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setembro 26, 2011

[ PEDIDO ESPECIAL 2 ]

(Agora com o link funcionando!)
 
Já ajudaram uma desconhecida hoje? :’)

Meniiinas e meninos lindos que lêem o blog, tenho um pedido muito especial para vocês. Quero que ME AJUDEM a ajudar alguém de quem gosto muito. É fácil! Basta entrar neste link e clicar no coraçãozinho (embaixo do nome dela):


Não precisa fazer mais nada! Por favorzinho, vai,
ninguém vai nem ficar sabendo do seu pequeno ato de bondade com uma completa desconhecida... rs, é rapidinho! Entra e clica! :) Para a Dea conquistar o seu sonho. Leva 2s para vocês e faz toda diferença do mundo para ela ♥

Obrigada, obrigada de verdade, viu?
 
(e amanhã tem mais um post... já está pronto!)

"So please, please, please...

...let me, let me, let me get what I want.”

Seguiam-nos entusiasmados os olhos dos amigos dela, observando-nos à distância em meio à pista. Também me olhava, com uma dose a menos de empolgação e umas quatro a mais de whisky, o par de olhos castanhos da Mia. Não vou conseguir fazer nada aqui, bem sabia, não com essa platéia toda! Puxei a garota pela mão, numa decisão rápida, e a enfiei no banheiro. Os amplificadores tocavam o que me parecia ser The Smiths, havia apenas uma pessoa na nossa frente. Longe da roda de amigos, a Patti se tornou mais quieta e eu perguntei se ela estava bem, sozinha ali comigo. Ela disse que sim, sem voltar atrás. E esperamos. Até uma das cabines vagar.

Fechei a porta atrás de mim e ela me olhou, estranhando a situação. Encostei em um dos lados da cabine, apoiando um dos pés contra a parede atrás de mim. E ela ficou do outro lado, segurando com ambas as mãos o copo cheio de gelo, com restos ínfimos de gin com tônica, um tanto insegura em seus movimentos. Não fiz nada, a esperei. Ela parecia assustada, lembrava-me de certa forma a Mia de meses antes, e sorriu tímida para mim. Observou em volta, passando os olhos pelas quatro divisórias que nos cercavam naqueles “dois metros por um” mal-iluminados. Está presa comigo, garota... eu ri, terminando de virar a minha cerveja e me curvei para apoiar a garrafa ao meu lado, no chão. Então ela me olhou de volta e ficamos em silêncio por alguns instantes.

_Isso é estranho... – ela sorriu, um tanto nervosa, sem desgrudar os braços e o copo da frente do corpo.
_Por que estranho? – eu ri, observando-a.
_Ah, não sei... mas é. Não achei que eu... sei lá.

Ela começou a rir também, sem saber o que fazer ali comigo. Ficamos em uma situação desconfortável e que muito remetia à minha adolescência. Já eu estava achando certa graça naquilo. Ela desviava o olhar, às vezes, de mim; que a observava com calma; parecia constrangida pela minha presença. Tirei os olhos de cima dela, vendo as suas pernas encostadas tensas uma na outra – estava vestindo um minishorts preto que constrastava com o que parecia ser uma âncora tatuada na parte de cima da sua coxa. Sensacional, suspirei tentando ser discreta, interessada e meio bêbada. Os seus dedos se alternavam, dedilhando contra o vidro do copo já suado, e ela respirou fundo.

_Ei, você quer ir? – comecei a rir mais uma vez, achando graça no seu nervosismo.
_Não, eu... – ela riu, abaixando a cabeça com vergonha; erguendo-a logo em seguida – será que... sei lá... a gente não pode só dizer que se beijou?
_Pode – respondi, intrigada por ela, e sorri – como você quiser.

De certa forma, tinha um respeito precoce por ela; não ia me opor a nada que me pedisse. Contudo, não se moveu em direção à porta. Pelo contrário, ela ficou. E eu a esperei decidir. Passou algum tempo encarando os nossos pés, próximos uns dos outros no chão. Ela com um All Star preto sem cadarços e eu com o meu Adidas surrado. O som da balada entrava, como de costume, abafado dentro da cabine. Ela me olhou de volta e riu, ainda nervosa. Escuta, se você não vai fazer nada, então eu vou... pensei, declarando terminado o seu tempo.

