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janeiro 31, 2010

Sozinha na sala

Ouvir o jantar deles foi insuportável. Droga.

janeiro 30, 2010

Meu ex-armário

A Mia se virou de barriga para cima, encarando o teto. E eu continuei a olhá-la, com o rosto apoiado no travesseiro. Ficamos em silêncio por um bom tempo. Ela parecia estar mergulhada nos seus pensamentos e eu a observava, encantada. Ela é tão linda, suspirei.

Virei de barriga para cima também e ela me olhou. Ficamos lado a lado, olhando para o teto. E de repente, senti sua mão se encostando na minha, entrelaçando seus dedos nos meus.

_O que exatamente você disse? – perguntou.
_O que eu disse quando?
_Pros seus pais... quando contou.
_Ah... Eu disse “Pai, mãe: adivinhem só? Eu sou lésbica!” – eu ri e ela me encarou como se não acreditasse – Ok, tá, não foi bem assim. É que eu... Eu namorava uma menina na época e ela vivia indo lá em casa, dormíamos de porta trancada, sabe? E isso começou a incomodar os meus pais. Então, um belo dia, eu cheguei e falei: “olha, a verdade é que ela não é minha amiga, tá bem? Nós somos namoradas. E eu não queria ter que fechar a minha porta toda vez que ela vem aqui, mas eu estava com medo de contar para vocês”.

A Mia apertou a minha mão e eu sorri. Aquilo me fazia bem. Qualquer tipo de contato com ela fazia com que eu me sentisse genuinamente feliz.

_Deve ser difícil... Ter que encarar os seus pais e contar.
_ Poderia ser pior, sabe? Conheço gente que sofreu muito depois de sair do armário. Meu pai banca o engraçadinho, mas é até que é de boa... E para falar bem a verdade, eu já estava de saco cheio. De ter que mentir, me esconder, não poder levar as minhas namoradas nas festas de família, ter que falar sobre os caras do N’Sync com as minhas primas e coisas assim. Tinha que ficar trocando os pronomes toda hora – eu ri – e depois você se sente bem também, pode ser você mesma e ter as suas próprias opiniões sobre quem você acha gostoso ou não.
_Você sempre levou isso na boa, não é? Esse lance de gostar de meninas...
_Acho que sim. Não tem nada de errado, Mia. Aliás, é puta coisa maravilhosa! Quem em sã consciência ia preferir gostar de macho? – brinquei – Faz parte de quem eu sou, sei lá. E é bem divertido na maior parte do tempo. Isto é, quer dizer, pode ser meio complicado às vezes. Mulheres são meio complicadas.
_Eu sou meio complicada, você quer dizer? – ela riu.
_É, você é bem complicada... – eu ri também.
_Besta.
_Mas, sei lá, eu não trocaria meu coração por um hétero nem por um milhão de reais...

Olhei para ela e sorri. Finalmente, estamos conversando a respeito. Aquilo me deixava extasiada e eu não conseguia conter a minha cara de boba. A Mia voltou a encarar o teto e não disse nada por um tempo. Eu a observava atentamente. Uma hora, enfim, ela suspirou: 


_Meus pais morreriam – disse –. Acho que me expulsariam de casa na mesma hora.
_Bom, já está na hora mesmo de você sair, não é? Vinte e um aninhos nas costas e tal...
_Sua mala – ela riu.

Esclarecendo...

No caminho de volta para casa, a Mia já estava presente em cada pensamento que passava pela minha cabeça. O estranho, eu refletia, era que por mais que nós nos metêssemos em situações confusas e às vezes até acabássemos brigando, eu continuava sentindo um carinho enorme por ela. Constantemente presa àquele sentimento, àquele impulso na sua direção.

Nos últimos dias havia ficado claro para mim que, de alguma forma, ela gostava de mim. O problema era que eu não sabia qual a forma exatamente e isso me enlouquecia. Entrei no apartamento e joguei minhas tralhas no sofá. A luz da cozinha estava acesa, mas não ouvia um ruído sequer vindo de lá. Então, resolvi ir investigar. Estranho, não tem ninguém aqui. Fui para o corredor e reparei numa luminosidade fraca vinda do quarto do Fer. Coloquei a cabeça para dentro e encontrei a Mia, sentada na cama, com o laptop no colo.

_Oi... – disse, encostando na porta.
_Oi...

Ela sorriu de volta para mim. Que mulher linda, inferno.

_O Fer não está aí?
_Não, foi buscar alguma coisa para a gente comer... Você já jantou?
_Já... Meu pai passou perto do meu trampo hoje e fomos num restaurante lá perto – respondi, entrando no quarto – é sempre a mesma conversa, toda vez que saímos juntos... Ele acha que eu e o Fer somos casados ou algo do tipo.
_Você e o Fer? – ela riu.
_Juro. É ridículo.
_Mas, espera, ele não sabe que você...?
_Sabe. Ele só ignora isso – balancei a cabeça e caí deitada na cama, ao lado dela.
_Mas que coisa... Há quanto tempo ele sabe? – ela perguntou, deixando o laptop de lado e deitando-se na minha direção.
_Uns cinco ou seis anos... Não sei... Deixa eu pensar, acho que foi com... Hm... É, eu tinha 17 anos quando contei.
_E o que ele disse?
_Nada.
_Nada?
_É, por uns dois meses inteiros – eu ri.
_Isso é horrível!

Ela começou a rir e eu concordei, foi mesmo.


_Mas depois vocês ficaram bem, não é?
_Claro... Sei lá, acho que por mais difícil que seja, as pessoas que realmente te amam acabam entendendo... e nunca deixam de te amar, sabe? Em algum momento elas percebem que você não pode ser feliz de outra maneira e acabam entendendo.
_Mas seu pai não aceitou totalmente... Digo, por causa desse lance do Fer e tudo mais.
_Acho que ele fala mais por brincadeira... No fundo, ele sabe que não é assim, só não perde as esperanças de um dia me ver entrando numa igreja, sabe? Ao lado de um bom rapaz.
_Olha, o Fer não é exatamente o que eu chamaria de um “bom rapaz”...
_É, acho que você tem razão – eu ri.

Os mal-entendidos de sempre

Não vi a Mia por uns três dias e, na quarta-feira, meu pai me ligou. Isso mesmo, o meu pai. Aquele ser bonachão adorável e ocupadíssimo que raramente entra em contato comigo. Não que nós tenhamos motivos para não ligarmos um para o outro, simplesmente não gostamos de telefone. Sempre restringi o meu uso a situações de real necessidade – e certamente não puxei esse hábito da minha mãe, que é a reencarnação de algum telefonista.

Sendo assim, me surpreendi ao ver o telefone do meu pai piscando na tela do meu celular. Larguei o trabalho imediatamente e o atendi. Estava com saudades de ouvir sua voz. Logo na primeira frase fui intimada a encontrá-lo para um jantar. A ligação chegou em boa hora: eu estava faminta e a quantidade absurda de álcool comprada para a festa havia acabado com todos os meus últimos centavos.

Meu pai era um paulistano convicto, nunca deixava a cidade e raramente pisava para fora do seu mundinho em Santo Amaro. Aquela quarta-feira era uma exceção: um compromisso profissional qualquer o arrastou para as redondezas do estúdio onde eu trabalhava. Eis o porquê do telefonema, concluí. E sem pensar duas vezes, fui encontrá-lo num restaurante "chiquê" a poucas quadras dali.

