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fevereiro 28, 2013

Latitud 33

As ruas de Palermo eram encantadoras à noite. Caminhamos de volta para a esquina onde deveríamos ter virado inicialmente, uma ruela de pequenas casas com paredes coloridas chamada pasaje Santa Rosa. A Clara tagarelava o tempo todo, animada. Deixávamos os dois bares para trás. Eu a ouvia e ria, me divertindo com o absurdo de estar de fato ali. E observava com interesse os contornos de graffiti, entre uma palavra e outra sua, vendo-os fundir-se a unhas-de-gato e estranhas trepadeiras que surgiam de rachaduras e cobriam as construções antigas. Uma invasão insolente da natureza – era realmente bonito.

Coloquei o meu braço sobre os ombros da Clara, abraçando-a enquanto caminhava ao seu lado. Tranquilas. Viramos outra esquina e encontramos uma loja de bebidas aberta. Ela entrou, me deixando na rua por um instante. Acendi um dos cigarros do maço e me sentei no meio-fio, os pés postos sobre os paralelepípedos acidentados no chão. A umidade do ar de Buenos Aires entrava nos meus pulmões. Conforme eu tragava, sentia-me mais presente ali – havia certa calma em tudo aquilo.

A Clara regressou, com duas garrafas de vinho nas mãos. Sentou ao meu lado na calçada e colocou uma delas dentro da mochila que eu carregava nas costas; a outra acomodou na sua, que estava entre os seus tênis. “Você quer beber mais?!”, ri, ainda embriagada das Quilmes e doses de pisco do bar. “Precisamos de vinho”, ela disse e eu arqueei as sobrancelhas na sua direção, ainda achando graça. “Não precisamos beber hoje”, argumentou, muito séria, “mas precisamos de vinho. Afinal estamos em Buenos Aires”. Eu ria. E disse então, concordando, que parecia fazer muito sentido aquilo.

Bem. Ficamos em pé novamente e continuamos até o albergue, a algumas quadras dali. A recepção estava aberta, era vinte e quatro horas – e tinha uma argentina com cara de bem poucos amigos como a responsável pelo turno da madrugada. Fizemos o check-in em menos de dez minutos. E subimos uma escada para o segundo andar do sobrado, que era cor-mostarda. O nosso quarto parecia menor que o meu de São Paulo, tinha apenas uma cama de casal e uma mesinha de cabeceira. Com um banheiro meio claustrofóbico. De alguma forma, no entanto, contrariando todo bom senso por uma boa viagem, eu achei perfeito.  

Largamos logo as mochilas no chão. Nos acomodamos. A Clara tirou uma foto minha, conforme eu abria o zíper da frente da mochila, agachada frente à parede na procura da garrafa do tinto. “Para!”, ordenei, rindo. Ela já devia ter umas quatrocentas fotos inúteis naquele iPhone dela. Metade delas eram a minha pessoa com cara de merda, sem querer ser fotografada, para a câmera no bar. Pra quê? Já com o vinho em mãos, me ergui e fui na sua direção. Tirei o celular dela, largando-o na mesa ao lado da cama. E abri o vinho com um saca-rolhas que emprestamos com a mal-amada da recepção – a Clara que pediu, em um espanhol que eu começava aos poucos a assimilar.

Observou enquanto eu puxava, a poucos centímetros de mim. Estávamos em pé ao lado da cama. Larguei a rolha, ainda enfiada no saca-rolhas, sobre a mesa. E tomei um gole direto da garrafa – o vinho é bom –. Então a beijei, com uma força embriagada. Bebi outro gole. A Clara tinha agora gosto de tinto, com nuances de sacanagem. Era como mergulhar dentro da sua existência argentina. Mais um beijo, outro gole. Comecei a tirar a sua blusa, os meus tênis, entre goles e movimentos desmedidos pelo álcool. Mantinha a Clara em uma das mãos, a garrafa na outra.

Os beijos se tornaram amassos, que logo tornaram-se muitos. A Clara se esquivou e sentou frente a mim na cama, abrindo o meu jeans. Dei mais um gole, ainda em pé, a encarando. E então lhe entreguei a garrafa, tirando a minha blusa enquanto ela bebia. Retomei a garrafa e a coloquei de lado, na mesa de cabeceira. Subi então sobre o corpo da Clara, beijando a sua pele semidespida, e tirei-lhe o lenço cinza com flores cor de vinho que usava do entorno de seu pescoço. Os seus cabelos morenos caíam sobre seu colo com o desenrolar. Então, o tecido de algodão subiu tocando o decorrer do seu braço, conforme eu deslizava com o lenço em mãos, pressionando-o contra a sua pele. Até os seus pulsos. E a envolvi – uma mão, a outra –, prendendo-a com ele na armação da cama.

