- »

novembro 27, 2013

O meu tipo de garota

Estava surpresa. Podia sentir, na sua voz, que não sabia de nada daquilo.

_Oi. A s-sua mãe me ligou agora e...

Eu ia começar a explicar, mas ela logo me interrompeu, soando irritada:

_VOCÊ TÁ BRINCANDO, NÉ?? E, E PRA DIZER O QUÊ?! – se estressou, com ela e não comigo – COMO ELA TEM O SEU NÚMERO???
_Não sei. Ela não falou, Mia. Acabei de sair do telefone...
_ELA SÓ PODE ESTAR TIRANDO COM A MINHA CARA!! SÓ PODE!! FILHA DA MÃE!! VOCÊ DEVIA TER DESLIGADO! EU SABIA QUE ELA IA DAR UMA DESSAS, SABIA... ONTEM ELA FICOU ME ENCHENDO O SACO. EU NÃO ACREDITO NISSO!! O ASSUNTO DELA É COMIGO!! QUE, QUE ELA TEM PRA FALAR COM VOCÊ???
_É. Pode ter sido por causa da briga, mas... não sei, viu. Porque ela deve ter mexido nas suas coisas também, no seu celular. Ela disse que leu as nossas mensagens...
_Q-QUE MENSAGENS???? COMO ASSIM?? ELA DISSE ALGUMA COISA??? – a sua voz mudou na mesma hora, revelando certa preocupação – VOCÊ, VOCÊ ACHA Q-QUE ELA SABE???
_Não sei, meu. Devem ter sido as de ontem ou... não sei, eu realmente não sei. E-ela disse um monte de coisa, eu quase não falei praticamente, foi tudo meio rápido. Mas – hesitei – ela sabe, Mia. Não falou desse jeito, com todas as letras, mas tenho certeza que sabe. Me desculpa, linda...

Ficou em silêncio. Droga. Por algum tempo, não reagiu.

_Mia?
_E e-ela... – retomou, com a voz mais baixa – ...ela disse o quê?
_Ah, um monte de coisa. Eu nã...
_Digo. P-por que vocês discutiram? – me cortou.
_N-nós – suspirei –, olha, eu não tive a... a intenção de responder, de dizer nada. Juro! E-ela já sabia, antes mesmo de ligar! E aí começou a me acusar, me ameaçar; disse que sabia que o tipo de pessoa que eu era, ficou falando como se eu tivesse enfiado coisa na sua cabeça. Mandou eu me afastar.
_ELA FEZ O QUÊ?? Se “afastar” de quem? – tornou a soar brava – DE MIM?? ELA TÁ LOUCA?!? E COMO ASSIM ELA TE AMEAÇOU???
_É, mas não foi assim. Não foi nada concreto, e-ela só...
_E COM QUE ARGUMENTO?? EU NÃO ACREDITO NISSO!!! – me interrompeu de novo – EU VOU MATAR ELA!! MATAR!!! – ela gritava, perdendo a cabeça – COM QUE DIREITO ELA FAZ ISSO???
_N-não. Não foi assim, linda, ela não disse nada demais; não foi c... ela só... – eu me confundia nas palavras, por que eu estou protegendo a mãe dela? – ...ela disse que “não acha” que devemos continuar juntas. E eu tentei mentir, tentei dizer que ela tinha ficado com a ideia errada. Ou mesmo do nosso relacionamento, tipo, ela não SABE realmente como é! E eu tentei argumentar isso, mas ela não quis me ouvir. Ficava repetindo que não queria você envolvida comigo ou com esse “tipo de gente”, que me conhecia, que não concordava; que isso afetava a família de vocês, a sua imagem, sei lá. Falou que não ia “permitir” que a gen...
_PERMITIR? “PERMITIR”????? – repetiu – E ELA PENSA QUE É QUEM?????
_É. Na real, foi aí que a conversa pegou mais...
_Você mandou ela à merda, né?! DIZ QUE MANDOU ELA À MERDA! EU NÃO ACREDITO QUE ELA TE LIGOU, QUE ELA MEXEU NAS MINHAS COISAS!! – a Mia surtava do outro lado da linha – DIZ!!
_Não. E-eu só falei que... – estranhava a sua reação, sem esperar toda aquela disposição de enfrentar a mãe – ...que eu n-não concordava – argumentei, agora rindo –. Tipo, né! Como ela pode ler as suas mensagens assim, sabe? Querer decidir a sua vida?? Você é adulta, caralho! E eu disse isso, falei que você era capaz de tomar as suas próprias decisões. Que não achava certo, que ela tava errada... porra, COMO ELA SEQUER FALA COM VOCÊ?!
_É!!!!!
_E enfim, daí nós começamos a discutir; ela começou a me ofender, me chamou de “sapatão”; eu perdi a calma também. Sei lá, não terminou bem... – apoiei as minhas costas na parede, com o telefone no ouvido e agora mais tranqüila – Mas eu não queria ter discutido, linda, não queria mesmo! E eu fiquei me martirizando depois que desliguei, eu tô me odiando até agora. Por mais que eu não concordasse, por mais que você também ache que ela está errada; essa é uma conversa entre vocês, saca? E me arrependi mesmo, desculpa... Devia ter me contido mais, sei lá. Mas... é que... Eu não sabia o que fazer! Não queria ir e começar uma guerra, também...
_NÃO!! NOSSA, NÃO! VOCÊ NÃO OUÇA UMA PALAVRA DO QUE ESSA LOUCA ESTÁ DIZENDO!! EU NÃO ACREDITO NISSO!!!! NÃO ACREDITO QUE ELA TE AMEAÇOU, QUE ELA TE LIGOU!!!! – ela repetia, gritando – MANO, ELA VAI OUVIR TANTO, TANTO QUANDO EU CHEGAR EM CASA! FILHA DA PUTA!! ELA QUE ME AGUARDE!!
_Mia, eu não quero que você brigue com a sua mãe por minha causa...
_NÃO. NÃO!! ELA TEM QUE OUVIR, SIM!! QUEM ELA PENSA QUE É?? ESSA É A MINHA VIDA!!! MINHA!! ELA NÃO TEM QUE ABRIR A PORRA DA BOCA DELA!! N-NÃO TEM QUE, QUE TE... LIGAR!! – ela não se conformava – O QUE É ISSO??? NÃO!! ELA VAI ME ESCUTAR, SIM!!
_Mia, por favor... – pedi, achando certa graça na revolta toda dela.
_DEIXA COMIGO! Ela não vai mais te ligar, NÃO. Nunca mais!! Nossa, SE ELA LIGAR... – ofegava, do outro da lado da linha – ...EU MANDO ELA À MERDA! MANDO!! E FAÇO PIOR AINDA. NOSSA! EU APAREÇO COM VOCÊ NA PORRA DO NATAL DA FAMÍLIA!! E AÍ EU QUERO VER...
_Ah, ótimo, isso ia fazer ela gostar de mim mesmo... – eu ria.
_NÃO TÔ NEM AÍ!! EU NÃO ACREDITO QUE ELA MEXEU NAS MINHAS COISAS! INTROMETIDA DO CARALHO!! QUEM É ELA PRA TE AMEAÇAR?? PRA FALAR COM QUEM EU SAIO OU NÃO?! ELA NÃO SABE DE NADA!! NADA!!!
_A-acho que ela só não sabe como lidar. Tem que dar um tempo, tentar conversar... – sorri, tentando mantê-la positiva – ...ela vai aceitar, linda; eventualmente. Não acho que vá me ligar de novo... Ou enfim, ir adiante com tudo o que falou.
_ELA QUE SE DANE! EU QUERO TE VER.
_O quê?! – estranhei a declaração.
_EU QUERO TE VER! AGORA. HOJE. QUEM ELA PENSA QUE É?? EU VOU TE VER! – exclamou – Você pode vir para cá no almoço?
_Como assim?  ri ”Pra cá”, onde? No Mackenzie?!
_É. Na saída da minha aula. Eu tenho uma hora até a reunião com o orientador...
_Posso, mas você não acha q...
_ENTÃO, PRONTO. ESQUECE A MINHA MÃE! Te vejo meio-dia.

