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setembro 21, 2013

Águas passadas

Custa? Me joguei de costas contra o sofá, deitada, após a saída dos meus pais do apartamento. Faz oito anos, porra, custa pegar um livro? Ler um artigo que seja? Ir numa droga de Parada e conversar com as pessoas? Comigo?!, passei as mãos pelo rosto; a falta de conhecimento ou empenho da minha mãe em entender a minha homossexualidade me enfadava, às vezes. Me ergui novamente, alcançando o maço na mesinha de centro. E acendi um cigarro, antes de ir na direção do banheiro para ver a Mia.

_Você está realmente aí? – eu ri, encostando a porta atrás de mim.
_Eles já foram? – ela perguntou debaixo do chuveiro e eu acenei com a cabeça, olhando-a dentro do box – Eu enrolei um pouco, mas achei que ia demorar... e não queria passar de novo pelo corredor – traguei mais uma vez, observava a água deslizar pelas tatuagens da Mia –. E aí entrei. Foi tudo bem?
_Foi – menti, soltando a fumaça.
_É? Por que sua mãe não pareceu muito feliz...
_Ela pode ir à merda – segurei o cigarro na boca e comecei a tirar a calça –, você não tem que se preocupar com isso... – murmurei, descobrindo as pernas.
_Mas são seus pais, né, meu...
_E daí? – ri, com o filtro entre os lábios – Olha, eu amo eles. Mas... – apoiei o cigarro na pia, por um instante, para tirar a blusa – ...os meus pais têm a vida deles em Santo Amaro, eles não fazem parte da minha aqui, há muito tempo. Vai ficar tudo bem...
_Eu achei que eles aceitavam melhor.
_Eles aceit... – hesitei, pegando o cigarro novamente – ...é que, sei lá.
_Você vai entrar com isso? – a Mia riu, mudando rapidamente de assunto.
_Não. Vou deixar aberto um pouco... – entrei e a beijei, mantendo a mão com o cigarro porta afora; sentia o seu corpo molhado contra a minha pele, era gostoso – ...você está fria... – comentei e ela sorriu – ...essa água não está gelada demais?
_Não, não. Deixa assim. Está calor hoje...

“Tá bem”, eu ri. E ainda com o box aberto, coloquei o cigarro na boca e me abaixei, ajeitando o corpo no chão. Apoiei os pés na parede do chuveiro. Sentia a água escorrer nas minhas pernas e contra as minhas costas, deitada nos ladrilhos. A porta – emparelhada com o meu ombro – ainda permitia uma abertura longe do chuveiro para o cigarro aceso.

_Os meus pais aceitam... – retomei e tirei o filtro dos lábios, batendo as cinzas no chão seco, do lado de fora do box – A minha mãe só achou ruim por causa do Fer, na real... É que aí ela não concorda com alguma coisa e começa com umas merdas que me irritam...
_Como assim?
_Ah. É difícil explicar...

A Mia havia se sentado ao lado dos meus pés, mais adiante. O chuveiro molhava agora parte de seu corpo, das suas pernas cruzadas no chão.

_...não é que eles não aceitam. Meu pai não fala a respeito, mas também não se incomoda de me ver com meninas, o que é meio bizarro. Eu acho que forcei tanto a minha normalidade neles que eles meio que acostumaram – ri, tragando mais uma vez –. E a minha mãe é muito tranquila, ela até pergunta das minhas namoradas. Foi muito amiga da Marina, por exemplo... Mas ainda tem umas coisas que são puro preconceito, sabe. Assim, saca, de não poder ter cabelo curto, ela não gosta de nada que seja estereotipado, muito “caminhão”; e eles dão um peso diferente para os relacionamentos héteros. Nem sei se eu devia achar ruim, mas me irrita...
_Eu também acharia ruim...
_É. É que tem gente que vive coisa muito pior, sabe. E no começo eu achava que tudo bem, que eu tava levando a melhor e eu tô mesmo, só que... porra, faz quase dez anos que eu contei, mano! Às vezes eu acho que eles, no fundo, pensam que eu estou “brincando” de ser gay. Ou sei lá, que não é sério, que é tudo porralouquice...
_Velho. Se os seus pais são assim – revirou os olhos –, imagina os meus...
_Ah, linda, as pessoas te surpreendem – tentei confortá-la – sei lá, cada um reage de um jeito. E você não precisa contar, é que eu sou da linha mais “sinceridade política”.
_”Política”?! – ela riu, se inclinando nua sobre o meu corpo para dar um trago rápido.

Eu segurei o filtro para ela, com a mão ainda seca.

_É. Eu acho covardia com quem vive fora do armário e leva porrada sozinho. Sei lá. Eu não tenho uma realidade ruim, manja? Eu posso me assumir. Mesmo que signifique discutir com a minha mãe, às vezes...
_Mas você acha que não vai melhorar? – ela cruzou as pernas na frente do corpo, abraçando os joelhos.
_Já está melhor. Do que os primeiros meses, pelo menos... Com o meu pai é que foi complicado. Mas eu nunca tive uma postura de ficar “me desculpando”, sabe, por ser quem eu era e ele me respeitava por isso. E também melhora muito depois que você sai de casa... Aí eles não têm muito mais o que dizer – ri.
_E você era muito nova?
_Ah. Saí assim que arranjei um emprego melhorzinho, foi logo depois que fiz dezoito. Por isso nem fiz a faculdade inteira...
_Achei que você tinha ficado mais tempo...
_Fiquei. Eu fiz até metade do quinto semestre, mas aí o lugar que eu trampava fechou e eu fiquei sem grana. Comecei num job que pagava bem menos. Foi quando o Fer e eu começamos a morar juntos e a gente veio pra cá. Eu tinha acabado de terminar com a Marina, foi um ano dos infernos esse...
_Cara! Eu ainda não consigo imaginar vocês juntas, mano... – a Mia riu.

