minha amizade.
_Ihhh... que foi? Comeu e não gostou? – ele zombou a minha irritação.

Não. Pelo contrário.

_Eu tô... tô... – eu me preparei para mentir, descaradamente, na tentativa de deixar as coisas melhores – ...com uns problemas aí. Deixa pra lá, viu. Não tô bem hoje.
_Quer conversar, meu?
_Não, tô de boa.
_Beleza... – ele pegou na minha mão, me olhando, como um bom amigo, e aquilo simplesmente acabou comigo.

Escondi o olhar e a minha própria vergonha no maldito prato de macarrão, odiando toda aquela situação. Odiando a mim mesma, acima de tudo. O Fer podia ser cachorro, podia não ser o melhor namorado do mundo, mas valia mil vezes mais do que eu. Merda. Eu tossi, rapidamente – estava comendo apressada demais e aquilo começava a não me fazer bem. A culpa também não me ajudava a engolir nada.

_Então... – ele retomou a conversa, provavelmente querendo acabar com a bad no ar – ...ontem fomos na festa do Vini. A Mia viu uns fones que ela curtiu, tava pensando em comprar para ela de aniversário... O que você acha? Sabe quais são?
_Hm... – a primeira menção à ela embrulhou meu estômago na mesma hora.
_Aqueles grandes, profissionais mesmo, sabe? Mas tem uns personalizados... A mina do Vini tinha um com caveiras na lateral, o som é do caralho. Manja o que é?
_Uh-hmm... – eu respondi, sentindo uma contradição violenta de emoções dentro de mim, me segurando para não levantar e ir almoçar em outro lugar.
_Sei lá... é só uma ideia. Preciso ver quanto tenho de grana. Você vai, né?
_Vou onde? – perguntei, automaticamente.
_No aniversário.
_Não sei – abaixei a cabeça, na minha insignificância, tentando ignorar aquela conversa e já quase terminando o prato – Não tô sabendo de nada.
_Hm... – ele desviou o olhar para o lado, como se pensasse em outra coisa, mas depois voltou ao papo de elevador – Foi legal ontem... tava maior galera lá.
_É? – prossegui, sem muito interesse.
_Não te chamaram, meu?
_Chamaram. Acho que sim... Eu é que esqueci, sei lá. O Vini me mandou um lance no Facebook semana passada, mas eu nem vi... Nem me toquei que era ontem.
_A Mia me perguntou se você não ia... – meu interior se contorceu de novo – ...os caras também, a Bruna...
_Perguntou? – olhei, sem pensar, interessada no interesse da Mia.
_Perguntou o quê?
_Se eu ia?!
_Quem?
_Não... – eu caí em mim – ...nada, esquece.
_Mano, espera... você pegou a Bruna?? – o Fer riu.
_O quê?! Não!!
_Espera, então não entendi...
_Não entendeu o que?!
_Do que você estava falando – ele sorriu, achando graça.
_Do que você está falando?? – eu forcei um tom de indignada – E, meu, por que eu tenho que pegar todas as meninas, mano?!
_Não, só presumi... Achei que cê tava curiosa dela ter perguntado sobre você – ele riu, mais uma vez.
_Presumiu errado.
_Tá, é só que... – o Fer continuou de gracinha, insinuando minha cafajestice, e aquilo me irritou de verdade – Sabe, né...
_Não, não sei.
_Vai, concorda comigo que era no mínimo “possível”.
_Eu? – olhei para ele, puta da vida – E a Bruna? Eu e a Bruna? Tá.
_O que? É possível.
_Vai se foder, meu.
_O que foi?! – ele riu.
_Ela sequer pega mina, porra... O que tem a ver??
_Ah! Como se isso te impedisse! – ele tornou a rir.
_Olha... Eu não tô pegando ninguém, Fernando.

Me levantei bruscamente, tirando meu prato e me preparando para sair, pouco me fodendo para o tamanho da mentira que eu estava dizendo.

