- »

dezembro 29, 2013

O Atlântico

O Du se afundou ainda mais no sofá. Com as pernas largadas, num dos poucos pares de jeans que ele tinha. O cabelo estava completamente amassado; tinha os olhos pequenos e reluzentes por causa da bebida. Estava sem camiseta, descalço. Dois cabides quase perpendiculares – presos um ao outro pela parte curva e superior – apareciam tatuados no seu antebraço. Num traço simples e preto. Nonsense. Ele subiu as mãos à lateral da cabeça e suspirou ao contar:

_Eu quase namorei com ele – resmungou –, no último ano. Nós temos amigos em comum. Ou, bom, não sei se chegamos a quase namorar... A gente já se conhecia fazia tempo e ele saiu, até namorou com outros caras aqui no Brasil, não é como se, sei lá. Nós não tínhamos nada. Acabamos ficando só uns meses antes dele ir pra Espanha. Foi tudo muito louco e intenso, foi... – bufou e apertou os olhos, chateado – Não sei. Foi na pior hora possível.
_Mas ele foi fazer intercâmbio ou...? O quê, ele não é daqui? – me afundei ao seu lado no sofá, prestando atenção no que dizia.
_Não. Ele veio só fazer o mestrado. Em vários lugares, na verdade... É que, assim, ele estudou Ciências Sociais, sabe? Um curso desses, parecido. E a tese dele era sobre política e a ascensão da esquerda na América Latina; então ele veio morar no Brasil, ficou por praticamente dois anos e aí fazia viagens para a Venezuela, para o Uruguai...

Logo no primeiro desses anos,  foi quando o Du o conhecera. Numa festa no MIS, disse; e ficou completamente fascinado. Não tanto pelo porte, mas pela maturidade e pela cultura do tal catalão, pela forma como ele falava. Ele tinha uma visão completamente diferente do Brasil, da maneira como nós fazíamos as coisas; uma “admiração consciente”. E ambos conversavam por tardes inteiras. Por motivos nunca muito claros, porém, eles não ficaram – até rolar mais de um ano depois numa festa na casa de um amigo. E aí passaram a ficar o tempo todo, desenvolveram compulsão um pelo outro. Se pegavam em todas as festas que se viam, em todas as oportunidades. Cada vez mais próximos. Eles sabiam que não ia durar, mas perderam o controle das emoções. “Eu fiquei a última semana inteira com ele, na casa dele; tinha um apê lá na Marquês de Itu”, contou.

Agora o Du lamentava, por ter se deixado envolver – “a gente não era mais só dois amigos trepando e aí deu merda”. Foi já na terceira vez que ficaram que o Du percebeu. Assim que se beijaram, contra a parede em um show no Beco 203, ele soube que ia se apaixonar. E esse sentimento continuou pesando nos dois, até mesmo agora, dez meses depois que terminara.

