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setembro 22, 2014

Não é tão simples

_Cala a boca.
_Mas eu não falei nada ainda! – o Du riu, se defendendo.
_Você pensou.

Resmunguei, já bufando, enquanto me levantava do sofá. Numa tempestade em copo d’água, sentindo-me subitamente irritada. Mensagem de merda. “Ah, qual é!”, ele protestou com os braços abertos em indignação, “volta aqui, meu. Deixa de ser besta! Eu não vou falar nada”. Não respondi, marchando na direção do meu quarto. E fechei a porta, antes que ele pudesse declarar qualquer outra coisa. Foda-se. Eu sabia como isso ia parecer – ter levantado daquele jeito só provaria ao Du que eu tinha me incomodado com o SMS da Clara. E talvez eu tivesse mesmo. Mas a última coisa que eu precisava era dele no meu pé.

Entrei tão rápido que esqueci de acender até a luz. Peguei mais uma vez o celular na mão, sem entender por que estava tão inquieta. E andei até o interruptor para ligá-lo. Aposto que é uma perdedora, pensei sobre a nova garota da Clara. Desgraçada. Liguei o Skype num impulso. E a Mia atendeu do outro lado – “E aí, te fiz esperar muito?”. “Jamais”. “Onde paramos?”, eu perguntei e sorri, sugestiva. A minha voz soava interessada e talvez parte de mim realmente estivesse, afinal era a porra da Mia e ela estava sem roupa do outro lado da câmera, mas por dentro eu me sentia estranha. Brava, sei lá. Àquela altura dos acontecimentos talvez eu não quisesse de fato ligar de volta para a Mia, mas vê-la ali, ao invés de responder a Clara, me servia como uma revanche infantil. 

E foi isso que eu fiz.

Por longos e deliciosos quarenta minutos. De pernas nuas e tatuagens e mãos molhadas, metidas entre as coxas, nuns orgasmos à distância. Como eu queria estar aí com você, garota. Puta que pariu. Eu a admirava, boquiaberta. A sua liberdade, a forma como se movia. Buscando fôlego em meio àquela sacanagem suja de foder com a cabeça de qualquer uma. Não respondi mais à Clara. E que se dane. Acho que essa é a vantagem de não se estar em um relacionamento com a pessoa: eu não lhe devia absolutamente nada. Acordei no dia seguinte com frio. E com o Du empurrando o meu quadril desnudo para o lado. Mas... Que diabos? Tinha dormido sem roupa e estranhamente em cima das cobertas. Não lembrava sequer de ter adormecido. Como isso aconteceu?

_Cê num vai trabalhar não, ô viada?
_Sai, mano. N-não enche o... o s-saco – murmurei, sonolenta –. Q-que cê tá f-fazendo aqui... Sai, velho.
_Você perdeu hora, meu.

Ergui lentamente a cabeça para espiar o horário no meu celular. Ótimo, pensei ao ver a tela desligada. Só que ao contrário. A bateria deve ter acabado durante a noite – falem o que quiserem sobre o meu aparelho dinossáurico, mas pelo menos antes a porra da bateria aguentava o tranco. O Du deu mais um tapa na minha bunda antes de se levantar do colchão – “vamos, vai, são mais de dez já!”. Argh, minha chefe vai me matar. Sentei na cama, com o cabelo e todo meu senso de direção bagunçados.

_Cacete...

Eu falei e o Du riu de mim, antes de me deixar sozinha no quarto. Saí da cama logo em seguida. Vesti qualquer coisa às pressas e escovei os dentes, me metendo num táxi o quanto antes. Correndo. A bronca veio acompanhada de uma desculpa esfarrapada: intoxicação alimentar. “Mal dormi a madrugada toda, meu. Foi uma merda...”, lamentei na maior cara de pau. E todos se comoveram. Quando enfim sentei no meu computador, coloquei o meu celular para carregar e ele vibrou na mesa assim que religou. Era a Clara. Às 7:26 daquela manhã, observei – que é, fui seu primeiro pensamento ao acordar?, achei graça, revirando os olhos e mordendo uma maçã que uma colega compadecida ofereceu ao saber do meu estômago “debilitado”.

O SMS perguntava: “E vc... Tá com ela?”, seco e direto. 

