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agosto 26, 2014

Já faz tempo

_Linda, desculpa... e-eu... – me enrolei, com o Skype ainda aberto – ...a minha mãe tá me chamando por mensagem aqui... – “minha mãe”, porra? – ...eu preciso ir. Já já te chamo de novo, tá?
_Cê tá falando sério?

A Mia começou a rir, indignada. E deitou na cama achando graça, ainda nua – “então tá”. Eu apertei meus olhos em si mesmos, me odiando por aquilo enquanto olhava a sua bunda maravilhosa parada na tela. Qual é o meu problema, cacete?

_Foi mal. Mesmo. Tenho que ver o que é, mas já te ligo... – falei, hesitante na minha decisão. 

E nos desconectamos.

Me sentia mal por mentir para a Mia. Mas não podia ignorar aquela notificação. Não aquela. Desceu sobre a tela do Skype me avisando duma nova mensagem recebida – e ainda que eu não tivesse aquele número na agenda, eu tinha quase certeza que era a Clara. Não a minha mãe. Essas coisas acontecem mesmo quando você menos espera. Quantos dias fazia desde que enviei a mensagem sobre a troca de número? Dois? Três? Por que diabos ela esperaria 72 horas para me retornar? Não faz sentido. Só se ela tivesse, sei lá, viajando no meio do mato. O que também não fazia muito sentido – a não ser que ela tenha ido passar temporada numa caverna no meio do Nepal. Quer dizer, quando fomos para Buenos Aires, ela não desgrudou um segundo daquela porra de iPhone. Aliás, ficou tirando milhares de fotos minhas a (meu) contragosto.

Não. Não podia ser isso. Mas agora que a mensagem já estava no meu telefone, eu tinha que lidar com ela. Por mais ridículo que soe, por um segundo tive medo de abrir. Em partes porque a minha cabeça não conseguia pensar em resposta alguma que não envolvesse xingamentos consideráveis à minha pessoa. Ou uma versão elaborada de “nem fodendo que você vai começar a me mandar SMS agora, sua cretina de merda”. Por que eu faço isso com os outros? Ou comigo – por que diabos eu faço isso comigo? Um frio percorreu o meu estomago. Argh. Devia ter ficado no Skype com as pernas da Mia.

Para desapontamento de todas as minhas expectativas negativas, todavia, quando abri a mensagem não era nada daquilo. “O que você tá fazendo?”. Espera. Oi? Li mais duas vezes. Isso não pode ser dela. Alcancei o meu celular antigo sobre a escrivaninha do quarto. E chequei na lista o seu telefone – que depois de todo o drama que fiz para enviar a mensagem sábado, acabei esquecendo de anotar no novo aparelho. Não entendia: estava certo. Era ela. Mas isso não faz o menor sentido!, pensei. Por que ela esperaria três dias para me perguntar o que estou fazendo?, eu raciocinava, confusa. Era um comentário sobre o meu comportamento? Porque, de alguma forma, não me fazia sentido que ela se desse ao trabalho de me enviar uma mensagem no meu novo celular parar criticar a minha falta completa de julgamento – não se fosse para ser tão sucinta assim. Ela o teria feito no antigo e na hora. Seria mais simples, mais rápido. Não?

E se não era uma crítica, afinal, queria dizer que ela realmente tinha interesse em saber o que eu estava fazendo numa terça à noite? Duvido. Li mais uma vez a sua mensagem e aquelas cinco palavras despretensiosas me desnortearam. Que porra eu respondo?! Levantei da cadeira e caminhei até a porta do quarto, saindo para o corredor. Fui até a sala pegar o meu maço que tinha ficado na mesinha de centro. Nisso recebi mais uma mensagem – desta vez da Mia –, olhei rapidamente para a tela e ao ver que era dela, abri. “Essa conversa com a sua mãe tá tão interessante, é?”, dizia, junto a uma foto que provavelmente a faria ser presa em alguns lugares do mundo. Me fez sorrir.

