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junho 29, 2013

Os Gênios

_Como... – ele falava, agora mais para si mesmo do que para mim; tinha as mãos apoiadas na mesa da sala e soava inconformado – ...como, COMO VOCÊ PÔDE FAZER ISSO COMIGO?!?! COMO??!!?!?! É V... – empurrou a mesa – ...É V-VOCÊ, CARALHO!!!!! E SOU EU! EU, PORRA!!! NÃO OUTRO IDIOTA QUALQUER QUE VOCÊ PODE FAZER O QUE QUISER, O Q... O QUE EU SOU PRA VOCÊ, SUA FILHA DA MÃE?!???!? COMO VOCÊ FAZ ISSO PELAS MINHAS COSTAS?!???!?!?
_Fer, e-eu não... eu juro, e-eu... – eu lutava contra o choro, a fraqueza na minha voz, a esta altura já desesperada – ...e-eu não planejei, eu n-não queria. Por favor! Me desculpa, por fav...
_Você... – ele riu, soando como se o irritasse ainda mais – ...repete, REPETE isso. Você “NÃO QUERIA”?!?!??! AH!! E FOI O QUÊ, HEIN??!??! UMA MERDA DE UM ACIDENTE?!???!

Senti um impulso visceral de ignorar tudo e abraçá-lo, de fazer aquela merda toda passar magicamente. E me segurei, ouvindo-o despejar os seus gritos contra mim. Fora de controle, como eu e ele éramos, em colisão direta.

_HEIN???? FOI SEM QUERER AGORA?!? ME DIZ, FALA AÍ, QUANTAS VEZES VOCÊ DEU EM CIMA DA MINHA MINA POR ACIDENTE?? FALA ENTÃO, PORRA!! QUANTAS VEZES VOCÊ PAROU NA FRENTE DA MINHA, MINHA, NAMORADA SEM PENSAR POR UM SEGUNDO NA SUA DROGA DE AMIZADE COMIGO E FOI LÁ E BEIJOU ELA, PORRA?!??! QUANTAS?!?!? QUANTAS VEZES?!?? UMA, É??!? FOI UM “ACIDENTE”?!??? – ele revirou os olhos, nervoso com tudo o que saía da minha boca – VOCÊ VAI ME DIZER QUE NÃO ESTAVA EM PLENA CONSCIÊNCIA ENQUANTO COMIA ELA DE NOVO – começou a bater a mão contra a parede ao falar – E DE NOVO; E DE NOVO?!??! QUE TODO ESSE TEMPO VOCÊ PENSOU EM MIM?!??!? HEIN?!?! EM COMO EU IA ME SENTIR, PORRA, SENDO ENGANADO POR VOCÊS DUAS?!??!? AS DUAS, CARALHO!!!!
_NÃO!! NÃO FOI ASSIM!!! – comecei a implorar, mais uma vez, para que ele me ouvisse – E-EU PENSEI!! Eu juro que pensei!! Fer, eu SÓ pensava em você, O TEMPO TODO!!! EU NÃO CONSEGUIA TIRAR ISSO DA MINHA CABEÇA!!! VOCÊ TEM QUE ACREDITAR EM MIM!!! – as lágrimas corriam desimpedidas pelo meu rosto, eu tentava argumentar com qualquer razão que me restasse; não posso te perder, porra – TODA VEZ, TODA MALDITA VEZ, EU ME SENTIA A PIOR PESSOA DO UNIVERSO, E-EU TIVE NOJO DE MIM... E-EU...
_E VOCÊ NÃO PODIA PARAR?!??! – ele berrou ainda mais alto, indignado com a resposta – HEIN?!? TINHA ALGUÉM APONTANDO UMA PORRA DE UMA ARMA PRA SUA CABEÇA??!??! TE OBRIGANDO A COMER A MIA?!???!? A IR ATRÁS DA MINHA MULHER, CARALHO??!?
_M-mas...
_PORRA, EU POSSO NÃO SER O CARA MAIS CERTO DO MUNDO, EU POSSO JÁ TER ERRADO E FODA-SE. MAS NÃO TINHA OUTRA MULHER NO MUNDO?!!? ISSO NÃO. ISSO NÃO, CARALHO!! EU SEMPRE RESPEITEI AS SUAS MINAS!! E VOCÊ SABE!! – tomou fôlego, me encarando COMO VOCÊ IA SE SENTIR, HEIN?? SE EU PEGASSE A PORCARIA DA CLARA E COMESSE ELA NO CÔMODO DO LADO DO SEU, PORRA?!? EM TODA MERDA DE POSIÇÃO, VOCÊ IA ME PERDOAR?!?! E... E ISSO SEQUER É COMPARÁVEL!! FAZ MAIS DE TRÊS ANOS QUE EU TÔ COM A MIA, CARALHO!!! TRÊS ANOS!!!!! VOCÊ ACHA Q-QUE ELA NÃO IMPORTA, QUE ELA É QUALQUER UMA?!?! QUE VOCÊ PODE SAIR FAZENDO ESSA MERDA?!?!?!! VOCÊ SABE O QUE ELA SIGNIFICA PRA MIM, PORRA!! VOCÊ NÃO SE CONTROLA?!? VOCÊ NÃO PENSA, CACETE; NÃO SABE PARAR O QUE TÁ FAZENDO!?!?!
_M-MAS... E-EU, EU PAREI!!!!! – comecei a discutir de volta, desesperada – EU PAREI, FER, ME ESCUTA, POR FAVOR... E-EU PAREI MIL VEZES!!! MAIS DE MIL!! UM MILHÃO DE VEZES!! NÓS NUNCA TIVEMOS NADA FIXO, EU JURO!!! A-A GENTE IA E VINHA J-JUSTAMENTE PORQUE NÃO CONSEGUIA CONVIVER COM NÓS MESMAS, COM A CULPA; A GENTE SÓ BRIGAVA!! FER, EU ME SENTIA TÃO MAL; EU ME SINTO MAL!! EU NUNCA, NUNCA, NEM EM UM MILHÃO DE ANOS, IA ESCOLHER TE MAGOAR ASSIM... E-EU... – minha voz perdia o fôlego e eu soluçava aos prantos, envergonhada por ter um dia (ou em muitos deles) desonrado a pessoa mais importante na minha vida – ...POR F-FAVOR!
_FODA-SE!! FODA-SE!! PODE CHORAR, PORRA!! CHORA O QUANTO VOCÊ QUISER! – ele chutou uma das cadeiras, mandando-a para perto da parede – VOCÊ ACHA QUE “TUDO BEM” ENTÃO PORQUE VOCÊ PAROU ALGUM DIA??? QUE ISSO MUDA O FATO DE QUE É VOCÊ COM ELA AGORA?!??! QUE É VOCÊ, CACETE, E NÃO EU?!?!? E-E PRA QUÊ?!?? – ele se segurava, à beira de um surto – PRA VOCÊ COMER ELA MAIS DUAS, TRÊS VEZES E DEPOIS FICAR ENTEDIADA??!??! PRA VOCÊ LARGAR DEPOIS??!??! EU AMO ELA!!! – começou só então a chorar, furioso, e gritando – EU AMO ELA, CARALHO!!!!
_EU TAMBÉM AMO!!! EU TAMBÉM AMO, PORRA!!! – retruquei, sem qualquer noção – E-EU, EU SEMPRE AMEI!!! EU AMEI ELA POR UM ANO INTEIRO ANTES DE SEQUER COGITAR FAZER QUALQUER COISA!! VOCÊ NÃO ENTENDE?!?! VOCÊ ACHA QUE É FÁCIL PRA MIM?!!?!? EU SEI QUE VOCÊ AMA ELA!!! VOCÊ É MEU MELHOR AMIGO, CARALHO, O QUE DIABOS ERA PRA EU FAZER??!? – chorei ainda mais irritada; e humilhada, era a reação mais crua e sem um pingo de orgulho que eu já tivera em uma briga – EU NÃO QUERIA FAZER NADA!! NADA!!! A MAIOR PARTE DO TEMPO EU NEM SABIA O QUE ESTAVA ACONTECENDO!! A MIA NÃO FALAVA. E NÃO TE LARGAVA E NÃO ME LARGAVA. E EU NÃO SABIA SE IA CONSEGUIR, E-EU TINHA SURTOS DE CULPA E NINGUÉM SABIA O QUE MERDA ELA SENTIA, AO MESMO TEMPO EU NÃO QUERIA FICAR NO CAMINHO DE VOCÊS, PORRA, E EU N-NÃO TINHA O QUE FAZER COM TUDO O QUE TAVA SENTINDO!!! ELA VIVIA NO APARTAMENTO!! O QUE EU IA FAZER???
_FALASSE COMIGO, CARALHO!!!!!!!!
_FER, POR FAVOR... – voltei a me submeter a ele, agora menos agressiva – ...VOCÊ TEM QUE ACREDITAR EM MIM!! EU NUNCA, NUNCA FARIA NADA DISSO... SE EU NÃO AMASSE ELA DE VERDADE!!!

