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maio 31, 2014

Inerte

Sabe quando você está caminhando – de volta do trabalho ou indo para aquele bar onde você enche a cara, toda sexta-feira com as magníficas e obscenas criaturas que você chama de amigos – e sem qualquer motivo aparente, ainda que você faça aquele mesmo percurso todo tempo, os seus pés se distraem por um breve momento e atravessam a rua? Então, quando você chega do outro lado, você olha para os seus pés na calçada e é tomada por uma sensação ridícula, que te faz rir. Aí pensa consigo mesma: o que diabos eu estou fazendo aqui?

Pois é.

Eu não sabia o que estava fazendo ali. Com o telefone daquela garota anotado no meu celular e um cigarro aceso, sentada no meio-fio da Santos. Logo atrás do Conjunto Nacional. Números trocados a troco de nada? E não, eu não estou querendo me justificar – veja bem. Eu estava pouco me lixando pra aquela mina. Não era como se eu quisesse trair a Mia ou algo do tipo. Essa ideia não saiu da minha cabeça por livre e espontânea vontade. E eu sei que vai soar como desculpa sem vergonha de gente cafajeste, mas eu realmente não havia agido conscientemente. Não foi intencional, não foi uma decisão minha. Foi mais como uma correnteza, uma perda momentânea de noção. De onde eu estava, do que estava fazendo. O que, de novo, soa esfarrapado e talvez seja. mas talvez as pessoas também sejam mais complexas do que isso. Do que é certo ou errado. Não sei. Me senti um lixo.  

Quando, de repente, o meu celular vibrou. Mal havia acendido o cigarro e sentado ali na rua, ocupada confrontando mentalmente a minha atitude. Olhei rapidamente no visor: a mensagem de minutos antes para o Fer acabara de ser confirmada – é, só então. Fiz um movimento para guardar o telefone no bolso e ele tornou a vibrar, agora continuamente. Era a Mia me ligando. O sinal não estava pegando lá dentro e retornara há pouco, transbordando o meu aparelho. Atendi e ela já começou a despejar em cima de mim, em tom irritado:

_Onde você tá, meu? Por que você não atende??
_Tô na saída da Santos, o meu celular não tava pegando...
_PORRA. Custava avisar? – reclamou, nervosa comigo – Faz dez minutos que tô aqui!
_Eu mandei uma mensagem, meu. Você não recebeu?
_Não, cacete, não recebi nada! Esse seu celular é uma merda mesmo...
_É, eu não vou argumentar o contrário... – ri – Você tá dentro já?
_Tô. Tô no café. Me encontra aqui, por favor, não quero mais rodar...
_Beleza. Tô indo!

Me ergui do chão e meti o celular no bolso, jogando o cigarro ainda pela metade na calçada. Uma velhinha mais adiante me olhou feio por isso. Que que é? Entrei. O café ficava no térreo e eu logo avistei a Mia, estressada com a ineficiência do meu celular dinossaurico e o cabelo preso num coque descabelado sobre a sua cabeça. Vestia uma jardineira jeans de shorts minúsculos, com uma blusa preta de alcinhas por debaixo, e uma botinha de cano curto nos pés. Preciso apagar o telefone dessa mina. O que eu tava pensando?, sorri, ao vê-la ali em pé me esperando. De repente, fazia menos sentido ainda ter feito o que fiz. Ela estava impaciente. Linda pra caralho. Me aproximei e a sua boca já parecia prestes a me xingar. A cumprimentei com um beijo – o qual ela retribuiu – e só então veio a bronca.

_Puta que pariu, hein? Eu subi e desci essa droga cinquenta vezes já. Sem brincadeira: cinquenta, meu! Você viu o tanto de gente que tem aqui???
_Eu sei. Desculpa, achei que tivesse ido a mensagem...
_Juro. Hoje era o PIOR dia pra essa merda do seu celular não funcionar. O PIOR. Você não tem noção do quanto a minha mãe me torrou a paciência antes de eu sair. Quis mandar ela pro inferno, mas meu pai ficou se intrometendo e eu não consegui me defender. Foi um lixo. Tudo o que eu queria era ir embora logo. E a[i chego aqui e você me some, me larga nesse caos, eu já tava empurrando as pessoas pra passar, mano, quase atropelando. Tô muito irritada. Quero MATAR UM.
_Calma. A gente já se achou, meu... Tá tudo certo! – eu ri – Relaxa.
_Olha, você pode espernear o quanto quiser, mas já deu: eu vou comprar outro telefone pra você.
_Não. Nem pensar. Não quero que cê me compre porra nenhuma... Lá vem você com esses papos de novo...
_Essa merda não funciona!!
_Tá. Mas EU compro, com o MEU dinheiro. E quando EU quiser. Não tem essa.
_Considere um presente fora de época.
_Não tem dessa...
_Tá. Te dou de Dia dos Namorados então.
_Cala a boca – eu achei graça.
_Vou dar mesmo...
_Vai? – me enrosquei impulsivamente naquela jardineirinha dela, cheia de gracinha, colocando os meus braços ao seu redor como uma lagartixa que se esgueira parede acima – Hein, vai dar pra mim?
_Affe... – a Mia revirou os olhos, rindo da minha cara.
_Você que disse, mano. Suas palavras, não minhas.
_E por que a pergunta? Eu já não dou o suficiente, hum?!

Ela se divertia, deixando de lado o seu azedume todo. “Defina suficiente” – pedi e ela sorriu. A encarei convencida do contrário, antes mesmo que me respondesse. “Não?”, ela achou graça, percebendo. E eu balancei a cabeça aos risos – não mesmo. Aquele seu sorriso fazia deixava uma sensação morna no meu peito e me fazia apertar os braços ao redor da sua cintura. Em modo automático. A Mia se deixava envolver. Com uma imprestabilidade naqueles seus olhos castanhos tão, tão deliciosa que – meu deus, garota. Eu podia te comer todo dia, o dia todo, e ainda não ia ser suficiente. Nunca. Mas ela me empurrou para longe, de repente, com a mão no meu ombro. E me fez uma careta – “você não merece”, disse, brincando.

