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abril 30, 2013

We can break the pattern, we can change the color!

...it’s just a little sacrifice” – La Roux


Ela soltou os cabelos antes de terminar de prendê-los. E apoiou então as mãos na beirada da pia, fechando a expressão. Ainda usava a minha camiseta velha, descalça sobre o piso frio, e me ignorava. O silêncio cresceu desconfortável. Eu a observava, ainda em pé na porta entre o corredor e o banheiro. A lata de Coca na mão. A sua ausência de reação me agitava, inquietando o meu peito e os meus pensamentos, acelerados. Por que eu fui abrir a porra da boca?­ – agora era tarde para voltar atrás. Respirei fundo. “Eu estou falando sério, Mia”, reafirmei. E ela abaixou a cabeça por instante, num suspiro relutante.

_Tá bom... – retrucou, erguendo novamente o queixo – ...se você quer, eu vou embora então.

Veio na minha direção, na da porta, sem me olhar. Como se eu a tivesse ofendido ou mandado ir. A meio passo de onde eu estava, coloquei a mão sobre o batente impedindo a sua passagem e dei um passo adiante, fazendo-a recuar. Fechei a porta atrás de mim. “Escuta”, segurei o seu rosto por um segundo e ela logo se desvencilhou. Inferno –  por que fui começar esta merda logo a esta hora? Tudo o que eu não queria era discutir com ela. O álcool da noite passada ainda martelava na minha cabeça, na dela provavelmente também. As olheiras denunciavam as nossas poucas horas de sono.  

_Mia...
_Por que? Por que isto agora?! – rebateu, ficando nervosa.

A olhei, sem falar nada – porque eu te amo, porra. Porque acaba comigo, toda vez. Encostei contra a porta fechada e agachei no chão, tentando ganhar algum tempo. A Mia me encarava à espera da resposta. Descruzou os braços então. “Isto tem a ver com a Clara, não tem?”, me perguntou e eu fechei os olhos, balançando a cabeça lentamente. Não. “Sei”, ela riu, levemente irritada. E se voltou mais uma vez para a pia, uns metros adiante, apoiando as mãos na beirada fria. Continuei em silêncio. Algum tempo depois ela se sentou também no chão, na parede oposta à que eu estava. Fugindo dos meus olhos – encarava agora, muda, os ladrilhos.

Passados uns minutos, retomei com calma:

_Não foi minha intenção... – murmurei – ...eu não quero te pressionar, eu...
_Eu achei que – ela me interrompeu – ontem tinha sido legal, não, não foi?
_Claro que foi!

Deus, como eu explico isto?

_Então qual o problema, de repente?!
_Este. Este é o problema, Mia. É que foi bom, foi muito bom – aumentei o tom de voz, involuntariamente –, todas estas últimas semanas com você. E caralho, toda vez que for bom, o dia seguinte vai ser sempre um lixo. Não é possível que você não pense nisto, em nós, em você com o Fer...
_É claro que eu penso!
_E isto não te incomoda, meu?!

Aumentei demais a voz. E as minhas palavras ecoaram no banheiro, um pouco mais alteradas do que eu gostaria. Ela se retraiu, ficando quieta em resposta. Isto está se transformando em tudo o que eu não queria que este dia fosse, me arrependi, numa hesitação dilacerante. Parte de mim queria ficar com o que fosse dela, com o pouco ou quase nada dela. Dane-se! – meu coração, as minhas entranhas gritavam. E a minha cabeça doía em contradição, querendo se livrar de vez. Querendo que ela se posicionasse comigo; ou que fosse logo embora.

_Não é como se... – ela então enroscou na garganta, as suas palavras pareciam subitamente marejadas – ...eu, sabe. As coisas estão estranhas faz tempo. Eu já, já pensei em me separar dele. E às vezes eu sinto que não sei de mais nada, não sei, não sei se ainda amo ele. A gente, só...
_Escuta – tentei reconfortá-la, ela parecia ansiosa –, eu sou amiga do Fer. E antes de mais nada, eu amo ele incondicionalmente, Mia. Eu nunca te pediria para fazer nada que o machucasse. Se você me disser agora que quer ficar com o Fer, que quer de verdade, eu me afasto. A gente para por aqui e ninguém fala mais nisso. Desta vez é sério. Mas eu também preciso que você saiba que eu quero ficar com você. E que eu vou ficar, se você também me quiser. A única coisa que eu não posso mais fazer é viver assim, o tempo todo pela metade. Entende? Porque se você acha que isto não me machuca ou que machuca menos ele, você está errada. Nós duas estamos.
_Tá. Mas, cara, você realmente quer que ele saiba? – ela me encarou, com certa razão.
_Eu não sei...
_Então não faz isso. Eu, meu, eu não quero ficar sem você. Não de novo.

Volta atrás agora, caralho – o meu coração implorou aos meus lábios, mudos. Merda! Respirei fundo. E me ergui em pé novamente, indo até ela. Do outro lado do banheiro. Me agachei à sua frente e toquei então os seus joelhos, dobrados junto ao seu corpo. Ela me olhava. Parecia ter perdido o controle dos próprios olhos, das suas emoções.

_Eu, eu quis dizer tudo o que disse ontem – acariciei o seu rosto e ela manteve os cílios secretamente molhados, me encarando direta; as maçãs do rosto ainda secas –. Cada palavra daquilo. E eu sei que eu sou ruim em admitir que te amo – as palavras logo me incomodaram, por dentro –, que eu gosto de você o tanto que gosto. E talvez isto atrapalhe tudo. Mas você tem que entender que eu entrei numa guerra que eu não podia ganhar. Eu vou te perder, Mia; ou eu vou perder o Fer.
_ Ah! Por que? Você acha que é fácil para mim?!
_Não. Eu sei que não. É só que ficou pesado demais agora e, de verdade, eu não consigo mais. Eu não quero mais enganar ninguém.
_Tá bom. Mas eu não posso fazer isto, não assim.
_Mia, se fosse fácil, estaria resolvido dois anos atrás... – eu ri.
_Então você consegue? Olhar para o Fernando e contar tudo?!

