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janeiro 25, 2014

A Inconveniência

Comemos adiante na Augusta, no tal Rock ‘n’ Roll Burguer. E insatisfeita com a sobriedade amontoada naquelas calorias, a Mia propôs que parássemos num boteco antes de voltar para casa. Tomamos duas doses cada. De rum. E as garotas tomaram apenas uma. Mal passavam das três – ainda cedo na madrugada de São Paulo –; as pessoas brotavam dos bueiros da Peixoto Gomide, numa sujeira humana e alcoolizada. As ruas lotadas.

Ao passarmos pela esquina com a Alôca, encontrei dois amigos que já não via há algum tempo. E que agora – aparentemente – estavam juntos. Ou algo assim. O Filipe era uma bicha de 1.80, gato e ativista LGBT, porraloucapracaralho, que tinha suas mãos metidas no bolso de trás do jeans do Breno, um amigo já há anos nosso, charmoso, não fossem os dentes amarelados, cujo cabelo enrolava numas pontas selvagens e bagunçadas. Estavam descamisados. E sorriam à toa. Conversamos por uns dez minutos, em pé na calçada, e eu aproveitei para roubar um goles largos da vodka que eles tinham em mãos. 

Quando a Mia retornou da fila – foi comprar cigarros no boteco lotado ao lado –, eu me despedi dos dois. Ela passou o maço para mim e encontramos com a Marina mais adiante, já rua abaixo. Na própria Frei Caneca.  Acendi o cigarro e segurei a mão da Mia, conforme descíamos. Traguei duas vezes antes de dividir. A Vivian trançava os pés no asfalto, arrependida daquela última dose, provavelmente. E a Marina se divertia, saltitando em cima dela, também bêbada. Sequer acendemos as luzes. Quando chegamos no meu apê, as duas se largaram no sofá e dispensaram os lençóis. “Certeza que cês não querem que eu pegue?”. Sem resposta. Eu e a Mia seguimos para a cozinha, no escuro, e eu peguei uma garrafa de Bacardi já aberta na geladeira. Uma luz fraca entrava pelo vitrô – a Mia sentou sobre a pia, estava bonita.     

_Hum. Eu tenho uma pergunta... – cochichei, me aproximando, e sorri antes de tomar um gole no gargalo – ...você acha que elas estão capotadas lá ou se pegando?
_Bom... – a Mia zombou, tomando o rum dos meus dedos – ...ou isso, ou gorfando no banheiro, não é... – bebeu.
_Provavelmente a terceira opção... – eu ri.
_Meu, você precisa trocar de amigos...
_É. De fato, eles costumavam aguentar mais o tranco.

Nos entreolhamos, achando graça. Bêbadas como um par de gambás. Cacete. Ver a Mia sorrir me tomava todas terminações nervosas do corpo, num só arrepio; não importava o quão consciente eu estivesse. Ou o contrário. Coloquei o meu corpo entre as suas pernas. Inebriada. Elas estavam descobertas, em um shorts emprestado. Havia largado os meus tênis perto da geladeira, pisando agora de meias, sobre o piso frio. Beijei o seu colo. Pouco acima da gola em sua regata, à esquerda. O seu ombro estava na altura do meu rosto. Observei a forma com a luz a tocava a pele, sentada ali na pia; os seus dedos envolviam a Bacardi de vidro, apoiando-o sutilmente sobre as coxas.

_E-eu... Tenho uma pergunta para você, também... – ela deu mais um gole, me olhando detrás da garrafa.
_Hum.

Me entregou o rum. Hesitando por um instante, ao observar a minha reação. “Fala”, a encorajei. Rindo. E ela abaixou a cabeça, encarando as próprias mãos. Agora vazias. Só então murmurou: “Você sente... falta dele?”. Soltou no ar, como se o assunto fosse iminente. Suspirei. O Fer. Incomparável a Marinas e Vivians e Brenos e Filipes. Ah – ele, sim, sabia beber. Tentei rastrear de onde vinha o assunto, surpresa com a pergunta.

_Não vamos falar sobre isso... – sorri e lhe pedi, passando a mão na sua perna.
_Sente? – ela insistiu, mesmo que já soubesse a resposta e eu intervi.
_Você sabe que sim.

As luzes da cozinha estavam apagadas e a sua voz, baixa. Em introversão.

_E v-você me culpa? – sussurrou, por que estamos falando disso, garota? – Pelo que aconteceu...
_Como assim “te culpo”?
_Por... sei lá. Pela briga. P-por tirar ele da sua vida.