_Como vai no emprego? – perguntou interessado, pouco tempo depois de começarmos a comer.
_Bem. Sei lá, normal. Muita coisa para fazer como sempre, mas está tranquilo.
_E em casa, tudo bem?
_Sim, claro...
_Como vão as coisas entre você e o Fernando? – ele me olhou, forçando um olhar de “sogro” na minha direção.
_Pai... o Fernando não é meu namorado, você sabe disso. Nós somos amigos.
_Isso é o que você continua me dizendo, mas aquele garoto gosta de você – ele continuou, como se estivesse coberto de razão –. Pode escutar o que eu estou te dizendo. Eu sei como é.
_Não, escuta você o que eu estou dizendo: o Fernando gosta de garotas que gostam de meninos, como ele. E não de meninas, como eu.
_Por favor! – ele riu – Vocês não se desgrudam há anos! E ele nunca está com outra garota a não ser a minha linda filha... Não é mesmo?
_Isso não é verdade – balancei a cabeça, com uma careta de quem acabou de ouvir a maior besteira do mundo – O Fer está sempre com alguém. Inclusive ele está namorando agora.
_Com você? – o meu pai sorriu, com uma certa ironia.
_Não... Com uma outra garota, o nome dela é Mia.
_Mia? E ela é boazinha? Você gosta dela?

“Muito. Inclusive, acho que estou apaixonada”. “Sim, passo o dia inteiro pensando nela”. “Pois é, gosto tanto que poderia levá-la para cama”. “Claro, pena que o Fer chegou primeiro”. “Quem te contou???”. “Ok, admito, eu beijei ela”. “Ilimitadamente”. “Óbvio que sim”. “Bastante, a gente até já se pegou umas vezes e agora não estamos nos falando direito. Sabe como é, né, pai? Coisa de amiga!”.

_Ah... – respondi, enfim, após descartar todas as minhas respostas sinceras – Ela é indiferente para mim.
_Você está com ciúmes – ele riu.
_Pois é, pai, pois é...


Concordei, a fim de não prolongar o assunto. Voltei a encarar a comida no meu prato e, involuntariamente, pus-me a pensar na Mia. Quase involuntariamente.

janeiro 25, 2010

Banheiro

_Você não devia ter bebido tanto... – a Mia sussurrou, agachada na minha frente.

Eu ri brevemente, da minha própria desgraça, exausta demais para conversar. Ela passou a mão no meu rosto e tirou meu cabelo da frente dos meus olhos. Eu respirava vagarosamente, em silêncio. Destruída pela falta de energia. Minha cabeça doía ainda mais e eu sentia como se todo o sangue do meu corpo tivesse se esvaziado. Ressaca desgraçada. A Mia me observava continuamente, com um pouco de pena.

_Me desculpa... – ela disse, pegando na minha mão – ...eu sinto como se parte disso fosse culpa minha. Não sei, eu só... Não queria que você pensasse que eu faço essas coisas de propósito. Eu não queria te machucar, é que...
_Não é culpa sua – a cortei, irritada.

Eu odiava me sentir frágil, vitimada. Aquilo me provocou um desconforto horrível. Quis me levantar, a fim de mostrar que já estava melhor e que não precisava mais da sua ajuda, mas ainda me sentia mal. Olhei para a Mia e ela continuava me encarando, preocupada.

_Talvez fosse melhor você tomar um banho... – sugeriu.

Imediatamente pensei em uma resposta indecente, claro. E comecei a rir de mim mesma. Nem nos meus sonhos, imaginei e achei melhor ficar quieta. A Mia me olhou, percebendo as minhas segundas intenções, e forçou uma cara de indignação.

_Eu não vou te ajudar... – ela disse, levantando a sobrancelha – ...nem adianta tentar.
_Eu não disse nada... – retruquei, sorrindo.
_Mas pensou, eu tenho certeza.
_Ah, acredite, eu já pensei coisas muito piores...

Ela começou a rir e eu cobri o rosto com uma das mãos, como se estivesse envergonhada. Ela se apoiou com as mãos no chão e me deu um beijo demorado na bochecha. Olhei para ela e pisquei, garantindo que já me sentia bem melhor.


_Você não presta... – ela sorriu e eu concordei com a cabeça, rindo.

Café-da-manhã

Observava as rosquinhas cor-de-mel afundadas no leite. O conjunto me parecia algo semelhante a vômito. Colocava algumas rodelas ensopadas na colher e logo despejava-as de volta ao prato. Que asco, eu pensava, enojada. O Fer tagarelava empolgado, comentando os acontecimentos da festa na noite anterior, enquanto eu expressava fisicamente a minha repulsa pelo cereal disposto na minha frente.

_Come logo! – ele reclamou, interrompendo o assunto, rindo com indignação.
_Não quero comer isso.
_Você tem que comer alguma coisa, senão vai ficar zoada o resto do dia inteiro.

Eu aguento, me convenci mentalmente – afinal, o domingo já estava quase no fim. Mas a minha ressaca estava realmente trash. Minha cabeça prestes a explodir. Sentia meu corpo inteiro contorcendo-se internamente, meus olhos estavam inchados, meus braços doloridos e qualquer ruído mínimo na cozinha despertava a pior dor de cabeça do século. A culpa era toda minha, do Jameson e da Ana Luiza.

Mas tudo remetia à Mia, claro, que estava sentada na sala me ignorando.

Respirei fundo e enfiei aquela gosma nojenta para dentro da boca. Mastiguei a papa mole cor-de-vômito-com-mel e engoli, o que me causou uma careta involuntária. Credo. O Fer resmungava qualquer coisa sobre como eu era exagerada e ria da minha desgraça. Contra a minha vontade, forcei mais uma colherada goela abaixo e senti cada pedacinho de rosquinha mastigada e diluída em leite sendo digerido pelo meu estômago em meio aos litros e litros de porcarias alcoólicas que eu havia ingerido na noite anterior. Merda, vou vomitar.

Saí correndo até o banheiro e coloquei a cara na privada. O Fer entrou logo em seguida, assustado:

_Você está bem? – perguntou, apesar da resposta ser óbvia.
_Tô! Cai fora! – reclamei, engasgada, e logo tornei a vomitar.
_Puta que pariu... Não devia ter feito você comer, mas que merda. Desculpa, meu! – o Fer se desesperou – Vou chamar a Mia, aguenta aí.

Ele saiu correndo e, pouco tempo depois, ouvi a porta se fechando. A Mia ajoelhou ao meu lado e segurou o meu cabelo para cima. Senti a mão dela molhando a minha nuca. Quando eu achava que ia ficar bem, a ânsia voltava e começava tudo de novo. Os meus olhos lacrimejavam. Eu me contorcia a cada episódio, violentamente, durante uns 10 minutos seguidos. E aquilo me deixou exausta.


Encostei na parede do banheiro, sentada no chão, e a Mia me deu um pano molhado. Limpei o rosto e deixei as mãos caírem sobre as minhas pernas. Me sentia fraca.

janeiro 24, 2010

8:14

Quase peguei no sono. Não posso dormir, pensei, preciso tirar ela daqui antes. Olhei para o meu lado e a Aninha dormia, debruçada no meu travesseiro, com o rosto virado para a parede. Suas costas eram repletas de pintinhas, e eu até que gostava.

Estiquei-me na beirada da cama, alcancei o meu maço no bolso de uma calça e acendi um cigarro. Minha embriaguez havia sido substituída por uma enxaqueca arrasadora. Caralho. Ainda não havia atingido o estado completo de ressaca, contudo, e sabia que permaneceria ligeiramente bêbada até finalmente dormir.

Levantei, coloquei a primeira blusa que vi e vesti a calcinha de novo. Estava me sentindo realmente mal fisicamente. Curvei-me sobre a cama, acordando a Aninha gentilmente e pedindo que fosse embora. Ela abriu os olhos. Caminhei descalça pelo quarto fumando, sem falar uma só palavra, enquanto esperava que ela terminasse de se vestir.