_Ah, não?
_Nada. Porque me deixou aqui esperando!
_Opa. Desculpa aí, ô princesa...
_Vai. Vai nessa. Fica com ironia mesmo! Sua babaca... – ela sorriu, me puxando pela mão sem muita atenção com quem passava em volta de nós – Vai, vamos sair daqui... Já peguei bode desse lugar.
_Às suas ordens, madame... – respondi, rindo.

Marchamos grudadas para fora daquela livraria como duas adolescentes que tomaram muita droga escondidas dos pais, cutucando compulsivamente uma à outra e rindo, meio descabeladas – eu com o meu ninho de mafagafo loiro, o de sempre, e ela com o seu coque moreno meio desmazelado. A Mia se indignava com a roupa que eu estava usando. “É assim agora, né?”, me zombava, “antes você se arrumava toda pra me ver, agora que as coisas esfriaram cê não dá a mínima...”. “Mano, QUANDO você me viu arrumada?”, eu me divertia. “Ok. Mas nunca foi tão largado assim”. “Em que mundo cê vive? Eu tô sempre um mulambo, mulher, tá louca? Não era comigo que cê tava saindo, não. Cê tá lembrando de outra aí...”, brinquei. E ela me fez um joinha com a mão: “É. Eu e as várias mulheres que eu já peguei na vida”. “Besta”. Nós duas ríamos.

Chegamos na calçada e o sol ainda não tinha se posto, o que me animou a aproveitar o fim daquele sábado. Sugeri passarmos em algum bar na descida da Augusta. E os olhos da Mia só faltaram implorar – por favor, sim! –, louca para esquecer o drama todo com a mãe em casa. Tirei o maço do bolso e a sua mão ocupou automaticamente aquele espaço no meu jeans. Então aconteceu. O mesmo que antes: foi pisarmos na calçada que o meu celular vibrou, no bolso ao lado. Minhas mãos estavam ocupadas na hora. Com o isqueiro e aquele vento de merda que sobe da Augusta até a Paulista, impedindo qualquer fumante de cultivar o seu vício.

_Espera – a Mia pediu – O seu celular tá...

Aconteceu rápido demais. Ela o puxou do outro bolso antes que eu pudesse tirar o filtro da boca e contestar. Merda.

maio 29, 2014

Pode. Pode?

“Estou só olhando”, respondi, sem nem olhar para o lado. A minha mão estava ainda sobre o livro quadrado de arquitetura e a outra ocupava-se em por o celular de volta no bolso. Fingi por um instante estar de fato olhando na direção das obras destacadas sobre a mesa, só para despistar – não havia ninguém praqueles lados da Cultura e a última coisa que eu queria era socializar com alguma funcionária. “Tem certeza?”, ela insistiu, “eu não estou fazendo nada agora no setor, posso te ajudar a encontrar algum livro”. Eu balancei a cabeça.  E achei graça na sua disposição para trabalhar – se fosse eu, estaria me fazendo de ocupada entre as prateleiras só para não ter que falar com ninguém. Dei um passo para o lado e os meus dedos deslizaram desinteressados sobre um livro de paisagismo.

_Você estuda arquitetura? – a funcionária me perguntou.
_Não. Mas meio saio com uma garota que estuda.
_Ah...

Os meus olhos seguiram desatentos por uma obra ou outra, já quase ao fim da mesa. “Alguma coisa para ela, então?”, a garota me perguntou. E eu estranhei. “Não”, respondi, rindo, como se fosse óbvio. E só então subi o meu olhar até a atendente – agora curiosa. “Não?”, ela sorriu, me olhando de volta, diretamente. Eu achei graça. “Não”. Ela acenou com a cabeça, captando a confirmação, e apoiou as duas mãos sobre a mesa. Eu dei mais um passo adiante. “E você, estuda o quê?”. Tinha uma sensação esquisita no estomago, os meus dedos deslizavam pelas capas dos livros. “Nada”, ergui os olhos mais uma vez. Realmente curiosa. E os abaixei logo em seguida. Ela usava os cabelos ruivos, repicados logo abaixo da orelha. Parecia um ou dois anos mais nova do que eu – “nada?”, ela riu. E eu balancei a cabeça.

_Cara, você não está ajudando...
_Não, né? – eu concordei, achando graça.

Ela sorriu. Olhava na minha direção sem qualquer constrangimento – você está dando em cima de mim?, a ideia me divertiu – e a encarei por um instante de volta. É impressionante a capacidade que temos de nos comunicar com apenas pálpebras e pupilas. “Você trabalha?”, ela perguntou, antes que eu desse mais um passo para frente, pegando um livro qualquer nas mãos. “Nada de interessante”. “Duvido”, me olhou mais uma vez. Juro. Às vezes, penso que as bichas e sapatas vivem tão à parte, tão escondidos, que desenvolvemos esse tipo de habilidade. Como um código. Para a nossa própria sociedade secreta – nos olhamos e sabemos. Sabe? Nos identificamos. É como nos comunicamos na rua, como damos em cima uns dos outros sem sair do armário. Sem nos expor. “Trabalho de assistente numa produtora”, a olhei de volta. “Ok. Acho que não temos livros sobre isso”, sorriu. E ajeitou o próprio cabelo. De forma despretensiosa. Tinha alargadores pequenos e pretos em cada uma das orelhas, desses de 5 ou 6 milímetros e que fazem uma curva quase em espiral. São bonitos, pensei.    