Claro que não. A olhei de volta. E me inquietou o fato da Mia sequer cogitar isso. Deixei o rum sobre a pia. Ao seu lado. E subi as minhas mãos pelas suas coxas, segurando-a na cintura. Lhe assegurei:

_Você não tem culpa de nada, Mia. As coisas só aconteceram, porra. Eu nunca ia te ressentir, não por isso. Eu gosto de estar com você – de novo: por que esse assunto?! –. A minha briga com o Fer tem a ver com como ele reagiu, a tudo isso; com como eu decidi levar o meu relacionamento com você...
_É. M-mas fui eu que contei. Até eu chegar, vocês...
_Cara, nem começa. Nem entra nessa brisa – a interrompi –, que não é assim. N-não é como se... – suspirei; procurava na minha cabeça, sem saber o que falar – Eu... Tipo, eu sinto falta dele. Não vou dizer que não sinto, porque sinto. E é difícil. Pra caralho. Eu conheço o Fer há mais de dez anos, é lógico que eu penso nele, a gente já viveu muita coisa junto. Mas é uma parada que eu vou ter que me acostumar, meu. Eu não acho que é culpa sua.
_Mas você não se arrepende? – lamentou – Nem às vezes?
_Não, meu... Larga mão de ser besta. E outra, eu vou acabar me acertando com ele. De um jeito ou de outro. O Fer vai ter que entender, meu; nem que eu force o bagulho – sorri –. Eu me recuso a viver brigada com ele.
_Hum... – ela sorriu, ainda desanimada – Bom. Eu também sinto falta dele.

Sente? E por que? Por que mesmo estamos falando disso?!

_Assim... Não c-como... – ela se afobou, tentando não causar a impressão errada – ...como se eu quisesse voltar, nem nada disso; eu só, sei lá... penso nele, às vezes. Aqui, no apê. Ou com o Du. Na Augusta, não sei. Às vezes sinto vontade de trombar com ele, de saber como ele tá...
_Eu sei. Eu sinto a mesma coisa, ainda que... – achei graça – ...provavelmente não fosse ser muito agradável, se acontecesse mesmo.
_É. Provavelmente não – ela arqueou as sobrancelhas, rindo.  
_Meu. A gente pode, por favor, mudar de assunto? Eu tô ficando sóbria já...
_Ah. Isso eu duvido... – ela pegou a garrafa ao seu lado e tomou um gole, me olhando.
_Duvida?!

Me diverti. De fato – eu tinha bebido demais para a minha cabeça sequer cogitar parar de girar. Senti de repente como se estivéssemos há horas ali, na cozinha. Quando, na realidade, faziam apenas alguns minutos. O restante das luzes também estava desligado, na casa toda. Toquei na mão da Mia, como se a chamasse para ir para o quarto. E ela desceu da pia, me seguindo e deixando o rum para trás. Os nossos olhos já estavam acostumados com o escuro. “Você largou a garrafa?”, sussurrei indignada, ao notar. E ela riu. Deu alguns passos para trás, voltando para pegar.

_Não! Volta... Volta... – ela vinha com a garrafa nas mãos e eu a fazia virar de novo, às pressas, a afastando do corredor – Volta...
_O que aconteceu? – ela sussurrou, sem entender.
_Eu vi um movimento na sala. Acho que elas estão se comendo.
_Sério isso?! – a Mia começou a rir.
_Shhh! – eu me segurava para não rir também – Não faz barulho!
_Não. Eu quero ver...  

A segurei pelo braço, o que diabos você tá fazendo? Ela se aproximou da porta, que dava no corredor. “Cê tá louca?”, murmurei, ainda rindo, “vem pra cá”. “Que que tem?”. “A gente não pode sair agora!”. “E o seu plano é ficar a noite toda aqui?”. Eu ria, sem argumentos. Ela fez de novo que ia naquela direção. “Pára, meu”, tentava manter o silêncio, ambas atrapalhadas no escuro, “a Má vai ficar constrangida se perceber que a gente viu”. “Mas elas tavam no sofá?”. “É”, acenei, “a gente tem que sair abaixada”. “Pra quê? Elas sabem que a gente tá aqui, a gente tava conversando até agora...”. “Eu não acho que elas conseguem ouvir da sala...”. “Então”, a Mia brincou, bêbada, “é de propósito”. “Não é de propósito!”. “Vamos só dar uma olhada”. “Pra quê você quer ver?”, murmurei. “E por que não?”. “Volta aqui!”.

3 fases

_Tá... muito ca... lor... – a Mia erguia o rosto em busca de ar, rindo – meu... – eu apoiei a minha testa contra o seu pescoço, a sua pele estava completamente suada – ...caralho.
_Tá mesmo. Puta merda. Eu preciso de um cigarro...
_Meu, você é muito clichê... – ela me zombou e eu deslizei meus lábios na curva úmida do seu ombro, em um beijo rápido, achando graça.
_Foda-se. Preciso, mano. Vamos sair, por favor...

Estávamos ali dentro há pelo menos dez quinze minutos, enfurnadas entre batidas abafadas e beijos imprestáveis, mãos bobas. Ou nada bobas. Orgasmos práticos, alucinados.