Como lidar?

Sentei em frente à minha mesa, ainda sem reação. E liguei o computador. Puta merda. O meu coração estava acelerado. Não. Não era como se receasse quaisquer ameaças que a mãe da Mia pudesse me fazer – eu enfrentei o namoro dela com o meu melhor amigo, porra, o que poderia ser pior do que isso? Não havia muito mais além. E eu nunca fora lá a namorada favorita entre os meus sogros e sogras, no passado. A irmã da Marina me odiava. Sempre lidei com o fato de que não era bem-vinda – e isso não me incomodava. Todavia, sabia que a Mia ainda não se assumira para a família. E que aquela discussão conversa não havia deixado muita margem para interpretação sobre nosso relacionamento.

Era isso que me preocupava. Isso, sim. Os meus pensamentos ficavam voltando à Nana, à minha primeira namorada e ao que diabos eu faria se fosse comigo. Na época em que ainda não tinha saído do armário. Se ela tivesse falado para os meus pais o que eu falei para a mãe da Mia, naquelas exatas e incertas palavras. Com a mesma atitude. E o que é pior, antes deles saberem pela minha boca. Droga! É. Podia ver a Mia surtando, me odiando secretamente assim como eu possivelmente faria em seu lugar. E não. Não achava que tinha sido minha culpa – eu fui atacada, não estava esperando aquela ligação, caralho. O que mais eu poderia fazer? –; mas... Por que? Por que não fiquei quieta, mano? Precisava aprender a controlar minha boca. Meu temperamento.

No fundo, sentia que não era com a mãe da Mia que eu devia tomar as dores de toda a minha lesbiandade; a frente da discussão. Haveria tempo para isso – e mais do que tempo, cabia à Mia definir a melhor estratégia. Não a mim e à minha incapacidade de respirar antes de sair vomitando regra. Me sentia estranha. Há tempos eu já não era ofendida por ser quem era. E isso me chocou um pouco. Não que não soubesse que “anomalia” e outras pressuposições do gênero fizessem parte do imaginário popular, mas não faziam mais parte da minha realidade. Eu só era lésbica e pronto. Era lésbica e todo mundo sabia, oras, os outros que lidassem com isso. Deixara de ser meu problema há anos! Então não usava meias palavras, não abaixava a cabeça – e nem sabia se era certo que o fizesse para a mãe da Mia. Mas se tivesse tido algum tempo para pensar, provavelmente, não teria rebatido da forma como fiz.

Que inferno! E por outro lado, puta merda: me matava ouvi-la tomar conta da vida da filha assim. Mas que porra? Essa é a garota que eu amo, caralho! Não é assim. Não conseguia ver a Mia ter a sua privacidade invadida, a sua liberdade menosprezada, como se nada fosse; isso, sim, me tirava do sério. A mãe dela é uma mulher adulta, devia saber melhor. Qual é a dos pais e esse comportamento adolescente bizarro? Sentia que se não tivesse defendido a Mia, teria compactuado com aquela merda. Mas não tinha certeza se ela enxergaria a minha reação dessa forma. Ou se se esconderia, com medo de como isso poderia repercutir entre a sua família. Ah – ela vai querer me matar, pensei. Ou se matar.