Disse séria, me encarando. E eu não soube lhe responder. Eu não conseguiaesta era a verdade; mas isto não resolvia o nosso problema. Eu a colocava numa posição agora de fazer o que eu sequer tinha estômago para cogitar. Grande covarde. Ela abaixou mais uma vez a cabeça, respirando fundo. E eu permaneci ali, calada.  

_Eu preciso ir – ela disse de repente, se levantando.
_Mia... – levantei logo atrás dela, como num reflexo.
_Meu pai já ligou duas vezes. E, e eu tenho que pensar.
_Eu sei. Tudo bem.

Ela deixou o banheiro. Argh. E eu fiquei sozinha ali por alguns minutos, entre aquelas quatro parede ladrilhadas. Frias. Numa tentativa silenciosa de processar tudo o que acontecera. Foi quando ouvi a porta da frente bater. Era ela. E fui tomada pela incerteza de quando a veria de novo, do que diabos eu acabara de fazer. O meu coração acelerou violentamente. Senti uma vontade idiota de desatar a chorar – e liguei para a Marina, em desespero.

_Eu fiz merda, Má. Eu fiz uma merda muito grande!
_O que aconteceu?! Você está bem?!
_O Fer, eu... – minha respiração tremia – ...ah, puta merda.

abril 23, 2013

As sardas e os ladrilhos

E ela ficou. Durante as horas seguintes, pelo menos – os pés entrelaçados nos meus, a maciez do seu braço sobre a minha pele. E quando acordei, ela já não estava mais lá. Abri os olhos com certa consternação, lutando contra os primeiros sinais de ressaca e a luminosidade das persianas escancaradas. Plenas quatro da tarde e um calor infernal. A vi sentada mais adiante, nua e curvada sobre a cadeira. À frente da escrivaninha, debruçada nela. “O que você está fazendo?”, perguntei num resmungo, como quem ainda não acordara direito. Os seus seios revelavam-se por detrás dos braços apoiados sobre um papel; tinha a pele do corpo todo descoberta e as flores de cerejeira iluminadas pela janela aberta – ela escrevia algo.

_Estou copiando – respondeu então, sem tirar os olhos do papel, e notei um livro aberto à sua frente –, é aquele poema de ontem.
_Por que? – ri – O livro é seu, porra, eu comprei para você.

Ela se virou, a apenas uns metros de onde eu estava, para me olhar. “Então eu posso levar?”, perguntou confusa. E eu ri de novo: “claro”.  A Mia sorriu e eu achei graça na sua reação – o que, você achou que eu lia poesia para todas que queria levar para cama?. Ri sozinha e balancei a cabeça, inconformada. Então esfreguei as mãos no rosto, forçando o meu despertar, e sentei logo em seguida com os pés para fora do colchão. Me levantei e fui até o armário, vestindo uma calcinha que tirei da gaveta. “Vou na cozinha, você quer alguma coisa?”, ofereci, conforme vestia uma blusa velha. A estampa era do Le Tigre.  

_Não precisa – a Mia respondeu e eu caminhei até onde ela estava, me curvando sobre a escrivaninha –, tenho que ir daqui a pouco.

A beijei então, com as mãos apoiadas na mesa – e ela ainda na cadeira, meio encurralada. Vê-la ali sentada, tão confortável em sua própria pele e nas minhas redondezas, incomodava. Havia algo de íntimo naquilo, algo de relacionamento na forma como nos portamos nos dez minutos iniciais daquele dia. E o meu surto ainda era muito recente. Eu ainda me sentia cansada, numa espécie de exaustão existencial que parecia ter perdurado. Mas sorri para ela e disse – “já volto então”. Num esforço sincero para não perturbá-la. Desapoiei as mãos da escrivaninha e me virei para a porta, indo até o corredor.

Minha cabeça dava sinais de enxaqueca. Assim que entrei na cozinha, trombei com uma garota semidespida. Mas, o que diabos...? Uma ruiva magrela de ombros tatuados e regata larga, encardida. Pouco simpática. O Du estava sentado do outro lado da mesa. De cueca e ainda sem camiseta, na direção de quem ela agora puxava uma cadeira. Começou então a comer uma tigela de cereal, com as pernas cruzadas sobre o colo dele. E sem se apresentar a mim. Que merda de garota é esta? Olhei para o Du, descontente, e me dirigi à geladeira sem dizer nada. Me abaixei para alcançar a última lata de Coca no fundo da prateleira.

_E aí, sobreviveu ao p.t.? – ele se aproximou, apoiando os braços sobre a porta da geladeira e deixando a garota sozinha – Não achei que você fosse mais acordar. A Mia veio afinal?
_Veio. E... – me ergui, olhando-o, e falei baixo – ...quem é essa de nariz empinado aí?
_A Liz. É uma mina da companhia, a gente atua junto – ele riu –. Ela tava no carro do seu lado ontem, cê não lembra? É que ela tá meio de mau humor agora.
_Mau humor, por quê? Deu tempo de eu fazer alguma coisa contra a cidadã nestes dois segundos todos que tô aqui?!
_Não é. Ela é... meio apaixonada por mim. E, tipo, ela sabe... – ele fez aquela cara que todos nós fazemos quando queremos dizer gay sem ter que pronunciar a palavra em si –, daí fica assim toda vez, na manhã seguinte.
_Mas, espera – cochichei pasma –, você come ela?!
_Não, meu. Só às vezes.