_Êê... Tá difícil hoje, hein? – ele se encheu do meu humor instável – Não dá nem pra brincar, meu!
_Tá, tá mesmo – eu coloquei as coisas de qualquer jeito na pia.

julho 13, 2010

Saturday, wait

Abri os olhos lentamente, ainda me sentindo cansada apesar das horas dormidas. Bem mal-dormidas. Rolei centímetro por centímetro do meu corpo na cama, aos poucos, me enrolando confusamente no lençol, com o objetivo de atingir a beirada e recuperar meu celular em algum lugar. Suspirei, me sentia exausta. Mia, eu pensei, na esperança de encontrar uma mensagem dela. Meu corpo pesava mais do que o normal na cama – talvez fosse todo aquele trânsito mental – e eu não conseguia, de forma alguma, achar a porra do celular.

Foda-se, desisto. Larguei as roupas e tralhas que tirei do chão com as mãos. Não está aqui essa merda. Voltei a deitar, com as costas contra o colchão, e empurrei os lençóis violentamente com as pernas, a fim de me desfazer daquele nó no qual eu havia me enfiado. E só aquilo já me cansou, eu estava acabada. Me esparramei mais ainda na cama e cruzei as mãos atrás da cabeça, por debaixo do travesseiro.

Aí está você, desgraçado.

Puxei meu recém-encontrado celular e olhei cheia de esperanças para a tela, mas não havia mensagem alguma. Abri a caixa de entrada: nada. Havia, porém, uma na de saída. Merda. Cliquei, sem realmente querer ver o que estava ali, consciente de que se tratava de um lapso irrefletido da minha angústia da noite anterior, quando eu me encontrava entre o sono e o “acordada”. Ou seja, burrada na certa. E era, de fato.

Mal li a pergunta contida no interior do SMS e já larguei o celular fora da cama, com raiva de mim mesma. É óbvio que ela estava com ele, sua imbecil, com quem mais ela poderia estar?, eu apertei as mãos contra o rosto, indignada com a obviedade da minha pergunta. Aquilo havia sido extremamente desnecessário. Ela não só não respondeu como, pior, eu declarei com todas as letras o meu descontrole ciumento. Argh. Afundei no travesseiro, me odiando.

Levei algum tempo para me recompor. Como eu sou idiota. Levantei e fucei no armário atrás de uma blusa larga e confortável. Apanhei meu maço no bolso da calça do dia anterior, largada no chão, mas desencanei de vesti-la. Já está feito, que se dane. Esqueci a mensagem e saí para a cozinha, brincando com o isqueiro em mãos. Peguei uma panela e coloquei água para ferver. Miojo – a solução rápida para os meus problemas. Não comia nada desde o almoço no trabalho. Estava de ressaca e faminta.

_Ah, você tá aí... – ouvi a voz do Fer, a alguns metros atrás de mim, enquanto eu me espichava para pegar o pacote na prateleira.

Bosta, apertei os olhos, sem querer acreditar que aquilo estava acontecendo. Aí respondi qualquer coisa nula, sem me virar, e continuei a me ocupar com a minha pseudo-refeição. Pretendia ignorar a presença dele o máximo que pudesse e evitar qualquer contato visual. No entanto, ouvi o Fer arrastando uma das cadeiras, provavelmente para se sentar ali, e imediatamente desejei com todas as minhas forças que ele não o fizesse... Pois fez.