De repente, fazendo certo barulho com a porta, o Du entrou. Tirou o fone, surpreso, do ouvido e olhou para nós duas ali, sem roupa no chuveiro – “desculpa, não tava trancada!”. A Mia achou graça, confortavelmente escondida atrás das próprias pernas. E eu traguei uma última vez, antes de apagar o cigarro no piso frio, do lado de fora box. “Tudo bem”. Não era como se eu já não andasse pelada pelo apartamento...

_Eu juro que não estou tentando pegar vocês duas trepando, juro. Mas vocês ficam aparecendo peladas na minha frente, mano! – argumentou, com certa indignação.
_Dessa vez, a gente só está conversando... – ri, com peitos e pubianos à mostra.
_Mas vocês vão demorar ainda?
_Sei lá...
_Cheguei agora do ensaio. E mano, tá muito calor na rua, sério...
_Ah, não, vá... a gente acabou de entrar! – a Mia contestou.
_Qual é, rapidinho, depois vocês entram de novo...
_Nem a pau – recusei –. Vai tomar um ar na geladeira, abre uma cerveja...
_É rapidinho, por favor...

Ele puxou a camiseta por cima da cabeça e começou a descalçar os tênis. “Du, NÃO!”, reforcei. A Mia espalhava gotinhas de água sobre a minha barriga, escorrendo-as das pontas de seus dedos. Antes que eu pudesse me contrapor, entretanto, ele já estava arrancando shorts e cueca ao mesmo tempo. Pulei na mesma hora, me sentando às pressas. “Mano! Que diabos você está fazendo?!”. “É dois segundos...”, ele riu, quase entrando no box. “Pára! Não!”, eu e a Mia contestamos às pressas, gritando. “TÁ MUITO QUENTE LÁ FORA! É S-É-R-I-O!”, ele se divertia. “NÃO! Sai! Sai! Eu não quero ver isso!”, briguei com ele, jogando água na sua direção. A Mia ria.

_Você está expulso dessa porra de apartamento! – ameacei.
_Deixa de ser bicha, eu já vou sair...

Ele se meteu debaixo do chuveiro, completamente nu, e os respingos todos vieram na nossa direção. Eu mereço. “Deus...” – essa não era a relação que eu queria ter com o meu colega de quarto.

_Pensando bem, não tem problema... – a Mia levantou, magnífica em pele e tatuagens – ...ele é gay.
_Sério que você não vê o problema?! – olhei para cima, na direção dos dois.
_É. Eu sou gay... – ele repetiu, rindo, e colocou um dos braços ao redor dela.
_”Gay” – me levantei, tirando a sua mão de cima da Mia; agora em pé junto aos dois – Porque noutro dia tava aí, todo “viva a bissexualidade”, comendo uma ruiva no quarto. Pode ficar longe, ô sua meia-bicha!
_VOCÊ É BI?! – o queixo da Mia caiu, agora constrangida.
_Calma. Em teoria, tá mais pra 98% bicha e só uns 2% bi...

Aham. E o expulsamos do chuveiro, não obstante.

setembro 19, 2013

Desvios sociais

_Mãe... – resmunguei por cima do ombro.
_Tudo bem. E-eu... – a Mia olhou para ela, um pouco constrangida – ...eu sou uma amiga, só estava... indo... no banheiro, a gente... foi num festival de jazz ontem e ficou, sabe... tarde... e eu acabei... – ela começou a se explicar e a falar demais, nervosa, eu ri – ...dormindo aqui, mas... eu já estou... indo. E, ah! Eu sou a Mia.
_Hum.

A minha mãe ficou observando-a imóvel da poltrona, com certa poker face, meio estranha, e eu quis matá-la por se comportar assim. Por favor, não faz isso comigo. Revirei os olhos, fuzilando-a em seguida com as pálpebras levemente apertadas – mas havia algo a mais. A Mia se virou para fugir para o banheiro, discretamente. E a minha mãe voltou o olhar imediatamente para o meu pai, que não acompanhava a ação toda, fora da área de visão até o corredor. Fui caminhando até a sala. Como se ele desse de ombros – mesmo sem eu conseguir vê-lo –, a minha mãe arqueou ainda mais as sobrancelhas e o encarou da poltrona. Ouvi a porta do banheiro se trancar ao fundo. Quando cheguei ao fim do corredor, notei um clima estranho.