Todos os funcionários da Cultura eram meio porraloucas. “Eu posso ver a sua tatuagem?”, a garota me perguntou então. “Oi?”. “Eu tava vendo ali de trás”, disse, “antes de vir te atender... Achei tão bonita”. Eu estava com uma camiseta branca, já um tanto velha e batida, que coloquei só para ajudar a Lê a raspar o moicano e que escondia a maior parte dos rabiscos no meu corpo. “Qual delas?”. Ela se aproximou do meu lado direito, respondendo – “essa”. “Essa aqui?”. Ergui a manga, revelando o restante das rosas que cobriam o meu ombro. Aquela era a favorita da Mia – gostava do fato de que nós duas tínhamos flores cravadas na pele, ela dizia. “São lindas”, a menina comentou. E segurou no meu braço, escorregando o dedo por cima das linhas. Eu a olhei de volta, de perto. Descaradamente. Filha da mãe. Observei, achando graça, conhecia aquele joguinho até bem demais.

_Você tem alguma? – perguntei.

Ela ajeitou o corpo para mais perto de mim. “Só uma”, tudo acontecia de forma muito sutil. “Mas queria fazer mais. Você tem outras?”. É. Eu ri – “algumas”. Arqueei a sobrancelha, como se indicassem não serem poucas. “Algumas?”. “É”. “Quantas?”. “Acho que oito, não sei bem...”, respondi e fiz graça, “algum livro pra me recomendar?”. Ela riu, bagunçando a franja com a própria mão. Se divertia comigo – “olha, uns bem melhores do que de arquitetura...”. Eu ri. Tenho certeza disso. Concordei com a cabeça e ela me olhou, agora sem sequer disfarçar o seu interesse. Desgraçada. Isso não vai prestar. A Mia estava para chegar, a qualquer instante.

_Escuta – sem pensar direito, fiz então o que a antiga eu faria uns meses antes – Por que cê não me passa seu telefone e a gente vê esses livros outro dia...
_Outro dia só? Eu posso te mostrar agora, se você quiser...
_É, mas... – subi o olhar e ela tinha todas as suas intenções fixas na minha direção – ...acontece que eu não trouxe dinheiro hoje – brinquei –, vai que eu gosto de algum livro e quero levar. Não é?
_Sei.
_E outra: hoje eu também não posso ficar, vim encontrar alguém.
_Hum. A arquiteta?
_É. A arquiteta – confirmei e ri.

A Dificuldade

_Me senti uma criminosa indo falar com ele. Todo mundo que me encontra parece que tem medo de ser visto comigo, JURO! É ri-dí-cu-lo – revirei os meus olhos e a Lê riu.
_E medo por quê?
_Ah! Medo do Fer, né, meu. Dele saber que falaram comigo. Sei lá eu! – traguei mais uma vez e soltei a fumaça para o lado em seguida – É uma merda, todo mundo me ignora quando me vê, quando mando mensagem... O Benatti mal olhou na minha cara e depois ainda quis prestar favor à causa, aí me solta que o Fer tá saindo com uma mina aí... Como se dissesse que ele tá “muito bem” apesar da minha existência, manja? Que tá numa boa e o caralho a quatro...
_Mas isso é bom, não? – a Lê argumentou, com o olho fixo em uma garota que atravessava a rua – Quer dizer... Aí ele para de encher o saco, por causa da...  – por um instante, perdeu a linha de raciocínio – ...da, da Mia lá.

Virei a cabeça para olhar direito o que ela tanto estava encarando e vi a tal menina, uma garota que parecia dessas héteros que vão no clube todo dia pra pegar sol. Vinha vindo na nossa direção com um top crop branco e uma saia longa florida, cor de vinho. Voltei o rosto mais uma vez para a minha amiga, já sorrindo. Sua imprestável.

_Quem é essa aí, ô?!
_Oi?
_A mina atravessando a rua – ri –. Quem é?
_Ninguém. Não é da sua conta...
_Caralho. É ASSIM AGORA?? – me ofendi, arregalando os olhos – Tomar no seu cu, Letícia. Eu te conto as minhas merdas... – coloquei o cigarro de volta na boca, rindo, vendo que logo teria que ceder meu lugar.
_Não é ninguém, mano! É irmã da Ju, BELEZA?! Nada demais... Ela só veio conversar.

Espiei novamente para trás, para a garota. E comecei a gargalhar.

_Cê tá pegando a IRMÃ DA SUA EX??
_FALA BAIXO, PORRA!
_Tá mesmo?? – me surpreendi com a sua reação, quase pulando da cadeira para me debruçar sobre a mesa, encarando-a – Hein, cê tá falando sério?!
_Meia irmã, tá? E não foi assim – explicou –, a gente não se pegou...  Ela só, sei lá, tá me mandando umas mensagens aí de madrugada... mas FICA NA SUA! – me apontou o dedo – E vamos falar de outra coisa, vai, rápido. Disfarça aí. Que cê tava dizendo antes, hein? Do Fer? Da mina lá... Como era mesmo?
_Ah. Nada. Só que fiquei feliz pra cacete por ele. Quer dizer, não sei se é sério... nem deve ser. Mas é alguma coisa... – baguncei o meu cabelo, um tanto desanimada – Porra, cheguei em casa e fui direto mandar mensagem pra ele...
_Ahm. E aí?
_E aí nada. Não consegui mandar!
_POR QUE, meu?
_Porra, Lê... – passei a mão no rosto, me detestando. Eu e toda aquela novela de merda em que eu me metera, magistralmente – Como que eu vou falar com ele de mulher agora, caralho?! Ele ia me mandar à merda! Ia levar dois segundos pra ele falar pra eu ficar longe...

Nem deu tempo de terminar e ela esboçar uma resposta e a minha amiga já estava lá, direcionando toda a sua má intenção à irmã da ex, que se aproximava da mesa. Meia irmã, tá. Que seja. Eu me divertia com a cena – a parte mais inescrupulosa de mim queria falar em alto e bom som o que ela bradou meses antes quando a Marina estava tatuando. Pois é. Não era você que não queria pegar hétero nem se implorassem? Ver aquela cena era como corrigir a sua professora de primário na frente da classe toda. Sensacional. Pelo bem da amizade, todavia, fiquei na minha – favor este que a Letícia raramente fez por mim no passado. Vale lembrar.