Estava sobre o seu corpo, com uma perna de cada lado. O tempo passava devagar. Apanhei a garrafa na cabeceira para outro gole. E curvei-me para beijá-la, perigando manchar toda a cama com o vinho em mãos. Nos beijávamos com uma fome irracional, violenta. Mordi a sua cintura, subi pelos seus seios; a Clara se contorcia. E a beijei. Dei um pouco do vinho na sua boca, sorríamos uma para a outra. Beijei-a de novo, mais forte. Consumi-a com voracidade. Descendo pela sua pele; arrancando-lhe as calças, a calcinha. Derramei um pouco do vinho sobre as suas pernas, tomando-o direto da sua pele. Depois mais acima, sentindo-a contorcer o abdômen ao correr do líquido vermelho pelas laterais do seu corpo. Consumia cada gota nela, antes de voltar a beijá-la. E antes de abrir as suas coxas, de observar os seus gestos mudos implorarem por mim. Ah.

O nó lhe apertava os pulsos, via o entorno dos seus braços se tornar vermelho conforme o lenço se movia. Comer a Clara em Buenos Aires me demandaria horas. E eu queria que ela prestasse atenção em cada minuto delas.

fevereiro 25, 2013

Como te extraño Clara

Segurei o meu fôlego. Há vinte e sete horas que esperava por qualquer oportunidade que fosse para soltá-lo. Mas não deu: primeiro eram as malas e então o albergue e os documentos ou os meus pais, as pessoas ligando pelo aniversário, o banco, os extratos, o roaming para o celular, os cálculos, as mil anotações, os horários antecipados no trabalho, era tudo. Eram todas estas coisas e tempo nenhum para respirar, desde que ligara para a Mia na entrada do metrô Brigadeiro. Ela se redimira algumas horas depois. Li a sua mensagem – “me desculpa, é seu aniversário. ñ queria brigar, fiquei meio atravessada e ñ tenho mto oq dizer tb. foi idiota! me perdoa?” –, ainda acordada com a Clara na frente do computador tentando achar algum lugar para ficarmos em Buenos Aires. Entupidas de café, despidas pela metade – e a luz do quarto irritando os olhos.

Respondi sem criar caso. A verdade é que estava aliviada por não ir viajar com aquela discussão besta na garganta. Mas agora segurava o fôlego. O nosso vôo chegava ao fim, menos de um dia depois das mensagens de madrugada. O alto-falante avisou que o pouso seria em poucos minutos. Merda. O meu estômago se revirou. Eu estava consideravelmente bêbada – meti todo álcool em que consegui colocar as minhas mãos goela abaixo, sem levantar suspeita das aeromoças de que me excedia, durante as piores duas horas e meia da minha vida. E fingi com muito esforço para a Clara que não estava com medo. De estar a dez quilômetros do chão, no mínimo. Puta merda. Metade do meu orgulho se desmanchava no desespero de sair logo daquela aeronave, enquanto a outra metade se escondia em temor à maldita descida que não acabava nunca. Argh.

3... 2... A Clara fazia como se não percebesse, apenas segurando a minha mão e ocasionalmente rindo; o meu estômago se contorceu por completo nos últimos segundos antes de tocarmos o solo. Sequer dei-me conta de que chegava em outro país. Tudo o que queria era me enfiar em um meio confiável de transporte – digo, um meio conhecido. Saímos pelo corredor e observei as amplas vidraças do aeroporto, a noite tornava-se densa do lado de fora. Passamos reto pela esteira com as malas, ao redor da qual os turistas se acumulavam. Nossas mochilas foram conosco no avião – a Clara disse que economizaríamos tempo, tinha experiência em viagens assim. Eu a seguia, sem ideia do que fazer em seguida. Era um pouco estranho ouvir uma outra língua sendo pronunciada nos anúncios do saguão.