_O que foi?! – questionei.
_Eu sei lá... – meu pai deu com as mãos para cima e riu – fala com a sua mãe, não entendi nada do que ela quis dizer com isso – fez um gesto engraçado, imitando sua expressão corporal.
_Mãe?
_Eu conheço ela, filha.
_A Mia?
_Sim, “a Mia”. Ela é namorada do Fer. Não é? – me encarou, em tom de bronca; e tecnicamente, elaera” – É a namorada do Fernando, bem – explicou em voz alta ao meu pai –, saindo do quarto da sua filha. Aquela era a namorada do Fernando.
_Mãe, não é assim. E eu sei o que você está tentando implicar, mas não é assim.
_Não?! Você quer me contar agora por que vocês brigaram? – soava irritada.
_Por favor, não começa com isso – respondi, séria.
_Eu não te criei assim – começou então, claro, o sermão –, não para fazer isso! Você pode achar que isso não importa, que não tem problema, que é uma vez só e sei lá, talvez você não veja mesmo como um problema, mas eu vejo. Não está certo. Não está nada certo. Você até pode ir lá, sabe, fazer as suas coisas, o que for... – ser sapatão? – mas não assim. Não desse jeito, você entendeu?! – me recriminava – Não com a namorada dos outros, do seu amigo. Seu amigo, filha!
_As “minhas coisas”, o que é isso?! Os meus relacionamentos, de repente, são uma “coisa” que eu “faço”?? – eu me irritava toda vez que a minha mãe vinha com meias palavras para falar da minha sexualidade – É assim??! E escuta, isso não tem nada a ver com vocês. Eu não pedi a sua opinião, isso não é da sua conta. Você está presumindo uma coisa e já está vindo para me atacar, me julgar, sem nem tentar entender.
_Entender? E depois vocês reclamam que ficam estereotipados. Eu não vou falar mais nada, mas você saiba que eu não concordo. Não concordo nada com isso.
_”Isso” não é tão simples... – revirei os olhos – você vai me escutar ou não?!
_Meu bem, vamos indo, vai... – meu pai pediu, nos apartando; começava a acalorar.
_”Não é tão simples”? O que poderia ter a mais de explicação, minha filha?! – discutíamos – Ele é seu amigo. Seu amigo! Eu vi o Fernando crescer dentro da nossa casa, você acha que tem mais alguma coisa para explicar? Como você vai e dorme – disse a palavra baixo – com ela? Faz a menina virar..., sabe?! O que que é isso agora?!
_Deus do céu – me irritei –, você pode pelo menos FINGIR que nós temos sentimentos?
_”Sentimentos”?
_É, mãe, sentimentos – eu me esforçava para impedir que a minha voz subisse e chegasse ao banheiro –. Lésbicas sentem, sabia? Amor, raiva, culpa, tudo isso que vocês sentem também. E eu não “dormi” com a Mia. Não é tão simples! – repeti.
_O quê? Você vai me dizer agora que vocês namoram? Você e a namorada, heterossexual, do seu amigo? – riu, sendo irônica.
_Não, mãe. Nós não namoramos, mas isso não q... – olhei para ela, suspirando – Não importa. Quer saber? Cara, você... Você consegue cogitar o fato de que, talvez, a felicidade da sua filha esteja atrelada a essa garota? E a felicidade dela a mim? Você consegue entender isso?! Hein, que pode ser um pouco mais complexo do que isso? Do eu dormindo, uma vez, com a “namorada heterossexual” do meu amigo? Que a gente também se apaixona, às vezes?!
_Eu sei que vocês se apaixonam, eu não quis implicar que... – hesitou – ...mas, mas só por isso não quer dizer que está certo! Que você pode agir assim, desse jeito.
_Não. E não está certo mesmo. Mas eu esperava um esforço um pouco maior, pelo menos da minha mãe – enfatizei –, para tentar entender o que a filha dela está passando. Sabe, antes de sair me atacando como se eu fosse a pior pessoa do planeta. Você não quer nem me ouvir!

A minha mãe revirou os olhos, como se ofendida.

_Ok. Nós vamos embora... – o meu pai interferiu, com a voz calma – ...e vocês logo esquecem isso, vão almoçar juntas amanhã, algo assim, tá bem? Chega. Não tem nada para discutir aqui, nós só viemos ver se estava tudo bem e está, então nós vamos embora.

O meu pai fazia a linha vamos ignorar o elefante rosa arco-íris no meio da sala.

As Marias do bairro

Entrei rapidamente de volta no quarto e a Mia estava sentada na ponta do colchão, como uma semi-boa moça e apreensiva. Toda vestida, o cabelo preso às pressas em uma trança. Larguei na escrivaninha os itens recolhidos – um dichavador, duas pontas e as roupas que estavam largadas pela sala – e ri, olhando para ela naquele estado de tensão. Relaxa, garota. “Eu vou me livrar deles em menos de cinco minutos”, eu disse, achando graça. E ela acenou com a cabeça, muda – como se falar àquela altura denunciasse a sua presença no apartamento. Revirei os olhos, rindo. E a campainha tocou.

“Vou lá”, saí, fechando a porta do quarto atrás de mim. E a Mia ficou do lado de dentro. Passei os olhos rapidamente pela sala e certifiquei-me de que nada incriminador restara por ali, então virei a maçaneta. A minha mãe estava sozinha – ué, mas cadê? –. Espichei o pescoço, colocando a cabeça para fora, e não o vi no corredor. “E onde t...?”, antes mesmo que eu terminasse a frase, ela foi entrando e já tirando uma bolsa de couro enorme dos ombros, despejando-a na mesa da sala.

_O seu pai esqueceu o celular no carro, pra variar. Ele já vai subir...
_E está tudo bem? – ela se sentou na poltrona e eu continuei em pé, detrás do sofá, cobrindo a passagem para o quarto corredor – Vocês tinham alguma coisa importante pra falar? – apoiei os antebraços no encosto do sofá, olhando-a.
_Não. Não é nada. Só...

Claro.