Eu não sabia o que fazer. Levantei, deixando o computador iniciar sozinho, e me dirigi a uma das salas que ficavam vazias na produtora – havia um pequeno estúdio no fundo, com uns equipamentos armazenados e um Chroma key. Peguei o celular nas mãos. E assim que o primeiro toque ressoou, a ligação foi encerrada. Cacete. A minha cabeça imediatamente disparou, em paranoia: ela sabe. Mas poucos segundos depois, recebi uma mensagem da Mia – “to na aula, ñ posso atender!”. Suspirei aliviada. E devolvi, com calma: “Precisava falar com vc...”. Ela logo me respondeu, como se ainda estivesse com o celular em mãos – “é urgente?”. “É. Assim, acho q vc vai qrer atender... rs”. “Oq aconteceu??”. Hesitei, olhando para a tela. Conto agora? E digitei de volta, numa decisão de ser sincera logo de cara: “Acabei de discutir com a sua mãe no telefone...”. Não demorou nem um minuto para o meu telefone começar a tocar.

_DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO??

Foram as primeiras palavras dela.

novembro 23, 2013

Aquém

Fodeu. A recepcionista me olhava como se esperasse a minha entrada, ali parada com o telefone no ouvido. Os meus lábios congelaram, completamente sem reação. Estava em pé na porta da produtora. Merda. Mil vezes merda. A minha cabeça começou a disparar, aflita – como ela conseguiu o meu telefone? Elas brigaram? Como sabe quem sou? E tão logo a minha falta de reação fez com que a mãe da Mia adiantasse, do outro lado da linha. A sua voz ressoava com firmeza – e com uma contenção, uma educação, quase agressivas:

_Eu sei que a minha ligação pode não ser esperada. Ou talvez seja – disse, séria –. De qualquer maneira, eu gostaria de conversar com você. Você pode falar?
_P-posso.

A minha mão começou a tremer, num súbito nervoso que me subia pelo estômago. E antes que eu pudesse compreender a dimensão daquele momento, a realidade daquele telefonema, ela prosseguiu:

_É o seguinte. Eu vou ser bem direta – disparou –, eu não sei que tipo de relacionamento você tem com a minha filha. E não acho que seja da minha conta. Mas a Mia parece estar levando a vida dela numa direção com a qual eu não concordo. E a qual, tenho certeza, ela não compreende integralmente.
_Desculpa; mas eu não sei se – menti – entendo perfeitamente do que você está falando. A Mia nã...
_Você entende, sim – me interrompeu –. Entende. E precisa entender também que as decisões que ela assume têm um impacto direto na vida e na integridade dela. E na nossa, como família. Você, o seu modo de vida; isso pode não ser um problema para você. Nem para os seus pais. Mas para mim é. E eu não vou permitir que alguém chegue e envolva a minha filha numa anomalia dessa como se não houvesse consequência.
_Olha, sinceramente a m-minha intenção nunca foi... – murmurei, ainda atordoada, sem saber como lidar.
_Não me importa – cortou –. Escuta, eu tenho certeza de que você é uma boa garota; ainda que eu não aprove a sua opção, eu entendo que você tem sido boa amiga para Mia, principalmente agora com o término. Eu tenho consciência disso. No entanto, a sua presença também interfere na vida dela e interfere de uma forma que eu não considero nem um pouco positiva – espera aí, quem é você para julgar? –. Se você acha que eu posso permitir is...
_Tudo bem. Mas n...
_NÃO COM a minha filha. Não com a minha filha – repetiu –, você entendeu?
_Sim. E desculpa, mas eu não sei de onde está partindo isso – me irritei com a grosseria dela –. Você sequer falou com ela?! Com a Mia? Porque não é como s...
_Eu sei o bastante – seguiu me cortando, ríspida –, você pode ter certeza. Pelas mensagens que vocês trocam, pela maneira como ela reage ao assunto. Eu seie você acha que pode se intrometer assim? Invadindo a privacidade dela?? –. Seja qual for o sentimento que ela acredita ter por você, eu te garanto que não é sincero. Dou menos de um mês para passar. Você e eu sabemos o quanto ela ama o Fernando – ah, é mesmo?  –, como sempre amou e continua amando – nossa, não, cala a boca –. Eu espero sinceramente que tudo isso não passe de um mau entendido. Entre os dois e com você, senão nós vamos ter um problema...
_Um “problema?
_Sim, um problema – levantou a voz para mim –. Porque eu posso não te conhecer, mas eu sei O QUE você faz e a Mia não tem parte nisso. É esse tipo de p...
_Não. Quer saber?! Você não conhece. Não me conhece mesmo – me ofendi –. É exatamente isso: a senhora não me conhece NEM UM POUCO; zero, NADA! – retruquei por impulso –. E olha, com todo respeito, a sua filha tem 23 anos. Ela é perfeitamente capaz de tomar as próprias decisões – argumentei – Se isso é um erro ou não, se é passageiro, só diz respeito a ELA! É a vida dela.
_VOCÊ ESTÁ RESPONDENDO PARA MIM?! – ela se alterou.
_Minha senhora, é VOCÊ quem está me ligando e ME acusando de todo tipo de coisa, como se a sua filha fosse incapaz de responder por si mesma ou pelos seus atos. Eu posso te GARANTIR que você não sabe NADA sobre o relacionamento da Mia comigo e que sabe menos ainda sobre o que se passa na cabeça dela ou com o Fernando. Se você acha que pode me ligar assim e...
_Você escuta aqui, eu estou falando muito sério – engrossou a voz –, VOCÊ NÃO VAI MAIS FALAR com a minha filha. Eu não quero te ver NEM PERTO da Mia, VOCÊ ENTENDEU?
_Na boa? Eu realmente acho que isso É ESCOLHA DELA e não sua.
_Não. NÃO É! Isso é escolha SUA!! É VOCÊ quem vai terminar o que quer que seja que você começou, você está me entendendo? Ou vão ter consequências.
_Espera. Vo-você ESTÁ ME AMEAÇANDO? – me segurei para não rir – O que é isso?? É o SÉCULO 15 agora?? NÓS ESTAMOS FALANDO DE UMA ADULTA! – subi o tom, indignada – A Mia não é uma criança! Nenhuma de nós é! Como você pode ligar para uma pessoa e presumir que sabe alguma coisa sobre ela? Fazer todo tipo de acusação, de ameaça?? VOCÊ NÃO ME CONHECE, não sabe quem eu sou!!
_Pois eu estou tendo uma ideia MUITO CLARA agora. E eu TE GARANTO que VOCÊ não é o tipo de gente que eu quero minha filha envolvida.
_COMO ASSIM? “TIPO DE GENTE”, C-COMO ASSIM?? QUEM VOCÊ PENSA Q... – me controlei para não mandá-la à merda e respirei fundo, segurando a minha voz já exaltada; essa é a mãe da Mia, porra, presta atenção no que você fala, caralho, me convenci antes de continuar – Olha...  Vamos nos acalmar, isso está indo para o lado errado. Eu não tenho a intenção de causar qualquer dano à Mia ou à sua família e eu tenho certeza que podemos conversar e resolver isso de outra forma. Isso é ridículo! A Mia não tem treze anos! Ela sabe o que está fazendo. Nós todas somos adultas aqui, meu, ela devia ter a oportunidade de participar dessa conversa. Sei lá, de se defender...
_Você NÃO ME DIGA o que fazer! EU NÃO QUERO A MINHA FILHA ENVOLVIDA COM SAPATÃO, COM GENTE COMO VOCÊ! – retrucou aos berros, intolerante.
_Vamos com calma, POR FAVOR! – pedi mais uma vez, tentando manter a tranquilidade –. Vamos só colocar as coisas sob perspectiva. Sabe, eu realmente sinto que você está interpretando isso da forma errada...
_Olha, se você acha – ela insistiu, em tom de ameaça – que pode agir assim, não só comigo, mas com a minha filha, e sair impune; você está muito enganada...
_Mas eu nã... Isso nã... n-não É ASSIM! Nós não q... – a ignorância dela me confundia, me tirava do sério; como alguém pode pensar assim em pleno século 21? Isso não é São Paulo, cacete??
_Você fique avisada! – não recuou – Eu não quero mais SABER do seu envolvimento com a Mia, EU QUERO ISSO ENCERRADO. E quero encerrado JÁ, ESCUTOU?!?