_E aí... – a Mia ergueu a sobrancelha e o zíper, simultaneamente, do seu shorts – Quanto você acha que estão nos odiando lá fora?
_Sei lá. Muito. Na real, eu tô tão bêbada que nem ouvi porra nenhuma...
_Ah, mas vai ter uma fila de minas furiosas... – ela observou e eu a beijei contra a parede da cabine.
_Olha a minha cara de quem dá a mínima... – ri.

Peguei a minha blusa, largada sobre a tampa da privada, e abri a porta do banheiro antes de a vestir. A Mia ajeitou a regata preta, também, saindo atrás de mim. Uma fila enorme de pessoas se acumulava do lado de fora, conforme eu cobria o sutiã, colocando a blusa no corpo. Segurei a mão da Mia ao sair e caminhamos para a pista. “Vamos pra fora”, disse no meu ouvido e desviei das pessoas, indo à sua frente naquele caos. Um cara tocou o meu ombro, do nada. Detestava quando elogiavam as minhas tatuagens com as mãos. Argh precisa encostar?

Nos apertamos entre os fumantes do LAB, a noite estava tão quente quanto as demais naquela semana. E a movimentação embriagada parecia agravar ainda mais o espaço estreito. Cotoveladas, risos exagerados e gestos impensados; as brasas perigosamente acesas. Caralho – “foi mal”. Sem querer queimei uma garota ao meu lado, duas vezes, ao abaixar a mão para agarrar a Mia, que estava apoiada na parede. Sorri, pedindo desculpas. Mas ela me encarou atravessado. Só fomos encontrar a Marina uns minutos depois, meio dançando e meio falando pelos cotovelos com a Vivian, lá perto da entrada. Começava agora a demonstrar sinais de todo o álcool ingerido.

_Onde v-vocês foram? – perguntou, arrastando a voz, e sorriu ao nos ver.
_Por aí – ri e a encarei –. Cê já tá bêbada, né?!
_Só um pouco...
_Um pouco?! – a Vivian tirou sarro, olhando-a – Faz dez minutos que ela não cala a boca sobre... como era o nome?
_E-esfiha!
_Não. O outro.
_Qual? Almofadinha. O-ostra...
_”Almofadinha”.
_P-periquita... – a Marina seguiu tagarelando.
_Não, era esse. Era “almofadinha”!
_Por favor – eu comecei a rir da cara dela –, diz que você não chama disso? POR FAVOR, MEU.
_Que foi? É fofo!
_Ah, Marina! Porra. “Almofadinha”, mano?! Não é pra ser fofo, caralho. Você vai comer a parada!
_Então, m-meu... esfiha! É perfeito. Tem até o... o formatinho – fez um gesto com as mãos e empurrou o óculos, ajeitando-o sobre o nariz, bêbada.
_Não. Nada a ver.
_Esfiha de peixe, só se for... – a Vivian brincou e eu fiz uma careta, indignada.
_Mano, cês duas tão numa brisa muito errada...
_Ah! E você chama do quê por acaso? – a Marina me provocou, já quase cambaleando, à minha frente.
_Sei lá, porra. De nada! Só coloco no prato e como!
_Do que vocês tão falando, cara? – a Mia questionou e eu ri.
_Ah! E não tem nome? Quando cê vai num restaurante, por exemplo – a Marina continuou, argumentando –, como v-você faz... pra pedir os p-pratos, hum?
_Meu, DO QUE CÊS TÃO FALANDO??
_O nome não é importante se só tem uma coisa no cardápio...
_Como não é importante? Cê tem que chamar de alguma m-merda pro garçom s...
_Eu não envolvo caras no processo, Marina.
_Você entendeu meu argumento!
_Gente, que esfiha? – a Mia continuava perdida, interrompendo alcoolizada, com o cabelo desarrumado do “passeio” que demos no banheiro – Que almofada?? – as suas tatuagens à mostra na regata – Do que vocês tão falando??
_De boceta – a Vivian esclareceu, fina.
_Ah...
_Deus... – eu achei graça, segurando o seu rosto, e a beijei – Eu esqueço como você ainda é héterozinha.
_Ai. Nossa – a minha ex resmungou, então, encolhendo os ombros –, nem falem. Eu odeio essa palavra.
_Hétero?
_Não – a Marina riu, me olhando – A outra. Se bem que hétero também não me agrada... – brincou.
_Boceta?
_É. Pára! – ela me empurrou com o corpo – Não fica falando assim.
_Meu, e falando em hétero... – a Vivian comentou, mudando o tom – ...tinha um babaca aqui dando em cima da Marina. Acredita? Agora ele sumiu, mas, mano...
_De você?

Perguntei, me tornando imediatamente inquieta. E a Marina notou.

