- »

novembro 30, 2011

La Petite

(...)

_Os caras devem fazer fila por você, hein? – observei-a, realmente bonita ao meu lado, brincando distraída com uma almofada.
_Como se fosse difícil, né, os homens andam tão “pouco” desesperados nas baladas... – a Patti respondeu.

A pipoca já havia esfriado, o pouco que havia sobrado entre nós, num balde que eu e o Fer ganhamos numa promoção do Cine Unibanco, na Augusta, alguns meses antes. Empurrei-o para frente e afundei o corpo, apoiando as costas no sofá, um pouco mais ao seu lado.

_Aham – eu ri, sendo irônica; estávamos sentadas no tapete da sala, frente à TV, rodeadas de latinhas vazias de cerveja – e esta é a impressão mega realista de uma garota, assim, super “indesejável” para o mundo todo...
_Ah! Falou a que não tem uma fila dando volta do quarteirão! – ela riu também – eu vi aquela lá toda, toda em cima de você no bar ontem e as outras meninas me olhando quando a gente... – interrompeu e me olhou, eu ria – ...não vem, não.
_Quê?! – fiz-me de desentendida, rindo.
_“Quê”, né?!
_Eu não fiz nada...
_Meu, você deve ser muito cachorrona – palpitou.
_Nada a ver... – balancei a cabeça de um lado pro outro e aí comecei a rir – ...tá, talvez. Sei lá. Não, não é bem assim... é só que, não sei, eu...
_Ahm? – ela riu, curiosa.
_...tipo, eu tenho um interesse muito efusivo, só que por tudo, por todo mundo. Minas, amigos, qualquer coisa! Arte, filme, música, filosofia de boteco. Eu simplesmente me interesso do nada e aí, sei lá, é só o meu jeito de... – estranhamente, ela parecia instigar uma sinceridade incomum em mim; não entendia porque, de repente, abrir a boca assim – ...de agir, não sei.
_Existe uma longa distância entre ser interessada e ser cachorrona – arqueou as sobrancelhas para mim, rindo.
_Não é, meu... É que eu... saca, eu faço graça para todas as meninas que eu acho interessantes, por qualquer motivo que seja – meu, cala-a-sua-boca –, mas não é empenho real, manja? Isso eu guardo para as que eu realmente quero. É só... “graça”, sei lá. Não é importante...
_Ou seja, resumindo, você é uma idiota completa com 99% das garotas que conhece.
_Não, cara! Não sou... e não é de propósito. Você faz isso o tempo todo, sabe, nem percebe mais. É meio natural, sei lá, e às vezes ninguém dá a mínima também – continuei a tagarelar, ligeiramente bêbada – e aí você fica sozinha um tempo e tudo bem. Só que tem vezes que, do nada, o mundo inteiro resolve corresponder ao mesmo tempo e aí quando você vê já saiu do seu controle, saca, você acaba atropelando uma na outra e perde atenção com algumas no meio do caminho, não tem como retrib...
_Ihh, não dá contaaa... – ela me interrompeu, quase gritando.
_Você tem o que, hein, quatorze anos?! – observei-a me zombar como uma pré-adolescente – Não dá. Não dá mesmo, cara! Quero ver você dar atenção para todas as pessoas pra quem você dá mole, meu...
_Olha, eu estou ótima. Talvez você que não devesse dar tanto mole por aí...
_Mas eu não dou, porra! – ela me olhou como se não acreditasse e eu ri – Tá, ok. Talvez eu dê um pouco. Mas às vezes não é nem intencional, juro! É só... sei lá! O meu jeito de falar e a minha falta estúpida de inibição. Eu falo o que eu bem quero, o tempo todo, com todo mundo e acaba saindo merda.
_Tá, tudo bem – admitiu –, eu acho que sei o que você quer dizer.
_Obrigada.

Respirei fundo, encostando novamente a cabeça contra o sofá. Olhei para ela ao meu lado e sorri. Então, endireitei mais uma vez o rosto e fiquei encarando o teto por alguns instantes. Aí resolvi prosseguir minha análise.

_E eu curto também. Eu curto, porra. Eu gosto de dar atenção para meninas mais, sei lá, “agradáveis” – ela riu comigo –, eu me divirto, não sei. Foda-se! Não quer dizer que eu queira de fato comer todas elas.
_Espera. Ok, até entendo, só que com certeza muitas das garotas não pensam assim... Aposto que elas estão esperando que você vá lá e de fato... sabe... – coma elas? – ...”faça algo” a respeito daquilo que você mesma começou!