_Faz tanto tempo já... Ele tem a vida dele e eu tenho a minha, não é como se eu devesse qualquer coisa a ele. Não somos comprometidos. Só que gente ainda conversa e, meu, eu ainda gosto dele...
_Vocês se falam com frequência?
_Mais ou menos. Às vezes sumimos um da vida do outro e então, do nada, voltamos a nos falar. Daí passamos semanas nos vendo, falando todos os dias no Skype. Ele é diferente de todos os caras com quem eu já me envolvi, meu. E é muito foda, sabe, lidar com isso.
_Dá pra ver – sorri, bêbada – Só pelo jeito que você fala dele, pela sua expressão...
_É. É uma bosta. Porque ao mesmo tempo não temos nada, nunca tivemos nada. Mas, que nem, essa semana alguém contou para ele do Gui... E eles se conhecem, temos os mesmos amigos. Aí o Martin ficou chateado.
_Mas você mal ficou com o Gui, mano. Não significou nada! Não é como se tivesse rolado algo sério entre vocês...
_É, eu sei. E ele sabe, também. Tipo, não é como se ele esperasse que eu não ficasse com ninguém aqui ou s-sei lá... – o Du afundou a cara no encosto, virado de lado no sofá, e depois me encarou, com o olhar derrotado – ...e-eu sei que ele sabe. Só que não é racional.
_E ele veio te falar alguma coisa? Sobre o Gui e tal?
_Ah. Ele me mandou uma mensagem na segunda, pela internet. Disse que sentia minha falta, que sabia que eu tinha a minha vida, mas que tinha dificuldade de aceitar a forma como as coisas eram para nós. E eu pirei. Fiquei louco, porra! A gente não costuma falar sobre o que ainda sentimos um pelo outro, não é como se eu vivesse pensando nele. Eu tenho consciência de que não estamos juntos. Eu faço as minhas merdas e ele faz as dele lá. Mas são essas vezes, quando ele dá uma dessas, que fodem com a minha cabeça, com tudo. E é uma porcaria, caralho! Voltou tudo com um peso enorme e de repente toda minha rotina aqui parece um nada. Eu não quero mais ficar aqui, assim, cacete, sem ele. E ver ele falando de mim e dele, porra. Puta merda! Quis falar com ele imediatamente. Entrei em êxtase, cara! Sei lá. E aí ele não respondia minhas mensagens, não aparecia online, nada. Me ignorou por dias...
_Mas você não sabia que ele sabia do Gui?
_NÃO! Não fazia ideia. Só ontem que ele apareceu no Skype e foi completamente frio, até então não fazia sentido pra mim, manja. Ele ter mandado aquela mensagem segunda para depois sumir e então começar a ser grosso, a me criticar...
_Mas por quê? O que ele falou??
_Ontem eu liguei para ele assim que ele ficou online e ele tava agindo muito estranho, foi aí que ele me falou que sabia do Gui. Disse que se arrependeu de ter mandado a mensagem, que não devia ter falado nada. Que a vida era minha, que eu que ficasse com quem eu quisesse... E isso me machucou. Porque, porra, eu SEI que é assim, que a gente tá separado e que cada um tem as suas merdas, mas não quer dizer que eu GOSTE, que eu queira que seja assim. Eu amo ele pra caralho. Saber que ele tem ciúmes me faz sentir BEM, porra! Eu quero que ele sinta, que ele fale comigo. Mas àquela altura ele já tava puto, já tinha processado a informação e há dias e sem vir conversar comigo. Aí ele disse que “percebia” que eu ainda era um moleque; que, segundo ele, eu continuava vivendo do mesmo jeito que quando ele morava no Brasil, antes de a gente ficar; que eu nunca ia mudar o meu jeito...
_Affe. Que babaca.
_Não é. É que ele sente que nunca vamos ter as mesmas vidas – o Du se contorcia no lugar a cada frase, com raiva de si mesmo –. Disse que ele se engana quando pensa em mim, que eu não sou como ele imagina. Nossa, foi muito foda de ouvir, você não faz ideia. Isso me destruiu, porra.
_Ah, Duduzinho, mas ele está com ciúmes, meu. É só porque ele conhece o Gui...
_Não sei. Mesmo. Eu sinto que, em partes – passou a mão no rosto, tinha a voz embargada –, ele tem razão. Eu não sei o quanto mudei ou o quanto teria mudado do lado dele. Eu sou mesmo um moleque, olha pra mim, mano! Puta bicha idiota. Sabe, eu tomo porre na Augusta e pego caras como o Gui e porque... Porque, sei lá, p-porque tô entediado, porque quero meter, porque não sei que porra me dá na cabeça quando eu encho a cara e é tédio, é só tédio. Eu tenho medo de que um dia ele acorde e perceba isso, saca? De verdade. Que eu não sei que porcaria eu quero fazer com a minha vida, que eu sou mesmo um caos. E ele TEM razão, nós levamos mesmo vidas completamente diferentes. E eu, porra, eu não sou metade do que ele é, meu! Agora ele está chateado por um lance que eu fiz e que não precisava nem ter existido... entende?
_Du: não. Pára com isso. Nada a ver! Vocês dois se gostam, caralho, vocês se dão bem... – ele deu de ombros, melancólico – E ele gosta de você, é óbvio que gosta. TÁ NA CARA! Ele sabe quem você é, sempre soube. E ele te curte inteiro. Ele só está machucado, tá com o ego ferido, meu. E tá tentando te agredir de volta, é só um jogo idiota...
_Nossa, meu. Eu tenho certeza que foi Bruno que contou, certeza, mano. Certeza... – balançou a cabeça, se tornando irritado – Eles se pegaram, meu, logo quando o Martin entrou pro grupo. E eu sei que foi esse invejoso de merda que foi lá, abrir a boca.
_Mas e daí, importa? A questão é que, mano... Já foi. É assim agora. Vocês tão separados! Essa é a realidade. Esse cara vai esperar que você não pegue bicha nenhuma que ele conheceu nesses dois anos que ficou aqui?! Pera lá. Vocês sabem o que sentem um pelo outro. Os dois. Isso não mudou. Mas a vida segue... Que cê vai fazer, porra? Não vai meter nunca mais? Você nem sabe se vai ver ele de novo, meu. Não dá pra ele ter um surto de ciúmes toda vez que você come alguém do outro lado do oceano...
_Eu sei disso. Esse é meio que o “acordo” – o Du encheu e virou mais uma dose de rum, me entregando a garrafa em seguida –; mas na prática é outra coisa, né. Eu também já fiquei mal. Eu também já dei os meus chiliques com ele. Que nem, nuns meses atrás, eu vi uma foto dele com um outro cara. Foi besteira. Um dos amigos dele que postou no perfil do Martin, junto com um comentário fazendo gracinha. E eu, nossa, eu perdi a cabeça.
_Ai, Du, mas também... – eu ri do ridículo da situação descrita.
_Acha engraçado? Pois eu fui lá e curti a foto, fiz questão que ele visse que eu tinha visto. Não deu nem dez minutos e ele apagou do perfil. Veio todo manso, depois, querer conversar, como se nada tivesse acontecido...
_Affe. Você também, hein. Se merecem... – revirei os olhos.
_E nem dei bola. Falei que tava saindo, que não podia conversar. E isso que eu tinha ficado a tarde inteira surtado por causa daquela porra, fumei um inteiro olhando pra merda da tela. Não desgrudar da ideia que tinha outra merda de, de cara com a mão no Martin. Todo ridículo, não? – ele riu – Mas, ah! Não tô nem aí. Ainda saí, saí mesmo, e passei o rodo na Society. Peguei até gripe de tanto dormir com a bunda pra fora naquela semana...
_Naquelas reações bem “proporcionais” ao fato... – eu gargalhei.
_Quê?
_Nada, uai... Não é como se eu já não tivesse feito igual e por menos até – passei a mão na nuca, lamentando –. Nossa, eu já fiz merdas homéricas só por achar que a Mia estava com o Fer, mano, sem nem saber se estava mesmo. Isso enquanto eles namoravam ainda. Bastava encontrar o apartamento vazio num dia que eu já não tivesse muito bem... e pronto!
_Cara – ele deslizou a cabeça pelo encosto e a apoiou no meu colo –, tira essa garrafa daqui, por favor – empurrou o Bacardi para longe –. Que eu já tô ficando muito bêbado...

dezembro 28, 2013

Empate

_Não!! NÃO! A minha ganha fácil!!
_Me dá essa porra... eu que vou beber!

Tentei tomar a garrafa do Du, que me afastava com a mão que lhe restava livre. Brincávamos no sofá da sala. Num jogo perigoso – valendo uma dose para cada arrependimento. Não demorou muito para ficarmos completamente alcoolizados, isto é, claro. Começara bem, como uma tentativa de animá-lo; relatei todas minhas merdas e péssimas decisões amorosas pelas sarjetas paulistanas a caminho do supermercado e na volta para casa. Agora nós competíamos. É – com histórias.

