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abril 22, 2014

Estômago

Puxei para baixo as mangas da camiseta que eu vestia. Era vermelha, xadrez, e tinha as mangas compridas. Colocara-a segundos antes de sair do apartamento, ao ir atrás da Mia. Por cima de uma regata branca e aberta. Escondia agora as tatuagens no meu antebraço e no meu pulso. Respirei fundo. O caminho até o portão do prédio parecia não acabar mais. Eu caminhava, sozinha – com o coração na mão. Apertei o meu cabelo dentro do elástico, jogando os fios por cima do ombro. Sobre os botões da gola na minha camiseta. “Você está bem assim”, a Mia me disse instantes antes, com os olhos ainda marejados de chorar, e deslizou os seus dedos sobre o rabo-de-cavalo que pendia – curtinho e loiro – pela lateral do meu pescoço. Ela me beijou e sorriu. Ficando para trás.

Quando, pensei, conforme segurava as barras do portão para abri-lo, quando passaria por isso? Se eu não fosse eu? Se eu não fosse mulher? A injustiça me incomodava. E aquela não era a primeira vez em que me via numa situação dessas. Chega a ser praxe. Tentava imaginar o Fernando marchando para fora daquele mesmo prédio, indo se explicar para os pais da sua namorada, como eu fazia. Os olhos da mãe da Mia encontraram os meus na calçada – indignada.  Maus namorados são, geralmente, antecipados por maus pressentimentos. Más atitudes, intenções duvidosas. Uma segunda esposa, um vício; amigos perigosos.

Bichas e sapatões não. Esses são maus.

Por definição. Por mera existência. Travestis então são piores ainda. E passamos a vida assim, nos explicando, nos desculpando. Por demonstrar demais. Por dar pinta. Por nos vestir assim. Por agir assado. Por ter falado aqui, ali. Na frente dele, dela. Das crianças – tudo menos as crianças! –, dos idosos. Por não ter avisado. Na escola, no trabalho. Na rua. Por beijos e mãos apertadas. Pelos dedos entrelaçados. Por quem amamos. Por quem namoramos. Por quem chamamos para as festas de família. Por ir a público. Por ir à porra do shopping. À delegacia. Ao banheiro. Por protestar. Por querer casar, adotar. Por tudo. Por como fazemos a merda toda, cada segundo das nossas vidas. Como uns adolescentes, mesmo que aos 25 anos. A idade não importa, nunca importou. A imagem, sim. Trabalhando, estudando, comendo... e pedindo permissão. Da nossa babá – a sociedade e a família das pessoas que amamos. Por vezes, a nossa própria. É. A injustiça me esmagava.

O que eu te fiz, mulher, para você me odiar? 

A mãe da Mia tinha as pernas torneadas, vestidas numa calça social bege e uma blusa preta de seda metida cintura adentro; um cinto extravagante com pedras turquesas por cima. Era perua. Digna de Higienópolis e das suas aulas superfaturadas de ioga. Cabelo e salto impecáveis – eu não tinha qualquer chance naquele meu modelito lenhadora-da-Baviera. As minhas mãos tremiam.  

_Eu estou esperando a minha filha – ela disparou, assim que pisei na calçada –. Você fala para ela vir até aqui, por favor.
_Ela vai vir. Mas eu queria falar com a senhora antes – pedi, mantendo a calma –, se não tiver problema...
_Eu não vim falar com você. Eu sei que a Mia desceu, que ela está aqui. Você volta AGORA para dentro e traz ela aqui, que nós vamos para casa!
_Olha, não estamos tentando arranjar nenhum tipo de confusão. A Mia só se chateou por que viu o pai no carro, ela foi lavar o rosto. Ela estava chorando. Já vai vir... – a verdade é que eu não tinha certeza disso – Mas eu queria conversar com você antes, se eu puder...
_Você tem mesmo muita coragem de vir até aqui, mocinha, e ficar parada na minha frente...

Ela veio na minha direção, já em tom de ameaça.

