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julho 24, 2013

Lil’ troublemaker

_Não responde! – a Marina implorou, sentada no sofá da sala já madrugada adentro.

“Ela que perguntou...”, tentei me justificar. As duas riram. O Du havia abandonado o barco e ido dormir uns minutos antes. Com a presença reconfortante da minha ex-namorada – que estava sóbria –, eu e a Mia enchíamos a cara há já algum tempo, tagarelando superficialmente. Sobre tudo que não fosse o Fernando. Qualquer assunto que nos remetesse a um lugar bem distante da briga, numa espécie de realidade paralela forçada – e inerte –; sem fôlego para discutir o que nos pesara tanto nas últimas horas. O dia se estendia, prolongando-se. A Mia estava sentada no tapete da sala; eu e a Marina acomodadas no sofá, cada qual na sua – e a cidadã tatuada levemente alterada queria saber, de mim, a maior filha da putice que eu já cometera num encontro. Como se fossem poucas para lembrar, assim.

_Vai! Desembucha! Quero ver onde eu tô me metendo... – falou para mim e piscou brevemente para a Marina, as duas riram juntas.
_Ah, meu. É difícil assim! Sei lá. Teve... ah! Teve uma vez que eu surtei, SURTEI, tipo, estava comendo uma mina e saí andando, do nada. Não quis mais – dei um gole rápido na minha cerveja –. Aí voltei a pé pra casa naquele dia, larguei ela no carro com as roupas pela metade. E isso depois de ter feito ela me buscar na puta que pariu na Barra Funda e ainda ficar enrolando por horas, meu. A gente foi comer, demos um puta rolê e ela pagou tequila pra mim num bar.
_Gente...
_É, tá vendo... – a Marina alcançou minha mão no sofá, num carinho sarcástico – ...esse é o tipo de gente decente que eu namorei.
_Não, e fica pior... – eu ri – ...ainda dei puta esporro nela, as duas trêbadas também, do lado da Paulista. Fiz o maior escândalo, seis da manhã na calçada. Cheguei em casa e ainda discuti com o Fer. Eu tenho problema, cara... na boa, a garota não fez nada! Foi super de boa comigo. Eu é que sou zoada.
_Bom, pelo menos você reconhece... – a Mia achava graça, me olhando de longe ali do tapete.  
_É. Vai rindo, vai... Eu sei muito bem que você não é nenhuma santa também, cê é toda cheia de surto de ciuminho. Toda louca. Rolava umas brigas aqui no apê, Má, que, meu, faziam eu achar as minhas merdas tranqüilas.

Ela – a Mia – me encarou rindo, com as pernas cruzadas no chão, em um jeans rasgado e meio ofendida.

_Ah, ótimo – a Marina resmungou –. Já vi que vou ter que mudar de número de celular agora.

Acendi um cigarro, me ajeitando no sofá, e mandei minha ex à merda. Então ri. Ok. Talvez eu e a Mia não tivéssemos sido o melhor exemplo, até o momento, de casal bem resolvido e sem grandes atritos. A nossa relação nunca fora algo perto disso. Mas, de alguma forma, eu mantinha a confiança de que estava numa nova fase da minha vida. Uma menos dramática –desconsiderando o problema, naquele momento abafado, que eu acabara de criar com o Fernando; a Mia, em potencial, com a família; e nós, as duas, com todos os nossos amigos.

Otimismo nem sempre é uma ciência, sabe.

“Bom, bonitas, eu acho que vou indo...”, a Marina anunciou, de repente. E eu contestei – a Mia me acompanhou na reclamação. “Não dá”, a Má retrucou, “preciso ir pra casa, florzinhas, amanhã eu trabalho”. E daí, eu também... Não eram nem três da manhã ainda! Mas não teve conversa. A Marina me ajudou a levar tudo para a cozinha e, num ato de disposição incompreensível, lavou parte da louça produzida. Fiquei sentada sobre a mesa, fazendo-lhe companhia, enquanto a Mia seguia na sala. Descansando – estávamos todas cansadas. Eu podia notar o esforço da Marina em não trazer à tona o que acontecera mais cedo naquela noite, no apartamento. Então dei início ao assunto:

_Escuta... Obrigada por hoje, Má. Mesmo.
_Não! Não por isso – ela disse, enxugando as mãos num pano de prato –. Foi gostoso ficar aqui com vocês, no final das constas... – sorriu.
_É.
_Só, flor, me promete que você vai ficar bem? – pediu, se aproximando, e colocou as mãos sobre os meus joelhos dobrados – Deixa os dias passarem, vai, não vai inventar de fazer nada. Fala comigo sempre antes de, sabe...?

Acenei com a cabeça. A Marina me deu então um abraço demorado, mas eu estava embriagada demais para reclamar da boiolice. Voltamos para a sala, onde a Mia se encontrava deitada no tapete, ouvindo um CD do Arctic Monkeys. Despediram-se de longe e eu acompanhei a Marina até o elevador. Quando enfim voltei, fechei a porta atrás de mim. E apaguei as luzes. Descalcei os tênis lentamente, o tão rápido quanto o álcool me permitia, e deixei-os de lado, num canto perto da parede. Caminhei então – pude sentir o piso e o tapete felpudo sob os meus pés descalços. Até me deitar ao lado da Mia, no chão.