Olhei para ele e olhei para ela, surpresa. E então olhei para ele de novo e comecei a rir. Puta merda, hein, consegue ser pior do que eu. Ele deu de ombros para a minha reação. E eu abri a latinha observando-o estarrecida, com a porta da geladeira ainda aberta. A garota fingia não nos ouvir. Ele então se aproximou e perguntou se – “a propósito...” – eu não podia inventar algo, qualquer coisa. Queria sair com um cara à noite. Acenei, achando graça, e ele voltou para a mesa como se nada fosse. Quando enfim fechei a geladeira, caminhei até os dois e o abracei por cima dos ombros, na maior cara de pau. Encostando o meu rosto de lado no seu, abraçando-o por detrás.

_E você vai hoje, né? – sorri.
_Claro, pô.
_Vai onde? – a garota se dirigiu a ele, não a mim; logo ampliando a cara de poucos amigos.
_Hoje tem mais uma comemoração... – me intrometi, respondendo – ...uma parada mais família, sabe, jantar e bolo e estas coisas. Lá em Santo Amaro, nos meus pais.

Hum”, ela cruzou os braços e murchou de volta na cadeira, irritada. Troquei mais duas ou três mentiras com o Du e os deixei a sós, saindo da cozinha. Com a lata em mãos, voltei para o meu quarto, mas encontrei o cômodo vazio. Dei quatro passos de volta, então, ao corredor e a vi no banheiro. Usava uma blusa minha e as pernas descobertas, descalça no chão frio frente à pia. Estava molhando o rosto. Encostei no batente da porta e observei a Mia por um instante. Parte de mim não queria vê-la vestir, no dia seguinte, nada além das minhas roupas – argh. Tomei um gole da Coca e apoiei as costas contra o batente.

A Mia logo notou a minha presença. E sorriu para mim, através do reflexo no espelho. Eu sorri de volta – numa espécie de não-sorrir, sem muita intenção. Que inferno. Havia um peso em estar com ela no dia seguinte à festa que o Fer organizara, uma ressaca moral das boas. Das péssimas. Mas, mais do que isto, havia principalmente o peso de não estar, nunca, de fato com ela – e isto me matava. Suspirei, afastando aqueles pensamentos, e abaixei a cabeça. Fechando os olhos por uns segundos. Ela me viu pelo espelho – “está tudo bem?”. Eu andava estranha desde que fôramos dormir. Balancei a cabeça e disse que sim. Ainda que fingisse sem esforço, hesitei por um momento. Algo me incomodava. Desencostei da porta, como se fosse em direção ao quarto, talvez para me trocar. E então voltei, num impulso.

_Eu não quero mais fazer isto, Mia – falei, apoiada no batente.
_”Isto” o que? – ela prendia o cabelo com as mãos e as palavras simplesmente saíram da minha boca, sem qualquer reflexão.
_Eu preciso conversar com o Fer. Ou eu, ou você – ela olhou na minha direção –. Eu não posso mais fazer isto enquanto vocês estão juntos.

abril 21, 2013

3 Songs – pt. 3

Pardon me, but wasn't that your heart?
That I felt, on the bed? In the bed? In between the sheets?
I might have been confused – by all the sweat,
There was a lot of sweat!
(The Blow)


O silêncio daquele apartamento – iluminado pelo sol das quase nove da manhã – era reconfortante. Eu meio que dormia no sofá da sala, largada com as pernas de qualquer jeito e deitada na mesma roupa que chegara, vinte minutos antes. O Du subiu comigo?, me questionei mentalmente, sem ter certeza da resposta. No resto do tempo, à espera, mantinha pensamentos irracionais de sono misturados com álcool; uns sonhos meio lúcidos. Que me perturbavam as tentativas de dormir. E foi numa das vezes em que consegui apagar momentaneamente que a campainha tocou. Por vezes seguidas sem, claro, que eu escutasse.  

_Ei... – senti baterem nos meus All Stars, cruzados sobre o braço do sofá, e abri os olhos, encontrando a Mia ali em pé – ...passa a grana, essa porra é um assalto.
_O... que? – murmurei, confusa e bêbada.
_Sua porta estava destrancada – ela riu.
_Foi... de propósito... – me observou falar e sentar, ainda desorientada e com o cabelo amassado.
_Ah, claro.
_Eu queria que você entrasse... – justifiquei, meio enrolada na dicção e me apoiando contra o encosto, conforme acendia um baseado que estava na mesa de centro – ...sabe, assim de surpresa.

Ela assistiu enquanto eu tentava acertar a chama do isqueiro na ponta. Achando graça na minha falta de sucesso. Tinha agora amarrotado o vestido verde escuro, os seus fios castanhos – e desalinhados – do cabelo denunciavam as horas não dormidas. Se aproximou e puxou o fino dos meus lábios – “seu corpo não tá pedindo arrego, não, ô Amy?”. Eu a olhei sem paciência e mandei que me devolvesse, o que ela ignorou por completo. Antes que eu pudesse contestar – com um resmungo bêbado qualquer –, a Mia caminhou sorrateira para o corredor. Dei-me conta segundos depois. Passei então por cima do encosto do sofá e a alcancei na metade do caminho. Um metro antes do meu quarto. Segurei-a contra a parede, as mãos atraídas para a sua cintura naquele vestido soltinho, delicioso.