Uma pior do que a outra e todas pessoais. Das que não compartilhávamos com ninguém – os barracos; as trepadas de vingança; uma D.R. gritada em plena calçada da Augusta, às seis da manhã; o tapa que a Dani me virou na Kraft; os pais dum caso antigo dele e a ameaça de chamar a polícia ao pegá-los juntos, uns anos antes. Virávamos doses com absoluta desconsideração pelo trabalho no dia seguinte – bebia quem contasse algo pior. Nós mesmos éramos os juízes. O Du me passou a garrafa e cedeu, a contragosto:

_Mas você tava chapada e na balada ainda, meu. Não conta!
_E daí? Era a Marina, caralho! – argumentei – Que espécie de ser humano ESCROTO trai uma mina que nem a Marina??

Qualquer mina, aliás, pensei na Clara por um breve momento, já com a Bacardi nas mãos.

_Mas cê já tinha uma história com a outra, a Dani lá, porra, e foi uma vez só! Esse cara que eu falei não só eu que fui lá e comecei a parada toda, como ainda rolou mais de uma vez durante a viagem. Debaixo do mesmo teto. DO MESMO TETO, mano! Não. Eu bebo. Dá aí! – o Du puxou a garrafa de volta para si –. Velho... – balançou a cabeça, embriagado, por um momento – ...eu saía da suíte que eu tava com o Guto e ia jogar carta com o Di no andar de baixo, a madrugada toda, depois a gente se comia no sofá – ele se apoiou os braços nos joelhos, os seus olhos fundos não condiziam com o meio sorriso que ele forçava na minha direção, completamente arrasado –. Num dos dias eu fiz o Guto desistir de ir comigo no supermercado, só pra poder agarrar o Di numa rua afastada da praia.
_E aí... Chegou uma hora depois, sem sacola nenhuma?
_É. Mais ou menos isso... – ele riu – ...e o pior é que eu sofri quando ele soube, nossa, como sofri. Eu fui um idiota, sabe... Não percebi realmente o quanto gostava dele até ver ele se machucar. E aí já não tinha como voltar atrás, nem eu queria, acho. Eu quis que ele me odiasse – lamentou –. Eu fui um porco, meu.
_Eu sei. Eu entendo bem – toquei no seu ombro e completei o meu copo, derrubando um pouco na almofada que estava abaixo –. Às vezes eu também tenho um momento de lucidez e sei lá, meu, eu me envergonho. Pelas pessoas que me viram agindo assim, principalmente na época da Má; ou quando eu e a Nana tínhamos brigas gigantescas. Com a Clara já foi um pouco diferente, mas ainda assim. Sei lá...
_Hum? – ele me incentivou.
_Tipo, às vezes, eu me pergunto o quanto a Mia vai ser capaz de confiar em mim e eu nela. Depois de tudo que já rolou, saca? E o pior é que eu nem sei se ela deveria... – passei a mão no rosto – Puta merda... Sabe? A gente sai por aí e se relaciona de um jeito tão fodido, a vida toda. Todo mundo. 
_É, não sei se existem exceções...
_Ah, existe. Para isso sempre tem a Marina – eu ri e ele concordou.
_Você não merece ela. Não a julgar pelo que foi falado na última hora – me zombou –. Então deixa a coitada fora disso...
_Tá brincando? – eu ri e me indignei – Eu não quero nada com a Má, não. Nem se ela fosse a última garota do planeta, meu. Eu sei disso.
_É. E você tem a Mia...
_Sim. Às custas do Fernando, mas... Enfim... – tenho; coloquei mais um pouco de rum no copo, começando a passar do limite – ...te contei que a gente trepou na última noite dele aqui no apê? Empacotando as coisas na sala, meu. E ele dormindo lá no quarto, olha que merda.
_E que é essa cara aí? – ele me observou, achando graça.
_Me arrependi já, só de ter falado em voz alta... Que bosta. Eu sou uma nojenta.
_Bom, bebe mais aí. Que eu acho que não tenho mais nada à altura... – ele riu.
_E isso tá te fazendo sentir minimamente melhor? – duvidei da eficiência do meu método, largados lado a lado no sofá da sala, às nove horas já passadas – Não sei se ajuda alguma coisa.
_Um pouco – ele arqueou a sobrancelha e abaixou a cabeça, entrepassando os dedos no cabelo, com o cotovelo apoiado nas pernas; a sua voz estava carregada –. É a vantagem de se estar solteiro, eu acho. Ser plenamente porralouca, manja, sem se preocupar... Sei lá.
_Ah. Acho até que dá para ser de outro jeito, mesmo junto, mas precisa achar alguém que tem uma puta sintonia com você, meu; com quem você possa ser você mesmo, ser livre. O foda é isso, é chegar lá.
_Sem ninguém se machucar? Não sei, não.
_Ah. E afinal, me explica – joguei um verde, já embriagada o suficiente – Quem você pode ter machucado, se está solteiro desde o Guto. Isso não foi anos atrás?
_Não estou exatamente solteiro desde o, ah... sei lá – suspirou – é mais complicado do que isso.
_Mais complicado como?
_É que não chegou a ser um relacionamento, eu e o Martin... Continua não sendo.
_Esse é o cara com quem você estava no telefone?
_É.
_Mas... O que rolou entre vocês?

dezembro 25, 2013

Sa.pa.tão

s.m. pej. vulg. designação atribuída às lésbicas

A verdadeira abordagem da Mia era, todavia, menos corajosa. As suas discussões com a mãe estendiam-se até o direito de existência, digamos; mais tarde naquela noite, ambas brigariam pelo não direito da mãe de interferir na sua vida e pelo consequente direito da Mia de fazer o que bem entendesse. “NÃO É DA CONTA DELA! Mandei não te ligar mais, meu... Deu pra se meter agora?!??”, ela gritou ao telefone, ainda exaltada. Eu a escutava pacientemente. Nenhuma das duas, entretanto, conseguia falar a palavra. 