Ela desligou. Na minha cara, logo em seguida. Mas que palhaçada! Continuei ali parada, em frente à produtora e sem entender o que acontecera. A recepcionista me encarava estarrecida. Como eu ia explicar isso para a Mia?

novembro 20, 2013

On the low flow

O que restava daquela tarde prosseguiu para uns quarenta minutos desnecessários de exercício, meus e do Du, movendo os móveis da sala de lugar. Só para no final odiar e trocá-los imediatamente de volta. De quem foi essa excelente ideia? Me larguei sobre o sofá assim que o colocamos na posição habitual. E o Du se jogou na poltrona, agora distraído, apertando masoquistamente o maior dos hematomas deixados pelo Gui em sua pele. Ainda dolorida – dava para ver na sua expressão. O Du tinha um São Jorge em estilo old school, tatuado mais adiante na sua costela. E um coelho esquisito abaixo, menor. Definitivamente um desenho não combinava com o outro – mas de alguma forma as suas tatuagens faziam sentido; nele, pelo menos.

Me apoiei na mesinha do centro, alcançando o “tijolo” que eu comprara com o amigo dos meninos na noite anterior. Tá. Exagerei. Eram só umas 40g – e eram para nós dois, então, 20g cada; não é tanto. Comecei a dichavar antes que o meu celular vibrasse. “Vc. tava certa... :(”, um SMS da Mia disse. Sobre quê?, pensei. E escrevi de volta, sem entender. Não era como se tivesse falado muito naquele domingo todo, à exceção de roupas e ideias muito erradas que héteros têm sobre sexo entre mulheres. Mas o comentário não me parecia fazer sentido. Sobre o que diabos eu poderia estar certa, meu?  Larguei o celular de lado e dei de ombros, voltando a bolar tranquilamente.

_Cê vai querer? – perguntei, já ajeitando a erva na seda.
_Quero. Mano, não tá passando porcaria nenhuma nessa TV...
_Coloca num desenho, sei lá – murmurei, sem prestar atenção –. E hein, você vai ficar se cutucando assim?! Não tá doendo isso aí, não??
_Tá. É que não consigo ver direito onde tá...

Olhei para ele como se aquilo não fizesse o menor sentido; e precisa ficar se machucando por causa disso? Lambi a beirada da seda. O Du tirou a mão das costelas e deixou o controle sobre o abdômen, pendendo as duas mãos agora sobre a cabeça. Podia sentir o tédio a metros de distância dele. O meu celular vibrou no assento. Terminei apressada o baseado, acendendo antes de checar a resposta, e dei um pega rápido. Passei para o Du em seguida. E olhei a tela – “a minha mãe estranhou... ouvi um monte, meu. Oq. tava fazendo aí, oq. rolou com o fe... serio, a noite vai ser um inferno ://”.

