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março 28, 2014

Carneiros, veados e leões

Que porre. A Marina cantarolava Jesus and Mary Chain numa ponta do sofá; e eu observava o movimento das suas mãos no cabelo da Vivian, deitada em seu colo. Os seus dedos afundavam e percorriam os fios lentamente. E eu ali, completamente torta na poltrona. Entediada pra porra. O marasmo seguia os acontecimentos acalorados daquela manhã. And she’s crazy...,  o rádio dizia, arrastando o último “a” em sincronia com os lábios da minha ex. Numa típica e tediosa tarde de sábado. Isto é. Não fosse a superpopulação incomum daquele apartamento. A Mia se debruçava sobre a mesinha de centro, ajoelhada no chão, ao lado do peguete do Du; ambos dedicados a dichavar uma quantidade descomunal de erva.

Vocês são loucos, mano. Me estiquei atravessada na poltrona e deixei cair o pescoço para trás, observando o Du passar de ponta-cabeça.

_O Gui vem? – perguntei, ainda às avessas.

E ele acenou positivamente com uma expressão pouco interessada. Perambulava descabelado pela casa, usando uma das suas regatas clássicas. Tão rasgada que parecia um trapo. E nem aí para as visitas, óbvio. Esse cara da vez se chamava André – um publicitário de braços tatuados e voz grossa, loiro; parecia dinamarquês ou algo do gênero –; não tinha certeza do quanto ele sabia sobre o Gui. Ou sobre o Du. Não fazia ideia de como os dois se conheciam. Ele e a Mia haviam embarcado em uma conversa animada sobre astrologia já fazia meia hora. Tinha isso como hobby, pelo que entendi, naquele eu-tenho-o-sol-em-touro-e-a-lua-no-cu que o tal moleque tagarelava incessantemente. O Du sequer ouvia. Andava de um lado pro outro do cômodo, atarefado. Não sei com quê. E a TV agitava-se ao fundo, sem som, exibindo um documentário qualquer sobre natureza. Pois é – tédio.

_E ela? – a Mia o perguntou de repente, me entreolhando por um instante, sorrindo.

Eu estava em meio a um dilema interno. Entre levantar – ou não levantar – para ir pegar o meu maço no quarto. Completamente enfadada. E seguia torta na poltrona. Olhei para os dois, sem entender do que conversavam. O meu signo?, cogitei, numa suposição óbvia. A Mia o ouvia, atenta. Ele balbuciou algo incompreensível e então ergueu o queixo na minha direção, com as mãos ainda ocupadas com a maconha, e me perguntou – “que dia você nasceu?”. “Treze”. “De quê?”. “Abril”. Então a Marina, que até aí escutava tudo quieta, resmungou o horário três segundos antes de beijar a sua atual. Como você se lembra? Nem a minha mãe deve ter essa informação, pensei. A Mia ainda o encarava, fixamente. “Hum. É áries...”, ele calculou, “ascendência leonina”.

E os três me olharam com julgamentos. Quê? Todos eles, menos a Vivian – que estava deitada no colo da Marina e virada em sua direção.

_Meu, na boa – ele riu –, você deve ser um tsunami. Um trator.
_Ah, é. Certeza. Delicadeza zero, paciência nenhuma. E humildade nem pensar... – a Marina achou graça – ...essa daí é a definição de fogo no rabo.
_Cala a boca. Essas merdas não existem, mano... Isso é tudo história pra boi dormir.
_Ah, porque você não é impulsiva, né? Intensa? Egoísta? Sai falando o que pensa?
_Não. Não necessariamente...

A Mia começou a rir da minha resposta para a Marina, na mesma hora. QUÊ, MEU?! E o tal do André se aproximou do seu ouvido, confidenciando-lhe algo que eu presumi – pelos olhos dela na minha direção – ser sobre a minha pessoa ou personalidade. As pontas dos dedos da Mia despejavam pouco a pouco agora a erva já dichavada, sobre uma seda larga. Começou a bolar um, com as pupilas ainda em mim, admirada. Ela ria e comentava algo entre uma frase e outra dele, mas eu não conseguia mais ouvir do que conversavam – distante de onde estavam, ajoelhados no tapete.