O Du me viu passar e me provocou: "Mas já?". Comentou da cozinha, onde estava lavando os pratos que sobraram do jantar.

Não respondi. Voltei para o meu quarto e fechei a mensagem da Mia, abrindo mais uma vez a da Clara. Sentei na cadeira com os pés apoiados na janela entreaberta e fiquei olhando a tela. “O que você tá fazendo?”. Hum. Acendi um cigarro, soprando a fumaça para o lado. E encarava mais uma vez a sua escolha de palavras. Qual é, garota? Não conseguia entender aquela mensagem. Eu tô me preocupando demais? Não quer dizer nada, concluí. Ela provavelmente tinha ignorado a minha mensagem no sábado e na calada da noite no meio da semana, quando todas as más decisões são tomadas, ficou curiosa. Será? Na dúvida, eu preferia ir com essa explicação menos problemática dos eventos. Tirei então uma foto do cinzeiro que estava apoiado na janela. Com parte do meu pé aparecendo no canto da foto. E enviei para ela – “Porra nenhuma, e vc?”. Levei o filtro mais uma vez à boca e seguiu-se aquele silêncio inevitável de espera. Ugh. Enquanto tragava, voltei à mensagem da Mia e digitei com apenas uma das mãos (a outra estava com o cigarro) – “nem se compara. pqp ;)”, mandei. 

Respirei fundo. Larguei o meu celular no colo por um instante, tragando mais uma ou duas vezes até receber a resposta. Peguei mais uma vez o celular – e era a Clara. Puta merda. Ver o seu número na minha tela depois de tantos meses me dava frio na espinha. Abri. Nela, junto com um “considerando ir no posto...”, estava a foto de um maço vazio. Eu ri. Coloquei o cigarro entre os lábios para digitar a resposta, inclinando o meu corpo sobre as minhas pernas, apoiando nelas os meus antebraços. Antes que pudesse escrever, entretanto, recebi mais uma mensagem dela.

“Como vc tá?”.

agosto 25, 2014

Tecnologia

Admito que ter um celular decente – uma vez na vida – tinha lá as suas vantagens. Eu me sentia uma idiota por só agora estar baixando os aplicativos que meus amigos tanto falavam. E passava minhas horas tentando recuperar o tempo perdido. Fiquei tão obcecada nos primeiros dias que meus colegas de trabalho começaram a dar apelidos engraçadinhos para mim. Nem meia semana depois de comprar o aparelho, na terça-feira, fui almoçar com o estagiário numa padaria perto da Brigadeiro e ele achou um jeito de fazer piada com literalmente tudo o que passava na nossa frente. Como se eu fosse uma porra de uma caipira. “E isso é uma estação de metrô, olha”, brincava, “já entrou numa antes?”. Revirei os olhos – “Na boa, velho? Vai à merda”.

Ele se divertia. “Bom, para quem nunca tinha usado o Whatsapp...”. Há-há. Que seja. Não era como se eu tivesse outra coisa para fazer também. O nível de tédio na produtora estava páreo a páreo com um filme do Terrence Malick naquela semana. Passei a tarde toda seguindo amigos no Instagram e curtindo suas fotos, rodando à toa na minha cadeira. Me entretinha especialmente com o perfil da Marina, era o meu favorito entre todos. Ela basicamente publicava fotos de comidas fofas, xícaras, bolos, coisas assim. Só. Ah! E paredes. Incluindo a sua última – postada na volta do almoço na Vila Madalena –, era um muro perto lá da redação onde ela trabalhava, tinha uma plantinha nascendo no meio dos tijolos. Sua cara mesmo essas coisas, pensei. Eu curtia tudo. Como era nova naquilo, chequei umas mil vezes com a Lê se a Mia não conseguia mesmo ver as fotos em que eu colocava corações– porque ô aplicativo dos infernos. Aquele treco me recomendou seguir todas as minas que já peguei na vida, puta que pariu. A única pessoa que não estava na lista de importados do Facebook, mas que segui mesmo assim, foi o Fer. Achei ele nos comentários do perfil de outro amigo. Aproveitando a nossa fase relativamente boa, adicionei – ainda que o seu perfil só tivesse vídeos curtos de vinis tocando. Ska, rocksteady, punk antigo. Essas paradas assim.