Hesitei por um instante. Mantive o dedo suspenso sobre o teclado, sem saber bem o que responder. “Que foi?”, o Du me perguntou, com o baseado esticado de volta na minha direção, estranhando a minha expressão. “A... mãe da Mia tá...”, expliquei num suspiro cansado, “...achando ruim, sei lá, que ela veio pra cá”. “Mas ela sabe?”. Peguei o fino das suas mãos e traguei, afundando no sofá. “Acho que sim”. Soltei a fumaça espessa no ar. “Tenso?”. “Não. Não sei, na real. Falei para a Mia que achava que ela nem sabia, que só não me curtia porque eu sou, tipo, ‘eu’ e tal”. “Mas agora cê acha que ela sabe...”. “É”. “Que merda, meu...”. “É, sei lá. Vamos ver...”, traguei mais uma vez e devolvi para o Du, começando a digitar. “E vc. está bem?”, mandei para ela.

A resposta demorou mais uma vez – e presumi que as duas ainda estavam discutindo. As imaginei falando baixo em algum canto de uma casa muito grande em Moema, tentando “evitar uma cena”. A Mia não se encaixava naquele contexto de família judia com grana até dizer chega. “To. So qria ta ai com vc. e o duuu lindo :)”, li e comecei a rir. E só ele merece o elogio? Contei para o metido e ele achou graça, mandando que eu retribuísse o favor. “Escreve aí: magnífica”, que era como ele a chamava. Eu me recusei – “não preciso de você fazendo a Mia hétero de novo”. “Meu bem, não faria nada...”, ele piscou para mim. E riu: “Não sem você, pelo menos”. Moleque folgado. Eu ri também. E joguei uma almofada na sua direção.

“Hum”, digitei, com um sorriso imprestável no canto da boca, “qria terminar o que a gnt começou hj... Qdo vc. vem dnv? ;)”.  Senti algo bater no topo da minha cabeça. E era o Du me tacando a almofada de volta, ele se divertia. “Assim q. der!”. Eu sorri. E antes que a Mia parasse de responder as minhas mensagens – para ir jantar –, escrevi: “ontem foi demais, viu garota...”. Guardei o celular no bolso de trás. Peguei o baseado sobre a borda do cinzeiro e o coloquei na boca, alcançando o controle na barriga do Du. Assistimos toda uma maratona de Coiote e Papa-léguas na TV, chapados na sala. Depois ligamos num delivery e pedimos toda comida que havia no cardápio. Matamos a larica. E então fumamos mais um pouco.

O Du falava animado sobre uma nova cena que ele estava preparando junto com a companhia. Empolgava-se, algo sobre Artaud. Eu o observava atuar já com os olhos pesados, caindo no sono. Era um sentimento estranho não ter os meus amigos para ligar, marcar uma cerveja; não poder conversar com alguém como o Fer. Não o ter na minha vida. Tentava não pensar na falta que ele me fazia. E como fazia. Mas me entretinha. Eu gostava de partes da minha nova realidade. Gostava de ter a Mia. E gostava de ouvir o Du proclamar frases que não faziam sentido algum para mim naquele momento – entenderia quando visse a peça toda, ele garantia.

Logo adormeci no sofá. Devo ter dormido umas dez ou onze horas até a manhã seguinte. Acordei mais cedo do que o usual, às sete. A segunda-feira começou desavisada do que estava por vir. Uma mensagem da Marina apareceu na internet, me marcando numa foto da sua nova tatuagem. Sorri, vendo-a, conforme comia uma tigela de cereal em frente ao computador. Me troquei então com indisposição. Preguiça de sair. Ainda tinha uma hora até entrar no trabalho e enrolei o bastante até estar atrasada para poder ir a pé – é claro. Peguei o metrô. Ouvindo Jurassic 5 no fone e cantarolando baixinho – like dah dah, dah-dah, bah dee dee dee dah dah (...).

Eram apenas duas estações até a Brigadeiro. Desci e fumei um cigarro na porta da produtora antes de entrar. Devia ser umas nove quando o meu celular tocou. Tirei os fones e o atendi sem muita educação. Odeio gente que liga e pergunta ‘quem está falando’, como se não fosse óbvio. Devolvi a pergunta e joguei aceso o cigarro no meio-fio, já indo na direção da porta. “Eu sou mãe da Mia”, disse.

Acordos silenciosos

Ficou por aquilo. E os minutos seguintes se desenrolaram bons, descomplicados. Digo, é a Mia, não é. A garota levou mais de dois anos para terminar um namoro, cacete, vá lá. Eu não estava esperando um anúncio oficial de envolvimento romântico em nenhum momento ainda neste século. Meia palavra de ciúmes me bastava. Para alguém que terminava e começava namoros como se fossem vídeos no Vine – isto é, eu –, consistência não era lá uma demanda interna. Eu não ligava de não definir a minha situação com a Mia. Não mesmo.