Sonolenta, ela me abraçou automaticamente e colocou a cabeça no meu ombro. Murmurando:

_Hey, little troublemaker... – bêbada, brincou como no último filme do Tarantino.
_Eu, né?!
_Vo-cê. Eu sou ótima, não faço essas coisas...
_Olha, eu tenho algo a dizer, sabia – olhei para ela no escuro, achando graça – em minha defesa... você também teve participação naquela merda toda, viu.
_EU?!? – ela riu – Essa é boa!
_É. Você que não lembra, mas eu te liguei aquele dia, sabia, quando voltei do encontro. Era sete da manhã.  Não lembra?
_Ligou? Eu não lembro disso. Você disse alguma coisa?
_Não. Nada direito, pelo menos. Eu tava mal, tava chorando. Não falei nada com nada, estava chapada...
_Mas chorando, por quê?!
_Ah, você me deu um fora, bem no dia anterior – ri –. Foi quando você e o Fer br... q-quando eu disse que estava apaixonada por você, a primeira vez. E aí você não disse nada.
_Hum...
_Eu fiquei puta. Nem sei direito porque saí com a menina! – continuei falando, antes que ela pudesse dizer algo – Briguei com a Marina naquele dia, também. Chamei ela pra conversar na Augusta depois que você saiu daqui e ela apareceu com a merda da ex dela, era uma babaca que eu odiava; aí falei um monte pra Marina, depois acabei caindo numa balada na Barra Funda com a Lê, fiquei muito mal. E peguei carona de volta com essa garota, nada a ver, eu tinha conhecido ela uns dias antes e pedi para ela me buscar lá. Foi uma merda atrás da outra, na boa. E no final da noite eu tava completamente alucinada, fui muito escrota com a coitada.
_Espera. Essa não é a menina do chupão, é?
_Qu...?
_N-no seu pescoço, naquele dia – ela me interrompeu, já respondendo.
_Caralho, hein! Você não lembra de uma ligação, emocionada, toda devota, mas lembra de um chupão da menina?! – eu comecei a rir – Sim, é. A própria! É ela mesma.
_Eu SA-BI-A que você tinha ficado com ela. SABIA! Velho... SÓ VOCÊ pra falar que não!!
_M-mas... E-EU NÃO TINHA MESMO! – comecei a rir e me apoiei num dos cotovelos, virando o corpo levantado em sua direção – Isso é ridículo, na boa. O dia que eu conheci a menina, ela era uma sem noção. Encanou que queria ficar comigo! E aí, num momento de vulnerabilidade – me surpreendi com a minha capacidade de articular esta palavra, ainda que embriagada –, quando eu tava brisando MUITO forte, lá na casa de uns amigos depois da balada, ela meio que me atacou. Foi ELA que me chupou. O pescoço, QUE FIQUE CLARO! – a Mia me olhou, se divertindo, como se não acreditasse em mim – É VERDADE! Eu não tive nada a ver com isso! E-eu mandei ela parar, sequer beijei a menina de volta, mano. Foi um acidente. Totalmente inocente – “aham”, ela continuava rindo da minha cara –. É sério, caralho. Quando eu te disse, lá no dia, que não tinha ficado com ela, eu realmente NÃO TINHA!! Eu só fiquei depois que você me deu um puta fora e eu nem terminei a porra do serviço!
_Você não precisa se explicar para mim...
_Não estou me exp... – suspirei – Você está fazendo eu soar como uma louca, pára.
_Foi uma pergunta simples. Eu não acho que você tem que explicar nada – ela riu e eu me diverti.
_Tá. Agora cala a boca.

*Troublemaker é, em tradução do inglês, quem cria problemas ou não presta. “Ei, pequena troublemaker” é uma frase icônica do filme Django (2012).

julho 17, 2013

La Mia Famiglia

A coisa mais importante a se entender sobre a Mia e eu era essa nossa estranha habilidade de estarmos juntas, de conversar sobre qualquer coisa – ou coisa alguma, como ela ou Tarantino me lembrariam –. Isto é, à exceção de nós duas. Sobre isto, não haviam palavras apropriadas – nunca. E em partes, foi o que me fizera apaixonar por ela. Este não saber eterno de quem ela era comigo, sim; mas também um saber fluido de todo o resto. E em outras tardes, antes de toda a confusão, ela ia comigo até a banca da frente para comprar um maço e nos sentávamos naquela mesma sarjeta, falando de filosofias existenciais em meio a uma São Paulo que escurecia, até alguém dar por nossa falta.

Agora que ninguém nos aguardava – e puta merda... –, o nosso relacionamento era o último tópico a ser superado. Um último – e já enfraquecido – desconforto, por assim dizer.

_Escuta – pedi ainda de cabeça baixa, enquanto ela se ajeitava ao meu lado, no chão, num jeans rasgado e com uma blusa larga que lhe revelava os ombros –. Me desculpa por não ter te atendido aquela hora, eu fui meio babaca...
_N-não foi.

Ela cruzou as pernas e as abraçou, frente ao corpo. Eu a olhei. Você está tão fodida nisto quanto eu, garota – pensei com pesar, as minhas pupilas admiradas. A Marina, pra variar, acertava e de repente, não fazia sentido algum não tê-la atendido. Queria tê-la ali. Queria o resultado de tudo aquilo, das brigas, das lágrimas tão indesejadas. Mas mais importante do que tudo, não queria vê-la machucada.

Aquela ânsia momentânea por solidão se dissipava em mim – era estranho. E rápido.

