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dezembro 31, 2010

E vice-versa.

Merda. Assim que pisei de volta dentro do estúdio, me bateu um arrependimento violento por cada palavra que tinha acabado de sair da minha boca. Sua imbecil. Às vezes, não sei o que diabos se passa pela minha cabeça. Aliás, raramente qualquer coisa que eu faço detém um mínimo sentido. Mas que inferno. Passei as mãos no rosto, tentando me livrar daquela culpa filha-da-puta e tudo que eu conseguia pensar era se ia, realmente, deixá-la ir embora brava comigo.

Mas que hora, hein, para dar pitizinho... sua idiota. Andava de um lado para outro na recepção e a japonesa me observava sem entender porra nenhuma, como se eu fosse uma surtada lunática. A mina vem aqui na maior boa vontade, falando que queria te ver, toda maravilhosa e a única coisa que você faz é defender a droga do seu amigo. Porra. Eu sou uma viada mesmo, viu, caralho. Que inferno... mas que inferno! Passei novamente as mãos no rosto e aí engoli meu orgulho.

_Onde você está? – perguntei pelo celular.
_Por que?
_Não vai embora assim, meu... me escuta. Me fala onde você está.
_Cara, o que deu em você hoje?!
_Nada. Eu sou uma babaca. Cadê você?
_Tô na rua de trás.
_Fica aí, meu. Não sai daí! – desliguei o telefone e virei para a secretária do meu chefe, que me olhava, agora intrigadíssima – ô, segura as pontas pra mim aí? Eu já volto. Sério, cinco segundos.

Virei a esquina o mais rápido que pude e andei pela calçada, sem qualquer pensamento na cabeça, querendo só chegar. Logo. Dei a volta no quarteirão e a vi ali parada, encostada num muro qualquer, me esperando. Mesmo de longe, já podia ver a sua impaciência com a situação. E, poucos metros mais a frente, o ponto de táxi... onde ela provavelmente queria chegar. Me aproximei, sem saber ainda o que dizer, e encostei ao seu lado na parede.

_Desculpa... – peguei na sua mão, sem pensar – ...eu não sei, eu... é complicado. É o Fer e ele... ele é meu amigo, porra. Eu gosto dele pra caralho. Não dá pra... pra achar que... que tudo bem, que a gente está certa. Porra, eu estava errada... na sexta. E ele tá tentando, sabe. Ele queria acertar as coisas entre vocês e, no fundo, eu... sei lá. Por um lado, eu... queria até que desse certo, queria mesmo. Mas por outro... é você, saca. E eu... eu gosto muito de você... – respirei fundo – ...então, não queria de verdade que... desse certo. Sabe, às vezes, só queria que você fosse mesmo... minha. "Às vezes", não; está mais para... o tempo todo.
_É isso que eu não entendo! – ela retrucou, indignada – quando eu, sabe, sei lá, me pego pensando em você... do nada, você vira e...
_Me ignora – argumentei, cortando ela, e ri – Pelo amor de deus, só me ignora. Eu tenho sérios problemas.
_É... – ela olhou pro chão – ...tem sido meio difícil te ignorar com você... me... pegando e... me levando pra pistas no meio do escuro e... sendo... você... o tempo todo... comigo.

Que gracinha, eu a olhei e sorri. Então, a segurei pela cintura, subindo a que antes se entrelaçava nos seus dedos, e a virei para mim. Acariciei seu rosto, admirada, e me movi na sua direção. Deitei a cabeça lentamente e a beijei. Pra variar, damn. E aí ela, esquecendo-se da luz do dia e das redondezas, me beijou de volta. Eu a abracei e a segurei enquanto podia. Ia tomar a maior bronca se demorasse demais, se alguém percebesse. Ah, que se dane. Ela afastou o rosto do meu, quando o beijo acabou, e me olhou como se fosse me dar uma bronca.

_Você fode a minha cabeça, sabia? – me encarou, achando graça.
_Eu?! – a olhei de volta e comecei a rir.

Se você soubesse o que faz com a minha, garota...

Objeto complicado de desejo

Pior do que ser acordada de forma não-natural por um alarme inconveniente, é ser despertada com o dito cujo tremendo aos berros na sua orelha. Ótimo, resolvi fazer o celular de travesseiro agora. Levantei e fui direto para a cozinha. Café, café, café. Dormir tão cedo assim só me deixava com mais sono que o normal e, ainda por cima, sempre me dava aquele mau humor matinal rancoroso por ter desperdiçado tempo útil de vida na noite anterior. Pra quê dormir?!

Tomei café da manhã sozinha e estranhei a ausência do Fer vagando pelo apartamento com seu samba-canção e uma cara amassada de quem não quer ir trabalhar. A gente quase sempre se cruza de manhã, porra, pensei ao voltar pelo corredor vazio para me trocar. Coloquei uma regata branca, vesti meus jeans-de-todo-santo-dia, calcei um par de All Stars surrados e caí fora.

Meu trampo estava um tédio, como sempre. Passei a manhã toda consumindo café de uma forma nada saudável, enquanto tratava um pacote imenso de imagens num programa pé-no-saco desatualizado que meu chefe insistia em manter em todos os computadores do estúdio – apesar das minhas constantes sugestões de alternativas. O almoço serviu como uma trégua de exatos sessenta minutos, antes que eu me enfiasse de novo nas tais fotos.

Incontáveis ajustes de contraste depois, quando o relógio já se aproximava das três da tarde, recebi uma mensagem da Mia, perguntando se eu estava trabalhando. Respondi meio automaticamente e deixei o celular de lado, tentando voltar o foco à tela do computador.

Sem sucesso, é claro. Ela espera mesmo que eu vá encontrar ela agora?, olhei para o telefone e aí voltei a atenção para a foto da vez, são duas e cinqüenta numa terça-feira, mano, o que mais eu estaria fazendo?! Empurrei as costas contra o encosto da cadeira e pus-me a morder inconscientemente a ponta do dedo, de leve, enquanto minha cabeça viajava no mesmo rolo de sempre. Só falta... porra, só falta eu... virar o consolo pras... tardes vazias dela. Ótimo, revirei os olhos, indignada, virei brinquedo sexual.

Peguei o maço de cigarros na mesa e meti o isqueiro no bolso, levantando para fazer uma pausa, ainda imersa nos meus pensamentos aleatórios. Subi as escadas já escolhendo o meu cigarro, prendi um deles entre os dedos e guardei o maço no bolso, pegando o isqueiro, conforme atravessava a recepção. Fiz qualquer gracinha para a japonesa ultra-bem-humorada que ficava ali, enchendo o saco dela, para variar, e ao sair pela porta da frente, dei de cara com a Mia chegando na calçada.

Quê?!

_O que você está fazendo aí? – perguntei, meio desnorteada.
_Eu... – ela me olhou, igualmente surpresa, sorrindo – ...ia lá te chamar. Espera, o que você está fazendo aqui fora?!
_É, eu... eu vim fumar – disse, mostrando o cigarro na minha mão, e o coloquei na boca – senta aí comigo – sorri para ela, com o canto da boca, enquanto o acendia.

A Mia acenou com a cabeça, concordando, e sentou no degrau da entrada do estúdio. Abraçou os joelhos dobrados à frente de seu corpo, vestindo um shortinhos jeans e uma malha fina branca de mangas compridas e decote generoso. Meu deus..., observei-a se apoiar nas pernas, conforme eu agachava ao lado do degrau, apoiada na parede, na calçada. Babando. Como eu posso ficar tão retardada... a garota acabou de chegar, mano, eu balançava a cabeça, fugindo daquela minha atração absurda por ela e olhando para a rua.