As minhas experiências passadas com rótulos não haviam sido bem-sucedidas. “Namoradas” – o que isso quer dizer afinal? Cada pessoa tem o seu próprio entendimento das palavras que não inventou por si mesmo; e sem isso, você é obrigada a prestar atenção em si mesma e no que a outra pessoa demonstra ou sente. Evolui-se em simbiose. De um jeito particular de vocês, não do dicionário ou da porra da cabeça dos outros. Algo como o que eu tivera, da maneira mais espetacular, com a Clara uns meses antes – até eu meter o pé na merda toda, claro. E sim, havia uma parte de mim que queria que a Mia dissesse ‘sim’. Que fosse ‘minha’. Era mais para satisfazer uma necessidade conceitual de que fosse enfim minha e não dele. Uma vez. Anos de incertezas depois, depois de tudo o que acontecera entre nós. Eu gritaria para o mundo – bêbada na Augusta, provavelmente – algum dia daqueles. Que era minha garota. Por ora, todavia, me bastava estar com ela. E saber que me queria de volta.

Enfim. Por fim.

Sorri ao vê-la debruçar sobre o meu armário. Completamente bagunçado. “Você tem alguma coisa aqui que não esteja amassada?”, resmungava, jogando peça atrás de peça no chão. Eu piscava para ela e negava, com a cabeça. “Faz parte do meu estilo, gata!”. Ela revirava os olhos então. E eu me divertia. A sua mãe chegaria em alguns minutos para pegá-la – ela se desesperava. Iam visitar a avó da Mia, uma senhora respeitável do lado mais-do-que-podre-de-rico da cidade. Dessas com mais grana do que a minha família, a do Du e a do Fernando combinadas. Ou algo assim. E a Mia mentira para a patroa ao telefone, dizendo que havia trazido uma troca de roupa para depois balada daquele sábado – só para evitar ter de ir até Higienópolis, de ressaca, pela manhã de domingo. Arrependia-se visivelmente.

_Não tem um maldito vestido! Uma blusa que preste. Zero!
_Você que inventou essa porra, mano, e agora – ri – vem acusar as minhas roupas que não fizeram nada contra você?! Pra quê cê foi mentir??
_Quê?! Eu achei que fosse esse todo o propósito de se dormir com uma merda de menina. Não? Poder pegar roupa emprestada dela no dia seguinte...
_Mas você pode pegar o que quiser aí, oras.
_Jura? – ela ergueu uma camisa social preta minha e me desprezou com o olhar, antes de descartá-la ao chão – Na boa, você não podia ser mais sapatão?!
_Essa blusa é bonita. Ok?
_Arghhh. NÃO TEM NADA AQUI QUE EU POSSA USAR! Nada. Eu não posso aparecer em Moema com um Nike, skinny jeans e uma porra de uma camiseta xadrez!! Não posso. Minha vó sequer sabe das minhas tatuagens, até hoje, meu. A minha mãe vai me matar...
_É. E a propósito, sua mãe não vai achar estranho te buscar aqui, não ô?
_Não. Ela sabe que somos amigas. Sei lá! Ela nem tem falado direito comigo esses tempos.
_Mas você acha que...

A Mia meteu a cabeça entre o bolo de roupas empilhadas dentro do armário. Em resignação. E eu interrompi o que dizia para perguntar, aos risos, o que diabos ela estava fazendo. “Não vai rolar”, choramingou, já sem esperanças, “não tem nada que não grite ‘dormi na sarjeta da Frei Caneca’ aqui, não tem nada que preste”. Eu ria. Deitada confortavelmente na minha calcinha e camiseta velha, atravessada na cama. Levantei então e passei por ela, ignorando as claras ofensas ao meu estilo. Vasculhei aquele caos todo por alguns segundos até encontrar um vestido-bata verde-musgo que a minha mãe me dera uns dois Natais antes, numa tentativa inútil de me fazer vestir como uma cidadã normal. Joguei na sua direção e a Mia pareceu surpresa – “não sei se vai servir, nunca experimentei”. Ela o abriu adiante de si mesma. E sorriu. “Vai! É perfeito”.  

_Tá. E aí... Quer ajuda para se trocar? – ofereci, imprestável.

Ela me olhou, como se eu fosse a pessoa mais brega do planeta. E retrucou: “Não precisa”, me dispensando, antes de puxar toda a blusa para fora do corpo e largá-la como se não fosse nada no chão. “Eu tiro sozinha”. Caralho, garota. Quer me matar? Virou. E vi o seu corpo caminhar adiante, as suas costas traçadas com flores amarelas, rosadas. As linhas pretas. Acompanhei o seu compasso, alcançando-a no meio do quarto. E peguei na sua cintura, completamente nua.

_Se não posso ajudar, o que você acha... – abracei-a, de frente mim, e a segurei no ar – ...de eu atrapalhar um pouco?

Aquela mulher me arrancava o fôlego, à força. Puta que pariu. Sentia as suas coxas nas minhas mãos e de repente toda a minha boca ansiava pelo gosto da sua pele, como se carecesse de água. Ou de qualquer porra vital. Ela sorriu e me beijou no ato. Um beijo inebriante daqueles. Não tinha como não se deixar envolver, pelas suas mãos, pelos movimentos do seu corpo. Contra o meu. Lentamente, ofegante. Ou nem tanto – a coloquei sem delicadeza sobre a escrivaninha. Correndo os meus lábios pelo seu pescoço, o seu colo. E para a nossa infelicidade a sua mãe tão logo começou a ligar, estacionada em frente ao prédio na Frei Caneca.

novembro 09, 2013

A tal da Isa

Mas que diabos...? A Mia já tratou de olhar na minha direção, esperando a explicação mais descarada do mundo. E eu me perdi por um instante – Isa? –; vasculhando a minha memória, confusa.

_Quem é essa?! – me empurrou com o corpo e eu ri da reação dela.
_Pára! Não sei, meu... Conheço um monte de Isa, só não uma que fosse me ligar assim, agora. Du, tá falando aí se é Isabela ou Isadora?
_Não. Só tá “Isa” aqui...
_Isa? – eu repetia para mim mesma, murmurando.

