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fevereiro 21, 2014

Old friend, whatcha doin' out there?

Hellbent (New Order)

_Como cê anda? – perguntei, olhando em sua direção, com certa hesitação nos meus movimentos.

O Fernando me evitava. Fumando o que restava do seu cigarro, ainda sem me encarar, com um dos pés encostados na mureta sob o portão. Não estava acostumada a vê-lo sério assim a meu redor. Todas as vezes, agora, desde a briga. “Sei lá” – respondeu, sem se virar. Não interagíamos mais como amigos – não como na última década da minha vida toda, porra. E isso me matava. Não sabia mais como agir ao seu lado. Era estranho. Meu, fala comigo direito. Sob os nossos pés, a calçada imunda da Frei emanava calor refletido de horas naquele sol quase a meio dia.

_Você... – o Fer abaixou a cabeça, deixando a fumaça da última tragada escapar em seguida – ...v-você tem visto os moleques?
_Não – ergui a sobrancelha e traguei, brincando com a minha própria desgraça – Nem se quisesse. Ninguém mais fala comigo...

Ele me observou por um segundo e desviou novamente o olhar. Passou a mão na parte de trás da cabeça, como costumava fazer. E então admitiu: “Isso talvez seja culpa minha...”. Culpa combinada, não é? Eu mereci. Murmurei de volta – “não é por menos”. E esbocei um sorriso. Parte de mim estava feliz só por trocar uma ou outra palavra com ele. Outra parte, todavia, menos orgulhosa de si, revia um sentimento de culpa que há um tempo não me tomava assim. Porque eu sabia. Sabia que a Mia estava lá em cima. Que aquela minha cara de cansada, as minhas olheiras e as mordidas pelo meu corpo eram da madrugada anterior. Ao lado dela, no nosso apartamento. É. Comendo a sua ex, olhei desencorajada para ele. E como me senti mal, cacetepor que não pode todo mundo ficar bem? Por que tudo nessa porra dessa vida tem que ser complicado? Porcaria de situação.

Soltei a fumaça, com certa frustração. E ele balançou a cabeça. “Não devia, desculpa”, lamentou, “n-não devia ser assim... Eles não têm nada a ver com a história. Não tem por que pararem de falar com você...”. Eles quem? Escuta, moleque. É de você que eu sinto falta, caralho, não do Binho. Do Rafael. Do Lipe. Da porra do Benatti. Eu temia, todavia, dizer o que realmente pensava e afastá-lo. Então abaixava a cabeça de volta, hesitante. Engolindo os meus sentimentos, a minha saudades.

_Obrigada – falei, meio enrolada nas minhas próprias palavras – A real é que eu nem tenho tido muita vontade de sair, de ver ninguém.
_Bom – riu, ainda sem me encarar –, eu por outro lado...
_É?
_É... – ele pausou, tragando, e conhecendo o Fer eu sabia que ele andava saindo com todas as garotas que não pôde ter durante o namoro; todas as que a Mia certamente odiava – E sei lá, é uma outra parada agora...
_Trocou de lugar comigo, foi? – brinquei.

Merda! O comentário me escapou. Pois é. Me distraí por um segundo, levada pela abertura dele, por menor que fosse, sem dar-me conta de que implicara a situação reversa. Mas ele, sim, fez as contas – e ficou quieto na mesma hora. Virou o rosto para o outro lado, agora com a expressão fechada. E tragou uma última vez, tacando a sua bituca de qualquer na calçada antes de apagá-la com o tênis. Inferno. Podia sentir ele me xingar, na sua cabeça. E eu me arrependia.

_E-eu não quis f... – comecei a me desculpar e ele me interrompeu, indisposto.
_A mãe dela me ligou, cê sabe?
_L-ligou?!
_Falou um monte. Nunca ouvi a velha dizer que eu fazia bem para a Mia antes – riu, irônico, com certo rancor –, quase implorou pra gente voltar... Disse que ela tava indo num caminho ruim... – abaixou a cabeça e logo tornou a encarar o outro lado da rua – E eu sabia que era de você que ela tava falando.
_É, ela me ligou também.
_Foi a primeira vez que eu não te odiei – confessou, com um pouco dificuldade; a sua voz se tornava ainda mais séria –. Que eu não odiei vocês duas.