_...você acha que eu não sei o que você quer? O que você FAZ? Que eu não sei QUEM VOCÊ É? – não, não sabe, a encarei – Que eu não sei O TIPO DE COISA QUE VOCÊ ANDA COLOCANDO NA CABEÇA DA MINHA FILHA??
_Eu tenho certeza que se você sentar com a gente por cinco minutos, nós podemos te explicar tudo o que está acontecendo. O que estamos passando. De forma tranquila, sabe, sem drama...
_E O QUÊ exatamente vem acontecendo?? Você quer me falar, hum???
_Eu quero falar, sim. Mas a senhora precisa se acalmar...
_Eu não preciso me acalmar! Eu vou me acalmar quando você se afastar da minha filha. AÍ EU VOU ME ACALMAR! QUEM VOCÊ PENS...
_Escuta, por que a gente – a interrompi, em tom baixo – ...não entra e conversa? Com calma. Você conhece a minha casa, os meus amigos; pode até conhecer os meus pais, se quiser. Eu ligo para eles se te tranquilizar. Você vai ver que não tem nada para se preocupar.
_Além do fato de UMA SAPATÃO ESTAR DE GRAÇA COM A MINHA FILHA??? – de graça? – VOCÊ ACHA QUE ISSO NÃO É MOTIVO PARA SE PREOCUPAR?? – tentei não rir – POR QUE VOCÊ ACHA QUE EU ESTOU AQUI? QUE NÓS ESTAMOS AQUI?? – ela gritou comigo e me tornei séria novamente – PARA “CONVERSAR”?? NÃO TEM NADA PARA “CONVERSAR”, A MIA VAI VOLTAR PARA CASA. E FIM DE HISTÓRIA! ISSO NÃO ESTÁ ABERTO A DISCUSSÃO.
_Tudo bem, mas...
_ESSA GRAÇA TODA VAI ACABAR HOJE. HOJE!! A MIA NÃO SABE O QUE ESTÁ FAZENDO E NÃO VAI FAZER COM A NOSSA FAMÍLIA...
_Você não vai nem nos deixar explicar? Ou tentar?! – a encarei, sem abaixar a cabeça ou o nível – Você acha que é certo? Que a sua filha não sabe, e muito bem, onde está? Com quem está? Que ela não tem direito de decidir os próprios passos? NA IDADE DELA??
_NÃO ENQUANTO ELA VIVER DEBAIXO DO MEU TETO. COM O MEU DINHEIRO – pressionou o indicador contra o próprio peito, irritada, com força –, COM TUDO O QUE EU E O PAI DELA DAMOS PARA ELA!! ENQUANTO FOR ASSIM: ELA VAI, SIM, OBEDECER ALGUMAS REGRAS.
_Ok. Eu concordo. Vocês têm todo direito. Mas isso não é uma coisa que ela simplesmente decidiu ou que está fazendo só para aborrecer vocês. Vocês deviam conversar com ela. Tentar ouvir, entender. Saber o que ela está sentindo – eu continuava tentando acalmá-la, sem sucesso . Ela pode estar precisando de ap...
_SENTINDO? ELA NÃO ESTÁ SENTINDO COISA ALGUMA!! EU CONHEÇO A MINHA FILHA! E ELA NÃO É ASSIM!! ELA ESTÁ C-CONFUSA – hesitou por um instante, o tema a abalava; começou então a tentar me atacar, nervosa –. E VOCÊ SE ENGANA MUITO SE ACHA QUE É QUALQUER COISA SENÃO UM STEP MEIA-BOCA. SE ACHA QUE ELA NÃO VAI TERMINAR ESSE “ROMANCEZINHO” DE VOCÊS AÍ NA PRIMEIRA CURVA QUE APARECER, NO PRIMEIRO CARA DECENTE QUE SURGIR.

Caralho. Eu tentava me controlar, como prometera. Mas como eu queria dizer umas verdades para essa desgraçada...