Lés.bi.ca (etm. grega “lesbos”) s.f. mulher que sente atração afetiva e/ou sexual por outra mulher.

Esta só falavam para mim. Eu colava o velcro nas ameaças de uma e nos sorrisos imprestáveis da outra. Entre elas, a natureza do nosso relacionamento permanecia impronunciada. Não que houvesse algum problema nisso. Ou não particularmente. Eu não dava a mínima para o quanto a família da Mia sabia (mesmo!). Preferia que ela fosse livre para sair do que para falar sobre mim na mesa. Isso pouco me importava. Era algo que tinha que incomodá-la e não a mim – havia certa calma intrínseca em mim desde que ficáramos juntas. Eu me divertia. Com como ambas falavam sobre o mesmo assunto, subentendido, e eram incapazes de o dizer de fato.

Na quinta, naquela mesma semana, foi a Marina que se enrolou. Num drama do mesmo gênero. “O meu editor acha que tatuagem eh coisa de homem”, me escreveu num SMS. Eu saía do metrô Consolação, voltando do trabalho. São mais de sete horas, Marina, sai dessa porra de redação que eles tão te explorando, porra. Eu fazia bastante hora extra, mas as dela extrapolavam o absurdo desde a época em que namoráramos. Eu ficava indignada. Outra mensagem se seguiu: “ele aqui tá discursando como ñ é atraente e ñ ficaria cmg... COMO SE EU QUISESSE!”. Eu ri. As mensagens dela se sucediam rapidamente, sem que eu tivesse tempo de respondê-las.

A imaginei sentada numa cadeira com cara de paisagem, escutando àquele asno enquanto me relatava a conversa toda. “Essa eh otima... ’tatuagem no braço eh feio, eh coisa de caminhoneira’. MEU DEUS, ME DESCOBRIRAM!!!”, ela me escreveu. E eu sorri. Lhe sugeri então – “diz que anda achando a mina dele mais gata desde o fds...”. “Hahahahaha <3 i="">”. “Escroto”. “Mto, me da preguiça, ñ pedi a opinião dele tava mostrando pra outra das jornalistas”. “E qdo vou te ver, ô? Sdds”. “Qdo vc sair do casulo com essa mia...”. “Idiota”. “Vdd. Antes me ligava qse td dia =(”. “Marina pfvr ne...”. “To brincando, flor... vai, tira o atraso a vontade =)))”. “Sei”. “Q?”. “Eu nem to vendo ela, faz dias ja”. “'Dias, aham”. “Eh”. “Msm? Qtos?”. “Desde 2a”. “NOSSA! E VC TA VIVA AINDA???”. “Mano, ñ vou mais falar com vc...”. “Meu! Para! Vai me largar com esse imbecil?”. “Caralho, ele ainda ñ calou a boca?”. “Ñ. Fala cmg”. “Affe”. “Agora ta dizendo: ‘uma estrelinha eh ok, uma coisinha discreta’”. “Zzzzzzzzz...”. “Vem me salvar”. “Hj ñ posso... :P”. “Nossa, eu vou qdo vc me chama, ok”. “Ñ eh, linda. O Du ta mal”. “Pq? =/”. “Algo com um cara, ele me ligou faz 10 min...“. “Oq? Foi hj?”. “Nem, meu, ta rolando a semana td ja... ontem ouvi eles no tel...”. “Ai. Manda um bjo meu, tadinho =/”.

Pois é. Era estranho. Até aquele momento, eu nunca havia pensado no meu colega de apartamento como alguém, digamos, com sentimentos. Não os pra valer – que envolvessem algo mais complexo emocionalmente do diversão e putaria nas noites paulistanas. E não, não era por mal. Desde que se mudara eu o vira com tantos caras pelos cômodos que não havia passado pela minha cabeça que ele podia realmente estar sofrendo – o que era ridículo, admito. Especialmente dada à quantidade de pessoas com quem eu me envolvi enquanto a Mia namorava o Fernando. E eu me despedaçava, enchendo a cara de rum na cozinha madrugada afora. Por assim dizer.

Tinha impressão de que a questão com o cara, o que iniciara o desânimo da segunda e que ligara na noite anterior, era bem diferente. Mas não entendera o quê. E era difícil, para mim, conceber. O Du me divertia cotidianamente, putão e todo porralouca. Ele não parecia estar submerso em romance algum. Ficara com a impressão que estava solteiro há tempo o suficiente para ter superado quaisquer possíveis fossas. E aproveitando bem – com o Gui e inúmeros outros. Até outras. Mas aparentemente, não.

_Você vem pra cá que horas? – ele me perguntou ao telefone, uns minutos antes, com a voz amarga.
_Tava pegando o metrô agora. Aconteceu alguma coisa?
_Não. Sim – hesitou – Uma merda aí. Não quero falar a respeito. Precisava sair, encher a cara, ir pra Augusta. Qualquer porcaria.
_A gente pode ir, eu chego em tipo vinte minutos...
_Desculpa se eu tô sendo aleatório; se você tiver outra coisa pra fazer, tudo bem. É que eu, sei lá. Eu n-não... – bufou – ...não consigo ficar aqui e não quero sair sozinho, saca... – parecia frustrado, tenso – ...eu n-não, NÃO POSSO pegar ninguém, meu. Preciso de alguém que não vá me fazer pergunta nenhuma.
_Não, meu... Vamos! Demorou.

Ele me agradeceu. E disse que ia tomar um banho rápido. A verdade é que eu era a melhor companhia para essas ocasiões. Ao contrário da minha ex-namorada e sua curiosidade latente, por exemplo, eu bebia mais do que puxava assunto com os outros. Era ótima em respeitar o espaço alheio. Quinze minutos e eu já descia a Frei Caneca, a pé.

dezembro 23, 2013

A Recíproca

_E aí... – murmurei ao entrar molambenta, na cozinha.