Minutos depois, ela me beijou mais uma vez no rosto por iniciativa própria e saiu pela porta, me deixando sozinha no quarto. Dei uma última tragada e joguei o cigarro pela janela. Voltei para a cama.


Que lixo.

A Festa 4

Atravessei o corredor empurrando e desviando de um grande número de pessoas, que se amontoavam pelos cantos do meu apartamento. Inconvenientes. Estava muito, muito brava. Não sei se a culpa era da quantidade absurda de álcool contida em mim ou se era pura frustração. De um jeito ou de outro, eu estava realmente irritada e a festa, de repente, se tornou uma zona ridícula e insuportável.

Almejei que todo mundo fosse imediatamente embora e me deixasse sozinha. No entanto, a cada passo que eu dava, eu trombava com algum exemplo completamente bêbado de que o meu desejo não havia sido atendido. Ainda eram 3 da manhã e eu sabia que ninguém ia deixar a droga daquela festa até a dali, pelo menos, uma ou duas horas. Maldição. Me dirigi até a sala, mas logo percebi que aquele era o cômodo mais lotado da casa toda e eu não queria ficar ali. Então, fui até a cozinha. Com uma certa dificuldade

Sentei em cima da pia, rodeada de amigos e semi-conhecidos, torcendo mentalmente para que ninguém viesse me encher o saco. O primeiro babaca que vier falar comigo, morre, jurei a mim mesma. Pelo bem da minha reputação como anfitriã e também da minha ficha criminal, quem apareceu foi o Gui – e eu não estava disposta a matá-lo. Afinal, ele era o meu melhor amigo.

_Já recuperou o bom senso? – ele zombou, se aproximando do ser rabugento e antissocial que eu era naquele momento.
_Não quero falar sobre isso – respondi, irritada, pegando o copo de uma bebida não-identificada qualquer que estava na sua mão e empurrando seu conteúdo garganta abaixo, de uma só vez.
_Nossa! O que foi? – ele riu – Tomou um fora?
_Não.
_Ah, admite! Eu sei que foi, olha como você está bravinha – ele ria ainda mais –, um pouco de humildade faz bem... viu, ô Sra. "Eu Sou Irresistível".
_Já disse que não foi isso, porra.
_Então você quer me convencer de que seu plano mirabolante deu certo? Que você conseguiu tudo o que você queria?

Não tudo. O Gui levantou a sobrancelha, como se duvidasse de mim, e aquilo agravou ainda mais a minha impaciência.

_Consegui, Guilherme. Consegui até mais do que eu queria.
_Ui... Cuidado para não morrer de tanta felicidade, hein? – ele riu.
_Vai se foder.

Levantei e saí esbarrando no ombro do Gui, irritada, indo em direção ao inferninho que havia se tornado a minha sala. No caminho, descolei uma garrafa semi-cheia de vodka barata e resolvi me embebedar ainda mais – o que nunca é uma boa ideia quando o seu estado emocional se encontra arregaçado, destruído, rasgado em mil pedaços e largado no meio de uma pilha enorme de lixo. Bom, pelo menos eu fui sensata o suficiente para recusar cocaína no meio do caminho. Isso, sim, teria sido uma péssima ideia naquele momento.

Algumas horas ou minutos depois, eu me encontrava jogada no chão da sala, sentada de costas para a parede, quase apagando de tão chapada. Não me recordo bem o que me levou até aquele canto infeliz, mas tenho uma vaga lembrança de ter encontrado a Mia no meio do trajeto. Ela não estava falando comigo, aparentemente. Não que eu quisesse. A única pessoa que estava, naquele momento, era a Aninha.

Sabe se lá como, mas aquela garota me achou no meio de todas aquelas pessoas e agora estava sentada ao meu lado, tagarelando incessantemente e me dando indiretas – bem diretas – de que queria me levar para o quarto. Aquilo estava me causando uma séria dor de cabeça. Ou talvez fosse a vodca de R$ 4,99. Não sei ao certo.

Vencida pela exaustão e pela minha incapacidade completa de raciocinar, concordei em ir "conversar" num lugar mais reservado com a Aninha. Eu vou me arrepender disso, lamentei enquanto me levantava, me apoiando na parede. Minha ex-semi-fixa-sei-lá-o-que-ela-é me olhava empolgada, alheia à minha cara de poucos amigos e satisfeita com a sua pequena vitória. Mal consigo ficar em pé e a garota realmente espera que eu coma ela nesse estado, eu pensei.

E comecei a rir sozinha. Ela devia estar pior do que eu.

janeiro 23, 2010

A Festa 3b

_Para, para... – a Mia disse, de repente, me empurrando para trás.

Olhei para ela, sem entender, enquanto ela recuperava o fôlego. Por um momento, me ocorreu que a culpa talvez pudesse ser minha. Ultrapassei o limite, pensei, arrependida de não ter me contido um pouco mais. Ela ajeitou o cabelo e eu o meu; as nossas roupas estavam bagunçadas. Ficamos em silêncio. O que aconteceu? Eu a observava de uma distância pequena, a menos de um passo dos seus pés, enquanto a Mia olhava para baixo, expressando certa confusão. Havia desespero nos seus gestos:

_Por que você está fazendo isso? – perguntou, do nada, dirigindo o olhar novamente para mim.
_Eu?

Ela ficou quieta, de novo. Tinha os olhos marejados. Parecia hesitar, como se tivesse recuperado a consciência, caído em si. Abaixou o olhar mais uma vez para o chão. Não faz isso. Me aproximei e toquei o seu ombro levemente com a mão. Ela ergueu a cabeça e me encarou, receosa. Meu deus, não se perde de mim. Por favor, pensei, com medo de que ela fosse se afastar e que aquilo não passasse de um sonho que mal começou. No entanto, sem que eu esperasse, ela me beijou.

Colocou as mãos em volta de mim, me abraçando, e me beijou. Demoradamente.

Aquilo estava acabando com qualquer sanidade que o whisky deixou em mim. Porra, mulher. Ela apertava seu corpo contra o meu e nós voltamos a nos pegar, cada vez mais intensamente. Encostei-a mais uma vez na parede e ela me agarrou indiscretamente, me puxando pela camiseta. A essa altura o meu corpo inteiro estava fervendo. Abaixei os braços, sem tirar a boca da dela, e fui subindo as mãos pelas suas pernas, levantando lentamente o seu vestido. Indecente pra caralho.

Até que, de repente, ela segurou as minhas mãos, me impedindo. E tornou a me afastar.

_Porra... – reclamei, encostando na parede oposta e recuperando o fôlego – isso é tortura, Mia!

Ela me olhou de volta, sem dizer nada.

_Meu... Você não tem noção do que você faz comigo, garota. Do que eu sinto só de ficar no mesmo quarto que você, isso... – me referi aos beijos, ofegante – Isso é insuportável, não é justo – eu ri – Você vai me matar.
_O que você quer de mim? – ela me questionou, séria.

Parecia indignada, como se eu a tivesse ofendido. O sorriso logo sumiu do meu rosto, achei que estávamos fazendo isso juntas. Fiquei confusa.

_Como assim? – eu disse, sem entender.
_Você quer que eu seja justa? Quer mesmo? Por que isso é errado e você sabe – ela parecia se desesperar com a ideia, bêbada – Isso tudo que a gente está fazendo não é "justo". Nem comigo, nem com o Fernando e nem com você.
_Você tá falando sério?
_Na boa, eu não sei o que você espera de mim.
_Eu não espero nada de você, eu só...
_Ótimo. Então vamos ser "justas" e acabar de vez com isso – fechou a cara –, antes que se torne um absurdo ainda maior.
_Que seja, Mia...

Suspirei, já de saco cheio. E saí do banheiro, batendo a porta atrás de mim, puta da vida. Larguei a Mia lá e voltei para a festa. 