Amargurou sua expressão. Por que?, eu o observei, confusa, tentando entender. Mas as peças não se encaixavam na minha cabeça.

_Mas eu n-não... – ele se exaltou por um segundo, tentando não se irritar – ...merda. É foda, saca. Deixa pra lá! – virou o rosto para o outro lado da calçada, na tentativa de se acalmar.

fevereiro 15, 2014

Quem mais?

_Com aquele louco do seu amigo... – o Du disse, ainda em pé perto da porta – ...que morava aí; ele tá lá embaixo, fumando.
_O Fer?? Ele tá aqui?!

Pulei do sofá no mesmo segundo, largando o cigarro aceso em cima do cinzeiro.

_O que você tá fazendo? – a Marina me olhou, agitada – Ei!

Mas àquela altura eu já estava na metade do corredor. Como assim? Entrei com pressa no quarto e vesti o primeiro shorts que vi. Tentando não acordar a Mia. E em questão de segundos eu já estava de volta à sala. “Onde você vai?”, a Marina ergueu a voz na minha direção e eu ignorei, indo para a porta.

_O que você vai fazer? Flor?! – ela insistiu.
_Preciso falar com ele...
_Você não quer que eu desça com você? – o Du tocou no meu braço, conforme eu passava por ele na porta, preocupado.
_Não.
_Flor...
_Fica aí... – olhei para a Marina, incluindo-a – Os dois! E se a Mia acordar, ninguém abre a boca, mano...

Passei pela porta, batendo-a atrás de mim. Não conseguia sentir nada. Nenhuma emoção, nem mesmo ansiedade. Nada. Apenas adrenalina e caralho por que essa merda de elevador não desde mais depressa? Tecnologia de merda. Devo ter levado quarenta minutos entre cada andar. E me martirizava – por que eu não fui de escada? Mas a porta enfim abriu no térreo. E eu disparei na direção da entrada. E se ele tiver ido embora?, foi só então que me ocorreu. E se ele quiser subir? E se ele não estiver aqui para me ver? Os meus passos continuaram, mais hesitantes, e eu comecei a ficar ansiosa. Ele poderia ter ido apenas buscar as suas cartas, que o porteiro, aliás, certamente não vinha me entregando.

Ou poderia ter simplesmente passado pela Augusta.

Não. O Du disse “está fumando” e “lá embaixo”, ele não simplesmente viu ele na rua, a minha mente entrou em uma discussão gramatical consigo mesma, interpretando as palavras do meu novo colega de quarto na tentativa de desvendar o que diabos ele tinha de fato visto. Foi quando finalmente o vi, pessoalmente, do outro lado do portão. Era mesmo o Fer. Ali e fumando. Embaixo do prédio. Ele não estava passando, nem falando com o porteiro. Ele só estava ali. Parado. Apoiado com as costas contra o portão, com um cigarro na mão, de jeans e uma blusa branca velha, a cara de poucos amigos. Tinha a barba por fazer, as tatuagens à mostra. Como quem mal acordara e já caíra num ônibus de Santo Amaro até as redondezas da Frei. Desgraça.

A minha ânsia então cresceu, violentamente. Havia a possibilidade de ele estar, sim, ali por minha causa – mas não no bom sentido. Que cê tá fazendo aqui, moleque? O Fer ainda não me vira. O portão se abriu automaticamente e eu passei, agora a menos de cinco metros dele na calçada. Me aproximei. Sem saber bem como agir – que droga de cara eu faço? Era estranho ficar nervosa perto dele, do Fer, cuja presença sempre fora tão normal ao meu lado. “E aí...”, eu disse, tentando agir naturalmente – ainda que o meu coração estivesse quase saindo pela boca. 

