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agosto 27, 2011

"It's the sparkle you become...

...when you conquer anxiety". 
(Crystalline, Björk)


Ela. Passando em pé, descalça, sobre o colchão. Pouco acima do meu campo natural de visão. Estava sentada ali, acendendo um cigarro, encostada contra a parede. Subi os meus joelhos, deslizando os pés sobre o lençol, e apoiei neles os braços. Observei-a, curiosa, enquanto tragava preguiçosamente. Atravessara a cama e estava, agora, curvada sobre um aparelho de som, vestindo apenas uma blusa branca e uma calcinha box marinho e branca, procurando uma música qualquer em seu iPod. Tão logo a faixa começou, ela se levantou novamente.

Subiu na cama, me olhando. Notei as imprestáveis intenções em suas pupilas e achei graça, ri. Ela se abaixou mais uma vez, perguntando-me do que eu estava rindo, e sorriu para mim. Com os joelhos e as mãos no lençol, os cabelos soltos, a franja caída sobre o canto de um dos olhos castanhos. E achando, também, graça em mim. Nada, lhe disse, muito calma, estou rindo de você. Moveu-se lentamente mais para frente, na minha direção. Deu-me um beijo demorado. E eu beijei-a de volta.

_Essa música é boa, escuta – pediu, conforme se afastava do meu rosto.

Cantarolou duas ou três palavras. Traguei mais uma vez, escutando e observando-a a dez centímetros de mim. Não era excepcionalmente bonita, era bastante normal, aliás, não sei bem porque gostava de sair com ela. Sentou-se na minha frente, sem distanciar-se muito de onde estava, ainda com as pernas entre as minhas. Tinha um sorriso, jeitos bonitos. E não me enchia quando eu deixava de ligar. Já eu estava, por minha vez, vestindo uma camiseta preta que comprara na Banca na semana anterior. Com um escrito hipster qualquer na frente, bem grande, em amarelo. E sem calcinha – desde as últimas duas horas.

Soltei a fumaça, aos poucos. Ela veio e tragou o cigarro em minhas mãos, ainda apoiadas sobre meus joelhos. Enquanto eu escutava a faixa, encostada contra a parede, ali sentada. Os tons seguiam, bem marcados, destoantes do meu estado brando de espírito. Moveu-se mais uma vez na direção da minha boca, levantando-se um pouco de onde estava sentada. Me beijou com mais vontade. Deslizou uma das mãos, do lençol para o meu quadril. Eu não tinha o menor interesse, contudo. Não naquele momento, pelo menos. É fácil quando não se dá a mínima, não é... Virei o rosto e bati as cinzas num copo com água ao lado de onde estávamos no colchão.

_Isso aí é Björk? – perguntei, sobre a música.
_Uh-hum.

Ela roubou o meu cigarro, antes que eu o retornasse a mim, respondendo. Tragou mais uma ou duas vezes, contando-me sobre o álbum novo dela, falando qualquer coisa sobre aplicativos de celular e open source, assunto que pouco me intrigava. Achei a idéia ainda assim inovadora. E era interessante ouvi-la falar, sei lá, eu gostava. De um jeito tranqüilo, sem carinho comigo. Gostava mesmo. Sorri para ela, ao final de toda a complexa explicação sobre o novo álbum da Björk, e ela me perguntou se eu já conhecia o som.

_Essa, não... faz um tempo que não ouço Björk, ouvia mais antes. Parei há uns meses, sei lá – argumentei, observando o cigarro já quase no fim – acho que passou um pouco a fase.
_Ah. Agora você ouve outras paradas, então... – ela achou graça, falando como se eu houvesse implicado algo a seu respeito e eu a olhei, indignada.
_Tonta... – ri, por um breve momento – ...não é, é só que... – virei-me, batendo mais uma vez as cinzas, ao lado, e tornei a encará-la – ...sei lá, acho que me lembra alguém.
_Quem?
_Uma garota aí, nada demais... ela bancava a esquimó na minha cama – eu ri, de novo, agora de mim mesma – ah, meu, na boa, não é nada. Só parei de ouvir...
_Quer que eu tire?!
_Não... – senti-me estranha, por um instante, ao dizer aquilo.