A Festa 3a

Tranquei a porta do banheiro atrás de nós e o barulho da festa se tornou abafado. Estava escuro. As luzes da Frei Caneca passavam por uma janelinha ao fundo e eu era capaz de ver a Mia encostada em uma das paredes, me olhando atentamente. Caralho, é agora. Podia sentir o meu coração subindo pela garganta. As minhas mãos tremiam e ela não tirava os olhos de mim, ainda mais insegura. Ambas conscientes do que estava prestes a acontecer. Dei dois passos até ela e ela hesitou:

_Só porque eu te falei aquilo, não quer dizer que...
_É só você me pedir... – me aproximei do seu corpo e a minha testa tocou suavemente na sua, os meus olhos fecharam – ...que eu paro, Mia.

Podia sentir a sua respiração, a milímetros de distância de mim. Toquei o seu braço sutilmente, deslizando o dedo sobre a sua pele. Os meus pensamentos esvaziaram-se da minha cabeça. Todas as dúvidas e as nossas conversas e as brigas e a Clara e a festa... Sumiram. De repente, era só eu e ela. Abri os meus olhos e os seus me olhavam de volta, fixamente. Estava tão perto, que bastou um movimento na sua direção – e eu a beijei, contra a parede.

Por longos e maravilhosos segundos.

As suas mãos não se moviam, coladas contra os ladrilhos, uma de cada lado do corpo. Mas os seus lábios nos meus. Puta que pariu. Aquele era um beijo bem diferente do nosso primeiro. Era o momento com o qual eu havia sonhado um milhão de vezes e eu não podia perder a cabeça. Sentia o meu corpo inteiro se contorcer por dentro, numa vontade absurda de beijá-la ainda mais. Mais e mais até a festa acabar lá fora. Meu deus, essa boca. Essa garota. Precisava me controlar. Eu sabia exatamente o que estava fazendo e tinha que ir com calma.

Quando as nossas bocas se afastaram, abri os olhos novamente. E nos contemplamos por um breve momento. Dei um passo para trás, com as mãos agora atrás do corpo, recuperando o fôlego. Puta merda. A Mia continuava me olhando. Assim como eu, desgrudou-se da parede e ficou parada em pé na minha frente. Ficamos assim por um tempo. Ela colocou uma de suas mãos no cabelo, tirando a franja do rosto e segurando-a em cima da cabeça. Mordeu o lábio, ansiosa, sem desviar o olhar de mim. Que merda estamos fazendo, garota? E então deixou escapar um sorriso, no canto da boca. Me movi imediatamente em sua direção e coloquei meu braço ao redor da sua cintura, puxando-a para mim. E aí, sim, os beijos de verdade começaram.

Empurrei a Mia contra a parede e ela segurou o meu rosto com ambas as mãos, me beijando com força. Foda-se o autocontrole, pensei. Desci as mãos pelo seu corpo, puxando-o cada vez mais contra o meu. Ela apertava o meu cabelo por entre seus dedos, me segurando firmemente. Os nossos beijos eram indescritíveis. Eram maravilhosos. Sentia que estava prestes a enlouquecer, perdendo a cabeça e o fôlego. Meu deus. Acho que nunca segurei uma mulher com tanta vontade.

Continuamos pelo o que me pareceram horas, incessantemente. 

janeiro 22, 2010

A Festa 2

Bem, horas depois e a festa estava sendo um sucesso – no sentido mais depreciativo, imoral e divertido da palavra. Toda alma paulistana que não estivesse bebendo, conversando ou dançando no meu apartamento naquele sábado à noite, com certeza, estava arrependida. E todos os meus adoráveis vizinhos encontravam-se – declaradamente – furiosos.

Foda-se, pensei.

Eu estava me divertindo, afinal de contas, e a multa certamente não ultrapassaria o limite do impagável. As duas doses iniciais de tequilas passaram por mim quase despercebidas e o rum não fez nem cócegas. Foi só quando eu cheguei no whisky que a minha cabeça começou a me enviar sinais latejantes de que eu ia ficar bêbada. Não era minha culpa: algum santo trouxe Jameson para a festa e eu simplesmente não podia resistir àquela belíssima garrafinha verde. God bless the irish!

Sentamos, eu e o meu irlandês, num canto espremido do sofá. Ao meu lado, estava o fabuloso Gui e mais umas dez pessoas amontoadas. Lá fiquei por um tempo, entre um gole e outro, ouvindo meu amigo incalável discursar sobre a noite em que o deixei sozinho no Vegas e as suas peripécias sexuais com o DJ misterioso. Tudo me soava extremamente exagerado e fora de proporção, mas assim era o Guilherme. E isso não era nenhuma surpresa para mim.

_...ai, enfim, estou apaixonado.
_Ah, é? Jura? – eu levantei a sobrancelha e comecei a rir.

O Gui era um romântico incurável com um problema de foco – e de fidelidade, diga-se de passagem –, mas raramente tinha seu coração partido. Era sempre o primeiro do casal a cair de amores por um outro cara qualquer e seguir a sua nova “paixão verdadeira” até a cama. Ou seja, os seus sentimentos o mantinham entretido e os seus pobres exs acabavam sozinhos, sempre um passo atrás dele.

Acho que, de certa forma, eu tinha isso em comum com o Gui. Exceto pela parte de me apaixonar tão efusivamente – desde que me conheço por gente, eu insisto em reservar o meu coração para raras e muito mal-escolhidas ocasiões. Sendo assim, lances como o que rolou entre mim e a Clara eram muito mais comuns na situação inversa. E isso, evidentemente, divertia o Gui.

_Agora você sabe como toda a sua hortinha se sente quando você resolve ir regar outra florzinha mais bonita...
_Ela não era mais bonita! – contestei, já consideravelmente bêbada, falando besteira e levantando o indicador na direção do Gui – E a Clara é uma idiota. Todas elas são – eu esbravejava, amarga – Não tem nada que preste na porra dessa horta, eu estou de saco cheio de comer sempre o mesmo tipo de... planta.

O Gui se divertia com o meu azedume. Eu estava completamente fora do ar.

_E o que você vai fazer, então? Passar fome?
_Ah, mas não mesmo... – respondi, olhando fixamente para a Mia, que conversava em pé a alguns metros dali.
_Você não pode realmente estar pensando nisso! – o Gui questionou, ao perceber o que se passava pela minha cabeça – Você perdeu o juízo, bicha? Tá louca??
_Não, não perdi... é aí que você se engana! As coisas finalmente começaram a se encaixar, gato. Tudo o que eu sentia por ela, toda aquela confusão, de repente... Faz sentido!
_ Isso é... Você não... Você... Olha lá o que você vai fazer! Cê presta bem atenção, meu, porque...
_Eu não quero nem saber – prossegui, bebendo mais um pouco do whisky já quase esquecido na minha mão, e olhei para o Gui, confiante no que estava dizendo – Hoje, ela é minha.
_Essa é a questão! – ele se revoltou e riu, como se eu estivesse prestes a cometer algum tipo de loucura – Ela não é sua... e você sabe, porra! Me escuta. Você não pode fazer isso.
_Ah, mas eu vou... – garanti, sem tirar os olhos da Mia, e me levantei do sofá.
_Pelo amor de deus, senta!

Ignorei-o. Aquela conversa havia deixado muito claro, para mim, o que precisava ser feito. Basicamente não ouvi nada do que o meu amigo disse e concluí que devia fazer o que desse na telha. Estava decidida a botar o meu plano em prática. Sem pensar duas vezes, andei em direção à Mia com segurança, como se não tivesse tomado nem uma gota de álcool. Me aproximei por trás dela e coloquei a mão na sua cintura. Ela se virou assim que encostei no seu corpo e me olhou, sorrindo.

