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julho 31, 2012

Diálogos quietos

Pagamos a conta, logo após a terceira ou quarta cerveja, e descemos pela Augusta ainda conversando. Apesar da brisa fria que não abandonava São Paulo, o céu começava a abrir nos últimos dias e o sol se punha num púrpura-alaranjado limpo. A Marina caminhava com as mãos nos bolsos e eu, ao seu lado, acendia um cigarro. Na vida dela, tudo continuava calmo como sempre estivera, apenas as garotas que agora se alternavam. Era interessante vê-la solteira. Ficou sozinha por muito tempo antes da Bia, focada na carreira e um tanto desistente das mulheres desequilibradas da sua vida. Agora, depois do término, estar solteira ganhara novo ânimo.

Por algumas semanas, saiu com a ex-chefe, a tal da Nina. Que logo se revelou uma carente desregulada, das que mandam mensagem a cada três horas e ainda esperam resposta. “Lógico, meu, a garota já estava interessada há meses e te esperou terminar com a Bia. Tinha tudo pra ser louca...”, ponderei, rindo. Por outras semanas, que acompanhei por telefone, a expectativa esteve sobre uma que conheceu através de um amigo e mantivera contato pela internet. Só que, na hora, não fluiu. “Foi muito estranho”, ela disse, sobre a única vez que transaram. E nós entramos no elevador do meu prédio.

O que será que você acha, pensei à toa, das vezes que tivemos? Olhei-a descer no meu andar, médio alegrinha. Eu fora a primeira garota dela, certamente os parâmetros mudaram depois de dormir com outras meninas. A mínima curiosidade me beliscava – bem, ao menos... melhor do que a Lê, né, eu esperava. O meu jeito também mudara nos últimos anos; eu estava diferente. E após algumas cervejas, a Marina já estava alta o suficiente para que eu lhe perguntasse. Aproveitando-me da minha condição ainda sóbria, isto é: as três garrafas não me fizeram nem cócegas. Mas não, vai, me contive. Melhor não.

Entramos no apartamento e coloquei as chaves sobre a mesa, a sala estava vazia. E as luzes acesas – o Fer deve estar em casa; o que implicava, provavelmente, que a Mia também estava. Olhei em volta e não os vi. Estão no quarto, concluí. Servi-nos o pouco de rum que tinha na geladeira e sentei com a Marina no sofá. A bola da vez era, agora, de uma garota chamada Vivian. Uma advogada, esportista entusiasta e toda estilo ‘saudável’. “Sei”, olhei torto, e a Marina riu. Tiveram um encontro quatro dias antes, foram jantar na Al. Santos e conversaram muito, interessadas uma na outra. A garota a beijou apenas no fim da noite, de volta ao carro, encostando-a contra a porta do lado de fora.

_E gostou?
_Foi intenso. Foi como... – ajeitou-se no sofá, os braços em volta das pernas; os pés apoiados sobre o assento – Os olhos dela eram, não sei, eram tão... absorventes, sabe. E o jeito que me pegou, tinha alguma coisa. Sei lá! Foi muito intenso, muito perfeito. Eu sumi ali. Foi tão bom, tão bom mesmo, flor! Estávamos em perfeita sincronia...
_Hmm. Quem é essa aí? – ouvi, de repente, o Fer perguntar.

Olhamos para trás e ele vinha pelo corredor, rindo da descrição empolgada da Marina. Estava só de jeans e camiseta branca, a cumprimentou com um beijo no rosto, por cima do encosto – a esta altura, ela já estava vermelha, retraída muda no sofá. Eu ri do seu susto, pega desprevenida falando tão apaixonadamente sobre uma mulher. Desviei os olhos e vi, vindo alguns metros atrás do Fer no corredor, a Mia. Com o mesmo moletom e shorts jeans de horas antes. Então não estavam transando, deduzi. Ou estavam? E notei que, por algum motivo, aquela era a primeira vez em cinco ou seis meses que eu me preocupava com isto.

_Quem é quem?! De quem vocês estão falando? – chegou, desavisada, enquanto prendia o cabelo; e então notou a Marina encolhida ali – Ah, oi!
_Oi... – murmurou, envergonhada, ainda com metade do sangue no rosto.

Eu ria, ainda mais. E o Fernando sentou na poltrona, acendendo um baseado, interessado na resposta dela.

_A Marina estava aqui me contando sobre o encontro que ela teve esta semana. Não sei se você reparou no calor todo, né, que fez quarta em São Paulo.
_É, pelo jeito. Devia tá quente mesmo, hein... nunca ouvi ela falar assim de você!

O Fer tirou comigo, rindo; e eu apertei os olhos na sua direção, mostrando-lhe a língua. Larga de ser idiota! Acomodou-se com folga, afundado na poltrona, e tragou demoradamente.

_Outros quinhentos, Fernando... – a Marina interviu.
_Quinhentos a mais ou a menos?!
_Argh, não é isto. Besta.

Os dois começaram então a discutir e trocar comentários que, de um jeito ou de outro, rodeavam o meu desempenho sexual. Respondendo à pergunta que contive minutos antes. Por educação ou sinceridade, a Marina me defendia – e o Fernando a provocava. “Boa coisa não pode ser, né”, dizia, “essa aí não segura uma!”. Ele se divertia, entre uma tragada e outra, brincando com ela. “Mas você também nunca me ouviu falar! Nem dela, nem de ninguém...”, a Marina contra argumentava, ainda um tanto acanhada pelo tema. Eu os ignorava. Num intervalo de poucos segundos, enquanto discutiam, os meus olhos encontraram os da Mia, agora apoiada no braço da poltrona onde o Fer estava. Me diz você. Ela me observava de volta, com um riso escondido no olhar, como quem detém uma informação que não pode revelar. Arqueou as sobrancelhas para mim, de leve; e eu achei graça.

julho 29, 2012

Uns desenterros

A Marina levou uma das mãos ao centro da mesa, checando as horas no seu celular, ali deitado. Tinha os cabelos delicadamente presos em fivelas laterais, em ambos os lados. O resto caía solto sobre a malha branca que vestia com os jeans claros. “Está bonita”, disse. Ela me olhou, repreensiva, e deixou o telefone de lado. “E você está vinte minutos atrasada”. Era verdade, estava. Pensei logo em contar-lhe sobre a conversa estranha que tivera com a Mia antes de sair – o que certamente distrairia o foco do meu deslize –, mas não quis dar-lhe pano para a manga. A sua análise daqueles oito segundos de conversa em frente à porta do apê duraria horas, eu sabia como a Marina era. Preferi assumir a culpa. E ela observou, ainda aborrecida: “Eu venho da Vila Madalena de carro, você só precisava subir dois quarteirões!”. Ok, ok.

Sentei e pedimos uma cerveja juntas, outras duas mesas ocupavam a calçada ao nosso lado. Contei-lhe todo o rolo com o Fer e o apartamento. Ela ouviu tudo apreensiva. Não gostava da ideia de eu não ter garantias, reservas financeiras. Perguntou se eu precisava de dinheiro emprestado, lhe disse automaticamente que não. Mentira. Mas nem ela o tinha para me dar, eu também sabia. E outra: Pedir para os meus pais já havia sido um golpe duro para o meu orgulho, aceitar dela seria ainda pior. Nem pensar. Comentei que não dormira direito naquela noite, que estava preocupada com como as coisas seriam. E mais ainda, com quem diabos moraria.