_Quer? – ofereci o maço e ela recusou com um gesto, me olhando e sorrindo; então joguei-o na minha frente, na calçada, com preguiça de colocá-lo de novo no bolso, e traguei o meu cigarro.
_Você recebeu minha mensagem ontem? – ela me perguntou, baixinho.
_Recebi, sim... – olhei para ela e sorri.
_Como você tá? – ela apoiou a lateral do rosto nos joelhos, me observando, enquanto falava.
_Bem... – eu traguei mais uma vez, meio indiferente – ...e você? Está bem? Aconteceu alguma coisa?
_Tô, sim, eu só ia... visitar o meu irmão, aqui perto...

Sei, sei.

_...e também, sei lá, eu queria ver você. Não sei. Desde sexta, na verdade.
_Hum... – eu murmurei, pensativa, conforme a ouvia.
_Eu tenho... pensado bastante... em você, sei lá. Eu só queria te ver.
_E o Fer? Você falou com ele? Anteontem?
_Quê?! – ela levantou a cabeça, sem entender.
_Com o Fer... – traguei mais uma vez e olhei para ela – ...ele não foi na sua casa no domingo?
_Foi, mas... o que isso tem a ver?
_Nada. Só tô perguntando.
_Por que?
_Falou ou não falou?!
_Nós não... Eu não deixei ele subir, a gente se falou pelo interfone só. Foi, tipo, menos de cinco minutos. Eu... eu não queria... sei lá. Ainda tô brava com ele, sabe, ele não devia ter te mandado embora da festa, eu...
_Ele não me mandou fazer nada, eu que decidi sair.
_Não interessa... ele não deveria ter começado a briga!
_E você realmente acha que nós estávamos com a razão? Que o Fer estava errado?! – eu ri, indignada – mano, o que você faria se fosse o contrário? Se você visse ele dançando agarrado com uma mina daquele jeito?
_É diferente.
_Não é diferente.
_É, sim.
_Não é, Mia. Você só não entendeu isso ainda... – eu a encarei – ...é a mesma coisa. Para mim, para o Fer... é exatamente a mesma coisa. Você e todas as outras meninas do mundo. Você que não percebe isso, fica aí achando que é... festa, manja.
_Por que você está fazendo isso?! – ela se irritou comigo.

Não consegui responder. Fiquei quieta, olhando para baixo, enquanto fumava por algum tempo. E ela, mordida, encarava a rua. Então, retomei, falando baixinho.

_Ele... as... as intenções dele... são boas. Ele gosta de você, Mia.
_E você?! – me olhou.
_Eu... não estou falando disso. O Fer...
_Olha – ela me interrompeu, brava – na boa, eu não preciso de você para me dizer o que o Fernando sente por mim, eu sei muito bem. Caso você tenha se esquecido, nós somos namorados – argumentou, já se levantando – na boa, não sei o que eu vim fazer aqui.

Ah, segundas-feiras!

O metrô estava particularmente lotado na volta para casa. E eu, lógico, estressada. Lá pela segunda estação, um cara de uns 20 e tantos anos entrou com o celular na mão, tocando qualquer merda auditiva nacional no último volume. Argh. Por que eu não saio uma horinha mais tarde..., pensei enquanto olhava a multidão das 18h-e-pouco se apertando vagão adentro, ...ou uma horinha mais cedo, né. Revirei os olhos, esmagada contra uma das paredes próximas à porta, ainda com a roupa da noite anterior e desesperada para tomar um banho assim que chegasse ao meu lar, doce lar.

_A superlotação do transporte público paulistano tem uma influência direta na minha dependência diária de nicotina... – disse ao telefone, conforme acendia um cigarro na saída do metrô Consolação – ...sério, cara, como é que eu vou parar de fumar um dia se eu continuar me locomovendo por aí com uma média de trinta pessoas por metro quadrado?!
_Espera. Você quer parar de fumar? Você?! – o Gui riu, sem dar importância ao argumento original.
_Não. Estou falando hipoteticamente.
_Ahh...
_Olha, eu preciso de um carro – continuei, irritada – não, eu preciso de helicóptero.
_E um heliporto...
_É. Na cobertura de casa – disse, tragando mais uma vez, enquanto descia a Frei Caneca – não, é sério, Gui. Eu preciso achar um jeito de ficar rica. Mas ficar, tipo, podre de rica.
_Não só você, gata...
_Eu... odeio... minha... vida.
_Não odeia, não...
_Um infeliz foi ouvindo pagode alto no trem hoje. Mano, juro: se o caminho fosse uma estação mais longe, eu teria matado o desgraçado.
_Tá. Você odeia sua vida.
_Obrigada... – o agradeci pela compreensão.
_Escuta, vamos quinta no Vegas comigo?
_Quê?!
_Quinta, agora... no Vegas...
_Gui, você não está colaborando com o meu plano de ficar rica.
_Por favor?!
_Meu, não sei por que você gosta tanto do Vegas...
_Cala a boca, você sempre adorou aquela porra! Só pegou birrinha de lá.
_É lógico que eu peguei birra!
_Faz um milhão de anos isso, vai... É do lado da sua casa, sua vagabunda. Que custa?!
_Dinheiro.
_Hum... Você prefere ser rica e sem amigos? Ou pobre, porém feliz? Hein?
_Meu, eu te odeio – resmunguei, sem argumentos.
_Combinado, então. Quinta! – concluiu contente.
_Tá, que seja. Deixa eu ir, que eu já cheguei aqui na porta da minha “mansão”... – reclamei rabugenta, jogando a bituca do cigarro entre a calçada e o começo do asfalto, e desliguei o telefone em seguida.

Subi pelo elevador e percorri o corredor no piloto automático, sequer notando os passos que eu dava. Entrei no apartamento, vazio e completamente apagado – hm, o Fernando não está... –, me dirigindo direto para o chuveiro. Larguei minhas coisas todas em cima da pia, as roupas pelo chão, e deixei a sujeira acumulada de dois dias pesados escorrer pelo ralo abaixo. Saí meia hora depois, vesti uma calcinha, uma camiseta qualquer, coloquei um par de meias e me enfiei no travesseiro. Que sono do cão, mano.

Apaguei os olhos por dois segundos – ou duas horas, sei lá – e acordei novamente com o meu celular tocando. Inferno, me levantei e caminhei de volta até o banheiro. Chegando lá, é claro, o desgraçado já não tocava mais. Apenas apontava, mudo em cima da pia, uma chamada não-atendida e duas mensagens não-lidas. Arrastei meus pés lentamente pelo corredor, retornando sonolenta ao quarto e à minha cama, enquanto lia o primeiro SMS sem muita relevância da Marina, dizendo que havia combinado de encontrar a Bia naquela noite.

Eu sabia, pensei com toda razão e me joguei mais uma vez na cama. A chamada não-atendida era dela mesma, provavelmente empolgada para me contar a notícia. Ê laiá, viu... A segunda mensagem, contudo, era bem mais interessante. E mais antiga também: estava ali há pelo menos uma hora e pouco. Não dormi tanto assim – dormi? Com a cabeça afundada no travesseiro, os meus olhos leram cansados o nome da Mia indicado no remetente e eu esbocei um sorriso. Era uma felicidade preguiçosa, sabe, mansa.

“Queria te ver esses dias... dá?”, eu li e achei graça, pouco antes de apagar de novo. Os olhos, digo; não a mensagem. E aí, com o celular nas mãos, peguei no sono sem antes responder.

dezembro 21, 2010

Boa amiga, péssima assalariada

_Você não vai, meu?! – abri os olhos, meio desnorteada, e vi as costas descobertas da Marina, atravessando a sala num jeans claro e de sutiã preto, indo em direção à cozinha enquanto falava comigo; o sol entrava insuportável pela varanda do apartamento e deixava um rastro de clarão incômodo até uma das pontas do sofá, vindo direto na minha cara...