_Pô, parece que faz mó cara que não te vejo... Você ainda mora nesse apartamento? – o Fer riu, sendo simpático.
_É... sei lá, a gente se desencontrou, eu acho – respondi, encarando com insistência a panela, o fogão ou qualquer coisa que não fosse o meu colega de anos e anos.
_E o show lá que você ia? Foi bom?
_Aham...
_Você foi com quem mesmo? O Gabriel?
_É...
_No Itaim?
_Hmm-hum...
_E ontem, saiu? – ele continuou com o papo de elevador, como se não tivesse nada melhor para fazer a não ser sentar ali e me assistir cozinhando.
_Encontrei a Marina, depois do trampo.
_Ahhh... a Mariiina... Pô, anda vendo bastante ela, hein? Dormindo lá, saindo juntas... Duas semanas seguidas, meu! Para você, isso é praticamente um namoro – ele riu, animado com a primeira informação não-onomatopéica que eu lhe dava.
_Sei lá... pode ser... – eu murmurei, soando indiferente, enquanto na realidade eu não queria era prolongar a conversa.

E aí, infelizmente, percebi o problema da minha escolha de refeição. Aquela porra ficava pronta em três malditos minutos – o que me levava diretamente à mesa, onde o meu amigo se encontrava. Droga. Escorri a água e levei o máximo de tempo que pude para espalhar o caldo de galinha caipira do pacotinho pelos fios tortos de macarrão. Peguei um garfo na gaveta à minha frente, apanhei o prato e sentei estupidamente na mesa, ainda sem olhá-lo.

_Você está bem, meu? – o Fer estranhou.

Não respondi nada. Apenas acenei que “sim” com a cabeça, enquanto enrolava uma porção no meu garfo, focada no prato de miojo. Senti que ele desistiu de conversar, por um momento, e fiquei aliviada. No entanto, ele continuava lá. Ele, a sua presença indesejada e a porra do silêncio. De repente, senti todos os questionamentos da noite anterior voltando, involuntariamente subindo pela minha espinha, e suspirei na tentativa de me livrar daquele ciúme todo. O que só o piorou, claro. Quanto mais se pensa a respeito, mais aquela merda impregna na sua mente.

Talvez fosse a proximidade – física – na qual eu me encontrava do Fer, do seu corpo, sem saber por onde ele esteve ou com quem. Ou talvez fosse só o silêncio crescente, não sei. Mas parei. Parei de repente de comer, larguei o talher de qualquer jeito no prato e apoiei os braços prontamente na mesa.

_E você? – olhei diretamente pra ele, encarando-o – Saiu ontem?!

julho 12, 2010

It's just the price I pay

(...)

It started out with a kiss
How did it end up like this?
It was only a kiss...
It was only a kiss...

Now I'm falling asleep
And she's calling a cab
While he's having a smoke
And she's taking a drag

Now they're going to bed
And my stomach is sick
And it's all in my head
But she's touching his chest now
He takes off her dress now

Let me go
'Cause I just can't look
It's killing me
And taking control

Jealousy.

julho 09, 2010

Subjetividade

Não esteja acordado, não esteja acordado, não esteja acordado, por favor, não esteja acordado. Eu atravessava o corredor, em silêncio absoluto. A última coisa que eu quero fazer agora é olhar na sua cara. Não, não dá. Por favor, não esteja acordado. Não fala comigo. Não sai do quarto. Não, não, não. Olhei no relógio do banheiro, rapidamente, e ele marcava 21:42. Ele não vai estar dormindo. Ah, merda. Ok. Quarto, quarto... Pronto, salva!, fechei a porta do quarto, aliviada.

Fiquei um tempo parada ali – com as mãos para trás, na maçaneta, e as costas apoiadas na madeira. Suspirei, como se me livrasse de um grande peso. Pelo menos, por enquanto, eu estava livre da culpa inevitável, do desconforto descomunal de morar no mesmo apartamento que o Fernando. Olhei para frente, ainda no escuro, e vi todas as minhas coisas espalhadas pelo quarto. Exatamente do jeito que eu as havia deixado, imóveis, tranquilas. Nada fora do lugar, nada diferente. Nem um ruído.

Espera. Fácil demais.