Coloquei no chão, então, o pé que antes estava apoiado e desencostei da parede, movendo-me na sua direção. Dei um passo e deslizei os meus dedos por cima dos seus, retirando o copo das suas mãos e levando-o para trás do meu corpo. Ela respirou fundo, no mesmo segundo, absolutamente tensa. Eu estava curiosa por aquele momento. Levei a mão que restava livre à altura do seu rosto e ela fechou os olhos; passei então os dedos sobre os seus lábios, o mais lentamente possível, e eles se entreabriram. Aproximei-me do seu corpo, agora segurando-a pela cintura. E então a beijei.

setembro 25, 2011

Re-direcionando

Tá. Olha, eu já ia estar agindo daquele jeito inconseqüente de qualquer forma. Aquela era a minha noite. Não é como se todas as rodadas de destilados e vai-e-vens de sem vergonhice lésbica fossem pura infantilidade minha, afinal, eu estava mesmo feliz pra caralho naquele dia, naquela noite. Contudo, e este é apenas um mínimo detalhe, o fato da Mia estar lá – digamos, a tão poucos metros de mim e toda desconfortável – tornava cada movimento meu mais divertido. E eu estava, acreditem, fazendo com que aqueles seus olhos castanhos vissem – e repreendessem – cada um deles.

_Cara, você não superou nem de longe esta garota...
_Ah, cala a boca, Lê! – ordenei, já completamente fora de mim, conforme esboçava um sorriso maroto e pegava os dois shots de tequila do balcão.

Que se dane a Mia. Bem verdade é que havia naquela noite, ali no Vegas, uma hétero muito mais interessante para mim do que ela vinha sendo naquelas duas últimas horas, com suas viradas de olho indiferentes e cortes categóricos às minhas tentativas de inteirá-la nas minhas conversas com o Fer. Outra “hétero”. E com quem eu, após me perder por diversas vezes na boca de outras garotas em meio à pista, havia me conectado de uma maneira que só é possível quando se tem mais tequila do que sangue correndo pelas veias e tudo parece ser uma epifania. Nos demos extraordinariamente bem, eu e a garota. Com todo o apoio dos seus amigos, aliás, que eram super simpáticos. E apesar dos meus nada modestos esforços, ainda não a havia conseguido beijar.

Com ambas as tequilas em mãos, retornei para o seu lado num círculo de pessoas a poucos metros de onde o meu círculo de pessoas-e-amigos estava. Brindamos brevemente – eu a olhava, claro, insistentemente – e viramos tudo de uma só vez. Rimos logo em seguida; na pista qualquer faixa do Billy Idol ressoava e o teor desceu queimando pelas nossas gargantas. Ela se aproximou do meu rosto, apoiando-se no meu ombro, e insinuou, brincando, que eu estava querendo embebedá-la com todas as minhas evidentes segundas intenções.

_Eu não preciso te embebedar para fazer o que eu quero com você... – respondi, de volta em seu ouvido, já um tanto insolente devido à bebida.

Ela, rindo, afastou-se do meu rosto e negou com a cabeça, disse que eu estava me achando. Dei de ombros e ela riu mais ainda. Nos divertíamos, invariavelmente. Volta e meia todavia, os meus olhos cruzavam – acidentalmente – com os da Mia, a poucos metros dali. Já a Lê havia sumido, correndo atrás de um rabo-de-saia recém descomprometido e que mais estava interessado em fazer ceninha para a ex-namorada do que em genuinamente querer a minha amiga. Drama sapatão, argh. Mulher é mulher em tudo quanto é canto, esse tipo de “joguinho” me enjoa até a boca do estômago.