Ô, cacete! Puta que pariu!, pulei imediatamente dali, me dando conta de que já era de manhã. Ai... Merda, merda, merda. Não só de manhã, ô desgraça maldita do caralho: era segunda-feira de manhã. Sua idiota, anta, estúpida, burra. Vesti os tênis de qualquer jeito, correndo, tentando me equilibrar em um pé só, conforme andava na mesma direção que a Marina havia ido, pensando na bronca que ia tomar por chegar atrasada após a semana mais patética de labuta da minha história como pior funcionária de lá. Eu tô fodida, pensei já arrependida de sequer ter dormido ali e terminei apressada de enfiar os cadarços para dentro, me apoiando na porta da cozinha.

_Que horas são?! – perguntei em voz alta para o vazio, sem ver a Marina por ali e nem obter resposta – ...Má?!
_Oi? – ouvi sua voz ao longe, vinda da área de serviço.
_Que horas são?! – gritei de volta, tentando arrumar o cabelo mais ou menos no reflexo do microondas e me atrapalhando para conseguir ver direito – por que você não me acordou antes, porra?! Eu preciso sair, meu. Tenho que pegar o busão até lá, demora pra caralho!
_Relaxa. Eu te levo antes de ir pra redação... – ela surgiu na porta que separava a lavanderia da cozinha, abotoando uma camisa semi-social branca com rendinhas discretas ao lado dos botões, e continuou falando tranqüila – ...são quinze pras oito.
_Nossa, Marina. Eu vou te matar, meu. Você disse que ia me acordar, cacete! – argumentei, rabugenta, enquanto me servia uma xícara de café – eu não posso me atrasar, não posso. Meu chefe já está puto porque eu fingi que tava doente semana passada, não fui trampar vários dias... e agora eles estão me enchendo de merda que nem mula de carga e eu tenho um bilhão de coisas para fazer, mano.
_Eu te chamei umas cinco vezes, ô esperta, você que não levantou – ela me olhou, indignada, achando graça.

Que seja, sua traidora. Revirei os olhos, brava, e a Marina começou a rir do meu mau-humor matinal. No fundo, era bom vê-la um pouco melhor. Na noite anterior, a conversa havia caminhado para os lados mais sujos, escuros e intensos das nossas vidas, havíamos falado de tudo. Muito além da tal Bia. Ou da Mia, no meu caso. A bad da Marina havia me contagiado, ficamos ambas numa viagem introspectiva bem pouco agradável, por horas a fio. Foi carregado. Em determinado momento, cheguei até a precisar levantar. Sair do sofá, andar pelo apartamento, e me livrar daquele peso todo.

Nunca lidei bem com conversas muito profundas – digo, realmente profundas. Talvez porque fizesse merda demais. E a Marina também não, a propósito. Gostávamos muito de conversar, mas nos conhecíamos bem demais para isso e o papo tomava rumos indesejados, acabávamos falando de qualquer memória, sentimento, que nos vinha à cabeça e entrávamos em contato com aspectos da nossa personalidade, da nossa vida, que não temos lá muito orgulho ou sequer vontade de lembrar. Era tenso – foi tenso, aliás. Todavia, uma vez que o assunto se encerrou, o sentimento que restou foi bom. Ficamos leves, aliviadas. E aí gastamos horas falando de futilidades, rimos, fofocamos, cantarolamos Gaylads junto à vitrola de vinil da Marina...

“My love, it's warmer than the sunlight
It's warmer than the breath of spring, yeah
My love, it's sweeter than the cherry tree
Oh baby, won't you come to me?”

...aí fizemos miojo, tomamos Coca e tagarelamos, a madrugada toda. Enfim, ficamos bem. E, agora, a Marina parecia muito mais feliz do que quando a encontrei, no dia anterior; parada na minha frente e se divertindo com o meu acesso de raiva sem fundamentos. Vê-la sorrir me dava uma sensação gostosa, admito, de ter cumprido a minha missão.

_Vamos?! – disse, apressada, terminando meu café de uma só vez.
_Pode acabar de se arrumar com calma... tem tempo ainda – ela ria.

Então, me rendi. Sosseguei. E aí tomamos café-da-manhã “como se deve”, já diria a Marina. Para a minha sorte, eu a havia viciado nos meus cereais favoritos enquanto ainda estávamos juntas e a mania felizmente perdurou pelos anos seguintes. Satisfeitas, terminamos nossas tigelas minutos depois, lavamos a louça, eu fui ao banheiro e então ela me deu carona até o estúdio – que, por ser no mesmo bairro, não era tão longe assim. Não fosse o trânsito paulistano, isto é.

_Bom trabalho, viu... – ela me abraçou, antes que eu saísse do carro, e me agradeceu pela noite anterior, de bom humor – ...obrigada por me resgatar ontem.
_Você é minha garota favorita. Sabia disso, né? – eu disse, já a desabraçando, e olhei para ela, sorrindo.
_Ai. “Você diz isso para todas...” – ela brincou.
_Vai à merda, Marina... – eu ri, enquanto ela me mostrava a língua, e desci do carro, me apoiando na janela aberta da porta, agora já fechada novamente – ...ei, e valeu pela carona, bobona!

No fim, cheguei dez minutos adiantada, é óbvio, né. Tempo suficiente para um cigarro. Puta, mano, que fim de semana interminável.

dezembro 16, 2010

Please, stay.

A Marina deixou o pano semi-molhado sobre o balcão e esticou-se para colocar a caneca numa das prateleiras de cima dos armarinhos. Eu observava, conforme a sua regata deslizava pela sua cintura, achando-a deslumbrante. Essa Bia te fez bem, pensei em silêncio, sem querer admitir. Em seguida, ela fechou a portinha de vidro e depois se juntou a mim, sentando-se ao meu lado na pia. Segurei a sua mão e encaramos a parede por uns segundos, com os pés suspensos no ar, a trinta centímetros do chão.

_Ei, deixa eu te perguntar uma coisa... – pedi, como quem não quer nada, e a Marina me olhou – ...você... você dormiu com a Lê, meu?
_Como você sabe disso?! – ela arregalou os olhos, surpresa.
_Por que?! Não era para eu saber? – eu ri.
_Não, sei lá, não tem problema, só... não achei que você sabia.

Ela deu de ombros, fingindo não ter importância, e eu não consegui prosseguir. Ficamos quietas por um instante. Reajeitei meus dedos entre os dela, encarando-os, e ela apoiou a sua outra mão na pia. Olhei de novo para ela e insisti, meio desconfortável.