Recebi então uma mensagem da Mia, me avisando que já estava quase na Paulista. Tinha combinado de encontrar com ela no Conjunto Nacional e ainda havia umas boas quadras para subir a pé. Ela estava atrasada – para variar, a mãe deve ter feito uma ceninha antes que saísse. Argh. Me despedi rapidamente da Lê e da sua futura dor de cabeça. E quando cheguei na Cultura do Conjunto Nacional, notei que o meu celular não pegava lá dentro. Mas que inferno! Voltei para a calçada e digitei uma mensagem rápida para a Mia, pedindo que me procurasse no primeiro andar da livraria. Coloquei o telefone de novo no bolso de trás da calça. E só então entrei. Algo me incomodava.

Como será que ela é?, pensei com meus botões, enquanto vagava entre as estantes de livros. Deve ser bonita. O Fer sempre saiu com minas bonitas. Eu ria sozinha – menos a Karina: essa era um horror. Homofóbica de merda, balancei a cabeça. E me veio à mente o dia em que falamos dela, entre caixas e mais caixas com coisas dele, do meu amigo, dias antes dele se mudar. Nós dois e a Mia na sala do apartamento, bebendo rum. E rindo. Deus, aquilo parecia estar tão distante. O Benatti já deve ter mencionado nosso encontro na Augusta. Fofoqueiro, arqueei a sobrancelha. A livraria estava cheia. E a minha cabeça dava voltas. Por que ele quis que eu soubesse do Fer? Ou será que foi o Fer que quis que eu soubesse da mina?

Passei por algumas meninas em um dos corredores. Ele mencionou ela uma vez. Numa mensagem, é. Ou espera, será que essa é outra? Os títulos dos livros cruzavam os meus olhos, mas eu não retinha nenhuma informação. Aquele escroto de merda... Se ele já está em outra, por que não me perdoa? Peguei um livro qualquer na mão e logo o devolvi na prateleira. Eu detestava falar sobre o Fernando com qualquer pessoa e me arrependia de tê-lo feito com a Lê. Meio segundo dele numa mesa de bar e a minha mente passava o resto do dia obcecada: era insuportável. E idiota. Que diferença faz, afinal? Não é como se fosse voltar ao normal...

Subi mais um andar na Cultura e lá estavam as obras fotográficas, os títulos de arte. Foto e dança. Graffiti e urbanismo. Música e tatuagem – tudo junto e misturado. Uns meses antes e eu teria passado reto por aquela capa quadrada, reluzente, estampada com formas geométricas e as suas consequentes sombras. Os meus dedos deslizaram pelas folhas a esmo. A Mia me fazia gostar de arquitetura; era bizarro como eu achava agora bonito umas coisas que antes eu sequer reparava. Isso é ridículo. Eu devia ser capaz de falar com ele. Fomos amigos por dez anos, caralho... Não era pouco. E num ímpeto de coragem, tirei o celular do bolso e digitei – “E ai? To sentindo tanta sdds de conversar com vc. Vms fazer alguma coisa?? Prometo q. ñ falo merda. Encontrei com o benatti dia desses...”. Enviei. E aquela droga de telefone logo vibrou, me indicando a falta de sinal para mandar.

_Posso te ajudar com alguma coisa? – ouvi de repente.

maio 18, 2014

Encontros

Pelas semanas seguintes, a Mia passou o máximo tempo que pôde fora de casa. Quando não estava na minha casa, se enrolando nos meus lençóis e me matando do coração, ela estava na casa de alguma prima ou amiga – geralmente a Michelle, que me detestava. Em boa parte do tempo, ficava também na faculdade. Estava no último ano de Arquitetura e Urbanismo, metida em um projeto bam bam bam da área que queria seguir. Não entrava na minha cabeça como alguém como ela aguentava passar tanto tempo em meio ao povo do Mackenzie. Observava aquelas garotas com três estrelinhas tatuadas atrás da orelha, a cada vez que eu passava lá para dizer um ‘oi’ para a Mia, e puta que pariu. Tinha vontade de sair correndo. De picar a mula e ir me refugiar entre os porraloucas, ratos de boteco da Augusta.

Ainda assim, era ali que ela preferia passar as suas horas: antes o inferno a que se acostumara do que a casa dos pais. Para você ver como eram os pais, não é. Pois ela não se encaixava com eles. E nem entre aquele povo coxinha da sua faculdade. Não a Mia e as suas tatuagens de verdade, me tirando o fôlego, deitada na calçada imunda e fumando um atrás do outro comigo, me xingando pelos meus atrasos. Aquilo se tornara semanal. Eu inventava qualquer ida ao Correio ou ao banco para fugir do trabalho e ia encontrá-la. Nunca chegava no horário. E ela sempre perdia os dez primeiros minutos da aula seguinte ao seu intervalo.

Sentávamos as duas no meio-fio e eu a ouvia falar minutos a fio sobre jardins verticais e paisagismo, completamente intrigada. Sentia então uma vontade louca de sequestrá-la, de levá-la de volta para o apê. Toda santa vez. De resgatá-la – e umas vezes eu bem tentei... Com as mais puras intenções, eu juro. Ahm, é. Mais ou menos. A Mia se divertia e me beijava, pedia para que eu ficasse. Mas não havia amor que me fizesse entrar numa sala de aula com aquela gente.

Todo mundo na sua faculdade morria de curiosidade. De mim, de nós. Como se aquela ceninha na Maria Antônia uns meses antes não tivesse sido suficiente, eu praticamente vivia na porta do Mackenzie. Nos víamos nos intervalos, almoçávamos juntas,  ia até uma festa ou outra. A Mia ainda achava estranho ficar comigo na frente dos amigos, sendo que a maioria passou o curso todo vendo ela com o Fer, então os nossos beijos aconteciam moderadamente. Nem sempre na frente dos outros. Mas eu estava sempre lá, do seu lado. Óbvia e constante. Todo mundo fofocava e todo mundo sabia.