O Du devia ter acabado de passar pela porta ou era o que aparentava , apoiando a mochila na mesa e desvestindo uma regata rasgada que ele usava quase como uniforme. Largou-a sobre uma das cadeiras da cozinha. E suspirou, cansado. Eu estava com o cabelo completamente emaranhado, numa bagunça que a Mia deixara e que me levaria alguns minutos para desfazer, mas que se foda, perambulando sem calcinha pelo apartamento no pós-guerra. Usava apenas uma camiseta velha que não cobria nada. Fui direto à geladeira, atrás de algo para esfriar a garganta e os ânimos. O Du me encarou por um instante. E riu, sozinho.

O meu corpo todo doía. Puta que pariu, essa garota. Pensei, com as mãos apoiadas no topo da geladeira aberta, ainda com as pernas enfraquecidas. Enquanto decidia entre as duas únicas opções em meio àquela escassez de compras – água ou um resto de rum. Qual é a porra do nosso problema, mano, não podemos ir no supermercado uma vez na vida? Argh. Era deplorável. A memória da Mia com as suas mãos em mim, o seu gosto na minha boca, impregnado em toda a minha pele, me voltou à cabeça. Contorci as pernas, ali, em pé. Lenta e completamente submersa na lembrança vívida do que deixara deitada lá, para trás, no meu quarto. O seu cabelo castanho espalhado pelo piso de madeira; o rosto vermelho e as marcas pelo seu corpo, o suor, as línguas, as suas coxas encaixadas nos meus dedos. As tinha, as minhas, agora descobertas em frente às prateleiras vazias. Meti a cara numa das minhas mãos, inconformada, sorrindo, e deslizei os dedos em seguida para a zona que estava o meu cabelo. Eu ria sozinha, também, filha da mãe.
  
_Cês vão querer comer, mais tarde? – o Du interrompeu as minhas alucinações e eu mal o escutei.
_Oi? Hm, eu?!
_Tô presumindo que a Mia tá aí – ele se divertia comigo –. Hein? Porque aí já peço agora...
_Nem. Ela precisa ir daqui a pouco.
_Mas e você, cê não tá com fome?
_Não. Se ficar, depois dou uma descida lá na Augusta...
_Tá.

Deu de ombros e eu senti que havia algo incomum, a postura dele, apesar de entretido com a minha aparência, carregava um fracasso que não costumava estar lá. Deve tá cansado e só. Dei igualmente de ombros. E o vi virar as costas, indo na direção do corredor para então alcançar o chuveiro. Com as suas tatuagens estranhas espalhadas pela pele. Me virei para a geladeira – as minhas coxas praticamente congelaram àquela altura – e peguei a garrafa de água. Havia uma quantidade quase nula dentro. Nem isso a gente tem, caralho. Caminhei descalça até o móvel da sala, levando comigo um dos baseados abandonados no nosso cinzeiro sujo, que ficava na mesinha de centro.

E voltei para o quarto. Onde a deixara. A Mia meio que dormia. Tinha o corpo de lado, virado contra o chão de madeira; as mãos sob a cabeça. O corpo todo descoberto; exausta. Eu a admirava. Cara. Era absurdo como as coisas haviam mudado e em tão pouco tempo. Ela ressignficava a minha vida, as coisas à minha volta. Uns anos antes e eu teria associado cada viga naquele chão às noites passadas fumando maconha com a Dani ao meu lado. Meu deus. A um outro tipo de sexo, a uma outra rotina que agora mal me pertencia. Esgotada e resmungando para o Fernando, noutro cômodo, com o meu corpo lutando para ficar em pé; uma semana toda sem dormir. Nuns jogos infantis. Naquele piso escuro e em claro. 

Eu estou virando uma velha, pensei. Só a lembrança me cansava, tinha vontade de deitar ali com a Mia e esquecer as horas, os dias. Por que tinha que ser segunda? Coloquei a garrafa mais adiante no chão, ao lado do seu corpo. E ajoelhei, acendendo o baseado antes de largar o isqueiro, também por ali. Deitei o corpo ao seu lado, um pouco mais abaixo de onde ela estava, colocando o braço ao redor do seu quadril e beijei a curva da sua cintura. Quase na altura da costela. A sua pele estava fria e a minha blusa morna.

Apoiei a maçã do meu rosto por um instante sobre ela, tragando, vagarosamente. Numa sequência preguiçosa. Ela se movimentou, me alcançando com uma das mãos. Não tão consciente assim. E acariciou a minha cabeça, em absoluta lassidão. Não vai embora, desejei, sem falar coisa alguma. Soltava a fumaça no ar, imersa nos meus pensamentos. Deslizei milimetricamente o meu rosto, até pressionar os meus lábios contra a sua pele. Num beijo despretensioso e meio a esmo. Ela não conseguia acordar.

_Eu preciso ir... – murmurou, sem se mover; a sua voz ressoava sonolenta no cômodo.
_Eu sei... –  sussurrei e ela suspirou fundo, como se não tivesse forças para levantar; eu passeava os meus dedos pelas suas coxas nuas, sem facilitar ou me opor à sua ida.
_Isso foi... tão fácil e tão, tão inacreditavelmente bom. Juro, meu. Fode a minha cabeça como você consegue.

Sorri. Não fazia qualquer sentido aquilo, eu. Era ela que me tirava do sério. Ela. Puta merda.

_Também... – traguei novamente, fazendo uma gracinha, e subi um pouco o corpo, apoiando o queixo em seu braço para olhá-la, ali – ...a inspiração não é nada má, né...
_Boba – a Mia riu, fechando os olhos, ainda com sono.
_Hum. E eu não... te machuquei, você acha?
_Amanhã...
_Amanhã? – repeti, confusa.
_Vamos saber... – ela fez graça, afundando o rosto em lassidão no braço, dobrado de lado ali no chão; eu mal entendia o que dizia, ela pouco abria os lábios e nem as pálpebras, semiconsciente.
_Ah. A sua mãe vai adorar.
_Vai.
_Além de sapatão, eu ainda... – beijei a sua pele – ...bato assim... – sorri – ...na filha dela.
_Ah. Mas eu vou falar...
_Oi?
_...pra ela. Que ela devia ver como eu deixei a outra mina.

dezembro 18, 2013

Bad girls

(M.I.A.)