_...que eu encontrei com a Vilma ontem, no ponto lá perto da padaria, sabe? – e então eu entendi tudo aquilo – E ela, bem, acho que você sabe.
_Mãe, olha... deixa que eu resolvo as coisas com o Fer sozinha...
_Mas pelo o que ela me diss...
_A mãe do Fer me detesta, é lógico que ela disse...
_Você nem me deixou terminar. E ela não te detesta! – a minha mãe contra argumentou; porque as duas eram amigas, ela vivia esta ilusão – Ela só está preocupada, parece que o Fernando resolveu brigar agora, está agindo mau com ela e o Carlos, saindo pra beber.
_E você veio de Santo Amaro só pra me dizer que o Fer está bebendo? – eu ri.
_Não é isso. É que nos ficamos apreensivos. E ele não conversa, você sabe...
_Não. Não sei mesmo! – revirei os olhos, o assunto me enfadava – Vocês precisam deixar o Fer em paz. Faz cinco dias ou nem isso! Eu não entendo por que todo mundo está surtando e vindo pra cima da gente com fofoca, com “ele está assim” e “ela fez isso e aquilo mais”.
_Porque vocês nunca brigam, oras...
_Claro que brigamos! – eu ri, de novo – Eu e o Fer brigamos o tempo todo. Qual é a novidade?!
_Mas vocês são amigos há tantos anos, isso é diferente, filha. Você sabe que é. E a gente se preocupa, a gente quer que vocês fiquem bem.
_E eu não?!
_Mas vocês precisam tentar resolver... Ele é um menino tão bom, eu gosto do Fernando.
_Acredite, mãe, eu adoraria resolver – suspirei, achando graça nela dizendo “bom menino” para alguém como Fernando –. Mas não cabe a mim... Fui eu que errei. É ele que precisa me perdoar e não o contrário. Eu tentei falar com ele e só piorou as coisas...
_E é, o que aconteceu, afinal? – cada vez mais dava-me conta de que o Fernando não estava falando a respeito da Mia, com ninguém, fosse por raiva ou talvez vergonha do que eu fiz e isso me deixava ainda pior.
_Não importa. Não faz diferença agora...

Ouvi a porta da frente abrir e o meu pai entrou, com o celular na mão e umas sacolas de compras, provavelmente para deixar no apartamento. De bom grado. Sorri aliviada – a presença dele tirava o foco do assunto, enfim. “Ô pai, não precisava!”, agradeci, encontrando-o na porta para ajudar a carregar parte das coisas. “A sua mãe não queria comprar a cerveja”, ele piscou para ela, todo bonachão como era.  

_Ainda bem que eu tenho você, então – eu ri e ele empurrou a porta com o pé, batendo-a para fechar.

Assim que o barulho ecoou pelo apartamento, ouvi a do quarto abrir quase instantaneamente e vi os olhos da minha mãe se surpreender. Ainda sentada de frente para o corredor, na poltrona. Deixei as  sacolas sobre a mesa e me apressei uns passos adiante. “Isso é, eu não sabia que tinha gente aqui”, a minha mãe soou confusa, “olá”. Argh. Excelente. “Oi”, ouvi a Mia murmurar de longe, “b-boa tarde, eu...”. Alcancei-a, ela estava parada sem saber o que fazer em meio ao corredor. Como uma criança perdida e eu me senti responsável.

_Você disse que ia mandar eles emb... – ela sussurrou, quando me aproximei dela – ...eu ouvi a porta fechar, a-achei que...
_Foi o meu pai. Desculpa. Me desculpa.
_O-o que eu faço? – arregalou os olhos, aflita.
_Vai cumprimentar eles, linda, não sei...
_Não. Não! Eu não quero ficar na sala, lá com vocês.
_Então, sei lá... – eu ri, falando baixo – ...fala que está de saída, que ia tomar um banho, não sei.

A Mia acenou com a cabeça para mim e fiz um carinho rápido em seu braço.

_E você é...? – ouvi a minha mãe quase gritar do outro lado da sala, num jogo verde.

setembro 14, 2013

Borrões, uns sanduíches e uma ligação depois

O terceiro dia amanheceu, ela continuava ali. Comigo. Da madrugada de quinta para sexta e até aquele domingo. Numa série de dias surreais e desgastantes. A noite anterior havia sido permeada por uma extensa caminhada, do Ibirapuera até quase a Paulista. Todos os estabelecimentos estavam fechados no caminho e, nós, com uma larica descomunal. Rimos o tempo todo. Até encontrarmos uma Subway – 24 horas – nos arredores da 23 de Maio. E então nos entupimos. Chegamos no apartamento com as pernas absolutamente moídas e os estômagos estufados – e então fumamos mais, na sala, para aliviar o inchaço. Ótima ideia.

Eu li em algum lugar”, a Mia argumentava enquanto bolava um, naquela madrugada, “é verdade, meu, faz bem pra essas coisas”.

Nossas pálpebras agora pesavam toneladas. Claro. Eu tinha acordado minutos antes. E não conseguia evitar senão observá-la, assim em absoluta paz, apoiada num dos meus braços. Dormia. Estávamos completamente destruídas. E tudo o que eu conseguia acompanhar com os meus olhos – as costas da Mia estavam voltadas para mim, tinha o seu corpo contra o meu ventre – era o vagaroso e calmo movimento dos seus pulmões. O subir e descer da sua pele despida à minha frente.

Deslizava a ponta de um dos meus dedos pela sua nuca e pelo decorrer dos seus fios de cabelo, na base. Conforme ela respirava. Levemente, sobre os pelos no meu antebraço. Os sons de São Paulo infiltravam-se pela janela. Ah, morena – se eu achava que estava perdida antes, prepara que agora é que vem a porrada. O calor ensolarado da Frei espalhava-se pelo cômodo. Os lençóis amarrotados, rejeitados ao pé da cama. Esta é a primeira vez em tanto tempo, pensei, que estou feliz assim. Havia dramas pendentes, sim, mas isto. Isto era real. O meu sentimento por ela. E ela era real agora – também. Sorri.