_E como vocês vão fazer? – a Lê me perguntou, semanas depois, enquanto eu contava da briga toda com os meus sogros pais da Mia.

“Ah, sei lá”, dei de ombros. E coloquei um pouco mais de cerveja no meu copo, espiando a hora no visor do celular. Estávamos num desses bares-meio-lanchonete da Frei Caneca. Bem perto de casa. A Lê tinha ido me encontrar mais cedo para eu ajudar a “aparar” as laterais do seu moicano – um daqueles programas nem um pouco héteros – e depois descemos para beber umas na esquina. Arranjamos uma mesa na calçada, o que era praticamente um milagre num sábado à tarde. E eu contava para ela sobre a última peripécia da mãe da Mia. Uns dois dias antes, a velha tinha dito que não ia mais pagar a festa caríssima de formatura. Ao que a filha respondeu: fique à vontade. Quando a Mia me contou pelo telefone, eu gargalhei. E desejei ter visto a cara da mãe. Havia me acostumado com as falsas ameaças dela, mas elas ainda rendiam uma boa dor de cabeça para a Mia.

_Sua mina tinha que mudar. Arranjar um emprego, sair de lá... – a Lê sugeriu, alisando quase compulsivamente a lateral da cabeça recém-raspada; e a verdade é que a Mia vinha se esforçando para isso – ...cês não tem vontade de morar juntas, não?

A encarei por um instante. Já indignada, deixa de ser ridícula.

_Quê?!
_Menos, Letícia.
_Qual o problema? Cês já passam esse tempo todo juntas, mano...
_É um pouco diferente – muito diferente – ela poder ir lá em casa o tempo todo e eu ficar sozinha quando quiser, mandar ela embora – argumentei –, do que a gente morar juntas de fato, dividir as contas, as tarefas. Ter que conviver todos os dias.
_Ah, mas... Só provisoriamente, porra! Até ela arranjar uma parada só dela...

Não dá ideia, mulher.

_Não. Tô de boa.
_Você é muito cagona... – a Lê riu e tomou outro gole da sua cerveja – Aliás, como tá o lance com o Fer? A Má me disse que cês conversaram.
_Ah, naquelas... Faz umas semanas já. Ele apareceu na frente do prédio, mas depois não nos falamos mais.
_E que cara é essa?

Argh. Deslizei os braços pela mesa do boteco e abaixei a minha cabeça, sem nem coragem de tocar no assunto. Eu sou uma tosca mesmo. Me ergui de novo e alcancei o meu copo, indisposta, enquanto a Lê achava graça da minha cara. “Você tá sempre na merda”, ela riu. E eu concordei. Não tinha nem como discordar. Vinte e cinco anos nas costas e a minha vida parecia mais uma novela mexicana brega, cansativa do que qualquer coisa remotamente parecida com um cotidiano normal. Bravo! Tirei o maço do bolso e acendi um cigarro. A Lê ainda me encarava.

_Eu encontrei com um amigo nosso uns dias atrás... – contei relutante – ...o Benatti.

maio 15, 2014

Permanente

Não. E foi um não grande. A Mia tinha dessas às vezes e o seu receio em se assumir se confundia com qualquer incômodo que causava aos pais. Não queria poupá-los tão mais que a si mesma. Olhei para a sua tatuagem, ainda nua na cama, descendo a lateral do seu corpo nuns rabiscos bonitos. E antes de acender um baseado, a apontei: “e o seu pai, ele achou ruim quando cê fez as cerejeiras?”. Ela riu, como se a resposta fosse óbvia. “Armou um escândalo”, disse, revirando os olhos, e pegou o fino da minha boca, “os dois fizeram”. “E que você respondeu?”. “Nada, ué, só fiz”. “Mas eles sabem? Você esconde?”, observei a fumaça sair lentamente dentre os seus lábios, tentadora. “Como se desse, né. Eles são meus pais, eu vejo eles todos os dias...”. “Hum?! Nem no Natal ou Hanukkah ou... sei lá, não sei o que vocês comemoram”, insisti e ri, “Hein, você não coloca uma blusinha de manga longa pra sua vó não ver?”. A Mia balançou a cabeça e franziu as sobrancelhas, em negação. Com o seu espírito porralouca ofendido. “Não. Claro que não!”. Tragou mais uma vez, prendendo a respiração. E continuou: “se alguém tiver um problema, eu mando à merda”. “Bom... Então”, eu achei graça.

_Pense em mim como a sua nova tatuagem.

maio 10, 2014

A percepção da nossa existência

O arrependimento veio logo na manhã seguinte. Havíamos ido dormir cedo, exaustas, depois de nos recusarmos a explicar o que acontecera a uma Marina, um Du e um Gui ansiosos, bem como os seus respectivos acompanhantes. Fomos deitar e os deixamos na sala. A Mia capotou. Acordei com o seu movimento na cama. Antes de abrir os olhos, senti como se o meu corpo tivesse amadurecido uns cinco, seis anos durante a noite. A minha pele. A minha vida. E ainda que fosse estranho, isso não me incomodou. Hoje já é domingo? Virei para o lado e deixei que minhas pálpebras apartassem. 

A Mia estava sentada a uns centímetros de mim, com os joelhos contra o corpo e os pés sobre o colchão. Sem roupa, nem motivo aparente para estar ali, já acordada. Tinha as costas na parede. Encarei-a e cocei a lateral do meu ombro, por cima da tatuagem, achando graça. Sorri. “Que foi?”, ela perguntou, mordiscando, nervosa, a ponta do dedo.