Enquanto isto, eu e o meu magnífico-porém-persistente desafio da noite nos encontrávamos em mais uma rodada, com uma cerveja e drink em mãos. Respectivamente. O nome dela era Patrícia, Patti. Tinha seus míseros 19 anos, estudante de Design, com a conversa e as curvas fantásticas de uma garota de 25, bem-acompanhadas de algumas tatuagens old school que estavam me tirando do sério. Já o cabelo, castanho como me era de costume, estava preso num meio-rabo com dois palitos pretos e eu me encontrava absolutamente encantada com sinuosidade da frente única finíssima que encostava-se contra seu corpo. Tomei um gole, já ultrapassando a metade da garrafa, numa tentativa fracassada de esfriar a cabeça. Não rolou. E fiz graça para ela, então, arcando brevemente as sobrancelhas na sua direção. Ela riu, balançando a cabeça.  

_Eu sou hé-te-ro... – repetiu, de novo, como se eu não a tivesse ouvido nas últimas dez vezes que se antecederam.
_Todas vocês são... – retruquei, bastante segura de mim – ...até não serem mais, né.

E mais uma vez ela riu, me olhando; começava a ganhar um certo carinho por mim. Àquela altura do campeonato. E eu, uma certa impaciência para beijá-la logo. Decidi então que era hora de fazer algo a respeito e peguei-a pela mão, vem comigo, puxando-a através da pista. E ela disse que vinha, meio envergonhada. Mas foi, digo, veio. Em meio àquele mar de gente dançando post-punk inebriadamente, segurando atrás de mim a minha mão. Te mostro que estou certa, garota.

Bem-vindos a(o) Vegas!

Now let the games begin.

(...)

setembro 10, 2011

Yes!

Escancarei a porta, gritando de felicidade apartamento adentro. E assustando o meu respectivo colega, claro, que assistia TV tranquilamente com a Mia. A luz estava acesa e o cômodo bagunçado, pra variar. Eu entrei empolgada, fazendo escândalo e evidentemente sem explicar nada. Pulei no sofá, virando deitada de barriga pra cima, e apoiei a cabeça no colo do Fer. Sorri para ele e ele me olhou confuso. Como se dissesse “mas que diabos é isso agora?” com os olhos, sem entender porra nenhuma daquela minha cena.  

_Quem é a mais nova assistente de produção contratada? – perguntei.
_Conseguiu?!?! – ele pulou na mesma hora do sofá, desacreditando.

Levantei logo em seguida, confirmando toda feliz, abraçando-o. Aquele era, de longe, o auge da minha vida profissional em São Paulo.

_Porra, quase quatrocentos a mais e a parada é na Brigadeiro, mano! Aqui do lado, muito perto!! – continuei, ignorando a presença da Mia, empolgada e quase gritando as boas notícias – Cê tem noção disso?!
_Tá zoando?!?
_Meu, não. Não tô. É o trampo perfeito. Sério, per-fei-to! Até minha chefe é gostosa, juro pra você! – comecei a rir, acendendo um cigarro –  a partir de segunda-feira já... tô surtando, cara!! Tô surtando muito, meu, eu vim que não me agüentava no metrô agora...
_Tem que ir comemorar, então!
_Cê acha que não? – dei um tapa de leve na cabeça do Fer, irônica – Já liguei pra Lê, porra, vamos no Vegas hoje. Já tá tudo combinado... tô pilhada pra caralho com isso. Demais, demais, mano... vou pegar aquela balada inteira! – ri.

Aí olhei para a Mia, inconscientemente, já tragando logo em seguida e olhando pro outro lado de novo.

_Espera... É balada rock ou eletrônica hoje no Vegas?!
_Foda-se, Fer! Nem sei, meu... vou em qualquer uma que for hoje!! – continuei rindo, ainda empolgada – Meu, na boa, cara... quero gastar os quatrocentos reais em bebida hoje. Vou arregaçar aquela porra daquela balada! Tô feliz pra cacete, meu.
_Demorou! – o Fer riu também – vamos, pô... vou junto com você, certeza. Genial, meu... parabéns mesmo!! – ele me abraçou mais uma vez, de lado – vamos, né amor?

Ele olhou para a Mia e eu automaticamente, agora sem querer, também. Ela se limitou a concordar brevemente com a cabeça, por sua vez, num desânimo de absoluto contragosto à situação, sem olhar para mim.