Em silêncio, havia leveza e havia ainda peso naquele momento. Ali, ao seu lado. Queria ser suficiente. Numa ansiedade angustiante e deliciosa – de querer acelerar o tempo; de ser tudo, plenamente; protege-la da tempestade que estava por vir em sua casa, em sua vida; navegar aquelas águas. Era estranho. Os meus olhos a acompanhavam, o contorno, e a minha cabeça disparava. Deitada naquela cama, queria ser suficiente. Numa vontade de tê-la comigo. Havia algo novo – não só pesado e leve. Eu desejava genuinamente fazer-lhe bem, como poucas vezes vivenciara com uma pessoa.

Não – não que alguma vez tenha querido o mal para ninguém. Não quis. Para nenhuma das garotas com quem saí e nem mesmo a Dani, apesar das nossas brigas. Apesar de, inevitavelmente, o sermos – o mal – para outra pessoa, em algum momento de todo relacionamento. Não o quis, não deliberadamente. Mas, por outro lado, um sentimento assim tão forte na direção contrária também não me era comum. Acostumada com  protocooperação, com vezes de parasitismo. Consumia garotas não por elas, mas por mim. E em ocasiões me deixava consumir. Agora – agora era diferente. Era outra coisa. Simbiose. Sentia-me responsável por aquela garota. Pela Mia. De um jeito pleno e complicado. Completamente suscetível ao seu contentamento, ao seu coração.

Havia momentos assim – de lucidez. E eu me sentia estranha. Com medo do que estava por vir e, ao mesmo tempo, feliz. Tudo era, de repente, tão real. E está acontecendo, caralho. Pressionei os meus olhos, fechados, e foi quando o toque do meu celular cortou o silêncio. Me virei num impulso e estiquei para alcança-lo no bolso do meu jeans, largado no chão ao pé da cama, tentando evitar um escândalo maior. A Mia moveu-se, o barulho deve tê-la incomodado. Olhei para o visor e então para o horário, no relógio de cabeceira. Não eram nem onze.

_Oi? Alô, mãe?! – senti as mãos da Mia me envolverem na cintura, ainda em estado inconsciente.
_Minha filha – soava descontente –, o que acontece, hein?!?
_Hmm... – o meu raciocínio seguia lento – Eu... não entendi. Do-o que você tá falando?
_O seu porteiro não deixa a gente subir. DE NOVO. Toda vez é isso! É a mesma coisa. E você não atende o interf...

É. Porque vocês fazem isso! Aparecem do nada, revirei os olhos. Eu havia pedido especificamente, uns anos antes, para que não deixassem ninguém subir. Regra esta que era quebrada apenas pela Mia. E a Clara, ocasionalmente, no passado.

_Fala pr... ela... – ouvi, parcialmente, meu pai resmungar ao fundo – ...já d... avisado.
_E você acha que eu não falei?! – os dois começaram a discutir do outro lado da linha, me esquecendo por um instante – Quantas vezes você acha que eu já não m...
_Mãe. Mãe! – chamei, interrompendo-os – Mas onde vocês estão agora?! No prédio?!?
_É, minha filha. Onde você acha?!?

Merda. Tirei o telefone do ouvido, tapando a entrada de som com uma das mãos e acordando a Mia com a outra, às pressas. “Meus pais estão aí embaixo”, sussurrei. “O-o quê?!”, ela  tentava abrir os olhos e compreender o que estava acontecendo. “Meu pais. Eles vieram me visitar”,  tão logo expliquei ela arregalou os olhos, pulando imediatamente da cama. ”É sério isso?!?”, começou a procurar algo decente para vestir, em visível desespero e ainda meio sonolenta. “Caralho! Cadê a porra do meu shorts??”. Eu comecei a rir.

_Oi, mãe? – voltei à linha – Eu não posso encontrar vocês aí? Cês precisam subir?
_Como “precisam”?? Por que? A gente não pode subir, é isso agora?!?
_Não, não é “isso”. É só que... – a Mia me encarava com as roupas já pela metade, esperando uma confirmação se eles viriam ou não; e eu me divertia – ...eu n-não estava... esperando. E a casa tá uma bagunça, tem gente aí. Sei lá.
_Você sabe que não nos importamos com isso – jamais, só me olham como se a desorganização física de todo o ambiente refletisse o estado da minha sanidade mental –, só queremos conhecer o moço que veio morar aí, resolvemos dar uma passada. Nós queremos conversar algumas coisas com você, também.
_Mãe, o Du nem deve estar aí e e-eu realm... – me contive – ...nada, esquece. Vou interfonar aí e liberar vocês. Pera!

Desliguei o celular. Mas que porcaria, alguma coisa não tá certa. Tinha algo por trás daquilo e isso me deixou inquieta. Levantei e comecei também a me trocar, sem deixar a minha preocupação transparecer para a Mia.