Ele passava o antebraço no rosto, enxugando as lágrimas, com raiva. E parou quando me ouviu terminar de falar, irritadíssimo:

_E V-VOCÊ... VOCÊ ACHA QUE ISSO ME FAZ SENTIR MELHOR??!?? – gritou, me fuzilando com os olhos – P-PORQUE EXISTE AMOR NESTA MERDA?? PORQUE É DE VERDADE?!???!?
_NÃO! NÃO FOI ISSO QUE EU QU...
_É PRA EU FICAR O QUÊ, ALIVIADO??! – me interrompeu – POR QUE NÃO É SÓ VOCÊ SENDO VOCÊ, NÃO É SÓ VOCÊ COMENDO TUDO O QUE SE MOVE AO SEU REDOR??!?? HEIN?!?? O-O QUE DIABOS EU DEVO FAZER ENTÃO??!? FICAR FELIZ POR VOCÊS AGORA, PORRA??!? POR QUE VOCÊS SE AMAM?!?!! POR QUE A MINHA MULHER TE AMA?!?!? – ele se rasgava em lágrimas, puto da vida; tinha os olhos vermelhos – EU VOU O QUÊ?!? IR NA MERDA DO SEU CASAMENTO?!?? SER PADRINHO DOS SEUS FILHOS?!??! O-O QUE VEM AGORA, HEIN, VOCÊS VÃO N-NAMORAR?!?! VÃO AVISAR PRA TODOS NOSSOS AMIGOS AGORA, CARALHO?!?!?! É ISSO?!? VÃO “FICAR JUNTAS” E EU TENHO QUE “ENTENDER”?!?!??
_NÃO!! Você não precisa entender nada, nós não vamos nam... e-eu...
_VOCÊ É A MINHA MELHOR AMIGA!!! VOCÊ É A MINHA MELHOR AMIGA, PORRA!!! E EU TIVE QUE SENTAR LÁ E OUVIR A MERDA DA MINHA NAMORADA DIZER QUE NÃO ME QUERIA MAIS... QUE NOSSO NAMORO NÃO DEU CERTO, CARALHO!!! E-E COMO SE NÃO DOESSE O BASTANTE, ESCUTAR PELA PRIMEIRA VEZ QUE ELA ME TRAIU, SABER QUE ELA ME TRAIU COM VOCÊ, VELHO!! COM VOCÊ!!! EU QUIS VOMITAR!! VOCÊ FAZ IDEIA DE COMO EU ME SENTI!?!? VOCÊ ME CONHECE A MINHA VIDA INTEIRA, PORRA, DEPOIS DESSE TEMPO TODO. COMO VOCÊ PÔDE FAZER ISSO COMIGO?? – o meu coração se despedaçava; senti uma dor que não se comparava a nenhuma das outras vezes em que briguei com o Fer, com qualquer pessoa, ainda que fôssemos temperamentais e que nós dois sempre tivéssemos um certo gosto por esporros alheios; aquilo me destruía em culpa como se minha garganta fosse esmagada por toneladas e toneladas incessantes de palavras violentas dele – COMO?? COMO VOCÊ TEVE CORAGEM, DEBAIXO DA MESMA PORRA DE TETO QUE EU?? A MINHA MINA, CACETE?!??!
_NÃO, PÁRA! PÁRA! FER, POR FAVOR, VOCÊ TÁ... E-EU... NÃO... – chorei, comecei a sentir toda a ansiedade física antes esquecida pelo calor da briga e me vi mal – ...EU SEI QUE E-EU, QUE NÃO TEM DESCULPA PRO QUE EU FIZ. Mas você, você está chateado com a Mia, comigo, é muita coisa num dia só e e-eu... E-eu sei que, que a gente, se a-a gente parar... Sabe, a-a gente pode conversar direito. POR FAVOR! Por favor. Amanhã, outro dia. V-vamos esfriar a cabeça, e-eu... VOCÊ SABE QUE EU TE AMO, CARALHO, VOCÊ É MEU IRMÃO, PORRA! E EU N-NÃO... EU NÃO CONSIGO TE OUVIR FALAR ASSIM!! EU NUNCA QUIS TE MACHUCAR!! ME PERDOA. ME PERDOA, POR FAVOR!! VOCÊ TEM QUE ACREDITAR EM MIM, A GENTE TEM QUE CONVERSAR COM CALMA.  
_POR QUE?? VOCÊ LÁ TÁ PERDENDO ALGUMA COISA??? É VOCÊ QUE TÁ SOFRENDO PRA VIR CAGAR REGRA AGORA, PORRA!!! ME TIRARAM VOCÊ E ELA NO MESMO DIA, VOCÊ TÁ MELHOR DO QUE EU... – riu forçosamente, ainda visivelmente magoado; o braço tatuado já úmido.
_F-fer... n-não precisa ser assim, NÃO PRECISA!! Vamos conversar amanhã, v-você... você acabou de sair da casa da Mia!! Por favor. POR FAVOR!! E-eu faço o que você quiser, só vamos conversar. CARA, VOCÊ É IMPORTANTE DEMAIS!! EU NÃO POSSO NÃO TE TER NA MINHA VIDA!!
_PUTA QUE PARIU... – ele disse a si mesmo, tinha as mãos sobre o rosto em descrença – ...PUTA MERDA!!
_O qu...
_É POR ISSO?!? – chutou outra cadeira, perdia completamente o controle – É POR ISSO QUE VOCÊ TERMINOU COM A CLARA??!? F-FOI A MIA??!??!?
_Não faz isso, por favor... Vamos conversar direito, e-eu...
_FOI A MIA?? FOI A PORRA DA MIA?!?! A MINHA MIA??!? FOI??! HEIN?!?! – ele se irritava, piorando ainda mais discussão – A CLARA SABE?!?! ELA SABE DESSA MERDA?!?!? QUEM MAIS SABE?!?? – o Fer chutou então a cadeira, mais uma vez, que rebateu na parede e caiu no chão; onde ele a chutou de novo, ainda mais forte – QUEM MAIS SABE?!??? HEIN?!? FALA!!! – ele seguiu furioso, na minha direção, destruindo tudo pelo caminho – OU SOU SÓ EU O PANACA QUE NÃO ENXERGAVA ESSA MERDA, O ÚLTIMO A SABER?!?!?  HEIN?!?!? SOU SÓ EU, PORRA?!??
_NÃO!! NINGUÉM SABIA!! N-NÃO TINHA NADA PRA NINGUÉM SABER, N-NÓS...

