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junho 27, 2011

Meu deus. Recusava-me a abrir os olhos, me afundando em tecido; eu me contorcia sem nem perceber. Não conseguia adquirir consciência, apenas me movia por impulso. Meu corpo inteiro reclamava, sentia o meu interior todo enfraquecido. E o meu estômago revirava-se, inferno, numa ressaca violenta. Que horas são?, a minha mente despertou por um instante. Abri os olhos. Os lençóis se misturavam com o cabelo bagunçado sobre o meu rosto, imersa no colchão.

De repente, senti o meu abdômen dobrar-se, involuntariamente. Toda aquela tequila e sei-lá-mais-o-quê prestes a me subir pela garganta. Levantei com certo esforço, desorientada; a minha cabeça doía. Argh, banheiro. Onde é o banheiro nessa porra?! Respirei fundo, aquele sentimento agonizante me pesava o corpo todo. Merda. Andei, passo a passo, quase cambaleando de sono, pisando descalça no chão. Banheiro, banheiro, banheiro... saí no corredor, repetindo na minha cabeça e procurando, sem muita consciência da situação em que me encontrava. Entrei numa porta e vi um pedaço de uma cama, apenas o começo, onde alguém dormia debaixo de lençóis meio amassados. Tá, aqui não. Caralho..., encostei a porta de novo e me virei para o outro lado do corredor, ...onde é, porra? A ânsia que dominava o meu corpo começava a me desesperar, merda. Empurrei a porta, já quase onde havia presuposto ser a sala, e lá estava o banheiro. Enfim.

Inclinei-me sobre a pia e molhei o rosto, alguns fios grudaram ao longo do meu rosto. Olhei-me no espelho, estava completamente destruída. Argh. Tirei as mechas molhadas de cabelo da cara, as minhas olheiras me davam um aspecto horrível e cansado, de quem bebeu mais do que deveria na noite anterior. Agachei em frente à pia, só com a calcinha vestida no corpo; sentia-me enjoada. O que eu tô fazendo aqui, mano, apertei os meus olhos em desgosto. Os meus órgãos se contorceram, não, inferno... não!, percorri meio metro arrastado, sem me levantar do chão, e dobrei o corpo sobre o vaso, levantando a tampa da privada. Maldição. Deixei a cabeça cair, apoiada nas minhas mãos, segurando-me pela testa. Respirei fundo, tomada por um mal-estar horrível, merda. E comecei, então, a vomitar toda a minha irresponsabilidade sem noção da madrugada anterior.

Dez minutos se seguiram no chão do banheiro. Daquele banheiro. Sentia-me melhor, ainda que com uma enxaqueca filha da puta, quando voltei para o quarto. Após molhar mais uma vez o rosto e a nuca, isto é. Olhei para a garota capotada na cama, igualmente de calcinha e sem mais nada no corpo. A dela tinha pequenas listinhas azuis escuras em um fundo branco. O seu cabelo ruivo claro estava bagunçado sobre o seu rosto. Ótimo, pensei com ironia, conforme pegava a minha blusa amassada no chão e vestia-a. Ajoelhei-me, então, em cima do colchão.

_Ei... – passei a mão no seu ombro e ela despertou, sem se mover – ...posso usar sua escova?
_Hmm? – murmurou, ainda desorientada.
_Posso usar?!
_Pode... – disse baixo, quase num suspiro, sonolenta – ...tá lá, é a rosa.

Imediatamente fui escovar os dentes, sentia-me melhor – mas não conseguia me livrar daquele gosto de guarda-chuva na boca. Maldita ressaca. Voltei mais uma vez ao quarto e a garota seguia dormindo, completamente desmaiada. Dei uma olhada pela janela e vi que desconhecia totalmente a vizinhança. Cadê meu celular, porra? Rodei a cama com as mãos e depois o chão, apenas com os olhos, até encontrá-lo no bolso da calça, largada atrás da porta. Minha carteira estava vazia, um recibo da balada amassado em uma das cavidades me auto-incriminava. Merda. Peguei o celular; me sentia embrulhada por dentro. Chequei, eram 14:53.

_Oi. Sou eu. Onde você tá?
_Em casa, por quê? – a Marina respondeu, do outro lado da linha.
_O que você tá fazendo? – continuei, sem vergonha alguma na cara.
_Escrevendo. Queria adiantar umas coisas, a Bia tá na casa dos pais hoje... O que foi?
_Você... – parei por um segundo, sem realmente querer lhe pedir aquilo, droga – ...você pode vir me pegar?
_Ótimo... – ela suspirou, sem paciência comigo – ...onde você está?