_E então? Eles estão subindo?? Eu me escondo? Eu vou embora?? – a Mia me perguntou, aflita, vestindo uma das blusas que trouxe da casa dos pais – Hein? O que eu faço?!??
_Não, mano... Relaxa – eu ri – É de boa.
_Pra você! – ela riu comigo, completamente surtada – Eu não quero encontrar seus pais assim!! Tem ponta de baseado pela casa toda, a gente ainda não arrumou nada.
_Eles nem sabem quem você é, meu...
_E-e daí?! E se sua mãe lembrar de mim?? Ela já me viu uma vez aqui. E eu não q... – se olhou rapidamente no espelho – ...ah, puta merda! Eu tô um desastre, eles não podem me ver assim!
_Ei, ei. Relaxa, mano – segurei-a – Te garanto que meus pais já viram pior sair do meu quarto – brinquei –. E você está linda, não tem por que se preocupar, meu. É tranquilo. Eles não vão te encher de pergunta, não vai rolar nada. Isso não é nada oficial, eles só estão passando.
_Então é melhor eu ficar no quarto, não? Eu posso ficar no quarto?!
_Faz como quiser, Mia – eu ainda achava graça –. Eles provavelmente nem vão ficar... Mas eu preciso ir lá, preciso avisar lá embaixo. Já venho.

setembro 07, 2013

Avante!

Ela mantinha os braços cruzados, a poucos metros de mim. Muda. Os seus olhos me evitavam, de repente. Parecia constrangida e estava, entretanto, irritada o suficiente para resistir. Sem pronunciar uma palavra. Mas que inferno! Encarava agora, introvertida, o chão; via um de seus pés alisar o cimento, sem sair do lugar, a esmo. Fiquei observando-a – a minha respiração estava pesada; aquela discussão me agitara. As pessoas passavam ao longe. Distantes de onde estávamos na ponte.

_Que seja. Escuta, eu vou cair fora... – eu me enchi – Toma todo o espaço que cê precisa para, sei lá, lidar com essa merda. O tempo que for. Não quero me impor, a vida é sua e é você quem sabe o quanto isso te afeta...

Dei de ombros. Argh. O silêncio dela me incomodava como um repetitivo disco riscado – dos meus favoritos, que não consigo passar uma droga de dia sem ouvir, infelizmente. Revirei os olhos, cansada. Mas tão logo virei as costas para ela, a Mia me contestou – “Não”. Soando arrependida. “Não vai”.  

_D-desculpa... – murmurou – ...eu não quero brigar com você, eu só, não sei. Eu só não esperava por isso hoje.
_E você acha que eu planejei? – resmunguei – Porra!
_Se acalma...
_CARA, POR QUE? POR QUE A GENTE ESTÁ TRETANDO??! – ri, nervosa – É só o que eu quero, uns dias em paz. Mas parece que isso não é possível na minha vida... Você acha que eu não sei que é uma merda? E eu realmente sinto muito que você tenha descoberto assim. Mas eu tô exausta e vocês acabaram de terminar e eu sequer sei o que é isso, o que nós duas somos! Você já voltou para ele uma vez. E eu não quero que aconteça de novo. N-não consigo lidar com isso, não agora.
_“Isso”?
_Você. O Fer, porra. Porque – me aproximei dela –, porque ontem e hoje foi sensacional, garota. E você pode ter certeza que eu vou estar lá para você, a partir agora – assegurei –, para tudo. Só não me pede para te consolar por ele... – isso não, lamentei.
_Desculpa – a Mia me olhou de volta, compreensiva –. Eu não quis te acusar e acho que não percebi a posição em... q-que te coloquei.
_Não, tudo bem, sabe. Só... me diz se você precisar de espaço ou sei lá. Que eu te dou. E se quiser ficar no apê ainda, também, eu posso dormir na sala ou no quarto do Du... sei lá... – brinquei exagerada.

A Mia achou graça. E o clima mudou.

_Ei, espera. Isso foi um sorriso? – eu sorri, em reação.
_Não. E eu não terminei o meu namoro para ficar longe de você – riu –. Agora, ok, vamos comer alguma coisa, por favor?! Você está tentando me matar de inanição.

Ri, aliviada, junto a ela – “vamos, vem!”. Saímos do parque no contra fluxo das pessoas que chegavam para o festival. E esquecemos de avisar o meninos que íamos. Compramos qualquer coisa numa barraquinha dessas em frente ao Ibirapuera, só para “enganar” o estômago. Não comêramos o dia todo. Decidimos pegar o ônibus mais adiante e jantar na Paulista, seguimos a pé na direção oposta ao trânsito, tentando fugir do congestionamento. A Mia não dizia nada. Desta vez, porém, o seu silêncio não me incomodava. Eu gostava. De caminhar ao lado dela, assim, em meio às luzes de São Paulo.

“Olha! Olha!”, apontei às pressas, ao passarmos pelo Monumento às Bandeiras. Alguém tinha subido na cabeça de um dos cavalos de pedra – que se erguem a uns dez ou quinze metros do chão. A Mia sorriu – “Como ele chegou ali?”. “Não sei”, ri. Outras três ou quatro pessoas também circulavam pela base, mais abaixo, passando em frente aos feixes de luz no escuro. “Eu nunca subi, acredita?”, ela comentou e eu mal acreditei, de fato. O quê?! Escalar o Monumento às Bandeiras era como pré-requisito aos paulistanos, uma espécie de tradição contracultural.

_Você está brincando, né?! – olhei para ela, indignada – Você nunca subiu?! Nunca? Nem na base? – ri – Nossa, eu e... – o Fer – ...o-os meus amigos praticamente não descíamos dessa porra quando a gente era adolescente. Eu já fumei tanta, tanta maconha aí.
_Bom. Você tem alguma agora? – a Mia me encarou, caminhando para trás na direção da estátua, como num convite.