_Não. Não foi. Foi de nós duas... E não aconteceu nada!
_Mas ele ficou te enchendo? O que ele fez?! – eu já me irritava.
_Ficou.
_NÃO ficou – a Marina censurou a resposta da Vivian, olhando na sua direção, na mesma hora –. Ele só estava brincando, foi brincadeira. E ele nem ficou tanto temp...
_Não, imagina. Não ficou tanto tempo! Você levou só uns cinco minutos pra se livrar do imbecil. Ficou pegando no seu cabelo. Pedindo pra assistir a gente, pra gente se beijar. Mor, ele era um nojento!
_Quem é o cara?
_Não tô mais vendo ele...
_Ó! Pode parar, as duas – a Marina se intrometeu; eu e a Vivian já havíamos engatado uma conversa acalorada prestes a ir à caça – Ninguém vai fazer nada aqui, ouviu? Já passou.
_Eu não vou fazer nada. Eu só quero saber que foi o cara.
_Eu te conheço há seis anos, flor. Você não quer “só saber”. E eu NÃO VOU te falar quem era.
_Ele tava de blusa vermelha. Da Abercrombie, acho...
_Pára de incentivar ela! – a Marina deu um tapa no braço da Vivian e a Mia riu, só então se manifestando.
_Gente, vamos comer em algum lugar? Eu tô com fome...
_A gente já vai – ignorei o pedido, me voltando à Vivian –. E aí? Você tá vendo ele?!
_NÃO. NEM RESPONDE. A GENTE VAI AGORA!

A Marina declarou, puxando a atual namorada e a mim pelo braço, em direção ao caixa. Eu comecei a rir. A Mia nos seguiu, indo atrás, e colocou os seus braços ao redor da minha cintura. Abraçando as minhas costas, com carinho. “Deixa que eu levo”, falou à Marina. E eu me senti escoltada, vocês estão exagerando.  Eu só queria bater um papo, porra. “Amigável”.

janeiro 13, 2014

E as filas furadas

Sair tornara-se estranho para mim nos últimos tempos. Eu me sentia deslocada na Augusta. É. O que por si só já soa absurdo e completamente contraditório à minha personalidade partyhardsãopaulo da Frei. Sempre me orgulhei do meu pertencimento àquele universo, às suas ruas sujas. Cotidiano para mim e para o Fernando, para os amigos que cultivamos juntos; aquela era a nossa vida. E esse era o problema. Era com esse passado recente e mal resolvido que eu agora arriscava topar, toda vez que pisava para fora de casa. Tínhamos colegas em comum que trabalhavam na Augusta; gente que conhecêramos pelos botecos; amigos e amigas que frequentavam a região assiduamente. E que a esta altura, provavelmente, me odiavam.

Desde a nossa briga, portanto, eu me afastei. Do lugar que eu mais amava em São Paulo. Das pessoas. Pois é. Com vergonha do que fiz e resumida à minha filha da putice. Ainda por cima com a certeza – infeliz – de que ninguém ficaria do meu lado. E não que eu discordasse da escolha. As minhas madrugadas começaram a ser passadas, então, no apartamento, com a Mia no quarto ou bebendo com o Du na sala; por vezes ia na kitnet do Gui ou ainda na casa das meninas, da Lê. Da Marina. Não que isto fosse ruim – não propriamente dito –, eram apenas outros quinhentos. Ninguém me pediu ou impediu. Eu é que me forçara àquilo. Fora o curso natural. Para fora do meu círculo de amigos mútuos com o Fernando. E para fora da Augusta.

Inconscientemente. Vivia agora em outra dimensão. Num universo paralelo, assim de repente. Em que a Mia era minha e os meus amigos não, a minha vida não. O meu passado ficara noutro mundo. Os meus dias ganhavam nova dinâmica. Deliciosa, sim; mas eu não ligava e nem via mais as pessoas usuais, que antes estavam na minha vida. E não tinha o Fer – isso era o mais bizarro. De tudo e todos. O mais doloroso. Ainda que a arrancada dele da minha vida tivesse sido tão violenta que eu não me sentisse propriamente na minha pele. Não chegara a processar a informação. O que era – de fato – não tê-lo. Vivia aquém. Num mundo meu e da Mia, no qual fumávamos maconha em calçadas com a Marina e a sua nova namorada, indo para uma balada qualquer. Lugar onde, aliás, a minha ex há muito não pisava. Era tudo meio deslocado. Desconfortável, desconfiado. E atraente, ao mesmo tempo.

Estava determinada naquela madrugada a fazer a Marina beber. É. Tomar o maior porre do ano. Ah, é hoje mesmo, planejei, assim que pisamos dentro do LAB. Ia se ver comigo, ela e aquela sua vida certinha sem excessos – a não ser o de palavras –; ah, se iam. Aquela talvez fosse a única oportunidade que teria em muito tempo. A Vivian juntou esforços comigo. Provavelmente interessada nos desdobramentos sexuais de todas aquelas caipirinhas de catuaba que a namorada tomava. Durante toda a noite, porém, a boca da Mia tirou o foco da minha missão. Me distraindo, terrivelmente. Eu me afundava nos seus beijos e me perdia no tempo. Naquela pista quente do LAB, fervendo todo o álcool que mandávamos para dentro.