_Mas eu fui. E eu devia saber melhor – lamentei –, fui eu que quis tudo isso. A culpa não é sua. É-é só que, eu acho que eu precisava de... um tempo, sabe... sei lá. Hoje foi pesado.
_E-eu sei... está tudo bem.
_É... – abaixei a cabeça, deixando a fumaça fluir aos poucos.
_O Fer, ele saiu furioso – a Mia continuou, insegura –, eu não sabia o que fazer. M-mas não achei que ele ia vir pra cá, eu a-achei que ele fosse voltar. E me dizer tanta coisa que, que não disse. Foi tudo tão rápido!
_Hum. Você deu sorte então... – ri, num comentário irônico, em um tom baixo.
_Não. Q-quando você me falou que ele estava vindo aqui, eu me arrependi d-de não ter ido atrás dele, de não ter... sei lá. Eu não consegui explicar nada direito!! Ele explodiu! Não q-quis acreditar n-no que eu dizia, me xingou de tudo o que podia. Quase quebrou a-a porta na saída...
_É. Por aqui também não foi... – meu peito doía – ...fácil.
_E e-eu, eu quis vir d-depois que te liguei a primeira vez, mas a, a hora que eu saí do quarto para, sabe, para... e-eu vi q-que tinha gente em casa e... e e-eu... – a sua voz hesitava – ...não sei.

Foi então que vi o seu semblante se refrear em angústia. Incerta.

Puta merda.

_Mia.
_E-eu... não... n-não importa... – as suas mãos tremiam, ao posicioná-las sobre o rosto.
_Espera – fui tomada subitamente por uma força inexplicável, me virando na sua direção – Você acha que alguém escutou vocês?
_N-não, e-eu... – respondeu com dificuldade e eu mudei imediatamente de postura, vendo-a controlar um medo que não ousava pronunciar, num impulso de protegê-la de um processo que eu bem conhecia – ...ai, e-eu, eu não sei. E-eu...
_Mia, está tudo bem.
_Assim, q-quando... n-nós entramos no quarto, não tinha ninguém, m-mas a gente – ela se inquietava – ficou lá por tanto tempo! E a-a hora que ele descobriu, f-foi tudo muito... n-não sei, rápido e alto.
_Mas você viu alguém quando você saiu?!
_Só a luz. Do corredor, n-não estava acesa antes. E-eu... – ela se abalava, tentando não fazer grande caso, sem querer desviar o foco da conversa até então.
_Mia. Calma. Eu tenho certeza de que se alguém tivesse ouvido vocês, teria ido falar alguma coisa...
_S-sim. Eu sei. É só que e-eu não queria q-que... a-a m... minha mãe, os meus pais e-eles não são m-muito... sabe... s-se, se eles... e-eu não... p-posso, e-eu...
_Ei – segurei a sua mão, vendo-a se afligir aos poucos; tentando lhe transmitir alguma segurança, seja lá quão pouco valesse a minha palavra – calma, vai ficar tudo bem.
_E-eu... eu estou b-bem. N-não é importante, mesmo... – ela se continha, visivelmente angustiada, em alguma forma irracional de respeito pela minha briga com o Fernando, que agora pouco me importava –...e-eu n-não sei. Eu só não quero voltar para lá h-hoje, t-tudo bem?

Suspirou, sem conseguir lidar com a possibilidade.

_Está tudo bem – toquei o seu rosto e sorri.
_... – e ela sorriu de volta.
_Vamos subir, vem... A Marina tá aí – eu disse, já me levantando , a gente pode encher a cara.

A calçada da Frei

O clima não ficou melhor – ao contrário do que qualquer um preveria. As lágrimas aos poucos cessaram, mas não havia alívio algum no passar do tempo. Ainda pesava. O tiquetaquear do relógio na parede da cozinha agora ecoava no apartamento silencioso – e não havia leveza alguma nisto. As palavras do Fernando, a dor dele, não me abandonaram em momento algum. Mas algo mudara – sim. E o meu coração se veria em breve dividido entre o luto da minha amizade e a responsabilidade dilacerante de estar diante dos olhos marejados da Mia, das suas mãos tremendo, inquietas, no meio-fio.

Ela. Ela chegou vinte minutos depois da ligação, sem avisar. Contrariando os pedidos da Marina para que me esperasse, para que ficasse em casa até estar tudo melhor. E quando estaria, afinal? Não apareceu na minha porta – não subiu. Ao menos isso. Dava assim a oportunidade para que eu dissesse que não a queria ver, não naquele momento. E talvez eu não quisesse mesmo – em todos os caminhos errados que a minha mente tomava. E que se foda; eu sou o que eu sinto e eu não queria. Não queria, porra. Não era um sentimento permanente, não era um consciente não-a-querer; estava mais para um espera-por-favor -espera. Alarmista como sou – e que mal tem? Espera passar. Duas, três horas – o que você tiver para me dar. Posso? Só processar, o que for. E o que foi? Isso? O que foi tudo? Por que assim, por que agora? O meu coração, a minha realidade, como a conheço, está em um fio meio fino, bem fino, ultrafino, de incertezas sobre o passado e determinismos sobre o futuro, cercado por afiadas e imensas, tremendas, invisíveis tesouras, cheias de culpa e é tudo tão, tão complicado, entende, meio fora do tempo e espaço, então não balance, não me toque por ora, só me deixa, que eu fio sozinha e volto, juro que volto, volto logo. Volto sã, volto lã. Só não tive tempo ainda – de fiar, de respirar. Era complexo. E eu não estava certa quando entrei no elevador – foi a expectativa de reprovação da Marina que me empurrara apartamento afora, no instante em que o interfone tocou. Eu desci. E a Marina ficou. Pedi que arrumasse a sala junto ao Du, não queria que a Mia visse o apartamento daquele jeito, não queria que se sentisse pior por tudo aquilo. E a encontrei na calçada da frente – tinha os dedos entrelaçados na grade do portão; e me observava caminhar o curto, eterno recuo do prédio até a rua.