E eu sorri. Não me faça propostas que não sei recusar. Fomos até o centro do balão onde fica o Monumento e só a base era duas vezes o tamanho da Mia. Ela foi na frente. E eu um pouco atrás, a observava quase sem intenção – a forma como o seu corpo se movia, as suas pernas e parte das suas tatuagens magníficas, na pele. Era como assistir pornografia em pleno Monumento às Bandeiras. De certa forma descarada. Subi também. E logo a alcancei no topo da base. Decidimos então ir até o barco, onde ela ralaria o joelho mais tarde ao descer naquele shorts jeans.

_Você sabe que vamos ficar famintas depois disso, né? – comentei, tirando um baseado do bolso, que não fumara inteiro naquela tarde e ri.

A Mia achou graça. Passei ele para ela e ela acendeu com um isqueiro meu. As nossas pernas pendiam sobre a pedra, no topo do barco. Assisti conforme ela soprava aquela fumaça branca e massiva no breu. Os meus olhos a admiravam. E ela sorriu ao notar, rindo em seguida – estava maravilhosa ali, a noite nos envolvia em uma brisa morna. Ela me devolveu, aceso. Traguei e tirei o celular do bolso da frente do meu shorts, simultaneamente. Puxei mais uma vez, desta vez em lentidão. E segurei aquilo nos pulmões. Abri então a tão abandonada câmera do meu telefone.  E soltei a fumaça.

_O que você está fazendo? – a Mia disse, subitamente constrangida.
_Não se move. Está bonita assim. Eu quero tirar uma foto sua aí...
_E vai sair alguma coisa nessa lata velha?! – ela zombou do meu aparelho, que parecia mesmo ter saído de uma loja em 1999 – Vamos tirar uma com o meu, vem. Vai ficar melhor!
_Não. Nem pensar. Eu nunca pude ter uma foto sua no meu celular, mano – ri –, me deixa!
_Tá. E eu estou bem assim? – riu.
_Não. Aqui – entreguei o baseado de volta para ela, queria fotografá-la em meio à fumaça; ela tragou, ainda achando graça, e eu logo me frustrei – Merda. Esse celular é uma porcaria mesmo!

Ela começou a rir. A foto tinha ficado um borrão.

setembro 06, 2013

Only happy when it rains

“I'm only happy when it's complicated” - Garbage


Arregalei os olhos para aquele comentário, puta da vida.

_Quê? Cedo demais pra brincar? – sorriu amarelo, percebendo imediatamente a mancada, apenas dois dias após o término deles.
_É. Um pouco, Guilherme...
_Não, meu. Tudo bem... – a Mia riu, me acalmando.
_Tá vendo?! – revirou os olhos – De boa. E cá entre nós, convenhamos, você tá melhor agora, né, meu bem?! Não vale a pena sofrer por essas coisas. Você traiu, ele traiu, estão todos quites. Agora é cada um pro seu lado! E bola pra frente...
_E-ele O QUÊ?!?? – ela parou de sorrir, imediatamente – Repete.

Ah, não... PUTA MERDA.

_”Ele” nada. Esse idiota tá trocando as coisas, meu – tentei consertar às pressas –, não teve nada!
_É. E-eu... – o Gui me encarou, implorando por socorro no olhar, completamente sem reação, e a Mia o ignorou, furiosa.
_VOCÊ SABIA DISSO?!
_Mano, me escuta: NÃO TEM “isso”. Ele não sabe DO QUE está falando! – argumentei com ela e fuzilei aquele babaca boca-mole com os olhos, filho de uma égua.
_E-eu não, e-eu realmente n-não, não sabia. Eu só a-achei que, s-sei lá, pressupus que vocês d-dois... m-manja?

Comecei a ficar aflita, argh. Cacete. Mente direito, porra! A última coisa que eu queria agora era expor o Fernando, depois de tudo terminado. E trair ainda mais a sua confiança. Mas que caralho! Pior ainda – dar margem para a Mia sentir ciúmes, logo agora, com dois anos de atraso.

_Mia...
_Não mente pra mim... – ela ameaçou, surpreendida.
_Não estou mentindo, linda. O Gui, ele n...
_Não! Olha na MINHA CARA e me diz que você NÃO SABE de traição nenhuma do Fernando. ME DIZ que você não escondeu ISSO de mim... – ela me encarou, apontando irritada na minha direção – Eu quero ouvir da SUA boca! Vai, fala!
_Mia, e-eu... – respirei fundo, sem saber que diabos fazer com aquela situação – ...olha, eu, eu REALMENTE não acho que sou eu que tenho que te dizer se ele te traiu ou não. O relacionamento era de vocês, cara. E...
_NÃO ME fala o que eu tenho ou não direito de saber sobre o MEU relacionamento!! – ela brigou de volta, me interrompendo; todo mundo olhava para nós – “Ex”-relacionamento, que seja... – ela mesma se corrigiu, revirando os olhos – VOCÊ DEVERIA TER ME CONTADO!
_Mano, mas eu não sei de porra nenhuma! Eu nem sei SE rolou ou O QUE rolou, caralho. Só me escuta? Mia, se aconteceu alguma coisa, sério, faz muito, muito tempo – me afligia –. O Fernando não te traía por aí, cara, não mesmo. Porra, eu já vi ele recusando mulher na minha frente, NA MINHA FRENTE! Ele não era assim. E-e, e afinal, e-eu... eu não tenho NADA A VER com isso, meu!
_TEM! TEM, SIM!! PORQUE É O SEU AMIGO QUE ESTÁ VINDO SOLTAR ESSA PALHAÇADA NA MINHA DIREÇÃO. COMO ELE SABE, ENTÃO?! ME EXPLICA?!?!!
_Meninas, vamos nos acalm... – o Du arriscou uma intervenção.
_MANO, E QUE IMPORTA AGORA?? HEIN?? – o interrompi, perdendo a calma com ela – FODA-SE! Foda-se quem ele comeu ANOS ATRÁS, PORRA!! ISSO FAZ UMA ETERNIDADE!
_”Quem e-ele c...” – a Mia dava-se conta de que era mesmo verdade; que merda – ...ahh, filho da puta, a-aquele CACHORRO DESGRAÇADO. EU VOU MATAR O FERNANDO!!! MATAR!!
_Mia, cacete... volta aqui?

