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junho 29, 2014

Da Augusta para a Frei para a Haddock

Isso é estúpido. O cigarro queimava entre os meus dedos e eu encarava obsessivamente o visor do celular. Estava de volta ao meu quarto – sozinha e entediada naquela tarde fracassada de sábado. Levei o filtro à boca e o traguei lentamente. Liga pra ela, porra. Mas a covardia impedia minhas mãos. Bati as cinzas na janela. Tinha os olhos ainda fixos no telefone, sobre a mesa. Essa tralha velha. Pois é. Acontecia de novo. Eu e a minha cabeça-dura íamos acabar repetindo os mesmos erros de antes. Os que cometi com a Marina, com a Clara; com todas as garotas da minha vida.

Empurrei os meus pés contra a mesa, inclinando a cadeira para trás. A ansiedade diminuía conforme a fumaça saía entre os meus lábios. Aquele tipo de discussão me lembrava “bem demais” as que tivera no passado – argh. Que merda. Me esquivando de toda responsabilidade; agindo deliberadamente, fazendo o que bem entendia com quem surgisse ao meu redor; e virando as costas, para depois invariavelmente me arrepender. E voltar de joelhos. É claro. Pedindo perdão pela minha boca estúpida, pelas minhas mãos e intenções inquietas. Recorrente impaciência argumentativa. Qual é o meu problema? Puta que pariu, mano, não conseguia adentrar uma discussão sequer sem me encher minutos depois e jogar a porra toda no ventilador.

Juro. O padrão só se repetia.

Às vezes, achava que de tão frustrada pelo meu primeiro relacionamento – com suas intermináveis conversas e brigas alucinadas, que me viravam madrugadas e lençóis ao avesso, incessantemente –, não me restara qualquer paciência. O que era terrivelmente injusto com as garotas que vieram em seguida. A minha vida amorosa sofria as sequelas, é, brilhante, arqueei as sobrancelhas. E meti o celular no bolso, num suspiro covarde – não tinha coragem de ligar e enfrentar a Mia agora. Puta como ela deve estar, pensei. O fato d’eu ter saído andando e a largado naquela calçada, ao lado do Conjunto Nacional, elevava a nossa briguinha boba a um status de desentendimento considerável. E eu não era boa em me desculpar remotamente.

Facilita tê-la ao alcance das minhas mãos, calculei, imprestável como era. Sempre preferi resolver as coisas pessoalmente. Essa estratégia é clássica de gente errada. Mas funciona. De repente, interrompendo os meus pensamentos, o Du bateu na porta e entrou no meu quarto sem esperar a resposta. Boa educação pra quê, né. “Que cê quer?”, perguntei, olhando-o por cima do meu ombro. Ele acenou. “Me vê um trago”, pediu e eu estiquei o braço na sua direção para que emprestasse o cigarro da minha mão. Ele o pegou e colocou o filtro na boca, soltando a fumaça logo em seguida, como se meio apressado. Então me olhou.

_Vou no cinema agora com o André. Tá afim?
_O metido a astrólogo?
_É... – ele riu, tragando mais uma vez.
_Que porre de programa, hein?!
_Quê? É mês da Parada – expirou de novo, me entregando o cigarro –. Tá passando um monte de filme de viado em São Paulo. Vai, vamos lá com a gente...
_Não. Tô de boa.
_Beleza. Cê que sabe.

O Du se virou para sair e eu traguei o que restava do cigarro, observando-o passar pela porta. Espera. Apaguei a bituca no parapeito da janela e quase pulei da cadeira, indo atrás dele, numa decisão repentina. “Du!”, chamei; ele ainda estava no corredor. Vi o André mais adiante, já na sala, com a sua camiseta irônica de publicitário hipster e as tatuagens no braço. “Fala”. “Vou descer com vocês”, respondi. Sem intenção alguma de ir ao cinema, peguei a minha carteira e fomos para o elevador juntos. Seguimos depois a pé até o Frei Caneca, o shopping mais queer da capital – intitulado e situado na nossa amada rua, como era de se esperar. Os garotos subiram até o último andar, onde fica o teatro e as salas de cinema. E eu saí pelos corredores das lojas.

Não demorou muito até encontrar o que eu estava procurando. A verdade é que eu não dava a mínima para nada daquilo. Tudo que envolvia tecnologia se vertia em uma preguiça descomunal dentro de mim. Então a decisão foi rápida. Entrei na loja de celulares e escolhi o smartphone mais barato que tinham, qualquer um é mais moderno do que o meu. Eu tive o mesmo aparelho por uns cinco ou seis anos. Era um dinossauro. Confesso que não era de todo fácil me livrar: parte de mim sentiria saudades das brincadeiras que eu sofria nas mãos da Lê, do Gui e de todos os meus amigos. Não que tenham sobrado muitos. Era como a minha marca registrada – ser uma absoluta atrasada, old school, foda-se em termos de comunicações. Mas não tinha qualquer apego além desse. Que seja! Agora eu participaria do surto coletivo obcecado por esses cânceres ambulantes.