“Agora fecha os olhos”. E ela o fez.  Ergueu os antebraços em seguida, apoiando-os sobre a cabeça – nua e recoberta em tatuagens. A sua liberdade provocava a minha. Fica. A minha boca não se movia, eu não o disse, mas o seu corpo sabia o que fazer. Estava imóvel. E linda – porra. Essa mulher. Tinha as roupas largadas a seus pés. E o meu coração pisoteado, pulsando sob os seus dedos. De certa forma os seus poros hesitavam, vulneráveis; o corpo aberto à incerteza dos meus próximos passos. Dei mais dois deles, para trás, lentos. E ela suspirou, inquieta. Encostei na porta para olhá-la. Ela ficou – no centro do cômodo, o vazio a seu redor. Os seus braços seguiam erguidos e a pele exposta. O silêncio prolongava o momento de maneira excruciante; e deliciosa.

Me agachei então. Com os olhos ainda fixos nela e a cabeça apoiada contra a porta, tirei o maço do bolso e coloquei um cigarro na boca. Mantinha uma calma calculista. Ah – você vai esperar, garota. Apoiei os cotovelos na pernas agachadas. E o som do isqueiro se fez nítido no quarto. Ela entreabriu a boca, respirando com vulnerabilidade. Eu a observava. Sem saber onde estava; e despida. Tornava-se realmente inquieta. Os olhos fechados, à minha espera. O calor de fim de tarde entrava pela janela do meu quarto, andares acima da Frei Caneca. E ainda que não houvesse vento, podia ver o seu corpo arrepiar. Solto assim no vazio e ali, em pé.

Ia – pouco a pouco –, num arrepiar; em pequenos relevos sobre os seus poros, que lhe recobriam a pele e vinham, deslizando pelo seu colo, pelo ombro, pelos seios, como uma onda de reações sensoriais. Subiam pelas suas pernas e escondiam-se sob os seus pêlos, um pouco mais acima. Era fascinante. Traguei. A primeira vez. E soltei a fumaça lentamente na direção das suas coxas, descobertas. Estava a menos de um metro. As curvas mornas formavam-se no espaço entre nós e se chocavam contra ela; a sua pele reagia. E eu assistia. Encarava a sua respiração, a acelerar. 

 Submetida aos meus jogos. 

A Mia permanecia. Em pé, ali. E torturada instigada pelo não saber. Numa vontade de mim, e em desamparo, que se tornava visível. Quase palpável. Desceu uma das mãos até a coxa, deslizando-a na perna esquerda arrepiada. O seu toque amenizava os relevos em sua pele. Foi quando os seus dedos se soltaram e dedilharam então o ar, esticando-se no vazio. À minha procura. “Vem” – ela murmurou – “por favor”. A sua respiração estava atormentada, ansiosa. Me implorava. Não. O seu corpo fazia esforço para se conter, ainda no lugar.
 
Por infindáveis sessenta segundos inteiros, eu fiquei em silêncio. Não tragava, não me movia – em absoluto. Abandonando-a no vazio, no breu das suas pálpebras. As palavras morreram no ar. E eu o fazia de propósito. A sua pele assumia aos poucos a ausência de calor, de roupas, de mim. Gelava-se. Os movimentos do seu corpo pareciam questionar se eu ainda estava lá. E onde. Observava os caminhos do ar na superfície do seu corpo. Num espetáculo quase imperceptível. O arrepiar e os ínfimos gestos que se revelavam na sua pele. Estava logo à sua frente – mas ela não me via.

Eu me ergui. Dei mais um passo e desencostei da porta, então para frente – e o som fez a Mia estremecer. Me aproximei. Em passos esparsos e vagarosos, na sua direção. Mas a passei. Ultrapassei. Pequenos movimentos da sua cabeça me acompanhavam, escutando atenta. Fui até a janela, do lado oposto à porta. Deixando-a ali. E encostei contra parapeito. Traguei mais uma vez, ainda a observando; de costas para o vidro erguido. E bati as cinzas uma única vez, no ar – fora do prédio. Caminhei de volta, na sua direção. A Mia me sentia ali, próxima. Quer? Contorceu os ombros, os seus olhos ainda fechados. Cheguei perto, muito perto. A minha boca ensaiava um beijo, na curva que ia do seu pescoço ao seu braço, mas sem nunca realmente tocá-la. Apenas a respiração. Esta, sim, a tocava. E estimulava. 

Filhadaputamente.

Uma das suas mãos ainda restava sobre a cabeça. Escorregou a outra pela lateral do corpo, sutilmente à minha procura. E dei um passo para trás. Me afastando de novo. Ela me ouvia. E suspirava – a respiração inquietava-se e a sua frustração tornava-se cada vez mais sonora. Agora sem disfarçar. Excitava-se. Num hesitante movimento no ar. Caminhei a seu redor, tragando algumas vezes. E a observando, numa tranqüilidade irritante. Os pêlos entre as suas pernas pareciam soltos no abismo do cômodo, do vazio à sua frente; os seus seios despidos. A tensão se insinuava na forma como ela contraía a boca, entremordendo os lábios. Era sutil. Apaguei o cigarro na mesa e soltei a fumaça uma última vez, antes de ir até ela.

Me posicionei à sua frente, nem trinta centímetros de onde estava. Admirava-a de perto; e a Mia podia sentir-me ali. Ela se contorcia. Os seus lábios se preparavam agora para um beijo – ainda que incerto –, as suas expressões a traíam. Eu apenas assistia. Levei uma das mãos até os seus arredores, seguindo os contornos da sua pele a um centímetro dela. Sem nunca encostar. E fazendo na minha cabeça tudo o que os meus dedos não ousavam. Eu a provocava. Deliberadamente. Ela sentia a minha presença e sorria, com o canto da boca. Breve. Antes de tornar se frustrar, a respiração funda e trêmula e em crescente expectativa. Me odiava, detestava. Eu não dava a mínima. Continuava. Sem dizer nada.