E me veio então à cabeça uma garota com quem saí algumas vezes no ano anterior. Na minha fase autodestrutiva de depressão não-assumida, depois de um fora federal da Mia. Antes da Clara, da Patti, do rolo todoQuando as minhas saídas andavam aleatórias. Ou isto; ou era uma amiga da Lê, que eu também já tinha pegado uns anos antes. Essas eram as duas únicas a quem eu chamava pelo apelido e não pelo nome todo. Nenhuma das duas, entretanto, estaria me ligando hoje. Estranhei. 

A dinâmica era até que comum, volta e meia algum antigo casinho meu me mandava mensagem, do nada, como eu fizera com muitas delas no passado. Só que agora eu simplesmente ignorava. Geralmente estava longe da Mia quando recebia algo do tipo, muito esporadicamente – apenas uma mensagem ou cutucada. “Deixa aí na mesa”, pedi para o Du antes que ele saísse para a sala, “depois eu ligo de volta”. E o agradeci. A Mia imediatamente se opôs, indignada.

_Não vai ligar para ninguém, não! Como assim?! – riu.  
_Por que não? Se está marcado na minha lista, deve ser alguém.
_Exatamente... – ela disse, com certa razão, e eu comecei a rir junto.
_Tá. Pode ser, mas você não está minimamente curiosa em saber quem?
_Não.
_Eu estou...

Desliguei a torneira, enxugando as mãos, e caminhei até a mesa para pegar o celular. “Você tá me tirando que vai ligar mesmo, né??”, ela secava as suas na própria camiseta, meio achando graça e meio ofendida. E não – eu não ia ligar. Isto pareceria muito sério. Só queria mandar um SMS inofensivo e ver se descobria quem era e qual era a dela; comecei a digitar. A Mia se aproximou, espiando por de cima do meu ombro. Eu ri – “sai pra lá!”. “Estou fazendo carinho”, zombou. E me abraçando pelas costas, esticou o pescoço para ver. “Deixa de ser besta! Não é ninguém, meu...”, argumentei, já  enviando o SMS, “faz uma cara que eu nem falo com mina nenhuma! Com ninguém, aliás. Cê vai ver, deve ser uma parada nada a ver...”.

O meu celular logo vibrou com a resposta. “É a Isa, da Chilli” – droga. Era a primeira das duas Isas. Saí com ela quando não estava com a Mia. Era uma garota magnífica, meio louca e fascinante, tatuada, com alargadores e dreads até a metade das costas; nós tínhamos saído duas vezes num mês e outra uns meses depois. Isto é, não chegamos de fato a ir para lugar algum. Eu fui na casa dela e nós desistimos, todas as três vezes, de sair. Ficamos na cama, no chão, em diferentes lugares. Ela era amiga de um ex do Gui que, como a maioria da população sapatão de São Paulo, trabalhava na Chilli Beans. Eu sequer lembrava dela àquela altura! Acho que tinha uma namorada ou algo assim; por isso não saímos muitas vezes mais. Ou provavelmente porque fui uma babaca – naquela época da minha vida, admito, eu era uma babaca com todas as pessoas. Deve ter terminado o namoro, presumi. E outra mensagem chegou, em seguida.

Como vc. tá... ainda solta pela vida? ;)”. Assim que li, confirmando a minha teoria recente, senti um tapa por cima da minha cabeça. Da Mia – “essa tosca está dando em cima de você!”, disse indignada. “Não tá”. “Está, sim!”, ela riu. Encarei os seus olhos castanhos, por cima do meu ombro. “É só uma amiga...”, brinquei, sem verdadeira intenção de que aquele comentário fosse interpretado como sincero. E choveram tapas nas minhas costas. “Mas eu não fiz nada, porra!”, me defendia, sob aquele ataque injusto. “Manda essa menina pro inferno, pode escrever de volta aí!”, a Mia reclamou, praticamente ordenando. “E fala pra ela que cê não tá ‘solta’ coisa nenhuma”, completou. “Ah, não... é?”, virei na sua direção, largando o celular na mesa. Seguia achando graça na sua reação desproporcional.

_Não.
_Hmm... – abracei-a por cima dos seus braços, aproximando o meu rosto do seu – ...eu adoraria ouvir você explicar o quão solta eu não estou, então...
_Você vai responder para ela ou não?! – continuou, revoltada.
_Não – disse, rindo – que se dane essa mina aí, ela vai se tocar se eu ignorar. Agora – ameaçava beijá-la –, não acha que devíamos estabelecer então as regras dessa nossa nova...
_Nova...
_...situação.
_Ah, devíamos? Achei que você não gostasse de regras, meu...
_E não gosto. Só quero saber quais são para eu poder quebrar, todas elas – e antes que a Mia mandasse eu me foder, prossegui, imprestável –, aí quem sabe você me dá uns tapas de verdade.
_Filha da... – ela me segurou o rosto e beijou, colocando os braços ao redor do meu pescoço logo em seguida.

Subi um dos meus antebraços por debaixo da sua blusa, pressionando-a contra mim. Nos beijávamos ali, em pé. Pus a outra mão em seu rosto, por um instante. E a olhei. Encostei a minha face na sua.