A Clara ia à frente, nos arranjando as passagens de ônibus para o centro. Outra viagem de quase uma hora. De lá, pegamos um táxi até a “Plaza Serrana”. Observei as ruas durante o percurso, admirada. Ainda não me ocorria o quão longe eu estava de São Paulo, apenas me parecia um lado realmente descolado do universo. Descemos já lá pelas onze, um ventinho leve batia no rosto; tínhamos as mochilas nas costas. Bem em frente a uma calçada cheia de mesas tomadas por copos. Estes por sua vez, estavam cercados por argentinos barulhentos num certo caos ordenado, vibrante. Era excitante. Só então comecei a sentir um formigamento nos sentidos, dava-me conta de onde estava – e com quem. A Clara me puxava para dentro de um boteco, estilo boêmio-alternativo, com as paredes sujas e garotas em seus vinte-e-poucos de cabelos presos sobre a cabeça, meio desarrumados. Chamava-se Cronico.

Meu deus, eu vou me apaixonar insanamente por esta cidade – eu logo soube.

Tomaríamos a nossa primeira dose sem nem ter visto coisa alguma de Buenos Aires. “Amanhã vamos ter tempo”, a Clara riu e nos pediu duas cervejas portenhas, direto no balcão. Eu ainda segurava o fôlego. Tudo o que saía da sua boca para os atendentes me confundia, rápido demais para que eu acompanhasse. Em uma pobre associação com o português, eu sei. Bebemos alguns copos em sequência. Ela falava animada sobre o bar, que costumava frequentar com os amigos da capital e alguns dos colegas dos anos de estudo. Era o seu favorito em Buenos Aires. As pessoas ao nosso redor pareciam mais interessantes do que as que eu via na Augusta, mais donas de si de alguma forma. Tinham ares de intelectuais ou de artistas incompreendidos, sabe, com uns cortes de cabelo muito ruins e pareciam ouvir coisas como Bonobo ou Asaf Avidan. Eram estranhamente bonitos.

A Clara fazia sentido ali. Entre eles. Isto notei logo nos primeiros minutos, sentada à mesa. Com os olhos admirados voltados para ela. A Argentina parecia me tornar mais comedida, mais observadora do que uma comentadora ativa. E em sua regata preta, sobreposta por um lenço com pequenas flores vinho, ao redor do seu pescoço, num fundo cinza de algodão, a Clara puxava assunto com um trio sentado na mesa ao lado. Dois caras e uma garota, os três na casa dos trinta. Riam de algo que tocava no ambiente. Parecia explicar em seguida que eu não falava espanhol, porque todos começaram a me olhar e sorrir, fazendo comentários curtos aos risos. Eu abaixei a cabeça, dando um gole na minha quarta Quilmes. Sem jeito. Um deles tentou falar qualquer coisa comigo, em ritmo bastante lento – e eu olhava para a Clara em busca de qualquer tradução, ajuda urgente. Por certo que em qualquer outro contexto, eu teria entendido perfeitamente o que ele me dizia (espanhol não é lá tão monstruoso!), mas estava intimidada. Frescura, esta, que eu perderia logo na manhã seguinte.

Ficamos até a uma. Uma e alguma-coisa. As pessoas nos convidaram para uma balada a algumas quadras dali e a Clara recusou, argumentando que acordaríamos cedo. Eu comentei que até iria – depois que eles já tinham saído, isto é –, mas que preferia ir conhecer o colchão do albergue com ela. Estava louca para levá-la para a cama. Nunca tinha comido ninguém fora do país – e aquilo me parecia relevante, algumas cervejas já mais embriagada. “Te ensino todas as sacanagens que sei dizer em espanhol”, a Clara ria e me sussurrava no ouvido, puxando-me pela jaqueta. Ainda sentadas no bar, as pernas trançadas em intimidade. Começávamos a nos alterar de verdade. E impressionava-me com a irrelevância que os argentinos davam a um casal de mulheres, me apaixonando pela nossa normalidade entre eles.

Como somos injustos, pensei sobre as piadas brasileiras. Pagamos com os pesos que a Clara trouxera; o meu dinheiro ainda estava por trocar, mas apenas no dia seguinte. Seguiríamos a pé para o albergue. Chegando na esquina, todavia, a Clara me puxou a mão e fez atravessar noutra direção. “Vem”, brincou, “quero te mostrar uma coisa”. O ar estava úmido. As ruas eram iluminadas com charme e preenchidas por fileiras de árvores, o que deixava o ambiente ainda mais fresco. A Clara se adiantou alguns passos, tive que correr para alcançá-la.

