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agosto 27, 2013

[ CADÊ A MÚSICA NO BLOG? ]


NOVIDADE! Os downloads dos CDs com a trilha sonora oficial do blog (antes expirados, ah, eterna batalha!) foram atualizados e agora postei uma lista com todas as músicas que já rolaram aqui no Fucking Mia, incluindo links para o respectivo post em que a faixa aparece.

Baixe todas as OSTs aqui:
http://fuckingmiaost.tumblr.com/

Cadê essa música (post) no blog? 
http://tinyurl.com/OSTposts

agosto 25, 2013

Waitin' every day

*Out of frequency – The Asteroids Galaxy Tour

_Você está enrolando, garota... – eu ria, olhando-a aflita naquela calçada.

A Mia balançou a cabeça para mim, usando uma das minhas regatas pretas e uns óculos escuros que eu não fazia ideia de como foram parar no meu apartamento, para começo de conversa. Ela escondia a cara destruída; o sábado amanhecera e não melhorara a nossa aparência de esfomeadas, ressacadas. “Só vai logo. Faz uma hora que estamos aqui, meu”, resmunguei, ainda rindo, e ela me ignorou, entre uma tragada nervosa e outra. Eu me divertia assistindo-a, ali. “Não faz nem vinte minutos, tá?”, ela soltou a fumaça no ar, com convicção do que dizia, e espiou por cima do ombro. Na direção do portão. “Merda”, sussurrou.

Eu me sentei no meio-fio, à espera das suas bolas. Completamente inexistentes – coragem, mulher, vai. Estávamos na frente do seu prédio. E enrolávamos. Por minha vez, ainda não contara a ela que tinha visto o Fernando na noite anterior – o que talvez fosse a minha parcela de covardia naquela história, pelo menos até então. Planejava contar. O Du nos enviara um SMS minutos antes, chamando para um festival gratuito de jazz no parque Ibirapuera. Era quase quatro da tarde já. O sol logo ia se pôr e a Mia não se movia, ali, o medo lhe tomava os olhos de maneira vergonhosa.

_Então... – comentei, agora com as costas deitadas na calçada, esparramada em Higienópolis como uma indigente – ...qual o plano? – as pessoas que passavam me encaravam, indignadas – Você se muda para o meu apartamento e nos casamos semana que vem?
_Isso, me zomba mesmo, sua trouxa... – a Mia me chutou os pés no asfalto e eu ri, ainda deitada.
_O quê? Acho muito sapatão da sua parte, eu acho ótimo...
_Sabe, você podia me dar um pouco mais de apoio... – ela ajoelhou ao meu lado na calçada, dando-me um tapa no braço; nos divertíamos – É difícil pra mim, tá? E não vou me mudar, eu só vou pegar o meu laptop! Preciso mandar algumas coisas pro meu orientador e não quero ver os meus pais tão cedo, é só até segunda. Eu já vou sair da sua vida e te deixar em paz, ok.
_Claro. E o que você vai fazer segunda? Arranjar um bom moço judeu para levar para casa?
_Aham. Valeu!
_Qual é! – eu ria, num shorts jeans e All Stars velhos – Aposto que eles nem tão aí; aliás, tenho certeza que ninguém ouviu porra nenhuma quinta. Só vai lá e pega de uma vez, vai levar cinco minutos... – me ergui, apoiando os cotovelos na calçada, e a olhei – ...vai ficar tudo bem, linda, de boa.

Sorri. Estava convencida de que todo aquele drama era algo infundado que ela inventara em sua própria cabeça – e logo descobriria, todavia, o meu equívoco. A Mia me deixou plantada no corredor, havia um pequeno “hall” até o apartamento dos pais dela – que ocupava o andar inteiro. Só por precaução, ela disse. Concordei. Cinco minutos se passaram e então dez, logo vinte. Nada dela voltar. Aproximavam-se dos trinta minutos quando enfim escutei alguma movimentação interna e o que me pareceram passos por detrás da porta. Vi a luz oscilar pela fresta no chão.

_Você não vai entrar aqui, ficar DEZ MINUTOS – tecnicamente, vinte e oito – e ir embora, ESTÁ ME OUVINDO?! – alguém gritava, pude ouvir assim que a porta entreabriu.
_É?? PORQUE NÃO LEMBRO DE PRECISAR DE PERMISSÃO PRA IR E VIR DESSA CASA! – a Mia berrou, esta era ela com certeza, de volta; ainda segurando a maçaneta mal aberta.

Merda. Aquele era o momento desconfortável em que você está prestes a presenciar uma briga entre alguém da sua idade e um integrante mais velho da família deles e não sabe o que diabos fazer com a sua cara, com a sua presença intrometida, ali. Onde porra eu me enfio? A porta enfim escancarou, conforme a Mia caminhava furiosa apartamento afora, numa troca de calça por um shorts de cintura alta, e a madeira bateu contra a parede, do lado de dentro. O seu cabelo estava preso de qualquer jeito num coque, que desfiava sobre o rosto.

_MIA! VOCÊ NÃO DÊ AS COSTAS PRA MIM! – a mãe dela gritava, agora eu a via, nitidamente irritada; e a Mia me agarrou pelo braço murmurando um “vamos”, apressada – VOLTA AQUI! VOLTA AQUI E TERMINA ESSA CONVERSA!!
_E-eu acho que, que talv... – comecei a sugerir para a Mia, hesitante, sendo arrastada corredor adiante até o elevador, no calor da emoção, quando a sua mãe me encarou. E só então me reconheceu.
_O q... o que VOCÊ está fazendo aqui? – perguntou e se enfureceu com ela – MIA! O QUE ELA ESTÁ FAZENDO AQUI?? HEIN?? VOCÊ PODE ME EXPLICAR?!?
_Foda-se... – a Mia trombou com o elevador fechado, fora do piso, e me puxou na direção contrária, ignorando a briga – ...vamos de escada! Vem.