Revirei os olhos.

_Tá. E o que é realmente começar pra você? Sabe, a questão mesmo... – sentei mais uma vez direito ao seu lado, empolgada com a discussão – ...é que poucas garotas olham as outras nos olhos, poucas encostam com tanta liberdade em minas que acabaram de conhecer – argumentei –, poucas pessoas no mundo desrespeitam com naturalidade as regras idiotas de intimidade. E eu sou assim, meu. Eu sempre fui assim! Nem sempre é consciente, às vezes só acontece. Só que aí isto passa a impressão errada ou faz parecer mais do que é. E não é!! Só que aí já foi também... e sei lá, foda-se, melhor pra mim! – tirei o maço do bolso e acendi um cigarro logo em seguida.

Ela riu, roubando-o das minhas mãos, e inclinou-se para me beijar. Seus lábios encostaram nos meus brevemente, então tragou uma vez e me devolveu o cigarro. Eu a olhei por um instante e sorri, contida. E você é mais do que só agradável, hein garota. Aquele era o terceiro beijo da noite. Encostei mais uma vez a cabeça contra o sofá e tornei a refletir sobre como eu levava a minha vida, já que ela havia trazido a discussão à tona.

_Cara, quer saber, na real eu acho sacanagem isso... – prossegui, discutindo casualmente – ...porque todo mundo é assim, todo mundo. Todo mundo brinca com os outros! Todo mundo faz graça, todo mundo gosta da atenção. Mas parece que só eu pago o pato...
_Sinto muito, gata, mas sabe como é, né... “tu te tornas eternamente responsável por aqu”...
_Argh, não. Não! – ordenei, rindo – fica quieta, meu! Eu odeio tanto essa frase.
_Eu também – achou graça na minha reação.
_Merda de descrição de... de... perfil de Orkut, sabe?! “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, ah, vá pro inferno bando de mal-comida! Ninguém é responsável por porra nenhuma! Na boa, relacionamentos têm que ser à base de vontade, de interesse real, porra, não de dever cósmico.
_Tem razão... – ela ria da minha revolta – ...mas ah, vai, o livro é bom.
_Lógico que é. É sensacional. Não sei porque pegaram justo a parte mais babaca para transformar em clichê mundial. Por que? Por que, né? – olhei-a, enquanto soltava a fumaça, e ri – Nossa, eu odeio muito esta frase.
_Óó... eu acho que isto é medo de assumir compromissos, hein?

Peguei a almofada na mesma hora e bati com ela na sua cara, o tecido quase escorregou das minhas mãos. Ela constestou aos risos. Vai nessa, garota, quero ver você largar o seu mundinho hétero e se comprometer com uma mulher, ri junto com ela e traguei mais uma vez, pensando na complexidade infernal feminina, daí você me diz se é fácil. O relógio se aproximava da meia-noite. O filme já estava em absoluto segundo plano, atrás das inúmeras latinhas de cerveja e dos nossos pés esticados no tapete. Ficamos em silêncio por alguns instantes, assistindo o final; eu seguia fumando, despreocupada, e uma ou duas vezes nos entreolhamos espontaneamente.

_Hum, eu tenho uma tatuagem inspirada no Pequeno Príncipe... sabia? De uns anos atrás – comentei de repente.
_Sério?! – ela sorriu, um tanto surpresa, e eu puxei a lateral da blusa para cima para mostrar – O quê? É isso?!
_É – estranhei sua reação.
_Mas por que você tatuou logo o chapéu?!

O chapéu, mano? O “chapéu”?, comecei a rir imediatamente.

_Meu, cê não faz idéia, isto é tão... tão broxante – comentei.