E só então ele me viu. Estava quieto. Merda, mil vezes merda. Eu não sabia o que fazer! “Ele te falou que eu tava aí?”, perguntou um tempo depois, se referindo ao Du. “Sim”. Ele virou o rosto para baixo, tenso, liberando a fumaça – e todo o ar dos pulmões. Eu fiquei sem reação. Parada ali, esperando que ele me falasse qualquer coisa. Estava sem sutiã, numa blusa largada cinza e com cara de quem tomara um porre monstruoso na noite anterior, o meu cabelo detonado. E de chinelos – para ajudar ainda, na pressa, acabei vestindo uma bermuda que praticamente gritava “pochete!”. Com todas as letras. O Fer olhou para o outro lado da calçada, tragando mais uma vez. “Não sabia se queria mesmo te ver”, soltou a fumaça novamente e me olhou, só então vendo o que diabos eu estava vestindo.

Eu não conseguia dizer nada. O seu cigarro já estava quase acabando. Observei a sua mão, os seus dedos. “Faz meia hora que eu tô aqui”, ele comentou e riu, ainda que sério, em tom de autocrítica. Eu encostei ao seu lado no portão. E ficamos em silêncio. Ninguém dizia nada. Instantes depois uma vizinha passou andando na nossa frente e entrou no prédio. Deve estar rezando para que a gente não volte a morar juntos, pensei em falar, mas fiquei quieta. O Fer a acompanhou apenas com o olhar e depois tornou a encarar os próprios pés. “Posso pegar um?”, pedi então. E ele tirou o maço do bolso, sem esboçar qualquer reação – positiva ou negativa.

Peguei um dos cigarros, pendurando-o entre os lábios. E ele me entregou o isqueiro. Me observou com o canto do olho conforme eu acendia. Traguei uma única vez, devolvendo-o logo em seguida. E o Fer pegou o isqueiro da minha mão. “Tem saído muito?”, perguntou, colocando-o de volta no bolso. Isso foi irônico? “Não muito”, respondi. Ele ergueu brevemente as sobrancelhas. Ainda evitando me olhar diretamente. E comentou – “cê tá um lixo”, levando o cigarro à boca. O meu coração disparava.

Estava ansiosa com aquelas meia-conversas. O que você veio fazer aqui, porra?

fevereiro 14, 2014

Bobalegrice

Dormi bem aquela noite. . Pode ter sido toda a bebida e bendita endorfina nas minhas entranhas, acumulada dos banheiros e cozinhas, mas nada descarta o fato de que eu simplesmente me sentia bem. Pra caralho. Logo eu, que já havia prometido amor pelos quatro cantos de São Paulo, como quem não é capaz de segurar uma promessa sequer aos outros; eu, que devia saber melhor. E devia mesmo? Sei lá. Palavras não costumavam significar porra nenhuma para mim. Eu até preferia que não as dissessem – que não me comprometessem, que me deixassem fora daquilo. Não tinha pretensão de ser o “amor” de ninguém, a “namorada” de garota nenhuma. Detestava que me envolvessem em seus problemas. E sim, eu costumava ser um problema. Mas dessa vez era diferente. Parecia sentir cada uma das sílabas que a boca da Mia formara naquela noite. Que se dane, não era babaquice romântica ou nada disso. Eu realmente me sentia segura. Com ela.

O relógio marcava 10:49 quando eu pulei da cama, numa disposição ridícula que não costumava existir nas minhas manhãs de sábado. Prendi o cabelo de qualquer jeito e cacei uma calcinha limpa na gaveta, cantarolando Lou Reed pelo cômodo. Estava louca para tomar banho e tirar do meu corpo toda aquela imundice da madrugada na Augusta. Desfilei sem roupa pelo apartamento, crente de que poderia entrar logo no banheiro. Mas não. Estava trancado. Inferno! Ouvi o chuveiro ligado e detestei quem quer que fosse que estivesse ali. Veio então um outro barulho do fim do corredor, de pratos na cozinha – e me meti a investigar imediatamente. Coloquei a minha cabeça – e o resto todo, completamente despido – através da porta e avistei a minha adorável ex-namorada de frente para a pia em seu vestidinho amassado da noite anterior, de costas para onde eu estava.   