_Talvez – respondi, com toda calma calculada do mundo –. Mas você precisa punir a sua própria filha por buscar o caminho dela? Por se expressar? Por descobrir o que faz ela feliz?
_VOCÊ NÃO É NADA. NADA! EU SEI – afirmou –, SÓ EU SEI O QUANTO ELA AMA O FERNANDO. QUANTAS VEZES EU JÁ NÃO VI ELA CHORANDO POR ELE NO QUARTO? LIGANDO PARA ELE? PROCURANDO ELE?? A MIA NÃO ESQUECEU ESSE GAROTO E DEFINITIVAMENTE NÃ...
_Eu não disse que eu era o que fazia a Mia feliz. Eu só acho que ela tem que ter a liberd...
_NÃO ME DIGA COMO CRIAR MINHA FILHA!! EU NÃO CRIEI NINGUÉM PRA SER DETURPADA E NÃO É AGORA QUE EU VOU COMEÇAR A ACEITAR ESSE TIPO DE COMPORTAMENTO – sic –, EU PREFIRO ELA GRÁVIDA. PREFIRO QUALQUER COISA A ISSO! PREFIRO NÃO TER FILHA NENHUMA...

Arregalei os olhos, como é? No mesmo instante, o barulho do portão se abrindo interrompeu a nossa discussão e a Mia – que aparentemente já nos escutava há algum tempo – surgiu na calçada. “Repete”, ela ergueu a cabeça, “repete, mãe”.

abril 15, 2014

Outras preocupações

_Gente... – a Vivian levantou do sofá, meio bêbada.
_Escuta – o Du a interrompeu, falando comigo, mas ela prosseguiu.
_...alguém me explica direito o que tá rolando? A mãe da Mia tá lá embaixo?!
_É... – o André se manifestou – ...quer dizer, eu acho.

E o Gui virou para explicar, perto deles, ainda em pé. Murmurou as palavras numa altura impossível de se ouvir, pelo menos não de onde eu estava. O rádio seguia ligado, berrando músicas dos anos 90. O Du se aproximou ainda mais de mim, tentando me aquietar no lugar. De toda forma que podia. Eu estava absolutamente impaciente, sentindo a minha casa relacionamento vida invadida. Quem essa mulher pensa que é? A Mia não é criança, porra, isso é ridículo. Olhei para a mesa da entrada e vi um maço ali largado – sem saber de quem era –; o apanhei. Acendi um dos cigarros. A minha mente se indignava com a situação – Qual é. Ser sapatão é “crime” agora?!

_É sério, escuta. Ninguém vai te segurar... se você quer descer, vai, faz o que quiser. Mas tô te falando: é má ideia. Mesmo que dê tudo certo com a mãe da Mia, vamos supor, vai... O que eu acho bem difícil pelo que ela tava falando aí, ok? Ainda assim... As chances são de que a Mia fique brava, meu. Não vai ser uma boa. Ela PEDIU pra você ficar.
_Du, você não tá entendendo... É PIOR se eu ficar aqui - traguei - Depois como que eu v...
_Tô tentando te explicar como vejo as coisas, porra. Hoje não é um bom dia. Vai por mim... – me cortou – A mãe é dela, meu, deixa que elas se resolvem...
_ E outra – o Gui completou –, cê não quer conversar com a velha assim, no meio da calçada e de qualquer jeito, quer?
_Mas se eu não for agora, que impressão vocês acham que ela vai ter de mim?? Eu posso ser a última pessoa que ela quer ver lá embaixo, mas te garanto que é melhor do que achar que eu sou uma rouba-filhinha-dos-outros que sequer mostra a cara, que fica aqui, nem aí, enquanto deixa a Mia se foder lá sozinha, mano! Ela precisa ver que a gente é um casal, porra, que a gente tá junta. Que eu me importo. Senão ela nunca vai entender!
_Ou... – o Du arqueou as sobrancelhas, contrariado.
_Não tem “ou”... – me angustiava aquele bla bla bla deles e nenhuma droga de ação, cacete. Queria sair logo por aquela porta!

Mas o Du insistia...