_Vem comigo – eu pedi, pegando-a pela mão.


E ela me seguiu.

janeiro 21, 2010

A Festa 1

“Laaast niiiiiight, she saaaaid… 
Ohh, baby, don’t feel so dooown!”

Os gritos do Casablancas no rádio atravessavam a minha porta e o meu quarto inteiro, enquanto eu corria enlouquecida de um lado ao outro. Todos os meus amigos indiscretos e barulhentos anunciavam aos berros a sua chegada ao meu apartamento – um por um – e eu ainda não havia escolhido uma maldita roupa.

Todo o meu plano de “tô nem aí pro que vou vestir” havia ido por água abaixo graças às recentes confissões inesperadas da Mia. Ainda não havia processado toda a informação a mim sussurrada, mas estava explodindo de felicidade e medo e ansiedade e nervosismo e alegria e impaciência... Enfim. E aquela indecisão do que vestir estava me deixando louca. Puta que pariu, não é possível que eu não tenha uma porra de uma blusa que preste!

O Fer batia na porta de cinco em cinco minutos, avisando que a festa estava começando sem mim – como se não fosse possível ouvi-los a cinco quadras dali – e eu garantia repetidamente que já estava saindo. Inferno, inferno, inferno... Ele devia estar pensando que a minha demora era alguma forma de sabotagem... Mas não era. Não desta vez. O fato é que eu continuava seminua, ridiculamente indecisa e mergulhada no meu armário. Diabos.

Após incontáveis surtos e quase duas horas depois, eu estava finalmente pronta. A minha saída do quarto aumentou ainda mais o volume no qual as pessoas falavam naquela festa. Aquilo era o caos absoluto. No melhor sentido possível. Percorri o nosso modesto apartamento por pelo menos uns 15 minutos até conseguir cumprimentar quase todo mundo. A capital inteira resolveu aparecer por lá, meu deus.

Encontrei a Mia somente algum tempo depois, em meio à confusão na cozinha, conversando com um amigo do Fer. Tentei chegar perto assim que a avistei, mas fui interrompida por 1.57m de águas passadas bloqueando o meu caminho. Era a Aninha e toda a sua empolgação em me ver novamente. Quem foi o imbecil que convidou ela?

Argh, eu ia matar o Fernando.

_Parece que não nos vemos há anos! Você sumiu! – ela se jogava na minha direção, usando um vestidinho de pin-up curtíssimo, sorrindo e enrolando o dedo em seus cabelos castanhos.
_Pois é... – respondi, sem tirar os olhos da Mia, tentando escapar dali o quanto antes.
_E continua gata, hein... Você não vai me cumprimentar, não?

Voltei meus olhos para ela e a vi, toda feliz, parada na minha frente à espera de alguma atitude minha. Mas que saco. Suspirei, sem paciência, e dei-lhe um beijo amigável no rosto. Queria sair o quanto antes da sua vista e do alcance de suas mãos. Assim que desgrudei do seu rosto, ela me olhou desapontada e eu a ignorei, desviando dela para seguir o meu caminho.

_Olha... – ela me puxou pela mão, sugestiva, e eu me virei novamente em sua direção – Se você quiser, mais tarde talvez a gente podia...
_Claro – respondi indiferente, interrompendo-a.

Tornei a olhar para onde a Mia estava, mas ela já havia deixado o amigo do Fer sozinho. Comecei a xingar a droga da Ana Luiza e, bem, o resto do mundo todo. Mentalmente, claro. Aí me dirigi à geladeira. Uma dose de tequila era a minha segunda melhor opção ali, calculei, uma vez que a primeira havia passado pela porta atrás de mim sem que eu sequer percebesse.

janeiro 18, 2010

Segredos cochichados

Contra a minha vontade, o sábado chegou. Podia ouvir meu estimado colega de apartamento arrastando móveis de uma ponta a outra da nossa humilde residência. Aquilo me irritava, claro, uma vez que eu andava bancando a intratável.

Permaneci a manhã toda enfurnada no meu quarto, deitada de barriga para cima na cama por tempo suficiente para ser capaz de listar cada rachadura mínima existente na minha parede. Estava me comportando como um vegetal na fossa amorosa. Era patético. A ideia da festa até que estava começando a me agradar, mas meu orgulho me impedia de mover um músculo sequer para ajudar nos preparativos.

Insistentemente, o Fer ia e vinha no meu quarto, na tentativa de fazer-me levantar.

_Não, estou bem aqui – respondia –, estou pensando no que vou usar à noite.

Mentira. A verdade é que eu não estava nem aí para o que ia vestir na festa. Eu queria me divertir – coisa que não fazia há dias – e talvez até me dar bem. Quem sabe? Só não queria ter que admitir isso para o Fer. Então continuava ali, toda ridícula, deitada.

De repente, a Mia abriu a porta. Receosa, após uma breve batida, como se esperasse me encontrar dormindo. Olhei para ela e ela disse que o Fer falou pra avisar que eles estavam indo no supermercado comprar algumas coisas para a festa – soou como um telefone sem fio. Acenei sem prestar muita atenção, murmurando qualquer coisa, e voltei a encostar a cabeça no colchão.

Mas não ouvi a porta batendo. Subi novamente o olhar e a Mia continuava lá, apoiada no batente, me observando. Estranhei. Então sussurrou, inesperadamente:

_Eu preciso te dizer uma coisa.

Logo em seguida, ouvi o Fer chamando-a da entrada do apartamento, a acelerando para saírem logo. A Mia gritou de volta, pedindo que esperasse, disse que já estava indo. Ele respondeu qualquer coisa – que não consegui identificar – e ela virou-se de novo na minha direção. Hesitou por um momento e me olhou fixamente, como se quisesse me contar um segredo:

_Eu também menti para você – cochichou.
_Como assim?
_Sobre o beijo – ela disse e eu levantei um pouco o corpo, me apoiando nos cotovelos, procurando entender o que ela estava querendo me dizer – eu... eu quis que você me beijasse.

De repente, todas as palavras sumiram da minha boca. Como é? Fiquei olhando-a nos segundos seguintes, sem reação, enquanto minha cabeça ia a mil. Seus olhos revelavam uma certa culpa, mas ela continuava me encarando, segura do que estava me dizendo. E antes que eu conseguisse formular qualquer resposta, o Fer chamou-a novamente, já irritado. Ela olhou para o corredor e depois para mim. Eu ainda não conseguia me mover, atordoada pela minha própria confusão mental... Então permanecia muda, incapaz de responder.


Ela se desculpou para mim, ainda cochichando, e não compreendi bem o porquê. Depois saiu, às pressas. Pude ouvi-la deixando o apartamento com ele e, em seguida, veio o silêncio. Deitei o corpo novamente e passei as mãos no rosto. Meu deus, suspirei.

Ah não, festa...

Minha sexta-feira foi estranha. Não ruim, como foram todos os outros dias, mas... estranha. A noite escureceu quente e tediosa. O Fer interrompeu minha tentativa quase suicida de me afogar em vodca na cozinha, plantada em pé ao lado da geladeira, para fazer um anúncio.

Vejam bem... Não foi uma proposta, foi um anúncio.

_Vamos dar uma festa aqui amanhã – disse, do nada.

Quase engasguei. Ah, não mesmo. Olhei-o com desprezo, indignada, confiante de que minha expressão facial transmitiria minha desaprovação pela ideia. Ele começou a rir. No mesmo instante, a Mia entrou na cozinha e parou ao lado dele, pondo-se a ouvir a nossa conversa.

_Não adianta fazer essa cara, ô Rainha da Alegria, já chamei todo mundo... Vamos dar a festa, sim! Afinal de contas, é por uma boa causa...
_Ah, é? Qual?! Acabar com o nosso dinheiro?
_Não – ele riu – Acabar com a sua agonia.