_Eu tenho leão também, acho... – a Vivian ressurgiu do nada, murmurando sonolenta – ...em algum lugar.
_Eu não sei os meus – a Mia mordeu então a ponta do baseado, retirando a parte torcida da seda.
_Bom... Eu sou virginiana.
_Você eu já tinha sacado – o André piscou rapidamente para a Marina e tornou a observar a Mia, intrigado, que agora arrastava as mãos pelo tapete, engatinhando na minha direção – já você... é mais difícil.

Ela trazia o baseado entre os dedos, escapando para o meu lado. Está gigante o bagulho. Conforme ia deslizando os braços à frente do corpo, o seu cabelo castanho escorregava suavemente contra sua pele. Era insuportável ver aquela mulher de calcinha e regata na porra da minha sala. E não por a boca, não tocar. Ela se aproximou e ajoelhou em frente à poltrona, acendendo o não tão fino na minha frente. “Você vai fumar?”, falou, ainda que os seus lábios segurassem a ponta. Tragando em seguida e soltando a fumaça pouco depois. Numa nuvem branca e densa, é, cês sabem. Eu acenei para ela, em resposta. E ela tragou uma segunda vez, erguendo o corpo e apoiando-se então sobre o assento onde eu estava. Curvou-se sinuosamente sobre mim – e eu entreabri a boca. Puxei toda fumaça da sua boca para a minha e respirei, liberando-a em seguida no ar.

Foi quase um beijo. Ou a versão subversiva de um. E a Mia sorriu ao final, achando graça. Puta que pariu. Escrota do caralho, mas que porra!! Eu tinha vontade de xingar toda vez que olhava para aquela mulher. Inferno. A desgraçada tinha um magnestismo absurdo – difícil de absorver e aceitar sem me sentir uma completa idiota. E perdedora. À mercê absoluta dela. Puta merda. Os nossos olhos se demoraram um no outro por alguns milésimos – milésimos estes que ninguém mais percebeu além de nós. O André e a Marina ainda discutiam os signos.

Para a minha ex-sabe-de-tudo, as características da Mia eram muito “óbvias” e transparente. Hum – a Mia virou o rosto na direção deles ao escutar um trecho da conversa e riu, “quero ver, então!”. O desafio estava feito. Eu seguia crente que tudo aquilo não significava nada. Mas a Marina ajeitou os seus óculos pretinhos, animada para exibir as suas habilidades. Após meses de observação. “Você é Libra, não?”. “Sou”. “Essa tá fácil, não vale. A Má sabe quando foi seu aniversário!”, eu a provoquei; no último ano, não falei de outra coisa por dias. E ela rebateu: “eu ia saber de toda forma, tá?”.

_Ia nada... – eu me diverti.
_Você é de outubro?
_É. Dezenove.
_Que horas cê nasceu? – o André continuou, interessado no resultado.
_Ih. Foi de manhã. Tipo seis, seis e meia...
_Do que cês tão falando? – o Du entrou novamente na sala, agora sem a regata e com as mãos ávidas para "emprestar" o nosso baseado.
_Hum. O ascendente é escorpião, mas preciso confirmar.
_E isso é bom ou ruim? – a Mia olhou para o André e eu para o Du, que agachava ao lado dele.
_É sensacional. E um desastre também, a combinação é meio tensa.
_E o seu Du?
_O meu o quê?
_Seu signo... – respondi.
_O meu é veado, meu bem...

março 20, 2014

(2, 3) Na cama

Meus lábios aproximaram-se das linhas em sua pele. Logo atrás dos seus joelhos. Estava deitada na minha cama, esparramada sobre um travesseiro. Tinha as pernas de fora numa calcinha de temas náuticos e a regata amanhecida, mexendo no celular. “Nem tenta”, a Mia resmungou, assim que beijei suas pernas. Mas eu a ignorei. Escalando-a, pausadamente. Dos seus joelhos a uma pintinha escondida, intermediária, em uma de suas coxas. Beijo atrás de beijo – até a curva do seu quadril. Bem ali, na linha que marcava o fim de suas pernas magníficas e antecipava todo o tecido, suavemente curvado sobre seu corpo e costurado entre âncoras azul-marinhas. Encostei a boca naquele algodão desgastado e a beijei. Chegando tarde no quarto. Dez, vinte minutos depois da nossa briga, com o rabo já entre as pernas.