Dei uma olhada ao redor, cara, não faço idéia. Andei três ou quatro passos até a cama e acordei mais uma vez a garota. Ela me olhou, com sono.

_Que bairro é este? – perguntei, falando baixo para ser educada.
_Hm... Tatuapé.

Puta que pariu. A Marina vai me matar.

E, de fato, ela bem quis. Assim que eu repeti o endereço ao telefone, pude ouvir sua respiração pesar do outro lado da linha. Não disse nada, porém, seja lá por que motivo; eu sequer tinha créditos com ela. Disse que viria, mas que demoraria para chegar, garantiu. “Já que, né, é do outro lado da cidade...”, murmurou ao celular, incomodada. Desligou sem me dizer tchau. Eu sabia quando irritava a Marina, inferno. Não queria aquilo. Coloquei o telefone em cima da escrivaninha do quarto, ao meu lado.

A garota se moveu, ouvi os lençóis se mexendo e olhei de canto de olho na sua direção. Ela estava sentada, de perfil para mim, com os cabelos desarrumados e bonitos. Fingi não ver, como se estivesse distraída, olhando para o lado oposto. Por que diabos eu me meto nessas, mano..., pensei, sem paciência para estar ali naquele momento. Me sentia enjoada demais para ser agradável – isto é, fazer um social, carinho, tomar café-da-manhã juntas e o caralho a quatro. Chega logo, Marina, pelo amor de deus, resmunguei na minha mente.

_Bom dia... – a garota disse, num tom agradável e sonolento, aí deitou-se novamente na cama, agora de frente para cima; os fios dos seus cabelos escorregavam pelo seu corpo descoberto, ela parecia confortável comigo.

Olhei na sua direção e sorri por etiqueta.

junho 24, 2011

LANÇAMENTO DO MEU LIVRO!

(um grande aviso e outro pequenininho do Twitter lá no fim...)

Primeiramente, desculpa pelo atraso vergonhoso para postar aqui. Desculpa mesmo. Eu estive ocupada demais com a produção de um stop motion e, principalmente, com... tam, tam, taaam... o lançamento do meu primeiro livro no mercado!! Siiiim, foi publicado na semana passada e já está à venda, eee! :)

Apesar de tudo isto ter resultado na minha demora para atualizar o blog, espero que vocês entendam, queria muito dividir este momento aqui! Estou feliz demais, mesmo. É uma obra que eu amo. Foi o trabalho que me deu base para escrever este blog, que me afundou nas extensões do comportamento humano, foi quase uma pesquisa de campo prévia, uma viagem incrível! Com certeza, quem ler vai perceber os elementos que construíram a minha escrita e a transformaram no que é hoje. O livro é intenso, sem pudores e possui uma linguagem semelhante à do blog.

Espero mesmo que vocês gostem. Que leiam, que comprem! :) A editora está desenvolvendo uma campanha de lançamento imensa para o livro. Mais para frente aviso aqui sobre... A partir de agosto vão rolar noites de lançamento em diversas cidades do país, vai ter entrevistas programas de TV, uma promoção incrííível que está por vir e muito mais... Espero que vocês possam acompanhar tudo comigo!

Meu livro já está disponível para venda pela internet no site da editora, em livrarias como a Cultura e também em versão eBook na Amazon. Custa R$ 18, meu :) mas ele está com promoção de lançamento no site da Livraria Loyola! Corre lá ver:


É isso, gente. Novidades lindas já compartilhadas! E post novíssimo abaixo... não podia faltar, né?! Também queria avisar que vou, aos poucos, transferir os anúncios de post novo do meu perfil no Twitter para uma conta exclusiva do blog. Além de avisar quando publicar aqui, também vou colocar frases retiradas dos posts, os clássicos (hehe) pensamentos da protagonista e diálogos com outros personagens. Adicionem aí: @Fucking_Mia


E, cara, obrigada por tudo!

Um beeijo ;*
M.

In the Big Machine now

Equilibrei, com certa dificuldade, o quarto copo sobre os dois primeiros de uma fileira de três. Serviam como base e eu tentava esvaziar os seguintes para colocá-los em cima. Shots de tequila, claro. A aposta mais idiota que alguém pode fazer em plena balada, longe de casa e sem carro. Aproximei o quinto copo da minha boca e senti o meu fígado estômago se contorcer de ânsia. Vou ficar bêbada demais, caralho. O Fernando e os outros moleques gritavam no meu ouvido e do Pedro, o meu digno oponente. Metade das pessoas à volta nos encaravam, achando graça. Suspirei. E virei de uma vez aquela droga.