Em outras palavras, me forçar ao entretenimento. Inferno. Eu não queria me divertir, estava conformada na minha infelicidade momentânea. Por que ele não podia aceitar isso? Fora que eu não estava com vontade alguma de ver... argh... outras pessoas. Que merda. Me voltei para a Mia em busca de qualquer ajuda, mas ela olhava para o Fer com um leve sorriso no rosto.

Você também está metida nessa, aposto.

_Vocês dois estão tramando contra mim – reclamei – Eu não quero festa nenhuma, só quero que me deixem em paz.
_Olha, você pode até não querer, mas você não tem muita escolha. Você vai ter que se animar e vai ter que ser até amanhã à noite ou sérias providências serão tomadas... – ele riu, novamente – Porque morar com você desse jeito é impossível.
_Deus do céu... Mas essa é a sua solução? Você não podia simplesmente... sei lá... ter me arranjado... tipo... Valium?
_Não, senhora. Contente-se com a sua festa.

Não, obrigada.

Uma vez dado o recado, o Fer deixou a cozinha, provavelmente em direção ao quarto, ainda sorrindo satisfeito. No entanto, a Mia ficou. E foi aí que ficou estranho. Esperei por alguns segundos, certa de que ela sairia atrás dele, mas ela não se moveu. Voltei meus olhos na direção dos seus, sem entender o que ela ainda estava fazendo ali. Nada. Ficou parada, me olhando, enquanto mexia numa pequena mecha do seu cabelo. Parecia nervosa, como se quisesse dizer algo.

_Você está bem? – perguntei baixinho.

A Mia não respondeu, apenas olhou para o chão por um instante e depois voltou a me encarar. Ficamos assim, em silêncio. Havia uma tensão no ar que parecia prolongar o tempo. Às vezes, ela chegava a abrir a boca, como se estivesse prestes a falar, mas logo desistia e não dizia nada. Eu não estava entendendo o que ela queria comigo, não estava entendendo nada.

_O que foi? – perguntei, impaciente, depois de algum tempo.
_Nada... – respondeu, mostrando-se irritada e arrependida.


Saiu. Simplesmente virou-se e saiu da cozinha, como se nada tivesse acontecido. Aquilo me deixou louca. Era só o que me faltava.

Desagradável, sempre.

“Pq vc não me responde, gata?”

Fiquei olhando para a mensagem, minutos a fio. Não respondia porque não queria responder. Não queria mais a Clara na minha vida. Não queria nada dela, nem uma maldita mensagem no celular.

Desapareça, pensei.

No entanto, quando reabri os olhos, as suas palavras continuavam na minha frente. Me incomodando. Ela vinha tentando falar comigo – inadvertidamente – e eu a ignorava. Por pura falta de respeito: havia perdido o meu por ela. De certa forma, esperava que ela fosse se cansar e simplesmente parar de ligar. Não queria começar uma briga, me desgastar, me irritar de novo. Não por ela. Desejava que eventualmente desistisse. E só. Mas não te dei motivo para me esquecer, raciocinei. E após quase uma hora, decidi enfrentar o que há madrugadas eu procurava evitar:

“Fui no Vegas quarta passada. E te vi lá. Essa é a última mensagem que vc. recebe de mim.”

Feito. A Clara ia lotar minha caixa de entrada com pedidos de desculpa, eu já sabia. Deleto tudo amanhã de manhã, sem ver, decidi. O problema é que eu certamente ficaria tentada a ler, caso cada um deles me acordasse de cinco em cinco minutos durante a noite. Sendo assim, desliguei o som do celular, afundei a cabeça no travesseiro e me virei para dormir. Na manhã seguinte, levantei atrasada e joguei o celular – com suas 14 mensagens não lidas – no pé da cama. Não estava com paciência e precisava sair logo para o trabalho. Resolvo isso quando voltar.

Era quinta-feira, o que me soava como uma grande merda, é claro.

Coloquei qualquer regata no corpo, subi meu jeans sujo pelas pernas e saí do quarto. O mau humor em pessoa. Por mais que eu me forçasse a não dar a mínima para aquele rolo, a não me importar mais com a Clara, ela continuava me machucando. Não consigo entender. Minha decepção já se arrastava por dias, desde quando a vi na balada. E eu havia tornado minha infelicidade grosseiramente visível a todos os pobres coitados que decidiam falar comigo ou sequer cruzar o meu caminho. Eu estava insuportável.

Assim que coloquei meus pés no piso frio da cozinha, dei de cara com a Mia e o Fer sentados à mesa, aproveitando todo o resto dos sucrilhos que eu pretendia comer. Morram, amaldiçoei-os mentalmente, emburrada. Agarrei a caixa de um cereal-não-tão-gostoso que havia sobrado na prateleira e sentei para comer, deixando claro que a miséria a qual meu café da manhã havia sido reduzido não me agradava nem um pouco. Os dois me olharam, sem entender.

Havia uma certa pena na forma como o Fer andava me observando nos últimos dias, mas ele não se incomodava mais em tentar me animar. Eu estava insuportável e azeda. A presença da Mia, no entanto, me distraía indesejavelmente e a minha raiva era substituída por um desconforto imenso. Vê-la era pior do que o meu aborrecimento constante dos últimos dias. Era horrível. Ela sabia que eu gostava dela, há dias, e desde então não disse mais nada na minha direção. Autopreservação de cu é rola. Eu me sentia duplamente idiota.

O café da manhã foi interminável. Eu olhava para a Mia e ela fingia não me ver. Então voltava a encarar o meu prato. O Fer me observava piedoso. Eu percebia e ela desviava o olhar rapidamente. Eu olhava para ele e depois para a Mia. Ah... Mia, Mia, Mia. Eu a contemplava por um tempo e ela, enfim, me olhava de volta. Eu forçava um sorriso discreto e desajeitado. Ela imediatamente procurava outra coisa para olhar. Droga. Aquilo parecia uma dança destinada ao fracasso.

janeiro 16, 2010

Fora de controle

Subia a Rua Augusta transpirando ódio por todos os meus poros, trombando em todos os tarados e idiotas que ocupavam a calçada. Sai da minha frente, porra. Não conseguia acender um cigarro sequer, estava tão irritada que era capaz de começar uma briga por motivo nenhum. Eu devia ter falado alguma coisa! Eu devia ter ido até lá e tirado aquela idiota de cima dela! Eu devia... argh! Não conseguia pensar direito, minha cabeça estava cheia e a imagem da Clara se agarrando com outra insistia em voltar à minha mente. Maldita. Vai se foder!

Eu sabia o quanto eu estava sendo hipócrita em odiá-la, mas não conseguia evitar toda aquela angústia, aquela frustração. Mais do que decepcionada, eu estava tomada por uma ira desproporcional. Me sentia traída. Como eu sou idiota, uma porra de uma idiota completa. Tudo bem: eu não havia sido exatamente sincera sobre meus sentimentos com a Clara. Ou melhor, havia dito a verdade – afinal, eu gostava mesmo dela –, mas omiti tudo o que dizia respeito à Mia. Mas vê-la com outra garota me tirou do sério. É. Eu me ferrei.

Cheguei no meu prédio num acesso de raiva, batendo a porta do apartamento e chutando uma mochila largada em frente à entrada. O “Casal 20” estava sentado no sofá, observando meu comportamento infantil e destrutivo. O Fer levantou-se, nervoso, perguntando por que diabos eu estava chutando tudo e tentando quebrar a nossa porta. Eu estava realmente sem paciência e aquilo me irritou ainda mais. Pelo bem do nosso inevitável convívio, resolvi não responder e atravessei a sala bufando, ignorando a pergunta.