_Você é uma idiota – a Mia murmurou, sem virar para me ver ali.

Encostei o rosto sobre a curva das suas costas e respirei fundo – eu sei. “Me desculpa”, pedi. Com o pouco de vergonha que restava na minha cara lavada. Minutos antes tomara uma bronca da Marina na sala. Ergui os olhos, acompanhando o contorno do seu corpo, e observei o seu rosto, escondida por detrás dos seus ombros. “Não funciona assim”, ela falou, ainda desconfortável. “Não é só falar ‘desculpa’ e tudo bem...”.

_Eu sei. É só que... – murmurei, com vergonha de mim mesma, praticamente afundando a boca na sua cintura para que não escutasse as minhas palavras – ...ainda é difícil falar dela... da Clara.
_Por q-que diabos você...
_Eu tô tentando ser sincera, porra.
_E o que isso quer dizer?
_Não quer dizer nada. Não é como se eu ainda amasse ela. Eu só, sei lá... n-não esperava ouvir o nome sair da sua boca, foi muito do nada. E a gente, a gente não terminou numa boa, meu... ainda é recente e... não sei por quê, m-mas essa merda me afeta demais. Me perdoa. É uma bosta, de verdade, que eu tenha transferido isso pra você. Mesmo – concluí, encarando os seus olhos, ainda que me evitassem – Desculpa, linda.
_Por que você não quis me contar o que aconteceu hoje?
_Eu não dis...
_Disse, sim – me interrompeu –. Você disse que não queria conversar e que queria ficar sozinha.
_Tá. Mas eu ia te contar, eu só tava puta na hora. Não queria falar com ninguém...
_Não precisava ter sido grossa.
_Mano, eu já pedi desculpas – me estressei –, o que mais você quer que eu faça?
_O que era?
_O quê?
_Hoje, mais cedo. O que aconteceu?
_O... – suspirei, hesitante – ...o Fer veio aí.

Aqui? – a Mia me procurou por um instante, apenas com o canto do olho, sem dizer nada. Senti que quis disparar uma multidão de perguntas na minha direção. Mas então tornou a encarar o colchão, deitada de barriga para baixo. Me estiquei ao seu lado, com a cabeça apoiada sobre um dos meus braços, encarando o teto. O olhar da Mia tornou a me espiar. Em silêncio. Eu agora a observava de volta – fala alguma coisa. Por favor? Era justamente essa a reação que eu temia: um grande nada. Uma dúvida infinita de como reagir à notícia. À proximidade repentina do sujeito. Do Fer. Do seu ex. Receava ver nela o que ela vira em mim, minutos antes, trancada naquele banheiro. Inquietação, ao mero soar do nome. Dele. Dela. Da Clara. Do Fer. Dos nossos fantasmas. De verões e idas e vindas passados. De tantas brigas e ciúmes; expectativas frustradas, sentimentos traídos. O mesmo de sempre. Ela pôs a mão no meu rosto. Mas agora era – era? – diferente.

Senti os seus dedos acariciarem minhas bochechas e então deixarem a minha pele, num suspiro. O seu toque era morno e suave. Tornou a olhar para o travesseiro, sem enunciar qualquer resposta. “E então?”, a questionei irrequieta. “Hum?”. “Você não quer saber o que ele queria?”. “Não”, deu de ombros, como se encerrasse o assunto. Prontamente. Quis beijá-la no instante em que se negou, contendo às custas um sorriso. Que brotava – genuíno – no canto da minha boca. Era uma escolha consciente. A isenção dela. Mais abaixo, a minha mão procurava o pouco de tecido acumulado em sua cintura. Estava usando a mesma regata da madrugada anterior, amassada contra as laterais do seu corpo. O meu corpo se escondia nas mesmas vestes constrangedoras de antes.