_Ei. Que tá fazendo aí?
_Resol... – ela virou o rosto para falar comigo e o escondeu rapidamente, abaixando-o frente ao corpo – POR QUE VOCÊ TÁ PELADA?! VAI VESTIR ALGUMA COISA!!

“Calma, meu”, eu ri. Balançando a cabeça. E voltei para o corredor, indignada, gritando no meio do caminho – “é minha casa, porra!”, em alto e bom som, “não posso nem ficar sem roupa??”. Busquei uma camiseta larga no meu armário, a contragosto, como se ela já não tivesse visto tudo isso um milhão de vezes. Eu revirava os olhos. Deitada com as mãos entre os joelhos, de lado no colchão, a Mia seguia dormindo na minha cama. Capotada da noite anterior. Olhei-a com carinho. E voltei para a cozinha com algo que cobria minimamente a minha falta de inibição. A Marina me olhou por cima dos ombros, sorrindo, levemente vitoriosa. “Obrigada”. Piscou na minha direção. Aquela água da torneira parecia uma boa ideia em pleno ao sábado quente. Caminhei até ela e abracei suas costas, apoiando o queixo no seu ombro.

_Não precisava ter lavado a louça, Má...
_Eu não ia conseguir deixar do jeito que estava, na boa – riu.
_Não tava tão mal. Mas, enfim, obrigada.
_Vocês precisam se organizar melhor, hein?
_Isso que eu fiz o Du lavar esses dias. É que a gente acumula muito, meu. Eu tinha que ter aqueles esquemas de só um de cada talher e um prato, manja, mais nada.
_Ah! Então é o Du que lava a louça por aqui... – insinuou.
_Não, cada um lava a sua – me soltei dela e apoiei na beirada da pia, ao seu lado –, é que foi uma parada excepcional. Ele tava se redimindo...
_Se redimindo por quê?
_O idiota deu em cima de mim essa semana...
_TÁ ME ZOANDO, NÉ?! – a Marina arregalou os olhos na minha direção, com as mãos ainda na água fria – Como assim? Ele não gostava de homem??
_O Du gosta de putaria.
_Mas...
_É, meu. A orientação sexual dele é: “qualquer coisa que me faça esquecer o bofe” – brinquei.
_Sei. Parece alguém que eu conheço...
_Nem vem! Eu nunca dei pra um cara, mano.

“Fato” – ela achou graça e admitiu. E não era qualquer coisa, pensei, “eu selecionava”. Ajudei a Marina a encerrar o resto dos copos já ensaboados. “E cadê ele, aliás?”, me perguntou sobre o Du e dei de ombros, sem ideia alguma. A Vivian estava no chuveiro, agora já há alguns minutos, com uma toalha emprestada do meu armarinho do banheiro. Peguei uma calcinha velha para lhe emprestar e a Marina a pendurou na maçaneta. Nos sentamos então na sala e coloquei num canal de desenhos, estava passando Papaléguas. O meu desenho cura-ressacas favorito. Acendi um cigarro e traguei, coordenando a ação com a abertura de uma latinha de Coca-cola sobre a mesinha de centro, conforme já soltava a fumaça. O filtro ainda entre os lábios.

_Não tá muito cedo, não? – a Marina me observou – Pra “isso” aí.
_Hum?!
_Você não devia fumar de manhã, flor...
_Bom... E você não devia comer ninguém na minha sala – argumentei de volta, tirando o cigarro da boca – Mas cada um faz as suas merdas, não é?
_Para! Não fala assim. Eu fiquei tão constrangida.
_Eu sei... – eu ri e olhei para ela, levando o filtro de volta nos lábios.
_Vocês viram muita coisa? – murmurou, envergonhada.
_Não, meu, relaxa...