A minha primeira foto foi o relógio da parede da produtora, exatamente às quatro e vinte. Não muito original. Mas levei quase meia hora para escolher um filtro e estreou a minha conta.

Aquela minha falta absoluta de conhecimento tecnológico parecia divertir todo mundo. Tão logo descobriu que eu tinha agora um smartphone, o Gui me mandou uma mensagem de voz no Whatsapp me chamando de PI-RA-NHA – que eu escutei em alto e bom som no meio do trampo, é claro. Desavisada daquela funcionalidade de merda. Argh. Eu te mato. Ele passava as horas agora me enviando prints dos caras que encontrava no Tinder. O aplicativo que a Marina me proibiu de baixar antes mesmo da Mia se pronunciar a respeito. A verdade é que tudo aquilo me soava um tanto novo. Não era como se eu não soubesse o que eram as coisas, eu só nunca tinha realmente usado nada daquilo. Não com minhas próprias mãos – e soava muito mais babaca na boca dos outros.

O meu máximo de engajamento digital anteriormente limitava-se a uma enxurrada de SMS, raros acessos ao Facebook e talvez uma webcam aqui e outra ali quando o MSN ainda existia. Sempre com o status invisível, geralmente para fugir da Roberta. Fora isso nada. Não tinha paciência: preferia sair e encher a cara, pegar alguém – não que isso tenha mudado muito. Para se ter ideia, eu ainda tinha um PC lata-velha em casa ao invés de um laptop. Então, é, era um mundo novo.

Naquela noite, sentada na cozinha com o Du jantando o resto da comida que ele fez no almoço, baixei também o Skype. O Du usava ele para ver o Martin. Seu amor mal-resolvido de Barcelona. Entre uma garfada e outra, mandei uma mensagem para a Mia – , eu meio que me sentia cool, ultraconectada –, perguntando se ela também tinha um. E logo veio o pedido de autorização do seu usuário. Não demorou muito e ela estava na minha tela, tendo uma visão privilegiada da minha boca mastigando a comida, num mau enquadramento que durou alguns segundos até eu me ver no canto da tela.

_Foi mal. Não saquei que a minha câmera também tava ligada – falei.

Ela achou graça e o Du, que estava sentado do meu lado, deu um tapa na minha cabeça.
“Cê é muito lerda, velho”, ele comentou rindo, já terminando o seu prato. Podia vê-la se divertir com aquilo, provavelmente em seu quarto em Higienópolis. Estava escuro no fundo da tela.

_Que vocês estão comendo por aí, afinal?
_Macarrão requentado – virei o celular para o meu prato para que ela pudesse ver –, tinha milho enlatado também, mas já acabou...
_E tá gostoso isso? Parece horrível.
_Valeu, hein... – o Du resmungou, brincando.
_Ah. Tá “ok”.
_Hum. E você vai demorar muito ainda?
_Não, já tô acabando quase...
_Então tudo bem. Me avisa... – a Mia sorriu; com o cantinho da boca, imprestável – ...viu, quero te mostrar uma coisa depois.

Pulei imediatamente da mesa. Bastou aquele sorriso filho-da-mãe dela e eu já estava largando o meu prato semi-terminado sobre a pia. Indo me trancar no quarto. “SUAS CACHORRAS!”, o Du riu e gritou, quando eu já estava no corredor. Provavelmente tendo presumido o mesmo que eu. “Cê escutou isso?”, comentei para a câmera achando graça, instantes antes de entrar no quarto, e a Mia acenou que ‘sim’ com a cabeça, também rindo. Fechei a porta atrás de mim e encostei contra a madeira, com o braço esticado na minha frente. “E aí”, pedi, vendo o celular, “o que era?”.

