- »

agosto 27, 2011

"It's the sparkle you become...

...when you conquer anxiety". 
(Crystalline, Björk)


Ela. Passando em pé, descalça, sobre o colchão. Pouco acima do meu campo natural de visão. Estava sentada ali, acendendo um cigarro, encostada contra a parede. Subi os meus joelhos, deslizando os pés sobre o lençol, e apoiei neles os braços. Observei-a, curiosa, enquanto tragava preguiçosamente. Atravessara a cama e estava, agora, curvada sobre um aparelho de som, vestindo apenas uma blusa branca e uma calcinha box marinho e branca, procurando uma música qualquer em seu iPod. Tão logo a faixa começou, ela se levantou novamente.

Subiu na cama, me olhando. Notei as imprestáveis intenções em suas pupilas e achei graça, ri. Ela se abaixou mais uma vez, perguntando-me do que eu estava rindo, e sorriu para mim. Com os joelhos e as mãos no lençol, os cabelos soltos, a franja caída sobre o canto de um dos olhos castanhos. E achando, também, graça em mim. Nada, lhe disse, muito calma, estou rindo de você. Moveu-se lentamente mais para frente, na minha direção. Deu-me um beijo demorado. E eu beijei-a de volta.

_Essa música é boa, escuta – pediu, conforme se afastava do meu rosto.

Cantarolou duas ou três palavras. Traguei mais uma vez, escutando e observando-a a dez centímetros de mim. Não era excepcionalmente bonita, era bastante normal, aliás, não sei bem porque gostava de sair com ela. Sentou-se na minha frente, sem distanciar-se muito de onde estava, ainda com as pernas entre as minhas. Tinha um sorriso, jeitos bonitos. E não me enchia quando eu deixava de ligar. Já eu estava, por minha vez, vestindo uma camiseta preta que comprara na Banca na semana anterior. Com um escrito hipster qualquer na frente, bem grande, em amarelo. E sem calcinha – desde as últimas duas horas.

Soltei a fumaça, aos poucos. Ela veio e tragou o cigarro em minhas mãos, ainda apoiadas sobre meus joelhos. Enquanto eu escutava a faixa, encostada contra a parede, ali sentada. Os tons seguiam, bem marcados, destoantes do meu estado brando de espírito. Moveu-se mais uma vez na direção da minha boca, levantando-se um pouco de onde estava sentada. Me beijou com mais vontade. Deslizou uma das mãos, do lençol para o meu quadril. Eu não tinha o menor interesse, contudo. Não naquele momento, pelo menos. É fácil quando não se dá a mínima, não é... Virei o rosto e bati as cinzas num copo com água ao lado de onde estávamos no colchão.

_Isso aí é Björk? – perguntei, sobre a música.
_Uh-hum.

Ela roubou o meu cigarro, antes que eu o retornasse a mim, respondendo. Tragou mais uma ou duas vezes, contando-me sobre o álbum novo dela, falando qualquer coisa sobre aplicativos de celular e open source, assunto que pouco me intrigava. Achei a idéia ainda assim inovadora. E era interessante ouvi-la falar, sei lá, eu gostava. De um jeito tranqüilo, sem carinho comigo. Gostava mesmo. Sorri para ela, ao final de toda a complexa explicação sobre o novo álbum da Björk, e ela me perguntou se eu já conhecia o som.

_Essa, não... faz um tempo que não ouço Björk, ouvia mais antes. Parei há uns meses, sei lá – argumentei, observando o cigarro já quase no fim – acho que passou um pouco a fase.
_Ah. Agora você ouve outras paradas, então... – ela achou graça, falando como se eu houvesse implicado algo a seu respeito e eu a olhei, indignada.
_Tonta... – ri, por um breve momento – ...não é, é só que... – virei-me, batendo mais uma vez as cinzas, ao lado, e tornei a encará-la – ...sei lá, acho que me lembra alguém.
_Quem?
_Uma garota aí, nada demais... ela bancava a esquimó na minha cama – eu ri, de novo, agora de mim mesma – ah, meu, na boa, não é nada. Só parei de ouvir...
_Quer que eu tire?!
_Não... – senti-me estranha, por um instante, ao dizer aquilo.

Ela subiu os dedos lentamente, do meu quadril descoberto e pela minha cintura. E beijou-me mais uma vez. Eu não sentia o mesmo, naquele momento. Mas achava graça no jogo, gostava de vê-la tentando. Conforme os segundos passavam, suas intenções se desdobravam crescentes, ansiosas. Sentia os seus dedos me pressionarem, progressivamente, na sua direção. Queria-me para ela, pouco a pouco, estava com vontade enquanto eu preferia permanecer apoiada na parede, ali. De preferência, sem me mover muito.

Não que não quisesse beijá-la, pois queria. E beijava-a, não obstante, é claro. O que me incomodava era a sua empolgação, a voracidade momentânea... eu não estava nesta pegada. Estava, aliás, bem de boa de me mexer dali. Talvez fosse culpa da maconha, sei lá, estava lenta. Achava graça, contudo, na sua excitação contínua, no seu desejo imediatista. Me agarrando, mesmo que estivéssemos em ritmos diferentes. Aí parava por meio segundo de beijá-la, olhando-a se frustrar. Me divertia, e como, e ela percebia. Encarei-a, então, com ares de quem sabe mais o que está fazendo.