Em meio a tudo isso, o meu celular vibrou – de repente, submerso entre os lençóis. Respirei fundo. Estava com preguiça de procurar. Meti a mão de qualquer jeito no emaranhado de tecido entre a Mia e eu. E assim que o encontrei, ele vibrou novamente. Vi no visor – eram duas mensagens do Fer. Com certa hesitação, as abri. “Ñ fui aí pra brigar mas pqp, c é FODA. fdp porra!!”, me xingava a primeira. E segundos depois, às 13:16, a segunda dizia: “saí cuma mina ontem e ela quis ir no mis, ver a parada lá do bowie. Lembrei de vc... foi isso”. Agora que não entendi porra nenhuma mesmo. Fiquei olhando para o celular, incerta do que diabos responder. Então o telefone vibrou, pela terceira vez.

“Mas isso ñ qr dizer nd”, concluiu.

Ótimo. O Fernando tinha sido picado por uma mosquito lésbica. Essa era a única explicação que vinha na minha cabeça para aquela sequencia nonsense de mensagens. Metido em todo um drama emocional e levemente esquizofrênico – muito sapatão da sua parte. Deixei o celular de lado, numa decisão precavida. E afundei o meu rosto na curva do pescoço da Mia por um instante, entre o ombro e os seus fios, colocados atrás da orelha. Estar em meio às suas madeixas castanhas me fazia sentir isolada do mundo, me tranquilizava. Não estava em condições de pensar mais nada – argh. A cota do dia já havia se esgotado.

Após alguns segundos me deitei novamente, agora de lado e virada para a Mia, a admirando. Ela riu – “pára!”. “Quê?”. “De me olhar assim”. “Não pode?”. “Você é besta, velho”, se divertiu. E eu dei de ombros, não tô nem aí. Ela achou graça. E deitou a cabeça no travesseiro, igualmente. “Não sei por que te dou bola...”. “Você me ama”. “Hum?”. “Por isso”. “Eu não di...”, interrompeu-se, fixando os olhos por um instante no vazio, à procura de memórias bagunçadas pelo álcool, “...e-eu disse?”. Comecei a rir. E ela imediatamente enrubesceu, ao se recordar, enfiando o rosto na fronha envergonhada.

_Arrependida?
_Não... – murmurou, me espiando detrás do buraco que praticamente cavara no travesseiro – ...é só, não sei, diferente agora. Sóbria.
_Diferente?
_É. Real.
_Tenho certeza... – me movi em sua direção, me amassando carinhosamente contra seu corpo – ...que você já disse que amava um milhão de pessoas antes de mim.

Ela sorriu.

_Tá. Mas nenhuma delas era menina...

março 05, 2014

Tato

“Eu nã...“, a minha cabeça pendia sobre a pia, os braços esticados na lateral. A minha respiração acelerou, sobrepondo-se ao restante da frase. Vai embora. MERDA. Não podia ignorá-la, pensei, com as mãos na porcelana fria. “Abre aqui” – a sua voz falava, constrangida, do outro lado da porta. Podia imaginá-la com a testa suavemente encostada na madeira, em pé no corredor. As pernas de fora em uma das minhas camisetas. Mas – argh, não. “Deixa eu falar com você, meu...”, a Mia insistia, murmurando, trancada do lado de fora.

Inferno. Estiquei a mão e virei a chave.

Ainda que não quisesse – e não queria – ter aquela conversa. Mas dane-se. A porta abriu-se cuidadosamente, apenas uma fresta. E os olhos da Mia encontraram os meus inquietos, no reflexo do espelho. Ela sabia que tinha algo de errado. E hesitava. Sem entrar ou abrir mais a porta. Encostou a lateral do rosto no batente e me perguntou – “o que acontece, hum?”. Falando baixinho. Ainda me olhando pelo reflexo. Tinha medo de lhe falar que era o Fer, que ele tinha estado ali. Desencostei as minhas mãos da pia, dando alguns passos para trás. “Desculpa se te acordei”, me limitei a responder, cruzando os braços. E apoiei na parede atrás de mim.

_Não tem problema. Eu já tinha levantado...
_Hum.
_Onde você tava?
_Eu não quero conversar, Mia.