“Hum”, ela riu. E pareceu engatinhar sobre a sua cama com o celular na mão. Por algum tempo vi só uma tela escura e alguns flashes perdidos de teto até que, de repente, tornei a vê-la bem, segurando o celular com as duas mãos como se o ajeitasse sobre alguma coisa. “Mostra aí, meu...”, falei, já com um sorriso involuntário na cara. “Espera”, ela achou graça, ajeitando-o, “deixa eu colocar aqui”. Nisso, o celular se desequilibrou algumas vezes e ouvi a Mia xingar; eu me divertia. “Eu queria te perguntar uma coisa”, falou, já quase conseguindo. “Pergunta...” – sem tirar os olhos da tela, aproveitei o meio tempo para ir até a cadeira e empurrei a lateral dos tênis (um no outro) para fora do pé, me livrando deles. “É que...”, a Mia se ajoelhou na cama frente à câmera, que enfim parara sozinha sobre a mesinha de cabeceira, com um camisetão desses de dormir. “...eu tô preocupada”. “Ahm”. Eu a olhava. “Apareceu uma manchinha em mim”, ela se inclinou de quatro, com os cotovelos apoiados sobre o colchão e começou a puxar com as mãos a camiseta sobre a cabeça. Descobrindo a calcinha, as costas e suas tatuagens curvilíneas – progressivamente. Levei a minha mão à boca. “Sei”, coloquei a lateral do dedão entre os dentes. 

Observando-a, entretida.

Agora com o cabelo magnificamente bagunçado, tendo largado o camisetão à sua frente na cama, ela se ergueu mais uma vez de joelhos – “não sei se você consegue ver”, continuou, olhando para o próprio corpo. E eu segui na brincadeira: “Hum”, me inclinei na cadeira com os olhos na tela, “onde é?”. Os seus dedos começaram a percorrer o seu abdômen, como se caminhassem na ponta dos pés sobre a sua pele. Descendo da sua cintura na direção das suas coxas – “por aqui”. “Ahm”. “É que é bem pequenininha”. Eu ri. “Chega mais perto”, pedi, literalmente já com água na boca. Como eu sou babaca por você, garota, puta que pariu; eu me admirava. 

 Mas interrompendo, do nada, meu telefone apitou.

agosto 13, 2014

Algumas horas dela

Na manhã do domingo, fui acordada pelo som da campainha e por uma dor filha da puta que martelava na minha cabeça. Nada agradável. Tinha metade do meu corpo para fora do sofá, enquanto a outra parte parecia escalar as almofadas desajeitadamente, vestida nas roupas da noite anterior. Me esforcei para abrir os olhos e chequei que horas eram no celular. 15:39. O visor indicava uma mensagem não lida – do Fer –, ainda no meu antigo celular. Tínhamos ficado na rua até sete da manhã, eu estava acabada. Depois, em um grupo de cinco ou seis pessoas, entramos ainda numa padaria nos arredores da República, bêbados, para comer alguma coisa.

Ou seja, cheguei em casa às oito. Vomitei todo o pastel embebido em óleo que comi, junto com os litros de cerveja e catuaba da madrugada anterior, e dormi no sofá no meio do processo de bolar um para aliviar o meu estomago. Porque, sim, sou muito saudável. Horas depois, sentia agora as minhas entranhas se contorcendo em ressaca, completamente vazias. Abri a mensagem do Fer e bati o olho rapidamente, antes de realmente ler. As letras estavam embaralhadas o suficiente para presumir que ele ainda estava alcoolizado quando digitou aquilo, provavelmente em algum lugar ali no Centro, na casa do Beto, onde disse que ia dormir para não ter que ir até Santo Amaro. Decodificado, o SMS dizia: “feliz pra caralho de ter te visto hoje, sua imbecil”. Mal sorri, ao ler, e a campainha tocou de novo. Ah, é. Torci mentalmente para que o Du estivesse em casa para que eu não precisasse me levantar.

_ABRE AÍ, CARALHO!! TÔ METENDO! – ouvi ele gritar do outro lado do corredor, de dentro do seu quarto, já irritado com a minha demora.