Na boca do lobo

Batia os pés, inquietamente, na sala de espera. Alternando-os num ruído discreto contra o piso preto, estiloso, em ritmo acelerado. Acelerado e crescente, conforme minha ansiedade também progredia. Argh, cadê a porra da recepcionista. Um cara em seus vinte e poucos, mais ou menos da minha idade, esperava a umas duas cadeiras de onde eu estava. Menos preocupado, claro, como qualquer filhinho de papai. O movimento – agora rápido – dos meus pés impacientes, de repente, me irritou. Escorreguei de súbito então contra o encosto, afundando mais ainda na cadeira, e cruzei as pernas pouco adiante. Aquietando-as. A batata da direita sobre a parte de cima do meu joelho esquerdo. Forcei-me a sossegar por um instante. Ambas as mãos repousavam confortavelmente também, agora, na lateral da cadeira. 1, 2, 2, 3, 4, 5, 5, 4, 3, 2... E lá estava o meu pé direito sacudindo mais uma vez, no ar.

Madição. Por que eu tô tão nervosa, caralho?!

Suspirei fundo. Tão logo cruzei as mãos, entrelaçando-as apoiadas à frente do meu corpo, já ouvi o salto da recepcionista dar passos em direção à porta de onde estávamos. Me endireitei na cadeira. Olhei para o garoto ao meu lado e trocamos um sorriso de meio milésimo de segundo, por mera etiqueta. Boa sorte o caralho, observei atenta a porta da sala de espera, desculpa aí. A tal recepcionista tinha lá seus trinta e poucos, vestida numa calça social branca e uma bata turquesa com cinto marrom por cima, sandália alta de tiras. Estava bem arrumada; mantinha porém uma expressão mal-amada de tédio, que presumi já ser cotidiana. Muitas recepcionistas são assim... só tiram a porra do eu-odeio-este-cargo da cara quando estão tagarelando com alguma amiga no telefone. Ou com o segurança do prédio, sei lá. Chega a ser pré-requisito para esta merda de sub-emprego, não é, encarei-a, já afetada pela minha ansiedade, ao vê-la entrar.

Olhou-nos de volta sem o menor interesse na nossa situação e anunciou que o veriam primeiro, desgraçada. Respirei fundo e preparei-me para levantar logo em seguida, já para dar o fora, mas ela me advertiu. “Vão falar com você em seguida”. Olhei-a de volta, sem vontade nenhuma de continuar ali, e tornei a me sentar. O cara ao meu lado passou bem na minha frente, com seus alargadores de 4mm de playboy paga-pau e um sorriso escondido na expressão, desta vez sincero. Argh mano, que ódio, eu respirava com pesar, tomada por uma frustração imensa. Filho da puta. Antes que a recepcionista saísse, já de costas para mim e atrás do garoto, que já seguia pelo corredor, chamei-a por um instante.

_Escuta... onde eu posso fumar aqui?
_Se quiser, lá na frente. Eu já volto para te chamar.

Mal posso esperar, hein..., revirei os olhos mentalmente em ironia e me levantei. Atravessei o mesmo corredor que eles, virando pouco antes, contudo, no cômodo de entrada onde a mal-amada dos saltos altos se sentava recepcionando os clientes da produtora. Pisei para fora enquanto tirava o maço do bolso e logo acendi um cigarro. O mais puro auto-consolo. Inferno. Apertei o filtro com o polegar e o dedo indicador, levando-o à boca, frustrada. Era uma terça-feira cinzenta, já prestes a escurecer, e eu havia matado a segunda metade do expediente à toa. “Ótimo”.

Lá pela quarta tragada, todavia, eu me encontrava já consideravelmente mais calma. Havia começado a bater papo com uma garota que estagiava lá – aparentemente a entrada do lugar era o fumódromo dos funcionários. Ela e um cara modernoso, que estava apoiado contra a parede a um metro de nós, conversavam ali antes de eu chegar. Gay, analisei-o brevemente. Lembrei então do que a Marina havia me dito, mas não consegui julgar a menina. Isto é, em todos aqueles quarenta segundos tontos de conversa.