Ela subiu os dedos lentamente, do meu quadril descoberto e pela minha cintura. E beijou-me mais uma vez. Eu não sentia o mesmo, naquele momento. Mas achava graça no jogo, gostava de vê-la tentando. Conforme os segundos passavam, suas intenções se desdobravam crescentes, ansiosas. Sentia os seus dedos me pressionarem, progressivamente, na sua direção. Queria-me para ela, pouco a pouco, estava com vontade enquanto eu preferia permanecer apoiada na parede, ali. De preferência, sem me mover muito.

Não que não quisesse beijá-la, pois queria. E beijava-a, não obstante, é claro. O que me incomodava era a sua empolgação, a voracidade momentânea... eu não estava nesta pegada. Estava, aliás, bem de boa de me mexer dali. Talvez fosse culpa da maconha, sei lá, estava lenta. Achava graça, contudo, na sua excitação contínua, no seu desejo imediatista. Me agarrando, mesmo que estivéssemos em ritmos diferentes. Aí parava por meio segundo de beijá-la, olhando-a se frustrar. Me divertia, e como, e ela percebia. Encarei-a, então, com ares de quem sabe mais o que está fazendo.

_Está com pressa, garota? – disse.

Ela me olhou e riu, desacreditando. Forçava-a a diminuir sua velocidade. Dava-lhe beijos suaves, desviava dos seus impulsos, lhe enrolei por um instante. Queria era discordar dela, do que ela queria. A vontade em seus olhos, todavia, só aumentava. Segurei as suas mãos no ar. Oscilávamos, em direções opostas. Se ela fosse por um lado, eu iria por outro. Por puro gênio ruim. Como qualquer gato malcriado, tinha lá os dias em que eu brincava com a comida. Era ao que ela me prestava, ao menos naquele momento, na lastimável vida que eu vinha levando nos últimos tempos.

Deslizei a boca, os dentes, suavemente por seu pescoço até a beira do seu queixo. Na real, eu estava com preguiça. Dei uma última tragada e ela me encarou. Disse algo, que eu não ouvi, mesmo que gostasse de ouvi-la falar. Estava ocupada apagando o cigarro. Quando lembrei, de repente, da Marina. Que merda você está deixando sua vida virar?, vai me dizer amanhã, ri comigo mesma. Sabia que diria, inconformada, atrás dos seus óculos pretinhos e eu lhe responderia que estava completamente errada. E ela iria estar certa, pra variar.

Olhei, então, para aquela garota qualquer na minha frente... e foda-se, agora eu estava no clima.

agosto 13, 2011

Passatempo

E lá pelo último terço do meu baseado, já em sua segunda acendida, ela me mandou uma mensagem. A garota – agora de volta e sem os pais.

Baixa Augusta

Fui bater na porta do quarto do Fer, no fim do corredor, segurando o cigarro entre os lábios. Esperei pela resposta, meio sem saco, apoiada com a mão no alto do batente. Não estava irritada com a Mia, dane-se a Mia, eu pouco me fodia para aquele rolo agora. O que me deixava inquieta era ainda ter que me ver em situações deste tipo, me dava uma indisposição desgraçada de sequer existir naquele apartamento nessas horas. E o filho-da-puta do Fernando não aparecia na porra da porta! Abre logo, caralho. Instante depois e nada do maldito – então, abri eu mesma.

Entrei e fui direto para o seu armário, sem paciência nenhuma, procurando a caixa em que ele guardava sua reserva de dinheiro do mês. Normalmente a colocava ali em cima, mas desta vez eu não estava encontrando. O Fer estava apagado na cama numa visão não lá muito agradável, com cada tatuagem e pêlo à mostra, digamos, sem uma roupa no corpo. Eu já estava acostumada a isso, infelizmente, devido à sua tendência de abaixar as calças toda vez que tomava um porre com os amigos. E, afinal, não era como se eu costumasse andar com a indumentária completa por aqueles cômodos e corredor.

Não acho a droga da caixa, fechei a porta do armário.

_Ei... – tirei o cigarro da boca e bati de leve no seu ombro, acordando-o – ...cadê sua grana?
_Quê?! – ele murmurou, espiando brevemente para ver quem era, aí acabou fechando mais uma vez os olhos, falando automaticamente comigo – Pega na gaveta, tá aí do lado... – suspirou sonolento, se virando com as costas contra o colchão, ainda de olhos fechados.