Puta que pariu.

Senti tudo me voltar até o último centímetro da garganta. Que idéia de merda. Apoiei as duas mãos no balcão, respirando fundo, e tentei me concentrar. O Pedro assoprava pesado no ar, ao meu lado, numa pausa semelhante à minha. Estávamos empatados e ambos já no limite. Eu precisava beber pelo menos mais uma, seriamente perigando uma manhã toda abraçada com a droga da privada, se quisesse vencer. Encarei a tequila, e seus 40% de álcool dourado, sentada dentro do copo à minha espera. Inferno. Observei-a, ali e engoli seco. Ah, que se dane...

O Pedro me olhou, descrente. Agora faltavam dois para completar o meu castelo – e três para o dele. Meus olhos não desgrudavam das últimas duas doses, me revirando tudo por dentro, por mera antecipação. Não. Deixei a cabeça cair, entre os braços esticados, apoiados no balcão. Não ia dar. Eu ia passar realmente mal, cara, isso não vai ser bonito. O Fer batucava, exaltado, na tábua do bar, declarando a minha vitória. E a dele, óbvio. Os perdedores bancariam a brincadeira, isto é, e todos os outros garotos haviam apostado no Pedro. Somos um bando de idiotas, pensei. Não conseguia lembrar quando beber assim, sem controle, tornara-se tão normal.

Foda-se, dei de ombros. Agora o álcool demoraria uma semana para sair do meu corpo, eu sabia. E eu não me incomodava, na verdade. Os dois últimos shots, contudo, oscilavam intragáveis diante dos meus olhos embriagados. Não, não dá. Bati as mãos de repente no balcão, entregando o jogo. Por um instante, o meu corajoso oponente pareceu contemplar uma tentativa de empate, mas logo desistiu, embrulhado. O Fernando entrou em surto. Comemorou, com xingamentos “amigáveis” à oposição, e quase me sufocou num abraço apertado de bêbado.

_Me vê uma Coca, pelo amor de deus – pedi ao barman e o Fer pagou.

Os minutos e goles seguintes pareceram permeados por risos e gritos um tanto desnecessários, digo, um com o outro; seguidos de uma pista de dança lotada demais, a velocidade descomunal dos fatos, uma seqüência confusa, merda, garotas quaisquer ali no meio, flashes bêbados de memória, as batidas graves dos amplificadores, uma ligação imbecil para a Marina a fim de dividir minha recém-conquistada liberdade, sabe, como eu estava excepcionalmente feliz, saindo da fossa, e aí sequer ouvi o que ela disse de volta, depois as pontas dos meus dedos passearam soltas pelo ar, os corpos se esbarravam, eu cambaleei e me apoiei no Fer, começamos então a rir muito. De absolutamente nada, isto é.  

Sentamos mais adiante, na lateral. O riso desmanchou-se dos nossos rostos, como era natural, e minha barriga já doía de tanta contração. Lentamente, deu-se espaço para um estado contemplativo, bastante bêbado. Agora estávamos parados, inebriados, ainda fora de controle, mas metidos na nossa própria viagem. Tranqüilos. A recuperar o fôlego, não sei. Passavam-me pensamentos aleatórios, inofensivos pela cabeça, confundindo-se com as luzes confusas que dançavam, deslizavam suaves pelos meus olhos. Tomei um gole final da minha Coca e abaixei a base da latinha vazia sobre o meu jeans; observei as garotas na pista de dança.

_Você... – perguntei, sem pensar – ...sente falta dela?
_Hum?!
_...sente? – insisti.
_De quem?
_Da Mia... – confessei o seu nome nos meus pensamentos, sem querer – você... você não pensa nela?

Me encarou, como se não entendesse porque diabos eu estava falando daquilo, naquele momento. Mas então a expressão nos seus olhos mudou e ele encostou, suspirando, no banco.

_Não.

Olhei para ele, na mesma hora, secretamente intrigada.

_Ah. Acho que sim, sei lá... – contradisse-se, logo em seguida.
_Hm...