_Ai. É complicado mesmo, flor. Assim tão de repente! – ajeitou os óculos pretinhos, com o cotovelo apoiado sobre a mesa e tomou outro gole da sua cerveja – Quantas semanas faltam?
_Duas. Este eu ainda consigo pagar, aí são mais quatro ou cinco até o próximo aluguel.
_E você não conhece ninguém que, talvez, esteja em outra república e não curta muito? Alguém que pague caro, sei lá?
_Não sei, meu. Não consigo pensar em ninguém...
_Bom, por um lado, você tem a Augusta a seu favor – sorriu, sendo positiva, a la Marina –. Vocês moram no meio da muvuca... se for pensar, qualquer um ia querer dividir um apê por aqui. Não deve ser tão difícil!
_Este não é o pior, meu. O problema mesmo é se o Fer voltar; e eu quero que ele volte. Mas quem vai topar ficar dois, três meses num apartamento? Sem garantia nenhuma de ficar depois de vez, mano?!

Ela revirou os olhos em mútuo entendimento, como se dissesse “pois é”, por cima do seu copo já na metade. Tomava outro gole. Pois bem, resumindo, não vai rolar. E eu estou fodida de vez, ri. Achava graça no absurdo da minha própria situação. Alcancei o maço. A Marina, então, deu um pulinho na cadeira e se apressou em deixar o copo novamente na mesa, limpando os lábios com um gesto sutil dos dedos. E aí sugeriu, toda animada:

_Por que você não chama a Dani? – ela sorriu e eu estranhei a indicação, retraindo a cabeça – É perfeito, meu! Pensa: os pais dela são cheios da grana, certeza que ela toparia morar por uns meses em São Paulo. Ainda mais com você, meu.
_Não! Nossa, não mesmo – enfatizei – Ficou louca?!
_Por quê? Ela odeia a cidade dela...
_Não, mano. Nem pensar! Preciso ficar uns dois anos sem ver a Dani, meu...

Isto foi idiota, pensei e a observei, contrariada, mesmo para uma sugestão sua. Ali tinha algo. Não era o tipo de coisa que a Marina me recomendaria, assim, aleatoriamente. Dani?! Por que a Dani? A nossa história era antiga, cheia de idas e vindas, e a Marina surgiu um pouco depois de uma das piores “idas”. Saímos em Campinas numa madrugada, eu e um grupo de amigos dela do interior, na Kraft. A Dani estava com a cabeça entupida de cocaína; enchemos a cara, todos, e num mal-entendido envolvendo uma cantada minha que não existiu em cima de uma amiga dela, a Dani me virou um tapa. Perdi o controle. Nos xingamos tanto, completamente em cima uma da outra, que acabamos expulsas da balada. Voltei a pé até a rodoviária e peguei o primeiro ônibus para São Paulo, puta da vida.

Não nos falamos por meses. E a poeira abaixou, como era de se esperar. Quando a revi – por acaso, nos tempos áureos da Bubu, em São Paulo –, eu e a Marina já namorávamos. Estávamos nos primeiros meses, eu ainda a traía pouco. Conversamos animadas na festa. As duas foram apresentadas, tudo durou menos de dez minutos, não houve atrito algum entre elas – e eu peguei a Dani no banheiro, fato que a Marina ainda desconhecia. Mesmo até aquele dia. É, e não – eu não tenho orgulho disto. Depois que deixamos de namorar, contei de diversas garotas à Marina, mas nunca sobre a Dani. Agora aí está, me sugerindo chamar justo ela para morar comigo. Sabia, porém, de todas as outras vezes que a reencontrei depois do término. Inclusive a última. E sabia também que tínhamos uma atração complicada uma pela outra. A olhei, com minhas suspeitas.

_Me diz... O que você tem contra a Clara? – sugeri, jogando meio verde.
_Nada! Por que isto agora?
_Por que, com tanta gente para escolher, você foi sugerir logo a Dani?! Você sabe como nós somos, sabe o que rolou da última vez, meu.
_Me pareceu apropriado. Ela tem dinheiro, disponibilidade, vocês se dão bem... sei lá! – a encarei, descrente, e ela revirou os olhos imediatamente para a minha reação – Nossa, desculpa, então. Não está mais aqui quem falou!
_Isto não é justo e você sabe, Marina. A Clara se esforçou pra caralho pra ficar bem com você, meu. Toda vez que a gente saiu... está sempre preocupada em te agradar, em te compensar. E você sequer pergunta como estamos!
_Nossa, menos, por favor. Não existe conspiração nenhuma, ok – cruzou os braços, dramaticamente.

O que há com as mulheres hoje, cacete?

_Eu acho que você não perdoou ela ainda.
_Isto é ridículo. E se você e a Clara estão, oh, “tão bem” – deu de ombros –, por que este medo todo da Dani, assim, de repente? Foi só uma sugestão. Você é livre para aceitar, ou não.
_Você é mais esperta do que isto, Marina, nós duas sabemos... não muda de assunto.
_Chega. Eu não quero mais falar sobre ela.
_Ela me faz bem, linda. Eu estou feliz – expliquei.
_Oras, tudo bem...
_Sei – ri, arqueando as sobrancelhas – Cara... eu tenho medo desta sua mente, sabia?

julho 26, 2012

Destinada a repetir

“I could never pretend that I don’t love you
You could never pretend that I’m your man ...
I could never place the stars at night above you
Got my hands in the ground and you know I’m right

You wait so long – you wait so long”
(Trampled by Turtles)

julho 25, 2012

O Prólogo

Não teve conversa. Quando voltamos do almoço – e de uma rapidinha no banheiro d’um bistrô calmo da Augusta, clandestinas –, a decisão já estava tomada. O Fernando buscara a Mia, em Higienópolis, e eles agora dividiam o sofá na sala. Entrei e vi-os ali, conversando com a TV ligada ao lado. Eu e a Clara deixamos as nossas coisas sobre a mesa, próxima à porta. “Então, meu, decidi que vou pros meus pais mesmo”, ele anunciou, brevemente. E eu não argumentei muito também, querendo sair logo da vista da Mia.

Pois é. Estávamos em mais um dos nossos hiatos estranhos e incômodos. Eu a ignorara por tempo demais, semanas antes. E agora ela não ousava falar comigo, não fazia coisa alguma na minha direção – mas me seguia, sempre, com os seus olhos castanhos. Constantemente. Eu não tinha o que lhe oferecer de volta, nenhuma desculpa ou sorriso. Me fechara – e ficava sem jeito na sua presença; foi o que precisei fazer para ficar bem de vez com a Clara. Deu certo. Mas me custara todas as conversas que tivemos dois meses antes, no telefone e no apartamento da sua família. Agora éramos, mais uma vez, estranhas.