_Pára! – a Marina brigou comigo, assim que as nossas tequilas aterrissaram no balcão – Eu não aguento mais.
_Você bebeu menos do que todo mundo aqui!
_Eu bebo menos do que todo mundo aqui. Naturalmente.
_Nem vem, mano. Agora é questão de boa educação, porra!
_”Boa educação” – ela revirou os olhos e riu, me apontando, juntamente com a Vivian – Vocês duas, meu, eu devia saber! Devia saber! Que iam ficar confabulando aí, uma com a outra contra mim. N-nenhuma de vocês... – ela suspirou, mais bêbada do que admitia e rindo – ...presta. NENHUMA!
_Prestar não é o meu objetivo na vida, Marina.
_Ah! E me embebedar é, né?
_Meu, é só para você não ser tão quadradinha. Ir soltar a franga lá na pista.
_Nossa, você faz soar muito atraente isso... – disse, irônica, e eu virei a minha tequila, colocando o copo vazio ao lado do seu, ainda cheio.

Fresca. “Bebe logo, mor!”, a Vivian me defendeu. As duas tinham uma dinâmica engraçada, pareciam se completar. De um jeito estranho e gostoso de se observar. Faziam birra e se cutucavam, conversavam um monte. Enquanto eu e a Mia nos agarrávamos. Incessantemente. Falar nunca foi o nosso forte. E não fossem as tatuagens, nos tomariam por duas adolescentes na certa. “Só mais essa”, minha ex levemente alterada declarou, virando a tequila com uma cara de limão azedo. E eu ri. Ela me entregou então o copo, junto com um olhar de “está vendo só?” debochado. Foi quando me dei conta de que a Mia havia sumido.

_Meu... – olhei a meu redor, já com a fala arrastada – ...cês, c-cadê a... Cadê a Mia? Cês viram??
_A-há! Ela foi no banheiro – a Marina se divertiu –, viu, observe a vantagem de se ter alguém sóbria no grupo.
_O quê? Saber o itinerário da privada?! – a Vivian riu dela.
_Mas foi mesmo? Você viu ela indo, Má?
_Não vi. Ela só avisou...

Saí. Na mesma hora. Merda. Sou uma idiota. Esperara por aquele momento a droga da noite toda e, é claro, quase deixara passar. Bêbada estúpida. Caminhei em direção aos sanitários, tentando vê-la de longe. A pista lotada dificultava o meu acesso – e a bebida um pouco mais. Perdera a conta das tequilas. Quando me aproximei e consegui identificá-la, a Mia já era a seguinte na fila. Fiquei de longe, só olhando. E assim que entrou, sem me ver ali, me coloquei na frente da sua porta. Uma mão em cada lateral da cabine. Vem, sai – eu me divertia, por antecipação. Ignorando todos os resmungos das pessoas que esperavam antes de mim.

Quando a porta tornou a se abrir, a Mia, que saía desatenta, se surpreendeu. Mal dera de cara comigo ali, a meti de volta para dentro. “Que você tá fazendo?!”, ela questionou e riu, bêbada, sendo empurrada contra a parede. Tranquei a porta. Com as mãos nela. E a beijei avidamente, lhe tomando até o tempo para respirar. Tudo. O que parece que estou fazendo, garota? Ela me agarrou o tecido do shorts, me pressionando contra o seu corpo. E eu abri o seu meu.

O que eu não fiz no Vegas, porra.

O Retrovisor

Lá estava. A cara de descontentamento da Marina, assim que as duas nos alcançaram com o carro na Paulista. Franziu a boca e as sobrancelhas ao mesmo tempo. A Vivian ria ao seu lado. E a Mia tentou se explicar, mas acabamos nos enrolando ainda mais, sem uma justificativa aceitável. O fato é que achamos a peça um porre. E ela não quis saber, detrás dos seus óculos pretinhos, virando para o banco de trás repetidas vezes e nos fuzilando com os olhos, enquanto tagarelava. Meio brincando, meio séria. “Pois eu devia fazer vocês pagarem o dobro pelos ingressos”, resmungava contrariada. Imagina alguém que me obrigou a assistir Volver três vezes – é. Eu lhe garanti então que pagaria de volta. Em dobro. E em tequila.