Não quis falar nada. Menos ainda confessar que eu, talvez ainda mais do que ele, também sentia. Não da Mia que vira aquela tarde, esta talvez não, mas da que continuava na minha cabeça. Irreduzível em mim. Os fios do cabelo dela movendo-se delicadamente sob o vento da sacada do apartamento dos seus pais, em Higienópolis, ela fumando e eu a assistindo encantada. Esta era a imagem que tinha da Mia. Da minha Mia. Da última vez que ficamos, de fato, juntas.

Senti o meu interior vazio. Num instante rápido, indesejado, de consciência. Eu estava bêbada demais, fora de mim. E a balada, de repente, me pareceu clastrofóbica. Um caos ensurdecedor, desnecessário. Conseguia ouvir o Fer respirar ao meu lado, contudo, o seu braço encostado no meu. Estava repentinamente quieto, pensativo. É... então é assim, me conformei. E aí levantei para encontrar a garota de demasiados minutos antes.

junho 07, 2011

Certa conspiração

_Não, meu... – a garota ria, me empurrando para longe dela; aí me encarava, ligeiramente alcoolizada, e achava graça na minha insistência retundante –  ...cara, você pegou minha amiga... – argumentava, indignada, apoiada contra o balcão do bar – ...não faz nem uma hora.
_Eu?! Não, não... – comecei a rir.

Mentira. Descarada e eu sequer tentava esconder. Estava bêbada demais para fingir qualquer bom senso. Ela ria junto, achando graça. Às vezes, minha imprestabilidade parecia mais charme do que empecilho. Já havia me perdido do Fer, metida no meio da bagunça da Clash; a pista estava absolutamente lotada. Eu estava me enrolando com a mesma morena há dez minutos, no mínimo, desde que a notara parada ali. Infelizmente, numa jogada realmente idiota, eu havia agarrado uma garota bem menos interessante do seu círculo de amigos, exatos quarenta minutos antes. Mas, no estado em que me encontrava, eu obviamente não ia deixar quieto. “Meu, você sabe que está me confundindo”, brinquei, me aproximando do ouvido dela. Aí argumentei, sorrindo.

_Hum – ela me impediu com uma das mãos e me encarou, como se me testasse – e qual era o nome dela?
_Dela, quem?
_Minha amiga.
_Ah, meu, sei lá! Você acha que eu lembro?! – respondi ofendida, rindo – Eu quero saber o seu, porra, não o dela. Dane-se o nome dela. Me fala o seu.
_Não... – riu.
_Olha, eu aposto... – continuei, fazendo graça, no seu ouvido – ...que vocês nem são tão amigas assim...
_Ah, é?! – ela se divertia, me olhando com uma carinha de não-somos-mesmo simplesmente incrível, e então se desviava da direção das minhas intenções – hum, vai lá perguntar pra ela.
_Não, não, tô de boa. Aqui está mais interessante... – confessava, rindo.

Lisojeava-a com naturalidade. Com ou sem amizade – o ser humano, senhoras e senhores, é um puta ser egocêntrico do caralho. E metade do meu mérito nesta vida eu devo à minha cara de pau. Porque ter cara de pau te rende, em qualquer caso, apenas duas reações: ou um “não” muito bem dado ou... enfim. Qualquer fosse a outra opção, com certeza, não era um “não”. E aí é que está a brecha... Acontece, vejam vocês, que os interessados frequentemente são lentos. Lentos em excesso. Ninguém chega, todo mundo olha ou gasta tempo inventando jogos idiotas. E, qualquer que fosse a balada, eu não tinha esse tipo de tempo disponível.

_Ah, mas ninguém mandou você chegar tarde...
_Cara, - cheguei perto dela, grudando o meu rosto no seu, e continuando com toda sinceridade do mundo – na boa, você é maravilhosa. Dez vezes, mil vezes mais do que a sua amiga. Se eu tivesse te visto aqui antes, você acha que eu teria ido lá com ela, mano?! Mas nem a pau. Eu ia ficar a balada inteira te enchendo até você dizer “sim”. Meu, sério, você não faz idéia de como eu tô me sentindo idiota. De verdade, eu sou muito, muito idiota. E cheguei tarde mesmo, porra, mas tô aqui e tô falando a real pra você. O que você queria que eu fizesse?!