De repente, escutei a porta do Du abrir em meio ao caos. E ele surgiu na sala, vindo direto do corredor.

00:00:00

O silêncio estava me matando. A sala imóvel e apenas o movimento do meu corpo contra o sofá, numa respiração pesada e ansiosa. Foi quando a campainha tocou – o meu coração congelou. Eu não estava pronta. Não assim – desejei. Por mais conversas ou esperanças que eu tivesse mantido nas últimas semanas, eu nunca realmente achei que a Mia e o Fer viriam a terminar. Nunca, jamais. Não cogitei o – então – óbvio cenário de que em qualquer dado dia eles poderiam, de fato, conversar a respeito. Como namorados o fazem. E que ela poderia me escolher, se cansar afinal de enganá-lo. Agora tudo culminava no som daquela campainha tocando, forte – do outro lado da porta. Eu me levantei.

Puta merda. Os meus passos pareciam não ter fim. Parecia que quanto mais rápido o meu coração batia, mais o tempo se esticava. Uma eternidade e além. Todo o trajeto foi consumido por pensamentos agonizantes; eu relutava a encarar a verdade, a encará-lo. Até o último segundo. Era insuportável percorrer aquela distância. Conforme me aproximei da porta, o meu estômago tornou a se revirar e meu nervosismo voltou a transparecer, cada vez mais físico. O Fer tinha cada uma das mãos apoiada num batente, o corpo projetado para frente e a cabeça para baixo – estava de camiseta branca. Retirei o rosto de frente do olho mágico  e apoiei a testa por um instante contra a porta, respirando fundo, tentando controlar o meu estômago. Eu tremia. Virei a maçaneta e abri.

Os olhos dele me encontraram. E tão logo me viu, ao erguer a cabeça, ele se retraiu. Num impulso. Retirou os braços do batente e se virou, dando dois passou de volta no corredor, tentando recuperar o controle. As mãos cobriam o rosto. Quando se voltou novamente na minha direção, os seus olhos já começavam a avermelhar, inchados – segurando uma dor que eu não conseguia enfrentar. Teria rastejado ali mesmo, arrancado todo o meu orgulho do meu peito em carne viva. Por favor, imploraria, me perdoa. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, ele caminhou direto para a porta e foi tornando-se mais irritado – “você falou com ela?”. Ele perguntou, sério. E não tive tempo de responder. O Fernando socou então a porta, com a lateral de uma das mãos, e repetiu, entrando brusco no apartamento – “VOCÊ FALOU COM ELA??”. 

_E-eu... Fer, eu m... – gaguejei.
_FALOU OU NÃO?? – ele estava possesso e dei alguns passos para trás, vendo-o perder a calma sem conseguir reagir – FALOU, PORRA??!? VOCÊ SABE POR QUE EU TÔ AQUI?!??
_Fer...
_ EU PERGUNTEI SE VOCÊ SABE, CARALHO!!!! SABE?!??!

“Sei”. Cedi então, num murmúrio covarde. E ele me encarou, quieto no instante que se seguiu à resposta. Os seus olhos lutavam contra o marejar, numa fúria violenta. Passava a mão, nervoso, na nuca e esfregou então o rosto. Para depois voltar a me olhar. E a gritar:

_Como você...? COMO VOCÊ PÔDE FAZER ISSO COMIGO?? – veio na minha direção e eu recuei – COMO?!?!? COMO VOCÊ FAZ ISSO?!?!?!? COMO VOCÊ FAZ ISSO COMIGO, CARALHO?!??!?! HEIN??!!?!? EU NÃO SIGNIFICO UM PUTO PRA VOCÊ?!?!?!?!? EU SOU SÓ UM PA... – empurrou uma das cadeiras da sala, nervoso – ...LHAÇO?!?!?! UM BABACA QUE VOCÊ PODE HUMILHAR, PASSAR POR CIMA?!?!?! NOSSA AMIZADE NÃO VALE BOSTA NENHUMA, PORRA?!?!?
_Fer, por favor, deixa eu conversar com você... – implorei, já prestes a chorar, tomada pela ansiedade acelerada – ...POR FAVOR.
_QUE... – a voz dele desafinou, berrando comigo – ...QUE MERDA VOCÊ PODE TER PRA FALAR?!?!? E-EU NÃO CONSIGO OLHAR NA SUA CARA – os seus olhos tornaram-se cada vez mais molhados e ele os continha com dificuldade, em cólera – VOCÊ  QUER QUE EU TE OUÇA, QUE EU FIQUE AQUI PARADO TE ESCUTANDO??!?!?! EU NÃO VIM CONVERSAR, PORRA!!!! EU NÃO TENHO NADA PRA FALAR COM VOCÊ!!
_Não... f-faz isso, e-eu...
_O QUE A GENTE VAI CONVERSAR?!?!?! – continuou na minha direção – HEIN?!?! O QUE EU TENHO QUE ESCUTAR?!?! O QUE EU TENHO QUE ESCUTAR?!?!?! QUE  PORCARIA A MAIS VOCÊ TEM PRA ME FALAR?!?!?! – as lágrimas começaram a escorrer no meu rosto, inertes – VOCÊ ACHA QUE EU QUERO OUVIR MAIS UMA PALAVRA DESSA MERDA?!?!?!!??! VOCÊ ACHA QUE É ALGUMA PIADA!?!?!? QUE EU VOU OUVIR E RIR NO FINAL?!?!? QUE EU VOU GOSTAR??! QUE EU QUERO ESCUTAR ESSA BOSTA?!?!?!
_Só... só m-me deixa, por favor, tentar te explicar... E-eu juro q...
_COMO VOCÊ PÔDE FAZER ISSO COMIGO?!??!? EU SOU SEU AMIGO!!!! EU SOU A MERDA DO SEU AMIGO, PORRA!!!!!!!
_NÃO!! VAMOS CONVERSAR, E-EU...
_AGORA, AGORA VOCÊ QUER CONVERSAR!! AGORA VOCÊ QUER FALAR COMIGO! PORRA... ISSO N-NÃO, NÃO TE OCORREU – apontou o dedo contra a testa, já berrando a plenos pulmões –, SEI LÁ, NOSSA, QUE TAL... ASSIM, ANTES?!?!?!?!?!?? HEIN??!? NÃO PASSOU PELA MERDA DA SUA CABEÇA??!?!? “HUM, ACABEI DE DAR EM CIMA DA MINA DO FER, SERÁ QUE EU DEVO FALAR ALGUMA COISA”?!??!??! OU “POXA, VAI VER O IMBECIL DO FERNANDO DESCOBRE QUE EU ESTOU PEGANDO A MIA PELAS COSTAS DELE E AÍ SERÁ QUE NÃO SERIA MELHOR EU CONTAR PRIMEIRO”?!?!? HEIN?!?!?!?!? SERÁ? “SERÁ QUE O MEU AMIGO DE MAIS DE DEZ ANOS MERECE UM CENTÉSIMO DO MEU RESPEITO?!?!?!??” HEIN?!? MEREÇO?!?! EU MEREÇO ALGUMA MERDA DE VOCÊ?!?!?!? – ele seguia em hipóteses, furioso, e eu o encarava aos prantos – “NOSSA! ACABEI DE COMER A NAMORADA DO MEU AMIGO... TALVEZ, SÓ TALVEZ, EU DEVESSE SENTAR COM ESSE TROUXA NO QUARTO DO LADO E FALAR A PORRA DA VERDADE”!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! HEIN?!!? NÃO TE OCORREU ISSO ANTES?!?!? NUNCA?!???!?? NUNCA??!? E VOCÊ ACHA QUE TEM ALGUMA COISA PRA CONVERSAR COMIGO AGORA?!?!!?

Eu chorava como uma criança, sem conseguir reagir. Sendo destruída – e internalizando uma a uma cada uma das suas palavras de repulsa à minha pessoa, por saber que ele tinha razão. Ele estava certo. E eu, eu nunca estive. Me obrigava então a ouvir agora, me forçava a aguentar calada tudo o que ele vomitasse na minha direção. E sentia as minhas entranhas se contorcerem em ânsia. O meu corpo todo estava instável, eu tremia. Vê-lo machucado desta forma me enfraquecia fisicamente – e eu me diminuía em espírito, desenfreada numa ladeira de autocomiseração. Me sentia um lixo. O pior de São Paulo. O ser mais indigno da sua amizade.

junho 25, 2013

00:10:36

Não pode ser. O meu coração acelerava. O sentimento de ânsia se misturou ao inesperado, a um desconforto e confusão sem muita base para saber de onde vinha. A minha mente repetia, insistente – não pode ser.  E os meus dedos inconscientemente esmagavam o celular na palma da minha mão. Num nervosismo precipitado. Mas que droga – o que foi isso?, eu calculava, mentalmente. E-ele não pode estar bravo, não comigo. O que DIABOS eu poderia ter feito? E se, se não é comigo, então com que? E por que ele me ligaria assim?!, as perguntas tomaram os meus nervos numa enxurrada. Ele não tem motivo para me ligar. Não agora. Não assim. Por q..., os meus pensamentos disparavam, o que aconteceu?! E por que ele precisa vir aqui?!

Senti uma falta repentina de ar. Isto não está acontecendo. Isto NÃO VAI acontecer. Levantei do sofá com certa afobação, os meus pés não sabiam para onde ir. Inferno, por que ele ligou? O meu peito arrancava em disparada como se fosse sair pela minha boca. E-ele sab... Não. Calma. Eu preciso me acalmar, isto não é nada – eu tentava me convencer, passando a mão no rosto repetidas vezes. Mas sabia que algo estava fora do lugar. De alguma forma, algo não estava certo. A voz dele estava diferente. Tinha algo, alguma coisa, que o irritara e o trazia agora direto para o meu apartamento. As peças não eram muito difíceis de se encaixar. Merda. Não pode ser. NÃO PODE SER, caralho! NÃO. NÃO ISTO.

Os meus dedos começaram a tremer, acendi um cigarro com dificuldade. Eu não sabia lidar com a ansiedade. Com a perda do Fer. Com nada daquilo que estava acontecendo e tão rápido, MAS QUE MERDA. Comecei a fumar como um trem desenfreado. Uma tragada seguia compulsivamente a outra – falhando em seu propósito de me acalmar. Muito pelo contrário: eu me sentia ainda pior. Sufocada e ansiosa, sem ideia do que bosta fazer. O desespero começou a tomar conta das hipóteses que se formavam em minha cabeça. Repassei todas as suas palavras mentalmente, a sua entonação, tudo. Algo não está certo. E não está certo COMIGO. É comigo essa porra, mas que INFERNO! A esta altura, a minha mão já estava tão instável que cheguei a derrubar o cigarro duas ou três vezes no chão, me deixando tomar pela angústia. PUTA QUE PARIU. Eu o conhecia o suficiente para não estar enganada sobre aquilo – e eu, eu não estava nem um pouco pronta para o que viria. Não. Por favor, não agora. NÃO ASSIM – PORRA!

Acendi o segundo cigarro. Ou o terceiro? Os minutos corriam. A Mia. Meus olhos se arregalaram, eu precisava ligar para a Mia. E-eles, eles ainda namoram; ela vai saber se alguém disse algo pra ele. Ela tem que saber. O Flamingo, a Augusta. Alguma coisa foi, porcaria – como pudermos ser tão idiotas?! ARGH! O meu pulmão já pedia arrego, afogando-se, sufocado. Uma tragada violenta atrás da outra. Eu não sabia o que fazer com as mãos, com os pés. Pressionava as costas de uma das mãos contra os meus olhos, os dedos tremendo. Não – não é isto. NÃO PODE ser isto. Não. Eu conversava comigo mesma, numa taquicardia desmedida – preciso me acalmar, encarar um fato de cada vez. Não surta agora. NÃO SURTA, porra. NÃO É NADA! Sentia o sangue pulsar pela minha aorta, através da minha pele. A mera ideia do que pudesse tê-lo feito gritar comigo daquele jeito era inconcebível, a sua grosseria não deixava margem para lá muitas interpretações. E eu sofria por antecipação, numa mania incontrolável de ser eu, de internalizar todas as merdas das minhas angústias e então explodir. Fica calma e pensa, cacete.