_Mano – ele insistiu –, QUE PORRA É ESSA?
_NÃO É DA SUA CONTA, CARALHO!
_É da minha conta se você for destruir o nosso apartamento!
_QUER SABER MESMO? – eu me virei, prestes a me descontrolar – Eu acabei de pegar a Clara praticamente DANDO PRA OUTRA MINA NA BALADA! FOI ISSO QUE ACONTECEU.
_E você precisa agir que nem uma criança? A MINA NEM ERA SUA NAMORADA! Você acha que faz alguma diferença você ficar descontando nas minhas coisas?
_AH, VAI SE FODER, FERNANDO!

Entrei no meu quarto, enfurecida, batendo a porta ainda mais forte. Com vontade de gritar. Andava de um lado pro outro, impaciente. AQUELA IMBECIL. Sentei na cadeira que ficava embaixo da janela e procurei me acalmar. Acendi um cigarro. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela. Não vou ligar para ela – repetia mentalmente. Numa tentativa de evitar um barraco. Ela não é nada. Não preciso dela. É só esquecer que essa porra aconteceu.

Dei um trago, nervosa. E soltei a fumaça no ar. Eu posso arranjar outras cem meninas se eu quiser. Que se foda a Clara. No entanto, por mais que eu tentasse me convencer de que era melhor ter passado por isso agora do que dali alguns meses, mais eu pensava nela. E na possibilidade de “meses”. Porra, Clara, mas que merda. Ela era divertida, era realmente ótima.

Subitamente, a minha confusão mental foi interrompida pela Mia, que bateu sutilmente na porta e pediu para entrar.

_Vim só ver se você está bem...
_Não quero falar – cortei a Mia, irritada.

Ela ficou quieta, me olhando, e o silêncio dominou todo o quarto. A última coisa que quero é falar sobre a Clara com você. A Mia parecia genuinamente querer ajudar, mas só a ideia de ter uma conversa dessas com ela como se fôssemos “amigas” só piorava a situação. Então continuei fumando, sem olhá-la de volta, e encarando o chão. Nem um ruído, nada. Absorvida nos meus pensamentos. Que bosta. E então, sem saber bem porquê, falei:

_Eu menti para você.
_Mentiu? – a Mia estranhou – Sobre o que?
_Sobre o nosso beijo. Eu sei porque eu fiz aquilo.
_A gente não devia falar disso agora...

A Mia se inquietou, a porta continuava aberta. E o Fer estava no apartamento.

_A verdade é que... – hesitei – ...eu sempre quis te beijar, Mia... – as palavras simplesmente continuavam escapando da minha boca – ...desde o primeiro dia em que te vi. Sempre. Tudo o que eu fazia com a Clara, tudo, absolutamente tudo, era só para te provocar.
_Você só está falando isso porque está brava com ela...

A Mia argumentou, confusa.

_Não! Eu gosto de você! – continuei, olhando-a nos olhos e forçando-a a acreditar em mim – Eu realmente gosto de você... Mais do que você imagina e muito mais do que eu deveria gostar.


Ela deu um passo para trás, hesitante, mas não havia mais volta. Ela finalmente sabia.

O que acontece em Vegas...

Quarta-feira: o meio da semana é sempre o pior.

Meu tédio mortal se prolongava pelo mais lento de todos os dias de trabalho. Lá estava eu, fingindo me concentrar numa seleção de fotos de casamento, apoiando o rosto nas mãos e quase caindo da cadeira. Qual é a dos héteros e dessas cerimônias de merda?, eu me indagava, olhando para as fotos e ignorando meu real dever para com elas.

Eles todos parecem integrar uma grande piada institucional, eu refletia, amarga. Meus pensamentos heterofóbicos me distraíam improdutivamente da minha função. E o pior é que eles sabem, continuei mentalmente. Indignada com o conceito de matrimônio.

Achava até certa graça naquele tipo de trabalho fotográfico. Eram sempre iguais e pareciam me dizer muito sobre as pessoas: ficava horas observando os sorrisos posados e os olhares bêbados de fim de festa, procurando qualquer descuido do noivo ou da noiva. Aquilo me entretinha, era como procurar indícios de uma conspiração mundial.

Estava absolutamente compenetrada na minha viagem sociocrítica, quando meu celular tocou – me despertando de volta para a realidade. Do outro lado da linha, a voz afeminada e fabulosa de um dos meus melhores amigos tagarelava qualquer coisa sobre acompanhá-lo ao Vegas e escandalizar na pista a noite toda. Ah, o Guilherme é a minha salvação.

_Você não tem desculpa, são dois minutos da tua casa... você vai!
_Lógico que vou, Gui – eu ri – Quando foi que eu perdi a chance de sair com você?
_Melhor eu não responder essa, vagabunda traidora.
_Ok, ok... – eu ri, de novo, consciente do meu desempenho vergonhoso como amiga nos últimos meses – ...mas juro que dessa vez vou.
_Não ouse furar comigo! – ele me advertiu, gritando histericamente no telefone, enquanto eu continuava rindo – Hoje é diversão ga-ran-ti-da! Você sabe, o que acontece em Vegas...
_...fica no Vegas. Eu sei. Eu vou estar lá, não se preocupe.

Desliguei o celular feliz, com uma perspectiva melhor para o restante do meu dia, inesperadamente salva por um telefonema. No caminho de volta para casa, algumas horas depois, fumei menos cigarros do que o usual. Não tive vontade. Entrei em casa e nem falei com a Mia, porque também não havia necessidade. Fui direto para o meu quarto e comecei a seleção de roupas para uma noite digna de Las Vegas. Ou pelo menos, a versão gay disso.

Balada! Balada! Balada!

Combinamos de nos encontrar na porta às 23h e, sem atrasar quase nada, eu apareci... vestindo o mesmo shortinhos do Glória e uma blusa larga do L7. O Gui era um moreno alto de olhos claros, o mesmo para quem liguei e confessei meu amor pela Mia uns meses antes. E ele apareceu mais gato do que nunca. Ia encontrar um novo pretendente, um cara agendado para discotecar no Vegas naquela noite, que ele me jurou incansavelmente ao telefone que era “lindo de morrer”. Quero só ver, pensei ao entrar na balada, após enfrentar uma pequena fila.

A pista estava consideravelmente cheia. Isto é, para uma quarta-feira. O ambiente era dominado por um som pesado, a atmosfera toda me agradava. No meio do escuro, meu olhar vagava de um lado para o outro à procura do DJ misterioso, enquanto o Gui vomitava descrições empolgadas sobre o tal cara e como eles se conheceram.

Mal havíamos passado da porta, quando meus olhos se depararam com um rosto familiar. Um que eu não esperava encontrar. Num canto junto ao palco, se amassando com uma babaca alternativa de merda, estava a Clara. Fiquei parada observando as duas, sem conseguir dar um passo a mais.

Filha-da-puta.

janeiro 14, 2010

Amigas

As semanas seguintes foram inevitavelmente ordinárias. Não aconteceu nada. A rotina e o tédio me anestesiaram de tal forma que não vi os dias passarem. As manhãs amanheciam iguais, vazias. Ia e saía do trabalho no piloto automático, consumida pelo nada que ocupava minha mente. De volta à porra do dia-a-dia.

Não tinha absolutamente nada para fazer, para me preocupar... Nada. A Mia voltou a frequentar o apartamento e, com o tempo, ela não me olhava mais como uma ameaça. Não esperava nada de mim – nenhum gesto em sua direção, nenhum olhar inapropriado, nenhum beijo infeliz. Nós éramos as mesmas de antes. Meus dias se resumiam a trabalho e cigarros, um atrás do outro. Desde o meu desempenho fenomenal no bar do Glória, havia decidido que era mais inteligente investir meu dinheiro na possibilidade de um câncer do que gastar algumas centenas na probabilidade de um coma. Sendo assim, fumava da porta do trabalho até a entrada do metrô e da saída na Consolação até a frente do meu prédio.