Disse a fumante compulsiva, aham.

Tá. Que se dane. Saí da loja e peguei o meu antigo aparelho – que, na boa, merecia uma porra de um altar no meu apartamento – para fazer o que provavelmente seria a sua última ligação. Para a Mia, claro, a quem eu pretendia exibir a minha compra impulsiva (parcelada em sofridas três vezes) como pretexto exagerado para uma desculpa. Eu estava me achando muito irresistível nas minhas táticas.

_Fala – ela atendeu, menos empolgada, e eu ouvi um som de rua ao fundo.
_Onde cê tá?
_Por que?
_Porque sim, Mia... – eu ri da sua grosseria, ainda mantendo meu bom humor.
_Tô no bar com um povo.
_Onde? Que bar?
_Você vai vir?
_Se você me falar onde é – achei graça.
_Na Haddock. Entre a Matias Aires e a Fernando de Albuquerque.

Dava para ir a pé. Ótimo. Ficava bem mais para cima do que o shopping, do outro lado da Augusta e próximo à Paulista. E se nada desse certo, eu sempre podia levá-la para casa e pedir desculpas na cama. Como não tinha muitos bares naquela quadra, presumi ser o Tubaína – onde os playboys que se acham alternativinhos costumavam ir. Certeza que está com um pessoal metido da faculdade, revirei os olhos, conforme descia a escadaria do Frei Caneca até a rua. Realmente não entendia como ela conseguia ser amiga daquelas pessoas. 

Já estava de noite. E eu ainda estava um mulambo, vestindo a mesma roupa nada atraente que usara para vê-la mais cedo naquele dia. Que se dane. Levei dez minutos para andar até o Tubaína e o lugar estava relativamente vazio para um anoitecer de sábado. Rodei o bar inteiro atrás dela. E nada. Nem sinal da Mia ou dos seus amigos. Mas que porra. Só pode ser aqui!, eu não entendia.

Depois de uns bons quinze minutos vasculhando, me dei enfim por vencida. E saí para calçada para fumar. Tirei um cigarro do meu maço amassado e o acendi, frustrada. Quando me preparava para ligar mais uma vez para a Mia, olhei de relance para o outro lado da rua. E puta que pariu. Você só pode estar tirando com a minha cara.

junho 19, 2014

O vai e vem da maré

É. Eu já estava no inferno, podia simplesmente ir em frente e abraçar o capeta de vez.

_Tá – a encarei, naquela calçada – eu não tenho um contexto, não tenho. Eu fiz merda. E foi isso: uma grande merda que eu não pensei direito – disse com toda sinceridade –. Não era pra ter dado em nada e se você não tivesse pegado esse telefone, eu teria apagado a mensagem sem responder. Eu juro. Eu não sei por que anotei o número dela pra começo de conversa!
_Ah, você “jura”? – ela debochou.
_Eu... e-eu sei como isso soa, porra.

Deu um passo para o lado, inconformada. E eu me aproximei, tocando o seu ombro, arrependida.

_Linda, qual é... Me desculpa, por favor.
_...
_Mia... – murmurei – Vai, eu fui uma idiota.
_É. Você sempre “é uma idiota” – riu, revirando os olhos –. Já reparou que você fala isso toda vez que discute comigo, com a Marina? Com quem for? Sequer passa pela sua cabeça NÃO SER uma? HEIN?! Que tal?
_Mas eu NÃO FIZ NADA, porra. Eu não tava realmente interessada, eu mal falei com essa mina aq...
_Ah, é?! E por que ela competiria comigo? – a Mia se afastou mais uma vez do meu corpo – Do que vocês estavam falando antes de eu chegar?! Por que ela mandou isso??
_Eu não tava trocando mensagem com ninguém, meu!
_Não? Ela acordou e pensou em mim, então?! Resolveu vir te falar a opinião dela sobre a "arquiteta"?? – ela me encarou, indignada.
_Mia...
_Me diz! Se vocês não tão trocando mensagem, como ela sabe quem eu sou. Explica! Você mandou uma foto nossa? Ou espera, deixa eu adivinhar, “você foi idiota”?

Inferno. Naquele momento, eu dava toda a porra do meu reino para não ter que responder aquela pergunta. A Mia ia surtar quando soubesse que a acabara de acontecer. Que a garota estava ali, bem do nosso lado. Argh. Eu sou mesmo uma idiota. Burra do cacete! Abri a boca e o meu coração acelerou, sem saber o que inventar:

_E-eu não... eu não s-sei. Caralho, ela, e-ela deve ter...  – meti a mão na testa, já puta da vida; eu não podia mentir daquele jeito, não podia dizer que a garota espontaneamente achou ela no meu Facebook ou seja lá o que fosse; era baixo demais, até pra mim – ...d-deve ter t-te...  – me rendi  – ...visto, comigo.