_Me devolve... – ordenei e ela balançou a cabeça em resposta, sorrindo; eu respirava a dois centímetros dela – ...você vai ter que me ocupar então.

Tão logo eu o disse, a sua boca invadiu a minha, me puxando pela camiseta. Beijei-a de volta. Com toda a embriaguez e o descontrole em mim. Num longo e intenso pressionar contra a parede. Caralho – aquilo me enlouquecia. Nem quatro minutos depois e ela mesma tirava a roupa no meu quarto, a porta devidamente fechada. Foram-se os tempos em que eu precisava te enrolar por meses para ver este pano sair. As minhas mãos arrancaram a minha camiseta com pressa, puxando o seu corpo descoberto para perto do meu. Subindo-a no meu colo. Beijava-a incessantemente, segurando-a. E a coloquei na minha cama, sob mim. Sobre mim. Entre mim. Em todas as posições, numa imprestável coreografia aperfeiçoada nas semanas que se antecederam. As suas idas ao apartamento tornaram-se recorrentes. A longo prazo, todavia, aquele movimento todo me fervia o álcool que ainda restava na cabeça. E tornava-me incoerente, impulsiva.

_Volta para cá, inferno... – ela miava do colchão uma hora e pouco depois, nua.

E eu a ignorava, vasculhando as minhas coisas, também sem um traço de roupa no corpo. Estava em pé frente à prateleira que ficava sobre o computador. Bagunçando tudo, promovendo o caos. Até encontrar o maldito livro do Benedetti, propositalmente escondido dos meus olhos amargurados nos últimos dias. Sentei desnuda sobre a escrivaninha e cruzei as pernas, abrindo na página 79 – numa empolgação quase juvenil e alcoolizada. Porque te tengo y no, eu li, porque te pienso. E ela estranhou. Mas pôs-se a me escutar, sorrindo para o meu péssimo espanhol. Recitei sem remorso – afinal, o que tinha a perder a esta altura?. Não era como se eu estivesse lá muito sóbria, também. E pulei da mesa entre os versos. Subindo descalça pelo colchão, mantendo-me em pé; encostada contra a parede.

Porque eres linda, proclamei, desde el pie hasta el alma. Rimos. E ela me puxou as pernas – querendo que me juntasse a ela ali embaixo. Eu me entretia com a sua vontade de me beijar. Corazón coraza, segui lendo, em tom shakespeariano. Como se o inventasse para ela, o poema. E a Mia se enfadou da minha resistência, se ergueu também sobre o colchão, pondo-se ao meu lado. Senti a sua pele morna tocar o meu corpo já frio de tanto tempo fora da cama. Ela me beijou o pescoço. E foi beijando, convincente. Até que a interrompi. “Escuta”, fiz com que me olhasse; o livro permanecia aberto entre os meus dedos. “Hum” – ela riu, cruzando os braços. Nos divertíamos, leves. E eu disse: Porque eres mía, porque no eres mía. Porque te miro; continuei e a Mia sorriu. Antes que terminasse, levou as mãos ao meu rosto e me beijou com carinho. Do tipo que eu não lembrava jamais ter tido dela. Um carinho difícil de ignorar.

Larguei o livro por um instante e a segurei de volta, afundando os meus dedos no seu cabelo. E a trazendo para perto. Numa fome que me surgia de repente, de dentro das veias. Um pulsar filho-da-puta – e violento – por aquela garota. Caímos mais uma vez na cama, ajoelhadas no colchão. E atracadas em amassos, inebriando-nos. Eu percorria as minhas mãos, os dentes pelos seus seios, pelas suas costas; e a segurava pelas coxas, tornava a beijá-la com força. Os meus dedos a consumiram até um rápido orgasmo. O terceiro então. E tornei a alcançar o livro, tão logo nos deitamos.

Na minha cabeça, precisava terminar.

Folheei as páginas, bêbada, até encontrar onde tinha parado. Ah, sim: Porque tú siempre existes dondequiera, retomei. Quase sem dar-me conta de onde estava, com quem estava. Falava a esmo, tagarelava. Prestes a ser tomada por uma realidade relapsa. A Mia ainda recuperava o ar, me ouvindo ofegante e observando. Sentia necessidade embriagada de lhe dizer aquelas palavras. De lhe garantir, agora com certa seriedade: pero existes mejor donde te quiero. Ela fechou os lábios. Respirava de repente apenas pelo nariz, forçando uma quietude no cômodo que ocupávamos. E me fitando, inquieta. Tengo que amarte amor, tengo que amarte. O clima começou a mudar.

Eu lia em voz alta e ela parecia imergir nas minhas palavras. Senti os seus olhos acompanhar as linhas comigo, deitada ao meu lado e um pouco distante do livro. De repente estava tudo mais quieto. Merda. Aquela era a última estrofe, a que me fizera comprar o livro. Aunque esta herida duela como dos. Y aunque te busque – y no te encuentre, meus lábios admitiram, agora lendo com receio. E percebi as suas pupilas sobre mim, não mais atentas à página. Ela me sentia hesitar. Até terminar o poema. Chega. Fechei o livro, logo em seguida. E sentei na cama sem a encarar de volta, o colocando na mesa de cabeceira. Que ideia. Respirei fundo. E me virei então, tentando deixar de lado a atmosfera que se instaurara indesejada.

Me curvei sobre a Mia e beijei a sua pele. Fui me afundando. Num erro recorrente. E de repente, o seu gosto já não era o mesmo de minutos antes. A senti retrair – e então se entregar completamente. Numa estranha confiança e hesitação nas minhas mãos. Beijei cada centímetro das suas pernas, das suas curvas tatuadas. Mas sentia os meus movimentos pesarem. E por um instante apoiei a cabeça sobre o seu abdômen, procurando recuperar a sanidade. Suspirei. Porcaria. O foco pareceu escorregar entre os meus dedos. O meu coração não aguenta mais – e eu sabia. Num momento de lucidez eu soube. E não consegui continuar.