O problema, todavia, era outro. Era o Fernando. E o que diabos eu ia fazer nos meses em que ele não estivesse lá. Chamo alguém? Quem toparia um lance destes? Ou largo tudo? Eu precisava da Marina, eu sabia, e dos seus conselhos bem-centrados. Urgente. Não tinha ideia de como agir dali em diante. Nunca morara com outra pessoa que não o Fer. Sequer me imaginara morando em outro lugar, com outra ou outro, nada disto. A ideia de deixá-lo ir me partia o coração – existe vida sem Fernando ao meu lado? O cara das baladas, as conversas no quarto vizinho, as tardes de cerveja e videogame. A princípio não dediquei a devida dimensão à situação, mas naquela madrugada a ansiedade me tomou.

Invadiu o meu sono. E fumei dois, três cigarros na beira da cama, desperta. Depois deitei ao lado da Clara, mas ainda sem solução. Ela foi embora logo cedo, às onze, para almoçar com o pai. E eu liguei para a Marina em seguida, combinando de a encontrar no Ibotirama lá pelas quatro. Explicar-lhe-ia tudo. Belisquei algo na cozinha, tomei um banho rápido e me arrumei bem medianamente. Já estava atrasada. É, né, pra variar. Olhei o tempo lá fora – coloquei um moletom cinza e a jaqueta de couro preta, por cima. Calcei os All Stars na sala e pretendia sair logo que terminasse, quando a Mia me alcançou.

_Oi!
_E aí... – murmurei, sem lhe dar atenção, enquanto pegava as minhas chaves na mesa ao lado da entrada.
_Onde você vai?! – sorriu, estranhamente simpática.
_No Ibotirama...
_Ah, legal. Posso ir?

Que tipo de pergunta é esta?!, hesitei, confusa.

_Não – disse, algum tempo depois – Estou indo com a Marina, vou conversar.
_Hum...

Evidente que não, garota. Já me preparava para abrir a porta, decidida a sair e evitar a confusão certeira na minha cabeça (como viera fazendo aquele tempo todo), quando um sentimento estranho me tomou. Virei e lhe perguntei, de impulso:

_Está tudo bem, Mia?
_Está. Está, sim... – abaixou a cabeça – É só que não nos falamos mais.
_É. Não nos falamos mesmo...
_Eu sinto a sua falta, às vezes.

Fiquei sem reação. O hiato durara tempo demais, o silêncio – e, antes disto, a Mia só admitiu ter sentido saudades minhas em duas ocasiões, só que o contexto agora era completamente outro. Eu tinha a Clara agora; e ela, o Fer. Apenas acenei com a cabeça, abaixando-a. Ela me olhou sair do apartamento, fechar a porta atrás de mim. E quando me encontrei sozinha no corredor, refleti. Por um segundo, antes de ir ver a minha ex preferida. Isto foi esquisito.

julho 23, 2012

2 meses em 20 minutos

Vem. Está demorando demais, pensei. O conserto do vazamento na máquina lava-roupas chegava ao fim e nada do Fernando passar por aquela porta. Merda, cadê você? Terminava de rosquear o cano na torneira, vedando com um pedaço de fita isolante. E a minha preocupação crescia, arrependida de tê-lo criticado. A briga agora deve estar feia, droga. Mas que droga. O relacionamento dos dois era uma catástrofe; o pai do Fer era o tipo de cara de quem ele não ouvira uma palavra de carinho – ou de orgulho, diga-se de passagem – a vida toda e que também não media palavras para criticar e humilhar os outros, impondo a sua própria moral.

O filho, claro, cresceu influenciado por este contexto; apesar de porra louca como eu, e mesmo com todas as tatuagens no braço, o Fernando tinha aspectos muito sérios em si; a sua postura era muito “de homem”. Sempre foi – foi mudo em casa, durante a infância toda, e não até o meio da adolescência que aprendera a se posicionar contra o pai, a retrucar. Mas ainda era o seu pai; e a opinião dele ainda importava. O velho era capaz de destruí-lo. Pesava no Fer e era isto que me preocupava, vem logo, vem. Eles tinham brigas imensas, orgulhosas.

Levantei de joelhos no chão e virei a torneira, para abri-la. Testava o sucesso da minha gambiarra – nem uma gota sequer, toma esta! –, quando o meu celular vibrou sobre o tanque. Era a Clara. Saíra mais cedo do trabalho e já estava na porta do prédio, informou num SMS. Escrevi de volta pedindo que subisse, ainda precisava tomar um banho e me trocar para irmos almoçar. Limpei mais uma vez as mãos nos shorts. Olhei para o relógio da cozinha, aquela ligação já durava mais de vinte minutos. Ugh. Molhei o rosto e lavei as mãos brevemente, enxugando-as numa toalha qualquer que pendia no varal.

Fui então abrir a porta, voltando à sala antes que a campainha tocasse. Alguns metros adiante no corredor, sentado na escada do prédio, vi o Fer com a cabeça baixa e o celular ainda no ouvido. A sua orelha já deve estar quente. A mão segurava a nuca; o cabelo quase raspado, curto, e a camisa social aberta, tinha uma regata branca por debaixo. A expressão abalada. Ouvi o elevador começar a subir. Besta. Por que cê foi pedir demissão, moleque?! – tinha os meus olhos fixos nele, me cortava o coração vê-lo se submeter àquilo. A maquinaria parou. Aos poucos, começou a discutir de volta com o pai, tão logo a porta do elevador se abriu, e a Clara veio na minha direção.

Estava linda, eu estava um desastre. O tom da briga dos dois aumentou, o Fer tinha os olhos vermelhos e molhados – poucas vezes o vira chorar. Podia vê-lo frustrado. Secava o rosto nos antebraços, com raiva, e continuava a argumentar. A Clara o notou ali, metros adiante de nós. Me cumprimentou, estranhando a situação toda, e perguntou o que estava rolando. Quis saber se tinha algo a ver com a Mia. Eu disse que não – sem explicar direito também. O Fernando estava fora de si, começou a discutir de volta, gritando com o pai.

_E eu sou o quê? E eu sou o quê, porra?! – dizia ao telefone, irritado.

Encaminhei a Clara apartamento adentro, tocando-a pelo ombro. “Vem”. A última coisa que ele precisava era de plateia, naquela hora. Então entramos. Ela ficou esperando no meu quarto e eu fui tomar o meu banho. Não demorei muito. Tornei a entrar no quarto e me troquei rapidamente, já estava com fome. A Clara mexia no meu computador, vendo as suas notificações no Facebook. Saímos nem meia hora depois de termos entrado. Passamos pelo corredor e vi o Fer já sem o celular na sala, fumando um baseado no sofá, quieto. “Espera um minuto, deixa eu falar com ele”, pedi. E ela ficou perto da porta.

_E aí, quão ruim foi? – sentei ao seu lado, de mansinho.
_Uma bosta. Eu já sabia que ia ser.
_O que ele disse? Não conseguiu?

O Fer tinha os antebraços apoiados nos joelhos, as pernas abertas. O baseado pendia na boca, tirou-o com a ponta dos dedos e soltou a fumaça. Já recuperara a expressão séria habitual. As tatuagens apareciam sob a manga dobrada da camisa.