Alguma coisa começou a me incomodar, no peito. Senti a minha respiração se acelerando lentamente: nada naquele apartamento se movia. Nada além de mim, tropeçando bêbada no meu próprio nervosismo. Nada. Ninguém. Sexta-feira. No mesmo instante em que a explicação cruzou a minha mente, a minha cabeça foi a mil. Sexta-feira à noite. Sexta-feira, mano, puta que pariu. Me virei na mesma hora, abrindo novamente a porta, e enfiei a cabeça para fora. Ninguém no corredor. Nem um barulho sequer. Porra, ele não está aqui.

Fechei a porta de novo. Droga, droga. Fiquei quieta por mais algum tempo, sem acender a luz, ainda de pé no meu quarto vazio. No entanto, agora, não conseguia mais permanecer ali parada. Droga. Tornei a virar a maçaneta e saí para o corredor, realmente incomodada. Andei até o final dele, onde estava a porta do quarto do Fer, fechada em silêncio. Abri: nada. Então, voltei, pelo corredor inteiro. E ao final, entrei na cozinha. Acendi a luz e não vi ninguém. Na sala, a mesma coisa. No banheiro, na área de serviço... Cômodo por cômodo. Não havia ninguém lá.

Puxei uma cadeira da mesa próxima ao sofá e sentei, inquieta, acendendo uma ponta de baseado largada ali. Ele não está aqui, eu me pus a pensar, torturando a mim mesma de um jeito realmente estúpido, enquanto tragava. Lógico que ele não está aqui. O que diabos ele estaria fazendo em casa numa sexta-feira à noite? Como eu sou idiota, porra. Ele está com ela. É lógico que está.

Argh. Caralho.

Respirei fundo, encarando a mesa – mas logo sucumbi mais uma vez ao nervosismo das minhas mãos. As meti contra o rosto, deslizando-as na cara, agoniada. E imediatamente a minha imaginação foi tomada por uma avalanche de imagens e pressuposições insuportáveis, por tudo o que ele poderia estar fazendo naquele exato momento com ela. Com a Mia. Com a garota com quem eu há pouco havia dormido. A minha garota. A garota que eu amava, mas que inferno.

Ergui novamente a cabeça e lá estavam eles: todos os nossos móveis e CDs e tralhas e todas as coisas que eram nossas. O nosso apartamento. Vazio. E aquela dúvida, arrasadora, me provocando a cada maldito canto inabitado. Ele é meu amigo, porra. É meu amigo..., eu reforçava, tentando apagar qualquer ressentimento que pudesse surgir ao imaginar o Fernando passando a noite com, com as suas mãos na, na minha, na droga da Mia.

Porra, mano. Não encosta nela. Aí, sim, aquilo começou a me surtar. De tal forma, que somente o ato de permanecer sentada havia se tornado difícil. A ponta já quase queimava o meu dedo, de tão pequena, mas eu a fumava compulsivamente. Preciso fazer alguma coisa a respeito, ele não pode simplesmente ficar com... Não, não hoje. Não com ela. Não depois que eu... Não. Eu preciso fazer alguma coisa. No entanto, por mais que eu me esforçasse, nenhuma ideia saía de mim. Sequer conseguia terminar um pensamento que fosse, tomada por um ciúmes que eu não conhecia em mim mesma, consumida por um desejo irracional de por fim na noite deles.

Se é que ela está acontecendo, eu me contive, de repente.  Eu não sei onde ele está, preciso me controlar, porra. Tá. Talvez eu devesse ligar... Não. Mano, não. Pára. Provavelmente ele não está nem com ela. Quer dizer, não, onde mais ele estaria senão com ela? Eles só podem estar juntos. Merda, mas que merda. Esse desgraçado deve estar comendo a Mia, apoiei mais uma vez na minha mão, em desânimo. Não, ela não faria isso... Não depois que nós duas... Ela não conseguiria. Ou conseguiria? Ela é a porra da namorada dele, meu, claro que conseguiria. O que ela vai fazer? Ele é... o... o namorado dela, porra, eles têm todo o direito de dormir juntos. Ainda mais numa sexta-feira à noite. O Fernando já deve estar com a boca metida na... na..., eu me recusava em sequer pensar nas possibilidades fisiológicas daquela merda. Não, chega. Eu estou bêbada demais, chapada demais.  