Ela também sabia. Eu estava exausta. Completamente exaurida. Dos meus erros, da forma como vivia a minha vida. De não tê-la. E de nunca ter realmente ninguém. Por culpa minha ou dos outros. Por circunstâncias. O meu coração desgastara-se. E destruí as pessoas que eu amava pelo caminho. Não faz isto agora, implorei mentalmente a mim mesma, sabendo que a bebida e o contexto me induziam, não entra nesta brisa. O sentimento era desconcertante. A Mia sabia que cada linha fora intencionada – e, porra, não eram as melhores linhas para se dedicar a alguém. Por mais bonitas que fossem, eram também dilacerantes. Por que eu fui ler? Senti toda a bebida e fúria e maconha daquela noite pesarem de uma só vez no meu corpo. E deitei ao seu lado, destroçada. Rendida à minha falta de escrúpulos.

Você está bem?”, ela perguntou, preocupada. E me abraçou pelas costas, sem entender plenamente. Não”. As suas mãos me tocaram a costela, acariciando o meu ombro e decorrer do braço. Segurou enfim a minha mão. E eu entendi. Que aquilo não era pra sempre. Que íamos dormir e íamos acordar e que nada mudaria. E que toda vez que ela me deixasse por ele, de novo e de novo, eu me machucaria. Não importava o combinado. E eu, também, machucaria os outros. Como já machucara, por tempo demais. “Fica comigo”, eu lhe pedi então, num egoísmo deliberado, “por favor”. Como se a bebida me desse desculpa para agir daquela forma, para ignorar que na manhã seguinte o romantismo iria embora. E sobraríamos. Só... fica, Mia”. 

abril 15, 2013

3 Songs – pt. 2

I want to be forgotten
And I don't want to be reminded
You say, "please don't make this harder"
No, I won’t yet.
(The Strokes)


_Clara?! CLARA, NÃO DESLIGA! NÃO DESLIGA!!
_Por que? – murmurou arrependida, sua respiração estava pesada – Por que eu deveria falar com você, meu?!?
_Porque você já está falando, vai; só me escuta, por favor – implorei; o telefone num dos ouvidos e a mão no outro, abafando o som externo – Esta semana foi um inferno, Bi; um inferno! – choraminguei – Eu não consigo parar de pensar em você!! Cara, POR FAVOR! A gente tem que conversar. Sabe, sentar em algum lugar e só conversar. Me dá outra chance! Eu explico, eu... Eu, eu não sou assim, porra! Eu não me arrasto atrás de ninguém, caralho; eu não persigo as pessoas. Não deste jeito. Clara, por favor! Eu tô desesperada!! Só a ideia de te perder, meu... – minha boca atropelava as palavras, embriagada; as lágrimas começavam a se formar nos meus olhos, perdendo todo o controle das minhas emoções.
_Você não superou aquela garota. Você sabe que não... Então por que você me liga? Por que você tem que me fazer passar por isto?
_Me dá um tempo, só me deixa t...
_Meu... – ela me ignorou –, não é importante. NÃO FAZ DIFERENÇA! Você, você perdeu o respeito por mim. Não deu a mínima para como eu me sentiria, você só faz o que faz. E eu não sou saco de pancada para esse seu jeito errado, essa sua forma torta de fazer as coisas. Você não leva NINGUÉM em consideração pelo caminho, porra... – ela parecia chorar do outro lado, as lágrimas desataram incontidas pelo meu rosto – ...você sabia que as coisas tinham mudado para nós. Que eu tinha mudado. Que eu te queria. E você, você atropela tudo. Você magoa todo mundo, cara; magoa a si mesma. Você ME magoou. Entende isto? ME MAGOOU MESMO, PORRA.
_Clara, nã... – solucei, sem conseguir reagir.
_Olha, eu posso ter te amado – continuou, me ameaçando com rancor –; mas você vai ver o quão rápido eu te esqueço.
_Por favor, n...
_Eu não preciso disso – escutei-a chorar, segundos antes de ouvir o telefone desligar.

Não. Entrei em desespero, completamente confusa. Me sentindo impotente. NÃO! NÃO! Todas as minhas ligações seguintes caíram na sua caixa postal. Eu perdi o controle. Esmurrei a cabine; gritando, com raiva. As lágrimas me rasgavam – as dela, mais do que as minhas. Quis destruir tudo, completamente fora de mim. Se algum relance de sobriedade ainda me restava, àquela altura já não mais. Desatei de qualquer noção. Uma das funcionárias do banheiro começou a me chamar do outro lado da porta, alarmada; mandando que eu saísse imediatamente. “FODA-SE! FODA-SE!”, eu chutava a porta de volta, em insolência. Ela ameaçou chamar a segurança. Sequer enxuguei o rosto. E saí. Furiosa, deixando a porta e a cabine toda destruída para trás. Entrei em cólera na pista. Absolutamente descontrolada.