Como dois cachorros vira-latas, reconhecíamos os olhos inchados uma da outra. Mas foi só quando cheguei realmente perto, que ela disse:

_Desculpa. E-eu não queria vir –  abri o portão, escutando-a dizer –, mas e-eu precisava te ver, saber c-como você tá. NÃO SABIA O Q-QUE FAZER! M-me – a Mia pôs as suas mãos mornas sobre o meu rosto; eu agora diante dela, do lado de fora; ela tinha os olhos rapidamente encharcados – me perdoa, m-me desculpa. POR FAVOR! Eu não queria nada disso, eu não queria fazer v-vocês brigarem, e-eu...

Toquei-a de volta e a beijei. Com toda a liberdade que já beijara dezenas de garotas em frente ao meu prédio, naquela mesma calçada. Num impulso. A sua ansiedade me empurrava para um estado calmo, muito seguro de mim. Como se eu tivesse que estar no controle da situação. Ao menos, pela Mia. Como se eu pudesse protegê-la da merda que a meti. And I never was smart with love. I let the bad ones in and the good ones go. But – I’m gonna love you like I’ve never been hurt before, I’m gonna love you like I’m indestructible. Me afastei – e a esta altura, ela devia pensar que eu tinha sérios problemas de estabilidade por descer ali e a beijar assim, depois de praticamente dispensá-la ao telefone, mas, sério? Mesmo? Você realmente nunca reparou em como ‘fazer sentido’ não parecem ser palavras na minha cabeça?! Faz parte do meu charme; ou algo assim –. Ela sorriu, um breve sorriso.

_Não esquenta – murmurei então, ainda quanto às suas preocupações anteriores – Não é como se tivesse sido uma noite agradável para você também...

Tirei o maço do bolso, num ato recluso, e me sentei no meio-fio adiante. A Frei Caneca não tinha tanto movimento, era tarde. Acendi um cigarro sentada ali, sozinha, e soltei lentamente a fumaça no ar – olhei então para trás e a Mia ainda estava em pé na frente do portão.  O silêncio evidenciava a ausência de passos seus na minha direção. Fiz um gesto para ela com a cabeça: “vem, senta aqui”.

julho 07, 2013

E uma bronca

Não. “É a Mia”, ela respondeu,  já me entregando o telefone. E eu o recusei. Empurrei a sua mão de volta, meio que num impulso. A Marina me olhou sem entender, atendendo ela mesma – e com certa hesitação. Desta vez na minha frente.  Não consigo fazer isso, não agora. Eu me sentia estranhamente incapaz de falar com a Mia, não sem me odiar ainda mais pelo que fiz ao Fernando; o sentimento estava me matando. A sua voz – ou o mero pensar nela – me forçariam a lidar com a responsabilidade de ter destruído a minha amizade de tantos anos com o Fer. E isto era algo intolerável, algo que não podia suportar. Eu não estava tão pronta quanto achei que estava. Não dá, pensei, me autoconvencendo, conforme a Marina falava ao telefone.

_E-eu sei... – ela dizia, mas eu não conseguia ouvir a resposta – ...não, ela está aqui. Mas ela não está bem, flor. Eles brigaram feio, está tudo no chão, foi um caos (...) Não. Eu não sei se ia ser uma boa ideia, Mia. (...) E-eu entendo. Mas... (...) Não, não. Calma. (...) E-eu sei. (...) Não. NÃO! Não é isso! Ela vai te ligar, eu prometo. Mesmo! Não tem nada acontecendo, só deixa eu falar com ela primeiro. Pode ser assim? (...) E-eu sei. Eu vou falar com ela. (...) Não. Ele saiu faz mais de uma hora, eu não estava aqui ainda. (...) Ô, lindinha, fica bem. V-você fez bem, fez mesmo. Vai dar tudo certo. (...) Ela já vai te ligar. Deixa só as coisas se acalmarem por aqui, não foi fácil. (...) Não, não. Tenho certeza. Fica aí, eu tô com o seu número e já te ligo de volta, assim qu... (...) Calma. Está tudo bem. (...) Eu sei. Não. E-eu já te ligo. Prometo! Tá bem? (...) Tá. Espera um pouquinho aí. Toma uma água, a gente vai resolver tudo isso. Qualquer coisa eu levo ela aí mais tarde (...) E-eu sei. Espera só um pouco, tá? (...) Não, eu já ligo de volta e te falo. Fica calma. (...) Tá bem. Isso. (...) Um beijo, flor.