Chega.

Eu precisava me controlar. Eu vou tomar um banho e ir para a cama. Eu preciso dormir, chega. Vou esquecer esse rolo filho-da-puta. É, isso: esse é o plano! Eu me levantei, apagando o último milímetro de ponta restante na mesa. Lidaria com aquilo no dia seguinte. Ou não.

(E se ele passar o fim de semana com ela? E se eles...?) 

Argh.

julho 08, 2010

Saída de incêndio

32... 33... 34... 35... 36... 37... Sentei no 38º degrau da escada do meu prédio, sem saber direito porque eu havia decidido subir por ali ao invés do tão conveniente elevador. Conveniente porque, naquele momento, eu me encontrava bêbada e não passava um tempo sozinha com o travesseiro há dois longos dias. Cambaleei para acertar meu corpo no espaço restrito do degrau de número 38 e, em seguida, apoiei os pés no 37 e os antebraços sobre as pernas. Olhei para frente, meio atordoada, e a situação inteira me incomodou um pouco.

O que diabos eu estou fazendo aqui?

Afundei o rosto nas mãos. Argh. Às vezes, eu faço as coisas sem pensar e depois me bate um desespero tremendo. Eu tinha acabado de subir um monte de degrau à toda. Eis que, do nada, me irritei profundamente com a minha irracionalidade. Por que eu faço essas merdas?, me perguntei enquanto olhava para as paredes sujas e descascadas daqueles corredores inclinados onde eu me encontrava. Que porra você tem para fazer na escada, sua imbecil? Nada. Não tinha nada ali. Só eu e as minhas ideias brilhantes e inapropriadas. Acho que me meto em furadas sem sentido inconscientemente. Ainda faltavam muito mais do que os 38 degraus iniciais. Inferno. Quis me levantar na mesma hora, num impulso de boa vontade para sair daquele buraco, mas alguma coisa me segurou contra o degrau.

Fernando.

E a muitos-e-não-sei-quantos degraus da porta do meu apartamento, de repente, eu perdi a coragem. Caralho. Enfiei a cabeça mais uma vez entre as mãos, sozinha naquela parte abandonada do prédio, e desejei não estar no meu próprio lugar. É. Eu estava enrolando – e, no fundo, eu sabia disso. A demora para sair do bar, a conversa longa demais com a garota do caixa, minhas últimas palavras em excesso com a Marina no carro e a contagem lenta dos meus passos enquanto subia escada acima... Tudo até então. Evitando a porra daquele apartamento e a realidade que se encontrava lá dentro, para a qual eu não queria voltar de jeito nenhum.

Encarei mais uma vez a merda da parede à minha frente – cinza, feia e velha –, mordendo o dedo de leve sem perceber a ansiedade que corria em mim, e tentei não antecipar nada daquele rolo, fazendo um esforço mental enorme para esquecer tudo aquilo. Respirei fundo. Vamos lá acabar de vez com isso, pensei para mim mesma, batendo as mãos nos joelhos, e levantei. Afinal, dormir no concreto gelado não me parecia uma alternativa.

Terminei de subir os degraus – pois é, a conveniência do elevador continuava fora de questão, por pura falta de coragem minha – e entrei no corredor do meu andar, ouvindo meus passos ecoarem no escuro, junto com o barulho da porta fechada atrás de mim. Não dá pala, porra! Reforcei mentalmente para mim mesma e, antes que pudesse perceber, já estava atravessando a nossa sala de estar com bastante pressa. 

julho 07, 2010

Duas horas depois...