_O que está acontecendo? – o Fer tentou me segurar, ao trombar comigo no galpão – Você está chorando? O QUE ACONTECEU?!
_CADÊ A MERDA DA GAROTA?
_Que garota? – ele perguntava e eu tentava me soltar dele, irritada, ainda chorando; a Mia me olhava assustada ao seu lado; os meus amigos todos em volta – QUE GAROTA?! FALA COMIGO, PORRA!
_A MERDA DA MENINA! A MENINA!! A QUE VOCÊS QUERIAM QUE EU PEGASSE!! CADÊ A FILHA DA... DA PUTA DA MENINA?!
_SEI LÁ ONDE ESTÁ A MENINA, CARALHO! FALA COMIGO! – ele me segurava forte, tentando me forçar aos trancos para fora do surto – QUE PORRA ACONTECEU?!?! VOCÊ FALOU COM A CLARA?? VOCÊ LIGOU PARA ELA?!?! O QUE ACONTECEU?!??
_ME SOLTA! – eu chorava, embriagada, gritando – Eu qu... quero...

Eu queria achar a droga da garota. Era só o que eu queria. Achá-la e agarrá-la, violentamente. Queria consumir cada milímetro daquela porra daquela estranha. E comê-la em plena pista. Expor a minha falta absoluta de escrúpulos para o mundo. Bem na frente da Mia. Ela, sim; sentia uma vontade dilacerante de magoá-la. Além do irracional. De arrebentar a pior parte de mim. De acabar com os caminhos até o meu coração. Queria destruir tudo, tudo que passasse pela minha frente. A garota; a Mia; aquela festa, tudo. Todas aquelas pessoas idiotas, alheias à confusão que se instalara na minha cabeça. Completamente alcoolizada. E comecei então a descontar no meu corpo; no meu fígado, antes de todo o resto. Gastando tudo o que tinha em doses imprudentes, tão logo o Fernando soltou os meus braços.

De certa forma funcionava. A bebida logo me acalmou – mas perdi todos os outros sentidos. Anestesiada e delirante. Duas ou três horas depois e eu dançava em meio à multidão da outra pista – a de trás –, absolutamente alucinada. Sem noção das horas ou de onde estava. A minha consciência parecia apagar por intervalos inteiros de tempo. Por mais de meia hora, às vezes; para então ressurgir enquanto eu vomitava em pé ao lado das caixas de som. Voltava para a pista. Caía no banheiro. Não lembrava de rostos, nem de conversas. Discuti algo com o Fer, em algum momento. E a Mia apareceu – ou já estava lá? –, pouco depois dele sair de perto, irritado. Eu cambaleava e trombava nas pessoas, ela ficou ao meu lado. E tentou me segurar, colocando o braço ao redor do meu corpo; argumentando que fosse junto com eles.

Eu fechava os olhos e me mexia desenfreada, fora de mim, dançando – e quase a derrubando junto. A Mia riu e disse com carinho que eu deveria ir. Sabia que eu estava mais bêbada do que meu corpo costumava aguentar. “Vem tomar um ar comigo, com todo mundo... vamos lá pra fora, vem”, repetiu algumas vezes. Eu não ia. Você..., eu a observava, sem conseguir perceber direito os arredores, ...está... tão bonita. E não dizia nada. Não sei o que aconteceu então. Em algum momento, acho que virei as costas e simplesmente me enfiei na multidão, sumindo da sua vista e me afastando. Retomei a consciência algumas horas depois.

Já amanhecia quando me dei por mim ao lado do Gui, fumando perto da piscina – como vim parar aqui? –; o Du estava junto a ele. Comecei a falar, os dois então me convenceram a pagar e ir embora. O Fer, a Mia e o Benatti já estavam do lado de fora. Havia outros amigos meus também, mas a maioria parecia ter ido para casa. Quando me viu sair na calçada, descabelada e bêbada, o Fer caminhou até onde estávamos e me falou algo, acho que me deu bronca. Não me lembro bem. Não discuti de volta, só ouvi meio fora de órbita.

Ele e o Du trocaram algumas palavras também. Deve ter mandado que me levasse direto pro apartamento e que cuidasse de mim. Me deu o seu casaco, antes de voltar para perto dos outros. A Mia estava lá. Ao lado deles, me olhava à distância e sorriu, eu a observei. E, e, não sei. Tive um sentimento estranho; como se devesse ter lhe dito alguma coisa naquela hora – mas não disse nada. Estava a metros dela, esperando junto ao Du e ao Gui até uma outra garota chegar. A estranheza ficou entalada, aquele sentimento que tive. O nosso carro iria duas vezes mais cheio do que na vinda. A Mia e o Fer foram noutro, junto com os meus amigos mais antigos.

O amigo do Du tinha um Gol branco, entrei cambaleando; sentia-me tonta. Estava completamente fora de mim. Me espremeram contra a porta ao final do banco, diretamente atrás do motorista. Havia uma noção de segurança por estar voltando para casa, mas a luminosidade do sábado de manhã começava a incomodar meus olhos. Peguei então o celular e digitei para a Mia – “me encontra no apto”. E então desmaiei. Até acordar, lá pela metade do caminho, com um dos amigos do Gui vomitando pela janela. A garota ao meu lado falava sem parar, uma ruiva que parecia hétero. O meu estômago estava embrulhado, a bebida começava a me doer a cabeça. Argh.

abril 13, 2013

3 Songs – pt. 1

What makes you think we can fuck
Just because you put your tongue
In my mouth and twisted my titties
Baby – (The Trucks)

_VAI LÁ, PORRA! – o Fer gritava e ria, bêbado.

Era a segunda vez que a garota olhava para mim. De cabelos curtos, tatuada; estava com as amigas a uns metros adiante na pista. Já meu amigo seguia apoiado sobre o meu ombro, estourando os meus tímpanos. O Benatti ao redor de mim, insistindo em apoio. A garota olhou mais uma vez e eles me cutucaram grosseiros, enquanto eu desviava o meu olhar para o quinto copo da noite. O Fernando praticamente fechava negócio por mímica com a desconhecida. E eu tinha que puxá-lo de volta, erguendo-se na ponta dos pés para vê-la sobre a multidão. Os meus amigos me cercavam, insistentes. Como odeio aniversários. Dei de ombros, me recusando – “só me deixa”.