_Está louca? – abracei-a num apreço bêbado – Me larga aqui e eu não volto mais para casa, meu. Não sei pronunciar nem o nome da rua do hotel!

Ela riu, se desvencilhando. O lugar que íamos era um pouco mais adiante, disse, e parou em frente a outro bar parecido. Ergueu os braços abertos sobre a cabeça e gritou – “Aqui, olha!”. Comecei a rir  também e a reprimi, chamando de louca pela segunda vez, acabáramos de sair de um. “Por mais que eu adore encher a cara...”, achei graça, me aproximando de novo; não havia chance de eu trocar o corpo dela sendo descoberto lentamente pela minha boca, com a fome que eu... estava... e a ansiedade em cada um dos meus dedos... hum, me perdi por um segundo, em pensamento. Digo, quer dizer, voltando: trocar por mais algumas cervejas.

_Não – riu –, o nome do bar!
_Como t...
_Como te extraño Clara – ela pronunciou, conforme eu lia, virada para o letreiro.
_É o nome mesmo do bar?
_É – arqueou as sobrancelhas, acendendo um cigarro do maço que compramos na saída do aeroporto – Quer dizer: “como sinto sua falta, Clara”. Fiz uma das minhas festas de despedida aqui, na última semana do intercâmbio. Eu brinco que é o “meu” bar.
_Animal... – sorri para ela, achando certa graça na forma como ela me apresentava os cantos da cidade que já conhecia tão bem, desde pequena.

Deu dois passos na minha direção, oferecendo-me o cigarro aceso. E me olhou nos olhos com a desinibição que dominava tão magistralmente. Satisfeita por eu estar ali, com ela; e encarando de repente todas as más intenções que eu já não escondia mais atrás das pupilas.  Mergulhou na minha cabeça, nos meus pensamentos flutuantes. Quis beijá-la – como quis; mas me fascinava a forma como era capaz de olhar tão dentro de mim. Sorri então para ela, com as mãos já envolvidas na sua cintura. E murmurei:

_Quer dizer, que... – sentia uma vontade imensa de consumir os seus lábios, que me ouviam entreabertos – ...você nem foi ainda e eu já tenho que sentir a sua falta?
_”Ainda”? – riu.
_Nunca.

fevereiro 19, 2013

As Pendências

Era apenas uma questão de tempo, porém, para que o Fernando abrisse a boca. Claro. A Mia ia saber, exceto se eu especificamente pedisse para que não contasse; e eu obviamente não podia fazer isto. A ideia me acendeu a consciência pouco depois do almoço. Droga, uma indigestão momentânea. E ainda que eu tenha mantido a minha decisão por uma manhã inteira, ao chegar a tarde e o adiantamento da minha festa acabar oficializado por telefone, percebi que teria sido melhor contar. Eu mesma e, não, por terceiros – argh. O Fer ligou para meia São Paulo em seguida, avisando sobre o cancelamento. E a linha inevitavelmente cruzou Higienópolis.

Eu soube um pouco mais tarde, quando me preparava para sair em uns quinze minutos. “Vc vai viajar?” – a Mia me mandou por SMS e eu suspirei, ignorando-a, enquanto finalizava os contatos de uma locação da produtora. Saí para a rua uns vinte minutos depois, ainda sem ter respondido. E outra mensagem chegou, logo nos primeiros passos na calçada – “valeu, hein”. Merda. Puxei o maço do bolso, desconcertada, e acendi um cigarro na busca de um pouco de coragem. Disquei o seu número conforme cruzava a Manoel da Nobrega. Soltei uma tragada, ouvindo o telefone tocar do outro lado da linha. Qual é, garota, eu sei que você está perto do celular.

Ela atendeu cinco toques depois, ríspida:
_Fala.

Parei a alguns metros da entrada do metrô, sem querer perder o sinal. E apoiei a mão livre no vidro do lado de fora da estação Brigadeiro. “Mia” – falei meio desajeitada, com o cigarro ainda na boca. “Fala”, repetiu, nitidamente irritada. Suspirei. Soltei a mão do apoio, me virando para encostar a lateral do corpo ao invés, e tirei o filtro dos lábios.