_Eles vão falar com você agora – a recepcionista me chamou.

Ela se chamava “Rose” ou, pelo menos, era isto que indicava seu badge. Olhei-a e sorri, por um instante. Joguei o cigarro na sarjeta, pisando rapidamente na brasa acesa, e me despedi dos dois estagiários, que eram bem novinhos. Entrei atrás dela, atravessando a sala e depois o corredor, até o escritório da diretora de produção. Uma mulher de uns quarenta e poucos anos, bastante bonita, que parecia dessas críticas cults insuportáveis. Cumprimentei-a mais uma vez, junto ao responsável pelo setor de arte; ambos que haviam me entrevistado na hora anterior. Me observaram sentar, de frente para a mesa, e eu os encarei destemidamente de volta, numa atitude natural e um tanto desnecessária. A tal da Rose fechou a porta atrás de mim e eles se entreolharam logo em seguida.

_Então... – a diretora quarentona começou, me encarando simpática – ...o que você acha de começar aqui segunda?

setembro 06, 2011

O Encontro

Acompanhado, o Fer entrou na cozinha e colocou os olhos imediatamente na mesa que eu e a Marina há pouco havíamos posto. Como quem não quer nada, aproximou-se de onde estávamos, retirando o braço de cima dos ombros da Mia e ensaiou pegar o garfo que usamos para cortar nossa tortilla de batatas. A Mia ficou uns dois passos mais para trás, se conteve e encostou na parede, com os braços cruzados. E uma certa distração fingida no olhar. A mão direita do Fer, por fim, perdeu a inibição meramente de contexto e segurou o garfo que estava sobre a frigideira. Cortou um pedaço da tortilla que havia restado, levando-o à boca. Eu podia sentir a Mia me olhando e encarei de volta a Marina, que observava a mim e à cena toda, achando graça. Ela ergueu a cabeça e sorriu para o Fer.

_E ai?! Gostou? – perguntou, sendo simpática.
_Bom mesmo, hein, Má?! Tem que vir aí mais vezes, pô. Manda bem... E faz mó cara que não te vejo! Essa aí fica te escondendo de mim.
_Meu, não. Tudo o que eu fiz foi ajudar a descascar...
_Ahh, é, safada? Para mim você não cozinha assim, né?! – o Fer virou e bagunçou minha franja, jogando-a na minha cara, de brincadeira.

Tirei-a de cima do rosto, revirando rapidamente os olhos, e acabei olhando para a Mia, próxima à porta. Meio sem querer. E a Marina também olhou. Até aquele momento elas não se conheciam, não pessoalmente. Aquela foi a primeira vez em meses que me senti, por um instante, estranha na presença da Mia – o que não demorou para passar, felizmente. E aí ficamos todos em silêncio, na cozinha. O Fer já terminava de mastigar o segundo pedaço quando virou novamente para a Mia e fez um sinal casual com a cabeça, para que seguissem para o corredor.

Disse algo breve, ele, algo como “até mais tarde, garotas”. E não respondemos, ambas de boca cheia, não prestando muita atenção à saída deles. Logo em seguida, a Marina olhou por cima dos ombros, certificando-se de que eles realmente já haviam ido, e então virou-se para mim, curvada sobre a mesa, como se fosse me confessar qualquer pensamento guardado. E eu me preparei psicologicamente para aquilo.

_Uau! – cochichou, inquieta com o que acabara de preceder – Essa é a Mia?! Essa?!?
_É...
_Cacete! – seguiu sussurrando, empolgada.
_Qual é, Marina...
_Não, desculpa... mas vocês, vocês, meu... – pareceu se enrolar, animada por tê-la enfim conhecido – ...vocês deviam ficar lindas demais juntas. Tipo, ela é... nossa! Assim, sério mesmo...?!? – riu para mim.

Suspirei, respirando fundo.