Ah, garota. Isso mudava as regras do jogo. Havia rancor naquelas palavras. Não era mera curiosidade – não às sete da manhã do dia seguinte. Aquilo era a Clara já muito certa da resposta ou incomodada o suficiente com o fato de eu não ter respondido a sua última cutucada mensagem. Eu a conhecia bem o bastante para saber daquilo. Podia sentir em cada letra. Pensei um pouco antes de responder. E arrisquei: “Prefiro falar com vc pessoalmente, rola?”. “Isso foi um ‘sim’ então?”. “Culpada”, eu ri, “e da sua parte?”. “Da minha parte oq?”. “Foi um ‘sim’?”. “Sim oq?”. “A gnt pode se encontrar?”. “Acho q. ñ”. “Qual eh, Clá, nosso termino foi uma merda”. “Graças a vc, gata”. Balancei a cabeça ao ler, achando graça, ainda que ela estivesse genuinamente brava. “Sei la. Só ñ acho q. nossa ultima conversa deva ser aquela bosta q. foi. Tenho uma puta consideração por vc, meu...”. “Esquece isso. Passou já, Bo”. O meu coração pulou uma batida. Merda. Não me chama de Bo, caralho. “Vc ñ tem nd pra me falar?”. “Ñ”. “Ñ?”. O telefone ficou quieto por alguns instantes, ela hesitava.

“Talvez”.

setembro 08, 2014

A Represa

Bem? Sei lá. Como que se responde a uma ex que ressurge do nada e quer saber como você está? De boa? Na mesma? Não. Isso não. Isso implicaria estar no mesmo lugar em que ela me deixou – o que a fez odiar cada maldito osso no meu corpo. Traguei mais uma vez, com o celular ainda nas mãos. E os olhos nas mensagens dela. Clara, eu pensava, argh. Preciso parar de ir e voltar nas minhas respostas assim. Bati o cigarro no cinzeiro sobre a janela.

Não sei por que merda aquela garota ainda me desestabilizava. Mas ela conseguia – puta merda, como conseguia.

“Meio cansada. Trampando mto”, digitei. “E vc? Faz tempo q. a gnt ñ se fala”, completei, mas assim que escrevi, apaguei toda a última parte. Sentia que não precisava relembrá-la que nos ignoramos por aqueles meses todos. Ela sabe. Pior do que isso, uma menção assim podia levar à inevitável associação com a Mia e com o nosso término nada suave. Melhor não. “Eu tb, meu. Tá na produtora ainda?”, ela me enviou. “Tô”. “E como vai sua chefe? rs ;)”. “Ainda ignorando minhas investidas...”, eu ri ao escrever. “Certa ela”.

Ouch.

Encarei a tela. Ok, ok. Justo. Levei o filtro mais uma vez à boca e num impulso lhe escrevi – “Posso te ligar?”. Os meus pés estavam inquietos contra o piso de madeira. Senti um frio no estomago quando a resposta não veio. Porra. Talvez eu tenha me precipitado. Meia dúzia de mensagens era bem diferente de falar diretamente comigo, aparentemente. E a Clara sumiu. Os segundos se passaram lentamente, um atrás do outro, e nada. Fiquei parada no escuro, em silêncio, observando aquele celular mudo com um crescente sentimento de que eu tinha estragado minha oportunidade. Inferno. Mas que merda. Ela podia ter só dito “não”. Não é?

Me levantei da cadeira, metendo o celular no bolso, e saí para o corredor. O Du já não estava mais na cozinha, a luz da sala estava acesa. Me aproximei. A TV estava ligada e ele mexia no celular, deitado sem camisa no sofá, sem prestar qualquer atenção no que era exibido. Algum documentário de natureza entediante, não sei. Bati o olho na mesa da sala e a conta de gás estava aberta sobre ela. O que isso tá fazendo aí?

_Você pagou hoje? – perguntei, pegando-a na mão.
_Não, deixei aí pra pagar amanhã antes de sair pro ensaio.
_Hum...

Devolvi ela na mesa, sem muito interesse. Mas continuei ali. Pensando na morte da bezerra. Digo, se a bezerra fosse as minhas chances de voltar a falar decentemente com a Clara. É. Morta e enterrada àquela altura. O Du ergueu o corpo sobre os cotovelos e espiou por cima do encosto do sofá, estranhando meu comportamento.

_Que cê tá fazendo parada aí?
_Sei lá. Tô só, s-sei lá, esperando. Eu acho...
_Esperando o quê? Tá louca? – ele riu.

Hesitei. Não sei se quero falar disso. Dei dois ou três passos até esbarrar a minha coxa contra a parte de trás do sofá. E me debrucei sobre o encosto, largada. O Du tinha uma das suas tatuagens nonsense – uma dessas silhuetas de veados de placa de trânsito, sabe, mas com um par de asas minúsculas nas costas – na lateral do corpo. Bem em cima do osso da bacia. Observei-a meio de ponta cabeça, com o corpo caído nem pra lá e nem pra cá do encosto do sofá. “A ligação caiu?”, ele me olhou, ali de perto. E eu balancei a cabeça, negando.

_Você não tava no telefone com a Mia?
_Tava. Mas não é isso...
_O que você tá esperando então? – ele achou graça.
_Nada.
_Cê tá estranha, mano. Que que foi?
_Nada, meu. Só... – afundei a cara contra o encosto, murmurando – ...sei lá.