Não é nada disto. Liguei novamente o telefone e o número da Mia chamou algumas vezes, antes de ouvir alguém atender do outro lado. Nenhuma palavra. E então, a chamei – “Mia?”. Fiquei em silêncio. Foi quando a escutei chorar e a sua voz desafinou em cada letra que saíra da sua boca. O meu coração parou. Como um soco bem no meio do meu corpo. Ela não conseguia articular uma palavra sequer. E imediatamente eu soube. O tempo me atravessou, inerte – NÃO. Não podia ser. Ela murmurou então, ofegante: “acabou”. Balbuciava nitidamente destruída e nervosa; eu não ouvia nada do que dizia. Fui jogada para dentro da minha própria cabeça, num turbilhão repentino de arrependimentos. Não. Não agora. Não agora. Não. Não. Não, eu rezava. Implorava. Não. Agora não, porra. Não. Não. Não! Não! NÃO! NÃO!! Caí sentada no sofá, com a cabeça entre as mãos. E os olhos fechados, esmagados. Não. Não! Por favor, não. Não hoje. Por favor. Não. Pressionava os dedos contra o meu rosto, querendo recuperar qualquer tempo que eu um dia acreditava ainda ter.

_Vo... ê... st... aí?

Eu não a ouvia direito. Tentava ainda processar aquele momento, num esforço interno para controlar o meu pânico súbito. O desespero me dominava. Isto não, NÃO. E então a sua voz ressurgiu, clara e terrivelmente abatida:

_Você, você está aí? – a Mia soava desamparada e sozinha.
_E-estou. O F... – minha voz não teve coragem de dizer o seu nome e falhou antes que o pronunciasse, em covardia.
_Foi... f-foi horrível... – ela desabou, chorando – Ele... – a Mia interrompeu com um soluço, se desmanchava em lágrimas sem conter a dor que sentia.
_Mia...
_Horrível. Foi tão horrível.
_Mia... – eu estava ofegante antes mesmo de ouvir a resposta – O F... o Fer... ele sabe?
_E-eu...
_Mia – eu tentava colocar a cabeça no lugar –, por favor. Ele SABE?!
_V-você tem... que acredita em mim, eu... não queria contar, eu nã... você tem que, meu, a... a gente ia... – ela atropelava as palavras; como se se afogasse em uma piscina sem fundo, sem ver saída nos desdobramentos mais recentes – só... só conversar. E-eu, me desculpa... – chorava – por favor, me desculpa. Me desculpa... eu, eu não queria. Eu não queria falar nada! Eu... eu não sei o que fazer!! Eu não queria afetar a amizade de vocês. E-eu... EU NÃO SEI O QUE FAZER! Eu não... – a sua voz soava desesperada do outro lado – f-foi... foi horrível. Foi tão horrível! Eu... eu nunca vi ele assim. E-eu... nunca quis... a-a gente...
_M... Mia... – eu não a queria interromper; ouvi-la todavia, começou a me fazer subir uma vontade abrupta de vomitar – ...Mia. E-eu não tô bem...
_O que foi?? – ela se alarmou e então implorou – Não. Me desculpa, por... Por favor!!
_V-você não pr... precisa se desculpar, não por isso. E-eu, eu só... – perdi o meu fôlego e o meu estômago se embrulhava numa das piores reações psicossomáticas que eu já experimentara em toda a minha vida; sentia que ia perder enfim o meu chão – ...é só qu... eu só não, não estava esperando... por isto... e-eu preciso... eu... não tô bem.
_Não. Não, não fica assim... e-eu... – a escutava enxugar as lágrimas do outro lado e imediatamente tornar a chorar, sem controle das suas emoções; o seu estado, assim, me matava por dentro – Vamos conversar. POR FAVOR! E-eu não quero ficar sozinha. Deixa eu ir pro apê. Eu preciso te ver, vamos ficar juntas... E-eu... eu não sei o que fazer!!
_... – eu a ouvia falar e tentava colocar a cabeça no lugar, concentrada na minha respiração, sem conseguir processar o fato de que aquilo estava mesmo acontecendo, que havia saído do meu controle.
_Pos... posso ir te encontrar?!
_Me e...? – de repente voltei à conversa e me assustei, ergui o corpo – Não. NÃO! Ele, ele está vindo para cá.
_PRO APARTAMENTO??
_Meu deus – então dei-me conta e os meus olhos se arregalaram –. Ele, ELE TÁ VINDO PRA CÁ! Mia, merda. Mas que MERDA! O QUE EU FAÇO??
_C-como assim? Ele te ligou? Ele falou alguma coisa??? Eu vou praí. Calma, fica aí! Eu vou prai.
_NÃO!! – vetei na mesma hora – Não, não. Ele vai ACABAR com nós duas, se vir a gente junto. NÃO. VOCÊ fica aí! E-eu... – perdia o fôlego, só de pensar no que seria da minha amizade com o Fernando dali para frente e tinha vontade de arrancar o coração do peito; dei-me conta de que não havia nada mais em minhas mãos, não havia o que fazer – ...eu v-vou esperar ele aqui.

Desliguei o telefone. Como? Como algum dia eu pude achar que havia uma saída a isto?

junho 24, 2013

00:42:19

_Ahhh... – a Marina se desmanchou, em meio ao meu apartamento naquela quinta – ...vocês podiam ir morar juntas! Na casa que ela desenhou. Não seria LINDO?!

Revirei os olhos, rindo, e fechei a imagem com o desligar do celular – “aham, não viaja, Marina!”. Não era pra tanto assim. Ela então me abraçou – contra a minha vontade –, imersa em um acesso de fofura desprezível. Fiz com que se afastasse da minha pessoa. Ela resmungou: “você não saberia o que é romantismo, cara, nem se te atropelasse”, achando graça do meu mau humor toda vez que eu me retraía, dados seus ataques de empolgação.

_Não é isto. Eu sou perfeitamente capaz de apreciar. Fiquei feliz. Não preciso sair pulando e desenhando mil arco-íris na parte de trás do meu caderno, preciso? – ri, tragando um cigarro aceso minutos antes.
_Pois eu, que sou normal, achei adorável da parte dela. Você devia estar mais animada com as suas conquistas, a Mia parece enfim estar vindo na sua direção...
_Eu estou... – resta saber se o acidente vai ser maior, agora.

Nós cozinhávamos. Minha adorável ex-namorada checava, no forno, o progresso das panquecas que eu mais cedo improvisara. Era um fim de tarde gostoso. Os recheios variavam entre queijo e carne moída comprada pronta. Eu zombava deliberadamente da Marina, que agora abria a sua segunda latinha da chá gelado, conforme eu iniciava a minha terceira cerveja. “Não vai exagerar, hein...”, eu ria. E ela revirava os olhos para mim. “Como você é tonta!”, reclamou. Beijei a sua testa então e me abaixei novamente para checar as panquecas. Levariam mais alguns minutos para ficarem prontas. E quando ficaram, nos sentamos na mesa da cozinha – a Marina controlava o horário para sair incessantemente. Encontraria a Vivian na porta do show, na saída dali.