E achou graça enfim, sorrindo, conforme descemos os primeiros degraus. A porta corta-fogo abafou a voz estridente da sua mãe. Descíamos correndo. Eu sequer sabia por que nos apressávamos assim, um degrau após o outro, em ritmo frenético como se arriscássemos ser alcançadas, pegas de alguma forma. Numa realidade delirante – que diabos. “Eu acho que ela não está nos seguindo”, comentei alto, lá pelo quarto andar. Ri, eu estava ofegante. A Mia continuou me puxando – “não para, ela é louca, vem! Vem!”. Seguimos. A porcaria daquela escada era eterna. Em que andar você mora? No 154º?? Os meus pés se sucediam com rapidez, se eu pensasse demais corria o risco de tropeçar.

O meu sedentarismo se revelava, já passado o terceiro andar. “Você sabe que eu fumo desde os doze, né?”, ri, quase morrendo, ao chegarmos ao segundo. “Quem é você, o Charlie Sheen?”, a Mia gritou, sem me esperar, agora correndo à minha frente. Recuperava o meu fôlego e prossegui, “não digo ‘regularmente’”. “Sabe o que ajuda?”, ela comentou então, de costas para mim, “não falar!”. Eu ri. Ela não diminuía o ritmo. Saltei os três últimos degraus até o trecho plano. E a alcancei a mão, puxando-a de volta. Pressionei a Mia contra a porta do primeiro andar.

_Sabe pra quê eu guardo o meu fôlego? – sorri, beijando-a na escada do prédio.

agosto 21, 2013

Umas companhias

_... – mordi a minha língua para não lhe dizer mais nada, ele não merece mais um puto de confusão na sua vida; eu era uma soma de arrependimento e desprezo por mim mesma, chorando ali, quieta.
_VAI EMBORA! SAI!! SAI DAQUI!

Ele se virou imediatamente e foi até a porta, batendo-a ao entrar em casa, com força. O que provavelmente lhe renderia outra briga com o pai – o babaca já devia estar intolerante desde que o vira voltar para casa na madrugada anterior, naquele estado. Já eu era puro ódio. Por mim mesma, por toda a situação. Caminhei pela calçada, indo para o lado oposto ao que deveria ir, me afastando do ponto que levava até a minha casa. E andei seis ou sete quarteirões pelas ruazinhas de Santo Amaro até a casa do Binho. Ele se aprontava para sair – trabalhava num bar da Augusta –, vestia um jeans largo e regata branca.

_Nossa – arregalou os olhos ao me ver ali, parada na calçada –. O que VOCÊ tá fazendo aqui?!
_Sai aí. Preciso falar contigo.

O Binho era um cara do tamanho do Fer, negro, com tatuagens até o pescoço e um coração meio mole, por quem metade da ala feminina de Santo Amaro caía de amores. Estudáramos todos juntos – como a maioria dos nossos amigos até então –, portanto morava todo mundo perto, no mesmo bairro. A casa dos meus pais ficava a algumas quadras pro outro lado da do Fer. Como o Binho entrara no último colegial, isso queria dizer que eu o conhecia já há oito anos. E dados os acontecimentos da madrugada anterior, ele sabia de antemão do que se tratava, antes mesmo de eu abrir a boca.

_Escuta, ele não quer falar contigo. Cê não vai conseguir nada – falou, abrindo o portão.
_Eu sei. Eu acabei de vir de lá, tomei um puta coça. Você acha que eu não percebi? – ri, magoada, de braços cruzados – Foi uma bosta.
_Cê tá chorando, velho? – ele observou, agora mais próximo, e se lamentou – Puta merda, que que acontece com vocês dois, mano. Qual é! Vocês são amigos!!
_Não importa agora. Eu quero saber o que rolou ontem, vai... O Benatti veio falar que você trombou com o Fernando na Augusta e...
_Como o Benatti tá sabendo??!? Aliás, é mesmo, como VOCÊ tá sabendo??!?
_Você me diz. Você que começou essa PORRA... – aumentei um pouco a voz, um tanto fora de controle das minhas emoções – Eu tava na minha trabalhando hoje e recebo uma ligação do Benatti dizendo que falou com o Lipe, que conversou com você, que falou ontem com o Fernando. Eu quero saber o que tá rolando!
_Eu não vou TE  contar, o maluco tava mais louco que o Batman. Não tava falando nada com nada. Arrumou puta confusão lá dentro e ainda me fez tomar esporro do meu chefe! Cê acha que ele tava com a cabeça no lugar? Que falou alguma coisa com sentido?! – o Binho se apoiou contra o portão, acendendo um cigarro – Ele não falou nada! Disse que cê tava morta pra ele.
_Mas ele – hesitei – te contou por que da briga?
_Não. Ficou choramingando por duas horas por sua causa e a amizade de vocês, na calçada, e o caralho a quatro e depois surtou, aí se lamentou por causa do carro que tinha arranhado, disse que o pai ia matar ele, daí falou qualquer coisa da Mia, que ia ligar pra ela, xingou todo mundo, você, eu, ela, arrumou briga com metade do bar. Sei lá. Foi puta confusão. Esse moleque me deve uma...
_E você ele, por ter espalhado essa merda! Morre aqui esse assunto, fechou?! – dei uma leve bronca, lhe tomando o cigarro para uma tragada – Não quero que cês fiquem de fofoca aí, meu, na boa. Vai foder com tudo de vez, se isso chegar no Fernando.
_Mas o que rolou afinal? Com você e ele?!
_Nada – devolvi o cigarro –. Não posso falar. É melhor assim...