Segurei o cigarro mais uma vez entre os lábios, agora me curvando sobre a cômoda, na lateral da cama, e comecei a procurar nas suas gavetas. Acabei fazendo um pouco de barulho, com toda aquela minha delicadeza, conforme revirava mais ainda o caos do Fernando. Escutei-o respirar fundo ao meu lado, agora acordando de vez. Encontrei a caixa, enfim, e me levantei, pegando o dinheiro de dentro. O Fer puxou o lençol, se cobrindo meio de qualquer jeito, enquanto sentava apoiado contra a cabeceira baixa de madeira. Olhou para mim, em pé ali ao lado, e pegou um maço largado na cama, acendendo também um cigarro.

_Pra quê cê quer, hein, meu?
_Vou fazer um corre... – disse, ainda com pressa, colocando a caixa de volta onde a encontrei – ...eu paguei a última.
_Tá. Mas pega lá embaixo, viu, não vai aqui em cima que o cara tá vendendo tudo zoado essas últimas... – soltou a fumaça, coçando um dos braços – ...não vou com a cara daquele maluco.

Concordei e saí do quarto, colocando o dinheiro no bolso, aí atravessei o corredor até a sala para calçar o meu tênis. A Mia continuava sentada no mesmo lugar que estava 5 minutos antes, ficou me olhando quieta. Senti que queria me dizer algo – pra variar. Coloquei ambos os pés do All Star, sem lhe dar atenção, e apanhei o celular que havia deixado na mesa de centro. Dei uma checada então o bolso da minha jaqueta, largada em cima do encosto do sofá, procurando os meus fones de ouvido. Bati a porta sem sequer olhar para ela. E caminhei até o elevador, procurando algum som para ouvir no celular. Bowie, Bowie, cadê... Antes que desse por mim já estava, de novo, na rua.

Desci a Augusta quase inteira e o corre foi tranqüilo. Pouco depois das seis e meia, eu já me encontrava completamente desocupada nas redondezas. E agora o quê? Não queria ficar andando pelos cantos com 30g de maconha nos bolsos – só que também não fazia questão de voltar para o apê. Mandei uma mensagem para uma garota com quem eu havia saído umas duas vezes, e que morava por ali, mas ela me respondeu minutos depois dizendo que estava fora com os pais. Parei para tomar qualquer coisa em um boteco e pedi uma longneck, apoiada no balcão, enquanto decidia o que fazia. Liguei para o Gui e ele, sim, estava à toa em casa. Salve salve!

_Nem sei. Na boa, não sei mesmo, não entendo qual é a dela agora. Mas também, mano, não queria ficar aturando essas merdas... – comentei, enquanto enrolava um cautelosamente, já sentada na sala de estar dele.
_Olha, eu sei bem o que ela quer... – o namorado da vez do Gui, um moreno lindo chamado Ricardo, insinuou.
_Não, não é assim... – eu ri.
_Sempre é, gata!
_Ah, não... essa daí, não, viu... – o Gui argumentou a meu favor e deu um beijo rápido nele, antes de prosseguir – ...essa Mia aí é uma confusão só! Nunca dá pra saber o que ela quer, meu, eu bem tentei entender. Agora vem com esses papinhos aí, depois de te dar o maior fora?! Ah, não, amore... vem querer ser “amiga”, não!
_Nisso eu concordo – o Ricardo riu, se levantando.
_Ela quer atenção... – eu disse, deitando de costas no chão, e acendi tranqüila o baseado com um isqueiro coletivo do apê deles.
_É, né, agora que não tem mais...

Pois é... Dobrei um dos meus braços atrás da cabeça, apoiada no piso de madeira, pensando sobre a necessidade das mulheres de ser invariavelmente o centro das atenções. E quando não é assim? O Ri recolheu, à nossa volta no chão, as latinhas que já estavam vazias e o Gui pediu que ele lhe trouxesse mais uma na volta. Traguei outra vez, agora segurando a fumaça por um tempo, e então passei discretamente para o Gui. Ele, aproveitando a ausência do seu homem, deu uma bola escondido e logo olhou para a porta da cozinha, todo assustado. Eu ri na mesma hora; o Gui me divertia, cara.