_Eu não vou beber hoje, flor. Estou dirigindo.
_Ah, vai, sim... – eu ri, afundada atrás com a Mia, lhe respondendo alto – ...deixa o carro na minha garagem e vamos, mano! Aí cês dormem lá em casa, a gente pode ir a pé...
_É, mô... – a Vivian a incentivou, com as pernas dobradas no banco do passageiro, em seu shorts verde-escuro – ...parece uma boa, meu.
_Não. Dormir fora?
_AH, VÁ! MARI-NÁ... – empurrei o seu banco com o meu joelho, reclamando – Deixa de ser mala, mano. Só uma vez na vida, porra. Qual o problema?
_É, mor... – argh, todo meu horror a quem diz “mor” romanticamente, revirei os olhos brevemente – A gente fica lá, assim você pode beber junto, meu. Qual o problema?!
_Não quero. Primeiro que eu ainda estou brava com vocês. As duas aí atrás. E segundo que, meu, nem a pau... Mas-nem-a-pau-mesmo! Eu tenho certeza que vou acabar de babá das três – argumentou – e ainda é capaz de todo mundo ficar bêbada e saidinha, a gente ir pra sua casa... e isso não vai dar certo.

Quê?

_Mas que diabos...? – eu comecei a rir, claramente entendendo antes das outras duas – Que é agora? É um plano maquiavélico? Você tem medo de dormir na minha casa, é isso?!
_Eu não falei sério. E você entendeu o que eu quis dizer...
_Marina... – eu gargalhava – ...você tem problema, cara. Mesmo.
_Do que cês tão falando, meu? – a Mia nos olhava confusa, ao meu lado.
_”Do quê”. Ela acha que eu quero comer ela... – a zombei, de forma não muito sutil, levantando as mãos sobre os ombros – As duas. AS TRÊS, ALIÁS! – ri – Né, ô, Sra. Motorista?
_Não foi isso que eu diss...
_Ah! Foi. FOI, SIM! – a interrompi, já gritando dentro do carro, exaltada; sem nem ter começado a beber ainda – Sim, senhora! Meu, muito foi... MUITO! – eu ria – Não vem querer consertar agora!
_Não. Eu não disse que você queria. Eu só estou dizendo que conheço a Vi e que te conheço o suficiente, bêbada do jeito que você e do jeito que posso imaginar que a Mia também é – “ei!”, ela contestou e a Marina continuou, como se explicasse logicamente –. E depois vai dormir todo mundo na sua casa, assim, como se nada fosse?
_DO QUE CÊ TÁ FALANDO, MANO?!
_Olha. Eu acho assim... – a Mia interferiu, de repente, dando com as mãos para cima – ...na boa? Só você pensou isso, Marina. Ninguém mais falou nada.
_É! Verdade! – eu concordei e nos divertíamos, sentadas no banco de trás com os olhos no retrovisor, nos dela – Pegou mal, meu. Tem que ver isso aí... Fica subvertendo as coisas assim. Isso é sinal de que quer.
_Relaxa que eu divido, Má...

Divide?, pensei surpresa, levando a brincadeira a sério por um milésimo de segundo e beijei a Mia impulsivamente, antes de tornar a rir. Olhando-a entre as sombras do banco de trás.

_Não, muito obrigada – a Marina me rejeitou, fazendo graça –. Pode ficar. Dessa daí não quero mais nada... Já deu a minha cota.
_Bom, né?! – a Vivian riu.
_Ah, não? Não, é? Não quer? Sei bem... – fui mais para a frente, cutucando-a no banco do motorista, enquanto ela tentava dirigir e me bater simultaneamente, para que eu parasse de encher o saco – Quer, sim... Quer. Vai. Admite. Se denunciou toda aí, fica desejando a gente, meu. Com medo de ir pra casa e não se controlar, agora vai. Se solta, Má... Vem! – , era óbvio que ninguém ali estava falando sério, mas provocar a Marina até ela me dar uns tapas desajeitados, enquanto a Vivian e a Mia assistiam aos risos, era fácil demais – Vem, meu. Dorme lá com a gente, pô. Cabe todo mundo... Eu e a Mia ficamos tão sozinhas naquele apartamento...
_Olha, eu já tô consentindo... – a tal Vivian brincou.
_AMOR!

Cara, gostei de você, pensei. E a Marina lhe lançou um olhar indignado, por sua vez, sem saber se ficava brava ou se achava graça.

_Quê? A gente só tá brincando, meu...
_Eu não. Meu voto é que a gente nem vá pra Augusta, meu... – a Mia sugeriu, com as pernas entrelaçadas na minha no banco de trás, rindo.
_É! Vamos direto. Vira aí, Má... – indiquei conforme nos aproximávamos da Frei Caneca, no semitrânsito da Paulista às dez.
_Ninguém mandou sugerir...
_Nossa, verdade, Má... – mudei de tom, me tornando séria – ...eu nunca que esperava isso de você. Sabe, de mim, da Mia, ok. A gente é porralouca, já fez um monte de merda na vida. Desculpa, Vivian, eu não te conheço; mas você, cara... Você, Marina?! Logo você! Que, meu, que sempre foi tão certinha. E agora fica aí convidando pra essa pouca vergonha...  
_Quando você acha que conhece uma pessoa, né... – a sua nova namorada lamentou, em clima de esquenta para o que seria uma longa noite de bullying na Marina.
_Não é, meu?! Você acha que ela é boa amiga, que te escuta. Que não tem segundas intenções. Quando na verdade...
_ESCUTA AQUI! EU VOU PARAR O CARRO E VAI TODO MUNDO DESCER!