_Por que você não me contou? – continuei, baixinho.
_A gente não estava se falando na época, sei lá, faz tanto tempo. Quase três anos já, acho – respondeu, encabulada.
_Mas... tipo... rolou alguma coisa entre vocês?! – murmurei.
_Não, acho que... foi mais porque, sei lá, nós duas estávamos sozinhas e... não sei. Para matar a curiosidade, talvez, sei lá. Não sei.
_Então foi só uma vez? – perguntei, hesitante.
_Por que você quer saber isso, meu?! – ela levantou o tom de voz, indignada, e riu.
_Não sei, porra, tô só perguntando... – argumentei, querendo que me respondesse logo.
_Não, foram duas vezes. Pronto. Tá bom assim? Satisfeita? – ela falou comigo como se estivesse dando bronca em uma criança de dois anos – agora chega, vai.
_Por que você tá brava, meu? – achei graça.
_Porque eu não gosto de falar dessas coisas com você... – ela disse, irritadinha, e ajeitou os óculos pretinhos rapidamente, jogando a franja longa demais para o lado – ...e eu não estou brava.
_Não, imagine... – ironizei, rindo – e, nada a ver, Má... eu vivo te contando das meninas com quem eu dormi, meu, qual é o problema?!
_Isso é diferente. É sua amiga, sou eu, é você, o clima naquela época era outro... – ela listou, fazendo a sua cara de gênio incompreendido, soando mais com a Marina que eu conhecia.
_Tá bom, tá bom... – me rendi, ainda rindo – ô, que horas será que são?
_Não sei... – ela se apoiou levemente para cima de mim e tirou o celular do bolso de trás da calça, olhando-o na mão direita – são... 22:14.
_Nossa, meu, achei que fosse mais tarde já – comentei distraída, com vontade de acender um cigarro, e não ouvi resposta; olhei para o lado, tirando o cabelo do rosto, e a Marina continuava olhando para o celular, com uma mão na minha e o telefone na outra; o seu olhar estava longe, eu estranhei; os segundos passaram e o silêncio cresceu, incômodo, ela parecia chateada – ...Má?
_...
_Ei... – perguntei, baixinho, apoiando minha mão livre sob a dela, que segurava o aparelho – ...tudo bem?
_Ela não... me ligou, não mandou nada.
_Ela vai ligar – cochichei – às vezes, ela só precisa de um tempo...

Não me respondeu. Continuou olhando para o telefone, enquanto minhas mãos a confortavam; sem dizer nada. Eu a observava, sentindo-a mais triste do que antes, curvada e sem expressão, abatida. De repente, endireitou o corpo e respirou fundo, soltando o ar com os olhos sutilmente fechados e o queixo erguido. Quando os abriu novamente, olhando para a parede e reajeitando a posição do rosto, percebi que estavam marejados, se segurando para não chorar. Caralho, viu..., eu odiava ver a Marina magoada daquele jeito, ainda mais por causa de uma garota estúpida como aquela.

Por que diabos eu fui perguntar as horas?! Imbecil.

A abracei, num impulso quase automático, e ela resistiu, como se não quisesse carinho. Logo, porém, me deixou segurá-la e eu a sentia cada vez mais triste perto de mim. Afundou o rosto no meu ombro, me abraçando de volta pela cintura, e permaneceu quieta, cabeça-dura e orgulhosa como era. Mas eu percebia que estava chorando, sim, pela forma como respirava e se movia sob as minhas mãos. Sentia também, porque a umidade aos poucos atravessava a minha blusa, no meu ombro. E me apertava o coração, droga.

_Não fica assim, linda... – eu beijei a sua cabeça, passando a mão pelo seu cabelo, pelas suas costas, e ela continuou, mas me apertando, quieta.

Cerveja não sobe, só desce

Por um instante, esqueci onde estava. Reabri os olhos, como se só os tivesse fechado por dez segundos, e o apartamento continuava exatamente como o havíamos deixado. As luzes acesas e o resto intacto, imóvel. O meu braço estava preso, entre o encosto do sofá e o cabelo semi-preso da Marina, que dormia com a cabeça apoiada no meu ombro direito. A sua mão descansava a poucos centímetros do meu umbigo, acima dele, e eu movi os olhos discretamente, na tentativa de me localizar no cômodo sem acordá-la.

O chá restava quase terminado sobre o tapete da sala, perigando ser derrubado da caneca assim que a Marina levantasse. Mas que horas são?, tentei esticar a visão até o meu celular, apoiado em cima da mesa de canto, onde nossas pernas se emparelhavam largadas, uma ao lado da outra, e sonolentas. Nada, não dava para ver. Que inferno, suspirei. Dei mais uma olhada em volta e percebi que não conseguia, de fato, me mexer. Tentei ensaiar uma escorregada discreta para a esquerda, sem sucesso. Ótimo. Lá vou eu chegar atrasada amanhã, de novo.

E quando eu achava que não poderia piorar, subitamente, senti todas as latinhas de cerveja ingeridas previamente naquela tarde latejarem na minha bexiga. Merda, mil vezes merda. Agora era inevitável: motivo de força maior, a Marina que me desculpe. Retirei o braço do jeito menos impactante possível, apoiando a sua cabeça delicadamente no sofá e caí fora assim que me vi livre. Corri para o banheiro, isto é.

Ufa.

Quando voltei, tudo estava igual – exceto pelo sofá. Cadê a Marina? Andei, curiosa, até a cozinha e apoiei-me no batente. Ela estava lá, em pé frente a pia, meio descabelada e com a mesma cara de cansada, mas ainda bonita; lavando a caneca do chá, óbvio, naquela sua necessidade de não deixar nada para depois. Achei graça. Olhei em volta e notei que o apartamento continuava vazio.

_Sua irmã não está aí? – perguntei.
_Ah, ela quase não fica aí de fim de semana – respondeu, sem tirar os olhos da água.
_Engraçado, né. Quando a gente estava juntas, ela insistia em aparecer toda santa vez... ô inferno! – eu ri, indo lentamente na sua direção, e sentei-me na pia, ao seu lado – mas agora que não tem mais perigo, ela nunca está aí, né!
_Ela arranjou um namorado... faz um ano, mais ou menos – explicou, com o humor um pouco melhor, enxugando a caneca limpa com um pano – aí fica o tempo todo lá, só de dia de semana que não.
_É sempre assim... – comentei indiferente, apoiada na beirada, e aí olhei para o lado, curiosa – ...e ela ainda me odeia?
_Odeia... – a Marina ensaiou um sorriso, achando graça.

dezembro 15, 2010

Conforto antigo

Salas de espera de prédio são sempre desconfortáveis – seja por culpa das cadeiras ou do silêncio irritante que as habita. E lá estava eu, sozinha, sentada há mais de vinte minutos numa. Me tornando progressivamente impaciente. Domingos eram um inferno em São Paulo, aquele “nada” todo e aquela calmaria que contaminavam os muros pichados e as paredes de concreto não combinavam em porra nenhuma com a cidade. Ah, que se foda, tirei o maço do bolso e acendi um cigarro, já inquieta, encarando propositalmente o aviso de não fumar estampado na parede daquela recepção vazia aporrinhadora do caralho.

E como Murphy jamais falha, é claro, logo no minuto seguinte a Marina saiu do elevador e fez a cara mais feia do mundo para mim ao me ver ali, desrespeitando a ordem pública. Apaguei o cigarro imediatamente nas pedrinhas de um vaso que jazia ao meu lado – com toda a boa intenção do mundo, juro – e tudo que conquistei foi mais um olhar reprovador à distância. Droga, sorri sem graça e recolhi a bituca com a mão, cuidadosamente, para jogá-la no lixo.

A Marina parecia melhor, mais calma, recomposta. Contudo, o seu olhar estava nitidamente cansado e ela andava como se tentasse esconder um certo desânimo. Te conheço, garota, olhei-a vir na minha direção, conforme me livrava do cigarro amassado e a admirava a alguns passos dali. Notei como o jeans contornava sua calça, imprestável como eu era; as suas curvas naquela regata branca; a forma como o seu cabelo se soltava de uma trança mal-feita, caída sobre o seu ombro direito; mas principalmente a expressão que se escondia por trás daqueles óculos pretinhos dela. A tristeza que há pouco ela havia esquecido, deixado de lado. Mas que estava lá, ah, estava.