Tá. E que tal agora?

julho 05, 2010

Happy Hour

_Posso dizer? – ela mordeu a boca, contendo certa felicidade, e me olhou à espera da resposta.
_Dizer o quê? – encarei-a de volta, apoiada no balcão.
_Que... “Eu te disse”?! – a Marina sorriu prazerosamente, satisfeita.
_Disse o quê? – eu me repeti, sem entender a que ela se referia.
_Como o quê? O que eu te disse quando você começou com essa história louca toda?!
_Não sei... O que você disse?
_Meu, alguma coisa do que eu falo entra nessa sua cabeça? – ela riu – Quando a gente foi almoçar aquele dia, boba, que você me contou da Mia... o que eu te disse? Não falei que ela estava saindo do armário? Não disse?! Pois olha aí.
_É, espertinha... Mas você também me disse, uns dias atrás, que ela não me amava. Não é? Que as “mulheeeres” e as héteros e as lésbicas e o caralho a quatro veem as coisas de forma diferente e que eu estava me enganando e bla bla bla... – eu revirei os olhos, como se todo aquele papo sobre sentimento e sexualidade fosse uma grande baboseira, evidentemente irritando a Marina – ...não foi o que você disse? Hein... Einstein? – eu ri, arqueando a sobrancelha de volta para ela, coberta de razão.
_Disse... – ela deu de ombros como se não tivesse importância, como se aquilo não diminuísse a sua parcela de acertos nos palpites sobre minha vida amorosa – mas eu estava certa para começo de conversa. E outra, você não sabe se a Mia te ama.
_Se não ama, vai amar.
_Jesus, você é tão convencida que chega a ser ingenuidade! – riu.
_Escreve o que eu estou te falando, meu... Eu vou fazer essa garota cair de joelhos por mim.
_Achei que você já tinha feito isso... – a Marina me zombou, fazendo o tipo de trocadilho que, normalmente, se esperaria partir da minha mente suja e não da dela.
_Vai rindo, vai rindo... Você vai ver, meu – eu tomei mais um gole do meu quarto ou quinto chopp da noite – Essa garota ainda vai ser minha mina. Só minha.
_Ah, é? E seu amigo Fernando já foi informado sobre isso?

Olhei para ela, respirando fundo, e esperei uns três segundos antes de retomar a conversa.

_Porra... – resmunguei, colocando o copo de novo no balcão, já levemente bêbada – Não precisava dessa, né, Má.
_O quê? Você esqueceu com quem você mora? E com quem ele dorme quase toda noite?!
_Não, não esqueci – fuzilei ela com os olhos, emburrada – Mas hoje, só hoje, eu queria aproveitar e ficar feliz sem pensar nessa merda. Pode ser? Você deixa? – eu continuei, soando irônica, e lamentei – Que inferno. Não bastasse eu ter que lidar com essa porcaria todo santo dia... Caralho, viu...
_Deixo, deixo... – ela riu, mostrando-se sinceramente arrependida – Desculpa, linda.

Mostrei a língua rapidamente para ela, fazendo graça, e me virei para terminar o meu copo. Pedi mais uma rodada e a Marina me acompanhou, perguntando sobre as mensagens da Mia ao longo do dia, a fim de me animar. Puxei o celular do bolso, instantaneamente feliz, e passei os dez ou quinze minutos seguintes dissertando sobre cada uma delas, mesmo que não fossem lá grande coisa. 

No fundo eu sabia que, em algum momento, ia ter que descer do meu estado bobo-alegre de ser e encarar a realidade de merda da qual a minha ex-namorada tão inapropriadamente me relembrara. Só que, não, não agora.

julho 04, 2010

Procrastinando

Rodei o cigarro entre os dedos, levantando-o bem na frente do meu rosto, e encarei as cinzas acumuladas por cima da brasa. Último cigarro do expediente. Aproximei-o da boca, sentada no degrau da saída do estúdio, e assoprei na direção da ponta, fazendo com que as cinzas voassem mais adiante na calçada. Eu enrolava descaradamente do lado de fora até poder juntar minhas tralhas e cair fora. Já eram quase seis da tarde – quando estaria, de fato, declarado o fim de semana.