novembro 22, 2011

SMS

“E se eu te convidasse hj...”, comecei a digitar, “...vc subiria?”. Descia encostada entre duas paredes do elevador do prédio da Marina, os pés cruzados à frente do corpo. “Te dei a resposta para esta pergunta umas mil vezes ontem”, a Patti respondeu. “Sem segundas intenções, juro”. “Aham”. “Sem tequila?”, desci do elevador para a rua e segui a pé para o metrô. Logo depois, alguns minutos, chegava mais um SMS dela. “E o que faríamos sóbrias aí, hum?”. Como assim, meu?. “Alcoolatra vc., hein... Acha que não pode se divertir cmg sem tequila?”. “Talvez precise esquecer um pouquinho q. vc eh menina, rs”. Comecei a rir, lendo, e virei a esquina com o celular em mãos. “Mas é esse o meu mérito, garota... rs”. Batia ritmadamente com os dedos no visor do celular, olhos ansiosos, à espera da próxima mensagem. “Entre outros... :-)”. Bonitinha. “Se vc vier, te conto os seus”. “Mas oq podíamos fazer afinal?”. “Oq vc quiser, ñ sei”, acendi um cigarro. Já estava na entrada do metrô, mas enrolava um pouco, esperando a conversa terminar para tomar a linha verde e perder de vez o sinal até Jardins. Poucos segundos após minha última mensagem, ela me respondeu. “Preciso de um plano... ñ posso simplesmente ir aí pra ficar c/ 1 garota! ;-x”. Não pode?, sorri irônica com o canto da boca, achando graça no bloqueio dela. Pensei por um instante, sem muitas opções, abrindo o Google no meu celular. “Tá. Vai passar ‘O Iluminado’ mais tarde na tv e tô sem companhia, serve?”. “Hum, talvez...”. “Prometo me comportar, desta vez”, enviei e ela retrucou. “Promete?”. “Sim, rs. E adoraria ver com vc”. Levei o cigarro mais uma vez à boca, aguardando atenta. “Me dá meia hora?”, respondeu pouco depois. “Pra decidir ou pra vir? rs”. Os segundos correram, se esticaram insuportavelmente, o celular permanecia em silêncio na minha mão. Vinte segundos pareceram ser para sempre, até que ela respondeu. “Advinha? ;-)”.

novembro 20, 2011

Altruísmo e orgulho

Eu não estava tentando tornar aquilo pior ainda para a Marina – ainda que, na minha cabeça, a teoria fosse absolutamente plausível e não me fizesse, afinal de contas, qualquer sentido ela querer resgatar o apetite sexual da Bia. Fodam-se e, digo, não literalmente.

Apesar de não ser o meu objetivo ali tornar um cenário pouco agradável em ainda mais desesperador, contudo, não pude evitar certa inconsequência verborrágia e indisposição circunstancial. No fundo, eu de repente não me sentia mais confortável com o uso que a minha ex-namorada estava fazendo de mim: se fosse para irritar a Bia, ok. Se vingar, ok. Provocar ciúmes, ok. Obrigá-la a perceber que não era o único peixe no oceano da Marina, ok também. Mas... fazê-las transar, aí não.

É. Imediatamente, a brincadeira perdera a graça para mim. Não que a Marina falasse lá muito a respeito comigo, mas nunca tive problemas com a sua vida sexual. Achava ótimo que tivesse uma! Não gostava em particular, porém, da Bia. Talvez porque ela mesma não me suportava, mas, o que era ainda mais relevante, por tê-la magoado tão despreocupadamente alguns meses antes. Eu não a perdoara, ainda. E nem pretendia. Era uma daquelas garotas que eu ia detestar para sempre.

De qualquer forma, agora de volta à sala, eu já não precisava mais entrar na da Marina. As insinuações pararam, timidamente. Tendo tomado eu conhecimento de seu jogo de manipulação, a Marina automaticamente travou e não se moveu mais na minha direção. Sentei no mesmo lugar de antes, com o prato quente no colo, e me forcei a comer o que sequer estava com fome suficiente para ter pedido.

Por que me coloco nessas?

Observei a Marina sentar ao lado da Bia. E ela, grosseira, logo em seguida, levantou-se para pegar um copo d’água para sua pílula. Largou-a, sozinha, no sofá oposto ao meu. E em poucos instantes voltou da cozinha, sentando-se numa cadeira mais distante ao invés de ocupar o mesmo lugar. Babaca insensível. Os olhos da Marina a acompanhavam, frustrados. E parecia cansar-se daquela frieza. Sem motivo nenhum ou qualquer merda de bom senso na minha cabeça, fiz então o que me era impensável cinco minutos antes.

_Bom... – coloquei o prato já quase vazio sobre a mesa de centro e fui me levantando para sair – ...vou deixar vocês aí porque, né, eu já devo estar atrapalhando.
_Não, flor. Que é isso? Relaxa! Não está, não.
_Aham... – forcei certa ironia, desgostosa comigo mesma, e olhei para a Bia numa simpatia improvisada – ...fala sério, vocês estão saindo juntas há quanto tempo, hum? Não faz nem o quê... cinco, seis meses?
_Sete.

Argh, tá.