_Ei, como você está? – perguntei baixinho no seu ouvido, conforme a abraçava e ela me segurava de volta demoradamente.

Não disse nada. Por segundos a fio só nos abraçamos, apertadas, de um jeito reconfortante mesmo para mim – que nada tinha para ser reconfortado, não naquele momento. Acho que, no fundo, quem te conhece há tempo demais faz sentido na sua vida, sei lá. Até que se soltou de mim, de repente, e murmurou um “vamos pra casa” que soava cotidiano, talvez até demais dadas as circunstâncias. Agindo como se ainda estivesse no trabalho, não sei, dando uma de “eu estou bem”. Não tem ninguém no prédio, Marina, olhei-a pegar as chaves na bolsa e seguir na frente para a portaria, naquele piloto automático emocional pós-horas de choro dela.

A Marina sempre foi muito sensata, muito racional, raramente desabava daquele jeito e eu sabia que ela não devia estar muito satisfeita consigo mesma por ter desmoronado ao telefone. “Algumas garotas fazem isso com a gente e tudo bem”, eu queria lhe dizer. Contudo, não dizia nada. Caminhamos quietas pela rua e eu a observava, preocupada, querendo garantir-lhe que não tinha problema, que ninguém pensaria menos dela por isso. Nada. Não queria conversar. Ou não ainda, pelo menos. Você é cabeça-dura, pensei. Mas a verdade é que a Marina era mais madura de nós duas, ali, andando na calçada.

Enfim, em seu apartamento, jogou a bolsa no sofá e foi até a cozinha preparar um chá. Perguntou se eu queria e disse que não, então dirigiu-se para lá sozinha e voltou poucos minutos depois. O cômodo permanecia em perfeito silêncio. Sentou-se ao meu lado, afundando-se contra o encosto e segurando a caneca cheia com ambas as mãos. Suspirou. Ainda quieta, deixou o olhar e o pensamento irem longe, encarando a fumaça que saía do chá, sem dizer nada... por o que me pareceu uma eternidade.

Tá bom, então. E coloquei os pés apoiados contra a sua mesinha de centro, afundando-me também ao seu lado, e lá fiquei, enquanto a minha mente ociosa inevitavelmente encontrava o seu caminho até a Mia. Ah, a Mia. Um movimento da Marina, no entanto, e o meu foco voltou num piscar de olhos para a sala. Era a caneca, na verdade, que agora se movia lentamente até a sua boca para ganhar um sopro automático e um gole.

Olhei-a se mexer, ali, sem vontade alguma de existir e cansada. Voltou a caneca novamente sobre as pernas, agora só com uma das mãos segurando-a pela aba, e deslizei a minha mão até encontrar a sua outra, entrelaçando-se nos seus dedos e tentando confortá-la. Ela notou, sem dizer nada, e encarei nossas mãos junto a ela por alguns instantes quietos.

_É um saco, né?! – ela me olhou, perguntando, meio chateada.
_Sempre é – disse – mas sempre passa, Má.

Tendência à estupidez

A Consolação estava absolutamente parada. Nenhum automóvel andava e o Fer começou a ficar nervoso com aquele trânsito improvável num domingo à noite. Aí repetiu mil vezes, paranóico, que devia ter uma droga de uma blitz imaginária mais para frente ali na Av. Dr. Arnaldo e que ele ia, porque ia, perder a carteira. “Relaxa, porra!”, eu me irritava com ele, bêbada, e nós dois discutíamos amigavelmente (ou quase...) a um tom mais alto do que o rádio barulhento do carro até que eu o convenci a ir por dentro do bairro.

_Tá. Mas o que rolou com a Marina, afinal de contas? – perguntou, agora já mais calmo, conforme entramos numa rota alternativa segura.
_Ah, mano... Uma filha-da-puta imbecil terminou com ela – acendi um cigarro, revoltada, e abri a janela para deixar a fumaça sair.
_É, isso deu pra sacar pela conversa... mas elas tavam namorando?
_Não, mas é como se fosse já... – disse e dei um trago.
_Ahn. Achei que você que estivesse com ela... – ele riu.
_Fer, cala a boca, claro que não. É a Marina, porra!
_Ué, e daí?!
_E daí que... que não, oras. Eu não pego a Marina.
_Ah, vai saber... vez ou outra a Rô aparece lá em casa, vem a Lê "visitar".
_Eu não peguei a Lê... – repeti, tragando novamente, já cansada da milésima insinuação a respeito só naquele fim de semana – ...e com a Roberta eu nunca namorei. Eu só, tipo, pego ela de vez em quando. Não tem nada a ver com o meu lance e da Má.
_Sei... – ele riu – ...mas, e aí? O que você vai fazer lá com ela?
_Conversar, sei lá, tentar animar ela um pouco. Não sei... Na real, queria que ela me desse o endereço dessa garota aí para eu ir lá bater um papo com ela – ironizei, nervosa.
_Bater um papo ou só bater? – ele continuou rindo, achando graça.
_Nossa, se eu pego essa vadia... juro, não sobra nada.
_Violência, garota, não resolve naaada – me provocou.
_Falou o que sempre resolve tudo com palavras, né... – eu ri da absurdíssima cara-de-pau do meu melhor amigo – ...e fora que a minha intenção não é resolver essa porra. É só dar umas na cara daquela vagabunda. O que eu preciso resolver é a cabeça da Marina, isso sim; a outra que se dane... podia morrer que não ia fazer falta.
_Ihh, já tô até vendo os coxinhas me acordando três da matina pra te buscar na DP com um olho roxo... – ele se divertia comigo.
_Você acha, meu... a Má nunca ia me passar o endereço da garota – eu ri – ela não é tão idiota. Nem tão vingativa assim. Fora que, né, vai saber por que motivo, mas ela gosta da menina... ela tá mó mal lá, não vou ir e piorar tudo, né. Ah! E outra coisa, viu... – traguei mais uma vez, orgulhosa – ...quem ia estar com o olho roxo não ia ser eu.
_Ah, disso eu não duvido... – riu.

Ok, admito. A idéia, mesmo que improvável, de colocar aquela anta sem tamanho que havia feito a Marina chorar em seu lugar, de fato, me entretia. Mina escrota, pensei, vingativa. E, então, notei que estávamos perto. Guiei o Fer pelos quarteirões seguintes, tentando acertar o caminho, enquanto as vias de mão única não colaboravam com a minha memória de mera pedestre. Após duas ou três viravoltas, meio-perdidos, enfim acertamos a droga da rua.

Desci do carro e o Fer me desejou boa sorte em ir consolá-la. Não posso te desejar boa sorte de volta, encarei-o com a porta ainda nas mãos, com certo peso no coração, em pé do lado de fora. No fundo, eu não queria que a Mia visse o Fer. Não queria que ficasse tudo bem e que ela desse bola para o seu ato bêbado de ir lá acertar as contas com ela. Não queria e me sentia um lixo por isso.

Ótimo, eu sou a pior amiga do mundo, pensei e revirei os olhos, conforme batia a porta do carro, com raiva de mim mesma. Me virei e apaguei a bituca do cigarro no asfalto, caminhando até a porta do prédio onde localizava-se a redação na qual a Marina trabalhava.

dezembro 12, 2010

UM ANO ♥

“Parabéns pra você... Nesta data querida...
Muitas felicidades... Muitos anos de vida!”

Sim, o blog fez aniversário. 