Menti. E encarei a TV por um segundo, deixando escapar um sorriso quando o Coiote despencou de um abismo e atingiu o único cacto num raio de quilômetros, no deserto norte-americano. Sempre gostei mais do azarão. A Marina revirava os olhos – “isso é bizarro” –, disse. Me ver assistindo as mesmas merdas no Cartoon Network há anos era bizarro, segundo ela, porque eu o fazia desde quando nós namorávamos. Me curvei por um instante para bater as cinzas no cinzeiro. Esse sofá está quente demais para onze da matina, bufei. “Será que existe algum episódio em que ele consegue?”. A Marina deu de ombros, “deve existir”. E eu sorri com a possibilidade. “Ia ser legal se eles fizessem um, tipo, especial de aniversário ou algo assim, manja?”. A Marina acenou e eu senti os seus olhos julgarem a minha idade mental. “Que foi? Ia, sim!”. “Eu não discordei...”, ela riu. Ficamos em silêncio por alguns segundos, vendo a TV.

_Meu... – a cutuquei pouco depois, cochichando –  ...ontem a Mia disse que me amava, cara. Pela primeira vez.
_Awn! E você??
_Sei lá. Foi legal.
_Me diz que você não lembrou disso por causa do Papa-léguas...
_Não! – eu comecei a gargalhar.

E ela me olhou por detrás dos seus óculos pretinhos.

_Tem lá sua semelhança...
_Nossa, não! Eu odeio o Papa-léguas, porra... – fiz uma careta – ...se bem que, né, eu também já odiei a Mia.
_Você nunca odiou a Mia. Você só odiava gostar dela.
_Pois me pareceu a mesma coisa...
_Você é besta, meu. Eu gosto da Mia, a gente se dá bem.
_Você gosta de todo mundo...

A Marina contestou. Claro. E foi quando o Du entrou pela porta, acompanhado de um cara de shorts com tatuagens por todo o antebraço. Bunda-amiga, certeza. Largou a sua mochila de qualquer jeito no chão e antes mesmo de nos apresentar ao seu convidado, olhou na minha direção – “advinha com quem eu acabei de cruzar lá embaixo”. Ergueu a sobrancelha.

fevereiro 12, 2014

Das histórias que serão censuradas ao contar pros netinhos

“Escuta”. Me disse, às meias roupas, contra o batente da cozinha, talvez no menos respeitável momento de toda nossa trajetória – aquele em que nos comíamos a dez metros da minha ex namorada, aos amassos com a sua atual no sofá da sala –, esse. A Mia ria. Tão embriagada quanto eu ali no escuro. E eu não estava mesmo escutando, ocupada com a sua pele. Os seus poros, o seu cheiro. Com os meus beijos nela. Eu ria das suas tentativas de me fazer prestar atenção. Me desvencilhando dos seus braços determinados – “me ouve um segundo, porra!”. Ela me chamava a atenção, aos risos, cochichando.

_Hum... – eu parei para olhá-la, achando graça – Fala.
_Eu gosto disso.
_Gosta? – me animei, enfiando já a cara no seu pescoço e tornando a beijá-la; mas ela riu.
_Gosto... – recuou, sorrindo – ...de você, babaca – e encostou no batente.

Sorri desajeitadamente. Sem reação por um instante.

_Você tá muito bêbada... – ela me observou, zombando.
_E você não?