_Então, meu... – engoli seco e continuei com o teatro – ...sete meses não é nada! Eu lembro quando eu e a Má namorávamos a esse mesmo tempo, cara, eu quase expulsava os convidados só pra poder ficar sozinha com esse par de pernas aí... – a Bia pareceu, de repente, confusa com o que eu estava dizendo – ...vocês devem estar loucas pra se pegar e eu aqui, atrapalhando.
_A gente n...
_E eu vou lá também que, né, estou pegando uma há um dia só. Vocês já imaginam, né?

A Marina me olhava como se pudesse me matar naquele momento. Você vai me agradecer amanhã, meu bem. Infelizmente. Procurava, contudo, não pensar no que acabara de provocar e não demorei muito mais a fechar a porta de entrada atrás de mim, digitando um SMS persuasivo para a Patti. Tentando convencê-la a adiantar o nosso re-encontro para aquela mesma noite. De qualquer forma, queria estar o mais longe possível dali quando a Bia, sutilmente ofendida, decidisse superar as minhas memórias com a Marina. Acreditem, o mais longe possível.

novembro 18, 2011

Me engana que eu gosto

_Ela tá, ela tava – a Marina respondeu brevemente, ainda agindo de maneira casual – meio que morando aí, por um tempo. Não bem morando, ela só... passa bastante tempo aqui porque, também, a casa dela é na puta que pariu na zona Norte e ela trabalha aqui perto na Barra Funda.
_Hum... – sei – ...e, escuta... – prossegui minha investigação, sondando calmamente – ...por que você tá me tocando tanto assim, hein?
_Quê?! – fez-se de desentendida, já fechando a geladeira.
_Qual é, você sabe do que eu tô falando.
_Não... – abriu os potes um a um – ...não sei.

Coloquei as mãos apoiadas atrás de mim e puxei o corpo, sentando-me na pia da cozinha, ao lado dela e de onde estavam os vasilhames. A Marina não é de joguinhos, tirei o maço do bolso. Nem um pouco, aliás. Ela era madura, muito madura e muito além dos seus vinte e poucos, isto com certeza. Hun, acendi o cigarro, observando-a cuidadosamente. Eu sabia que ali tinha coisa, e das boas, eu a conhecia bem demais para isto. Já havia visto aquele olhar nela, aquela mesma atitude, inúmeras vezes comigo quando namorávamos. Aprendi com o tempo, mas a Bia estava longe de sacar e estava caindo cegamente na dela. A questão é que a Marina era esperta, bem esperta, e se houvesse qualquer coisa que ela quisesse e não pudesse de forma alguma conseguir conversando...

_Você está me usando, Marina.

Olhou-me como quem acabara de ouvir o maior absurdo.

_Ahh, você está, sim. Agora... – prossegui, segura do que dizia – ...resta saber por quê.
_Larga a mão de ser ridícula?
_Vai, conta... O que aconteceu? Hein?
_Não aconteceu nada.
_Não?! – ri, descendo do balcão.
_Não.
_Cara, eu não me importo de ser usada... nem um pouco, ela já me odeia mesmo – achei graça e traguei –, eu só quero saber o motivo.
_Não tem motivo, meu, você tá viajando!

Estressou-se, movendo-se para passar para o outro lado da cozinha, mas eu a segurei no lugar. Um braço de cada lado do seu corpo, as mãos apoiadas no balcão e ela sem conseguir sair dali. Olhei-a bem nos olhos, farsante de meia tigela, e ela suspirou sem paciência comigo.

_Você pode até enganar aquelazinha ali – sussurrei para a Marina, firmemente –, mas não pense que você me engana, madame, porque eu te conheço melhor do que isso e você quer alguma coisa, dona Marina. E eu sei que quer.
_Eu n...
_Marina, não começa.
_Por que? Por que você é tão... – murmurou de volta – ... irritante?
_Eu sabia! – ri, vitoriosa.
_Não dá pra você simplesmente ficar quieta e entrar na droga do jogo? O que você quer, hein, um “prêmio” por descobrir?!
_Não. Eu quero saber exatamente pra quê você está me usando.
_Eu não estou te usando! – tentou controlar a voz, para que a Bia não ouvisse da sala.
_Está, sim, meu!
_Tá, tá, eu tô mesmo! – me empurrou, dirigindo-se ao armário de pratos, enquanto seguia sussurrando – Satisfeita?
_Não, cara! Eu quero saber o motivo...
_Não tem motivo!
_Ahh, tem...– persegui-a pela cozinha.
_Escuta, eu achei que a gente fosse falar da sua vida.
_Ahh, meu bem... – eu ri – ...a minha nova hétero nem se compara ao quão interessante essa sua richinha com a Bia é para mim.
_Meu, enfia isto na sua cabeça, não é uma richinha! – me olhou, aborrecida com a minha insistência, e aí estranhou – espera, mas que nova hétero?
_Não, senhora. Eu não vou te contar até você me falar o que eu quero ouvir.
_Agora você está sendo maldosa.
_E você está fugindo do assunto – ri de novo.