_É só uma viagem, Mi...
_Não é só uma viagem – me interrompeu.
_Cara, nã... – respirei fundo – ...não faz isto.
_...
_Mia.
_Você não me deve uma explicação. Pode ir viajar com a merda da Clara, à vontade.
_Não é assim. Meu, eu... eu nem sei porquê você tá brava. Eu sequer planejei a viagem! Eu não tava sabendo de nada, fiquei sabendo hoje. Não é como se...
_Você me deve explicação nenhuma – repetiu.
_Mia, por favor.
_Não, quer saber?! Deve, sim! – aumentou o tom de voz, mudando de repente –  Eu não sei, mano, não sei o que você acha que está fazendo.
_Como “o que eu acho que estou fazendo”? É só uma porra de uma viagem! Ninguém está casando, cacete. Eu vou, eu volto, acabou.
_Ah! ISTO é o que você acha?!
_O QUE TEM DEMAIS?! Ela me deu de presente a parada, meu. Eu vou fazer o quê?! Dizer ‘não’?!
_Não. Não, você está certa – disse com ironia –. Faz o que quiser.

Àquela altura, eu sequer sabia por quê estávamos brigando. Quis esmagar a minha cabeça, passando as costas da mão compulsivamente no rosto, esfregando os olhos em agonia. Frente à estação do metrô, com o celular no ouvido e o cigarro entre os dedos. Como eu odeio as mulheres, às vezes – pensei. Traguei mais uma vez, soltando a fumaça em seguida. E tentei argumentar, com paciência:

_Eu não estou fazendo de propósito, Mia.
_...
_Você sabe que eu ganhei as passagens, não fui eu que planejei isto. Eu fiquei sabendo hoje de manhã! E eu quero ir. Eu quero. Eu nunca fui, cara! Não faz isto comigo, sério. Você sabe que não é de propósito. Ela me deu a viagem e eu não ia dizer ‘não’. Não foi pra te machucar. Eu nunca faria isto, meu... – deixei a fumaça sair de entre os meus lábios, lenta – E eu não “te devo uma explicação”, mas eu estou te dando uma agora, porra.
_Eu... não disse que está me machucando, não era isto.

De repente, revirei os olhos, rindo, eis que surge o orgulho.

_Eu só não sabia que, que você ia. Foi só inesperado. Só isto.
_Tá – ri quieta, achando graça.

Traguei duas últimas vezes – a segunda um tanto mais demorada, terminando o cigarro. E joguei a bituca na calçada, pisando na ponta ainda acesa. Preparava-me para entrar no metrô – preciso fazer a mala ainda, reservar o albergue. Começava a escurecer. A Clara chegaria às 20 horas no meu apartamento, para acertarmos o que restava. É amanhã, pensei. Com frio na barriga, esquisito. Meti a mão no bolso, procurando pelo meu bilhete, ainda com só uma das mãos livres. As pessoas passavam atrás de mim, entre nós seguia o silêncio no telefone. Até que a Mia disse:

_Bom... – sugeriu – E eu posso te ver hoje, pelo menos?

Lá se vai a paz, de novo. Inferno. A minha resposta veio seguida de uma desligada na cara. Mas que bosta.