A abracei, pressionando-a contra a madeira quase num tropeço. Em um beijo interrompido pelas minhas palavras. Ela riu – “eu gosto de encher a cara com você”. E isso era sincero. “Muito saudável”, sussurrei. A Mia acenou com a cabeça. As minhas mãos seguravam a sua cintura descoberta. Com os dedos sobre as pétalas que escapavam pela lateral do seu corpo. As suas tatuagens a contornavam confortavelmente, havia um sentimento de estar em casa. “É sério. Nunca foi assim”, murmurou. “Assim?”. “Assim” – indicou a nós mesmas com os olhos, aos nossos pés – “absurdo e fácil, sei lá”. “Assim sem roupa, nem dignidade”, brinquei e ela riu, “fazendo sexo do lado de duas sapatas se comendo?”. “É”. A Mia achou graça, “por aí”.

Dei um passo para trás, me apoiando no lado oposto do batente, a olhando.

_Essa não era mesmo a melhor hora, né? – ela se constrangeu.
_Depende do que você falar em seguida...

Deu um passo na minha direção, desta vez. Colocando as mãos ao redor do meu pescoço e me olhando, curiosa. Com aqueles olhos castanhos enormes dela. E o meu coração alcoolizado quase saiu pela boca. Paralisada.

_Todos esses anos – cochichou, tocando a ponta do seu nariz no meu –, foi tão...
_Você tá me deixando nervosa... – eu ri.
_Eu...

Suspirei.

_Eu me apaixonei por você.

Engoli o riso. E tão logo as palavras saíram da sua boca, antes que eu pudesse ter qualquer reação, ouvi a Marina me chamar da sala. Espera. O que você disse?, eu encarava fixamente a Mia. Ela olhou para o corredor, encolhendo os ombros ao perceber que a nossa presença havia sido notada ali. A Marina tornou então a me chamar – como se testasse se era mesmo eu o vulto que via adiante no corredor. Foi só aí que me dei por mim. E pressionei os meus olhos, merda. Rindo. Peguei a Mia pela mão e começamos a andar imediatamente, indo com pressa no escuro na direção do quarto. “Sou eu, sou eu“, eu gritava, fugindo, sem olhar para a sala. “Nós não vimos nada, a gente jura!”, a Mia complementava, largando as nossas roupas para trás no chão. Ríamos e acelerávamos.

Cacete. Tranquei a porta do quarto, segundos depois, entrando logo atrás dela. E acendi imediatamente as luzes. A encontrando ali dentro, a metros de mim, com as tatuagens à mostra e a calcinha enrolada pernas acima. De qualquer jeito. O cabelo amassado, a cara de quem bebera mais do que o decente. “Apaga essa luz, mano”, ela riu, resmungando. Não. A encarei, às claras. E pedi: “Me diz de novo”.

fevereiro 06, 2014

A Gravidade

_Você tem que ver! – a Mia virou para trás, rindo, sussurrando para mim.
_Não – sorri –. Tô de boa...

Eu estava com as costas na parede da cozinha. Ela revirou os olhos ao meu lado, praticamente entrincheirada no batente da porta, mais adiante, entre nós e o corredor. Se divertia, bêbada. E tornava a olhar para a sala, em meio ao escuro. A encarei, conforme ela espiava as duas ali, a Marina e a Vivian, à distância. Achando graça em seu interesse. A Mia se surpreendia a cada segundo, quase, narrando: “elas tão mesmo se pegando!”. E eu ria, então a cutucava. “Pára de ficar olhando, vai...”, pedia, igualmente embriagada. E ela me ignorava.

_Vem – insisti, rindo – vamos pra lá.  
_Cara! Não é possível que você não queira nem dar uma olhada...
_Estou bem aqui. Sai daí você também, vai...
_Qual o problema? Tenho certeza que você já viu um milhão de amigos trepando... – cochichávamos no escuro.
_Já. Mas não fiquei olhando... – só errei de porta numa festa, chapada, e me desculpei imediatamente, oras... – Quando rolava, era sem querer.
_Duvido. Aposto que você já ficou assistindo o Fer e eu, nesse apartamento – riu.

Sim.

_Não.