Eu fumava lentamente. Sem pressa. Meus colegas de trabalho iam e vinham com seus próprios maços e eu continuava sempre lá, despreocupada, ignorando as minhas obrigações. Garanti que a brasa só atingisse o filtro quando o meu celular já indicasse os últimos cinco minutos de labuta. Perfeito. Levantei, jogando a bituca para o lado, próximo de onde a parede do estúdio encontrava com a calçada, e voltei para pegar minhas coisas na sala de edição.

As piadinhas sobre a minha noite não-dormida já haviam cessado há algum tempo, graças ao desgaste e desanimo que a rotina de trabalho proporcionava aos meus co-workers. Não a mim: eu estava imune a qualquer bad aquela sexta. Peguei o celular, checando rapidamente se a Mia tinha respondido minha última mensagem – o que não havia acontecido ainda –, e disquei para a Marina enquanto me dirigia mais uma vez à porta.

_Estou aqui já – ela me respondeu, com o barulho de outras pessoas de fundo, invadindo a conversa – onde você está?
_Saindo do trampo, já estou indo.

A distância até o bar onde combinamos de nos encontrar era pequena o suficiente para eu ir andando, caso a minha pessoa contasse com um pouco de boa vontade e disposição. No entanto, a ansiedade de dividir com alguém – a Marina ou qualquer um capaz de guardar segredo – tudo o que acontecera comigo nas últimas 24 horas me impulsionou a subir no primeiro táxi que passou livre pela Heitor Penteado.

_Vai, conta... – a Marina riu, ao me ver chegando no balcão.
_Quê?! – eu perguntei, estranhando a frase escolhida por ela no lugar do clássico “oi”.
_Olha a sua cara, meu...
_O que foi?? – eu ri.
_O que? Hm?! – ela devolveu a pergunta, achando graça.
_Não entendi... – dei de ombros, sentando no banco ao lado dela.
_Ah, tá. Você me liga espontaneamente – ela enfatizou – numa sexta-feira, me chamando pra sair, diz que não pode esperar; daí vem aqui e me aparece com esse olhar de quem aprontou... Sinceramente, né? Olha sua cara, sério.

Porra! Até tu, Marina?

_Não sei qual é a de todo mundo comigo hoje!
_Já pensou em, talvez, tirar esse sorriso de bobona do seu rosto? – ela riu.
_Ninguém me quer feliz, né... Credo! Até parece que eu sou a pessoa mais rabugenta do mundo, mano... Nada a ver.
_E não é? – ela me zombou.
_Vai se foder – eu ri, me virando para o bar e pedindo uma dose de vodka, afim de comemorar.
_Está vendo, ô meu pequeno raio de sol? – ela continuou, irônica – Se tem alguém positivo, bem-humorado e acima de tudo com boas maneiras, na minha vida... esse alguém é você.
_Eu sou uma pessoa feliz pra caralho, meu. De onde vocês tiram o contrário? – me defendi.
_A começar que você disse “vocês”, não é, no plural... O que indica que eu não sou a única que acha isso. Talvez você devesse rever seu conceito de “feliz”.
_Cara, claro que não. Eu praticamente sou a definição de feliz.
_Não, não. Você é que nem aquele cachorrinho... Como era o nome dele? Meu, que droga, esqueci como chama... Sabe?! Que olha com cara de merda e diz “eu estou feliz”? – ela riu, de novo.
_Eu não pareço um cachorro! – resmunguei, virando a minha vodka.
_Tá, tá... – ela balançou a cabeça, rindo, e me olhou – Mas, afinal, tem alguma coisa para me contar ou não?

Ahh, eu não consegui segurar um sorriso. Ahh, se tenho.