Ela empurrou o que restava da porta, deslizando para dentro, e a encostou atrás de si. “A gente não precisa falar”, disse carinhosamente, fechando-nos sozinhas no banheiro. E sorriu. Usava a mesma regata da noite anterior, de algodão, preta, agora amassada contra as suas curvas; e uma calcinha antiga, dessas com as laterais mais largas, num vermelho desgastado. Estampada com mini-âncoras azul-marinhas. Apoiou uma das mãos sobre a pia. E ficou ali, me observando. Tinha os pés descalços contra o ladrilho e os cabelos bagunçados, estava uma graça.

_Na boa, cê não precisa ficar aqui...
_Eu não tenho nada melhor para fazer... – ela sorriu e subiu o corpo, sentando-se na pia.

Olhei-a, com as agora pernas soltas no ar, e achei graça por um instante.

_Desce daí, vai.
_Por que? – me encarou, como de brincadeira.
_Cê vai quebrar essa parada...

Ahm, ela riu. “Quer dizer que...”, me provocou ao descer, se aproximando deliberadamente de mim, “...sou grande demais para sentar ali?”. Apoiou então as mãos sobre os meus ombros. Indignada. E eu ri. “Provavelmente”. Encostou o seu corpo no meu e a olhei de cima a baixo – “com esse tanto de coxa e bunda aí” –, completei. Agora imprestável. Continuava todavia com os braços cruzados, observando-a. “É?”, ela sorriu. E deslizou os lábios pelo meu maxilar até beirar a minha orelha, “achei que você gostava”. Falei o contrário, por acaso, garota? Os seus dentes pressionaram a pontinha da minha orelha, me fazendo arrepiar. 

Porra. Agora? Senti o quadril da Mia encaixar-se no meu. E as suas mãos me percorrerem a cintura, “me conta o que aconteceu, vai”. Era tentador. Mas me desvencilhei, ainda sentindo o meu coração acelerado desde a calçada da Frei.

_Não. Me deixa um pouco – pedi –, quero ficar sozinha...
_Espera. Você tá falando sério?! – ela não gostou.
_Tô, ué. Por que?
_Nossa... – deu de ombros, de repente ofendida – Achei que fosse uma besteira qualquer.
_Mas, meu... É-é besteira.
_Sei – cruzou os braços – Isso tem a ver com a Clara?

QUÊ?

_Com a CLARA?! – levantei a voz, sem entender.
_Foi uma pergunta.
_Não, meu. DE ONDE CÊ TIROU ISSO??
_Sei lá! VOCÊ me explica por que tá me afastando, por que não quer falar...
_Ok: Mia, não – resmunguei –, não tem a ver com a porra da Clara.
_Por que você está sendo grossa??
_Eu tô sendo grossa?! – me irritei – Por que você tá trazendo ela pro meio dessa merda, meu? Eu não troco uma palavra com a Clara desde o meu aniversário, caralho! Já faz meses.
_Ótimo! Era só responder a pergunta.
_A Clara... – eu ri, murmurando comigo mesma.
_Que foi? Algum problema?
_Não...

Arqueei as sobrancelhas, sendo irônica. E ela me encarou. “Você é tão insegura assim?”, comentei, com certa amargura. Mas me arrependi na mesma hora. Bosta. Mal tive tempo de erguer os olhos na sua direção, para me desculpar, e a Mia me mandou à merda. Em alto e bom som.

Seguindo o estrondo da porta.

março 01, 2014

Cedo demais?

_E cê vai assim? – brincou, olhando a minha escolha de roupas.
_Babaca.

Eu ri. E o olhei com carinho, argh. Por favor.

_Não – relutou –, sei lá. Tô de boa. Acho que vou pra casa...
_Fer, por favor. Vamos. A gente nunca ficou tanto tempo sem trocar ideia, meu... É insuportável ter que beber com qualquer outra pessoa – sorria, eu deliberadamente afastava a conversa da Mia –, não achar um puto nessa cidade que joga sinuca que nem você. Porra. Vamos. A gente não fala de mulher; não fala de merda nenhuma, se você não quiser.
_Não. Não acho que é por aí. Ainda tenho muita merda pra resolver com você... – desencostou do portão também, como quem se prepara para ir embora.
_Fica aí, meu. Vamos lá! Não precisa ser complicado, porra.
_Não, velho. Outro dia.
_Eu posso te ligar?
_Sei lá – ele se estressou com a insistência, visivelmente desconfortável de repente, por estar ali –. Cê faz o que você quiser. Só preciso dar uma mijada e vou, quero voltar pro almoço...