_Você aí – eu ri, sentindo certo carinho por ela – Por que você já tá toda tensa?
_Eu fiz merda ontem, linda...
_Calma. Cê nem acordou ainda – me ergui, sentando também na cama e prendendo o cabelo de qualquer jeito sobre a cabeça, igualmente nua –. A gente pensa nisso mais tarde...
_Não. A-as coisas que eu falei, na f-frente da minha...
_Relaxa, meu. Não foi tão ruim, vai dar tudo certo.
_Mano, como você não me deus uns tapas? Como você me deixa sair gritando daquele jeito, expondo as coisas sem noção nenhuma? Cê tinha que ter me sacodido, me feito acordar daquela... brisa toda errada.
_Toma café primeiro – eu não podia evitar senão achar graça na sua confusão; e a verdade é que eu me sentia bem, por motivos totalmente egoístas – Vai, eu pego lá. Que cê quer comer?
_Não, velho. Não tô com fome. Eu só quero... – franziu as sobrancelhas, afundando a cara nas próprias mãos – ...eu só quero morrer. É isso. Quero me matar.
_Não foi assim também, vai.
_É sério – mergulhou no travesseiro, deitada de lado – Me joga dessa janela. Me empurra da escada.

“Pára”, eu ri. Deixa disso, garota... Sentia um estranho e quase incontrolável orgulho dela. “Eu quero te beijar, isso sim”, segurava-a perto e ela se desvencilhava. Agora que não havia mais ninguém por quem eu precisasse manter as aparências, o bom senso, me tomava uma felicidade boba. Escalei o seu corpo, ainda curvado sobre o travesseiro, e a forcei a tirar as mãos da cara. “Sai”, ela riu, “não tem graça!”.

_Vem – eu insistia, em cima dela, me divertindo – Agora encara o mundo, Sra. Assumidinha!
_Não, meu. Pára! Foi horrível – ela ria, desesperando-se – Eu tô preocupada de verdade...
_Que preocupada, o quê! Você faz isso amanhã, vai. Hoje vamos só fumar uns e comemorar.
_Comemorar?
_Com sexo lésbico. Muito, muito lésbico.
_Affe! Cala a boca! – gritou, sorrindo – COMO VOCÊ É IDIOTA.
_Cê já foi deserdada mesmo. É melhor começar a me fazer favores, acha que vai ficar aqui de graça?
_Ah, é assim?!

Pôs a língua entre os dentes, achando graça. E levantou para me beijar. “É”, eu disse – milésimos antes – e pressionei os meus lábios contra os dela. Não sei como explicar, havia uma sensação de reconhecimento naquela confusão toda. Como uma vitória: nós existimos. Pulei da cama por um instante. E dei dois passos até a minha escrivaninha, onde estavam o dichavador e cinco ou dez gramas enroladas em papel filme. Voltei para o colchão logo em seguida. A Mia estava deitada e espreguiçava os braços, as mãos. Olhou para as minhas pernas, me ajoelhando ao seu lado, e se sentou comigo de novo.

_É boa essa que o moleque trouxe.
_Também achei. E ah, a propósito, eu não fui deserdada, ok.
_Não? – eu ri – Pareceu...
_Não. Cê tem que ignorar. Minha mãe sempre fala essas merdas... – revirou os olhos.
_Nossa. Mas são merdas meio sérias para se falar sempre... Ou não?
_Sei lá. Depois ela esquece.
_Na boa, fiquei com medo das brigas que cês tem em casa – fiz graça, enquanto debulhava a maconha com as mãos, sobre o lençol.
_Por quê? Cê não briga com seus pais?
_Ah, faz muito tempo que não. Desde que saí de casa, praticamente.
_Sério?
_É só pisar pra fora que, de repente, não tem mais gritaria. É tudo “fica mais, filha” – forcei uma voz mansa, fininha –, “não quer levar um pouco de feijão congelado?”, “você precisa de alguma coisa?”. Sei lá. Mudou muito a nossa relação. 
_Tanto assim? Eu queria sair da casa dos meus, mas acho que eles não vão mais falar comigo. Não se eu sair assim, nesse caos todo.
_Eles não vão fazer isso, Mia. É só ameaça.
_A relação de vocês mudou como?
_Ah, no começo eles acharam ruim. Disseram que eu tava fazendo tudo errado, que era pirraça. Hoje em dia eles até ligam às vezes pra encher o saco, geralmente reclamam da Augusta ou de alguma coisa minha, mas mesmo assim não é igual. A discussão é por telefone, não preciso mais dar satisfação. Não sei. É bem diferente quando cê tem que voltar pra casa e encarar, continuar cara a cara. Nossa! Quando eu era mais nova, sim, rolava umas tretas enormes. Eu saía batendo porta, ia pra casa do Fer... Era uma merda atrás da outra, também.
_Mas por causa de...
_De quê?
_Ah, de você. Quando eles souberam que você... – insinuou.
_Não. Isso, não. Isso foi bem diferente.
_Como diferente?
_Não foi que nem você e a sua mãe. Ou mesmo nossas brigas. Os meus pais... – hesitei – ...sei lá, foi mais guerra fria. O meu pai não falou direito comigo por um tempo, ignorava a Nana. E a minha mãe me criticava, chorava, eu era obrigada a ter conversas horrorosas por horas. Foi uma merda. Ninguém falava nada direito. Não tinha “sapatão”, não tinha “namorada”, ninguém pronunciava as palavras, as coisas. Era sempre subentendido, meio mal falado.
_Mas nem você?
_Eu falava mais. É que, tipo, depois da primeira vez que conversei com eles, eu me senti constrangida de forçar o assunto de novo... E eles também não diziam porra nenhuma. Com a minha mãe era sempre pelas bordas, manja, reclamava que não gostava dos meus “amigos” quando, na real, tava falando da Nana; dizia que eu tava uma fase problemática, que eu magoava muito o meu pai. A crítica era sempre pra mim, pro meu comportamento, nunca a minha sexualidade. E “ai, por que você insiste em trazer ‘essa pessoa’ aqui”, como se tudo bem eu viver a minha vida lá fora, mas que não forçasse aquilo pra dentro de casa e da nossa família. Como se eu tivesse provocando, fazendo de propósito para ser rebelde. Essas coisas – revirei os olhos.
_Mas você não acha que forçamos um pouco? Que impomos?

maio 05, 2014

Onde vivem os caminhões

_Vem, meu... – eu ignorava a mãe e chamava a filha – Vocês duas vão falar coisas que depois vão se arrepender...