_Está com pressa, garota? – disse.

Ela me olhou e riu, desacreditando. Forçava-a a diminuir sua velocidade. Dava-lhe beijos suaves, desviava dos seus impulsos, lhe enrolei por um instante. Queria era discordar dela, do que ela queria. A vontade em seus olhos, todavia, só aumentava. Segurei as suas mãos no ar. Oscilávamos, em direções opostas. Se ela fosse por um lado, eu iria por outro. Por puro gênio ruim. Como qualquer gato malcriado, tinha lá os dias em que eu brincava com a comida. Era ao que ela me prestava, ao menos naquele momento, na lastimável vida que eu vinha levando nos últimos tempos.

Deslizei a boca, os dentes, suavemente por seu pescoço até a beira do seu queixo. Na real, eu estava com preguiça. Dei uma última tragada e ela me encarou. Disse algo, que eu não ouvi, mesmo que gostasse de ouvi-la falar. Estava ocupada apagando o cigarro. Quando lembrei, de repente, da Marina. Que merda você está deixando sua vida virar?, vai me dizer amanhã, ri comigo mesma. Sabia que diria, inconformada, atrás dos seus óculos pretinhos e eu lhe responderia que estava completamente errada. E ela iria estar certa, pra variar.

Olhei, então, para aquela garota qualquer na minha frente... e foda-se, agora eu estava no clima.

22 comentários:

Anônimo disse...

foda-se!

Marina disse...

gosto tanto tanto TAAANTO DO POST DO ESQUIMO!!!! e dos caminhos que a mente da fm faz.... vc escreve demais meeelms!

Anônimo disse...

"Por puro gênio ruim. Como qualquer gato malcriado, tinha lá os dias em que eu brincava com a comida" --> foda!!!! kkkk

Anônimo disse...

E essa FM linda, decidida e se divertindo às custas dos outros novamente?♥ hahaha E a lembrança? E a 'cena' do esquimó? Das camisetas, da cozinha. :~~~~
E esse devaneio? E essa Marina aparecendo assim, do nada?

E esse post lindinho que podia ter outro post logo na sequência? hihi

Um beijo! ;*

Cogumela =) disse...

\o/ isso! eu e a FM estamos neste climinha fodam-se-os-atrapalhos.

Anônimo disse...

qual que é essa cena do esquimó que eu não estou lembrada? :x

Anônimo disse...

kd mia kd

Rayssa disse...

ain gente, clara ta mais que na hora de voltar *-*
toda hot,deixando devassa louca e a mia toda se querendo novamente...
vaaaai mel,nao faz a devassa e não para ai nos deixando querendo mais em plena empolgação .6.

#VoltaClara !!!!!!!

Monica disse...

só sei q li o post ao som de crystalline...

louvada seja Bjork, amem!

Anônimo disse...

ahh como é bom post novo, ja nao consigo ficar sem ler por tanto tempo

Anônimo disse...

Aaahh FM, tão extraordinariamente imprestável!Pqp..Love it ♥

Anônimo disse...

só eu acho q FM e Marina podiam fazer um revival pra mexer com as estruturas de tds?

jamile disse...

como assim a FM pensou na marina e se excitou?? adoro hahahaha

rayddmel disse...

essa FM me mata '-'


Mtoooooo boom Mel!

Pathy disse...

FM e Marina revival??? NÃÃÃÃÃOOOO!! Eu não aguentaria tanto draaamaaa..:(

FM Devassa, adorandooooooo :D

Dea disse...

nananina. só a FM pode se dar ao luxo de não ter nome. como chama essa aí? quero sabeeeeer :)

Anônimo disse...

Roncz

Anônimo disse...

MEEEL, o seu livro vai ta vendendo na bienal aqui do rio ??? diz que sim =) ! Qual a editora?

'duuda disse...

olha essa FM com seu temperamento volúvel hahahahaha!! tão bonitinha alegrinha assim :')
surpresinha boa ver esse post aqui, yay!
beijo beijo beijo!

camila disse...

cara uma amiga minha me indicou o blogger. Li a historia toda.

mel parabens, vc escreve muito bem. É aqele tipo de história qe vc super se envolve.

ja sou fã da marina, minha personagem favorita cara. Muito linda ela, muito marina msm. Eu qero uma marina na minha vida. Hahahaha.
e a mia da um pé na bunda bunito na fm e agora vem com essa de qerer ser amiga. Aaaaah pelamor né. Ta de sacanagem. A mia tinha ela na mão cara e fez oq fez.

enfim, mel abandona nao cara, qero mais qero mais.

( the girl fucking Mia ) disse...

Anônimo 4, a cena do esquimó é antiga... do comecinho do blog! É esta daqui: http://fucking-mia.blogspot.com/2010/01/armario.html ;)

Cris Ferreira disse...

Calcinha box.. iPod.. Cama.. PQP como esse post me lembrou alguem! :S

Ahh.. A saudade das bocas que nunca beijei..

Mel, sua narrativa é espetacular!!