Só precisava saber o quanto você sabia. Dei um toque em seu ombro, me despedindo, antes de virar a caminho do ponto. “Agüenta aí”, ele disse, “eu vou praqueles lados também, vamo junto”. Esperei por algum tempo na frente da sua casa e ele enfim apareceu, agora de jaqueta nas mãos e um boné. Caminhamos lado a lado e pegamos o ônibus, falando de tudo menos o Fernando. O Binho se encontrava em crise, formado há quase um ano e sem saber o que fazer da vida. Bem-vindo ao clube, pensei. Me senti estranha. Talvez fosse toda a briga com o Fer, as incertezas do futuro, não sei, mas me senti como se eu e todos aqueles a meu redor estivéssemos perdidos. Toda a minha porra de geração. Arranjando briga e enchendo a cara na Augusta, morando com os pais, traindo uns aos outros, sem emprego, sem sair do lugar. De um jeito ruim.

Quando descemos na Augusta já era quase onze e o Binho estava atrasado, caminhei com ele até a porta do Carniceria. E então virei a esquina mais adiante para entrar na Frei Caneca, andando o pedaço que restava até o meu prédio. Parei antes num dos botecos e comprei uma Coca de dois litros e uma empadinha. Mal comera o dia todo. Quando entrei no apartamento e acendi a luz, encontrei a Mia dormindo no sofá de pernas descobertas. A sala ainda estava um caos. Ela não acordou. Um sentimento familiar sobrepôs então aquela agonia que sentira minutos antes pela minha geração, um calor interno e brando – deixei a sacola com o refrigerante de lado, subindo junto a ela no sofá da sala. E me aconcheguei a seu lado. “Você ainda está aqui”, disse baixinho, pondo os braços ao seu redor. E ela murmurou um ruído afirmativo, meio suspirante e sonolento.

_Uh-hm. Você demorou...

Hematomas e a ferida aberta

Estava na frente da casa do Fer por mais de uma hora e quarenta, quando ele enfim virou a esquina. Do ponto de ônibus, na rua de trás. Eu tragava o meu terceiro cigarro da noite. Seu pai – muito simpático – não me deixara entrar. “Não sei que horas ele volta”, argumentou de longe, sem vir até o portão me receber. E emendou um agradável: “o que você quer?”, em tom de desconfiança pelo horário. “Nada”. Disse e me sentei naquela calçada escura, à espera. Talvez a Marina tenha razão – mas – voltar pra casa pra quê? Não pra ficar sozinha, numa sexta à noite, com essa culpa filha da puta dentro do peito. O Du não vai estar lá, duvido; vou ser só eu e a porcaria de um baseado numa brisa muito, muito errada. Soltei o cigarro no chão, me erguendo apressada assim que o avistei.  

_Fer... – caminhei em sua direção, sem acreditar de fato que o encontrara.

Ele levantou a cabeça, só então me notando ali. E eu o vi – estava completamente destruído, parte do rosto inchado; o sangue seco da noite anterior na Augusta se revelava em cortes, na cara e nas mãos. Aquilo, somado às tatuagens, e parecia um delinquente descendo a rua. Seu babaca – você vai perder a porra do seu emprego, cara, de novo. Me aproximei dele, preocupada. “O-o que aconteceu?”. Ele desviou de mim, irritado, sem intenção de conversar comigo. “Não aconteceu nada”, resmungou já com raiva, a caminho do portão. “Cai fora!”. Ordenou e tirou a chave dos bolsos para abrir o cadeado.

_Fer, por favor, me escuta. Vamos conversar! – implorei.
_Eu não tenho nada pra falar com você. Vai viver a sua vida, porra.
_Eu me sinto uma MERDA, POR FAVOR! Tá todo mundo sabendo que nós brigamos e-e eu não sei o que falar pros nossos amigos. Eu só quero que essa merda acabe!! Olha pra mim – segurei o seu braço, num impulso – ...e-eu não dormi um puto essa noite, e... e OLHA PRA VOCÊ! Não está tudo bem. NÃO TÁ!! A-a Marina disse que eu devia ficar em casa, te dar um tempo, mas, mas você só, você só vai me detestar mais. E mais. Por favor!! Eu não posso ficar em casa, eu preciso tentar ALGUMA coisa. QUALQUER COISA. Eu te amo demais, porra, pra ficar aqui parada e te ver destruído, saber que você me odeia assim. Só me diz o que fazer. Por favor, eu faço. Eu conserto essa merda. SÓ ME FALA!!
_E VOCÊ VAI FAZER O QUE?!? VAI LARGAR D... – ele gritou comigo e logo se conteve, retomando a seriedade – ...vai embora. Some daqui.
_Não. NÃO. POR FAVOR! – olhei para ele e as lágrimas começaram a correr pelo meu rosto, em desespero – FER, SE VOCÊ QUISER QUE EU RASTEJE, EU ME RASTEJO. SÓ ME OUVE. VAMOS CONVERSAR! TEM QUE TER UM JEITO. Eu... – a minha tristeza engasgava na minha garganta, em soluços violentos – ...eu não sei viver sem você. Eu não POSSO. Fer... – segurava o seu braço com ambas as mãos, a testa apoiada contra o seu ombro, chorando despida de qualquer orgulho – ...e-eu sou uma idiota, me perdoa. Me perdoa, me perdoa. Por favor. Eu preciso de você. E-eu nunca quis te machucar, me desculpa. Por favor – soluçava –, por favor, não me manda embora. 