_Ou ela pode achar que é muita cara de pau você aparecer lá embaixo... Pode se irritar mais ainda. Por ver que é uma mina mesmo, manja, que cê é de carne e osso. Que é real. Ela pode se dar conta da situação...
_Quê?! Mas... ELA SABE QUAL A SITUAÇÃO!
_Você não sabe disso...
_Gata, escuta o que o Du tá falando... – o Gui pediu.
_MAS NÃO FAZ O MENOR SENTIDO O QUE ELE TÁ FALANDO!
_Faz, sim. Você lembra como foi pra mim? A briga com meu pai era uma e virou outra BEM DIFERENTE quando ele me pegou com um cara na rua... E eu já era assumido fazia dois anos, meu.
_Aff. Só que, Gui, mano... – me irritava, discordando da comparação – O seu pai é um louco! Homofóbico, agressivo de merda. A mãe da Mia é diferente, ela não vai fa...
_ELA TÁ LÁ EMBAIXO! – o Gui riu, na minha cara.
_É, meu... – o Du se metia – Como você pode ter tanta certeza que vai rolar numa boa?
_ELA JÁ ME CONHECE, MANO! Ela já me viu. Já gritou comigo. Já falou comigo no telefone, porra! Eu já tomei café da manhã na mesa dela. Ela sabe muito bem com quem a Mia tá dormindo, caralho: NÃO É NOVIDADE. Garanto.
_Bom... Eu acho que é cagada – deu com as mãos pra cima.
_Du, não é c...

De repente, abriram a porta. E a Marina entrou, apressada. Que tá acontecendo? – disparei na sua direção na mesma hora e ela segurou nas minhas mãos:

_É melhor você descer. O pai da Mia tá no carro.
_O PAI dela??
_É, meu.
_Merda – fodeu, pensei – Ele falou alguma coisa?
_Não. Mas a Mia não quis nem sair, ela tá lá perto do elevador. Só a mãe desceu, tá lá fora na calçada, mas dá pra ver o carro da entrada. Tá parado logo ali na frente... – a Marina me olhou, apreensiva.
_Que foi?
_A-a Mia começou a chorar, flor. Assim que viu ele.

“Eu vou descer”, me apressei. Droga. Desviei da minha ex, indo em direção à porta. Mil vezes droga. Essa era a pior forma para o pai da Mia descobrir. Fiquei imaginando aquele cara de cinquenta e tantos anos, conservador, de família judia, sentado no carro com a cara fechada, prestes a presenciar uma discussão bastante pública da esposa com a filha, em frente à casa da garota que ela está pegando. Não poderia ser pior. Se bem que – imprestável como eu era – conseguia pensar em duas ou três formas de agravar. Uma delas envolvia o seu quarto e umas horas livres.

Caminhei pelo corredor do meu andar com pressa. Estava aflita pela Mia. O elevador ainda estava lá, deixado pela Marina segundos antes. Desci todos os andares com a mão na parede – como se me preparasse para pular fora assim que chegássemos no térreo. Saí em disparada. E logo os meus olhos a encontraram no hall do prédio – a Mia estava num canto, próximo à porta de entrada do hall do prédio. Tinha os olhos vermelhos e envergonhados. Desgraça, odeio te ver assim. Apertei o passo, seguindo o mais rápido que podia na sua direção. E a abracei. Dei-lhe um beijo no rosto, sentindo suas mãos me apertarem.

_E-ela... – suspirou, pesada – ...estragou t-tudo, ela, ela não tinha esse direito! Eu queria contar, porra. D-do meu jeito.
_Eu sei, linda. 
_N-não era pra ele saber agora. Não assim. E-eu, eu não sei o, o que... – enfiava o rosto na minha camiseta, tinha as maçãs do rosto molhadas – ...q-que fazer, é o meu pai, caralho. Essa...
_Mia... Me escuta... Vai ficar tudo bem, o seu pai n...
_...essa VACA de merda!! Como ela pode trazer ele aqui???? – soluçava, aos prantos – Ele não vai nem olhar na minha cara, eu sei disso. Ele não vai entender. N-nunca.
_Vai, sim. O meu pai era igual, meu. Não era? Sabe, talvez só demore um pouco, mas ele vai entender... Ele te ama, Mia. E eles sempre entendem... – a abracei, mentindo; me partia o coração vê-la assim – ...todos meus amigos, as minhas amigas passaram por isso. E todos chegaram a algum nível de aceitação dos pais – ela me olhava, sem qualquer esperança; eu tentava animá-la – Escuta, ei! Alguns nos surpreendem, linda. Não é sempre um desastre, as coisas se acalmam.