Ok. Uma vez. E talvez os meus olhos tenham demorado mais do que uns segundos para desviar, mas desviaram. Eventualmente. E foi uma só vez, porra. Aconteceu uns anos antes, numa noite em que eu não devia estar em casa – tinha ido encontrar a Rô em Perdizes e ia dormir por lá, mas acabamos discutindo. Pra variar, né. Aí peguei um táxi de volta, tendo sido expulsa do apartamento dela. E ninguém me ouviu entrar; quando cheguei, a porta do quarto do Fernando estava aberta, eu notei no corredor já a caminho do meu quarto. Durou dez segundos. E praticamente só vi as costas tatuadas dele. Por cima dela. Tá. Não vou mentir. Não era agradável para mim ver o Fer comendo a Mia – assim como não seria nada agradável presenciar a Marina com a Vivian. Por motivos óbvios. E, nossa, como eu odiei. Ele. Ela. Toda a merda da situação. Mas os meus olhos me desobedeciam e demoravam, ali, dentro do quarto. Nos movimentos deles. Hipnotizada. Inferno. Essa imagem reprisaria mil vezes na minha cabeça naquela noite, à procura de qualquer memória da Mia. Da pele dela. Sei lá. É difícil explicar.

Com a Marina, por outro lado, o problema era bem diferente. “Não é a mesma coisa”, argumentei, “eu já namorei com a Má”. E dei mais um gole do rum, ainda com as costas no ladrilho da parede. “Você tá com medo da nostalgia”, a Mia me zombou então, aos sussurros, e eu a empurrei. “Cala a boca”, ri e a beijei rapidamente, “não é isso, caralho”. “É, sim”. “Não, não é”, insisti, “é só que é estranho ver ela dando pra outra pessoa”.

_Hum. Pois eu acho que você tá com medo de ver ela sem roup...
_Que mentira! A Marina não tá sem roupa, mano! – a interrompi, duvidando.
_Tá, sim! Olha lá...
_Fica quieta, velho... A Má nã..
_Mas tá! – me cortou – Eu vi ela tirando o vestido dois segundos atrás!

O QUÊ?! Me apressei até a porta na mesma hora, arregalando os olhos. Não é possível. A Marina passara praticamente todo o nosso namoro inteiro debaixo das cobertas. Ela não ia arrancar a roupa em plena atividade ilegal na sala de terceiros. Você não era assim quando nós saíamos, pensei, tentando ver algo no escuro. Mas lá estava ela. Me contrariando. O encosto do sofá entre nós só permitia que eu avistasse a parte de trás da cabeça da Vivian e os ombros para cima da Marina – provavelmente no colo da “nova” namorada –, virada de frente para o corredor. Não tinha roupa, nem os óculos. E beijava a Vivian avidamente, com as mãos na lateral do seu rosto. Fiquei sem reação. Quanto diabos você bebeu, porra? Me virei de volta para a cozinha – não posso ver isso –, por um breve momento, mas logo tornei a encarar a sala. Como num magnetismo, que eu sabia ser errado e não conseguia evitar.  Observava as duas se pegando. E a Mia tinha razão: elas estavam mesmo se agarrando bem no meio da minha porra de apartamento.

Que merda. Eu não tinha certeza de como me sentia a respeito daquilo. Não que eu me atraísse pela Marina. Ou pela ideia delas duas juntas. Nem um pouco, aliás. Mas não conseguia tirar os olhos das duas e isso me incomodava. Senti um estranhamento filho-da-puta. Em partes por ver o corpo dela assim, tão cruamente, anos depois de eu já não vê-la ou tocá-la. Movendo-se por cima de alguém que eu mal conheço, o que era pior, com os seus ombros descobertos se contorcendo. As suas pintinhas. A sua pele. Caralho. A cena rompia com toda minha memória emocional sexual nostálgica da Marina – deitada sem os seus vestidinhos na minha cama, brincando com as suas pernas entre as minhas. Boba e absurdamente sexy. E vê-la agora me induzia a pensar nela. Em como era. E em como eu me sentia. Era inevitável. Por que eu sabia exatamente cada gosto e cheiro que a Vivian estava experimentando naquele instante. E isso me perturbava tanto quanto o ciúmes de vê-las ali.