_Ele quer que eu volte, né. Quer que eu vá morar lá com eles. Não sei – balançou a cabeça –, ia ajudar não ter que pagar aluguel e a comida, posso pegar uns freelas e me virar com o resto, o carro e tal. Mas ia ser foda, mesmo por uns meses só. Não me dou com o velho, cara.
_Você não precisa sair, Fer...
_Ele não vai dar a grana, não vai emprestar nada. É um filho-da-puta! Ele não tá nem aí – disse, frustrado –. Só quer me mostrar que eu sou um bosta, que eu não sei fazer porra nenhuma sozinho.
_Não, meu. Calma. Eu vou pegar com os meus pais este mês, fica pelo menos mais um aí.
_Que jeito?!?
_Não sei, mas... Cê não precisa sair agora. A gente vê um j...
_Não, mano. Não vou ficar te atrasando também! Já te devo a vida, meu, pára! Você já fez até o que não podia por mim. Já fez demais. Não quero ficar te atrapalhando mais nessa.
_Não é assim, meu.
_Não, já tá decidido. Cê precisa correr atrás de alguém pra dividir, o aluguel tá aí. Nem que seja só por uns meses. Depois eu volto, a gente vê. Não sei...
_Não, não. Nada a ver! Eu moro com você, porra. Não vou dividir com outra pessoa! Nem te deixo ir morar com o sociopata de merda, nada a ver. Nada a ver mesmo – senti um aperto no peito, de repente –. Você fica, Fer.
_Não vai ser tão ruim. Pensa, divide aí com a Clarinha... – ele riu, brincando, e lançou o olhar para ela.
_Deus me livre!

Ela logo recusou, do outro lado da sala. Gracinha.

_Não, nada disto... – contra argumentei, mais uma vez – Fer, esquece esta ideia! É sério. Mais tarde eu tô aí e a gente pensa em alguma coisa, você e as suas tralhas não vão a lugar nenhum...
_É. Tá. A gente vê, vai lá, vai. Vão almoçar... – ele sorriu para mim, sem muito ânimo – ...eu vou pra Mia também, vou me trocar. E a gente se fala mais tarde...

julho 22, 2012

A cor do fim do poço

Para baixo, mais um pouco. Joguei a franja para fora da cara. O isqueiro já me queimava o dedo, perigando derreter de vez o tubo. Eu fazia uma força enorme. Um pouco para direita, mais um pouco. Assim. Acontece que a lava-roupas estava vazando havia uma semana, a rosca estava péssima – e eu preferi comprar uma nova a pagar pela peça toda. Me encontrava, portanto, sentada na área de serviço, rodeada por ferramentas que eu nunca usava. Vergonha-sapatão. E tentando, concentrada, solucionar de vez aquela merda.

O que deveria ser uma simples – porém cara – troca de cano, se tornou uma barata e complicada empreitada contra o plástico do tubo de saída. Por que fazem esta porcaria dura deste jeito? O meu polegar já estava vermelho, tentava lacear o furo com o calor do fogo. E estava quase dando certo – empurrava a boca de ferro com todas minhas forças cano adentro –, quando ouvi a porta da frente bater. Mas, que porra...?

Era sábado de manhã, não podia ser o Fer. A muito contragosto, duas semanas antes, ele conseguira emprego como programador auxiliar numa empresa almofadinha do Morumbi. Mais de uma hora e meia de ônibus para chegar, um inferno de lugar, mas pelo menos pagaria parte das nossas contas, que já estavam mais atrasadas do que noiva na igreja. No último mês, sem muito sucesso, ele havia tentado alguns freelas para cobrir os gastos, até fez bico na festa de um amigo na Clash; o dinheiro ainda assim era pouco. Da minha parte, eu já havia emprestado tudo que podia e daqui a pouco ia começar a dormir na produtora, de tanta hora extra que pegava.

Olhei para o relógio. Faltavam quinze minutos para meio-dia. Limpei a mão na bermuda – o fogo escurecia o plástico e o tubo velho, sujo soltava tudo nos meus dedos –, e levantei. Meia hora no chão, ao lado da máquina, e a minha testa já estava molhada de suor. Estou nojenta, pensei. E quis tomar um banho, assim que terminasse a droga do conserto. Fui até a sala. Talvez eu tivesse deixado a porta aberta, havia a possibilidade de a Clara ter chegado antes para almoçarmos. Sei lá. Saí pela cozinha e lá estava o Fernando, descarregando a mochila com raiva sobre o sofá e arrancando a camisa social aos trancos.

_Mas, o... o que você tá fazendo aqui, meu?!
_Nada.

Insisti, ele estava puto.

_Fer! Seu horário não vai até as três hoje?
_Vai.
_E...??
_Pedi demissão!
_O quê?!?
_Pedi. Caí fora, meu. Aquele cara é um babaca! – se exaltou, largando a mochila com raiva e se apoiando com ambas as mãos no sofá – Ele acha que pode falar e fazer o que bem entende! Que eu sou obrigado a aguentar essa bosta de emprego, o filho da mãe nã...
_Você tá me zoando que você – comecei a aumentar o tom de voz, interrompendo-o, nervosa – largou a porra do primeiro emprego que você consegue em MESES, porque você não gosta do seu chefe, mano?!
_”Não gosto”, não; não faz soar como se fosse capricho meu, caralho... o cara tá me testando a paciência desde o dia que eu entrei naquela porcaria!! Egomaníaco de merda! Grosso do caralho. Não sabe ouvir uma sugestão, trata todo mundo que nem lixo!! Só fala de meta, de porra de sede. Falava comigo como se eu fosse a puta dele, imbecil. Me botou pra fazer alteração idiota de usuário por três dias, desgraçado de merda...
_E você não podia segurar a porra da sua boca?!
_O cara é um escroto!!
_Foda-se. Você precisa ir lá e brigar com ele?? Cê não se segura, porra. Você acha que você é o único com um chefe de merda?!
_Ahh, falou a que não vê a hora de ir pro batente pegar a quarentona gostosa... – revirou os olhos para mim, ainda fora de si, nervoso.
_Não vejo a hora?! – me irritei – Eu não aguento mais pegar hora extra naquela porra daquela produtora, por SUA causa, e você vai me dizer que eu GOSTO de ir trabalhar?! Por quê? Por que a minha chefe, desta vez, não é uma filha-da-puta?! Ah! Se liga, Fernando!! Quanto chefe babaca eu já não tive que aturar na minha vida e você sabe, porra, desde os 17 que eu trabalho. O mundo inteiro lida com gente idiota, mano, todo dia, e você não pode segurar o seu emprego por duas semanas, caralho?! A gente tem que pagar o aluguel daqui quinze dias. Engole. Engole a porra toda e de boca fechada, mano, foda-se o cara. Foda-se! Você acha que está em posição de ser especial, cacete?!?