_Tenho um anúncio a fazer...
_Hum. Diga – a encorajei, enquanto cortava o primeiro pedaço.
_Vou fazer uma tatuagem!
_O quê?! VOCÊ?!? – ri.
_É. E uma grande...
_Ahm. Sei – eu ria, ainda – “Grande” quanto?
_Tá. Média. Mas ainda assim, você não está orgulhosa de mim?
_Muito... – achei graça, ela me olhava com uma expressão vitoriosa de quem-é-a-certinha-agora e eu tomei mais um gole da minha cerveja – Tá. Mas conta aí, o que você vai fazer? Já sabe onde?
_Não sei. Preciso que você me indique um estúdio! Não consigo pensar em nada, meu! E nem onde fazer. Eu não quero que fique exposto demais, nem que... doa muito...
_Má, vai doer.
_Eu sei. “Não muito”, eu disse.
_Faz na coxa. Ou nas costas, no antebraço. Sei lá.
_Na costela dói, não?
_Dói – ri.
_Ai, está vendo?! Não fala isso, eu estou com medo. Estou quase mudando de ideia, decidi ontem e hoje já estava surtando no telefone com a Vi, eu morro de medo da dor. Mas não queria fazer meia estrelinha, queria alguma coisa bonita.
_Não é tanto assim, vai... – eu me divertia com a ideia da Marina sendo tatuada por algum dos meus amigos brutamontes – Dá pra aguentar. É só não fazer na costela, oras. Faz em outro lugar. Quais são suas ideias?
_Ah. Não sei. É muito bobo fazer um bicho? Eu pensei numa frase, mas não sei se quero escrever nada. Aí pensei em fazer uma coruja.
_Uma coruja?
_É. O meu animal favorito, lembra? – ela me repreendeu – Ex-namorada do ano você, hein.
_Que foi? – me defendi, indignada com a indireta – Me diz, por que diabos eu ia lembrar disto? Se você algum dia me falou, faz anos. Você só fica guardando essas informações – ri – pra se vingar de mim, na boa.
_É. Isso mesmo. Você gosta de libélulas, tá, EU sei. E pra sua informação, eu não só te “falei” isto anos atrás, você me deu também um colar. Que por sinal eu guardo até hoje!
_Ah, é... verdade – eu sorri, meio amarelo.
_Sério. O que eu via em você?
_Não é de propósito. Eu só... fumo, muito. Mas não é como se fosse pouco caso – ri, de novo –. Na época eu sabia, tá vendo? Você mesma confirmou aí. E tenho certeza de que você não lembra de tudo! Fala, qual minha cor favorita?
_Verde.
_Tá – merda –, e então... minha comida favorita?
_Lasanha.
_Que saco, hein. Ah! Com quantos anos eu dormi com a primeira menina?
_Dezesseis.
_Quinze!
_Mas seu primeiro namoro foi com dezesseis...
_Dezessete. Eu peguei ela com dezesseis, uma vez. Fomos namorar só no outro ano, tá? Tá vendo? Você não sabe de tudo. E eu sei quantos anos você tinha na sua primeira vez... – brinquei, sem jogar limpo.
_Engraçadinha, assim não conta.
_Nossa! Que péssima ex-namorada que você é, Marina, meu deus.
_Ah, é. Então, vai! Fala: quantos anos eu tinha quando dormi com você? – ela me desafiou no meu próprio jogo – Vamos, Sra. “Eu Sei Quantos Anos Você Tinha Na Sua Primeira Vez”, quero ver.

Droga. Quanto era mesmo?

_Vamos... fala aí.
 _Dezen... não, VINTE! Vinte!! – hesitei, sem ter certeza –. Vinte?
_É. Mas senti uma engasgada aí, hein?!
_Ok... – eu ri também, abaixando a cabeça e então olhei para ela, surpresa – Caralho, Má, faz mais de seis anos já. Estamos ficando velhas...

Me senti uma bicha por um instante. É bom te ter ao meu lado, garota. O resto do jantar foi tomado por nostalgias. Minhas e dela – não apenas as nossas, juntas, mas outras também. Era bom poder estar com ela assim, sem preocupações. Ela se despediu de mim nem meia hora depois, ao passo que o Du chegava em casa e a tempo de ir encontrar com a Vivian em um barzinho na Vila Madalena, onde assistiriam uma cantora de MPB – provavelmente lésbica. Eu me larguei no sofá, agora sozinha na sala. O Du estava trancado no quarto. E me pus a assistir um filme na televisão, alguma exibição nada inédita do Poderoso Chefão. Não prestei muita atenção, estava quase apagada sobre uma almofada, quando o telefone tocou – era o Fernando.

_E a...
_VOCÊ ESTÁ EM CASA? – ele soava nervoso, eu não entendi.
_E-estou... por que, aconteceu alguma coisa?
_EU ESTOU INDO. FICA AÍ!!

Desligou. E uma ânsia tomou conta do meu estômago.

junho 20, 2013

22:37:58

Adivinha?! :-D”, um SMS da Marina anunciava. E eu sabia o que aquilo queria dizer – ela está namorando de novo. Que inferno. Não que esta fosse a minha maior preocupação por vir na semana, mas era quase. Digo, a notícia chegou aos meus olhos ao entardecer do domingo e não foi exatamente a “luz” do dia. O qual seguiu com uma ressaca leve e muito videogame. A Mia também escreveu horas antes, avisando que chegava em casa e ia enfim dormir. “Adorei hoje, mto!”, me mandou, numa mensagem de texto. Para alguém que dormira às oito da manhã, ter me levantado assim às três da tarde era um fato que ainda me surpreendia. Mas acabei virando a madrugada seguinte, insone – como era de se esperar –, dormi de novo só lá pelas cinco da manhã. E acordei atrasada, às nove passadas.

_Que carro atropelou você no caminho até aqui, hein? – disparou o Renan, meu colega bicha na produtora,  rindo ao me ver entrar pela porta.
_Não enche! A patroa já tá aí? – eu disse afobada, correndo.

Tinha uma roupa amarrotada qualquer contra o corpo, os cabelos mal presos. Ele deu uma resposta negativa para mim, achando graça. Menos mal assim, pensei. E iniciei o computador da minha estação. O Renan e a estagiária sapatão – com quem eu trocava vez ou outra comentários sobre a nossa chefe – eram os meus companheiros mais estáveis na empresa. Ele jogou verde: “E essa olheira aí, me parece bucha...”, disse, sentado num laptop mais adiante. E eu, que nunca falava sobre a minha vida pessoal, por algum motivo retruquei.

_É. Uma de uns dois ou três anos já aí... – ri, descontraída.