Porque a ordem era implícita. Não se mexe. Eu me abaixei. E ajoelhei à sua frente. A sua respiração disparou. Sabia onde eu estava. Observei as suas pernas se contorcerem. E me aproximei. O rosto. Dela, lentamente tocando os seus pêlos. Quase sem me fazer sentir. Deslizando o nariz, a boca entre eles, suavemente. Ainda que leve cada toque agora potencializava-se – como um estrondo em uma Igreja vazia. Eu me afastei. E a respiração da Mia invadiu todo o espaço, o quarto inteiro. Ainda em pé, intocada e exposta, ali, vulnerável. Inspirava e expirava. E eu me erguia. Voltei, cada vez mais no controle. Agora próxima dos seus lábios.

Sim. Fiz que ia beijá-la. E observei atentamente como movia-se inconsciente na minha direção. Eu não a tocava. Realmente perto da sua boca. Podia quase ouvir a sua fome. Mas a negava. E quando afastei, deixei a ponta dos meus dedos deslizar sobre os seus seios. Foram dois milésimos. O suficiente para que o seu corpo todo arrepiasse, em estado de alerta. A boca da Mia se entreabriu. Respirava sem qualquer contenção agora, inquieta e acelerada. Suscetível a mim. E aos meus passos, que eu articulava a seu redor. Com calma, calculadamente. Estava a apenas dez, oito centímetros atrás dela. As sensações ganhavam dimensões gigantescas àquela distância; e ela estremecia. 

Fiquei alguns segundos assim, em suas costas; a minha respiração chegava ao alto da sua coluna. De onde as suas pétalas de cerejeira desciam, ocultadas em sua pele pela minha sombra. Brotou um sorriso, não contido. Meu. E foi quando a beijei, enfim. Na nuca. Molhei a sua pele. E logo me retirei. Em alguns segundos, a Mia parecia prestes a explodir. O seu corpo e braços tremiam, ainda contidos no lugar. Numa espera violenta, o seu corpo todo parecia me xingar. Em pé, completamente úmida; as suas pernas se contorciam. Escorreguei as pontas dos meus dedos pela lateral do seu corpo, pela sua costela. A arrepiando intencionalmente. E num começo de beijo, agora sim, a mordi no pescoço. O resto dela permanecia. Ultrassensível, intocado. Em ansiedade. Deslizei as minhas mãos para o meio das suas pernas. E a senti. 

Completamente suja. Cacete. Foi a vez da minha respiração acelerar.

Live fast – die young, bad girls do it well.

dezembro 11, 2013

Indução

Apressei o passo. Ao passar pela porta da sala em que estava, dei uma leve corrida adiante no corredor, agora sozinha, e na recepção retomei os passos de antes. Ainda em ritmo rápido. Saí na calçada: e lá estava ela. Com as pernas de fora num shorts pin-up, de cintura alta. A puxei pela mão e a fiz virar a esquina, comigo, colocando-a contra um muro qualquer. Em um beijo impulsivo, quase automático, e correspondido. Tão correspondido. Dos que terminam o que não pudemos acabar no bar do Mackenzie. Naquele frenesi de recentes absurdos.

Os seus braços me abraçaram e a Mia correu os lábios pela lateral do meu rosto. Nuns beijos breves. Disse, no meu ouvido: “fala que é uma emergência”. “Oi?”, indaguei, sem entender. Entre os meus próprios beijos nela – na sua pele, no seu pescoço. E ela emendou: “quero ir pra sua casa...”. “O quê?”, eu ri. Beijei-a. Agora a sua boca. Intensamente. Queria consumir cada instante de quem ela se tornava. Livre. E ao meu lado. “Vamos”. “Não posso”. “Diz que é uma emergência”. “Não posso mesmo. Se pudesse eu iria, meu...”, sorri e a olhei, imprestável, “cê acha que não?”. “Só vamos! Vamos?”. E como queria – puta merda. Ô, inferno! “Não posso, mano”. “Então eu te espero”, murmurou, no efêmero espaço entre os nossos corpos. Nos beijávamos, falando em respiros. “Ainda levo uma hora pra sair, porra, cê vai cansar de esperar aí...”. “Vamos agora, então, vai”, pedia, “por favor!”. “Não posso”, eu ri.

O seu olhar me desafiava – entre um beijo e outro, uma frase e outra. “Diz que é um problema familiar”, sugeriu, se divertindo em me provocar. “Da sua família, só se for...”. “De qualquer uma”. “Não... É você que não quer voltar para casa e olhar na cara da sua mãe”, fiz graça, “aí fica aí, com essas vontades espontâneas de passar tempo comigo...”. A zombei, colocando-a mais apertada contra a parede. “Não é isso”. “Ah, não?”, eu a segurava, deslizando as mãos pela lateral das suas coxas e a beijando. Que garota incrível. “Não”. “Cagona”, eu a agarrava, deliberadamente; inebriada pelo cheiro da sua pele, do seu cabelo. Pelas suas liberdades recentes. “Tá. Talvez tenha um pouco a ver...”, riu, ela admitia. E eu achei graça. Arregona. Nos beijamos então, de novo, como se já não o tivéssemos feito cem vezes antes.

Foi quando a olhei, realmente de perto. A Mia tinha a cabeça apoiada contra o muro. Os seus cabelos morenos se agarravam ao concreto, a apenas um centímetro mais acima. A franja bagunçada. E os olhos castanhos, enormes; as suas linhas de expressão mais sutis. Me olhava de volta, numa imobilidade tranquila e confiante. Mas que desgraça.