A encarava e tentava sorrir, secando as lágrimas do seu rosto. “Vem comigo”, pedi com calma, “vamos falar com a sua mãe... a gente senta e conversa, eu posso ir na frente se você quiser. Vai dar tudo certo”. A Mia sequer se movia nos meus braços. Eu garantia: “O seu pai vai entender, linda...”. Mas os seus olhos receavam.

_N-não. Eu não posso ir lá fora. Você não conhece ele. Ele vai me odiar por não ter falado, por descobrir assim. 
_Não vai. Você nem sabe se ela contou ou não, vai ficar tudo bem.
_E-eu não consigo – me apertava as mãos, completamente travada no lugar –, é o m-meu pai.

abril 13, 2014

Dilemas

Entramos na sala – como se tivéssemos, as duas, acabado de cruzar com um fantasma no corredor. A Vivian estava sentada ao lado do André, num ataque de riso; o Gui em pé e a Marina com um pé no chão e o joelho da outra perna apoiado no sofá, também rindo, olhando para os dois. Falavam sobre algo que não prestei muita atenção. Que se dane. Tinha coisas mais urgentes com que me preocupar. A Marina virou a cabeça na nossa direção, nos observando entrar na sala. E franziu as sobrancelhas, ainda sorrindo:

_Que aconteceu, por que cês tão com essa cara?

Sem responder, a Mia cruzou os braços, curvando os ombros, tensa. E antes que pudesse eu mesma responder, o interfone tocou na cozinha. Entre o barulho do rádio e dos demais, que riam. Merda. Os meus olhos cruzaram com os da Mia.

_Eu vou descer. É melhor eu descer... – a Mia falou para mim, se agitando.
_O que foi? – a Marina apagou o sorriso do rosto, notando que era sério – O que é?
_Não, meu – pedi para a Mia –. É só a gente não deixar ela entrar, eu ligo pro porteiro...
_Cê tá louca?? Não. Ela só vai ficar mais brava!
_O que tá acontecendo? – a Marina se inquietou, mandando os demais ficarem quietos – Linda?!
_A mãe da Mia tá aí. Ela tá puta...
_Aqui, “aqui”? Tipo, no prédio??
_É.
_Quem tá, onde? – o Gui riu, ao longe, sem entender.

O interfone tocou mais uma vez, a Mia se afligiu ainda mais.