_Larga mão de ser bichinha, porra!

agosto 11, 2011

3 Little Words

Agora estava tranqüila. O relógio já marcava algo próximo das seis, esparramei-me no sofá da sala, conforme entornava uma Stella e assistia um filme qualquer na televisão. Um tédio desgraçado, para variar. Minha vida estava absolutamente desocupada de mulheres. Pensei na minha conversa com a Marina e me senti bem com o rumo que as coisas haviam tomado horas antes, contudo. Empurrei um dos meus tênis com a ponta do meu All Star direito, deslizando-o até que caísse no chão sobre a beirada do sofá. E com a ponta do pé, agora apenas de meia, descalcei preguiçosamente o outro lado.

Andei demais hoje, porra. Passei as costas da mão esquerda sobre os olhos, com um cansaço abafado de fim de tarde, depois de uma caminhada totalmente desnecessária na Paulista, até o MASP, falando ao telefone. E foi então que ela surgiu, entrando na sala sem querer ser percebida. A Mia, é. Ouvia-a entrar pisando descalça, com cuidado. Em silêncio, ou ao menos tentando, deu uns passos na direção de onde eu estava. Logo depois, porém, pareceu já voltar para o corredor. Tomei mais um gole da minha cerveja e ignorei-a. Havia passado a tarde toda trancada com o Fer no quarto e eu bem sabia. Poucos instantes na seqüência, todavia, escutei os seus passos novamente. Olhei rapidamente para cima e os seus braços estavam apoiando no encosto do sofá, eu a vi ali, se aproximando.

_Posso... – me perguntou, com a voz calma, indicando com a cabeça – ...sentar aí?

Levantei sem sorrir ou dizer uma palavra, liberando espaço ao meu lado, e apoiei os pés de qualquer jeito na mesa de centro. Entornei mais uma vez a Stella, agora afundada contra o encosto, vendo TV. E ela se sentou. Lá vem...  Uma indisposição imensa de sequer ficar ao seu lado me incomodou, ambas quietas ali, vendo qualquer lixo na televisão – sem prestar a mínima atenção, aliás. Mas não ia mover um músculo, não saía mais dali. Nem a pau, raciocinei, se quiser que saia ela. Alguns minutos se passaram sem que disséssemos absolutamente nada. Mantive os olhos o tempo todo na tela e senti que ela me observava. Inferno, viu, agora isso? Tomei mais um gole, agindo normalmente.

_Eu... – ela começou, hesitante.

“Você” o quê?!, pensei com desprezo e não a olhei de volta, sem paciência, encarando a TV. Virei lentamente a garrafa de encontro à minha boca. Ela se calou por um instante, me observando.

_A gente... – suspirou – ...a gente não, não precisa ficar assim.

Só então, voltei os meus olhos a ela, do meu lado. E vendo-me ali, sem intenção nenhuma de lhe responder àquilo, ela buscou em seus rodeios extender o assunto que já tinha começado.

_Olha, eu... eu não quero que você, sabe, me... me odeie para sempre.
_Eu não odeio... – respondi casualmente, sem interesse nenhum nela ou no que estava me dizendo, pegando um cigarro à minha frente e largando o maço de qualquer jeito na mesinha de centro.

Ela ficou me olhando, enquanto eu tocava o foda-se bem na sua frente e acendia o cigarro... muito mais interessada em deixar a brasa por igual em todo o contorno do filtro do que em prosseguir naquele papo de merda. Às vezes, acho, magôo as pessoas sem nem querer. Mas, é, dane-se.