Argh. Fino.

Levantei numa puta má vontade. Com o cabelo emaranhado e as calças abertas, a blusa amarrotada. E me arrastei até a porta, rogando uma praga vingativa para que a foda dele fosse ruim. Desgraçado. Abri a porta. E ali parada, acordada e disposta, estava a Mia. Com um pacote na mão e olheiras bem menores que as minhas, vestida num shorts jeans e regata preta como quem – diferente de mim – já tinha tomado banho e se recomposto desde a noite anterior. Me vendo naquele estado lamentável normalmente ela teria gargalhado, mas acho que se sentia culpada. Cruzei os braços, apoiada contra o batente. “E aí...”, murmurei, com sono. Ela sorriu. “Oi”, respondeu baixinho, ainda no corredor; eu não me movi. Havia um silêncio um tanto constrangedor – algo como um “sabemos que fizemos merda” admitido não-verbalmente –, ela fechou então os olhos e apoiou a cabeça contra o meu peito. Achei que se arrependia. “Você é uma imbecil”, disse, para minha surpresa.

_Meu, é a segunda vez que eu ouço isso hoje... E eu mal levantei! – comentei, rindo.

E ela passou os braços ao redor da minha cintura, me abraçando carinhosamente. “Quem disse primeiro?”, perguntou.

_Então. Bizarramente, foi o Fer...
_Vocês discutiram de novo? – ergueu o queixo para me olhar, apoiando-o na minha camiseta.
_Não. A gente saiu ontem.
_Mas... Como isso? Assim de boa?

Acenei com a cabeça, “é, meu...”. Ela me observava, surpresa, com seus olhos castanhos. “Que foi?“. “Isso é incrível!”, ela sorriu. Sim. Eu suponho... – não tinha realmente parado para pensar até então no que aquilo significava. A Mia me apertou extasiada, me beijando a blusa, o pescoço, em beijos curtos, breves. Mais animada do que eu, que ainda sentia o meu estomago revirar todas as más decisões daquela praça imunda na República. “Estava com saudades”, me disse então. E eu estranhei.

_Mas você me viu ontem...

“Ontem não contou”, afundou mais uma vez a cabeça no meu peito, “foi uma merda”. Eu ri. Tem razão. Ela apertou os braços ao meu redor e ouvi o saco em sua mão fazer barulho.

_O que cê trouxe aí?
_Ah... – ela se desencostou do meu corpo para poder abri-lo, ainda na minha frente – ...eu te trouxe uns sanduíches lá de casa. Minha mãe comprou um presunto desses italianos.
_Ahm. Uns sanduíches? – achei graça.
_É. E maconha, sei lá, eu não sabia direito o que trazer...
_Não precisava trazer nada, linda. Eu tô cheia de erva aí!
_Tá. Mas é que... – colocou a cabeça mais uma vez no meu colo, agora sim soando arrependida – ...eu não quero mais brigar.

Eu comecei a rir. “Então você me traz comida e maconha?”. “É”. Ergui o seu rosto com as mãos, lhe dando um beijo, ainda rindo. E ela me abraçou mais uma vez. “Vem, entra...”, a convidei, me divertindo. De alguma forma, aquilo realmente me encheu o coração. Maldita. Sentamos na sala para comer e espalhamos migalhas por todo o sofá. A Mia bolou um, tagarelando sobre um artigo que tinha lido sobre os últimos dias do Lou Reed. Eu ainda estava cheia de presunto italiano. Fiquei só ouvindo. Depois de fumarmos, eu cogitava entrar no banho para depois darmos uma volta, quando escutei a porta do quarto do Du abrir. Ele passou pelado pelo corredor e cumprimentou a Mia de longe. Perguntou se íamos usar o banheiro, porque ia entrar no chuveiro assim que tomasse um gole d’água. Nós duas nos olhamos. Respondi que não. Esperamos ele entrar na cozinha e pulamos o sofá, correndo em direção ao banheiro, e nos trancamos ali. Vingança, meu caro amigo. Quando ligamos o chuveiro, ele já estava batendo na porta. Puto.