E me arrependi no mesmo segundo. Isso vai dar merda.

_Espera – a Mia riu, me encarando no meio da rua – A-agora?

Argh.

_Hein?! AGORA? – a Mia repetiu a pergunta, ainda mais alto e mais claro.
_É – respirei fundo –, acabei de conhecer ela. Lá na Cultura.
_Você quer dizer DEZ MINUTOS ATRÁS, então? ENQUANTO ME ESPERAVA? É isso?? – argumentou, brava, e eu sabia que tinha me fodido – Nossa... Mas esse está sendo mesmo o MELHOR DIA da porra da minha vida, hein. Que maravilha de sábado. Não sei nem por que eu saí da cama...
_Mia...
_Sério! – ironizava – Podia ter evitado tudo isso. NÃO É? Não precisava ter discutido com os meus pais antes de vir e assim não teria interrompido a sua incessante busca por novas garotas para colocar nessa porcaria de celular...
_Linda, não foi assim. Porra. Me desculpa! – me sentia ainda pior agora – Merda... – tentava sair daquela – Nós não conversamos por nem cinco minutos quando eu tava lá dentro, ela é funcionária, perguntou se eu queria ajuda e nós falamos de, d-de tatuagem e do que você fazia da vida e de mim – gesticulei, afobada –; ela que puxou todo o assunto, meu! Eu não tava nem prestando atenção!! Aí me deu dois segundos e NÃO SEI POR QUE DIABOS eu pedi o telefone dela. Mas não era pra ter sido nada assim.
_Você nem percebe o tamanho da sua cara de pau... – ela se irritava.
_NÃO! Não foi isso. Assim que nós trocamos os números, eu me dei por mim e foi muito estranho, eu me senti mal. Eu sequer tava interessada. E não era pra ela ter mandado mensagem nenhuma. Nós não combinamos nada, não desse jeito. A gente sequer tava falando com esse tipo de, d-de intimidade. Se eu tivesse visto a mensagem primeiro, eu teria achado uma bosta e teria apagado. Você tem que acreditar em mim, meu, foi só isso.
_E-eu... – hesitou.
_Eu tô falando sério. Não foi MAIS NADA.
_Não sei...
_Porra, qual é! Você acha que alguém chega PERTO de você, mano? Essa mina é LOUCA! LOUCA. É óbvio que não tem comparação, linda. Caralho – eu ri –, eu te persegui por dois anos inteiros na minha vida, isso é o quão "pouco" interessada eu tô na gente...
_É. Mas pra isso??
_Não. Não pra isso! Pra ter o que a gente tem, cacete!! Pra te ter comigo, pra rir do seu lado. A gente pode POR FAVOR voltar a falar da minha roupa? – pedi – Hein? Vamos voltar naquele papo? Sobre essa falta de pente e espelho que eu tô hoje.

Implorei. E ela riu, por um segundo. Murmurando, a contragosto – “é, você tá mesmo...”. Eu sorri e a abracei – “vamos pra casa, vai...”. Lhe beijei o rosto, “esquece isso”. Ela me olhou e eu soube que ela não ia deixar passar, inferno. “Não é tão simples assim...”. “É, sim, linda”. “Não, não é”, se desvencilhou dos meus braços. “Mia”. “Porra, você sabia que eu tava chegando! Pra quê cê vai trocar telefone com outra mina?", se revoltou de novo, "pra sair com ela depois? Pra ficar conversando??”. “Não!”, me irritei. Você não escutou nada do que eu falei? A Mia cruzou os braços. “Você tá comigo, meu...”. “Tô”. “Não, aparentemente não tá; porque a sua cabeça tá em outro lugar, né! Eu vim pra te encontrar, meu. Você sabe como a minha vida tá bagunçada, cara, você não podia ter deixado pra lá?”. “E você acha que eu tava intencionalmente tentando te magoar?? PORRA, MANO, não foi isso”. O volume da conversa aumentava de novo e eu não sabia o que diabos estava acontecendo. “Não. Quer saber? Eu não tô com cabeça pra isso...”. “Mia, volta aqui, não foi NADA!”, a vi se afastando. “Não. 'Nada' seria você dar em cima duma mina qualquer”, se virou de novo para mim, “seria você deixar ela lá falando, enchendo a sua bola. Isso é 'nada'. Isso é ok: todo mundo faz. Eu faço, você faz. Mas por algum motivo você achou que devia pedir o telefone dessa idiota”. “Eu não achei porra nenhuma, eu nem pensei!”. “Mas fez. Então não foi ‘nada’, foi alguma coisa...”. Eu revirei os olhos, agora puta.