_VELHO, LARGA DE SER RIDÍCULA! PEGA A PORRA DA MINA!!
_Não, caralho! NÃO QUERO!!
_POR QUE? POR CAUSA DA CLARA? VAI LOGO! – o Fer me empurrava.
_É! Todo mundo aqui atravessou a cidade pra vir numa balada que desse pra você pegar alguém, porra; pára de bichice – o Benatti argumentou também –. VAI LÁ, DIABO! 

Olhei rapidamente para a Mia, que observava tudo quieta ao lado dos dois idiotas. E fiquei em silêncio. O Fernando fez mais uma tentativa de me arrastar adiante. E eu puxei o meu braço, me desvencilhando. Anunciei então – “vou encher o copo” – e virei as costas para eles e para a garota. Minhas pernas já começavam a trançar. Assim que saí do galpão da The Week, tirei o celular do bolso. E tentei ligar mais uma vez para a Clara, próxima à piscina. Nada. O lugar estava lotado, as pessoas moviam-se num caos a la Gambiarra. Voltei até o bar externo. E redisquei mais uma vez, conforme o barman me enchia uma dose de rum. Cancelei a chamada, sem resposta – inferno.

_Então isto é um dos seus jogos... – a Mia encostou ao meu lado no balcão e acendeu um cigarro, me fitando curiosa – ...ou você está mesmo me evitando?
_Eu não estou te evitando – coloquei o celular de volta no bolso.
_Não?

Apoiou os cotovelos na bancada, a cabeça sutilmente inclinada. Estava charmosa. Usava o vestido verde-musgo de alcinhas que eu gostava – o disse quando ela se vestia, no dia em que foi ao apartamento antes da festa da amiga da Clara. Pôs-se a me observar – os meus dedos ao redor do copo. Os meus pulsos, os meus braços. Os seus fios morenos caíam sobre os ombros, escorregando pelas costas e pelos traços de narcisos à mostra. Senti uma falta momentânea da sua pele. Ela respirou fundo, fazendo graça.

_E o que acontece...
_Hum?!
_...que, de repente, você resolveu recusar par de perna na balada?
_Na boa, chega. ISTO É RIDÍCULO! – me irritei com o comentário, um pouco alterada pela bebida –. Vocês estão todos agindo como se fosse inédito, como se eu comesse toda porra de menina que passasse na minha frente! Isto NÃO é verdade. Nossa, MUITO não é verdade.
_É que nunca te vejo assim “contida”...
_Vê, sim. Vê, sim, Mia! Você já me viu fazer isto um milhão de vezes. Eu posso contar na mão as garotas que peguei na sua frente E VOCÊ SABE... NEM VEM!!
_Nossa, desculpa! – ela sorriu, sem se abalar pelo meu mau-humor – Você é muito contida mesmo, não está mais aqui quem falou – riu –. Eu só achava que você tinha que se divertir... É seu aniversário. Estamos aqui para isto, não?
_Com outra garota?!? Me divertir com quem, Mia?
_Comigo.
_Eu não posso fazer isto. Não aqui, não assim – balancei a cabeça, séria; e tomei o último gole da minha bebida – Você veio com o Fer, caralho; não comigo!
_Isto é problema meu, não seu – ela tragou com certa irreverência, me olhando, de repente atraente.
_Escuta, a gente precisa parar de fazer isto – retomei e ela se insinuou, inteligente.
_E o seu presente de aniversário, como faço para entregar então?

Nisto, senti o meu bolso vibrar. O celular.

_O que? – ela viu a minha expressão se alterar, já alcançando o celular no bolso; e mudou também de atitude – É a Clar...?
_Não fala dela – a interrompi.

E saí andando com o telefone em mãos, deixando a Mia para trás. Tinha ansiedade de abrir logo a mensagem. E então a abri. Caminhava não obstante, as palavras me pareciam socos no estômago – “Para de me ligar. Para de me mandar msg. Eu não quero que você me procure”. Me tornei violenta, irracional. Trombei em algumas pessoas no caminho para o banheiro – em partes por estar bêbada, noutras por não olhar direito para frente. Reli a mensagem duas, três vezes. E assim que cheguei na fila, comecei a ligar para a Clara, compulsivamente. Perdendo o controle.

A ansiedade esmagava meus pulmões. ATENDE, CARALHO! Tocou até cair na caixa postal por quatro vezes antes que uma das cabines fosse liberada. E me tranquei ali, nervosa. Lhe enviei uma enxurrada de SMS, recados de voz, tudo. Ela não atendia. Chutei a merda da parede, a privada, o cesto; me irritando com a minha imensurável burrice. Isto é culpa minha. Minha. Tornava a discar – ATENDE! Atende, argentina filha-da-puta. O telefone mudo entre os toques.  

_O que você quer? – ouvi sua voz, de repente.

abril 09, 2013

Esquenta

_Você tem um novo admirador... – comentei, conforme saía com o Fernando para a calçada frente ao prédio.
_Quê?! Sai pra lá, velho.
_Mas é verdade... O que eu vou fazer? Prefere que eu não te conte?!
_É só o que me faltava agora – ele achou graça, acendendo um cigarro como desculpa para não ir embora –. Isto é culpa sua, cara! Fico andando com estes seus amigos... Meu pai tem certeza que a Augusta me fez bicha.
_A Augusta ou eu?
_É – ele riu, admitindo –, você. Eu devia mesmo aparecer lá com um namorado um dia, ver se ele cala a boca, manja.
_Bom, está fácil. Já tem um voluntário... – arqueei a sobrancelha para ele, tirando sarro da situação, e roubei o cigarro das suas mãos – ...ainda que o Du faça mais a linha só-quero-te-comer. Dá pra ver por que nos demos bem logo, né.
­_Não, pára. Tô de boa.