fevereiro 11, 2013

Sobre vinho e alfajores

_Não, mãe... mãe, escuta... – eu interrompi o discurso de feliz-aniversário que já durava minutos, fumando um cigarro frente à produtora; o celular colado no ouvido – Preciso falar com vocês. Escuta, eu vou estar fora no fim de semana.
_Como “fora”? Fora de onde?
_De São Paulo.
_Pra onde você vai? Você não vem mais no domingo?
_Não. Eu e... a Clara, a gente vai viajar, desculpa não ter avisado. É que eu fiquei sabendo em cima da hora também.
_Viajar pra onde? Eu já combinei com a sua avó, a gente encomendou o bolo na Sant’Anna. O seu pai chamou a família do Beto, a Lina. Vocês não podem ir no outro?
_Não dá – e naquele instante dei graças aos céus que a Clara me havia dado a desculpa perfeita para não ir àquela reunião sem sentido de almoço, tragando o cigarro já quase acabado e observando a calçada suja da Brigadeiro –. As passagens já tão compradas, mãe. Mas eu passo aí durante a semana e a gente janta ou faz alguma outra coisa, sei lá.
_Eu não acredito nisto, viu – bufou do outro lado da linha e então se recuperou, perguntando pela terceira vez o que eu estava evitando responder até então –. Mas, finalmente, vão pra onde? Você tem dinheiro? Como vocês vão? Não vai se meter naquelas quebradas, hein, ir acampar no meio do nada que nem vocês fizeram no Carnaval.
_Não. A gente... vai pra Argentina.
_O quê?!
_É. Buenos Aires – murmurei já de olhos fechados, à espera do surto.
_VOCÊ PERDEU A CABEÇA?! Não. Você não vai voar pra fora do país, não vai pegar um avião e ir. QUEM VOCÊS PENSAM QUE SÃO? Você lá tem dinheiro para isto?!?
_Não é tão caro assim, mãe...
_COMO NÃO É TÃO CARO ASSIM?!
_Mãe...
_Você nunca subiu num avião na sua vida! Você vai sair assim e ir? Onde esta menina vai te enfiar?!? NÃO, NEM PENSAR. Estas coisas têm que ser pensadas antes, filha. Não é simplesmente pegar e ir, é OUTRO PAÍS. Vocês duas, sozinhas, assim...  – ouvi-a afastar-se do telefone e chamar aos berros pelo meu pai, inconformada.
_Mãe... mãe! Me escuta.
_Me passa o telefone desta Clara.
_Mãe! Você não vai falar com a Clara, sossega o facho aí – revirei os olhos – Não tem nada demais. A Clara já foi um bilhão de vezes pra lá, a família dela é de uma cidade a quarenta minutos de Buenos Aires. Não vai ter problema: a gente vai amanhã à noite e volta no domingo. Não vai nem dar tempo de você piscar...
_Mas como isto?! Vocês acertaram as coisas? Tem hotel já, lugar pra ficar? A passagem?! Eu preciso dos telefones, endereços. Você não precisa de passaporte? Você tem roupa pra ir??
_Não. Eu não vi nada ainda. Eu saí de casa agora, vim direto pro trabalho. Vou arrumar uma mochila hoje, chegando. Não precisa de passaporte. Quer dizer... a Clá sabe onde ficar, como faz, as passagens já tão compradas. Ela conhece lá, meu. É tranqüilo.
_E quanto vai ficar esta brincadeira?
_Não vai ficar nada, vou gastar cem. Duzentos, no máximo. Ela disse que vai cinquenta cada uma pro albergue e o resto é só entrada de museu, aluguel de bike, coisa assim.
_Tá. Mas, e a passagem?
_Ela que pagou. Foi presente.
_E quanto foi?
_Trezentos e alguma coisa.
_DÓLARES?!
_Reais, né. Não são nem três horas de vôo, mãe!
_Vê lá onde você vai se meter, hein, filha.
_Relaxa. Escuta... – soltei a fumaça e joguei a bituca adiante na calçada – ...preciso voltar pro trabalho. Não conta nada pro pai, tá? Ele vai querer me dar grana a mais e eu não quero.
_Ah! Você acha que eu vou esconder ISTO do seu pai?! – riu, me ironizando.
_Não. Tá. Mas então não deixa ele me transferir nada. Cê sabe como ele é...
_Vou ver. Me liga hoje à noite, quero saber melhor desta história... – disse, em tom de bronca.
_Tá, tá. Vou lá, tá! Beijo.
_Beijo. Te amo. Não vai aprontar, hein.
_Não vou, mãe. Tchau.
_Feliz aniversário!

Ouvi sua voz diminuir, já afastando o celular do ouvido. Desliguei o telefone e dirigi-me de volta ao lado de dentro da produtora, sentindo que o pior já havia passado. Agora só faltava avisar o Fernando e cancelar a festa de sábado na Augusta – mais tarde naquele dia, ele a reagendaria para o outro final de semana e me zoaria por uma eternidade por conta da viagem, me chamando de socialite e o caralho a quatro. Mas (por enquanto) eu não sabia de nada disto. Passei aliviada pelo estagiário, que estava encostado contra o bebedouro, e duas das funcionárias frente à máquina de café. A conversa não foi tão mal assim.