Como alguns de vocês já comentaram, neste domingo (12), o Fucking Mia completou um ano no ar! E o que começou sem alarde, como uma brincadeira, hoje tem centenas de acessos diários e leitoras(es) fiéis – e que, meu, são todas(os) umas lindas(os). Sério, eu não poderia estar mais feliz e orgulhosa por todo esse trabalho e o que recebi em troca de vocês. Acho que o blog cresceu, amadureceu (espero). Contudo, acredito que ele ainda esteja beeem longe da meia-idade e mais ainda da aposentaria – don’t worry! ;P

Ok, trocadilhos infames de lado... Fato é: eu só faço uma parte, a outra quem faz são vocês – e foda-se se isso vai soar clichê, porque é a mais pura verdade e eu sou brega mesmo, tá, não ligo. Não tenho nem como agradecer. Por tudo, pelos acessos de todo-santo-dia, os papos no Twitter, comentários divertidíssimos no blog, o povo que sempre acompanha, que vem falar comigo na balada, gente que se tornou amigo mesmo, o pessoal que lê o Oh Baby Coffee também, pelos elogios, pelas sugestões, pela divulgação que tanta gente faz sem ganhar nada em troca. 

Porra, cara, vocês são demais. Mesmo. Se não fosse isso, acho que já teria perdido o sentido. Então: obrigada, obrigada. :)

Espero que o tempo de vida do blog atinja os dois aninhos (quem sabe?). Ainda tenho muita coisa planejada e já devem ter reparado que uma “leve” obsessão com detalhes faz com que o decorrer do blog caminhe lentamente, hehe. Então, acho que chegaremos lá! Com muitos barracos, sexo, drogas e rock n’ roll no meio do caminho, pra variar. Ah! E não posso deixar de agradecer também (e imensamente) à minha amiga Noelly Castro que, entre outras coisas, me ajudou com a aprovação de comentários por alguns meses, com o HTML do blog e com a divulgação, sempre.

Aliás, obrigada a todo mundo, de novo.
E, né... Happy b-day, Fucking Mia.

Mel M.


ps. esse post foi escrito numa madrugada póstuma, fim de terça-feira (14), mas postado na data correta. Não estranhem o seu surgimento repentino aqui.

dezembro 06, 2010

A tal ex da minha ex

_Meu, o que aconteceu?! – liguei imediatamente para ela, saindo da sala.
_Achei que você não fosse retornar... – ela disse baixinho, desanimada – ...geralmente é você que precisa de ajuda, né.
_Claro que ia, Má. Desculpa, só vi agora, meu. Eu tava... com... o Fer... aqui... – me atrapalhei um pouco na explicação, sem querer dizer que a havia trocado por sete partidas de videogame – ...vai, me conta.
_Ela terminou comigo.
_Quem terminou?
_A Bia. Ela... – sua voz hesitou e eu senti vontade de abraçá-la na mesma hora – ...a gente estava tão bem, poxa... Foi uma briga tão idiota.
_Mas brigaram por quê? Ela não ia passar o fim de semana aí, meu?
_Ela veio... foi... foi ótimo. Ai... – ela suspirou, soando realmente chateada – ...eu gosto tanto dela, meu. Não é justo. Ela... ela acha... – a Marina choramingou, ainda contida – ...ela acha que... que eu gosto de você, meu, e que... eu... não estou...
_De mim?! Mas de onde essa garota tirou isso?!?
_Foi... foi um... um negócio que eu falei... sexta... eu comentei que... que você queria que eu... te ajudasse... mas... mas eu contei a história... da... da Mia... eu não sei porque ela acha que... – continuou, com a voz ainda trêmula – ...ela... ela disse que... eu não estou... comprometida com o que a gente tem... e que... que a gente... que ela... ela... precisa estar... com... com alguém... melhor... – ela começou a chorar – ...melhor do que eu... e... e que... que eu não sou... o que ela... precisa... na vida dela... agora.

Vadia. A simples idéia de alguma garota partindo o coração da Marina já me subia à cabeça e me tirava do sério, digo, pra valer. Mas imaginá-la chorando era uma das poucas coisas no mundo que eu não podia suportar. Eu quis matar a desgraçada da Bia na mesma hora. Ahh, vadia.

_Como assim alguém “melhor”?! Você que precisa de alguém melhor do que ela, meu! Que filha-da-puta! Ela não pode estar falando sério, Má... você é a pessoa mais incrível que eu conheço. Se ela achar uma garota que vale um centésimo do que você é, eu... eu... nossa, mano. É impossível isso! Ela só pode estar chapada, não dá pra acreditar que alguém realmente terminasse com você. Você é maravilhosa, meu... e inteligente... e divertida. Não, pára, não faz o menor sentido o que essa vagabunda está falando, esquece isso.
_É, sou “maravilhosa”, mas todo mundo sempre termina comigo... o tempo todo... toda santa vez... – ela pôs-se novamente a chorar – ...poxa, e eu tento... tanto... e eu... digo, como você pode dizer isso se nem você ficou comigo?!
_Não fiquei porque eu sou uma completa idiota! Má, pelo amor de deus, você sabe disso. Eu sou uma babaca sem fim, não foi por sua causa! A gente... eu e você... tudo aquilo... foi culpa minha, só minha. Você era puta namorada perfeita, meu.
_...e mesmo assim você dormiu com metade da torcida do Flamengo!
_Mas porque sou eu e... eu era uma imbecil naquela época – não podia me conformar que a Marina realmente pensasse, nem por um segundo, que tinha qualquer parcela de culpa num erro tão burro e antigo meu.
_Tá. Você era. Você era mesmo. Mas as pessoas mudam, elas sempre mudam. Até você mudou!
_Mas só porque eu tive você do lado, meu! Larga mão de ser besta, Marina, você é minha salvação, porra. Você sabe disso. Eu era uma pirralha quando namorei contigo, mano, essa garota aí já deveria saber melhor... não é comparável! – me exaltei e o Fer passou ao meu lado no corredor, oferecendo um gole da caipiríssima, que eu aceitei; depois tornei a falar – espera, essa babaca não te traiu, né?
_Não foi isso... Foi... Foi a mesma história de sempre. Às vezes eu penso, porra, não tem uma garota no mundo que me ache... suficiente? Que... que... sei lá, que goste mesmo de mim... – ela se chateou.
_Má, por favor... não pensa assim. Não é verdade.
_Eu... eu não sei o que eu estou fazendo de errado, a gente... a gente estava indo tão bem, sabe. A gente gostava das mesmas coisas, eu... eu cozinhei pra ela no sábado... a gente passou o dia juntas... aí eu... eu aluguei uns filmes... que... ela... queria ver... eu... fiz tudo... achei que... que ela ia... sabe... ficar sério comigo... que a gente ia... conversar... e eu queria... queria pedir ela... e eu... até tinha... planejado... com uns... sabe... post-its... ia... pedir ela em... namoro... na parede do quarto... – meu deus, como a Marina é fofa – mas... mas aí... aí hoje... do nada...
_Má, você não fez nada de errado. Meu, me escuta, sério: você não fez nada de errado – o Fer passou novamente na minha frente com a chave do carro em mãos, indicando que ia sair, e o segurei pelo braço sem explicar – essa menina é louca!
_Só que você não entende, pô?! Eu estava gostando dela, cacete! – ela levantou o tom de voz e tornou a chorar – gostando mesmo, meu... de verdade.
_Má, pára com isso... não fica assim, meu – eu me fragilizava cada vez mais com a tristeza dela ao telefone e o Fer me olhava sem entender – onde você está?
_Na redação, eu... eu vim faz umas três horas, terminar uma matéria, mas... mas não consegui – ela suspirava, sem fôlego.
_Como na redação? Essa menina terminou com você por onde? Por telefone??
_Por MSN... – respondeu, baixinho.
_Filha-da-mãe! – me indignei, largando do Fer e já pegando as minhas chaves e a carteira na mesa.
_Ai, meu... foi tão... tão... horrível. Ela nem me deu chance de... de explicar... e saiu. E eu tentei ligar, mas... mas ela não me atendeu... eu não sei porque ela... está tão... brava. Ela criou uma paranóia de que... de que a gente... sabe? Só porque te mando mensagem o tempo todo... e o lance de sexta... mas... mas eu disse “não” pra você! Disse que não ia! E aí ela... ela disse que não sentia que... que eu gostava dela do mesmo jeito... e foi... ai... tão cruel comigo. E eu tentei explicar... sabe... tentei mostrar... que... gostava mesmo... dela... você sabe que eu gosto de... me explicar... e de falar... mas ela... não me ouviu... e é tão... argh, frustrante!
_Má, essa garota é uma ridícula – argumentei, fazendo sinal para o Fer me esperar.
_Ai, meu, mas...
_Tá. Eu sei. Olha, se você quiser a gente tenta alguma coisa, eu te ajudo. Mas você precisa se acalmar! Você não é assim, meu... você nunca foi.