_Eu vou descer. Chega.
_Não. Fica aí! Eu falo com ela.
_Você não vai descer. Fora de questão. NÃO!
_Espera. Não querem que eu vá? – a Marina entrou no meio – Vocês precisam falar com ela? Como é a história?
_Não. Não tem nada pra falar! Ela não quer que a Mia fique aqui, ela quer levar ela pra casa.
_Alguém pode me explicar o que está acontecendo? – o Gui aumentou o tom de voz, tentando nos interromper, sem sucesso.
_Eu acho melhor a Mia ir, linda, senão ela vai ficar mais brava. Eu posso ir junto se ela quiser – a Marina se ofereceu, me aconselhando – A gente explica o que tá acontecendo, que não tem nada para se preocupar...
_Não. Eu não quero nenhuma de vocês envolvida nessa merda – a Mia pediu –, eu já tô com vergonha o suficiente...
_Todo mundo fica aqui, ninguém vai descer. É só a gente não atender, meu! Finge que saímos!!
_Ela não vai cair nessa... – a Mia passou a mão na cabeça, atormentada.
_Foda-se. Não importa! O porteiro não pode deixar ela subir sem a minha autorização.
_Do jeito que ela é louca?? Capaz dela chamar a polícia, cê não conhece ela!
_Ela não vai fazer isso, Mia.
_Eu não duvido. Ela ficou ameaçando ligar pro meu pai, disse que ia fazer o caralho a quatro... Que eu era arrogante, que eu não tinha respeito, gratidão nenhuma.
_Mas, gente – a Marina argumentou –, de qualquer forma... O porteiro sabe que a gente tá aqui em cima.
_É, meu. Subiu o Gui... os meninos... E não faz nem uma hora que a gente desceu pra comprar mais cerveja, ele viu a gente entrar!
_Mas... – eu começava a perder a paciência.
_Vamos eu e a Mia, flor, a gente fala com ela. Vai dar tudo certo.
_Não. Eu vou descer, então, e vocês ficam aqui. A casa é minha! E a merda também... Eu não vou falar nada? Vou ficar aqui??
_O que tá acontecendo? – o Du surgiu descabelado e descamisado na sala, com cara de quem havia sido acordado por toda a discussão e caos no cômodo.
_Meu, pára! – a Mia me respondeu – Você NÃO VAI descer. Esquece. Só vai piorar as coisas!
_NÃO VAI. Eu posso falar com ela, porra. Você acha que eu nunca falei com mãe nenhuma?! Me deixa fazer isso, Mia, eu sei o que eu tô fazendo... Eu já passei por essa droga antes.
_Não, meu. NÃO.
_Mia, caralho...
_Você fica aqui e a Marina vai comigo... Eu não quero você falando com a minha mãe, ela é desregulada.
_Eu não vou ficar aqui sentada, depois essa louca te leva embora e... aí?! – os ânimos começaram a acalorar, estávamos todos bêbados ou fumados e um tanto apocalípticos – Nem a pau. NÃO.
_O que você acha que ela vai fazer?? FODA-SE ELA! Ela quer uma ceninha. É ISSO QUE ELA QUER! É uma ridícula. Eu brigo com ela todo santo dia, toda vez que vou sair, ela já tá cansada de ouvir. Eu sei como lidar com ela, deixa qu...
_Não. A GENTE precisa resolver essa merda... Nós duas. Ela não pode ficar nessas toda vez, porra. Qual é? Todo mundo é adulto aqui. A gente tem que conversar com ela, Mia...

O interfone tocou de novo, pela quarta ou quinta vez. E a Mia se estressou, saindo em disparada até a cozinha, irritada – pude ouvi-la puxá-lo da parede com tanta força que fez um estrondo, antes de atender. “Quê? (...) Não! Não é para deixar subir!”, gritou com o coitado do porteiro, que nada tinha a ver com a situação. “Não interessa! Manda ela ficar aí! (...) Não. (...) NÃO! (...) Manda ela ficar aí. Eu vou descer!”, anunciou, antes de bater o interfone de volta na parede e ressurgir no corredor, agora puta da vida. De saco cheio da história toda. Era curioso como ela se transformava quando se irritava, perdendo totalmente qualquer receio ou tensão que a fizera curvar antes. Tinha surtos de coragem, de que-se-dane-o-mundo. Os mesmos que a fizeram contar sobre nós para o Fer, para a mãe numa discussão em casa. E eu receava – que falasse demais, que surtasse com os pais – e que perdêssemos a causa, eventualmente.

_Mia – me aproximei, tocando o seu antebraço, enquanto ela vestia de qualquer jeito um shorts largado na sala – Deixa eu ir, linda... Não vai rolar nada demais, eu vou conversar numa boa com ela, meu. Você tá nervosa. Se ela quiser brigar, eu deixo ela falando sozinha, prometo. Eu não vou m...
_Não. VOCÊ FICA. Vem, Má... – se desvencilhou de mim, fechando o zíper e puxando a Marina pela mão.

Inferno. Ambas saíram pela porta, batendo-a, antes que eu pudesse abrir a boca. E eu fiquei ali, irritadíssima. Puta que pariu. Estava nervosa. Sentia a minha mão tremer, o meu coração entalar na garganta. Com tudo, com o que poderia acontecer. O Gui e o Du e o André e a Vivian me olhavam, parados na sala. Pareciam segurar o fôlego, em estado de alerta e sem entender direito o que acontecia – enquanto eu tinha vontade de destruir tudo. A porcaria da porta, o apartamento todo. Porra. Não gostava daquilo, daquela falta de controle. Daquele não saber o que diabos seria falado. Era melhor se eu tivesse descido junto. A gente precisa encarar isso que nem adulto, mostrar pra família dela que sabemos o que estamos fazendo, cacete. Que entramos nessa com consciência. Não com medo, eu caminhava de um lado pro outro, inquieta, não com o rabo entre as pernas, ficando escondidas.