Discursei exaltada, em pé, na sua frente. Não posso acreditar neste moleque, argh. O Fernando ficou quieto, puto da vida, ouvindo sentado contra o encosto do sofá. Não me respondeu. E o meu argumento acabou ali, solto no ar. Nós dois ficamos em silêncio. Mudos. Aquela era a primeira vez que ele conseguia alguma coisa acima dos R$ 800 e ele foi lá e jogou tudo pela janela, irresponsável. Eu não podia acreditar, não mesmo. E de todas as pessoas, eu era a que melhor o entendia – o meu temperamento era idêntico, também tinha dificuldade de forçar merda ouvido adentro –; mas não tínhamos como arcar esta. O final de mês estava chegando e eu já ia precisar pedir grana emprestada para os meus pais de qualquer jeito, com ou sem emprego do Fer. Não tínhamos mais um puto nos bolsos.

Sentei ao seu lado e cruzei os braços, encostada contra a parte de trás do sofá. Continuamos quietos. O clima na sala se assemelhou a um enterro, de tão pesado. Não sabíamos mais o que fazer. Cogitamos tudo, tudo o que podíamos. Desde vender o carro, que ainda precisava esperar algumas parcelas até estar quitado, até pedir para os pais da Mia. Grana ou vaga no sofá, qualquer coisa. Não. Nenhuma delas, argh. Eu estava furiosa, odiava quando as coisas saíam do controle. Gostava menos ainda de vê-lo naquela situação. E então, sem muita alternativa, o Fernando desencostou do sofá e foi em direção ao corredor do prédio.

_Eu vou ligar pro velho... – disse, desistindo.

julho 20, 2012

Perfekte Welle

_Ah, porra, vocês tão aí... – a Flavinha disse educadamente ao nos encontrar, na lateral da casa – ...tô saindo pra Vila Mariana já, vocês ainda vão querer a carona?

Me recuperei quase instantaneamente, desapoiando ambas as mãos da casinha de tijolos e erguendo o corpo, ainda um tanto zonza. A Clara estava ao meu lado, preocupada, e as duas me perguntaram sequencialmente se eu estava bem. “Aham...”, acenei, mentindo. Só vamos embora logo, fechei as calças escancaradas e peguei o maço no chão. O frio agora se fazia sentir duramente no meu corpo debilitado, argh. Entramos e despedimo-nos sem muitos rodeios das garotas que ainda restavam na sala; abracei a Lê já na porta e nós fomos.

A minha cabeça doía, instável; e o caminho de volta pareceu durar uma eternidade. Colocadas por cima das minhas, as pernas da Clara aqueciam o meu colo no banco de trás. Estava gostoso, mas as luzes de São Paulo me doíam a vista. Inferno. Subimos as escadas do seu prédio com dificuldade, eu apoiada nela e ela cambaleando, às vezes, contra o corrimão. Ríamos muito. O seu apartamento estava silencioso e, como de costume, havia certo charme naquela bagunça toda. Sentou-se na beira da janela do quarto, descalçando as botas, e me observou admirá-la. Dividiu, então, a cama comigo e dormimos sob diversas camadas de cobertas, quase o dia todo. Um domingo perdido. Voltei para casa quando já era noite.

Fui direto para o corredor, em direção ao quarto. “Recebi seu ‘bilhete’” – o Fernando resmungou detrás do sofá, assistindo TV na sala. Ótimo. Ignorara o meu “boa noite” na entrada e agora agia de modo proporcionalmente infantil ao meu chilique da noite anterior. Só de birra, não nos falamos direito por uma semana. Oito em ponto da manhã, na segunda-feira, e eu estava plantada, com um cigarro pela metade na boca, frente à loja de celulares. O meu bebê estava pronto. Glória, glória – aleluia! Paguei o que não tinha pelo conserto, afundando-me ainda mais nas contas, e o reiniciei já a caminho do trabalho, ansiosa.

“Eu sei q. ñ faz sentido, que ñ tem nd a ver... mas machuca, poxa :/” – a mensagem da Mia destoava entre todas as outras não lidas, uma caralhada delas enchera atrasado a minha caixa de entrada. Assim que vi o seu nome, cliquei impulsivamente para ler. E li com certa culpa, me sentindo mal; mas confusa. Do que você está falando?! A data era daquele sábado para domingo, 1:02 am. Imaginei o que estaria fazendo para me mandar uma mensagem àquela hora. E me veio à mente ela em seu quarto, sozinha, pensando em mim agoniada durante a madrugada. Mas o que diabos eu fiz? A imagem, por mais irreal e improvável que fosse, me perturbava.

Fechei a sua mensagem e virei a esquina, apagando o cigarro numa parede qualquer. Fui rolando abaixo a lista de “não lidas”, enquanto tentava me lembrar da última vez que a vira, por que poderia estar magoada? Passei por algumas mensagens da Lê, outras duas da Clara. Pensei na festa de sexta, nos 5 minutos na lavanderia. Abri uma das mensagens. E foi então que me ocorreu – a deixara na manhã de sábado para ir à Ouro Fino com a Clara. Era isto, nós discutimos. Como fui esquecer?

Tornei a baixar os olhos. E lá estava: “A gente, sabe, se orgulha de viver sob as nossas próprias regras e gastamos energia para mostrar pro mundo o qto somos livres, o qto somos felizes. A verdade eh que nunca estive tão bem, como estou com vc. Obrigada pela visita, Bo :)”. A mensagem era de uma semana antes, de quando interrompi o seu jantar para dizer, de forma bem pouco articulada, que gostava dela. Era a mensagem que eu não respondi, a tal.

Diferente da da Mia, que parecia ter sido escrita num impulso de madrugada, esta me soava como algo que a Clara pensara e reescrevera por horas. Até encontrar um jeito certo, e menos comprometedor, de me dizer: “gosto de você também”. E depois ficou brava porque eu não respondi. Sorri. A imaginei inquieta, com sua “amiga” já adormecida na cama, tentando entender por que diabos eu não respondia. A ideia me divertia.

É que não é fácil, entende, nem para mim e nem para ela, falar assim sobre o que sentimos às garotas. O comum é não sentirmos coisa alguma. E não ter obtido resposta minha deve ter sido mesmo exasperante – eu sabia, já havia tido a minha cota de elevadores fechados e conversas de mão única em Higienópolis no ano passado. Ah, por isto você estava toda bravinha no MSN sexta, ri.

Cheguei ao trabalho com uma vontade imensa de ligar para ela – e me esqueci da Mia. Naquela e nas próximas semanas, me esqueci. Eu e o Fer voltamos a nos falar, a minha relação com a Clara cresceu, eu trabalhava todo dia feito louca, pegava cada hora extra que podia e a Mia não me mandou mais mensagens, exceto um “ei, o que anda fazendo? :)” numa quinta aleatória, que eu categoricamente ignorei. A vida ficou fácil. Por quase dois meses ficou bem – mas aí, é claro, virou de novo de cabeça para baixo.

julho 13, 2012

Meio, fim de festa

Logo interromperam-nos, a Lê encontrou a mim e à Clara na lateral da casa e avisou que o jantar começara a ser servido lá dentro. Àquela altura, nós duas já estávamos no segundo cigarro e no milésimo beijo, amassadas contra a parede, testando os limites da boa conduta como convidadas da festa. Entramos na sala, levemente descabeladas, e guardamos os nossos maços nos bolsos; a Clara ainda tinha as bochechas levemente vermelhas quando sentou à mesa e eu sorri, achando graça na “quentura” dela naquela noite fria. De entrada, a Marina e as meninas colocaram uma salada sobre a toalha azul marinho.