Mentira. Eu sabia que era. Sabia porque já tinha feito a Marina chorar bem mais de uma vez e não me orgulhava nem um pouco disso. Já a tinha visto naquele estado e, meu, aquilo acabava comigo. Mais ainda se, depois de tantos anos, aquela desgraçada paranóica ainda tivesse dado um jeito de me botar no time das culpadas. Filha-da-puta. Minha vontade era de pegar um táxi até a casa daquela vadia e esclarecer as coisas do meu “jeito”. Argh, que ódio.

_Faz o seguinte: lava o rosto e toma uma água. Tenta escrever a sua matéria, desce no estacionamento para tomar um ar, não fica pensando nisso que agora já passou... a gente vai consertar, eu prometo. Mas fica aí, meu... eu já tô indo.

Desliguei o telefone, puta da vida, e perguntei para o Fer onde ele estava indo. “Na casa da Mia”, ele disse, meio bêbado, e explicou que ia tentar falar com ela. Ótimo, era tudo que eu não precisava saber. Contudo, a minha vontade de matar uma tal de Beatriz, naquele momento, falava mais forte. Não podia deixar a Marina na mão, não ela.

_Me leva lá Marina, meu?
_Ah, mano... a casa da Marina é pra lá da Heitor Penteado! – reclamou.
_Que tem, meu? Aqui do lado!
_Mas a casa da Mia é pro outro lado da Paulista... e, porra, já bebi um monte também. Lá na Dr. Arnaldo sempre tem blitz, você sabe disso, meu.

Não, não sei. Porque eu ando de metrô, seu motorista egoísta.

_Fer, a gente vai por dentro... e nem é tão longe, juro, a gente vai parar antes. O trampo dela fica umas cinco quadras de lá. Que que custa, meu? Vai... por favor, por favor!
_Tá, que se dane – ele sacudiu a cabeça, como se não quisesse pensar responsavelmente a respeito – já pegou suas coisas?
_Já.
_Vamos nessa, então.

Orgulho nerd

As horas passaram voando. E as não muitas cervejas existentes no apartamento desceram todas garganta abaixo. Isto é, enquanto eu humilhava o meu pobre melhor amigo repetidas vezes na corrida – o que na verdade, deixando meu ego de lado, contabilizou pouco mais de metade das disputas. Ainda assim, uma vitória indiscutível... pensei, orgulhosa de mim mesma, ao levantar para ver se achava mais alguma garrafa escondida na nossa geladeira.

_Acabou mesmo, meu! – gritei, ao abrir a porta das últimas esperanças.
_Tô com puta sede, mano... não tem nada?! – ele berrou de volta, da sala.
_Vejamos, vejamos... – murmurei para mim mesma e olhei sem querer para aquela Bacardi, ali, toda inocente num canto esquecido, com o vidro embaçado por descansar tanto tempo assim no frio.

Oh yes, baby.

Em seguida, já animada com a minha escolha – num nível totalmente alcoólatra de empolgação –, comecei a vasculhar nossa cesta mal-freqüentada de frutas. Sem sucesso. Então, busquei na gaveta de verduras. Nada mesmo de limões. Inferno. Quando estava prestes a desistir, localizei-os escondidos no lugar onde supostamente deveriam estar nossos ovos. Cinco deles... e meio. Vai ter que ser o suficiente, calculei, empilhando-os na mão enquanto alcançava o açúcar.

Há tempos não fazia uma caipiríssima... e as minhas eram das boas. Fazia tempo, aliás, que não bebia outra coisa senão loiras enlatadas e doses destiladas puras enquanto estava em casa. Estou ficando preguiçosa..., concluí com certa auto-desaprovação. Por outro lado, aquilo também era um nítido reflexo de uma considerável redução no meu tempo gasto junto com o Fer naquele apartamento. Nos últimos meses, graças à minha péssima sorte amorosa e à garota em que meu coração resolveu encanar, passávamos cada vez menos dias como aquele. Como aquela tarde, aliás.

E tão logo a minha linha de pensamento cruzou as redondezas do nome da Mia, me lembrei subitamente da sua mensagem mais cedo no almoço. Merda, mil vezes merda, pus-me a xingar mentalmente, com as mãos imobilizadas por toda aquela sujeira de limão-com-açúcar-e-rum, assim que me dei conta que o celular permanecera desligado aquele tempo todo. Saco. Já eram quase sete da noite e o céu escurecia à minha frente, pelas frestas do vitrô da cozinha.

Acelerei o processo, concluindo a minha panela de caipiríssima. Lotei-a de gelo, lavei minhas mãos em seguida e tratei de ligar meu celular, dirigindo-me de volta para a sala enquanto ele reiniciava. Sentei novamente no sofá, deixando a panela gelada na mesinha de centro e o celular ao meu lado numa almofada. O Fer havia tirado a camisa e aceso um cigarro – do qual eu me aproveitei, claro.

_Porra, cê fez caipirinha, mano... – ele notou, contente.
_E você mudou o jogo, seu bocó?! – olhei a tela da TV, desapontada.
_Ah, meu, faz horas que a gente tá jogando o mesmo... vamos trocar, né.
_Mau-perdedor – apontei, dando de ombros, e peguei a panela para beber meus primeiros goles.
_Escolhe um aí, então... – me cutucou com cotovelo e roubou a panela das minhas mãos.

Para o seu azar, eu... claro... escolhi. E iniciou-se uma seqüência de batalhas, dois terços das quais eu obviamente venci. Quando a panela atingiu sua metade, porém, nós dois já estávamos no quarto jogo eleito, dessa vez pelo Fer, e eu me encontrava numa onda de má-sorte mais do que infeliz, perdendo de lavada para aquele maldito e culpando o álcool por isso, óbvio.

Só então percebi, numa olhada breve de canto de olho para o lado da minha perna, onde o celular estava, que eu tinha uma mensagem não lida. Não da Mia, droga. Observei melhor o nome abaixo da notificação. Ah, a Marina pode esperar, pensei ao ler seu nome ali, embebedada no meu orgulho, só mais uma rodada. O que obviamente virou duas, três, quatro... ou sete, para ser mais precisa, até que eu enfim vencesse o Fer.

Toma, desgraçado!

Deixei o controle descansar no meu colo, satisfeita com a minha vitória, enquanto o Fer acendia mais um cigarro e me jurava vingança. Peguei o celular para ler a mensagem e troquei mais umas duas ou três provocações bêbadas com o meu melhor amigo enquanto segurava-o nas mãos, rindo. Contudo, quando li a tal mensagem, percebi já com certo arrependimento que talvez ela não pudesse, de fato, esperar. A Marina estava mal. Merda.