Ele ficara quieto. Parecia abalado. Senti a sua outra mão, por um instante, sobre a minha cabeça. Eu chorava no alto de seu braço. A sua respiração pesava com o processar de tudo aquilo, com dificuldade. Mas logo se desvencilhou, agora visivelmente perturbado, e se apressou em abrir o portão. Tinha os olhos vermelhos, marejados. “Eu não quero te ver”, encerrou, com seriedade. E eu apoiei as mãos entre a grade do portão, que ele agora fechava entre nós – “Cinco minutos, Fer, só senta comigo por cinco minutos e eu respondo o que você quiser, eu falo o que você quiser”, ainda chorava. Ele surtou.

_OLHA PRA MIM! OLHA PRA PORRA DA MINHA CARA!! – eu o ouvi gritar, do nada; os seus olhos enfurecidos e magoados, o rosto completamente destruído de uma briga – EU NÃO QUERO ESCUTAR MERDA NENHUMA, V-VOCÊ JÁ NÃO FEZ O BASTANTE, CARALHO?!?? OLHA PRA PORRA DA MINHA VIDA!! – ele chutou o portão e eu me retraí, do outro lado – EU VOU VOLTAR TODOS OS DIAS PRA ESSA PORCARIA, PRA ABSOLUTAMENTE NADA. VOCÊ ENTENDE ISSO??

agosto 12, 2013

O Tricô

_Flor, você tem que sair daí... – a Marina diria ao final daquela sexta-feira, antes de eu desligar, um tanto rude, o telefone na sua cara.

O dia toda fora difícil. Acordamos – a Mia e eu –, duas horas depois do cansaço enfim nos derrubar naquela manhã, completamente nuas e exaustas, descabeladas, sujas, o corpo melado, o rum no chão e também no cabelo, aquele cheiro de sexo, de ressaca, a cabeça estourando e as pernas ainda tremendo, famintas, meio de larica e meio de estômago embrulhado, simultaneamente, nos sentido esvaziadas de tudo – de dignidade, principalmente –, o rosto dolorido, de toda a violência gratuita; a boca seca de tanta maconha, num daqueles estados deploráveis após a bebedeira que nós não estávamos exatamente animadas em dividir tão cedo uma com a outra. Vomitei por dez minutos no banheiro. E assim que pude me reerguer, tomei então um banho, enquanto ela forçava algo goela abaixo na cozinha. Café da manhã juntas. Romântico.

Já se passava das nove da manhã – a minha chefe vai me matar. Olhei para o relógio na parede e para a água escorrendo. Tomara que com as pernas, pensei, ainda assim imprestável. E logo o carma se encarregou de me engasgar a garganta com uma ânsia repugnante, abri o box com pressa e despejei metade do meu estômago para fora na privada. Que ótimo. Voltei para o chuveiro, detestando a situação toda. E na saída, escovei os dentes duas vezes, ainda que fracassando em me livrar do gosto de cabo de guarda-chuva que impregnara a minha boca. O banho não resolvera em nada a minha aparência – observei no espelho – como quem nitidamente só dormira um par de horas, mas era bom poder colocar uma roupa limpa. E os meus fios molhados me propiciavam certa lucidez. Disse à Mia que podia ficar o quanto quisesse e a beijei no rosto antes de sair para o trabalho. A esta altura o ponteiro sequer via mais a décima casa do relógio – ficara para trás e eu, bom, também.

_Você está de brincadeira comigo, não é?! – a matrona então disse, irritada, assim que pisei na produtora e topei com a sua cara de poucos amigos a cinco passos da porta. Onze e dezoito.
_E-eu... – gaguejei, a minha cabeça parecia prestes a estourar – ...m-me desculpa, eu não tive uma noite boa – tá, 60% verdade –. Passei muito mal de madrugada – a meia hora atrás –, dormi só às seis – mentira, às sete –. Perdi a hora...
_Não é a primeira vez que você se atrasa. Isso não pode virar um hábito, você entende – continuou séria –, não aqui.
_Não vai, meu. Eu prometo. Eu faço hora extra hoje, e-eu...

Por favor. Só cala a boca e me deixa passar, antes que os meus neurônios explodam. E ela acenou com a cabeça, sem que eu terminasse a frase. Ufa. Passei. E fui voando até o cômodo comum, iniciar o meu computador e subir correndo para o banheiro, colocando os pulsos na água. O resto do dia todo seguiu neste estado irritadiço. Almocei sozinha, mais tarde que os demais. Não falei com ninguém e a Mia não me escrevia de volta – provavelmente dormindo, desgraçada. E quando achei que não poderia piorar, recebi, lá pelas tantas no meio da tarde, uma ligação. Olhei o visor – merda. Era um dos amigos meus e do Fernando. Não quis atender logo de impulso e gastei algum tempo ali, encarando o maldito telefone, que vibrava sobre a mesa. Por fim, optei em aceitar a porcaria de ligação, pressupondo ser recente demais para o barraco já ter chegado ao ouvido de alguém do nosso círculo.

_Estou no trabalho, ô babaca! Fala.
_Mano, verdade mesmo que você e o Fer tretaram??

É. Eu estava errada.