Retirou na hora a brincadeira. E comecei a rir, ambos agora sentados no meio-fio. E levemente bêbados. A conexão entre o Du e eu, todavia, parecia um pouco distante da minha atual realidade. Antes fosse, pensei comigo mesma, irônica. Quando foi que eu passei de uma desapegada fiha-da-puta a este vira-lata sarnento, sofrendo e ladrando por duas donas? Traguei mais uma vez o cigarro que roubara. Às vezes, tinha a impressão de que vivera sem coleira por tanto tempo que agora precisava de duas para me segurar. O que era uma merda – claro. Tudo o que estou fazendo é machucar quem eu amo, grande babaca que sou.

_Eu realmente sinto falta dela – resmunguei para o Fer, de repente, sem saber por um instante se falava da Mia ou da Clara.
_Hum?!
_Será que existiu... – lhe devolvi o Marlboro aceso, agora definitivamente falando da Clara – ...alguma vez em que eu e você não estávamos fodidos por mulheres?
_Deve ter existido – ele riu.
_Fer, ela... ela é esperta demais para voltar para mim – parei para pensar e os meus olhos doeram, inferno.

Ele colocou o braço sobre meus ombros, me abraçando, e sorriu. “Ela seria uma idiota de não voltar”, disse, sem me animar. No fundo, eu sabia – que a Clara não se via obrigada a aguentar nenhuma das minhas merdas. Isto estava decidido, no segundo em que subimos naquele avião. Ela não é como as outras garotas. Ela não via amor em drama; nem precisava de nada além de admiração e umas horas de sexo para se sentir amada. Nem de brigas ou demonstrações idiotas de ciúmes. O Fernando também sabia. E me beijou a testa, com carinho fraternal, receoso pelo coração partido que me aguardava.  

Minutos depois nos despedimos e ele voltou para Santo Amaro – ainda era difícil me separar daquele traste. Subi a Frei sozinha de volta, tendo o acompanhado até o carro. E quando entrei no apê, tive um impulso de religar o celular. De importuná-la. De ligar e ligar e ligar até que me atendesse, até que se visse obrigada a lidar com a minha falta absurda dela. Mas por algum motivo não o fiz – o Du fumava um baseado na sala, assistindo qualquer coisa na TV, largado à toa no sofá. E eu fiquei ali parada, a alguns metros dele, dando-me conta de quem me tornaria se o fizesse. E quem eu não queria ser. Eu ia deixá-la em paz. Deixar que me esquecesse.

É. É isto.

Esta honrada decisão durou dois dias. Um pouco menos, na verdade. Maturidade não faz meu estilo. Com a chegada da minha festa, tudo o que planejara sobre ser uma pessoa melhor dali em diante e disposta a dar espaço aos outros foi rapidamente diluído em três copos de whisky pré-balada. Seguidos de colossais doses de desespero alcóolico, instantes antes de eu embarcar para o outro lado da cidade. O Du terminava de se arrumar no quarto e eu o aguardava pacientemente, na cozinha.

Isto é, entornando todas e grudada àquele celular como se tivéssemos nascido siameses. Patética. Começava a deliberadamente tornar-me inconveniente. E a Clara mantinha-se em silêncio, como o fizera a semana toda. Os meus SMS foram então de “Saudades, meu.” a “PQ VC NÃO ME ATENDE, PORRA? EU SÓ QUERO FALAR COM VC!!! EU SINTO SUA FALTA, CARALHO! EU TAVA ERRADA!! EU SEI QUE ESTAVA!! MAS VC Ñ ENTENDE!!” em menos de quarenta minutos. É. Eu estava oficialmente na fossa mais descontrolada da minha vida.  

_Pronto, vamos? – o Du surgiu de repente, realmente lindo num jeans claro e regata preta, encostado na porta que dava para o corredor.
_Vamos, só espe... – eu terminava de digitar um último SMS, enviando-o segundos depois – ...ra. Tá, vamos.

“Estamos indo na Gambiarra”, dizia a mensagem, “na The Week, aparece lá pfvr. Ñ me ignora mais, meu. Eu qro ir com vc, Bi. COM VC! Ñ com ela. Com vc, porra!”. A notificação de recebimento chegou conforme saímos na direção do elevador. Saber que ela lera aquelas mensagens e não respondera me matava. Um amigo do Du viera nos buscar e aguardava estacionado na antiga vaga do Fer. Ela agora era alugada por um cidadão do terceiro andar que não ficava em São Paulo nos finais de semana. Descemos até o subsolo e cumprimentei o tal amigo, sentando no banco de trás.

Saímos. E tão logo deixamos a garagem do prédio, o meu celular vibrou. Apressei-me para ver o que era, um tanto embriagada e iludida que talvez pudesse ser a Clara, me respondendo. Mas era a Mia – “Animada? ;-) Senti sua falta esta semana”. Apaguei a mensagem. E logo me arrependi de tê-lo feito. Argh. A verdade é que eu não tinha certeza se queria passar a festa que o meu amigo planejara escondida com a sua namorada em algum canto. Mas, por outro lado, o meu corpo inteiro parecia sedento por curar aquela fossa nas mãos, na boca indelicada de alguém. Na dela, mais do que noutras.