_Me diz agora, quem não tira o olho... – a Mia disse no meu ouvido, tendo perdido para mim o seu posto de entrincheirada na porta; a Marina curvava os ombros e subia lentamente sobre a Vivian, empurrando-a ainda mais contra o sofá, aos beijos e toques e porquediaboseuaindatôolhandopralá.
_Não tô.
_Sei. É. Vai nessa, ô Sra. Moralista...
_Fica quieta, não é! É só que... – interrompi a frase, observando a Vivian descer a sua boca aos poucos pela pele da minha ex, minha ex, caralho, em direção aos seus seios; e eu não tinha qualquer visão, graças ao encosto do sofá.

Desgraçada. Parte de mim queria interrompê-las e mandar aquela garota tirar as mãos da minha Marina. Tirar a boca. Tudo. Secretamente, porém, não queria que elas parassem. Apreciando cada segundo daquilo de um jeito nostálgico e confuso. Sensorial. E enciumado. Era tudo bizarro. Senti o corpo da Mia esbarrar contra o meu, apertando-se comigo no vão da porta para olhar. As suas mãos tocavam a minha cintura, pressionada no escuro contra mim. “A Marina fica bonita sem óculos...”, sussurrou.

Não. “Eu gosto com”. “Você gosta de todas”, a Mia riu, “não importa o jeito...”. “Não é verdade”, me virei na sua direção, rindo. Ofendida. “Não. Imagina...”. Ela se divertia. “Não mesmo”. “Ficou seletiva agora?”. Apoiei as costas contra o batente, a encarando por um instante. “Eu gosto de você”, falei, “sempre gostei”. “É o que dizem os boatos...”, ela riu, conforme eu a puxava na minha direção. “Fodam-se os boatos. Eu te digo”, a encarei. E ela me olhou fixamente de volta, atraída ao meu centro de gravidade. Sorriu. Dei um passo então, para frente, num impulso, obrigando-a a ir para trás. Pressionei o seu corpo contra o outro batente, no lado oposto. E a beijei, ansiosamente.

Se você soubesse, garota. Ela colocou os braços na minha cintura, se deixando envolver. Me envolvendo. E sabia. Havia um sentimento estranho em beijá-la ali, sabendo que a Marina transava com a Vivian a menos de dez metros; quatro corpos simultaneamente envolvidos num mesmo cômodo. De alguma forma todavia não pude evitar. Era absurdo com a queria, aquela garota. A Mia suspirava entre os nossos beijos – bêbada – e eles se tornavam rapidamente mais intensos. Numa progressão emprestadas delas; da situação, não sei. Começou a tirar a minha blusa. E logo fiquei de sutiã, arrancando os seus shorts à minha frente. A boca nela e as mãos para baixo. “A gente provavelmente não devia fazer isso aqui”, sussurrei; mordendo o seu lábio, o seu queixo, a beijando inteira com o corpo contra o dela.

Mas – àquela altura – as nossas roupas já estavam no corredor. “Elas não conseguem ouvir”, a Mia insistiu, entre fôlegos, me puxando para perto dela. A agarrei pelo cabelo, colocando a sua cabeça contra o batente. E a beijava. Sem conseguir me desviar daquela vontade. De tê-la. Ela. Filha-da-mãe. “Você me tira do sério”, argumentei, bêbada, “porra”. A Mia ria. E me tirava o shorts, a sanidade. Nos agarrávamos desajeitadamente numa tentativa falha de não fazer barulho. E a mera ideia de que elas pudessem nos ver me provocava. Em disparada. A Mia colocou então as mãos na lateral do meu rosto, me segurando, e me beijou demoradamente. “Eu sei que essa não é a melhor hora para te dizer isso”, sussurrou e pôs a boca no meu ouvido, “mas é que...”. Suspirou. E eu a beijei, como se lhe completasse a frase.