Nós rimos. E soltamos um sonoro “ahhh!” em coro, tirando com a cara dela. As suas bochechas se tornavam progressivamente vermelhas – via-se pelo reflexo do retrovisor –, completamente constrangida pela brincadeira. A verdade era que eu tinha tanta intenção de comer a Marina, a Mia e a Vivian juntas quanto tinha de dar para o Du 24h antes, no lamentável incidente do sofá.

Ou seja, zero.

Mas brincar com o conceito era divertido – especialmente pela reação exagerada da Marina atrás do volante. Eu ri no trajeto todo. A região da Augusta já começava a lotar. E o relógio do carro marcava dez. Após certo convencimento – e três promessas de que nos comportaríamos –, a persuadimos a estacionar na garagem do meu prédio. O cara que alugava a minha vaga a deixava livre aos finais de semana.

Subimos e largamos tudo o que fosse importante – as bolsas delas, chave e documento do carro – no apartamento. Metemos apenas o dinheiro e o R.G. nos bolsos. Isto é, nos da Vivian, já que a Marina estava de vestido. Aproveitei para trocar a minha calça por um shorts e mudar de tênis. Andava viciada em um antigo, surrado meu, da Adidas. Vermelho. De cadarços pretos. A Mia roubou um shorts do meu armário e manteve a sua regata, soltando o cabelo pouco antes de sairmos. A Marina fez uma trança. À exceção dela, nós três estávamos visivelmente dykes ao chegarmos no elevador e darmos de cara com o espelho.

Inclusive a Mia. O que particularmente me tirava do sério. Porque não era como se eu sempre tivesse algo por garotas héteros. Muito pelo contrário, aliás. O que sempre me fez perder a cabeça foi o oposto, era ver essa fome no olhar das garotas, essa vontade de estar com outra mulher. Comigo, no caso. E a Mia sempre tivera isso; ainda que no começo não fosse claro se ela o tinha mesmo ou se era eu quem estava enxergando o que bem queria. E naquela noite, em particular, puta que pariu. Ela estava maravilhosa. Era impossível não ficar fascinada por aquela mulher, assim. Devolvendo a careta para a Marina, ao acender um baseado na calçada da Frei, e sorrindo para mim. Uma das suas pétalas de cerejeira se tornava visível por cima do seu ombro – mesmo de frente. E eu a observava.

Andávamos sem saber direito onde íamos. A Vivian quis ir no Mono. E eu rejeitei prontamente. “Não, meu”, resmunguei, “lá é caro pra caralho”. Passamos na frente então da Outs e do Caos, ambos com gente transbordando para fora da porta. Às onze, o que era cedo e mau sinal – a Augusta ia ferver.

janeiro 11, 2014

As brasas e uns filtros

_Estava, sim... – a Mia riu.
_Não estava, caralho. Você acha que eu ia dar em cima de você na frente do Fer e do Benatti, mano?! Tá louca?? Isso é coisa da sua cabeça.
_Nada disso – ela tragou e balançou a cabeça, fumando ao meu lado conforme subíamos a Vergueiro –. Eu me lembro perfeitamente desse dia, cara. Você tava alucinada, ficou me olhando por dez minutos direto na pista, meu; você que estava bêbada e não lembra...
_Eu não estava tão bêbada aquela vez.
_Estava, sim... – ela riu, de novo.

Íamos a esmo na direção do Paraíso. Chegávamos já na altura da estação, sem perceber que nos afastávamos consideravelmente do Centro Cultural. A Marina ia me matar. Levei o filtro à boca, observando a Mia equilibrar-se pé atrás do outro no meio-fio. As suas costas desenhadas revelavam-se por debaixo da regata. Estava linda. Insistia que eu a tinha xavecado em uma noite séculos antes, quando fomos no Vegas acompanhadas do Fer e do Rafael. A noite se desdobrava de forma leve. Toda a discussão começara porque sondávamos o que fazer naquela sexta, quando as garotas deixassem a peça, e eu mencionara – com saudosismo – as baladas de sexta do falecido Vegas.

