Espera lá.
_A gente?!
_É. Eu e
você. Eu não... – a Marina me olhou, chateada – ...n-não sei se a gente dá
certo como amigas, flor.
_Do que cê
tá falando, Marina? Calma lá... – me ajeitei no banco, preocupada – ...o que
essa discussão toda tem a ver com a gente?!
_Não sei.
Não sei se você sabe lidar com isso, se eu sei lidar bem com isso. É só... complicado,
entende? A gente, meu, a gente já passou por tanta coisa... – lamentou – e eu
não quero ficar brigando com você. Sabe, depois de tanto tempo, ficar nessa
situação... ir te buscar na casa de uma mina qualquer aí, sabe, ficar
discutindo, não sei se é saudável.
_Cê não
pode tá falando sério... – balancei a cabeça, frustrada – Isso é coisa da Bia.
_Dá pra
não enfiar ela no meio? – se irritou – Isso é assunto nosso, não tem nada a ver
com ela!
_Não vou
enfiar como?! Porra! – me exaltei – A mina fica enchendo sua cabeça, por ciúme
da gente, caralho. Nunca foi problema antes! E agora, de repente, não é uma
relação saudável e o caralho a quatro... Cacete, Má! – discordei, batendo a mão
no painel do carro – Eu fiz merda! Saí e fiz merda! Foi só isso! Não tem nada a
ver com a gente, porra!
_MAS EU
NÃO ME SENTI BEM INDO ATÉ LÁ, INFERNO!
Ela
gritou, de repente.
_E-eu... –
me desconcertei, a ouvindo estourar comigo – ...des... desculpa, linda... –
hesitei,
caralho – ...eu não queria te chatear, eu... – passei a mão no
rosto – ...e-eu só faço merda, desculpa.
_Tá tudo
bem. Esquece.
A Marina
abaixou a cabeça, magoada. E eu me senti a pior
ex amiga pessoa
que poderia ser para ela, que sempre estava lá para mim.
Puta merda. Observei
os seus olhos se desviarem e fui tomada por uma culpa desgraçada. Fechada com
ela naquele carro, enquanto os pedestres passavam na calçada em frente ao meu
prédio.
Argh. Que merda eu tô fazendo com a minha vida?
_Não. Não
tá, Má... – lamentei – ...a, a verdade é... q-que nem eu me senti bem hoje,
acordando lá... sem saber o que diabos tinha acontecido, sabe, foi... ruim.
Estranho.
E e-eu, não sei, não tô bem. Não tô pensando as coisas direito e... e eu não
devia ter te arrastado pra isso. A última coisa que eu quero é foder a nossa
relação, meu. Cê não tem noção de quanto cê é importante pra mim, do quanto eu
gosto de você... – balancei a cabeça, quase chorando – ...caralho, viu. Não
devia ter te chamado hoje.
_Flor, não
é questão de “não me chamar”. É tudo! Você precisa parar com essas coisas, meu.
_E-eu, eu
sei...
_Não,
linda, eu tô falando sério – segurou a minha mão – Você não pode continuar
assim, nesse ritmo... Não é bom pra você, nem pra ninguém por perto. Eu sei que
as coisas tão difíceis, mas esse não é o jeito de lidar! Eu não quero ter que
ir te buscar na porra do hospital, meu. Cê precisa maneirar um pouco...
_Eu sei, Má.
Cê tem razão.
_E
desculpa ter surtado, é só que... – murmurou – ...cê sabe, me traz memórias
ruins. E é difícil, eu me preocupo pra caralho. Mas eu amo você...
_Eu amo
você também.
Entrelacei
meus dedos nos seus e beijei brevemente as costas da sua mão. A Marina sorriu
pra mim.
_Então,
quer dizer que cê vai dar uma trégua na bebida?
_Vou,
vou... – ri.
_E o
cigarro?
_Não
abusa, Marina.
_Quê? –
fez graça, amenizando o clima entre nós – Podia aproveitar já, de uma vez.
_E o que
eu ganho com isso?
_Mais anos
de vida, pra começo de conversa.
_Agora você
só tá sendo cretina, Marina...
_Não, eu
só não tô com paciência para lidar com você hoje... – ela riu, abrindo de novo
minha porta – Vai, tchau... Sai, sai!