Tomei banho, ignorando. A Mia ficou me olhando de fora do box, sentada sobre a privada fechada. Estranhamente em silêncio. Com os joelhos abraçados contra o corpo. Quando eu já estava quase terminando, ela se despiu sem dizer uma palavra e entrou no chuveiro comigo. Ah, garota. Transamos demoradamente – irritando o Du, que a cada cinco minutos esmurrava a porta, de mau-humor por causa do seu pinto sujo. Não tô nem aí. Quando enfim saímos, a Mia enrolada na minha toalha e eu pelada, molhando todo o apartamento, ouvi ele me xingar do quarto. E vi o André passar rindo. A Mia escolheu um shorts bem caminhoneiro para mim e emprestou uma das minhas calcinhas. Já devidamente vestidas, me convenceu a pegar uma dessas bicicletas do Itaú e ir até a Praça do Pôr-do-Sol fumar.

Não precisei de nem dez minutos para me arrepender da decisão. Sedentarismo way of life. Eu tava morrendo antes de chegar na metade do caminho, é claro. A Mia se divertia com a minha indisposição. E me apressava, dizendo que o sol ia logo se pôr.  Foi um parto. Quando chegamos, a praça estava quase vazia e a vista espetacular. Acendemos o resto do que ela bolara mais cedo e conversamos sobre pedaços do corpo que nascem fora do lugar. Como dentes e dedos, é. Num papo muito estranho, brisado, que me fez contorcer de nojo e rir simultaneamente das coisas que ela dizia. A Mia me mostrou então como mexer propriamente no meu novo celular – e me chamou de imbecil mais algumas vezes no dia por tê-lo comprado. Me beijava sempre em seguida, o que não era tão ruim. Ali, tiramos a primeira foto decente que eu já fiz na minha vida com um celular: a Mia levantou a blusa quando estávamos sentadas numa área mais afastada, mostrando rapidamente os peitos e a tatuagem, com o baseado aceso na boca; ficou genial

Mas ela se recusou a me ensinar como colocar de papel de parede no telefone.

agosto 04, 2014

Vudu

_O que cê ia contar no telefone, hoje mais cedo?
_Ah. Nada... – eu ri, sem dar muita atenção ao assunto.

Bêbada. O Fernando abaixou a cabeça, ainda sentado ao meu lado. E ficou quieto. Ergueu então o copo de catuaba, matando o que restava ali dentro num gole breve. Parecia tenso. Tinha as mangas da camiseta branca arregaçadas no topo dos braços. Colocou um pouco mais da garrafa no copo. O gelo agora estava pela metade e o limão mal parecia fazer efeito. “Fala aí...”, murmurou sem me olhar diretamente, insistindo. Respirou fundo. E só então eu percebi o quanto ele tinha medo do que saía da minha boca.

“N-não era nada...”, respondi, olhando para ele.

O Fer tomou mais um gole, diretamente da garrafa – como se esquecesse do copo que acabara de encher. O que você acha? Que eu ia falar da Mia?, pensei. A minha cabeça rodava violentamente com todas as cervejas, as cubas que eu metera para dentro aquela noite. É melhor eu contar de uma vez do que deixar ele deduzir sozinho, refleti. Tornei a colocar o cigarro na boca. Sabe-se-lá o que isso seria, não é... E então, como quem faz pouco caso, falei:

_É bem idiota... – observei os meus próprios pés sobre o chão imundo da praça, entre uma tragada e outra – ...é só que, sei lá, faz uns meses que eu não falo com a Clara. D-desde que eu fiz merda e tal.
_...
_Enfim. E aí hoje, sei lá por que diabos, porque eu sou uma imbecil provavelmente, não sei o que me deu na cabeça e eu mandei uma mensagem pra ela.
_Claro que mandou... – ele riu, aliviado.  