_Benatti, na boa, eu não quero falar sobre isso.
_Foi pra valer então, velho?!?
_Cara... – comecei a me irritar.
_Fala aí. Por que cês brigaram? – insistiu.
_Não é da sua conta.
_Fala logo!
_Não interessa, porra... – esfreguei as mãos no rosto, tentando manter a minha voz baixa dentro da produtora – ...e afinal, se você está tão bem informado, por que não pergunta pra quem quer que te contou essa merda?!
_Mas o Lipe não sabe, ninguém sabe.
_O Felipe?!
_É. O Binho contou pra ele, disse que trombou com o Fer na Augusta ontem.
_JESUS! Vocês são o quê? A porra da ABIN??!
_Quê, velho?! O maluco tava trampando, tava de boa lá; foi o Fernando que apareceu no rolê! E arrumou puta confusão ainda, o Binho tava louco da vida.
_Que confusão???
_Ah, sei lá! E interessa? É só o Fer sendo Fernando... – ele riu – Mas conta aí, meu. Que rolou, afinal??
_Não, volta. Você sabe se ele chegou em casa??! O que aconteceu? O INÚTIL do Binho ajudou pra alguma coisa?!?
_Não sei. Ele não falou nada. Deu alguma treta lá e ele ficou falando com o Fer já do lado de fora do bar. Isso já era quatro, cinco da manhã. Mas ele não tem carro, nem nada, cê sabe.  Deve t...
_Você tem o telefone do Binho?
_Por que? Você não tem?
_Só passa logo.
_Pra quê cê vai falar com o maluco, meu?!
_Porque você, obviamente, não sabe de NADA – resmunguei, pegando um papel e caneta na gaveta –. E porque é pra ele parar de tagarelar, tipo JÁ!
_Não, velho, o cara foi gente boa... Ele só tava bravo porque deu merda lá no trampo dele, não vai descontar no moleque!! Ele pediu pro Lipe não falar pra ninguém. E ele só me contou porque a gente se fala mais, saca, eu e você, e aí eu ia ver se entendia o que tinha rolado. A gente quer ajudar. Sério mesmo, mano. Ninguém mais tá sabendo, pô!
_V-vocês são inacreditáveis... – revirei os olhos – ...puta que pariu, vocês três são piores que a minha mãe e a porra das vizinhas do bairro, em Santo Amaro. “Ajudar”? Assim?? QUAL É?!
_Não é isso, cê entendeu errado...
_Eu vou desligar, Benatti. Na boa, desculpa.
_Espera! Espera! – pediu – Tem alguma coisa a ver com a Mia, não tem?
_O QUÊ?!
_N-não, é-é que...
_DE ONDE VOCÊ TIROU ISSO??!?
_É s-só que u-uma... – soei tão séria que ele gaguejou, sem querer – ...vez o-o Marcos veio com esse papo q-que...
_Não. Isso não tem NADA A VER COM A MIA! E O MARCOS PODE IR À MERDA!! – aumentei involuntariamente a voz, agora puta da vida – VOCÊ ME OUVIU? NÃO ME VEM COM ESSE PAPO, VOCÊS TODOS, PORRA. PODE PARAR AGORA! EU NÃO QUERO NINGUÉM INDO LÁ FALAR PRO FERNANDO DESSA MERDA. FICA NA SUA, RAFAEL!!

A equipe inteira me olhava, no meio da produtora, surpresos. Afundei envergonhada na minha cadeira, tentando conter a minha voz, mas ainda nervosa com ele. As minhas veias pulsavam ferozmente.

_Escuta: você quer ajudar, você faz essa merda parar. AGORA. Sem fofoca! Vocês todos, mano. Isso NÃO vai ajudar! O... o Fer já me odeia nesse momento, porra, eu não preciso de um bando de marmanjo falando merda por aí!!
_Desculpa. Não foi o que eu...
_Não me interessa. Você corta essa porcaria! Eu preciso desligar... – interrompi o que ele dizia, sem mais paciência – ...não me vem mais com essa babaquice, Benatti, POR FAVOR. Sossega o facho! VOCÊ E TODO MUNDO!

Fechei o telefone com raiva. Afundando ainda mais na cadeira, enquanto respirava fundo. Todos me olhavam. A última coisa que eu queria naquele momento era atravessar ainda mais o Fer, expor a sua vida para os outros. Para os nossos amigos. Mas por mais que os minutos se passassem – a verdade é que agora eu não conseguia mais esquecê-lo. Maldito Rafa Benatti e aquela boca cheia de merda. A droga da minha enxaqueca fora substituída pelo pior inferno moral de todos os tempos. E eu fiz cada uma daquelas horas extras, em plena sexta à noite, com os pensamentos obcecados no meu até então melhor amigo.

Ao fim do expediente, sem planejar – ou pensar direito, como qualquer ser racional faria –, tomei o ônibus para Santo Amaro. Excelente. Eu sou um gênio mesmo. E liguei para a Marina quando me dei por mim – já na porta da casa dele –, mas logo desliguei. Foda-se, já estou aqui.

agosto 03, 2013

Do it with a rockstar

É, porra. Vem então. Acenei com a cabeça, me fazendo de muito porralouca – numa daquelas ideias imbecis que só se tem completamente bêbada. Com a música no último volume, acordadas às seis da manhã. E a Mia me olhou, como se me testasse, me desafiando, dando dois passos para trás.

_Você é uma babaca, às vezes. Você merece... – achou graça na minha audácia.
_Mereço? – ri.
_É. Você fala muita merda, sabia, garota...
_Muita m... É? Tipo, o quê... – sorri, observando-a, com a cabeça agora apoiada contra uma das prateleiras – ...quer saber quem eu comi na semana do seu aniversário? Quando fomos na Sarajevo, no estúdio?
_O-o quê? Sua filha da...