_Não acredito nisso... – ela sorriu, parecia pensar consigo mesma – ...a Mia, cara! A Mia!
_Que tem, porra?! – me irritei, rabugenta.
_Sei lá, eu não imaginei que ela era tão... – fez um gesto com as mãos - ...meu, só agora fez sentido toda aquela sua obsessão.
_Tá, tá! Chega. Cortou o assunto, beleza?!

Fechei a cara na mesma hora, tomada por uma indisposição de ouvi-la impressionar-se tardiamente de qualquer forma que fosse com a garota que havia tornado a minha vida um inferno por meses a fio, e segui comendo numa grosseria talvez um tanto desnecessária com a Marina. Mesmo que não tenha dito nada em seguida, sentia-a se arrepender silenciosamente e me observar. Lá vem agora, previ em pensamento, quieta na minha, você não vai se agüentar, né... Segui comendo meu almoço, todavia, ignorando minha corretíssima previsão.

(...)

_Eei... – ela iniciou, com a voz baixa – ...e como você está?
_Tô bem, Marina.
_Mas... – continuou, preocupada comigo – ...com isso, tipo, com ela aqui o tempo todo e...?
_Tô legal. Que eu vou fazer...
_Não tem incomoda, flor?!
_Ah, sei lá, meu. Não tenho que achar nada... – mantive os olhos ocupados com o meu prato, expressando o meu sincero desinteresse – ...na boa, eu já tô tão de saco cheio dessa história que eu só quero ficar em paz, saca? Sem ter que pensar nessa merda, sem ver problema em nada, ficar me incomodando com ela estar aqui ou não. Pra mim, chega.
_É. Bom, acho que se ela não te procura, facilita também...

Facilitaria. Senti a fofoca sobre a tarde de sábado me subir pela garganta, incômoda. Comecei a me distrair com a comida no prato, empurrando de um lado para o outro com o garfo o pequeno pedaço que restava. Enrolando para contar, isto é. Aquele era um almoço um tanto tardio, a luz do dia já começava a perder a força através das janelas da cozinha. Feixes horizontais, amarelados, se projetavam nas paredes de ladrilho antigo.

_Na verdade... – comecei a falar, hesitante – ...nós conversamos ontem.
_Conversaram?? E aí? – me perguntou, agora mais empolgada com qualquer tema ligado à Mia que acabara de conhecer.
_E aí, sei lá, ela tá incomodada. Queria que a gente não ficasse assim, sem se falar, veio com uma conversa esquisita pra cima de mim, disse que queria ser "minha amiga" – acendi um cigarro.
_Mas você quer ser amiga dela?
_... – olhei para a Marina, tragando em silêncio, com minha melhor cara de “é óbvio que não, né, porra”.
_É, meio complicado mesmo...
_É, bastante.

Prossegui comendo, o último pedaço, enquanto a brasa queimava lenta entre meus dedos e o clima na cozinha ficou quieto por um instante. A Marina ajeitou os óculos pretinhos rapidamente, estava com os cabelos morenos soltos e ondulados, um tanto bagunçados, daquele jeito encantador dela. Cruzou os braços, em silêncio, como se pensasse consigo mesma. Eu soltei o garfo, ao terminar, e deixei minhas mãos na mesa. Ela me observou e alcançou a minha mão livre com a sua, olhando-me com carinho. Aí sorriu para mim e eu automaticamente deixei escapar um sorriso de volta, um bem tranqüilo. Depois traguei de novo, com calma.

_É a primeira vez que vou te dizer isso... – ela me encarou, com uma atitude positiva – ...mas, desta vez, acho melhor ficar na vida bandida mesmo. Aproveita suas meninas aí, vai, e uma hora dessas aparece alguém pra você.