O Renan rolou a cadeira imediatamente até as proximidades da minha mesa, interessado. E eu o empurrei de volta com o pé. “Pode sair”, achei graça. Olhei para a tela. Aguardava as atualizações do computador se completarem. Ele então ligou no ramal da nossa amiga de mútua sexualidade, recrutando ajuda imediata. Ela soltou um “desembucha!” de cima do mezanino, assim que soube que a fofoca seria sobre a minha pessoa.  E eu olhei para cima, ainda rindo. Espiei ao redor, não havia ninguém. “Tá”. Me coloquei então a contar com receio, sem muitos detalhes – porque isto me custaria um dia inteiro –, a minha história com a Mia. Os encontros e desencontros infindáveis, as nossas brigas.

_...e no dia que a gente tava empacotando tudo, acabamos sozinhas na sala; e não sei. Eu sei que parece babaquice, mas... – eu revirei os olhos e sorri, pressionando as mãos contra o rosto – ...cara, aquela mina... – argumentei em voz baixa para o Renan, no meio da produtora; ele ouvia tudo atento –  ...sabe, era outro sentimento agora. E ela deu em cima. Eu também queria e... aí rolou, sei lá.
_Mas vocês voltaram pra valer?
_Ah, não sei. Sim. Mais do que antes, pelo menos. Tipo, é estranho, porque ainda parece muito a gente e o que a gente sempre foi, saca, o que é incrível, mas ao mesmo tempo já foi tanta coisa que também é diferente. Sei lá, meu! É bizarro. A gente se viu direto essas semanas e aí ficamos meio nessa, mas ela vai ver... Ah, é! E no fim de semana a gente foi no Flamingo...
_Humm... – ele arqueou as sobrancelhas, como se aquilo indicasse sapatonice, e eu comecei a rir.
_É, então...

Na hora do almoço, algum tempo depois, ele sentou na frente da nossa colega e resumiu tudo com um “olha, você não quer saber...”. Ela riu. “É um puta rolo, de verdade“, eu reforcei, antes de morder o meu hambúrguer. Complicado. Era complicado. E a minha sina na vida eram os relacionamentos assim, difíceis de explicar. A resposta se repetia – A Clara? Ah, é complicado. A Dani? É complicado. A Mia? É extremamente complicado. Até a Marina já fora complicada em algum momento – e eu sabia que a culpa era inteira minha. Por todas elas. “Mas estou tentando fazer algo certo, uma vez na vida...”, eu disse a eles, sentados na mesa de um McDonald’s da Paulista.

_É. Assim, você não me parece ter muita aptidão para conseguir, desculpa aí – a estagiária me zombou e eu concordei com a cabeça, lamentavelmente.

Argh. Como queria fazer dar certo com a Mia. Depois de todos aqueles anos. E – em algum cenário imaginário, estranho – aquilo parecia minimamente possível para mim. Sem que a minha amizade com o Fernando fosse afetada. Magicamente. E ok, não passava de uma mísera perspectiva de soluções meio nebulosos dentre todos os pensamentos concretos que me tomavam de ansiedade, mas quem sabe? A nossa amizade era algo sem o qual nós dois não sabíamos viver. Tinha que haver um jeito. Simplesmente tinha.

A terça-feira passou rápido, tão rápido quanto aquela segunda. E antes que desse por mim, já era o meio da semana. Havia marcado um jantar-relâmpago com a Marina naquela quinta, antes de um show que ela iria com a Vivian. E agora, um dia antes, me encontrava caminhando com duas sacolas pesadas do supermercado, adquiridas ali mesmo na Frei, em minhas mãos. Uma delas com latas de chá gelado para a noite seguinte. O tempo parecia um pouco mais frio naquele dia. Talvez vinte ou dezenove graus. E por volta das onze, fui surpreendida por uma mensagem incomum da Mia.

Era uma foto. Eu ouvia um álbum do Clash, entediada no meu quarto quando a abri. Estranhei. Aquele era o rascunho de um dos seus desenhos para a faculdade, ou assim eu presumi. O projeto de uma casa, um sobrado, feito sem medidas ou régua de escala. Parecia descolado, boêmio. Apenas o desenho à mão. Observei e os traços me atraíram. Eram diferentes. De uma maneira despretensiosa – alguns círculos e setas indicavam os materiais e cores usadas. Mas não todos. E ali num canto do papel, aproximei a imagem e li escrito a lápis:

Roubei este: Some places draw us to them for reasons beyond the feelings derived from the five senses...some deeper recognition is at work, felt through an unextinguishable animal sensibility.”

Lhe escrevi de volta. “É maravilhoso. O projeto, o poema. O que é?”, perguntei. E alguns segundos depois, o meu celular começou a tocar em cima da mesa. Abaixei a música no computador. E observei o seu nome no visor por um instante, sem entender a necessidade da ligação. Eram 23:36. Me ajeitei na cadeira e então atendi:

_Você gostou então?! – ela parecia animada e me fez sorrir, espontaneamente.
_Gostei. Ficou sensacional, porra! Foi você mesma que fez?
_Foi. Quer dizer, o desenho só, né. A frase eu copiei, mas não é um poema. Foi um casal de arquitetos que disse, sempre gostei dela.
_E é pro TCC? Ou pra que é?
_Pra nada. Comecei na época do seu aniversário e acabei deixando de lado; mas aí ontem tive mais algumas ideias. Fui mudando, rabiscando um pouco. A ideia era te dar ele umas duas semanas atrás. Mas é que aí aconteceu tanta coisa! O projeto ficou, sei lá... é meio Hundertwasser. Me lembra você.
_Eu?! – ri.
_É. Arquitetura orgânica. Os traços desalinhados, meio caóticos; as curvas, não sei, eu acho feminino. De alguma forma, isto é.
_Quer dizer então que eu sou caótica e desalinhada?
_Não! – ela gritou – Pára! Eu não sou boa com essas coisas, meu, não faz isso! Tá, tá. Eu sei que não tem nada a ver – a Mia riu, junto comigo –, mas enfim. Não se compara ao poema que você me deu, ok? Eu só pensei que, pelo menos, podia cobrir a minha parte da conta de água desse fim de semana, sei lá. Talvez você possa vender como projeto para uma multinacional e ficar rica em um só dia, nunca se sabe.
_Ahh – fiz graça –, eu bem sabia que toda aquela dor de cabeça um dia ia valer a pena...
_Velho, calada! Que você AMA a dor de cabeça. Você vive por isto. Se pudesse, você marchava contra fábrica de aspirina...
_Falou a que está fazendo fortuna com a doença alheia.
_Besta – ela riu e me afundei na cadeira, com o celular em mãos.
_Eu amei. De verdade. De verdade, Mia.