Ela veio na minha direção, como se fosse me bater. E trombou contra o meu corpo, achando graça. “FODA-SE”, eu a encarei, “cê tava lá dando pro Fernando!”. Disse, rindo. E ela me virou outro tapa, tão forte quanto o primeiro. Puta merda. Perdi o chão por um instante, cambaleando uns milímetros involuntariamente pro lado. Nós duas nos olhamos por um momento e começamos a rir, imediatamente. “Que merda. Porra. Vem, mano! Bate de novo então”, me ergui. “Não”, ela achou graça, “eu vou te machucar, chega”. “Bate logo, caralho!”. E ela me virou outro, desta vez um puta tapa, no lado oposto. Dos que fazem a pele ficar vermelha por minutos.

_CARALHO! PORRA!! – não me contive, competindo com o som do rádio, que gritava na sala.
_D-doeu? – ela ria, mas um tanto preocupada.
_Nãããão, qué isso... – eu zombei, ainda abrindo a boca ocasionalmente para esticar as bochechas e aliviar a dor, ria de nós duas – ...quase nada, imagina.
_D-desculpa! Ai, me perdoa.
_Vem. Quer que eu te mostre o quanto doeu?
_Nã-ão. SAI PRA LÁ!
_AH, VÁ! – comecei a gargalhar, indignada – PORRA! Nem UM?!
_Não. V-vai... vai doer. Eu não quero.
_MANO! CÊ É MUITO BICHA, CARALHO! Eu já tomei um monte, vai dizer que cê nunca levou um na cara... – ri – ...aí toda tatuada e o caralho a quatro, pagando de rata da Augusta, cê tá me tirando?!??
_M-mas... dói.
_Lógico que dói! PUTA MERDA!! Precisa ser gênio agora?
_Tá. Um. Um! Você pode me d...

Antes que ela terminasse a frase, eu, completamente bêbada, virei o maior tapa que todos aqueles anos conseguiam reunir em uma mão só. Num estrondo – que doeu até em mim. A minha mão toda formigou, de repente. Caralho. E a Mia voltou o rosto, e o olhar, de novo para mim, vermelha de raiva comigo. Puta da vida. “E-eu vou te matar”, ela riu, me ameaçando. E eu comecei a rir também. E então me contive, agora quase tremendo de nervosismo – esticando o rosto para que ela revidasse, com o cu na mão de medo, fechando os olhos apertados. E o próximo dela quase me derrubou. Não que, no meu evidente estado de embriaguez, fosse lá muito difícil. A tarefa estava pronta para ela. Mas quase caí, me equilibrando contra a estante. Puta merda, ESSE doeu. Eu ri. Cada sacodida da minha cabeça parecia me deixar mais fora de mim. Sentia o álcool todo subindo, junto com o calor contra a minha pele, absolutamente tudo fervia.

Ela me bateu então no ombro e nos braços, de leve. Senti o corpo da Mia contra o meu, os seus antebraços me pressionavam os ombros contra as prateleiras. Agora mais pesada. Mal havia me recuperado – ela riu, me virando outro tapa – e tomei mais um, fraco, do outro lado. Nos trombávamos ali. Eu ria também. Esfreguei as mãos contra o rosto, tentando me livrar da ardência na pele. E então a olhei, ali tão próxima, e tentadora. E as minhas mãos a alcançaram, segurei o seu rosto e a beijei. Ela me beijou de volta. E começamos a nos agarrar compulsivamente, no calor da porra toda, daquela confusão bêbada, e a Mia me puxava, agora, contra si. Me largou a boca e riu. Dando dois outros tapas, consecutivos, mais leves. Rápidos. Eu franzi as sobrancelhas de dor e a beijei mais uma vez; ela me empurrava. Outro tapa. Colocava então os braços sobre meus ombros, me abraçando por cima. E me apertava. Deixava-se tomar, no meu colo.

_Você é muito cara de pau...

Ela ria e me beijava. Desceu as mãos e foi subindo a minha camiseta. Arrancou-a do meu corpo. E eu desatei da estante, dando uns passos na direção dela. Segurava-a pela cintura, ambos os braços ao seu redor, fortes. Fomos até o sofá. Aos trancos – nuns beijos contínuos, sem ver direito aonde íamos. Todas as almofadas, onde se sentava, estavam fora do lugar quando nos deitamos ali. Não duramos nem cinco segundos. E fomos de volta para o chão – junto com a garrafa de rum e as almofadas molhadas, tortas. Fica aqui, garota, deixa eu te olhar. Empurrei o sutiã da Mia por seu corpo acima. Lentamente. Era quase mágica a forma delicada como aquele pedaço de pano descobria as suas curvas. Os meus olhos embriagados a acompanhavam em uma obsessão, das que molhavam a minha boca – e outras partes. Num magnetismo óbvio. Previsível.

Recuperei o meu fôlego. Ou – mais ou menos. Abrindo as suas calças e descendo os jeans pelas suas pernas; foi então também a sua, a sua calcinha, em câmera lentíssima, num observar contínuo, e ah, como aquele algodão deslizava por sua pele, adiante, revelando-a, cada vez mais, mais nua e mais vulnerável. Aberta, mais e mais. A mim. A velocidade do mundo parecia reverter a sua direção. Indo agora em vagarosa sintonia. Beijei-a aos poucos, os meus lábios umedeciam o interior dos seus joelhos, o começo da sua coxa. A tocavam ora suaves, ora brutos. Indo contra todo o tempo que já se passara, numa lassidão delirante. Perdi completamente a noção de onde estava. Tudo era ela, aquele momento. Nos conectávamos, mais, conforme eu descia por sua coxa. E então separei os seus lábios com a minha língua. Ali.