Espera. Aqui?, os meus olhos se alarmaram.

O pensamento mal cruzou a minha cabeça. Durou um milésimo de segundo – ou nem isso –, mas foi o suficiente para o Fernando perceber. Com os seus olhos agora fixos na minha reação. A sua expressão se alterava rapidamente, se tornando apático e irritado. “Não se preocupa”, disparou então na minha direção, com desprezo. E concluiu, puto: “Eu não vou subir”.

_Fer, n-não foi isso que e-eu... – me enrolei, desesperada, vendo-o pronto para dar o fora – V-você pode subir se quiser. Não é isso! Não tem problema!

Tem, sim.

_Ela tá aí, não tá? – me encarava com raiva.
_Não!

Sim.

_Você é uma MERDA de mentirosa, sabia?!
_Fer, caralho, eu não disse NADA. Você tá partindo de um pressuposto. Isso é ridículo, porra!! Não tem ninguém aí! – levantei a voz, mentindo descaradamente – E outra: e se tivesse? O que você acha qu...
_”E SE TIVESSE”?? Eu amei essa desgraçada por TRÊS ANOS, FILHA DA PUTA, CÊ CALA A BOCA! – gritou comigo – VOCÊ NÃO VAI DIZER COMO EU TENHO QUE REAGIR!
_M-MAS... PORRA, CARALHO!  – me exaltei, respirando fundo a fim de recuperar a calma – Fer, pelo amor de Deus – pedi –, não vamos brigar. Pára. Só pára. NÃO TEM NADA ACONTECENDO!
_Foda-se – fez como quem vai embora – Que se dane essa merda...
_Não faz isso, cara. A GENTE ACABOU DE CONVERSAR NUMA BOA! – falei na sua direção, mas ele já estava adiante na calçada – Não vai embora assim! Caralho. FER!

Merda. EU NÃO ACREDITO NISSO. Apressei o passo atrás dele e logo me contive – com medo de irritá-lo ainda mais. Completamente ignorada em todas as minhas tentativas de reversão da situação. Mandou que eu ficasse. Para ele, não tínhamos mais nada o que conversar naquele momento. Sei. Conforme assisti o meu melhor amigo dar os seus passos na direção oposta à minha, senti ódio contra mim mesma. Sua estúpida. Incerta do resultado daqueles minutos de conversa. Como eu perco uma chance dessas, porra?!

Entrei no apartamento minutos depois, com vontade de chutar tudo o que via pela frente. A Marina estava na sala, da mesma forma que a deixara, agora sorrindo ao lado da Vivian – que tinha os cabelos molhados –. Ambas conversavam com o Du no sofá. E os três me olharam na mesma hora. Assim que entrei – a porta mal batera e a Marina já se levantou, preocupada. “O que aconteceu?”, disparou, “vocês conversaram??”. “Eu fodi tudo, foi isso que aconteceu”, segui caminhando, na direção no corredor.

_Flor, pára só um segundo – a Marina pediu –, volta aqui. Fala comigo!

A ignorei. Me trancando automaticamente no banheiro. Com vontade de gritar. De destruir cada porra de ladrilho ali dentro. EU SOU UMA MERDA DE UMA IDIOTA! Argh. Me preparando para horas de autodesprezo, fechada ali e longe todos, quando bateram na porta. 

_NÃO ENCHE, MARINA! resmunguei, em alto e bom som. 

Mas ouvi-a dizer, do outro lado:

_É a Mia...

Mútuos esforços

_Não, não. Meu. Fala!
_Mano, na boa, cê não quer ouvir... – arqueou as sobrancelhas, amargo, sendo irônico.

E sobrou alguma coisa para dizer? Depois dos incessantes berros que vomitamos um ao outro, nos dois piores dias da minha vida. Sobrou? O cigarro queimava inacabado entre os meus dedos. Não. Não. Que eu tô falando? Cala a boca. Quem sou eu para reclamar?!, contestava a mim mesma, pode vir! Me acerta, porra. Vem. Fala. Grita. Xinga. Ofende até a minha quinta geração, foda-se! Eu mereço. Eu mereço muito mais do que isso! A minha mente mudava de ideia, conforme as minhas mãos puxavam a barra da bermuda mais para baixo. Escondendo uma mordida que a Mia deixara naquela coxa na madrugada anterior.