A Marina desligou o telefone e tão logo o fez, olhou imediatamente para mim, mais séria do que jamais a vira:

_O que foi isso?!
_O-o quê? – murmurei, sem entender.
_POR QUE VOCÊ NÃO FALOU COM ELA?!
_P-por que você está a-aumentando a voz??
_VOCÊ VAI PARAR COM ISSO. VOCÊ ME ESCUTOU? – ela disse, firme – VOCÊ VAI PARAR COM ISSO AGORA.
_Má, e-eu... n-não cons...
_ESTAMOS ENTENDIDAS?!
_E-estamos – abaixei a cabeça, confusa.
_EU NÃO QUERO SABER DESSA PALHAÇADA. NÃO ME INTERESSA O QUANTO VOCÊ ESTÁ SOFRENDO, VOCÊ ME ENTENDEU? ESSA GAROTA ACABOU DE DEIXAR O NAMORADO POR VOCÊ. ELA NÃO TEM NINGUÉM, NÃO TEM UMA PESSOA QUE SABE DELA, NADA. ELA ESTÁ SOZINHA. E VOCÊ VAI ATENDER, OUVIU, TODA VEZ QUE A MIA TE LIGAR DE AGORA EM DIANTE. FICOU CLARO?!
_E-eu...
_NÃO. EU NÃO VOU TOLERAR ISSO. VOCÊ TRATE DE NÃO ME LARGAR ESSA MENINA SOZINHA AGORA. ELA QUER FICAR COM VOCÊ.
_Eu sei. N-não vou. E-eu, eu vou ligar pra ela. E-eu s-só não sei o que dizer, Má, f-foi tudo tã...
_TUDO BEM. NÃO INTERESSA, ISTO A GENTE VÊ DEPOIS! – encerrou o assunto, ainda séria; e então me olhou, revirando os olhos por um breve instante – Deus. Eu te amo, sabe. Mas você tem umas que, cacete, hein...

Afagos

O apartamento estava diferente de quando a Marina o deixara, algumas horas antes. O Du levantara as cadeiras – mas ainda restavam discos e um caos de papelada espalhados pelo chão. Da região do corredor à parte de trás do sofá era a pior. Foram quase cinquenta minutos até a Marina vir da Vila Madalena para a Frei, entre pagar a comanda no bar e atravessar o trânsito de São Paulo naquela quinta-feira. Quando enfim entrou pela porta, o Du estava ao meu lado no sofá, me consolando um tanto sem saber o que fazer.

Eu tinha os olhos escondidos nas mãos. Não falava uma palavra sequer e as lágrimas ainda corriam pelo meu rosto. Em silêncio. Os meus batimentos cardíacos pareciam ter passado de acelerados à beira do catatônico, agora completamente esparsos. Os meus pensamentos eram lentos e sofridos. Eu me odiava. Não queria mais existir ali. Os dois – a Marina e o Du – conversaram então perto da porta, em tom baixo. Não levantei a cabeça para ver.

Algum tempo depois, a Marina se sentou ao meu lado; e ele pareceu seguir até a cozinha. Ouvi apenas os seus passos. Em um ritmo cuidadoso, a mão dela começou a acariciar o meu cabelo. Eu não ouvia o que dizia. Se é que dizia algo. Não havia ânimo para conversar, eu não queria me mover. A sua presença ali, todavia, por mais estranho que isto soe, já ajudava. Eu só não quero ficar sozinha. Não podia conceber uma vida sem o Fernando ali. E destrui-lo me destruíra de volta, sem precedentes. O que eu faço agora, Má? As palavras mudas ressoavam dentro da minha cabeça. A sala toda em silêncio, permanecemos assim por algum tempo. O sentimento, a atmosfera eram pesado. Os minutos se passaram.

_Olha... – o meu celular começou a tocar e ouvi a voz do Du surgir por detrás do sofá – ...é a quarta vez já.
_Deixa que eu atendo – a Marina disse –. Só, fica aqui?

Ela se levantou então. O meu telefone havia sido confiscado pelo Du, ao fim da última ligação atendida, e agora ele o carregava no bolso, bem longe das minhas mãos. Pouco tempo após ouvir a Marina atendendo, escutei a porta da frente abrir e se fechar. A sua voz sumiu. Não sabia se era o Fernando ou a Mia – o Du o ignorara e eu não a atendera. Não conseguia ouvir a conversa. E àquela altura, sequer queria. Continuei prostrada sobre mim mesma, ambos os pés sobre o sofá e os joelhos dobrados na altura do rosto, escondendo as minhas mãos e as lágrimas que corriam.

Mais uma eternidade se passou – quinze, talvez vinte minutos. Até que ela voltou:

_Ele disse que vai parar de ligar.

O meu coração acelerou novamente. Ergui a cabeça:

_Era o Fer??!? – exclamei, num susto – V-VOCÊ DISSE QUE SABIA??!??
_Não. Não falei nada. Calma... – ela veio na direção do sofá, para perto de mim, e se sentou de novo – Nós conversamos um pouco, eu disse que sabia que vocês tinham brigado só. Mas que tinha acabado de chegar...
_E O QUE ELE DISSE??!? E-ele te contou????
_Contou, flor. Ele está muito mal.
_P-POR QUE??!? MAL COMO??!??
_Ah, linda. A voz dele, as coisas que ele disse. Mas eu falei que você estava sofrendo muito. Vocês precisam se acalmar, os dois, sabe. E se acertar direto... Vai dar tudo certo.
_Onde ele tá, Má??! – eu me desesperava.
_Não agora, linda. Dá um tempinho. Ele não está com a cabeça no lugar ainda...
_MAS ELE FALOU ONDE ELE TÁ??!? ELE AINDA TÁ NA AUGUSTA??!?
_Não sei. Eu não sei mesmo, flor.
_NÃO! V-VOCÊ NÃO CONHECE ELE, VOCÊ NÃO SABE COMO ELE É!! MÁ, E-ELE VAI SE MACHUCAR!! ELE VAI ENCHER A CARA, VAI FAZER MERDA!!
_Fica tranquila. Vai ficar tudo bem, nós conversamos; não vai acontecer nada.
_V-VOCÊ ACHA QUE ELE CONVERSA COMIGO??! E S-SE EU FOR COM VOCÊ?!??
_Não, linda, calma. Não vamos por aí, a g...
_E-eu PRECISO falar com ele, Má! EU PRECISO!!! E-ele... – eu chorava, agora olhando para ela – ...ele saiu daqui me, e-ele m... ele me odeia, eu n... É O FER! O QUE EU VOU FAZER SEM O FER, PORRA?!??
_Calma, flor. Ele acabou de descobrir, é assim mesmo. Você já sabia que ia ser assim.
_Não, Má. Não. É o Fer. É O FER! Esse moleque é A MINHA VIDA!! E-eu não sei o-o q-que é EXISTIR sem ele, porra, e-ele... – as lágrimas desciam pelas maçãs do meu rosto – ...estava lá d-desde a minha pré-adolescência, desde n-não sei nem quando!!! E-esse tempo todo, caralho. E-ele não pode sair daqui m-me odiando, e-eu preciso dele. EU PRECISO CONSERTAR ISSO, MÁ!!  E AGORA!!! EU PRECISO FALAR COM ELE!!!
_Você vai ter que ter um pouco de paciência, flor. Não vai adiantar nada você falar com ele do jeito que ele está agora... – eu enxugava os olhos e balançava a cabeça, me recusando a esperar – Escuta, por que você não passa lá essa semana? Tenta sentar com ele, explicar tudo com calma. Se desculpar. É a namorada dele, linda... ele gosta muito da Mia, não é fácil para ele. E o Fer gosta muito de você também, você sabe. Senão não estaria ligando.
_E-ele só está ligando para me dizer o-o quanto ele me despreza, Má, a-as coisas que ele m-me disse h-hoje... – tudo voltava à minha cabeça e me feria de novo; e de novo.
_Me escuta, por favor. Te garanto que ele não estaria ligando s-se não... – os olhos da Marina marejavam, em uma empatia doída – ...te amasse muito ainda. Ele não te detesta; ele só está machucado, flor. E v-você tem que entender, tem que dar um tempo pra ele. Se ele te detestasse de verdade, ele sairia daqui e não se daria ao trabalho de falar mais nada.
_E-eu fui uma escrota; eu... e-eu SOU A PIOR AMIGA DO MUNDO!!
_Não é... – ela deslizava o dedo pelo meu rosto, limpando as minhas lágrimas com carinho – Todo mundo erra, linda. Você não tem culpa por se apaixonar por ninguém, vocês foram acertando o caminho de vocês aos pouquinhos...
_Às custas dele, Má!! ÀS CUSTAS DELE!! O FER É MEU AMIGO, CARALHO!! EU SOU UMA IMBECIL!!! COMO??? C-COMO EU POSSO ESPERAR QUE ELE ME PERDOE??!? EU NUNCA MAIS OLHAVA NA MINHA CARA!! E-EU...
_Calma. Ele só precisa de um tempo, mas ele vai entender, flor... – desta vez, eu não tinha certeza se a Marina tinha razão – A sua amizade é importante pro Fer, é muito importante. Dava pra sentir só na forma como ele falava. É só que...
_N-não é assim, Má...
_Escuta. Se você for falar com ele daqui uns dias, eu sei que v-vocês podem se entender melhor – a Marina quase chorava junto comigo –; vale esperar um pouquinho e tentar. Ele só está magoado.  
_M-mas... – nisto, o telefone voltou a tocar no colo dela e eu a encarei – ...É O FER?!??

julho 01, 2013

Down by the water

_Escuta, cara... – o Du argumentou com firmeza, se colocando entre mim e o Fer – ...você já falou o que queria, não acha que é SUFICIENTE?!
_SAI DA MINHA FRENTE!!– o Fer fez um movimento, tirando a mão do Du do seu ombro.
_Só tô pedindo pra você FICAR CALMO!
_E EU TÔ MANDANDO VOCÊ DAR O FORA. ISSO NÃO TEM NADA A VER COM VOCÊ! NÃO SE METE, CARALHO!!
_Olha, TÔ TENTANDO ficar de fora, ACREDITE, mas É MEIO DIFÍCIL com você QUEBRANDO TODAS AS COISAS AQUI! – o Du ergueu progressivamente a voz –. O QUE VOCÊ ACHA, HUN?! ACHA QUE POSSO VOLTAR PRO QUARTO E CONFIAR QUE VOCÊ NÃO VAI FAZER NADA? QUE ISSO AQUI NÃO VAI FICAR FEIO??!
_ESCUTA, MOLEQUE, EU TÔ FALANDO SÉRIO!!! CÊ CAI FORA QUE EU TÔ PAGANDO PRA ENCHER ALGUÉM DE PORRADA HOJE, NÃO ME VEM AQUI OFERECENDO DE GRAÇA – o puxou pela camiseta e empurrou para trás com força, já completamente fora de si – VOCÊ SAI DA MINHA FRENTE, AGORA!!!
_”SENÃO” O QUÊ?! “SENÃO” O QUÊ, HEIN?!?? – o Du o encarou, sem recuar – AQUI NÃO TEM BICHA, NÃO, PODE FALAR GROSSO!!
_VOCÊ VAI ME PROVOCAR, PALHAÇO?!? VEM ENTÃO, PORRA!!!!
_SEU MERDA, V...
_DU... DU, PÁRA!!!! – intervi angustiada, rapidamente; por mais que não cogitasse nem por um segundo que o Fer pudesse levantar um dedo contra mim, quanto ao Du eu já não tinha a mesma certeza – DEIXA QUIETO! Faz o que ele pediu, ESTÁ TUDO BEM! VAI LÁ.