Aos tomates cerejas e folhas de manjericão, seguiram-se os acompanhamentos salteados, as taças de vinho e a lasanha de berinjela com queijo Chèvre. Propus um brinde ao aniversário – que eu esquecera, horas antes – da Letícia; todas gritaram o seu nome comigo, animadas. A Clara se entrosava bem, apesar da sua fama, conversando com todas que podia. Quando a sobremesa chegou, sorvete e calda de framboesas, meu estômago já estava cheio demais para acompanhá-las. “Bichinha”. Ouvi a Paula dizer e sorri, sem ceder. Minha convidada, por sua vez, serviu-se e eu arregalei os olhos, rindo impressionada.

Pratos e tigelas amontoados, com apenas restos, acumulavam-se há meia hora. Mesmo acabado o jantar, continuávamos à mesa e as taças de vinho fluíam tão bem quanto a conversa, que durou mais uma hora inteira ali. O álbum do Uh Huh Her tocava nonstop. Malditas lésbicas. Estávamos tão bêbadas de uma garrafa chilena atrás da outra, que eu e a Letícia nos debruçávamos sobre a mesa, rindo de algo que nem eu saberia dizer o quê.  A Clara, igualmente embriagada e mantendo ainda a compostura na cadeira ao meu lado, ria de mim e do meu estado e engajara numa conversa conciliadora com a Marina, no assento oposto. Eu devia estar ouvindo isto, verdade – porém já não conseguia mais prestar atenção em nada.

Outra meia hora e aquela era a 3ª vez que escutava “I'm better than the other one, you're a harder chase” sair do rádio. Mais dez minutos, outras duas taças. E discutia aos gritos, instavelmente e em pé, com a Camila na outra ponta da mesa. Entre um verso e outro da música alta, eu fora de mim, enquanto a Clara me puxava pela camiseta e mandava que me sentasse de novo, que deixasse de ser grossa e cabeça-dura. “Você tá ouvindo o que essa idiota está falando?! Idiota!”, eu batia na mesa, bêbada. Alguns minutos antes, ela defendera que a versão traduzida de “Starman” era melhor que a do Bowie; eu perdi a cabeça em meio segundo, . A minha amiga então tomou as dores do rock nacional e gritava de volta comigo, irritada, argumentando que me tornara uma fã quadrada e chata. A Lê me forçou de volta, sentada, à cadeira e encerrou a briga.

“You're fast against mine, I will tear you from the...”, quarta vez. Todas amigas de novo, as pazes feitas. A garrafa rodava, deitada, no centro da mesa e despejávamos os podres uma da outra para as demais. Em especial a Clara e o casinho da Paula, na centésima taça cada uma e se divertindo às custas de todo o conhecimento que acumuláramos naqueles anos de convivência. Garotas paranoicas, sexo, cada surto e pirraça, os fiascos, os vexames em meia a festa, as fases, as piores desculpas, o uso mal-dosado de drogas e os relacionamentos fracassados. A Marina, mais alta do que a vira havia tempos, ria já quase sem fôlego e confirmava tudo com a cabeça, os óculos já abandonados sobre a mesa. Deus. Eu dava graças aos céus que a Clara não lembraria daquilo no dia seguinte.

“Vem. Vamos cair fora um pouco”. Disse no ouvido dela e escapamos; as meninas se concentravam em abrir descoordenadamente a ... (perdi a conta) rolha da madrugada. Numa tentativa discreta, saímos da mesa curvadas e apoiadas bêbadas uma na outra. Mais vinho, cês tão loucas, porra. Rimos, trombando na porta da lateral, e fugimos com sucesso. O quintal estava escuro; o sol ainda não havia nascido e um frio úmido das 5 e pouco se alastrava. Escondemo-nos atrás da casa de tijolos, onde ficava o botijão, que era acoplada à lateral da casa. Beijei a Clara com uma vontade embriagada e incontrolável.

Nos enroscamos. Os seus braços subiram até os meus ombros, eu descia as minhas mãos. E empurrava-a contra a parede; as duas indelicadas. O tesão tomava conta do meu corpo inteiro, podia senti-lo progredir, como se contaminasse irracionalmente cada uma das minhas veias. Não conseguia me concentrar em nada. Eram momentos desconexos, lapsos na minha memória, e que de alguma forma faziam sentido quando fluíam, sucessivamente. Cada beijo, cada chupão, as mãos dela, a pressão nos meus lábios, as mordidas, o seu corpo pesando no meu, os toques. Como se eu fechasse e abrisse os olhos, o tempo todo, repetidas vezes. Desci a língua pelo rasgo da sua camiseta, a gola – a minha cabeça rodava incessante, intensamente. As suas mãos metidas no meu skinny jeans. A minha coxa pressionada entre as suas. Filha-da-mãe, porra. Roubava-lhe um beijo, nos contorcíamos juntas.

Aquela era a quinta vez, “tell me I’m the only one, the only one”, ao fundo. Ainda no breu. Ri sozinha, ao notar, e a beijei logo em seguida. Enfiei as minhas mãos no seu cabelo então, segurando-a com vontade enquanto a beijava, esquecendo-me às vezes de respirar. Desci um dos meus braços até os botões da sua calça. Um. Dois. O zíper, o lance todo. Apoiei a testa no seu ombro, por um segundo, buscando um pouco de estabilidade; tentando voltar à realidade, ao mínimo de consciência. Tontura alcóolica, desnorteada. Caralho. A Clara encostou a boca no meu ouvido, me falando cada obscenidade que queria de mim naquele instante e não podia ter. Caralho; caralho, meu. Tudo o que eu queria era uma cama, porra – e sobriedade; senti que ia passar mal.

Nem pensar, se controla. Era o único pensamento que a minha cabeça conseguia formular. Aceleramos então, a intensidade, tudo. Os beijos se multiplicavam, os abraços, os corpos arrastados, tudo mesmo. Confuso – e eu sentia como se estivesse prestes a explodir. “Tell me I'm the only one, the only one...”, ouvia, repetidamente. Os orgasmos vieram consecutivos, quase simultâneos; perdi o fôlego por um instante. Ela beijava o canto da minha boca, entreaberta; e assim que caí de novo em mim mesma, senti-me realmente mal. Numa re-consciência violenta. Dei dois passos para trás no frio e me virei rapidamente, apoiando a mão nos tijolos da casinha.

_Você tá bem? – ela se assustou, vindo na minha direção.

Colocou a mão no meu ombro, preocupada. E tão logo respondi “não muito”, engasgada e com falta de ar, foi o que bastou para o meu estômago revirar-se por completo. Vomitei duas vezes, todo o maldito vinho. Gran finale.

julho 09, 2012

[ GRUPO NO FB ]

Grupo oficial no Facebook

Meninas (e meninos!)