Ela sorriu, de leve. Dei um passo para trás e ela me observou de volta, com seu par de olhos castanhos. Ahh... eu sabia quando ia conseguir. Podia ver o seu ego inflar na minha frente, pouco a pouco. Não me disse nada, hesitante; já completamente na minha. Os sons dos amplificadores da balada afundavam-se na madrugada. A tal da amiga continuava, contudo, subjetivamente entre nós. Cheguei perto de novo, olhando a morena nos olhos, sem valer um centavo, e insisti.

_Só me fala, se a sua amiga não estivesse aqui... – referenciei a garota ao longe, rapidamente, com os olhos – ...eu ainda tinha chance?

Encarou-me de volta, impressionante, com um “sim” preso entre os lábios. Nada como uma humildade calculada. Ela me intrigava, de um jeito realmente bêbado e de ocasião. Mas intrigava. Qualquer rabo de saia que aparecesse na minha frente sem as letras M e I seguidas de A na porra do nome me intrigaria naquele tão elegante momento da minha noite de sábado. E foi então que o Fer, do nada, me puxou pela mão. Mas o cara tem a manha, né, meu..., pensei já completamente embriagada, fora de mim, ...de me roubar de todas as garotas, hein, porra. Cruzei os braços, argh. Aí apertei os olhos ao encará-lo de volta, num sinal de desgosto. Seu corta clima.

_Porra, tava te procurando! – ele chegou já rindo, caindo de bêbado, ignorando completamente a minha nada discreta reprovação no olhar – Vem, mano... vamos começar!
_Meu, espera dois segundos. Dois segundos. Custa?! – argumentei, dando a entender minha situação com a garota que me esperava toda magnífica atrás de mim – ...sério, cara, do-is se-gun-dos.
_Não, meu, vem e daqui a pouco você volta!
_Fer...
_Quê?! Cê fica agitando as coisas e depois some, caralho?! Vamo nessa! – me puxou de novo.
_Fer... nan... do! Não! – me recusei a ir, geniosa, querendo terminar o que já tinha me custado dez minutos naquela porra daquela balada.
_Cara, cê já pegou meio mundo. Vambora! Depois cê pega, porra.

Inferno.

_Mano... – virei, a contragosto, para a garota e disse, conforme o Fer me puxava na direção do bar – ...não some. Fica aí que, meu, eu vou voltar aqui.

junho 01, 2011

359º

O sol passava por entre as folhas daquelas copas altas, nas redondezas do Parque Buenos Aires. Tinha resolvido voltar a pé para casa... é, sei lá. Sentei em cima do encosto de um banco isolado, colocando os pés no assento de cimento. Havia pouco movimento, àquela hora do dia, e eu tinha ainda uma longa caminhada pela frente. Tirei o dichavador do bolso da minha camisa, alcançando o resto de uma paranga no fundo do meu maço de cigarros. A minha cabeça estava vazia, eu estava tranqüila, mas de uma forma estranha. Observei o verde escuro se desfazendo nas minhas mãos, aos poucos. Comecei a tirar as sementes uma a uma, não havia muitas, jogando-as no chão ao lado. Gostava de pensar na possibilidade de que crescesse um pé de maconha, ali, no meio de Higienópolis. Sorri, achei graça.

Desabotei o que faltava da camisa, tirando-a, e deixei-a pendurada no encosto do banco ao meu lado. Terminei de dichavar, colocando a erva cuidadosamente sobre uma seda meia-boca. A sombra das árvores deixava aquele lugar frio demais para ficar só de regata, sentia uma brisa tipicamente de meio de manhã nos meus braços descobertos. Enrolei, com bastante calma. Uma senhora passou, me notando sem querer ali, já com um leve desprezo no olhar. Ótimo, pensei, sem ânimo para fazer algo a respeito, vou acabar sendo presa aqui. Lambi a beirada, apertando-a em seguida, e olhei de volta para a senhora, com descaso.

Esperei ela se afastar, mais adiante na calçada, e apoiei os antebraços nas minhas pernas. Acendi uma das extremidades com certa dificuldade, o fogo não pegava. Preciso comprar outro isqueiro. Olhei, então, para frente e observei lentamente o movimento das folhas longe de mim, no chão. Aquela era uma manhã esquisita. Sentia como se nada acontecesse ou fosse acontecer. Traguei mais uma vez e segurei dentro de mim, demoradamente. Minha visão divagava, lenta e sem pensamentos concretos. A Mia estava lá, eu sabia, em mim... podia senti-la presente nos meus fluxos neurológicos, em algum lugar, submersa, mas não a trazia para a superfícia, para o plano consciente. Como um sussurro que eu não fazia questão de ouvir naquele momento.