*Em tradução: Alguns lugares nos atraem a eles por razões que vão além de sentimentos derivados dos cinco sentidos... Há nestes casos uma forma mais profunda de reconhecimento, perceptível através de uma sensibilidade animal inextinguível. – Peter & Alison Smithson

junho 07, 2013

Plano B ou C

Numa resistência que me divertia, a Mia se recusava a levantar. Estávamos sentadas frente ao meu prédio há pelo menos uma hora e meia, conversando um tanto distraídas. “Você precisa ir, vai...”, eu a despachava agora e ela se negava veemente a mover. Tentei convencê-la de que tinha sono. “Sem chance, eu não vou entrar num táxi a esta altura do campeonato”, ela ria e balançava a cabeça para mim – eu olhava para ela, em pé frente ao meio-fio e às suas pernas no asfalto. Ofereci-lhe então a minha mão e ela cruzou os braços, em recusa.

_Vai logo, porra! – ordenei, de mão ainda esticada, e dei mais um trago com a outra num cigarro, soltando a fumaça em seguida.

Já eram quatro ou talvez cinco da manhã. E começava a esfriar. As pessoas ainda passavam pela Frei Caneca, transitando entre os bares ao lado na Augusta. “Não vou, meu”. A Mia aí argumentou que dali algumas horas tinha que estar do outro lado da cidade – e preferia não dormir. Fazia parte da sua pesquisa para o trabalho de conclusão de curso, o da faculdade. “E só por isto eu não posso dormir?”, achei graça, ainda sobre os meus pés meio embriagados e instáveis, frente a ela. A Lê descia a Augusta junto à Ana – o SMS delas iniciara aquela discussão toda.

_Ali! Elas estão aí já... – indiquei com o queixo na direção da esquina, a qual minhas amigas agora viraram.

A Mia as olhou sobre o ombro, sem se comover muito. Ambas se aproximaram com os olhos cansados, as costas largadas em desânimo – “não lembrava que era tão pra baixo, velho!”, a Ana resmungou sobre a minha moradia na baixa-Frei. “O Flamingo é que é pra cima demais!”, ri. Ela se apoiava num dos ombros da Letícia. Entreguei a chave a elas e disse que iria logo menos, a Lê não entendeu por que não subiríamos. E então a Mia se levantou, declarando prontamente – “vamos subir, sim!”. Não. Não vamos. As alcancei uns passos adiante, mas já era tarde demais. A Mia me olhou com ares de vitória.

Antes de subirmos no elevador, murmurei em seu ouvido – “vou te fazer companhia até dar o horário e é só, depois você vai”. Ela não contestou. Tão logo, porém, as garotas despencaram em suas camas (a Ana num colchão improvisado no meu quarto e a Lê na sala), me encontrei confinada com aquele shorts imprestável na cozinha. Puta merda, ô inferno na Terra. A Mia andava meio bêbada e ainda fazia barulho, sem intenção de incomodar o resto do apartamento todo, que ao contrário de nós já dormia. Pedi que abaixasse a voz.

_Por quê?! – apoiou desmedida o corpo sobre a mesa frente a mim, assim com os antebraços, e causou um ruído ainda maior ao arrastar aqueles quatro pés de metal contra o chão – Quando é você, né, aí ninguém fala nada.
_Eu?! – ri, olhando-a – E quando eu fui na sua casa fazer barulho, garota?
_Ah. Não pessoalmente. Mas você já me ligou bêbada de madrugada e o celular tocou, tocou lá do outro lado do quarto.
_Eu nunca, jamais fiz isso... – garanti, mentindo.

E nós rimos.

_E você lembra... – a Mia escalou a mesa, subindo embriagada com antebraços e joelhos agora apoiados no tampo – ...quando você, aquela vez...

Ela se arrastou até mim, um tanto descoordenada e estranhamente instigante; a observava com uma das mãos sobre a mesa e as costas contra a parede, sentada numa das cadeiras adiante. “Desce da mesa, vai, sua louca”, eu me divertia. A Mia engatinhou até perto suficiente do meu rosto e tive vontade de beijá-la. Um gosto por mulheres livres e loucas. Ela então se virou –  Sabe?”, deitou à minha frente, encarando agora o teto da cozinha. E eu neguei, olhando as suas tatuagens se revelarem em uma pequena brecha entre a cintura do shorts e o pano dobrado de sua camiseta. Não me recordava de nada. E ela também não explicara bem que vez.

_Certeza que sabe... – olhou para mim e riu, voltando os olhos castanhos de novo para cima, falando com leveza – ...você me ligou e eu te disse, lembra. Todas as coisas que você, que eu queria que você fizesse comigo. Era tarde, cê tinha voltado da Augusta.
_Ah. Essa vez.
_Você lembra ainda... – sorriu, agora maliciosa – ...hum? O que era?
_...
_Que eu te disse que queria.
_Lembro.
_Aquele dia foi, hum. Bom. É uma pena só que – ela fechou as pálpebras, delicada – as suas mãos estavam ocupadas... só com você; e tão longe.

As minhas pupilas, a minha saliva pareciam hipnotizadas pela Mia ; pelo movimento dos seus lábios. Falando tão desinibida, deitada naquela mesa. Que tive que controlar os meus pensamentos para que não deliberassem – assim perversos. A minha imaginação, que fluía sem filtros. O canto da sua boca esboçou então um sorriso, ainda de olhos cerrados. Caralho, meu – fala, o que você está pensando aí, garota?, eu a observei compulsivamente, pelo que durou apenas um instante. E ela se sentou raídamente sobre a mesa, levantando em seguida.

Disse, do nada: “eu vou entrar na água, quer vir?”.

Os meus olhos a acompanharam, imóvel na cadeira. Espera. Onde? E ela foi em direção ao corredor. Ouvi a porta do banheiro se fechar então – ah, filha da... Com algumas coisas eu simplesmente não podia. Aquilo era jogo sujo, baixo. Isto não vai, porra, não vai prestar. Hesitei ainda por algum tempo, sentada na cozinha toda vazia. O relógio da parede tiqueava os segundos. A minha mão dedilhou nervosa sobre a mesa. Dane-se. Empurrei a cadeira para trás e me levantei, indo atrás dela. É claro.

A água do chuveiro já corria. I have so many bruises. Fechei a porta atrás de mim, trancando-nos ali, e me livrei de toda a roupa. But you have such a smile. Largando-as no chão. A Mia deixava as gotas caírem massivas sobre as suas costas, sobre a sua nuca – ficava mais sóbria. I have so many scars. A abracei a dois passos após entrar no box. E deslizei a minha boca sobre os seus ombros molhados, os meus dedos por sua cintura. Oh, but you have such smile. As suas mãos permaneciam contra os ladrilhos frios. Desci as minhas por entre as suas pernas. Tudo o que você quiser, garota, senti os fios do meu cabelo molhar, eu faço. E fiz.

As horas seguintes se desdobraram entre um cumprir imprestável e umas conversas à toa, a esmo; com as pernas sob o chuveiro, respingos leves no rosto e as costas deitadas na água que se acumulava, no chão do box. A tremenda conta que viria, todavia, era a menor das minhas preocupações naquela semana. Eu logo ia descobrir.