E por algum tempo, o Fernando ficou em silêncio. Provavelmente mais ciente agora de por que não nos falávamos há dois meses. Por ela. Os seus olhos arrependiam-se de sequer ter aparecido ali – eu sabia; podia ver nos mínimos movimentos que sua pupila castanha fazia na direção oposta a mim. À minha presença do seu lado, encostados contra o nosso antigo portão. Em meio à Frei Caneca. O sol nos castigava sem qualquer remorso.

_Mas por que cê... veio, afinal? – arrisquei.
_Eu? – ele me olhou e a minha cabeça seguiu baixa, murmurei:
_É. Achei que você não fosse querer olhar na minha cara por muito tempo ainda...

O Fernando riu, irritado.

_Te garanto que é uma porra de um esforço...
_Sim. Mas você tá aqui – sorri timidamente – e v-você t-também disse que não odiav...  
_Eu não disse que tinha te perdoado.

Engoli a minha resposta, o sorriso – ouch. Os seus braços estavam cruzados. Parecia já querer acender outro cigarro. O observei fixamente. Cada fio curtinho na sua cabeça, cada risco tatuado no seu braço; a sua barba por fazer. Me esforçando para entender o que se passava pela sua mente. “Você acha que é fácil pra mim?”, perguntou, já se alterando. E sem me encarar. “Não”. Claro que não! O Fer balançou então a cabeça ao meu lado, levando a mão à nuca, com certa frustração.

_Não é porque eu tô puto, também, qu... – hesitou – ...que eu aceito escutar merda de você, caralho. O que aquela vaca falou no telefone não tava certo; nem para você e nem para ninguém. Como se cê fosse uma porra de uma doença pra Mia, mano; eu tive vontade de mandar ela pra puta que pariu. “Anomalia” é ela. E ainda se acha no direito de cagar regra na vida dos outros. Mas isso nã... – se inquietou no lugar, bravo comigo – ...não quer dizer que tá tudo bem. Que tá suave agora. Que cê tem a porra da minha benção para continuar comendo a minha ex. Isso não. Cê pode esquecer!
_Mas eu não quero a sua benção, Fer...
_É. Deu pra perceber... – me interrompeu, cínico.
_Não, cacete. Me escuta... – traguei uma última vez o cigarro, praticamente esquecido àquela altura, e o joguei aceso na sarjeta – Eu não quero que você me perdoe. Não quero que cê ande comigo, com a droga da Mia. Eu não sou louca! Eu não quero nada disso... – soltei a fumaça para o lado e tornei a encará-lo, segura – Eu sei que eu tô errada. EU SEI. Que eu sou um lixo, que não tô certa. E eu seria uma grande escrota se me achasse ainda no direito de te pedir alguma coisa. Mas, porra, eu sinto a sua falta! E eu sinto muito. Muito mesmo, por tudo. Só de estar falando com você eu já, s-sei lá. Eu não tô pedindo mais nada...

O Fernando me escutava, em silêncio – sem me olhar de volta. Eu só quero poder te ver, moleque. “Sei lá”, ele murmurou, de cabeça baixa. E esfregou o rosto com um dos pulsos, cruzando os braços novamente em seguida. Vamos. À espera de qualquer reação. Qual é, tudo o que eu queria era uma brecha. Por menor que fosse. E então pouco me importava se levassem semanas ou anos – eu só não queria ele permanentemente fora da minha vida.  

_Eu s-sei que você ainda vê ela, que ela vem aí. Que v-vocês... – respirou fundo, murmurando – É foda.

Não. Desencostei do portão, sem pensar muito a respeito, e dei um passo na calçada.

_Cê não quer, sei lá... – comentei, sugerindo – ...ir tomar alguma coisa? Sair daqui? Subir na Peixoto?
_Agora?!
_É, porra! Longe daqui, do apê. Disso.