_Então, você não... está... – ela hesitou, sem entender – ...sei lá, incomodada... de alguma forma... comigo aqui? Eu... eu achei qu...
_Não... – disse, tragando tranqüila – ...faz o que você quiser, Mia.
_Mas você não acha que o clima tá meio estr...
_Sei lá. Você que sabe, meu. Cê acha? – continuei interrompendo-a antes que terminasse, ainda olhando para a TV, lhe dando pouca atenção.
_Bom, é meio óbvio... não?!  – ela mudou o tom, ligeiramente ofendida pela minha atitude – Poxa, meu, eu... eu venho aqui e a gente nem se fala! Parece que nem te conheço, meu. Você não me olha, não fica aqui, parece que despreza tudo o que eu falo. E... E é, é que, é você. Sabe? Eu não queria que acabasse sendo assim, mesmo que nós ten...
_Tá. E o que você quer? – a encarei, apoiando os braços nos meus joelhos, enquanto falava na maior tranqüilidade.
_Eu s...
_Você quer que eu seja sua amiga... É isso?!
_Não, eu só... – ela suspirou, de repente, e pareceu repensar o assunto – ...sim.

Respirou fundo, me olhando.

_Eu quero, sim – concluiu.

Me encarava como se só isso pudesse resolver todos os seus problemas atuais. Bem consigo mesma, sabe, como se eu fosse a última peça a ser encaixada na sua vida. Olhei-a por alguns segundos, sentada ali ao meu lado, linda como sempre foi, e traguei mais uma vez antes de me levantar e dar o fora.

_Não.

agosto 06, 2011

C'mon, c'mon!

_Tudo bem com você?
_Sim... tá, sim. Tudo certo. E você, Má? Como você está?
_Bem também.
_Eu... – suspirei por um instante.
_Fala. Você precisa de alguma coisa?
_Ah, meu, não faz assim... – lamentei – ...não é isso. Eu só, sei lá, eu só queria te ligar. Queria poder te ligar, sabe, que nem eu fazia antes. Eu não gosto de como a gente tá agora, cara. Eu nunca quis isso!
_Olha, a gente já conversou sobre isso...
_Eu sei, eu sei. Mas eu sinto uma puta falta de você, linda! De verdade.  

Sentia mesmo. Podia quase vê-la discretamente sorrir, do outro lado.

_Qual é, meu? A gente vai ficar assim uma com a outra?! – continuei, gesticulando sozinha no degrau do MASP e fumando entre uma frase e outra – eu sou uma babaca, cara... você sabe disso! Eu fui uma babaca. Se eu tiver que pedir desculpa mil vezes para você, eu vou pedir.
_Não é questão de pedir desculpas...
_É, sim. É, sim, Má! Porque eu fui uma imbecil e não tem nada a ver a gente continuar assim, sem nem se falar direito, por causa de uma idiotice sem tamanho que eu disse aquele dia. E no outro, e no outro. Eu tava numa brisa toda errada naquela época, meu... eu não penso assim, eu gosto de você, cara, eu me preocupo, eu quero que você fique bem. Com a Bia, com quem for, não interessa! Eu só quero fazer parte da sua vida também, meu... eu quero ser sua amiga.
_Eu não sei se a gente dá certo como amigas, flor... não sei se você sabe lidar com isso, se eu sei lidar bem com isso. É complicado, entende? A gente, meu, a gente já passou por tanta coisa... eu não quero ficar brigando com você. Sabe, depois de anos, ficar discutindo... Eu prefiro que a gente fique cada uma na sua, bem, sabe, tranqüilas.
_E você não vai sentir falta nenhuma de mim na sua vida, pô?
_Claro que vou, mas...
_Meu, Marina, quando mais a gente brigou desde que a gente voltou a se falar?! Sério, foram duas semanas! Duas semanas de péssimas escolhas e só. Cara, eu não quero te perder assim... saca, deixar que a gente se afaste desse jeito. Faz semanas que eu nem ouço falar de você! Eu não quero isso.
_Ah, meu, eu... eu não sei...
_Linda, vai, deixa eu te levar para jantar... vamos sair, vem aqui em casa, vamos pra algum bar, sei lá, vamos fazer qualquer coisa. Eu tô com saudades de você, meu.
_Não sei, a Bibi vai achar ruim também...
_Ah, não... pára, pára. Não começa com essa, mano! Na boa... se você não for sair comigo, que seja por que você não quer me ver, meu. Não porque a Bia ou qualquer outra pessoa vai achar ruim. Você não é assim, porra...

Desde quando você é submissa à namorada, caralho?