Mal cheguei na minha mesa, no entanto, e o meu celular vibrou. Era a Marina. Em uma mensagem infindável num tom de revolta, meio brincando: “Eu não acredito que você vai viajar. Que vocês vão viajar. Juntas. Só vocês duas! Você não ia nem pra Monte Sião comigo quando eu queria! Não fiquei nada feliz com a sua msg. Nem um pouco. Saiba que achei uma afronta, aliás. Eu sempre quis ir viajar com você. Com qualquer pessoa. E agora vocês duas vão pra essa viagem dos sonhos, passar lua-de-mel em Buenos Aires, BUENOS AIRES, cara! E eu sou a última a ficar sabendo. Você acha isto bonito?! Me trata assim mesmo. Nossa, eu não acredito que você vai. E que eu não vou nem te dar um beijo de ‘feliz aniversário’. Ah! Você é uma ridícula! Tô muito feliz por você, mas você é uma ridícula. Te detesto pela viagem. Não-tô-acreditando. Bom vôo, boa Argentina e bla bla bla. E feliz aniversário. Te ligo quando não estiver na redação. Tá, te amo, flor”. Ri sozinha do surto da Marina, colocando o celular de volta na mesa.

E decidi então que se todos estavam reagindo desta forma, o melhor era não contar sob hipótese alguma nada para a Mia.

fevereiro 04, 2013

¡Yo la tengo!

E então, eu li.

_Não posso aceitar isto, Clá – levantei o corpo, um pouco séria, sentando-me no colchão com ela no colo.
_Deixa de ser besta, meu. Claro que pode!
_Não. Não posso, porra. É muito.
_Mano, não é muito... – ela riu.
_Você ganha menos do que eu, cara. Como você vai pagar isto trabalhando naquela loja? – eu me preocupava, com os olhos nela e o papel dobrado em mãos.
_Relaxa, eu peguei a mais barata de todas. Faz um mês que tá pago! E nem paguei a minha, estou indo com as milhas dos meus pais.
_Ainda assim, Bi! É muita coisa.
_Não é. Ficamos em albergue! É só um fim de semana...
_Mas, meu...
_Não é muita coisa, Bo – ela segurou o meu rosto e riu – Eu sei que parece, mas é porque você nunca foi. Eu, cara, eu cresci indo pra lá nas férias... não tem nada demais!
_Clara – eu ri, meio nervosa – tem, sim.
_Não tem. Para de ser chata, meu! Aceita a merda do presente logo.
_...
_Eu quero ir, Bo. Eu quero ir com você.

Observei-a por um instante, ciente de que aquilo que não era nada para ela possivelmente era a maior de todas as coisas que eu já fizera com alguém. Ou sozinha. E normalmente eu seria a primeira a juntar todas as minhas tralhas e sair sem destino. Dane-se. Os impulsos da Clara sempre foram excitantes para mim – justamente porque eu compartilhava deles. Ela era livre, meio alucinada. Quando tinha 20 anos, saiu de mochilão com as amigas até Machu Picchu e desceu de ônibus pela Bolívia e até o Chile. Eu nunca tinha saído do estado de São Paulo. O máximo que eu fazia era descer até a praia e já achava isto o máximo do desapego. Sair sem avisar ninguém, voltar na segunda-feira. É claro que ela achava normal. O meu estômago foi até a boca.

fevereiro 01, 2013

Impressões

Os dias se passaram com rapidez nos arredores da Frei Caneca. Vi o Fer outras duas vezes e me desdobrei entre os meus usuais almoços com a Marina, além de uma ida não-programada à Society com o Gui e o meu novo companheiro de quarto, o Du – que se provava cada vez mais uma boa companhia. A mim, à toa conversando pelos cômodos do apartamento, e a uma classe realmente elegante de homens. Já a minha nova condição com relação à Mia implicava, no entanto, em uma estratégia melhor do que o normal gasto nas minhas relações – e relativo esforço mental para arquitetar todos os meus encontros. Pois ainda que eu não fosse o melhor exemplo de fidelidade às minhas namoradas – e àquela altura, todos os meus amigos já o pensavam da Clara, independente das minhas ressalvas resmungadas à mesa de um bar qualquer da Augusta – e ainda que eu tivesse “incidentes” recorrentes por demais na época da Marina, ou de outras depois dela; eu não era lá uma pessoa de levar adiante casos concomitantes. Casos – com C maicúsculo. A verdade é que aquele em particular eu não podia evitar.