_Tá – soltei dela, como se desse um passo para trás – Que se dane. 

Abandonei-a por um instante e voltei à produtora. Prestes a me meter numa das minhas merdas de praxe. A atribulada saída da sala coletiva contribuía para o meu disfarce; assim como a minha incapacidade de justificar o meu atraso, horas antes. Os sorrisos, afundada na cadeira e com o celular na mão, todavia, me atrapalhavam um pouco. Não sabia se os tinha visto. Encarei com desgosto as suas calças caquis e menti – descaradamente – ao meu superior: tinha um grave, inadiável problema. “É pessoal”. Do tipo imaginário. O mesmo que me fizera perder hora no almoço. E eu precisava, é, não dava, precisava mesmo, sair uma hora antes. Compenso-em-dobro-amanhã-,-faço-o-que-quiserem-,-me-desculpem-,-ah-,-por-favor--me-perdoem-,-vou-compensar-,-prometo-que-vou, declarei, quase que ensaiado. E acabei sendo liberada.

Ótimo.

Juntei as minhas tralhas e encontrei a Mia do lado fora. Só tornamos a nos beijar, mais uma vez, quando passamos pela porta do apartamento, que estava vazio. Sem Du – ainda é cedo. Largamos tudo na sala. E eu a beijei com voracidade, das reais, num tesão que nos tomara naquela tarde, as energias em sincronia. O sol, aquele calor nas ruas de São Paulo, e os acontecimentos recentes; tudo se misturava. Ela mordeu o meu lábio e me beijou de volta – ainda mais. Mais minha do que antes. Antes da ligação, das voltas na Maria Antônia. Nos dirigimos ao quarto sem combinar uma palavra. E ela fez que me segurava o rosto com as mãos, assim que a porta bateu por detrás do meu corpo, mas eu a afastei. Ela me olhou. Fez de novo que vinha na minha direção e eu a recusei. Repetidamente. Dei um passo para trás, então. E a encarei com seriedade – “tira a sua roupa”.

Ela não me perguntou, nem relutou a obedecer. Com os olhos fixos nos meus, tirou. Toda.

Intervalos dela

O beijo valeu a bronca. O sócio da minha chefe era desses que combinam calça caqui com camisa branca e, de alguma maneira muito além da minha compreensão, conseguem estar casados com uma – pasmem! – mulher. E uma mulher daquelas, ainda por cima. Não há quem me explique. Cheguei na produtora e vi a sua boca mover-se na minha direção, conforme eu sentava na minha mesa, quarenta minutos após o fim do meu horário de almoço, mas não escutei uma palavra do que dizia – algo sobre responsabilidade ou permissividade corporativa, sei lá, o de sempre. Não prestei atenção. O meu pensamento estava obcecado na Mia. Era só isso que me vinha à cabeça. Repetidamente: Mia. Mia. Ah, a Mia. Era tudo o que eu conseguia pensar. Nela.

E na forma como sorriu quando a beijei. Porra.

Depois de deixar o bar pela segunda vez, subindo a Consolação, quase passei reto pela Paulista. Toda boba, nem percebi, tamanho era o efeito das reações da Mia em mim. É – eu ficava mesmo idiota. Agora, sentada em frente ao computador da empresa, pensava em como ela enrubescera, por um segundo, antes de rir. Ao final daquele beijo. Meu deus. Eu podia beijar aquela garota por cada minuto pelo resto da minha vida se isso significasse, toda vez, ver as maçãs do seu rosto tornando-se rosas, assim; senti-las mornas sob os meus dedos. Observar como o canto da sua boca antecedia os seus sorrisos. Admirada com as sutilezas. Sim – porque eu decorara cada expressão dela. Cada gesto. Todos eles: especialmente os que me queriam por perto.

Esperei as coisas se acalmarem no trabalho. Então tirei o celular do bolso e digitei: “Mto caos dps q. saí?”. “Sim ;)”. E eu ri sozinha. Afundada na cadeira, ignorando completamente as minhas tarefas. “Desculpa?”, mandei, sem qualquer genuinidade. “Haha! Acho q vc ñ ta arrependida...”, ela retrucou e eu achei graça. Não mesmo. “Vc tá?”. “Ñ”. Sorri. Interrompendo a sequência de mensagens, quando alguém numa mesa distante gritou para que eu passasse um dos nossos modelos de orçamento. Deixei o celular de lado por um instante, checando o meu e-mail. E senti a mesa vibrar. Assim que enviei o arquivo, fui ler o novo SMS: “Temos q repetir algum dia”. Eu sorri, incessantemente. “Por mim td bem :)”.

Por algum tempo, depois, as mensagens cessaram. Presumi que ela entrara enfim na reunião que tinha com o orientador naquela tarde – para a qual também se atrasara. Duas ou mais horas depois, outro SMS da Mia chegou. “Q vc ta fazendo?”. Pensando em você, respondi mentalmente. Eu me divertia, escrevendo eufemismos. “Ah! Umas paradas meio bobas, rs...”. “Alguma chance de sair mais cedo?”. Olhei para o relógio e ainda eram cinco da tarde. Não. Várzea demais. “Ñ dá. Atrasei dps do almoço, ia ser mta cara de pau pedir pra sair antes, ainda falta 1 hr...”, respondi. E me virei para ver quantas pendências constavam na minha lista – uma série de post-its que eu colava no monitor, desorganizadamente. Ela mandou: “Sai pra fumar então”. E como não respondi de imediato, emendou: “Pode?”. “Posso”, estranhei, “qr q. eu te ligue?”. “Ñ”. E eu não entendi nada. “Ñ?”. “To aqui na frente”, ela respondeu.

Mal terminei de ler e levantei numa afobação tamanha que quase derrubou a cadeira, fazendo todo mundo olhar para mim, enquanto eu alcançava às pressas o maço na segunda gaveta da mesa. Merda. Sorri, meio amarelo, e anunciei que estava saindo para fumar o óbvio.