Pedi, vendo-a caminhar para fora da multidão. Pior timing da história. Que inferno. Me detestei por tê-la arrastado para aquele, argh, aquele festival merda – ah, se arrependimento matasse. Olhei então para o Gui, na rodinha atônita, e o meu sangue ferveu de raiva. “Olha, eu acho bom você começar a preparar uma porra de uma desculpa e AGORA!”, o ameacei, antes de sair dali. Babaca. Joguei o cigarro no chão.

E fui atrás dela.

Não. Tudo o que não pode acontecer agora é ela ligar para o Fernando. Temia que o drama deles fosse retomado, e logo assim, maldição. Não pode ser. A alcancei mais adiante no gramado. Ela seguia na direção da ponte, lá pelas proximidades do MAM, me ignorando e numa tentativa de se afastar do fluxo de pessoas.  “Mia...”, chamei. Ela apertou o passo. Mas que porra. Por que eu não posso ter uma droga de relacionamento normal?? Uma vez na vida?!??, revirei os olhos, me estressando comigo mesma.

As últimas semanas – a viagem e a briga com a Clara, a manhã seguinte à festa do meu aniversário, o ultimato todo, a discussão com o Fer e agora isso – tinham esgotado toda a cota de drama da minha vida. E “tranquilidade” não é uma opção, aparentemente. Questionava todas as minhas decisões que me levaram até o olho do furacão. Observei e a Mia estava a passos da ponte já. Céus.

_Meu, Mia! – alcancei e a impedi, segurando-a pela mão – Por que você vai escutar o Gui? – implorei – Ele, ele é um imbecil que acha que todo mundo está comendo todo mundo. E não é verd...
_Pára! Ah! Pára! Pára! – ela apertou os olhos, balançando a cabeça – Eu não consigo ouvir isso! Não consigo!! Você é tão ruim quanto ele!
_Sou ”tão ruim” quanto QUEM?!
_O GUI! – ela passou a mão no cabelo, irritada, colocando a franja para trás, tirando-a do rosto – O Gui! O Fer! Eu! Todo mundo. TODO MUNDO SÓ MENTE! E-eu... eu não acredito que aquele canalha me traiu. E escondeu de mim assim, VOCÊ escondeu de mim. Ah! Eu quero tanto, TANTO ir até lá e falar umas na cara dele!! Hipócrita! FILHO DA PUTA! COMO ELE PÔDE??? DORMIR COM OUTRA GAROTA ENQUANTO ESTAVA COMIGO?? ESCROTO DE MERDA!!
_E O QUE IMPORTA?? AGORA??!? – parecíamos duas loucas gritando em pleno Ibirapuera, meio fora de proporções – VOCÊ AMA ELE?? QUER VOLTAR PRO FER?!?? – a minha insegurança implicou – ESSA INFORMAÇÃO NÃO MUDA NADA. NADA!! VOCÊ TERMINOU COM ELE, DEUS, VOCÊ TRAIU ELE COMIGO! E... PORRA! FOI UMA VEZ. JÁ FAZ DOIS ANOS, MIA!
_IMPORTA! IMPORTA, SIM!! PORQUE EU NA-MO-REI COM ELE! EU ACREDITEI NELE. E EU CONTINUO AMANDO O FER, EU SEMPRE VOU AMAR. NÃO SE APAGA AS PESSOAS ASSIM!! – berrou e, no fundo, eu sabia que ela tinha razão, mas ouvi-la dizer me perturbava – E-E POR QUE VOCÊ TÁ... DEFENDENDO ELE??! A-ALIÁS, POR QUE DIABOS VOCÊ NÃO ME CONTOU ISSO?? EU ME SENTI MAL, CACETE, EU ME SENTI CULPADA! ESSE TEMPO TODO!!! VOCÊ ENTENDE ISSO??? VOCÊ PODERIA TER RESOLVIDO ESSA MERDA DOIS ANOS ATRÁS!!
_NÃO! ISSO ERA ASSUNTO DE VOCÊS! EU NÃO IA TRAIR MAIS AINDA O FER, CARALHO, ELE É MEU AMIGO! O QUE ELE FEZ DE TÃO PIOR??! HEIN??? PRA EU ME ACHAR NO DIREITO DE CONTAR, DE ME INTROMETER?? INFERNO!! – não podia acreditar que estávamos tendo aquela discussão, em pé em meio ao parque VOCÊ REALMENTE ACHA QUE EU CONSEGUIRIA FICAR COM VOCÊ ÀS CUSTAS DELE?? VOCÊ ACHA QUE ISSO IA SER CERTO???

Passei as mãos, nervosa, no rosto. Maldição! E me virei, dando dois passos para trás. Isso é absurdo. O meu coração estava acelerado, eu me sentia irracional. E apaixonada.

_E EU – me voltei para ela, mais uma vez –, EU NÃO ESTOU DEFENDENDO ELE, EU ESTOU DEFENDENDO NÓS DUAS, PORRA.