Ela suspirou, irritada.

_Tá, você quer saber mesmo? Eu te conto... – se aproximou de mim, já de saco cheio – ...a gente não transa mais.
_Ah, qual é! – interrompi já – Todo mund...
_Faz um mês. Um mês! Ela está aí, me tratando como se eu fosse a, a... sei lá, irmã mais nova dela. E ela fica aqui e eu não sei mais o que fazer, cara, se a gente conversa ela finge que eu que sou neurótica.
_Caralho, um mês?!
_É.
_Ela não te come há um mês? Um mês?!
_Aproximadamente.
_Você, meu, você desfilando aí neste vestidinho, cara, e a menina... Porra! Ela tá o quê, te traindo com meio mundo?
_Obrigada por tornar tudo isso ainda melhor, valeu mesmo.

Perspicácia

_E aí? Como foi lá? – a Marina sorriu ao abrir a porta para mim.
_Ah, foi normal...

Fui entrando, largando minha jaqueta no móvel ao lado da entrada e tirando o celular do bolso para ver se a Patti havia me respondido antes de largá-lo junto. O dia já estava escurecendo no apartamento da Marina, na artística Vila Madalena. Ela se aproximou, colocando estranhamente os braços ao meu redor num gesto um tanto desconfortável, enquanto eu lia o SMS gracinha da hétero da vez. “Eu não ganho um abraço, hum?”, a Marina disse, numa atitude incomum. Fechei a mensagem, sem dar muita bola para a estranheza da Marina, e depositei o celular sobre o móvel da entrada, me voltando à sala onde bizarramente sentava a Bia, observando-nos.

_E aí, beleza? – cumprimentei-a surpreendida, ao cruzar os meus olhos nos dela, que me respondeu com um breve movimento do queixo sem dizer nada.

Ah, isto é simplesmente fantástico, pensei em ironia. Começava já a ficar com preguiça da noite que se seguiria e me arrependera terrivelmente de ter sequer ligado para a Marina. Ensaiei dois ou três passos na direção do sofá – oposto àquele no qual a Bia estava sentada –, sem vontade alguma de estar bem no meio daquela situação desconfortável, até que me acomodei largada entre as almofadas. Afundava o corpo numa má postura de quem não quer, de fato, estar ali. Voltei a cabeça para a Marina, ainda em pé arrumando qualquer coisa no canto da sala, toda bem-humorada.

_E o seu chefe, hein, achou ruim? – perguntou casualmente, trazendo o que parecia ser uma cartela de pílulas para a Bia.
_Não, cara, ele... – observei-as – ...ele disse que já sabia que eu não tava feliz lá e que já estava pensando em me cortar mesmo, me desejou boa sorte. Sei lá. No fundo, ele foi um babaca, mas menos do que eu achei que fosse ser.

“Hum”, ela murmurou em resposta. Caminhava na direção da Bia, com o remédio em mãos, que pela cor pressupus ser contra dor ou cólica. Aquilo era estranho, no entanto. A Marina era certamente a primeira a se preocupar quando alguém estava mal, por qualquer motivo que fosse, ainda mais uma dor física. Numa situação normal, ela estaria enchendo a garota de chá verde e bolsa de água quente e o caralho a quatro. No entanto, entregou a cartela num gesto rápido e desapegado, sem sequer olhar para a Bia, sentada ali. Agindo com certa leveza incomum, superior. Ahh, filha-da-mãe, eu conheço esta cara..., disparou-se um estalo repentino em mim.

_Posso... – pedi imediatamente, já me levantando – ...posso pegar alguma coisa pra comer na cozinha?

Olhei-a fixamente, que fingiu que nada estava acontecendo na maior pachorra e caminhou até mim, agindo normalmente, deslizando a mão delicadamente pelo meu ombro e me encaminhando junto a ela. “Claro, linda”. A Bia fechou a cara na mesma hora. Mas você é muito cara de pau mesmo, hein, observei a Marina atuar. Fomos até a cozinha, a Bia continuava quieta na sala, e ela logo se enfiou na geladeira retirando vasilhames com os restos do almoço – arroz, feijão, um pouco de salada. Apoiei os antebraços sobre a porta da geladeira, colocando a cabeça em cima deles, e olhei-a.

_Por que a Bia está aqui...? – perguntei.