_Hein, o que você acha... De nós duas juntas – sussurrei; os meus lábios agora quase colados na lateral da sua bochecha – desses tempos pra cá; você solteira, eu solteira...
_Você não está solteira... – ela respondeu, aos cochichos comigo, e riu.
_Não? – eu a segurava, envolvida – E você, hein... está?
_Eu, talvez. Mas você, não...
_Ah, e é assim? – falávamos baixinho e eu sorri – Acho que vou ligar pra essa Isa, então, por as novidades em dia...
_Não vai, não...
_Vou. Vou contar pra ela que tenho uma amiga solteira...
_Cala a boca... – ela sussurrava, abraçada com carinho em mim, no meio da cozinha.

Heteronormatividade

Dispenso saber. Os detalhes da vida sexual do Du pouco me interessavam. Mais ainda por envolver, especificamente neste caso, umas descrições bem gráficas do corpo e desempenho de um dos meus melhores amigos. É, o Gui. “Mano, eu tô comendo aqui, você podem não falar disso agora?”, resmunguei e os dois riram. Não que o meu protesto tenha impedido a boca do cidadão com quem eu dividia o apartamento. Joguei a garrafinha vazia de água na sua direção. E ele seguiu, despreocupado. Eca. Não tenho vontade ALGUMA de entender o funcionamento do corpo masculino. Já a Mia, todavia, o escutava entretida, com um misto de curiosidade e estranhamento. Particularmente admirada pela variedade de posições cometidas – ou um tanto surpresa, talvez. Eu lamentava continuamente pelo meu sagrado café-da-manhã.

_E-eu sei que parece idiota, quer dizer, agora eu me sinto idiota por sequer ter pensado isso algum dia... – ela balançou a cabeça para o Du, debruçada sobre a mesa, se desculpando de antemão –. Mas eu realmente nunca imaginei nada disso, nada além do óbvio...
_Do “óbvio”? – o Du questionou, achando graça.
_É! Nossa. É tão ridículo! Da minha parte, digo. N-não que, assim... – ela conversava sentada ao meu lado,  as pernas de fora sobre a cadeira – É que, tipo, não vinha na minha cabeça, sei lá. Nada! Nunca imaginei sexo entre caras e eles, por exemplo, se olhando, não achava que dava para fazer assim de frente mesmo, se encarando ou se beijando no decorrer. Parece bobo agora. Realmente bobo! E todas essas outras coisas, também. Desculpa.
_Tudo bem – ele riu, achando esquisito – Por que você tá se desculpando?
_Porque é idiota! Nós somos idiotas – revirou os olhos, constrangida –. Achamos que só o sexo hétero é sexo, digo, com intensidade real, complexo. Como se o resto fosse só uma sucessão de comidas rápidas ou uma punheta, não sei. Juro que nunca parei para pensar em dois caras transando, realmente transando, envolvidos um com o outro.
_Tá, não sei se dá para dizer, assim, tecnicamente, como se eu e o Gui estivéssemos muito envolvidos...
_Sim, mas você entende o que eu quero dizer?! –  eu escutava a conversa dos dois – Nossa... – colocou as mãos no rosto – ...eu sou uma pessoa horrível, horrível. Como eu nunca pensei nisso? É tão egoísta! Como se vocês fossem menos ou a gente fosse mais, melhor. Não sei bem explicar...
_”A gente”? – me intrometi, provocando-a.
_Não “a gente”. Nós héteros, digo – se ajeitou no lugar, abraçando uma das pernas, com o pé descalço apoiado sobre a cadeira e parte da tatuagem à mostra.
_”Nós”?
_É. Não! Quer dizer... Não eu. Ah! Você me entendeu!
_Entendi – eu achava graça – Sabe que... a primeira vez que eu e a Mia fizemos alguma coisa... – comentei, ainda me divertindo com a sua completa ausência de identificação – o que durou, o quê, talvez uns cinco minutos? Sei lá...
_Nós?!
_É. Antes da sua mãe interromper, aquele dia lá com as meninas na sua casa... Não sei se você lembra, mas na manhã seguinte, você me perguntou o que mais a gente fazia. Assim, convencida de que só aquilo já contava como sexo lésbico. 
_Nossa, eu nem lembrava disso, meu...
_Não? Meu, Du, sem brincadeira, foi meio amasso e uma cantada¹. E essa aí já estava se achando a que tinha trepado com uma garota – eu ri e ela me bateu de leve, no braço –, só com isso.
_Pára – murmurou – Agora eu sei, tá?
_Vocês, héteros – arqueei a sobrancelha para ela –, são mesmo umas gracinhas.
_Idiota.

Ela riu. E eu a provocava deliberadamente. A conversa prosseguiu para o quanto havíamos mudado desde então. Numas nostalgias. Nós duas tínhamos repulsa por nós mesmas, por quem costumávamos ser, e nenhuma uma pela outra. Pouco tempo depois, o Du levantou-se para ir ao banheiro e pedi que me trouxesse o celular. “Quero checar como vai a tatuagem da Má”, argumentei, agora sozinha com a Mia na cozinha. “Provavelmente coçando horrores”, ela riu. Será? Defendi que ainda não dera tempo, “deve estar na fase dolorida”, por ora. Mas, conhecendo a Marina, era provável que estivesse receosa. Agora que amanhecera com aquele rabisco permanente no braço, digo. Começamos a tirar a mesa, bem quando o Du voltou com o telefone em mãos. Eu e a Mia já iniciáramos a louça acumulada na pia.

_Ei – comentou, entrando na cozinha – Tinha alguém te ligando quando peguei.
_No meu? – perguntei, com as mãos debaixo d’água, e olhei para o Du por cima do ombro – Vê aí para mim, por favor.
_É. Uma tal de Isa.

¹ “Cantada”, neste caso, é gíria para sexo oral. Achei que pudesse ficar ambíguo.