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novembro 24, 2011

Hipótese infundada

E ainda assim, a ideia não saía da minha cabeça.
 
Ah, não. Eu não ia enlouquecer por culpa daqueles dois mal-amados. Me recusava, que se fodam. Eles e as suas teorias de merda. É. Ainda assim, passei parte da noite que se seguiu angustiada, atormentada pela quantidade de vezes que a Marina acertara sobre a minha vida amorosa no passado. Joguei um pouco de videogame com o Fernando para me distrair, me convencendo entre uma pista e outra de Mario Kart de que a Mia não tinha influência alguma em quem eu queria ou deixava de querer. Isso é ridículo, eu revirava os olhos, refletindo.
 
Lá pelas duas, o Fer foi dormir para conseguir trabalhar direito no dia seguinte e eu segui ali sozinha. Essas eram, afinal, as minhas primeiras “férias” em muito tempo. Quer dizer, se não contar os três dias que eu simplesmente não apareci no trabalho lá pra meados de dezembro porque estava a 100 km de São Paulo fodendo a Dani na casa dos pais dela em Campinas – um pequeno deslize na pior fase da minha fossa, esta, sim, impulsionada pelo meu coração partido pela Mia na época.
 
Mas agora eu já tinha superado.
 
Acordei pouco depois das 14h no dia seguinte com a cara amassada no sofá. E saí correndo para conseguir chegar a tempo pro exame admissional nas redondezas da praça da Sé, às 15h. Merda. O calor abafado que impregnava o ar paulistano me deu dor de cabeça, enquanto eu balançava naquele metrô suado – mas cheguei, intacta e a tempo. Ufa. De lá, fui direto ao meu antigo trampo, resgatar a carteira de trabalho que tinha deixado para assinarem.
 
A Patti me enviou uma mensagem enquanto eu estava na linha verde e eu só li uns quarenta minutos depois, quando terminei de assinar toda papelada e saí do estúdio. Por algum motivo, agora, eu não conseguia a responder. Argh. Filhos-da-puta. O Fer e a Marina estavam fodendo com a minha cabeça. Caminhei pelas ruas estreitas da Vila Madalena e o calor começou a me irritar, baixando minha pressão. Minha mente dava voltas na Patti. Num bloqueio emocional estúpido. Comecei a pensar que estragaria tudo e senti a respiração apertar o meu peito.
 
Não sabia por que gostava assim dela, com tanta facilidade – mas a verdade é que, sim, gostava. Com Mia ou sem Mia. Peguei então o celular e disquei para ela. Poucos instantes depois, ela atendeu e eu sorri. Parecia feliz em me ouvir, ali, competindo com o tráfego de ônibus e carros barulhentos que se enfileiravam na hora do rush.
 
_E aí, já desistiu do nosso encontro hoje?
_Olha, estranhamente não... – a Patti riu, do outro lado da linha.

novembro 23, 2011

Hush! Hush!

Estiquei os pés sobre o apoio lateral do sofá e traguei mais uma vez. Então olhei a mensagem dela, já pela terceira vez – “vc me deixa meio boba... como pode?”. Sorri. Dei uma bola e segurei o haxixe no pulmão por alguns instantes, com o corpo largado contra as almofadas. Aí deixei que a fumaça saísse. O sol começava a se pôr do lado de fora da Frei Caneca, aos poucos preenchendo o cômodo todo com um tom alaranjado. Ia tingindo os contornos da fumaça no ar. Era quinta. E eu não ia ter que trabalhar até segunda. Já tinha pedido demissão e passara o resto da tarde ali, conversando com a Patti, que agora fazia brotar um sorriso no canto da minha boca.
 
Peguei o celular de novo e abri o campo para uma nova mensagem, digitando o número do celular da Marina – decorado uns anos antes. “Qdo vc ñ consegue parar de ler uma msg, eh pq ta meio apaixonadinha, neh?”, escrevi. E hesitei. Argh, não. Por mais que a Marina fosse adorar receber esse tipo de fofoca, eu não podia mandar aquilo assim. Deletei tudo de uma só vez e recomecei: “mano, ñ consigo parar de olhar a msg de uma mina”. Pronto. Mandei. E a Marina, claro, respondeu no mesmo instante, antes que desse tempo de eu levar o baseado mais uma vez à boca.
 
QUE GAROTA????? :) :) :)”, perguntou, assim, em letras maiúsculas e exageradas. Comecei a rir sozinha. Mas cê se empolga, hein. Ainda não tinha contado direito sobre a Patti para ela, só mandei uma mensagem bêbada do Vegas, falando que consegui o emprego e que estava comemorando aos beijos com uma mina na balada. Sem muitos detalhes. Dei mais um trago e escrevi de volta, respondendo quem era. “Ah. Mas essa ñ é a q vc conhece faz, tipo, um dia?”, ela me questionou. “E?”, soltei a fumaça no ar, despreocupadamente.
 
O meu cabelo começava a bagunçar depois de tanto tempo largada ali no sofá. Me curvei sobre a mesinha de centro e deslizei suavemente uma das pontas do baseado na parede do cinzeiro, fazendo com que as poucas cinzas formadas caíssem. Ainda estava com o celular em mãos, mas a Marina não me respondia. Larguei-o sobre a mesa. Aí traguei mais uma vez e decidi parar naquela – haxixe batia mais forte. Mais um pouco e eu ficaria realmente chapada. É. Soprei a fumaça para o lado e o apaguei no cinzeiro, apoiando-o na borda. O celular vibrou sobre a mesa – “vc ñ acha q ta projetando um pouco, linda? :-/”.
 
Projetando o quê, mano?!
 