Empurrei o que restava do meu corpo sobre o encosto, escalando-o desajeitadamente e me largando do outro lado, caindo sobre as pernas do Du. Chega pra lá – empurrei-as, deitando ao seu lado. O nosso sofá não era grande o suficiente para duas pessoas. Definitivamente. Talvez uma e meia. Mas de alguma forma nós fazíamos caber – como na vez em que o Du lamentavelmente tentou me comer ali. Ou quando eu de fato comi a Mia, às escondidas no último dia do Fer no apartamento.

_Que que foi, Castor? – ele se ajeitou, colocando o braço sob a minha cabeça.

Apoiei a minha cabeça em seu peito. E tirei o celular do bolso, largando-o sobre a minha barriga. Esse era o novo apelido do Du para mim. Começou à toa num dia em que não tínhamos mais o que fazer e então passamos a tarde inteira procurando possíveis nomes para pau e boceta na internet. Nos divertindo – como dois adolescentes punheteiros de treze anos, isto é, né. “Castor” estava entre as versões em inglês para meninas, beaver; o que despertou uma série infindável de piadas e mímicas entre nós que eu não ouso repetir publicamente. O Du usava a expressão carinhosamente, vez ou outra. E não de forma sexual. Numa dessas, quando o André estava no apê e nos perguntou de onde vinha, eu menti e disse que era uma referência à Simone de Beauvoir. A Mia riu tanto que me denunciou. “Quem vê pensa que é intelectual...”, zombou. Uns dias antes eu tinha contado a origem real para ela.

_Tá. Olha: vou contar, mas você não pode falar para ninguém. Beleza? – olhei para ele, que acenou com a cabeça, deitado comigo no sofá – Então, é que eu, e-eu tava trocando umas mensagens com a Clara...
_Espera. A Clara, “Clara”? Aquela Clara?!
_É. Eu avisei que ia trocar de número no fim de semana. E hoje a gente se falou.
_Velho, não. Por que diabos cê tá falando com ela? Cê tem merda na cabeça? – ele riu, se exaltando – Cê lembra como a mina te deixou da última vez, cara... Pára. Cê quer voltar pra isso?!
_Eu não quero voltar pra nada. Mas que drama, meu! A gente só falou de sei lá, de emprego, de besteira. Não tem nada a ver.  Não foram nem dez mensagens...
_Sei. E agora cê tá com essa cara por que então?
_Tá vendo?! – me irritei – Não posso te falar! Cê já tá me julgando, porra. Não vou dizer mais nada, meu...
_Não tô “te julgando”, cara. Por mim foda-se quem cê come ou deixa de comer. Eu não tô nem aí! Eu curto a Mia, acho ela legal de ter por aqui, mas se você também resolver ir cagar na sua vida e voltar pra merda da argentina, eu tô de boa também. O que não dá é você ficar aí achando que foram “oh! Só duas mensagens” e “não é um problema”, porque amigas cês num são, né? Vamos concordar – olhei feio para ele, que riu e empurrou a minha cara feia com a mão – Vai. Me conta. Que que rolou?
_Não vou contar. Agora vai soar como se fosse grande coisa e não é.
_Por que vai soar como se fosse grande coisa? – ele achava graça.
_Porque, sim, oras. Porque, sei lá, ela... Ah, a gente tava se falando lá de boa e aí eu perguntei se podia ligar e ela sumiu. Não respondeu mais, meu.
_Aí, ó. Tá vendo? Fala que eu tô errado agora.
_Cala a boca.
_E outra, gata, por que infernos você ia querer ligar pra essa mina? Deixa isso quieto, velho. Cê sofreu que nem uma condenada.
_Ah, sei lá, meu! Porque sim. Faz meses que eu nem ouço falar dela, porra. Cê sabe que eu amo a Mia, isso não tem nada a ver. Mas também não é como se eu e a Clara não nos conhecêssemos, como se não tivesse carinho uma pela outra, uma história aí. Eu só queria ouvir a voz dela, sei lá. Saber como ela tá...
_Você vai se enrolar nisso, mano – o Du me alertou – Se eu fosse você, não dava nem brecha pra começar... É burrice.

Você tá exagerando, pensei, revirando os olhos. E nisso, o meu celular vibrou. Peguei o aparelho sobre a minha camiseta e espiei no visor – era a Clara. Minutos atrasada.  “Eu to com uma pessoa...”, a sua resposta dizia. E eu não entendi por que diabos ela estava me falando aquilo. Isso é uma desculpa ou uma confissão? Mas sabia que o Du estava ao meu lado, provavelmente lendo a mensagem, então não quis demonstrar qualquer reação. “Quer q. eu ligue dps?”, digitei e ainda que ele não dissesse nada, podia sentir a apreensão só na forma como o Du respirava perto de mim. O meu celular vibrou de novo. “Ñ é isso. Eu quis dizer q to msm com outra pessoa, sei la. Achei q. devia falar”.

_Vixi... – o Du deixou escapar, respirando fundo.