Comecei a rir, sem me agüentar, ê Marina.

setembro 02, 2011

Tortilla à paulistana

_Então esse é o seu plano agora?
_Que plano, Marina?!
_Esse aí, comer tudo o que se move – ela me olhou desconfiada, sentada na mesa da cozinha, enquanto descascava as batatas.
_Eu não c... – levantei tom de voz e me segurei por um segundo, encarando-a – ...olha, na boa, eu não sei qual o problema das pessoas com a minha vida sexual. Não é como se eu comesse três por semana, isso é ridículo! Acabei de te falar que já saí com essa mina, porra, saí duas vezes com ela antes... e saí ontem de novo. Desde quando isso é galinhagem, cacete?!
_Ah, quer dizer agora que você gosta dela?!
_Não, mas e daí? Preciso gostar?
_É. Pra algumas pessoas, sim, né... – ela riu, juntando as cascas e descartando-as no lixo ao seu lado.
_Na boa? Essa Carol aí também não gosta de mim, não... aliás, eu acho isso ótimo.
_”Ótimo”, meu, você nem se ouve falando! Cara, você não sente falta de... de ter pelo menos alguém que, sei lá, que te queira? Não só por querer, mas tipo, com carinho mesmo. Sabe?
_Ai, Marina, você tá muito bicha, credo.
_Você que está muito solta aí... e isso não te faz bem, você não é assim – revirei os olhos na mesma hora, me aproximando para pegar o prato das batatas descascadas – Quê?! Você acha que eu não te conheço?!? – ela achou graça na minha reação e começou a me apontar, fazendo cena – meu, eu sei muito bem que por trás dessa sua falta de limites aí, você vive obcecada... amarrando o coração numa pior que a outra.
_Quê, cê acha que eu vou me apaixonar por essa Carol agora?
_Não... e nem pela outra, né, coitada, amiga da Lê. Aliás... – permaneceu sentada, me observando colocar as batatas na frigideira – ...a quantas anda a Letícia?
_Ah, tá de boa, solteira ainda e trabalhando pra caralho. Vou fim de semana que vem com ela tatuar, eu acho; ela quer fazer o outro braço e eu tava pensando em começar a minha da costela. Preciso ver se vou ter grana ainda...  te falei que tô querendo sair do trampo?
_ Nossa, não. Espera, calma, muita informação de uma vez só! Como assim?! – perguntou – Você vai sair do estúdio?!?
_Olha... Não sei, meu. Tô meio procurando. Achei um lance legal e é até mais perto, lá na Brigadeiro. Uma estação só de metrô, né, meu, dá pra ir a pé se eu quiser... e eu ia poder fazer mais coisa de produção também. Tô de saco cheio já de ficar selecionando foto de formatura, organizando álbum de casamento, tratando imagem pros outros... Lá, não, eles mexem com vídeo também, fazem comercial, não é só foto... é uma produtora mesmo e, sei lá, parece uma boa pra mim.
_Mas você foi lá? Eles estão precisando de gente?
_Estão... então, o Gabriel que me indicou. Ele já fez umas parcerias com eles lá da agência... os caras fazem bastante produção para publicidade e umas paradas de moda também, a menina que me ligou ontem me passou. Disse que tinham gostado de mim, viram meu currículo... vou lá na terça, vamos ver.
_Ah, linda, que bom... tomara que dê certo, meu!
_Acho que vai dar... até quando te liguei ontem, a idéia já era te contar disso. Tinha acabado de falar com a menina, sei lá. Tô com um sentimento bom, manja? Acho que vai rolar, e acho que vai ser do caralho.
_E o salário, já sabe?
_Não sei, preciso conversar lá primeiro... não me falaram. Mas mesmo se for igual, eu prefiro do que continuar no estúdio. Meu chefe definitivamente me detesta, eu acho que eu sou a pior funcionária daquele lugar! E nesse outro tenho impressão que eu ia me dar bem...
_Cara, olha, sem ofensas... Mas quem em sã consciência te colocaria pra trabalhar com moda?! Tipo, né, você?!
_Nossa, hein, obrigada pela parte que me toca. Vou lá jogar meu armário inteiro fora...
_Não quis dizer isso... – ela riu, batendo de brincadeira na minha cabeça – ...eu gosto das suas roupas, mas é que... não dá, né?! Eu já fui cobrir vários eventos de moda, set de publicidade... é, tipo, o meio mais sapatão de São Paulo.
_Uai... Então, meu! Perfeito.
_É. Não se você quiser manter seu emprego, né... – me zombou.

E você está implicando o quê, por um acaso?