_O que foi? – o Du me questionou, vendo na minha expressão que eu estava prestes a fazer merda.
_Eu preciso descer. Eu preciso estar lá, estar JUNTO com ela!
_Não, velho: faz o que elas falaram. Não é uma boa!
_Mas elas tão erradas, Du! Não é assim que a gente vai resolver essa porra – gritei e balancei a cabeça, inconformada – Não é assim, mesmo...
_Espera – ordenou, tentando me acalmar –. Só espera!
_CÊ NÃO ENTENDE, MEU?! Se a gente não falar com ela, essa desgraçada vai controlar tudo o que a Mia faz, como se fôssemos duas adolescentes, mano!!
_Se você for lá, a Mia vai ficar puta, velho. FICA AÍ!
_É, gata – o Gui se intrometeu, ainda em pé ao longe –, cê faz as coisas sem pensar e depois se arrepende...
_Vocês NÃO sabem de PORRA NENHUMA...

abril 10, 2014

Quatrohorasevinteminutos

Eu podia ouvir a voz estridente do Gui e dos demais, ao longe, pela sala ou pela cozinha. Era confuso. Afundei as minhas mãos sob o travesseiro, me aninhando no tecido macio; a tarde havia trazido algumas nuvens para o céu paulistano. O calor continuava, não obstante. Eu havia dormido, completamente desmaiada de tanta erva que fumara; a janela trazia agora um fim de tarde abafado para dentro do quarto. Uma São Paulo cada vez mais cinza.  Não sabia se era o horário ou a iminência de uma tempestade. Tomara que chova, pensei, vendo as nuvens escurecer. E logo tornei a fechar os olhos, num marasmo a que dava gosto de ceder. O corpo todo frouxo.

Ao final do corredor, a casa seguia agitada – podia escutá-los gritar e rir, a música alta, mexendo nos copos da pia. O Du tinha sumido por algum tempo, com o tal do André, horas antes e um pouco antes de eu apagar na cama. Volta e meia escutava a voz da Marina também, falando e rindo alto, na sala. A da Mia a seguia – falando algo num tom empolgado. Todos pareciam se divertir. Sem sentir a minha ausência. De repente, ouvi a porta se entreabrir e o som das conversas ao longe se tornou nítido, por um instante. Passou-se um segundo. E então ficou tudo em silêncio novamente. Sentia o ambiente escurecer junto ao tempo do lado de fora. O colchão se moveu lentamente. Eu havia entreaberto os olhos para ver o que era. Mas a brisa toda da maconha me forçava a fechá-los, quase por inércia. O Du deitou ao meu lado, de bruços. Apoiando a cabeça sobre as mãos.

_Posso ficar aqui com você? – ele murmurou.

Pode. “Que foi?”. E ele respondeu, baixinho, “não quero ir pra sala”. Ouvi o Du dizer algo mais. Não pude escutar direito o quê; um ventilador no chão soprava contínua e lentamente pelo cômodo. Forcei as minhas pálpebras a abrir. Ele tinha o cabelo bagunçado e estava sem camisa, com a cara apoiada nas mãos, olhando na minha direção. Eu esfreguei um dos antebraços sobre os meu olhos – num suspiro cansado. Toda a fumaça tragada horas antes me pesava. De um jeito confortável. Tornei a olhar para o Du, com um sorriso preguiçoso no canto da boca. “Que que cê aprontou?”, sussurrei e ele riu. “Nada”.

_Nada, né. Sei...
_Eu tava trancado no quarto. O Martin mandou mensagem, me ligou.
_E o...?
_O André tá lá na sala.
_Cê é louco, mano. Ele e o Gui ainda – eu achei graça; falávamos baixo, em segredo.
_Ele não sabe, meu. Falei que tava sozinho. Mas agora é foda, cara, não quero mais voltar pra lá...
_Fica aí um tempo...