O Du virou então na minha direção, prestes a me falar algo, quando um Fernando cada vez mais nervoso fez com que ele voltasse a encará-lo:

_NÃO. NÃO! Quer saber... – continuou, olhando petulante nos olhos dele – ...eu acho que você devia ficar! É, isso... FICA!! Aproveita e me conta QUANTAS VEZES VOCÊ VIU A MINHA MINA ENTRAR NESSE APARTAMENTO SEM MIM!!! QUANTAS VEZES ELA VEIO AQUI QUANDO EU JÁ NÃO TAVA MAIS AÍ!! FALA!!
_POR QUE?? – o Du já estava sem paciência com a atitude do Fernando – Ela precisa da sua permissão pra ir pra algum lugar agora?!?? Hein?! ISSO NÃO É DA MINHA CONTA!
_É DA MINHA!!!! É DA MINHA, PORRA!!! – o Fer berrou, irritado.
_FODA-SE!
_NÃO. “FODA-SE”, NÃO!! SE VOCÊ VAI NOS “AGRACIAR” COM A MERDA DA SUA COMPANHIA, PARTICIPA DA PORCARIA DE CIRCO DE UMA VEZ!! VAI, APROVEITA!!! EU JÁ OUVI DESSA, JÁ OUVI DAQUELA VAGABUNDA E POSSO OUVIR DE VOCÊ TAMBÉM!!! CONTA AÍ, PORRA, CONTA COMO FOI FICAR NO QUARTO DO LADO ENQUANTO ESSA FILHA DA PUTA COMIA A MINHA NAMORADA!!!! VOCÊ SE DIVERTIU?!?? HEIN?? TODO MUNDO SE DIVIRTIU BASTANTE?!!? – o Fer chutou a estante onde ficavam os discos e voltou a olhar para mim – SE DIVERTIRAM?!?!! TIRANDO UMA COM A MINHA CARA, PORRA?!?!!
_FER, POR FAVOR, NÃO ERA ASSIM!! NÓS DUAS...
_NÃO!! NÃO FALA “NÓS”!! NÃO FALA “NÓS”!!!!
_F...
_CALA A BOCA!! – trombou no ombro do Du e veio ferozmente na minha direção – VOCÊ CALA A SUA BOCA!!! – ele me apontava – NÃO EXISTE “NÓS”!! NÃO EXISTE PORRA NENHUMA DE “NÓS”!!!! VOCÊS NÃO SÃO NADA. NADA!!! VOCÊ ENTENDEU?!?!! EU JÁ OUVI BOSTA DEMAIS; E EU NÃO VOU FICAR AQUI PARADO ESCUTANDO VOCÊ FALAR DA MINHA PORRA DE NAMORADA COMO SE ELA FOSSE QUALQUER MERDA SUA!! ELA NÃO É!!
_E-eu n...
_SUA, SUA CANALHA!! VOCÊ É UMA FILHA DA PUTA!!! VOCÊ NÃO MERECE, CARA!! VOCÊ NÃO MERECE A MINHA AMIZADE!!! NADA!! NADA DO QUE RECEBEU DE MIM TODOS ESSES ANOS!!!! VOCÊ NÃO MERECE UM PUTO DO QUE EU JÁ FIZ POR VOCÊ, POR ELA!!! NADA!!! VÃO À MERDA!!! – as lágrimas voltaram aos seus olhos, gritando furioso, num misto de angústia e raiva – PELAS MINHAS COSTAS, PORRA!!! PELAS MINHAS COSTAS!!! COMO VOCÊ PÔDE FAZER ISSO, CARALHO?!!??
_... – eu chorava, escutando-o, agora muda.
_COMO??? COMO V... – ele perdeu o fôlego chorando, pressionando as mãos sobre o rosto – ...c-como você faz isso, velho... COMO VOCÊ FAZ ISSO?!?!?! COMIGO, PORRA?!? – voltou a me encarar, putíssimo – E-E VOCÊ AINDA PEGOU ELA NA FRENTE DE TODOS OS NOSSOS AMIGOS!!!! DE MIM, D-DE TODO MUNDO!!! VOCÊ PERDEU A PORRA DO JUÍZO?!! PUTA MERDA, TUDO, VELHO, EU TENHO QUE REPENSAR TUDO, CADA MERDA DE SEGUNDO QUE EU ESTIVE DO LADO DE VOCÊ E DAQUELA VADIA DE MERDA!!! TUDO!!!! VOCÊS NÃO TEM UM PUTO DE CONSIDERAÇÃO POR NADA?!?!! POR NINGUÉM?!?!!
_... – eu me fechava cada vez mais, completamente humilhada, me desmanchando em lágrimas.
_O QUE MAIS?!??!? HEIN?!? O QUE MAIS EU PRECISO FICAR SABENDO??!?!? ME FALA, DESDE QUANDO ESSA PORRA TÁ ROLANDO??!??! – quando eu achava que ele não podia perder mais a cabeça, os olhos dele eram empurrados ainda mais além, impulsionados pelo calor da situação – EU SOU UM BABACA MESMO!!! UMA PORRA DE UM BABACA!!!