Podia vê-la se desesperar. Ah, podia. No segundo em que a adrenalina passasse e toda aquela discussão parecesse um grande absurdo. A imagem era nítida na minha cabeça. E eu queria evitar aquilo. Mas a Mia havia entrado em seu modo de briga.

_Eu quero falar. Quero falar UM MONTE PARA ESSA DAÍ! – a Mia estava furiosa e me seguia relutante, com um pé adiante e outro determinado a ficar – COMO VOCÊ APARECE NA PORTA DE ALGUÉM QUE VOCÊ NEM CONHECE?? – eu praticamente a forçava a vir junto – COM QUE DIREITO VOCÊ VEM DIZER QUALQUER COISA PARA MIM??? VOCÊ SE ACHA PERFEITA?? ACHA QUE TEM ALGUMA MORAL PR...
_Mia, vem... – fiz um sinal para que o porteiro abrisse e a meti prédio adentro – A gente faz isso outro dia.
_ABRE ESSA PORTA! – a mãe da Mia mandou.
_É. ABRE ESSA PORTA!
_Minha senhora... – o porteiro parecia confuso, no meio das duas.
_NÃO abre essa porta! – interferi – Eu moro aqui e eu decido. Ninguém mais vai discutir. CHEGA.
_ABRE A PORTA! – a Mia insistiu, revoltada.
_PODE ABRIR! EU SOU A MÃE DELA!
_AH! AGORA VOCÊ É MINHA MÃE?? – revirou os olhos – ENGRAÇADO VOCÊ DIZER ISSO – eu a puxava prédio adentro –, PORQUE MEIA HORA ATRÁS VOC...
_Só vem, meu.
_ONDE VOCÊS PENSAM QUE VÃO?? VOCÊ – a mãe dela me acusou – V-VOCÊ NÃO PODE MANTER ELA AÍ DENTRO, À FORÇA!!

Eu? Me segurei para não responder àquilo. Naquela hora, cada célula do meu corpo quis mandar aquela mulher à merda. Eu juro. À força? Meu cu.

_VAI EMBORA! – a Mia estava indignada – NINGUÉM TE CHAMOU AQUI!!
_VOCÊ VAI SE ARREPENDER, MIA!
_NOSSA! OLHA, MÃE... OLHA!! – as duas ainda discutiam, através do portão, já a uns oito metros de distância – ESTÃO ME LEVANDO... AÍ NÃO TEM VOLTA, HEIN?? – ironizava – AGORA É PRA SEMPRE. É O FIM DO MUNDO, VOU FICAR PRESA AQUI... OLHA... NUNCA MAIS. VOU MORAR NA PORRA DA SAPATOLÂNDIA AGORA.

Eu comecei a rir. O quê? Virei o rosto para o seu lado e murmurei, por cima do ombro:

_"Sapatolândia", meu?
_Desculpa. Foi a única coisa que veio na minha cabeça...

E a boiada também

Eu não queria entrar na briga. Não depois do meu fiasco ao telefone com a mãe da Mia, um mês antes. Não posso perder a calma, não posso estragar isso também. Eu precisava ser a porra da voz da razão ali. Não podia permitir que pensassem que eu trazia o pior da Mia à tona. Por mais que meu coração pulasse de alegria a cada “eu amo ela”, a cada palavra dela em minha defesa. A minha expressão não se alterava. Como se não houvesse um grama de maconha dentro do meu corpo, eu encarava aquela perua de Higienópolis como se fosse a droga do Papa. E transmitia toda a minha autoconfiança. Confie a sua filha em mim – os meus olhos diziam.

_ESSA É A MINHA VIDA!! MINHA!! – a Mia, por outro lado, se indignava com a presença da mãe naquela calçada e as suas palavras sobre seu futuro, suas escolhas – VOCÊ NÃO VAI CHEGAR COMO SE FOSSE DONA DE QUALQUER COISA AQUI – colocou o cabelo de qualquer jeito atrás da orelha, continuando na sua direção, em disparada – FAZENDO AMEAÇA, LEVANTANDO A VOZ PRAS PESSOAS QUE EU COLOQUEI NA MINHA VIDA. EU!!! 
_ENQUANTO VOCÊ AGIR COMO UMA PIRRALH...
_Por favor – interferi na discussão, falando num tom mais calmo – Vamos só conversar por um instante. A gente pode fazer isso de forma muito mais tranquila. Se você, sabe, me conhecer melhor – me virei para a mãe da Mia –, se eu puder te falar um pouco sobre como nós v...
_EU NÃO TENHO NADA PARA DISCUTIR COM VOCÊ. O MEU ASSUNTO É COM A MINHA FILHA! NÃO SE INTROMETA!!
_ELA ESTÁ TENTANDO FALAR COM VOCÊ. SABE, COMO UMA PESSOA CIVILIZADA!! – a Mia gritou.
_EU NÃO TENHO NADA PARA FALAR COM ELA E NEM COM NINGUÉM DESSE MUNDINHO IMUNDO – me apontou – TUDO O QUE EU TINHA PARA DIZER, EU TE DISSE! – e se voltou para a filha – VOCÊ ENTRA NO CARRO, MIA, QUE AGORA A CONVERSA É COM VOCÊ!
_NEM A PAU! EU QUERO VER VOCÊ ME OBRIGAR, QUEM VOCÊ PENSA QUE É, VINDO AQUI E...
_VAI, SIM! VAI ENTRAR E O SEU PAI VAI TE DIZER UMAS BOAS VERDADES, NÓS...
_O MEU PAI?? E-ELE TÁ SENTADO NAQUELE CARRO Q-QUE... QUE NEM UM COVARDE!!! – a Mia começou imediatamente a chorar, bastou a mera menção ao pai – ELE SEQUER OLHA NA MINHA CARA!! – a sua voz estremeceu e ela se virou para a rua, na direção do carro, estacionado a metros de onde estávamos – VEM! VEM FALAR COMIGO!!! EU SOU SUA FILHA, PORRA!!!! VOCÊ TÁ DO LADO DELA????