Queria convidar, a quem ainda não entrou, para participar do nosso super movimentado e divertidíssimo grupo oficial do Fucking Mia no Facebook. As postagens são fechadas para membros, apenas, e o nome é bastante discreto – em consideração às leitoras(es) nativos de Nárnia. São um bando de garotas que lêem o blog falando sobre os posts e sobre música, MMA, relacionamentos, o que seja. E me xingando sempre que demoro (como agora) para postar, rs.

Seria legal ter vocês todas(os) lá! :’)

Aproveito para deixar o meu obrigada pelos comentários, sempre sempre, e por acompanharem a história com tanto carinho e paciência! Adoro saber que tem gente aqui há uma eternidade, mas também novas (e muito bem-vindas) leitoras. Obrigada mesmo! 

Um beijo enorme,
Mel M.

Tautologia

Entre sorrisos e o trincar das taças de vinho contra a garrafa, lá estava a minha garota, embebedando-se em boa companhia. Ótimo – qual será o tamanho da merda que eu falei pra ela? Balancei a cabeça em autodesaprovação e entrei, corajosamente, na sala. Cercando o charme argentino da Clara e acompanhando o ritmo com que se esvaziavam os copos ali, estavam a Lê e a Camila em pé ao seu lado, próximas a uma mesinha alta e redonda. Um vasinho de violetas de enfeite, duas garrafas de tinto abertas. Conversavam já entretidas, e interessadas, as três com as taças entre dedos.

Me aproximei, apoiando suavemente a minha mão na parte inferior das costas da Clara, num movimento “territorial” inconsciente e imbecil. Um “te amo” desastroso, meia hora atrás, e agora isto? Tira a mão daí, idiota! Ao tocá-la, no entanto, ela imediatamente olhou para o lado e aí me ofereceu um gole, sem dar tempo para os meus reflexos. Deixo a mão? Tiro a mão? Corto fora?, digladiei por um instante, mentalmente. E aceitei o vinho – os dedos já escorregando para fora das suas costas. Conforme bebia, fiz questão de encarar firmemente a Lê à minha frente, que segundos antes tinha os seus olhos fixos na curva da minha camiseta do Billy, ou seja, na cintura da Clara.

Comporte-se aí, “amiga”.

Devolvi a taça e ri muito superficialmente do assunto, elas falavam sobre um vídeo bobo que circulava na web. Eu não estava realmente ouvindo, sequer o havia assistido. Olhei para a Clara, mas as suas expressões permaneciam enigmáticas. Ela percebeu? Percebeu ou não percebeu?! Será que me ouviu? Tentava (em vão) ler cada milímetro dos seus gestos, analisando todo o seu comportamento. Eu estava nervosa, ansiosa por este motivo – era estranho não saber. E ela me encarou de volta, dando um gole no vinho. Acho que ouviu, sim – mas a verdade era que eu não sabia, não podia saber; passara batido na hora e agora era tarde demais para verificar. A Clara me observava hesitar, sorriu discretamente para mim. Ah, ela ouviu.

E a conversa continuava ininterrupta, passando por todos os últimos hits do YouTube; eu não poderia estar menos concentrada no assunto. Ela pode só, sei lá, estar feliz com isto. Ou, devolvi-lhe o sorriso, levemente apreensiva por dentro, pode também estar se vangloriando aí, pensando que eu agora sou uma babaca apaixonada por ela. Encarei o chão, argh – que inferno. A mera ideia de que ela pressupusesse deter o controle do que nós tínhamos, na sua cabecinha ego-inflamada, e tudo por uma frase maldita que escorregara sem intenção da minha boca era, era... não. Não. Tudo menos isto, cara. E enquanto eu auto-induzia tensão aos meus pensamentos, a Camila tagarelava incessantemente com a Lê sobre uma iguana e algo acerca de uma banheira; eu as ignorava.

_Sabe... – a Clara se aproximou do meu ouvido, cochichando, sem atrapalhar o tópico delas – ...eu quis te matar, te matar mesmo lá dentro.

Falou delicadamente. Referia-se à cozinha e à minha ceninha com a Marina – “você é muito panaca”, disse. Ri e me desculpei imediatamente, nem lembrava disto, meu.  A Clara achava graça também, o seu humor era favorecido ainda pelo tinto em mãos. Talvez ela sequer tenha ouvido, vai..., pensei. Uma pausa de milésimos de segundos do seu olhar no meu, todavia, fez com que a dúvida logo ressurgisse. Era uma oscilação a cada sinal, tudo muito incerto. Isto é ridículo, mano, eu devia perguntar de uma vez, suspirei. Sou uma besta mesmo, me irritava com a minha inquietação involuntária. Eu não falo estas coisas. Eu nunca falo estas coisas. Nunca – o que que foi me dar, logo hoje? Arrependi-me e toquei, num impulso, de leve no seu braço.

_Ei, escuta, quer sair pra fumar ou algo assim?
_Vamos, vamos...
_Vou só pegar o meu maço, deixei na cozinha, e a gente vai...

“Espera aí, volto já”. No meu caminho até o cômodo adiante, trombei com a Paula e a sua acompanhante desconhecida, que saíam de lá de dentro. A garota parecia escondida atrás da constante sombra da minha amiga de anos, ninguém a ouvira falar uma palavra sequer a noite toda. Já a Paula, por sua vez, vestida numa camisa social vermelha com uma jaqueta de couro preto por cima e o seu cabelo Joãozinho-caminhão, logo fez-se presente e abriu a boca, com palavras até em excesso.

_Cara, é sério que a Marina saiu com esta mina aí que cê trouxe? – eu a encarei na mesma hora; como diabos vocês trocam este tipo de informação em menos de cinco minutos, meu; irritada já, puta merda – E você, meu?! Não é estranho estar com as duas aqui?? Cê já sabia disto antes de vir?
_Sim. Não. E não. Agora sai, Paulinha; sai da minha frente.
_Mas, mano, ela despejou mesmo a Má depois de ter comid...?!
_Escuta, não é da sua conta, né? – a interrompi, grossa, entrando na cozinha.

E a minha ex-namorada estava encostada no balcão, as pernas cruzadas e a mão beliscando de um pote de amendoins, enquanto falava com a Ana. Fofoca destas, logo você? Jura?! Lancei para ela um breve olhar indignado. E voltei o rosto para a mesa ao meu lado, pegando o maço praticamente cheio que havia esquecido ali. Tudo bem. Não era como eu pudesse esconder este tipo de coisa da rede lésbica e as suas bocas grandes. E vai, a Marina foi sacaneada também, então nada mais justo; I guess. Saí pela porta da cozinha até a sala, o maço em mãos, e fiz um gesto para a Clara me seguir. Passamos por uma porta já do outro lado, que dava na lateral da casa; uma espécie de quintal estreito. Alguns vasos com ervas jaziam no chão de ladrilho, malcuidadas; todas certamente plantadas pela Ana. Acendemos cada qual o nosso respectivo cigarro, ambas encostadas contra a parede.

_Você já está oficialmente conhecida, hein... – balbuciei com o filtro ainda na boca, apagando o isqueiro – ...virou a “mina que deu aquela puta mancada com a minha ex”, cê sabe, né?
_Nossa, hein. Valeu!
_Quê?! Não fui eu que espalhei a notícia, meu... – ri – ...só tô sendo honesta.
_Ah, porque você é um poço de sinceridade mesmo... – a Clara soltou a fumaça para baixo e achou graça, implicando o mesmo passado de mentiras bandidas que dividíamos.
_É. Pois é.