_Eu sei, eu sei. Desculpa. Eu só... – ela suspirou, hesitante – ...eu só não quero provocar outro drama, sabe, mais um rolo daquele, igual daquela vez. Eu não tô com cabeça pra isso...
_Não tem drama. Não tem drama nenhum, prometo. Desta vez não.

Prometo. Ficou em silêncio por uns segundos.

_Alô?!
_Tá, tá... Tá bom. Amanhã. Mas você se comporte, viu?!
_Alguma vez eu não me comportei, meu? – achei graça, sorrindo – tá, amanhã. Vem lá em casa, vai, a mãe do Fer deu um fogão novo de presente pro apê no aniversário dele e agora a gente pode cozinhar decentemente. Que tal, vamos?
_Vamos, vamos... – ela riu.
_Cara, obrigada. De verdade. Eu te amo, sabia?
_Você não vive sem mim, isso sim! – mudou o tom, enfim, e brincou.
_Lógico que não vivo, meu. Lógico!
_Anda fazendo muita merda, né? – concluiu.
_Você não faz idéia...

Filosofia, pernas nuas e chá verde

O meu lance com a Marina começou uns cinco anos antes e foi por querer, ao contrário da maioria dos meus antigos relacionamentos e amores à beira do platônico. Não começou com más decisões ou impulsos, não nos agarramos bêbadas em lugar algum – não de início, pelo menos –, não era como se eu tivesse saído atirando de qualquer jeito, como sempre faço. Foi pensado, eu a quis aos poucos. Conheci-a anos antes através de uma amiga em comum, elas cursavam faculdade juntas; estavam no segundo ano de Jornalismo. A Marina é um pouco mais velha do que eu e eu a via da mesma forma que enxergo todas as garotas de início. Mas não a reparava – não o fiz por meses.  Nos trombamos acidentalmente em alguns encontros das meninas, pura aleatoriedade, fosse numa tarde vendo filme na casa da Lê ou em um happy hour vez ou outra.

Foi daquele seu jeito de ser, meio desastrada e um tanto tagarela, bonita e toda bem articulada por detrás dos seus óculos, nas nossas conversas tranqüilas que ultrapassavam as horas do relógio e os fins das festas em que nos encontrávamos, que a Marina entrou sem intenção nenhuma na minha cabeça. Nos tornamos amigas de ocasião: cada uma levava sua vida. Não era como se marcássemos de nos ver ou nos ligássemos ocasionalmente, nunca foi amizade de verdade. Só que quando a via entre minhas amigas, em qualquer lugar que fosse, sempre ficava feliz que estivesse lá. Pensava comigo mesma “cara, essa garota é um barato” e a assistia falar, admirada. Não passava disso. A questão é que enquanto eu gastei minha adolescência toda explorando os banheiros femininos em boa companhia, a Marina passou anos e anos namorando um cara qualquer ou outro sem muito sucesso. Ela estava apenas começando a ficar com outras garotas, tinha beijado uma ou outra em festas da faculdade. E nunca, aliás, havia dormido com uma.

Achei besteira ir arás dela justamente por isso, porque ainda tinha o que descobrir, sozinha, e porque as primeiras sempre são intensas. Não era essa a minha intenção ali, defitivamente, mas inevitavelmente a encontrava pelos quatro cantos. E inevitavelmente pensava nela de novo. Nela e nos seus traços delicados, aquele seu jeito mais dona de si do que as outras garotas que eu conhecia, na sua pele branquinha e nos seus olhos espertos, inquietos, nos seus ares de intelectual e principalmente nos seus cabelos longos, castanhos – ah, eu e as morenas –, desarrumados sempre de uma maneira bonita. Não foi imediato. A idéia ia e vinha na minha cabeça, oscilava dentro de mim, toda santa vez que a via. E eu, aos poucos, fui deixando escapar as minhas intenções, transparecer. Ela não demorou para perceber, em sua sagacidade natural, e achou graça naquilo. Fomos expandindo os nossos interesses, aos poucos, as nossas fronteiras; é, fomos nos experimentando, testando o sentimento, cada qual na sua, sem falar nada a respeito. Até que um dia, meio sem programar, acabamos nos beijando no quarto da casa de uma amiga.