Azia e videogame

Cheguei em casa, cansada, às três. A tarde havia se prolongado tão lenta e tediosa quanto uma ultrapassagem de caminhões na Fernão Dias... ou seja, um saco. Acontece que enquanto o meu velho não decidia levantar-se daquela cadeira, ficávamos todos à mesa e eu me lembrei do porquê de não ser fã de almoços em família. Haja blá blá blá..., lamentei, conforme jogava o meu corpo enfadado no sofá. Fiquei em silêncio por alguns segundos, aliviada, largada de um jeito nada bonito ao lado do Fer, escutando os seus dedos movendo-se rapidamente entre as teclas do controle do videogame.

_Foi divertido? – ele me olhou, sacana, após algum tempo.
_Ô! – fiz um sinal de “jóia” para ele, sarcástica, e ele riu – nossa, ainda bem que isso só acontece a cada seis, sete meses.
_Eles são seus pais, meu... – ele disse, sem tirar os olhos da TV – ...dá uma trégua.
_Acho que se um dia eu for obrigada a morar com a minha mãe de novo, eu me suicido. Ou ela me mata de dor de cabeça antes, sabe, entrando enxerida pelos meus ouvidos. Tô falando sério!
_Ah, cara... eu gosto deles.
_Puxa-saco! – dei-lhe um soco de brincadeira no braço, sentando-me ao seu lado, e observei o que ele estava jogando – ô, deixa eu correr?
_Toma aí – ele me passou o segundo controle, que estava no sofá, e seguiu sem pausar – deixa só eu terminar essa, falta uma volta.
_E a Lê? Foi embora?
_Foi. Depois que você saiu – respondeu, concentrado.
_Hm. E você foi onde ontem?
_...
_Fer?
_Filho-da-puta! – jogou o controle no sofá, enquanto a televisão indicava o seu segundo lugar na corrida, depois apoiou-se derrotado no encosto mais uma vez e me olhou – ...o que você disse?
_O rolê de ontem...
_Ah, fui com os moleques no pub aí da... caralho, como chama mesmo?! O que tem sinuca, mano, sabe? Onde o Felipe tocou uma vez... Ali, na... na Itu, manja? O... – ele seguiu, tentando lembrar, e eu o olhava de volta sem nenhuma sugestão em mente – ...o O’Malley’s!
_Ah, tô ligada... – disse, distraída, selecionando a opção de dois jogadores – ...hm, e a Mia, não foi?!
_Nada, meu, tá me dando o maior gelo... – selecionamos os mesmos carros de sempre, rapidamente – ...desde sexta, mano... Disse que só vai me ver quando meu nível de testosterona baixar... – a corrida começou – ...ela tá toda puta comigo ainda.

É. Comigo, por outro lado...

_Pô, que bad, hein – comentei, enquanto o ultrapassava.
_Ah, daqui a pouco ela tá batendo aí de novo... a Mia é cheia dessas. Faz greve por uma semana e depois fica toda...
_Sai da minha frente, seu merda! – gritei com a TV, de repente, interrompendo-o antes que me desse qualquer detalhe desnecessário da vida sexual deles.

O Almoço

Quando faltavam onze minutos para a uma da tarde, a Mia me escreveu. Li a mensagem com as mãos e o celular embaixo da mesa, enquanto almoçava com meus pais, e achei graça. “Sua amiga causou um caos entre minhas amigas, rs. Estamos falando de 6ª aqui, qria poder contar de vc... :’)”. Ao mesmo tempo, minha mãe tagarelava incessantemente sobre qualquer assunto do qual esqueci dois segundos após o fim da conversa. Irrelevante. “Eh, com meus pais foi a msm coisa...”, digitei discretamente de volta e enviei.

_Espero que você não esteja mexendo nesse seu celular, mocinha! – ouvi a voz de reprovação da minha mãe sobre a mesa e levantei os olhos novamente para ela, que me encarava como se eu tivesse cinco anos de idade.

Sorri, sem graça, desligando-o na mesma hora, e coloquei o aparelho já apagado ao lado dos meus talhares abandonados. Culpada, admito. É que alguns hábitos são difíceis de mudar – e esse, segundo a minha família, é o meu pior. Ou um forte candidato a. A minha sorte é que eu passei a minha adolescência vomitando, bêbada, nos lugares menos apropriados possíveis do nosso lar; falando sempre em tom e linguajar inapropriado para as mais diversas ocasiões; rendendo telefonemas nada agradáveis, arranjando problemas na escola ou fora dela também; tendo brigas amorosas escandalosas em plena madrugada; e, aos 17 anos, ainda contei de forma não muito bem-sucedida que todas elas foram com indivíduos do sexo feminino... o que, evidentemente, tornou minha compulsão por telefones celulares ligeiramente insignificante nas pautas das reuniões familiares.

_E a casa? – meu pai perguntou, mudando de assunto.
_Ah... tá lá. Sei lá.
_“Está lá”? – minha mãe me ironizou.
_Vocês estão precisando de alguma coisa? – ele prosseguiu.
_Não, acho que não... não sei... – me pus a pensar, brevemente – ...a gente tem tudo, eu acho. Tipo, tudo funciona. Não é perfeito, né, mas está dando pra levar. Teve uns vazamentos esses tempos aí, mas o Fer consertou... quase.
_Se você fosse morar com a sua prima, sabe... – minha mãe resmungou – ...ela tem um flat tão bonitinho no Morumbi. Você já foi lá?
_Mãe, eu não vou morar com a Nádia. Não tem nada a ver, eu e ela... e, além disso, eu gosto de morar com o Fer.
_Ai, mas vocês ficam aqui no meio da...

Zona.

_Tá. Só que é do lado de tudo! Eu posso ir pra balada a pé, é do lado da Paulista, do metrô, de todas as lojas e restaurantes. Vários amigos meus moram por aqui, meu. Fora que, se eu fosse pro Morumbi, ia ser um inferno ir pro trabalho todo dia e você sabe disso.
_É que nós ficamos preocupados com você... – meu pai disse, como se eles já tivessem conversado extensamente a respeito antes do nosso encontro – ...sabe, andando a pé por aí o tempo todo.
_Me dá um carro, então! – argumentei.
_Engraçadinha... – ele me olhou.
_Uma moto?! – sorri.
_Não, fora de cogitação.
_Pô... – me fingi de desanimada – ...uma máquina de café?
_Para quê você precisa de uma cafeteira?
_Como para quê? Para existir, oras!
_Vou pensar no seu caso... – ele riu.
_Sei, sei... – disse, sem esperanças.

Quando se tratava de dinheiro, eu e meus pais não entrávamos em acordo. Eles, só estavam dispostos a me dar o que eu precisava. E eu, a pedir justamente o contrário. Pois é, me recusava a ir mendigar auxílio financeiro para eles, sempre fui moralmente contra, e a tendência só piorou depois que saí de casa – uma questão de orgulho trabalhista. Contudo, não tinha nada contra presentes, uma vez que fossem de boa vontade, e esses não rolavam nunca, digo, não com tanta freqüência – bem ao contrário daquela predisposição de ambos para me ajudar com as contas do apê. Essa, sim, era mais do que constante.

Meus pais, então, desencadearam um papo que não me dizia respeito. Sobre uma outra fatura a pagar. E eu sentei ali por longos minutos, sem mais o que fazer senão escutá-los, brisando sozinha, de braços cruzados. Será que a Mia respondeu?, eu olhava para o meu celular desligado, apoiado sobre a mesa.