Os meus olhos pesavam, de fato, sem querer deixar passar aquela brisa boa. Senti o Du ajeitar o corpo ao meu lado na cama e permiti que as minhas pálpebras se fechassem novamente. Podia ouvi-lo digitar algo no celular, trocava mensagens com alguém. Provavelmente o Martin. Ele ia arranjar para a própria cabeça – e o coração – desse jeito. Comecei a sentir certa fome. Droga. Nem a pau que ia me mover, ir até a cozinha. Temia que fosse uma daquelas laricas doídas, que te dobram o estômago. Mas quis voltar a dormir. Assim resolvo. O Du se moveu mais uma vez ao meu lado. E escutei a sua respiração, inquieto. Pouco depois se acalmou. E o silêncio durou alguns minutos.

_Tá acordada ainda?

Sua voz me despertou de um início de sono, desses bem lentos. Subitamente.

_Hum?!
_Tá?
_Tô.
_Eu...
_Cê tá bem?
_Eu sinto falta dele, meu...

O Du lamentou e eu me virei, só então abrindo os olhos. Ele tinha levantado os dois braços sobre o rosto, atravessados na horizontal. “Du”, cochichei com ele, “não fica assim, meu”. “É que é tão, porra, foda...”. “Mas cês já se encontraram no mundo, caralho. Vocês tão juntos, de um jeito ou de outro”, afundei o rosto no seu ombro, ainda sonolenta, “não fica triste”. “É. ‘Juntos’ naquelas, também...”. “Não. Existe um milhão de tipos de relacionamento, cara. Nenhum vale mais que o outro”. Argumentei. E assim que terminei de falar, senti a minha consciência apagar por um instante. E logo tornei a despertar, num susto. Eu dormi? Abri os olhos e o Du estava apagado do meu lado. Eu dormi mesmo?! Senti como se parte do tempo tivesse sido roubado da minha memória. Era uma sensação horrível.

O quarto já estava completamente escuro. Um daqueles ventos que antecedem chuvas se unira ao sopro do ventilador, no chão do quarto, esfriando um pouco o ambiente. Ergui os olhos e vi alguém tateando no breu. Tinha as pernas descobertas e um dos meus moletons antigos no corpo. Só podia ser uma pessoa. “Mia?”, murmurei. Que cê tá fazendo no escuro, garota? Ela seguiu a minha voz até a beirada da cama e se ajoelhou, sussurrando – “preciso falar com você”.

_Que foi?
_Vem lá fora um pouquinho comigo?
_Aconteceu alguma coisa? – me alarmei, sentindo uma fome desgraçada me apertar o estômago de repente, como um soco – Vou levantar. Espera.
_Não qu...

Antes que terminasse a frase, eu já estava sentada, com o cabelo bagunçado e certa sensação de deslocamento no tempo-e-espaço. Isso não é uma vida saudável. Me arrependia momentaneamente de ter fumado tanto. Engatinhei para fora do colchão, a fim de não acordar o Du, e saí por uma das pontas da cama. Trombei com a Mia no escuro, o seu corpo estava quentinho naquele moletom – e o meu gelado, exposta ao ventilador e à janela aberta por sabe-se lá quanto tempo, desmaiada. Fomos até a porta. E mal entramos no corredor (a luz machucou os meus olhos), pude ouvir o pessoal conversando na sala. Ainda. Que horas são? “Eu não quis te acordar”, a Mia se desculpou. E eu disse que não tinha problema, sorrindo, mas meio perdida ainda. Passei os dedos entre o cabelo, tentando amenizar o emaranhado. E notei que a Mia tinha uma expressão preocupada no rosto.

_Que foi? É coisa séria?
_Minha mãe fica ligando, ela tá insuportável. Ela quer que eu volte pra casa.

Fiquei olhando para ela. Meio chapada, sem reagir. Que casa? Demorei algum tempo para entender o que dizia.

_Eu acho que ela tá vindo pra cá.