As suas pernas me pressionavam, apoiadas sobre os meus ombros. Lambendo, cada centímetro da sua pele molhada, ao passo que colocava os meus dedos dentro dela. Subi apenas o meu dedão por fora, deslizando-o até encontrar a minha língua. Mais acima, pressionando-a com ele, enquanto a lambia. Chupar aquela mulher era como comer um banquete com os deuses, sem nunca se saciar; meter boca adentro todas as adegas de Baco. Ao som gritante da voz da Amanda Palmer – do you wanna? do you wanna? do you wanna? – no rádio. Havia algo de enlouquecedor – e surreal –, toda vez. Toda maldita vez. Era ela. E eu podia fazê-la por um dia inteiro. Por uma semana; e que se dane. Estava para ser inventado sentimento mais viciante, inebriante, do que ter gosto dela, a Mia se contorcendo nos meus dedos, na minha boca. Nos meus ombros. Nos movíamos por puro e absoluto impulso. Cruas.

Em curvas ritmadas. Eu tentava me conter – mesmo bêbada, cada movimento daquela garota me fazia perder o fôlego, o controle. Queimando dentro dos meus jeans. Era ridículo. Mas continuei. Fechava a boca pausadamente e a chupava, repetidas vezes, para então abrir e começar de novo. A sua mão penetrava os fios do meu cabelo e me segurava contra ela. Agora era o meu dedo que desenhava círculos nela, a minha língua a pressionava. Até sentir que eu não aguentava mais, até sentir que ela não aguentaria muito mais. E então chutei as minhas calças pra longe; parei por um instante. As calças adiante no chão da sala. Sentada, ali, a menos de um metro dela. Observei a Mia inquieta, nua e pulsante, a forma como o corpo todo dela parecia ansiar pelas minhas mãos. A sua pele pela minha língua, por mim. Pela porra do serviço incompleto. Para que eu a tocasse; e logo. E acabasse com aquilo.

Mas a deixava sozinha, olhando-a à curta distância, perdendo a cabeça nos segundos que a consumiam ali. A espera florescia visivelmente nela. Podia sentir a sua respiração no ar. Engatinhei na sua direção, o meu cabelo solto escorregava pelos ombros e braços. O seu corpo inteiro tremia. O meu ansiava por ela. Passei uma das minhas pernas sobre a sua e a outra por debaixo da coxa esquerda, me colocando. Nela. Ou sobre ela. Senti-a me molhar. Progressivamente. Num deslizar mútuo, uma das minhas mãos cravadas em sua cintura. Tirei o meu sutiã com a outra. Enquanto movia o quadril em cima dela, num movimento que fazia dobrar a pele das minhas costas.

Começando intenso e lento – para então ir crescendo em nós duas, aumentando em força. E velocidade. Podia ouvi-la gemer, enquanto eu ofegava cada vez mais, e mais, me movendo contra ela. Em cima dela. O rádio continuava aos berros – competindo conosco, acordando todos os malditos vizinhos. Era um prazer quase doloroso. Apoiei uma das mãos centímetros acima do seu ombro e me abaixei, beijando-a. Indo cada vez mais forte. Os nossos beijos eram interrompidos pelo seu fôlego. Não havia uma porra de chance que eu a deixasse gozar assim. Nem fodendo. Saí de cima dela – sem tirar a minha boca da sua – e passei a outra perna por cima dela, ficando a milímetros sobre seu corpo. A beijava continuamente. De quatro no chão e sobre ela. As suas mãos me forçavam para baixo, me agarrando pela cintura. Me mordia a boca – em plena ansiedade.

Quando subitamente o som desligou. Mas que m...? Abri os olhos – e a luz estava acesa. Tudo o que pude ouvir foram os passos deixando a sala; e pressupus ser o meu mal-humorado colega de quarto, acordado por aquela barulheira toda. Estávamos completamente nuas. Sim. Mas – completamente bêbadas. Também. E tudo o que conseguimos fazer foi começar a rir, gargalhar. Com o nariz apoiado na bochecha uma da outra. E então a Mia ergueu parte do corpo sob mim, recuperando o fôlego, e me pegou pela lateral da cabeça. Antes de voltar a me beijar. “Bem, obrigada por acender a luz...”, sorriu, prestes a continuar.

Pode vir!

Tínhamos medo de ir dormir. E não era para menos. A manhã seguinte nos aguardava com todas as doses de realidade e dores de cabeça existentes. Não estávamos ansiosas por isso. Então desafiávamos a porra da madrugada, conscientemente – ou quase conscientemente, sei lá. Que se foda. Acordadas. Rindo compulsivamente, completamente chapadas de tanta erva consumida no escuro. A sala estava em silêncio, desde que o CD do Arctic Monkeys terminara. Só os nossos gritos ocasionais cortavam o breu, junto com a conversa. Constantes. Seguíamos em ritmo frenético. Tateei o meu caminho até a cozinha, em determinado momento, e regressei com uma garrafa quase ao final de rum dourado, tropeçando nas tralhas por toda a volta. Bebi um gole.

A Mia se ergueu do chão, do outro lado do sofá, subindo nas almofadas e escalando-o descalça em seu jeans rasgado. Caralho, essa mulher. Eu adorava vê-la mover. Puta que pariu. Me encontrou na metade do caminho – em movimentos mais deliciosos que o rum. As suas mãos subiram desinibidas, ávidas pelo meu corpo e ela arrancou o Captain Morgan dos meus dedos, me beijando em retribuição, numa pegada forte. A maconha lhe subia à cabeça, misturávamos nada saudáveis. Os nossos gestos ficavam imprecisos. Imprevisível, toda essa porra. Era perceptível: na forma como nos movíamos pelo cômodo – passei uma das pernas por cima do encosto, de qualquer jeito, ansiosa para chegar nela. Os seus beijos me atordoavam. Subindo no sofá, indo sem muito tato em sua direção.