Mas estou trabalhando nisto... E estava mesmo; nós duas rimos juntas. Nos entendíamos de alguma forma; estava frio e escuro ali fora. O vento da madrugada batia contra o tecido fino das nossas mangas; mas não parecia nos incomodar, não naquele instante.

_Por... falar nisto, meu... – tomei coragem e me desencostei da parede, já inquieta; pus-me à frente da Clara, as minhas botas esbarravam de leve nas suas – ...eu queria falar... com, contigo.
_Hum, e sobre?
_Sobre... ah... – ri, envergonhada; olhava para o chão e levantava a cabeça, hesitante, uma das mãos sobre a testa, o cigarro entre os dedos – aquilo que... eu... meio que falei, antes.
_Ahm. E o que você, meio, falou antes? – ela riu, de volta.
_Ah... cê sabe...
_Não, eu não sei. Não sei de nada. O que era?

Ela sabia. Agora eu tinha certeza – ela, a Clara, mordia os seus lábios argentinos e, ah. Eu podia ver nos seus olhos, espertos e debochados.

_Nada, cê sabe – respondi, rindo.
_Sei, “nada” – ela riu junto e me encarou, fixamente; sorrindo.

Assim. Sem elevadores, sem namoro-dramas. Ela sabia.

julho 02, 2012

A Petulante

(...)

_E aí, meu... está bonita, hein.
_Mas, mas você disse que não vinha! – a Marina sorriu, surpresa – O que aconteceu?!

Dei-lhe um beijo no rosto, afastando-me em seguida e ela logo voltou os seus olhos para a Clara, lindíssima na minha camiseta do Billy Idol, em pé ao meu lado. “Mudei de ideia e resolvemos vir...”, respondi, encarando-a. Ela agia normalmente, ainda que a reconhecesse; eu podia perceber. Sorri então e as apresentei, “esta é a Clara, aliás” – como se eu já não soubesse de nada do que rolou entre vocês.

_Oi!
_A... a gente se conhece – a Marina tentou disfarçar, virando-se sem constrangimento a ela – E aí, tudo bem?
_Tudo. E você?
_Claro.
_Mas... – interrompi-as, com um grande sorriso involuntário no rosto – ...vocês se conhecem de onde?

A Clara imediatamente me lançou um olhar indignado, repreendendo-me, como se fosse capaz de me matar por aquilo. Quê? Atrás de nós, as garotas seguiam cozinhando o que eu agora confirmara ser mesmo um molho bastante cheiroso. Uma travessa de lasanha descansava, crua e com muitas camadas diferentes, sobre um balcão próximo de nós. Cumprimentei a Jéssica com um gesto apenas de relance, por cima do ombro da minha ex. A Marina fechou os olhos, confusa.

_A, a gen... – ela hesitou, atrapalhada na própria explicação; eu me divertia por dentro.
_Hum?
_É que... a, a ge...
_Ela é amiga da minha melhor amiga – a Clara se adiantou e respondeu por ela, curta.

Jura? Não acaba com a graça, a olhei de volta, com um sorriso no canto da boca.

_Ah, é?
_É. A gente saiu, uma vez. Anos atrás.
_Quê?! Vocês duas?! – eu achei graça, fingindo surpresa ao ouvir a minha sempre honesta ex-namorada falar sobre o que eu já descobrira dez minutos antes.
_U, uma vez.
_Nossa...
_Mas, sabe, não é como s...
_Ela sabe.

Silêncio, Clara.

_Eu contei assim que te vi. Agora há pouco, na porta. Bom te ver! Olha, eu vou buscar mais vinho... – a Clara anunciou, após cortar o meu barato.
_Não. Bi, espera...
_Ah! Claro que você sabe... – a Marina então revirou os olhos para mim, suspirando aliviada.

Droga. E ambas me deram simultaneamente as costas, cada uma para um lado, me ignorando. Por que estragar o momento? A Marina deixou de lado na pia um pano com o qual limpava as mãos durante a conversa, indo em direção à geladeira; e a Clara retirou-se novamente para a sala, fugindo para bem longe da minha inconveniência. Ah. Qual é, garotas?! Mantive o meu espírito esportivo, de bom humor, ainda rindo conforme retomava o assunto. Corri uns três passos para alcançar a Marina no outro canto da cozinha, encostando o antebraço no alto da Cônsul antiga da Lê e encarando-a.

_Quer dizer, então... que vocês duas, hum... hein?
_Você está adorando isto, né. Eu já devia saber... – desviou o olhar de mim, abrindo a porta da geladeira, revoltada com a forma como as minhas pupilas brilhavam incontidas ao mencionar o seu histórico – ...é a sua cara mesmo se divertir com uma coisa destas.
_Ah, vai...
_Quieta!
_O quê?! Eu não posso achar, hum, nada? Nem... um pouco... interessante?!
_Não. Você está imaginando nós duas na cama, eu sei, e isto é ridículo.
_Ah, agora que você disse... – comecei a rir.
_É. “Agora”, né.

Fechou a porta da geladeira com uma peça pequena de parmesão nas mãos, se voltando para a mesa bagunçada ali ao lado. A ideia das duas juntas, de fato, me era incomumente excitante. Eu sorria, imprestável. Pensava. A Ana tinha uma faca em mãos, picava framboesas ao nosso lado para o que parecia uma possível calda, cortando-as na mesa e enchendo uma panela. Hum, sobremesa então. A Marina se alojou logo ao seu lado, colocando o queijo entre os ingredientes do molho. Eu ria situação.

_Mas, e aí? O que aconteceu entre vocês?! – insisti, seguindo-a pela cozinha.
_Nada. Você já sabe o que aconteceu.
_Tá, mas...
_”Mas” nada, chega.
_Mas eu quero saber o que, como, a sua opinião. Sei lá!
_Eu não vou dizer a minha opinião, foi anos atrás. E, meu, que diferença faz agora? Você gosta dela, cara, eu não vou me meter.
_Gosto. Gosto mesmo.
_Então, pronto!

Me encarou e logo virou o rosto à mesa, como se encerrasse o assunto com aquela única frase. Tá, tá. Não está mais aqui quem falou!, ergui as mãos e abstive-me de qualquer comentário ademais, ainda rindo. Achava graça em como a Marina apertava os olhos toda vez que estava irritada, o fazia com frequência na minha direção. Dramática. Concentrava-se agora em ralar o parmesão dentro de um pote. As raspas caíam finas e delicadas, com leves curvas nas pontas, umas sobre as outras. Bati os meus dedos sutilmente na superfície de madeira. Foi quando, do nada, dois segundos da minha conversa de minutos antes com a Clara voltaram, frescos, à minha cabeça. O quê?! Apoiei a palma da mão sobre a mesa.

_Na verdade, e... – o meu cérebro só então processou a lembrança e eu murmurei, atordoada – ...eu acho que, que eu... disse alguma... coisa. Merda. Já volto!