O namoro veio logo em seguida e já começou turbulento, porque no fundo tínhamos ritmos completamente diferentes. A Marina não sabe ser de outro jeito e eu também não. Só que eu estava curiosa, ela era de longe a garota mais centrada com a qual eu me relacionava, e ela estava totalmente apaixonada. Eu devia saber, claro. Porque a primeira é sempre a primeira, não importa com quem você namore. Eu tinha a minha tatuada no pulso e a Marina me tinha metida nos bolsos, se apegou a mim. Sempre nos entendemos muito, contudo, nos conhecíamos mutuamente, passávamos horas na cama conversando sem roupa e nos divertíamos assim.

Não como eu me entretinha com as outras garotas. A Marina sempre foi muito tranqüila, sempre foi muito Marina, digamos, em sua mania de dichavar tudo, desmontar o mundo com as palavras, aquela profundidade constante, entende, mesmo quando falávamos sobre coisas sem importância. E isso às vezes me cansava... Só que o meu sentimento por ela era muito diferente do que já havia tido por qualquer outra garota. Acho que eu encontrava mais uma amiga na Marina, um ponto de equilíbrio, do que uma namorada propriamente dita. Ela era a resposta à minha inquietude, pelo menos naquele momento, e todas as outras garotas que eu acabava por ir encontrar quando não estava com ela eram... sei lá, o que quer que fossem.

Passamos quase um ano inteiro juntas, numa relação intensa e meio apegada demais. Discutíamos muito e ela sempre corria atrás do relacionamento, resolvendo. Brigávamos mais do que dormíamos juntas. E eu me encontrava outras camas sem dificuldade – ou escrúpulos –, aí ela se machucava. Não terminávamos, porém; demoramos mais do que devíamos. No fundo porque nosso sentimento nunca foi nítido: amor se confundia com amizade, com aquela paixão dela de primeiras viagens e, no meu caso, com tesão e com uma admiração imensa, incomparável às outras. Sempre tive um carinho enorme por ela, sempre a amei de um jeito meu, independente de funcionarmos ou não juntas, e por isso não aceitava o fato de que eu a pudesse magoar ainda mais. Esperava, então, que ela o fizesse, que terminasse de vez comigo. Mas ela, cabeça-dura como era, na sua necessidade de consertar tudo, não o fazia – e o nosso cotidiano se tornou insustentável.

Quanto enfim nos separamos, ela não quis mais me ver, obviamente. E, de fato, não me viu. Por anos, aliás. Eu sumi e ela foi viver sua vida, se graduou nos relacionamentos com garotas, se aventurou, terminou a faculdade, começou a trabalhar num emprego de verdade, virou gente grande e dormiu com uma das minhas melhores amigas no meio do caminho. Quando voltamos a nos falar, aos poucos e por telefone – ela me ligou, uma bela noite, do nada –, a Marina revelou-se a melhor conselheira que uma garota poderia ter em plena São Paulo. Nos tornamos amigas, pouco a pouco; coisa que deveríamos ter feito desde o início, aliás. De um jeito estranho, porém, havíamos mantido a conexão de anos antes, nos conhecíamos muito bem e eu tinha um forte sentimento com relação a ela, um carinho incomum, uma necessidade de protegê-la, de fazer com que ficasse sempre bem e vice-versa – o que me assustou um pouco quando voltamos a nos falar. Me questionei se ainda sentia algo por ela, o que não seria nada imprevisível dada a egocentricidade dos meus processos amorosos, mas não. Não. O que eu tinha pela Marina era outra coisa.

E naquele momento, sentada debaixo do MASP, com um cigarro aceso entre os dedos e o celular na outra mão, o que eu tinha por ela era a mais pura saudades. De ouvir a sua voz inteligente e contrariada; de ver aqueles seus óculos pretinhos, os seus olhos bonitos por detrás; de me divertir com as suas teorias a meu respeito, de conversar de boa. De tê-la, de fato, na minha vida. Ela, minha pequena, que me entendia e me fazia entender tanta coisa. Ahh... que caralho, viu, traguei mais uma vez e deixei a fumaça soltar lentamente no ar, olhando o seu nome na tela do celular. E num impulso, apertei o botão de ligar.

Esperei, tocou três ou quatro vezes, e então ela atendeu. Tranqüila, mas com certa seriedade. Estava surpresa em me ouvir.