_Meu, você tem que lembrar! A gente se cruzou no banheiro, porra... Como você não lembra?
_Você sonhou com isso... – eu me divertia, soltando no ar a fumaça.
_EU NÃO SONHEI! Você que não lembra, mano... – ela riu, indignada – E outra, você acabou de dizer que sabe que dia foi. Claro que lembra!
_Ah! Do dia eu lembro; só de encher a lata e ficar te encarando na frente dos moleques, de trombar com você no banheiro, isso não.
_Eu tava saindo e você entrando – explicou –, olhou direto na minha cara. COMO NÃO, MEU? Você tem que lembrar! Eu tinha certeza que você tinha ido atrás de mim no banheiro. Certeza absoluta! E eu, idiota, voltei para a pista... – riu, dando um passo calçada adentro e deixando o meio-fio – Meu, como assim... Tô inconformada. Eu fiquei remoendo essa droga dessa noite por meses e você me diz que não se lembra??
_Você tá louca, cara. Não aconteceu nada disso – eu ria.
_Aconteceu, sim!
_E mais, eu não sei nem por que você lembra dessas coisas... Eu tenho certeza que já fiquei te encarando um monte de outras ve...
_Não! Mas é que... – ela me interrompeu e eu traguei mais uma vez, olhando-a de perto, achando-a maravilhosa; bati as cinzas de qualquer jeito no ar e a observei gesticular, revoltada – ...meu, esse dia foi muito, muito, argh, não sei explicar! Você tava me comendo com os olhos, porra. Foi muito além do normal. Eu tava ficando louca e o Fer lá, do lado. E você não fazia nada!! Que ódio! No banheiro eu tive certeza que ia rolar alguma coisa...
_Rolar o quê? O que eu possivelmente poderia fazer? – aumentei o tom de voz, ainda rindo – Mano, o banheiro do Vegas era puta várzea! Não dava pra fazer nada ali!
_Sei lá, ué! Você que me seguiu até lá...
_Eu não segui. Meu, pára, isso não aconteceu – insisti –. Na boa, se aconteceu, foi muito sem querer...
_Não foi sem querer! Como sem querer?? Quando eu saí da cabine, você tava apoiada na pia. Lá! Na minha cara! Com a droga daquele s-seu... jeito! Você acha que foi ACIDENTAL?! Não foi. Tenho certeza que não foi.
_Mas você estava como? Estava levando numa boa?
_“Numa boa”?
_Ah, sei lá. Você ficou brava? Porque sabe, né, para você ficar brava comigo naquela época bastavam dois segundos... – brinquei e ela me bateu no braço, em reação, bem de leve.
_Idiota. Claro que não.  
_Hum. Então você estava gostando...
_Besta – revirou os olhos, rindo.
_Estava...
_Cala a boca, meu. Você se acha!
_Ah! Estava lá, toda secretamente querendo que eu te desse um beijo, né? Pode falar – eu brincava, já terminando o meu cigarro.
_Estava, sim... – ela sorriu, arqueando a sobrancelha brevemente.

Pareceu, todavia, que tinha mais a dizer. Esperta. Seguiu andando como se encerrasse o assunto; agora um pouco à minha frente. Eu joguei a minha bituca no chão e ergui o queixo na sua direção, falando alto para que me ouvisse, dada a crescente distância entre nós. “E só isso?”, perguntei. E ela se virou. Os seus cabelos entraram de leve no seu rosto, empurrados pela brisa que soprava, resultado da proximidade com a Paulista. Deu ainda uns dois passos na direção que íamos, agora caminhando de costas. E eu insisti: “Não queria mais nada? Hein?”.

Parecia. “Talvez”, ela sorriu e parou de caminhar, de modo que os meus pés chegaram onde estavam os seus. Naturalmente. Colocou as mãos ao redor do meu pescoço, ainda com o seu cigarro aceso. “Talvez?” – repeti, rindo. E busquei a sua cintura com as minhas mãos, por vez, como num reflexo. Eu me divertia. Já ela me olhava com certo constrangimento. Arrependida de ter insinuado mais. “Você sabe como eu me sentia com relação a você”, disse. “Ah, é. Como?”, a provoquei. Eu a olhava fixamente e ela achava graça.

_Como se você nunca tivesse pensando em mim...
_O tempo todo – sorri, indignada – Mas responde a minha pergunta.
_Ah! Eu quis que... – ela suspirou, por um instante, rindo da minha cara de pau.
_Fala! – insisti; divide a minha cama e agora vem dar uma de inibida.
_Sei lá. Eu estava bêbada também. Eu meio que fiquei... obcecada, por um tempo... com essa imagem de você...
_Hum...
_Me fechando de volta na cabine e... colocando a sua mão por baixo do meu vestido. Mas você não fez.
_Te comendo?
_É.
_Bom – eu ria dos seus olhos apertados, em indignação e vergonha na minha direção –, mas isso é fácil de resolver, gata.
_Meu. Você realmente não lembra?! – ela achava graça, como se tivesse ficado com aquele dia por meses na memória – De ir atrás de mim? De cruzar comigo, nada??
_Não...

Ri. Sinceramente, sem qualquer lembrança de tê-la provocado no Vegas. Não que eu me recordasse de como cheguei em casa aquele dia – o que tornava plausível eu não estar completamente lúcida em outros momentos da balada. “Meu, cade vcs???” – o meu celular vibrou com um SMS da Marina, revoltada.