_Foda-se, Mia – virei as costas –, eu não vou me explicar de novo.
_Você vai simplesmente sair andando?
_É.

junho 01, 2014

Gracinha inoportuna

Murmurei com o cigarro ainda na boca, às pressas, – “deixa aí que eu já vejo” – mas as suas mãos já tinham aberto a mensagem. Mas que porra. Em uma fração de segundo, o sorriso da Mia desmontou-se diante dos meus olhos.

_Quem é ess... – e antes de terminar a pergunta, os seus olhos arregalaram – Mano, O QUE É ISSO?
_O quê? – droga, droga, eu repetia na minha cabeça, tentando não demonstrar a minha inquietude – Mia? – estiquei a mão, pedindo o telefone – Deixa eu ver.
_QUEM É ESSA MENINA? QUE MERDA É ESSA?
_Linda... Me dá o celular.
_COMO ELA SABE QUEM EU SOU??
_Eu não sei do que você tá falando, porra. EU NÃO LI AINDA! Vai. Me deixa ver a mensagem...

Fiz mais uma vez um movimento para que me desse o celular, com a minha mão adiante, mantendo-me firme, mas ela se afastou. E com o telefone nas suas, leu em alto e bom som:

_“BONITA A ARQUITETA... NÃO SEI SE CONSIGO COMPETIR” – a Mia declarou, no meio da calçada, e eu sabia que tinha me fodido – “RISOS”. Quer que eu repita? QUER?

Ela me encarou, possessa. Desgraça. Se tivesse um buraco bem ali no meio da Augusta, eu teria me enfiado nele. Para nunca mais sair. Isso não poderia ter acontecido de um jeito pior. Por que eu entrei nessa porra dessa livraria hoje? “Mia...”, eu me preparei para inventar qualquer merda e ela imediatamente notou minhas intenções, estampadas na minha cara de pau. “Vai se foder...”, resmungou e começou a andar na direção contrária. “Mano, qual é!”, apressei o passo e a alcancei. Me metendo na sua frente – me escuta. Mas ela simplesmente me empurrou o celular de volta, contra o meu estômago, devolvendo-o. Inferno. Tudo acontecia rápido demais.
 
_Quer falar comigo, porra?!

Ela me ignorou. E eu tive vontade de arremessar aquele telefone contra a parede da porra do Conjunto Nacional. PUTA QUE PARIU. Nesse mesmo segundo, reparei num casal loser de hipsters da Paulista que nos encarava, acompanhando a movimentação da calçada com um sorrisinho escroto na cara. “Que foi? Hein?? PERDEU ALGUMA COISA, CARALHO??!” – lati na direção deles, antes de ir atrás da Mia. Que a essa altura já estava ainda mais adiante, cacete.

_Dá pra você parar? – me enfiei mais uma vez no seu caminho, segurando-a pelos ombros, e ela revirou os olhos – Você vai sair andando assim, só porque leu uma mensagem, meu?? Espera lá...
_”Só” uma “mensagem”?? – balançou a cabeça, rindo, e se desvencilhou das minhas mãos – Me solta. Eu não quero falar com você agora.
_Sério mesmo? É assim, então? Você vai simplesmente sair andando??
_Vou. 

Seguiu adiante, sem olhar na minha cara. Filha da mãe.

_Mia, porra. Espera. Que que é! – me irritei e certa de que me arrependeria daquelas palavras, as disparei na sua direção – Não é como se você estivesse muito certa também! Vai ler as minhas coisas agora?? São MINHAS, meu.
_Ah, essa é ótima! – ela se virou, indignada – Essa é ótima mesmo. Você acha que EU estava errada? Que não importa, porque EU não devia ter lido? – apontou o dedo contra o próprio peito, irritada comigo – É isso??
_E-eu... – me enrolei.
_EU NUNCA MEXO NAS SUAS COISAS! Eu nunca abri uma mensagem. Nunca atendi uma porra de uma ligação quando você sai do quarto! Eu nunca liguei o seu computador sem você junto. Nunca! Sequer PASSOU pela minha cabeça que fosse ser isso hoje! Eu só quis ajudar. Eu IA LER a mensagem pra você – justificou –, porque você estava com as mãos ocupadas. Só isso. E foi uma péssima escolha, péssima, na hora... foi. Foi mesmo. Mas te GARANTO que não foi para fuçar em nada seu. Não vem com essa pra cima de mim!
_Tá. Tudo bem – merda, eu traguei nervosa, sabendo que estava errada e ainda assim argumentando –, mas ainda tira as coisas fora de contexto...
_Me explica então. Me agracie com uma porra de contexto. Vai! Me conta por que essa mina vai competir comigo... – me desafiou – Eu quero ver você tentar.