Me ofendi. Bufei e afundei o corpo contra o sofá, olhando a tela do celular. Não precisava desse tipo de comentário, não vindo da Marina. Achei que ia ficar animada, porra. Neste mesmo instante, o Fer entrou no apartamento com as roupas do trabalho, carregando umas sacolas de mercado nas mãos. Me cumprimentou de longe e deixou as chaves sobre a mesa ali ao lado, atravessando então para a cozinha. Pouco depois, voltou pra sala. Começou a falar e eu me virei para olhá-lo, ali em pé, atrás do sofá, tentando abrir um pacote com os dentes.
 
_E aí... – me perguntou, quase indecifravelmente, com a boca ocupada – ...pediu demissão?
_Pedi.
_E foi de boa?
_Ah, mais ou menos. Meu chefe ficou puto, falou que eu tava largando ele na mão, e depois veio com um papo de que já tava pensando em me cortar mesmo. Foi um babaca.
 
Notei mais uma mensagem da Marina chegar no meu celular, largado sobre a mesa, mas não peguei para ler. Não quero saber. O Fer finalmente conseguiu abrir o seu pacote e se sentou na poltrona, ao lado do sofá, olhando para o meu celular aceso.
 
_Hum... – o indicou com a cabeça – ...num vai responder?
_Ah, não, é a Marina me dando bronca...
_Ê laiá – ele riu, comendo uma bolacha – Quê que cê fez agora?!
_Eu? Nada! Ela tá achando ruim só porque tô gostando de alguém...
_Quem?
_Ah... – me espreguicei, enquanto falava, esticando o corpo contra o encosto – ...uma mina aí.
_Não, jura?! E cê resolveu inovar também em... sei lá... outras áreas da sua vida?
_Babaca – eu comecei a rir.
 
E peguei o celular para ler. “Flor, ñ se chateia. Eu só acho q vc devia ir com calma e ver se... se é isso msm, sabe?”, a Marina escreveu. Argh. Fechei o celular e o larguei na mesinha de centro, de novo.
 
_Mas conta aí... Que mina?
_Ah, aquela lá do Vegas... A Patti.
_Nossa, mano, mas cê tá gostando dela?
 
Estranhou, arregalando os olhos por um instante. Quê?! Aí levantou as sobrancelhas, dando de ombros – como se dissesse um “então tá” conformado. Não entendia a porra da reação das pessoas à minha volta. Qual é agora?! Não era como se eu nunca tivesse me interessado por ninguém, na minha vida toda. Ainda que, ... eu só conhecesse ela há um dia. Mas, e daí? Me deixa, porra. Finjam menos surpresa, menos relutância, me emburrei, afundada no sofá. Sejam educados, caralho.
 
Balancei a cabeça e parei de olhar na direção do Fer, desviando o olhar pro chão. Isso é ridículo. Quem são vocês pra ficar me julgando? Aliás, quem é a Marina pra ficar supondo teorias a meu respeito? Sobre o que eu sinto ou não por uma garota? Eu tô bem, porra. E tô bem há meses, resmunguei mentalmente para mim mesma. Agora não posso me interessar por ninguém? É isso?! Vai se foder. O que tem? Eu gosto de falar com a Patti. Gosto. E isso não quer dizer nada. Absolutamente nada. Não é c-como se, como se a garota estivesse substituindo a porcaria da Mia na minha vida, no meu coração. Inferno.

novembro 22, 2011

SMS

“E se eu te chamasse pra sair um dia desses”, comecei a digitar, “vc subiria?”. Apoiei as costas entre duas paredes do elevador do prédio, com os pés cruzados em frente ao corpo. “Te dei a resposta pra essa pergunta umas mil vezes ontem”, a Patti me respondeu. “Sem segundas intenções, juro”. “Aham”. “Sem tequila?”, desci do elevador para a rua e segui a pé para o metrô. Logo após alguns minutos, chegou mais um SMS dela. “Mas oq a gnt ia fazer sóbria juntas?”. Como assim?, me ofendi. “Entao c acha q ñ pode se divertir cmg sem tequila?”. “Talvez precise esquecer 1 pouquinho q vc eh menina, rs”. Comecei a rir, indignada, e virei a esquina com o celular em mãos – “mas essa eh a melhor parte, garota... ;-)”. Bati ritmadamente com os dedos no visor do celular, ansiosa, à espera da próxima mensagem. “Eh.. Talvez seja :3”. Sorri na mesma hora. “Sai cmg, vai?”, pedi. “Mas oq a gnt iria fazer afinal?”. “Oq vc quiser, ñ sei”, acendi um cigarro. Já estava na entrada do metrô, mas enrolava um pouco, esperando a conversa terminar para tomar a linha verde e ir pedir demissão no estúdio. Poucos segundos após minha última mensagem, a Patti respondeu: “ok. mas preciso de um plano... ñ posso simplesmente ir aí pra ficar c/ 1 garota! ;-x”. Sorri com o canto da boca, achando graça no bloqueio todo – “ñ precisa vir aqui. eu vou aí, rs”. Retruquei e me pus a pensar por um instante, sem muitas ideias. Aí abri o navegador no meu celular, tragando mais uma vez enquanto buscava qualquer desculpa para nos vermos. “”, digitei segundos depois, “vi aqui q vai passar O Iluminado amanhã na tv, serve?”. “Ñ da mto medo?”. “Dá, rs”. “Mas e se eu ñ conseguir dormir dps?. “Te faço cia, uai”. “Hummm... talvez”. “Prometo me comportar”. “Promete?”. “Sim, rs”. Levei o cigarro mais uma vez à boca, tragando uma última vez antes de o apagar e entrar na estação. E assim que pisei na escada rolante da Consolação, a sua resposta piscou na tela – “combinado!”.