Eu olhei por cima do meu ombro, para ele. E sorri:

_É muita prepotência ou o quê?
_Um pouco.
_Mas falando sério agora... – brinquei – Quais as chances dela ter um altar na casa dela com a minha foto?

O Fer gargalhou. E então balançou a cabeça.

_Uma boneca com o seu nome... – sugeriu.
_Com uns alfinetes, só se for, né?
_É...
_E eu ainda vou lá e me acho no direito de incomodar a cidadã, juro. Eu. Eu! Porque, afinal, sou mesmo inesquecível e ela é obrigada a engolir, né.
_Coitada. Ela provavelmente tá somando todos os números cabalísticos das letras da sua mensagem. Para jogar praga no chão que você pisa.
_Verdade. É melhor evitar passar debaixo de objetos pesados essa semana.
_Lustres, andaimes...
_Vou até fechar a saída de gás – eu ri.
_Come só frio por um tempo... – o Fer levou o gargalo da Selvagem mais uma vez à boca e quando comentei que ia subsistir de salame e cerveja pelos próximos dias, ele cuspiu metade do gole fora, rindo – ...bom, não mudou muita coisa.

“Né. Tiro de letra”, completei, fazendo graça. Nos divertíamos. E como toda entornada de lata que se aproveita vem, inegavelmente, seguida por uma dor de cabeça daquelas, a do Fernando logo virou a esquina. Caminhando puta da vida na nossa direção, com pernas morenas e peita do Skatalites. “Vixi...”, ele tomou outro gole, ainda rindo. E ficou em pé, pronto para a bronca. Lá vem. Resolvi que era melhor continuar sentada para não parecer que pulamos assustados juntos, como fizéssemos algo de errado.

_O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?? – a garota chegou já na voadora.
_Calma, Jô, a gente tá só conversando. Ela é minha amiga.
_E VOCÊ ME LARGA SOZINHA LÁ TRÁS???
_Você tá bêbada, meu... – ele deu mais um gole, indisposto àquilo, já querendo virar as costas.
_VOCÊ NÃO?? – ela o puxou de volta, quase derrubando a garrafa da sua mão e obrigando-o a se virar – HEIN? AGORA É MOTIVO PARA VIR AQUI E FALAR COM OUTRA??
_NÃO, PORRA, não é isso... mas... MAS QUE MERDA! – ele se irritou e eu fiz uma careta involuntária, temendo o barraco dos dois ali no meio da praça – SÓ NÃO VOU DISCUTIR COM VOCÊ ASSIM. QUAL É, CACETE?? NÃO TÔ FAZENDO BOSTA NENHUMA!
_É! SÓ QUE EU TÔ LÁ, COM OS SEUS AMIGOS!!! ENQUANTO VOCÊ FICA AQUI DE PAPINHO... PRA QUÊ CÊ ME TRAZ, ENTÃO??
_Mano...

O Fer fez mais uma vez como quem vai se virar. E eu me intrometi:

_Amiga, deixa eu te falar... – ergui a sobrancelha, rindo – eu curto buceta, beleza?
_Por que você tá falando comigo? – olhou para mim e então para ele, surtando – POR QUE ESSA MINA TÁ FALANDO COMIGO??
_Jô... – o Fer achou graça também, ainda na brisa da nossa conversa anterior.
_VOCÊ É MESMO UM IDIOTA. OS DOIS. ESPERO QUE SE DIVIRTAM!!

Deu as costas, pê da vida, sem mais nem menos. O Fernando abriu os braços, sem entender porra nenhuma, confuso – “MAS O QUE EU FIZ??”, gritou, ainda em pé no meio da praça. Ela já estava a metros da gente àquela altura, furiosa. Ele se virou, então, e me olhou, procurando por qualquer apoio moral. Eu gargalhava em cima da muretinha. “Eu não sei o que eu fiz, meu...”, murmurou, rindo também. E se sentou mais uma vez do meu lado, com a catuaba em mãos.

_Ô! Vou te convidar para comer uns salames lá em casa... – brinquei.
_É bom. Só por precaução.