Podia, minto. Sempre podemos. Agimos como uns imbecis quando atribuímos a culpa a inexistentes forças externas. Mas a real é que nós, que podemos, simplesmente não queremos. Quem, afinal, ia querer evitar a atenção que recebe, os corpos que deseja tão inegavelmente, em segredo? Talvez haja algo de errado na forma como nos relacionamos a priori, eu pensava, entre um cigarro e um passo adiante, a caminho do trabalho numa terça de manhã. O maço já pela metade e os tênis sujos, graças às poças da chuva na noite anterior. Não. O que não queremos é enganar quem amamos, é isto; é ter que ver uma garota machucada. Cacete, não bastasse toda a merda que aguentamos por ser mulher, lancei um olhar de reprovação – “seu babaca” – a um cara que mexia comigo na rua, naquele mesmo instante, atravessando a Joaquim Eugênio. Quem disser, todavia, que sente vontade genuína de se desapegar da personalidade dos outros, daquela intimidade boba que se revela lenta e deliciosamente com o passar do tempo, está errado.

E por mais que os últimos tempos não tivessem me dado qualquer impulso irracional de acionar os números aleatórios da minha lista telefônica; excluir a Mia também estava fora de questão – ou a Clara. Não. Eu gostava demais das duas para isto. Me sentia dependente do que construíra com a Clara e, ao mesmo tempo, completamente absorvida pela nova fase com a Mia. E sendo assim, claro, eu entrava naquela dança sem escrúpulos dos horários, dos telefonemas escondidos. Arrastando toda uma situação para não ter que encará-la, fingindo para mim mesma que não precisava resolver coisa alguma. Que eu ainda tinha uma semana. E outra mais. E os dias se passaram assim, contínuos e despercebidos, entre cansativas gravações na produtora e algumas fodas muito boas, com a Mia, com a Clara, de tirar o cérebro e toda a razão do lugar.

Até que a manhã da quinta-feira chegou. Mais ou menos duas semanas desde a ida com o Fer ao boteco do bilhar. Argh. Fui acordada aos pulos pela Clara, que dormira comigo no apartamento e agora se jogava empolgada sobre o meu corpo ainda sonolento. Uma perna de cada lado meu. Abri os olhos, um pouco irritada, e me deparei com as suas curvas completamente nuas mais ou menos sobre a altura do meu estômago. A Clara sorriu. E fiz uma careta, esfregando o rosto com o antebraço – como se não estivesse preparada para acordar ainda. Senti a sua mão me tirar o braço da cara e a olhei, ainda atordoada de sono e desorientada. Eu também não tinha qualquer vestígio de roupa sobre o meu corpo e percebia agora – com frio – que ela empurrara o lençol para adiante no pé da cama. Devolve, pensei, em manha. E ela me observou com carinho, indiferente a todo o meu desgosto magistralmente expresso naqueles poucos segundos de interação matinal.  

_Bom... – tirou de trás das costas um pedaço de papel dobrado ao meio, em uma das suas mãos – ...feliz aniversário!

Ergui parte do corpo, apoiando os cotovelos no colchão. Curiosa. E a Clara me entregou a folha de sulfite, curvando-se para me dar um beijo conforme eu pegava entre dois dedos. Eu tinha aversão a aniversários. Não como a maioria das pessoas têm – por ansiedade de não serem reconhecidos, amados; ou ter que confrontar todo o carinho que creem não merecer em uma única data. Não era este o meu problema. Eu só achava aniversários fundamentalmente idiotas. E tinha aversão a toda a interação social a que me via obrigada. Logo o meu celular começaria a tocar e eu teria que gastar cinco minutos do meu dia agradecendo parentes que eu não via há anos pelo simples fato de existir um dia a mais do que ontem. Ou então os bons votos infindáveis da minha mãe – que depois passaria o telefone para o meu pai e assim por diante. Detesto aniversários.

Não via motivo para comemorar – a não ser que fosse o dos outros, regado a muita tequila e desordem. Achava aquela toda uma cultura inútil, baseada ainda por cima em um calendário que sequer tem a ver conosco de forma biológica. Se formos pensar, não há nada de humano em aniversários, apenas social. E eu odiava a sociedade na maior parte do tempo. Mas lá estava a Clara, plantada sobre a minha pessoa, com um sorriso sincero nas expressões e aguardando a minha reação. Isto eu podia apreciar. Presentes. Presença. Era o que fazia sentido naquele circo. Sorri de volta para ela, achando certa graça na sua ansiedade, e abri o papel na expectativa de encontrar um cartão rabiscado naquela mesma manhã.  

_O que é isto? – perguntei, sem entender, vendo uma página impressa em inglês.
_Lê aí.