Aquela discussão estava saindo fora de proporção. O Du veio até mim e me colocou atrás dele, com o braço para trás das suas costas me segurando o antebraço. O Fernando, assim como eu, era incapaz de processar verdadeira frustração silenciosamente sem atacar o mundo ao redor, sem destruir tudo ou a si mesmo em uns surtos completamente irracionais, antes de se acalmar – o que me preocupava; porque era quase melhor mantê-lo ali, onde ele descontaria apenas no apartamento, do que deixá-lo voltar naquele estado para a rua. A presença do Du só elevava a irritação, que começava a sair muito além do controle do que deveria. O Fernando chutou o sofá repetidas vezes, com força. E o Du mandou então em voz alta e clara que ele fosse embora, duas vezes até que ele enfim o ouvisse.  

_SAIR?!?!! VOCÊ QUER QUE EU SAIA DA MINHA PORRA DE APARTAMENTO??!?!? – o Fer se virou na direção do Du, parado na minha frente – VOCÊ PRECISA SER MESMO MUITO CARA DE PAU, SEU FOLGADO DE MERDA!!! MAS EU VOU! VOU!! EU VOU SAIR, SIM!! E VOCÊ PODE TER CERTEZA... – ele me encarou – ...QUE VOCÊ MORREU PRA MIM, QUE EU NÃO VOLTO A PISAR MAIS NESSA PORCARIA!!!! VOCÊ GARANTA QUE EU NÃO TE ENCONTRE. EU NÃO QUERO MAIS TE VER NA FRENTE, NUNCA MAIS!! NÃO QUERO SABER QUE VOCÊ EXISTE!!! E PODE AVISAR A VADIA DA SUA NAMORADINHA!!! VOCÊ MORREU PRA MIM!!

Eu me encolhi – por favor, não. Se esta fosse qualquer outra discussão entre mim e o Fernando, eu sabia que ele se desculparia no dia seguinte. Por ter perdido a cabeça, por ter dito mais do que queria – mas não hoje. Desta vez, não haveria dia seguinte. Não nos sentaríamos na porra daquela cozinha, numa ressaca monstra, e nos arrependeríamos pelas palavras gritadas um contra o outro. Não haveria perdão. E tudo o que ele disse ali, cada absurdo e cada verdade, mesmo sem pensar, ficaria guardado comigo; pesando em mim e na minha consciência dali em diante. Uma tonelada. Sobre a minha garganta, sobre os meus ombros. E ah, eu ainda carregaria o peso dele, se eu pudesse. Sem pensar duas vezes. Mas o Fernando bateu a porta – sem me olhar nem mais uma vez, sem permitir. Eu estava arrasada.   

Chorava incessantemente. E o Du tentava agora me confortar,  sem saber como agir agora que o Fer já não estava mais lá. Eu havia abandonado qualquer noção de realidade ou senso de tempo, de espaço – eu só me detestava, compulsivamente. “L-liga p-pra... l-liga pra M-marina”, pedi. E ele correu para pegar o meu celular, ainda largado no sofá. Antes que pudesse digitar, todavia, o número do Fernando começou a chamar no visor. O Du me olhou, sem saber o que fazer. E apesar das suas objeções, peguei da mão dele e o atendi.

_V-VOC... NO ANIVERSÁRIO!!! NO ANIVERSÁRIO, CARALHO!!! V-VOCÊ , VOCÊ TEM MERDA NA CABEÇA??!?!?
_F-fer... e-eu, eu não... – eu soluçava, tentando desesperadamente me explicar, me desculpar com ele – ...E-EU NÃO TAVA COM A MIA, NÃO NA THE WEEK!!
_NÃO NO SEU ANIVERSÁRIO, SUA IDIOTA!! – ele gritava, furioso comigo – NO DA MIA!!! NA SARAJEVO, SUA FILHA DA PUTA!!!!!! V-VOCÊ, VOCÊ ME FEZ SENTIR MAL, VOCÊ ME FEZ PEDIR DESCULPAS!!!!!! VOCÊ ACEITOU TUDO O QUE EU DISSE DEPOIS E E-EU... EU ESTAVA CERTO??!?? – ele parecia subir a Augusta ou a Frei, eu podia ouvi-lo ofegante, berrando acima do som da rua – FILHA DA MÃE!! V-VOCÊ E-ESTAVA COM ELA DESDE AQUELA ÉPOCA, N-NÃO ESTAVA?!?!?! ESTAVA?!?!?!! SUA, SUA CANALHA DE MERDA!!!! SUA VAGAB...

Ele continuou despejando todo palavrão existente na minha direção. Em surto ao telefone. E eu sequer escutava mais, enxugando as lágrimas no meu rosto para que elas abrissem caminho para as seguintes. Completamente perdida. So knock me down, tear me up. O meu mundo todo parecia desabar. But I would bear it all broken.

just to fill my cup. (The Decemberists)