_“Patti” – sentei ao lado dela, no degrau do lado de fora do Vegas
– Sabe, eu gosto desse nome...
_Gosta? – ela me deu uma olhada rápida de canto de olho, sorrindo,
com um cigarro aceso nas mãos – Hum, engraçado, te vi conversando com outra
“Patti” lá dentro...
_Eu?! Onde?
_No bar...
_Ah... – ri, observando-a tragar – ...ela é só uma amiga.
A Patti me olhou como se não acreditasse e balançou a cabeça,
rindo.
_Quê?! – me justifiquei – É só que fazia... um tempo
que a gente não se via.
_Tá bom... – achou graça, desconfiada – ...e então quer dizer que cê
gosta de Pattis?
_Gosto. Me lembra a Patti Smith...
_Ah, não! – ela riu, soltando a fumaça para o lado – A Patti
Smith, mano?! Ela é horrorosa!
_Ah, qual é... Mano, a mulher é um gênio!
_Tá... e horrorosa.
Parei e a encarei por um segundo, indignada com a afirmação.
_Então, é assim? Uns
amassos sapatão e, de repente, cê é expert em quem é gata ou não? – a zombei.
_Não precisa ser sapatão para saber que
a Patti Smith não é bonita...
_Mano... – me revoltei – ...EU TE
COMPARO COM UMA DAS MULHERES MAIS FODAS QUE JÁ EXISTIRAM E CÊ FICA OFENDIDA
PORQUE NUM ACHA ELA BONITA?! –
roubei o seu cigarro, rindo – Chega. Parei. Já deu pra mim, cê tá muito
louca...
Balancei a cabeça e dei um trago, olhando
para o movimento na rua Augusta à nossa frente, desacreditada.
_Hum, então... o que cê tá me dizendo é que iria pra cama com a
Patti Smith?
_Nossa, mas COM CERTEZA! NA HORA!
_Do jeito que ela é hoje?!
_Mano, sim... – a contrariei, entregando o cigarro de volta – ...de
qualquer jeito. De todos os jeitos. Se aquela mulher me desse bola, eu podia
morrer feliz...
_Ah, mas cê tá falando isso só porque admira ela, não vale!
_Como não vale?! Tesão é tesão. É isso. Vem de muitas formas,
meu...
_Tá. Mas falando só fisicamente... – me provocou – ...eu ou a
Patti Smith?
_Ela.
_Fisicamente!
_A Patti Smith, porra.
_Ah, não! Duvido!
_O quê?! – a observei dar um último trago, ao meu lado, apagando o
cigarro na calçada – Você acha mesmo que não?!
_Meu, eu tenho certeza
que não!
_Nossa, dormia com ela fácil! Fácil!
_Ela? – me olhou, sem acreditar – Ao invés de mim?!
Ri mais uma vez, achando graça na sua indignação, e apoiei a mão
nos joelhos para levantar do degrau, ficando em pé na calçada.
_Não tô dizendo que não te acho gata, meu. Mas ela também é e tem
muito mais pra se gostar numa mulher além disso, porra... – estiquei a mão para
ela, que a usou para se erguer também – ...quê?! Tá surpresa?!
_De certa forma... – sorriu – ...assim, depois da sua cachorrada
lá dentro, não te tomaria exatamente pelo tipo “profunda”.
_Que cachorrada, mano?! – a encarei, subindo o degrau para voltar
pro Vegas – Do que cê tá falando?!
Ela revirou os olhos, sem paciência com a minha cafajestice.
_Quê, meu?! – eu ri, atravessando a porta da balada, e brinquei –
É que eu tenho um interesse meio efusivo...
_Ah, cala a boca!
Ela achou graça e eu a encostei contra a parede, na maior cara de
pau. “Essa é a coisa mais ridícula que já ouvi...”, ela resmungou. “Olha...”,
murmurei, já perto da sua boca, “...te garanto que o meu interesse tá todo aqui
agora”. “Sei”, ela riu. E numa reconciliação improvável e bêbada, do nosso
namorico de balada, nos beijamos ali no escuro, cercadas pelas cortinas pesadas
e vermelhas do Vegas.