Então, me distraí. O dia inteiro a esmo, desatenta; me ocupei com absolutamente nada. Dentro ou fora de mim. De certa forma, eu me sentia estranha... meio deslocada. Porém, não dei importância para isto. Andei mais um pouco. Depois mais ainda, subi até a Av. Paulista e fui indo, prestando atenção em qualquer coisa que fosse. Até o Masp. Então sentei ali embaixo por algum tempo, totalmente desocupada. A manhã logo virou tarde e eu continuava solta, no meio da cidade. Me ocorreu, em determinado momento, que talvez devesse ir até a Vila Madalena e falar com a Marina, pedir desculpas pela noite anterior. Não... agora não, repensei na mesma hora. Uma indisposição súbita me tomou, neste sentido.

Voltei para casa, logo depois de tomar uma latinha meio quente de Coca-Cola, em uma esquina qualquer da Augusta. Boteco horrível, argh. A tarde já chegava ao fim; o céu estava limpo e escurecendo-se aos poucos. Caminhei o trecho que faltava até a Frei Caneca, olhando as pedras que compunham a calçada, já a um quarteirão do meu prédio. Tinha fumado o resto do beck enquanto subia a Haddock Lobo, do lado da Paulista; aquela região era meio parada. Senti vontade de acender um cigarro, então, mas estava sem no maço. Ah, mano, não vou voltar pra comprar outro, me deu preguiça já à porta do prédio.

Subi no elevador, um pouco cansada – mais por tédio do que por cansaço de fato –, até chegar ao meu apartamento. O Fer estava na sala, vestindo uma roupa qualquer, largado no sofá assistindo um jogo na televisão. Duas latinhas de cerveja vazias descansavam na mesinha de centro. Deixei as minhas chaves e o celular em cima de um bando de revistas, numa estante perto da entrada, e aí me juntei a ele. Não disse nada, apenas sentei. Coloquei os pés sobre a mesinha, me afundando no encosto, e prestei atenção no jogo. Já estava nos vinte e tantos minutos, 2 x 1, segundo tempo. Após uma análise inicial no placar, fui buscar uma latinha para mim na cozinha e aí assisti os outros vinte minutos que restavam.

Apenas o som da televisão repercutia em todo o cômodo, tédio absoluto. Soltamos um ou outro comentário durante o jogo, meio que naturalmente. Senti uma trégua, um tanto inesperada, com o Fer. Há tempos não o via sem que o fosse um empecilho, sem um mínimo desconforto. Não que estivesse efetivamente pensando na minha situação com a Mia, a nova situação – na real, não pensei em nada. Nos sentamos juntos até o fim do jogo, não houve mais gols ou faltas relevantes. Um saco. Quando caiu no intervalo, num comercial tonto de uma loja de departamento, o Fer alcançou o controle e diminuiu o volume. 

Olhei para ele, parada ao seu lado no sofá, e depois voltei a encarar o meu celular em mãos. Nenhuma mensagem ou chamada, nada. Apaguei a tela e guardei o aparelho no bolso, tomando o resto da minha segunda latinha. Deixei-a vazia sobre a mesa e o Fer continuava olhando a tela da TV, sem muito interesse. Observei-o por alguns segundos, na sua camiseta branca sem graça e bermuda de ficar em casa, a barba por fazer. Completamente fodido naquele sábado de merda, pois é, assim como eu.

_Ei... – disse, sem pensar muito na hora – ...vamos sair hoje? Eu e você?
_ Quê?! – ele riu, com preguiça.
_É, ué.
_Cê tá falando sério?
_Por que não, porra? Não é como se a gente tivesse alguma coisa melhor pra fazer... – argumentei, me ajeitando no sofá, ainda afundada de qualquer jeito – ...faz puta tempo que não saímos, meu.
_Tá... mas você queria ir pra onde?
_Sei lá, mano, qualquer lugar com bebida e mulher... – respondi num impulso nitidamente idiota e estiquei o braço para pegar o maço do Fer sobre a mesinha, roubando um dos seus cigarros – ...que cê acha, hein? Vamos aí?!
_Demorou... – ele achou graça, aproveitando para pegar um também.

Você está saindo da minha vida...

“(...)

E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu

Só por hoje não quero mais te ver
Só por hoje não vou tomar minha dose de você
Cansei de chorar feridas que não se fecham, não se curam
E essa abstinência, uma hora, vai passar...


(Pitty)