Puxei a sua camiseta. E não enxergava merda nenhuma naquela sala apagada. Inferno. A garrafa soltara-se da sua mão e agora molhava parte do sofá, caída. Nos desequilibramos, ao passar da minha segunda perna, e meio caímos também contra um dos braços do sofá – tudo parecia um tanto em câmera lenta, em um downtempo ensurdecedor – e eventualmente a metade superior do nosso corpo deslizou até o chão. Impressionante como gente embriagada não sente um puto contra a pele. “Porra, velho!”, a Mia berrou, rindo. E me puxou para mais perto ainda dela. Nuns beijos intensos. Cacete. Tinha algo na combinação daquela garota com uns baseados e muito, muito álcool de madrugada que me fazia perder a porra da cabeça. Eu saía do sério. “Vem aqui, mano!”, eu dizia, achando tanta graça quanto ela. A admirava. E nos agarrávamos; a cabeça contra o piso de madeira, tortas e invertidas, atracadas uma na outra. Era adolescente. E ridículo.

O ritmo seguia frenético, não obstante. Começamos involuntariamente a empurrar o sofá com os nossos pés, ainda descalços. Cada vez caindo mais no chão. Em determinado momento, a Mia escorregou propositalmente para o lado, abaixando enfim as pernas, e cambaleou para se levantar. O que você tá fazendo, caralho?! – eu ri. “Quero ouvir alguma coisa”, declarou, “cadê seus CDs bons?”. Vem aqui, porra. Eu larguei a cabeça no chão, encarando o teto, indignada. E aí a olhava, completamente fora de mim, o mundo parecia uma realidade paralela e instável –os arredores meio escorregadios, não sei explicar. Tudo fluía. Numa consciência gelatinosa. Faz sentido? Não? Apoiei uma das mãos no tapete adiante, levantando o torso com certa relutância física. Argh. Controle dos próprios membros, pra quê, né. Era algo supervalorizado – me convenci. E me divertia, ainda sozinha. Ela ao longe.

Me apoiei contra o sofá já totalmente torto – metade das almofadas fora do lugar –, sentada, tentando acender o último cigarro do maço. Levemente amassado – filha-da-puta, xinguei a mim mesma. Aquela porra não ia funcionar. Desisti. A Mia observava, atonteada, cambaleando nos próprios pés, os meus discos, até encontrar algum. Sorri, observando-a. Eu também estava caindo de embriaguez, mas me entretia ali sozinha. Foi quando meteu um CD no rádio, virando o áudio quase no máximo. Tomei um susto. Puta que pariu. O som grave atravessou o meu coração, desavisado, e ergui o corpo na velocidade que deu, partindo na direção do rádio. Enlouquecida. Meio em cima dela.

_VOCÊ TÁ LOUCA, PORRA?!? –eu ria, tentando alcançar o maldito controle.

A Mia segurava as minhas mãos, relutante – tentando me impedir, com certa petulância, proposital. “MIA, CARALHO!”, eu gritava com ela, os meus ouvidos estourando. O Du vai me matar, o Du vai me matar. Ela segurou os pulsos então com força, obrigando-os para trás do meu corpo, e me beijou. Num beijo violento. Preso. Deixei-me carregar pelo momento – como recusar essa porra dessa garota? – e a empurrei contra a estante de CDs, ainda que as beiradas de madeira amassassem os seus braços, o seu corpo todo. Me pressionei contra ela. Beijando-a até perder o fôlego. Soltei as minhas mãos, tomando-a obsessivamente para mim. As tranqueiras todas da estante, os CDs soltos, as caixas fora do lugar, todas começaram a escorregar, com o movimento do nosso corpo contra as prateleiras.

Parte das coisas caíam, outras saíam do lugar. A Mia ria, eu também – numa inércia disparada e inconsequente. Àquela altura, que importava? Comecei a tirar a sua blusa, desta vez de vez, e ela se virou. Me pressionando contra a estante no lugar dela. Agora só de sutiã. Continuei. E ela segurou a minha mão, se afastando – e me olhou sorrindo. Está de brincadeira, né, porra. A puxei de volta para mim. E ela me beijou, completamente na minha. Até se soltar de novo. “Não”.

_Oi?! – eu ri.
_Você está bêbada demais e é minha primeira (vez) solteira, quero que você se lembre dessa.
_Vai à merda. A Clara não regulava assim – vomitei as palavras, inconsciente, brincando.

E, bêbada, ela me virou um tapa na cara. Um tapa de verdade. Fiquei meio sóbria, no mesmo instante. Mas que... porra?!, pensei, de repente. Foi do tipo que arde a merda da sua bochecha inteira. E ela começou a rir. Completamente ofendida, mas completamente bêbada. Fora de si – e assim que notou o que tinha feito, arregalou os olhos, mudou completamente de atitude. E veio implorando na minha direção, na mesma hora, agora curvada, abaixando a cabeça – “desculpa, desculpa”. Ela pedia e achava graça simultaneamente, ainda chapada.

_Orra. Cê tá violenta hoje, hein?
_Não! – ela ria, caindo em cima de mim, e eu era forçada a cambalear para trás, instável também, contra a estante.
_Vem, então. Que bater, bate!
_Cala a boca, sua idiot.... – ela se jogava embriagada em cima de mim, me agarrando a blusa com as mãos cerradas, numa vontade louca de me beijar.
_Pode bater. Cê bate que nem mina, porra – aumentei o tom, com um tesão absurdo, encarando-a –. Acha que dói?!

Mentira. Doeu pra caralho.

_Ah, é?! – ela riu, mais ofendida.