O pai sequer se moveu. Estava a doze ou quinze metros de nós e tinha o rosto abaixado, dentro do carro. Sentado em frente ao volante, com todas as janelas fechadas. Era possível que não as ouvisse, daquela distância, ainda que eu achasse difícil – as duas discutiam em alto e bom som. Parecia se isentar conscientemente de toda discussão. Ausente. Não era homem de se envolver em barracos, desses como aquele, em meio à calçada. A mãe, sim, essa fazia a linha me-importo-mais-com-a-sexualidade-da-minha-filha-do-que-com-a-minha-compostura. Ele não. Ele provavelmente só vai descer o pau em casa, pensei, no conforto do seu reino. E a Mia perdia a cabeça. Podia lidar com a mãe, com as suas loucuras e surtos controladores, como lidara mil vezes antes na adolescência e nas últimas semanas – mas a presença silenciosa dele a machucava.

Deu-lhe dois segundos e começou a marchar em sua direção. Sem pensar. Irritadíssima, já pronta para atravessar a rua. O que você tá fazendo?  Eu me apressei. E me meti na sua frente – coloquei as mãos no topo dos seus braços, quase nos seus ombros, a segurando. A Mia vestia aquela mesma regata preta. E tinha os olhos vermelhos de ódio, de vergonha. Por toda a situação. Havia saído completamente do nosso controle.

_PENSA DIREITO. Pensa no que você tá fazendo, Mia! – pedi – Para quê você quer ir lá?
_E-ele tem que dizer alguma coisa... – ela estava fora de si; meio bêbada de cerveja, meio embriagada com a discussão – ...e-ele não pode me ignorar. Ignorar TUDO O QUE ELA ESTÁ DIZENDO, O QUE ELA ESTÁ FAZENDO COMIGO. NÃO PODE! – olhou por cima dos meus ombros, para o carro e para o pai – FALA COMIGO!! OLHA PRA MIM!! PRA QUÊ VOCÊ VEIO ATÉ AQUI???
_Presta atenção. Não faz isso! Por favor, linda – eu implorava –, a sua mãe tá surtando. Você não quer fazer isso agora, só espera... Espera para ter essa conversa com calma.
_Mas e-ele... sabe, ele tem que saber. ESSA LOUCA SE METEU EM TUDO!! ELA FALOU!!! – se virou, agora para a mãe, que estava atrás de nós na calçada. E começou a gritar de novo – VOCÊ NÃO TINHA ESSE DIREITO!! VOCÊ NÃO TINHA QUE CONTAR!!! ESSA É MINHA DECISÃO, MINHA VIDA. VOCÊ SEQUER SABE DO QUE TÁ...
_Mia, não – falava baixinho para ela, perto do seu rosto.
_...FALANDO!!
_Vem comigo.
_VOCÊ PENSA QUE ELE NÃO SABE? – a mãe retrucou – QUE ELE JÁ NÃO SABIA?? O SEU PAI NÃO É IDIOTA! ELE SABE DESDE O DIA EM QUE ESSAZINHA AÍ PÔS O PÉ DENTRO DE CASA, SABE MUITO BEM QUEM ELA É.
_CALA A BOCA!!
_ELE ME OLHOU E FALOU: “EU NÃO GOSTO DESSA MENINA. ELA NÃO É BOA INFLUÊNCIA”. E ADVINHA?? ELE ESTAVA CERTO!!
_Mia... – eu a segurava, tentando fazer com que me seguisse para dentro – ...vamos entrar, deixa pra lá.
_VOCÊ É UM MONSTRO!! VOCÊS DOIS SÃO! O QUE VOCÊS TÃO FAZENDO AQUI??? VOCÊS VIERAM ME MACHUCAR?? ME OFENDER? OFENDER AS PESSOAS QUE EU AMO??
_VOCÊ VAI SE ARREPENDER DE CADA PALAVRA QUE SAI DA SUA BOCA!! VOCÊ NÃO AMA NINGUÉM. VOCÊ ACHA QUE PODE FAZER O QUE QUISER, MAS ISSO NÃO VAI SER TOLERADO. ENTRA NO CARRO. AGORA!!
_NEM FODENDO. EU QUERO VER VOCÊ TENTAR!!
_ENTRA NO CARRO, MIA!
_NÃO VOU ENTRAR! CHAMA A PORRA DA POLÍCIA, SE QUISER, EU NÃO TÔ NEM AÍ. EU TENHO VINTE E TRÊS ANOS, O QUE DIABOS VOCÊ PENSA QUE PODE FAZER?? EU NÃO VOU PRA LUGAR NENHUM!!!
_Vamos pra dentro, por favor... – a última coisa que eu precisava era que todos os vizinhos escutassem alguém dizer que íamos chamar a polícia, merda – A gente conversa outro dia, quando todo mundo se acalmar...
_EU TÔ CALMA! Ah, eu tô muito calma... – deu com as mãos para cima QUEM É LOUCA É ELA!!
_Mia...
_OLHA NA MINHA CARA!!! EU SOU SUA FILHA!! VOCÊ VAI ME DIZER QUE NÃO ME AMA? QUE ISSO DEPENDE?? QUE DEPENDE DE QUÊ?? FALA!! EU QUERO OUVIR COM TODAS AS LETRAS!!!
_Chega, Mia. Vamos entrar, por favor... – eu ainda a segurava e os seus pés seguiam os meus, em direção ao portão, ainda que tivesse todo corpo e palavras viradas para a mãe.
_ONDE VOCÊS PENSAM QUE VÃO??