Lar, doce lar. Após mais um dia completamente inútil, eu entrava em casa e dava de cara com a Mia. Ótimo. A minha vontade de beijá-la não havia ido embora, mas agora éramos “amigas”. De novo. E isso me impedia de fazer qualquer merda que me comprometesse e acabasse de vez com as minhas chances de sequer existir na sua vida.

Portanto, eu optei por agir como uma pessoa normal e voltei ao que nós éramos antes de tudo aquilo acontecer. Comíamos pizza juntas, assistíamos filmes, conversávamos sobre Tarantino, bebíamos cerveja, enchíamos o saco do Fer com arremessos de canudos, ouvíamos os Stooges na sala, fazíamos bolinhos de chuva, fumávamos maconha, ríamos muito, reclamávamos das nossas barrigas doendo, filosofávamos a noite inteira e íamos dormir em quartos separados.

Pois é, amigas.


Eu estava odiando cada segundo daquilo.

janeiro 12, 2010

Ressaca moral

De volta à estaca zero com a Mia.


...por que tenho a sensação de que isso deveria me deixar mais feliz do que eu realmente estou?

Coragem, coragem!

_Fer... Feeer... Fernando... Fernaaando... Fer! – eu sussurrava, ajoelhada ao lado da cama, sacudindo-o no escuro.
_O que foi? – ele murmurou, sonolento, sem se mexer.
_Eu preciso roubar sua namorada.
_O quê? – ele despertou momentaneamente – Do que cê tá falando?!
_Só um pouquinho. Assunto feminino de extrema importância. Eu te devolvo logo.
_Mano, você está bêbada? – deixou-se cair de novo na cama, ainda com sono.
_Muito.
_Deus do céu... Você não vai vomitar, vai?
_Talvez – respondi, com um certo quê de verdade – Me empresta ela? Chama aí pra mim.
_Fique à vontade... – ele respondeu, meio dormindo, e pude ouvi-lo balançando ela no escuro – Amor, acorda, emergência feminina aqui.

Algum tempo depois, a Mia se levantou e me acompanhou até o corredor, sem entender o que estava acontecendo nem abrir os olhos direito. Parei com ela em frente ao meu quarto e pedi que entrasse.

_Mas não é melhor você ir para o banheiro? – cochichou.
_Eu não vou vomitar – retruquei ofendida –, eu estou ótima!
_Você não me parece nada “ótima”... – ela levantou as sobrancelhas – ...quanto você bebeu?
_Ah, só entra aí logo! – disse, empurrando-a para dentro e fechando a porta.
_Você perdeu a cabeça? – ela reclamou, levantando o tom de voz e virando-se para sair novamente, nitidamente brava.
_Olha... – eu disse, segurando-a pelos braços e olhando diretamente em seus olhos – ...se eu não estiver incrivelmente bêbada, eu não vou resolver isso nunca.

Ela suspirou, já sabendo do que se tratava, mas cruzou os braços e pôs-se a me ouvir. Continuei:

_Eu queria me desculpar. Por tudo. Pela forma como eu ando agindo, pela Clara...
_Você não precisa se desculpar pelas meninas com quem você sai – ela me interrompeu.

Ah, tá. Falou a que não se incomoda.

_Mia...
_Faz o que você quiser, não tem que se desculpar por isso.
_Mas por ter te beijado, sim.

Ela ficou quieta e olhou para baixo, parecia não querer falar no assunto. Droga. Não sabia bem o que dizer. A Mia subiu os olhos novamente em minha direção, se mostrando irritada:

_Por que você foi fazer aquilo? – perguntou.
_Eu... eu não sei. Olha, Mia, eu sou uma idiota...
_É, você é mesmo!
_Você me odeia?

Olhei para ela insegura, arrependida. A Mia ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para baixo. Estava descalça e com as pernas descobertas, usava uma blusa velha e larga do Fer.

_Claro que não – cochichou de volta, constrangida.

E eu sorri.

A Mia me deu um abraço – desses horríveis, de amiga – e nos olhamos. Nós duas rimos. Ela voltou para o quarto do Fer e eu pulei na cama, feliz, como uma adolescente. O sentimento não durou muito, porém. Amanhã vai ser o pior dia da minha vida, concluí deitada, ao pensar na ressaca arrasadora que me aguardava nas horas seguintes.


Ainda assim, num ato de coragem motivado pela imensa quantidade de álcool no meu sangue, fechei os olhos. E dormi.

janeiro 11, 2010

Meu passado me condena

...e, infelizmente, o presente também.
Sabe como algumas lésbicas se consideram a ovelha “colorida” da família? Bem, eu era a galinha colorida da minha. E quando se pega mais mulher do que todos os seus primos juntos, lugares como o Glória eram extremamente desfavoráveis. Estavam estocados de possíveis exs. Entrar lá acompanhada da Clara não me parecia a ideia mais sensata, vai dar treta.

Assim que chegamos na balada, claro, eu me arrependi. Por que eu estava com pressa de vir para cá? Impulsos suicidas? Porém, como eu não tinha muita escolha, entrei. Uma olhada rápida na pista e resolvi ir procurar a minha coragem. No bar, evidentemente. Três doses de tequila depois e eu estava prestes a encontrá-la. De certa forma, ficar estupidamente bêbada parecia um jeito mais fácil de estar ali com a Clara.

_Devagar aí, gata! – a Clara disse, rindo, enquanto eu pedia a quarta dose – quer acabar a noite numa ambulância? Isso é tequila!
_Eu sei o que é – respondi, sem paciência, virando o copo – Vamos dançar, vem.

Arrastei a Clara até o meio da pista e a última coisa que me lembro foi a minha menina dançando perto demais da menina dela. Ouch. O restante da noite me vem à memória somente em forma de flashes dispersos e embaçados. Santa inconsciência.

Deixamos a balada lá pelas 5 da manhã, descabeladas e consideravelmente mais pobres. Eu estava tão bêbada que sequer contestei a quantia absurda de tequilas e vodkas que me foram cobradas. Eu não bebi tudo isso, pensei ao cambalear para fora, certamente que não.

Entrei no carro e acordei na frente de casa.

A Clara desceu, não menos fora de controle do que eu, para se despedir da minha pessoa contra o portão do edifício. E quase como se não pudéssemos evitar, demos início ao maior amasso do lado de fora do meu prédio. Por uns 20 minutos. Talvez 30, não sei. A amiga já emputecida buzinava insistentemente para que a Clara voltasse para o carro, enquanto eu me empenhava em fazê-la ficar.

_Vaaaamos... Eu deixo você ser o Bowie, eu deixo você ser quem você quiser... – eu murmurava, quase entrando na sua roupa, e a Clara ria, me empurrando para longe.

Por algum motivo, que evidentemente não me recordo, ela não podia ficar. Foda-se, pensei, recuperando momentaneamente a sobriedade. Disse adeus, emburrada, e subi. A minha batalha para encontrar as chaves, caída de joelhos em frente à porta do meu apartamento, tirando tudo que encontrava nos bolsos e deixando espalhado pelo chão, é um episódio que talvez eu deva pular. Ahm. E passar direto para a parte em que entrei em casa, sozinha e perigosamente alcoolizada.

Meus pés já não obedeciam direito aos meus comandos – ou talvez fossem os comandos que estivessem confusos, não sei, tanto faz – e eu mal era capaz de abrir os olhos. Parei no meio da sala, atordoada, observando tudo rodar e rodar e rodar.


Foi quando eu tive uma péssima, péssima ideia.