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outubro 02, 2012

Prorrogação

“And...
When I awoke
I was alone, this 
Bird had flown”.
(The Beatles)

A voz do Fernando invadiu os meus ouvidos desmaiados. Eu estava completamente fora de órbita, deitada de qualquer forma no sofá da sala. A coluna torta. Acordei com as suas mãos me sacodindo o cotovelo, que eu havia erguido sobre o rosto a fim de bloquear a luminosidade; o meu braço direito cobria os olhos. Movi-o alguns centímetros para baixo, abrindo as pálpebras com certa indisposição, e encontrei o Fer ali, em pé do outro lado do encosto, bem na minha área de visão. A minha cabeça doía – puta merda, me contorci – e ele riu da minha expressão de incômodo. O meu corpo parecia pesar cinco toneladas a mais, afundado contra o estofo; e a ressaca me sugava secas as veias.

_O que você tá fazendo aí, mano?! – o Fer questionou, rindo; eu o ouvi, mas desorientada – E por que cê tá sem roupa, porra?

Ahn? Senti a minha camiseta amassada contra a minha mão esquerda e notei então que o meu braço a segurava sobre o meu abdômen; as minhas calças estavam puxadas apenas até a metade das minhas pernas. O que? O que aconteceu ontem?, o meu cérebro parecia gritar em agonia, encharcado em rum e THC. Cada pensamento doía, argh. E tudo o que me vinha à cabeça eram os orgasmos da Mia naquele chão, a sua boca contra a minha, o movimento das suas tatuagens entre os meus dedos. Inferno. As mãos do Fernando esticaram-se a menos de vinte centímetros de mim, apoiou os antebraços no alto do encosto e me observou ali de cima, rindo. “Esta é a melhor memória que eu poderia ter de você”, brincou então, “meu último dia aqui”. Revirei os olhos para ele, perturbada. É – eu numa puta ressaca violenta, com os peitos de fora no meio da sala, parece bem apropriado. Resumia toda a porra da nossa convivência naquele apartamento. Esfreguei uma das mãos contra o rosto, tentando me livrar daquela enxaqueca de merda, e me sentei. Vesti de novo, descabelada, a camiseta.

_Sério, velho. O que diabos cê tava fazendo?! – ele achava graça na minha desgraça e eu só queria que ele calasse de vez a boca; cada ruído que saía detrás do sofá me destruía os miolos ali sentada.
_Sei lá... – murmurei, emburrada e meio bêbada – ...fiquei com calor à noite, nem lembro. Tava chapada. Que diferença faz?

Levantei numa atitude a la cão rabugento, intragável, e ele riu ainda mais. Começou a juntar os poucos vinis que restavam no chão, enquanto eu subia as calças, determinado a terminar de empacotar aquelas caixas todas. “A gente sai numa meia hora”, gritou na minha direção, ao passo em que arrastava os meus pés pelo corredor. Se eu estiver viva. Segui até o quarto e me joguei mais uma vez na cama, derrotada. Por que diabos eu bebo, cacete?! Os meus órgãos internos pareciam prestes a implodir, exauridos e sem energia. Os acontecimentos da noite anterior ainda me eram levemente nebulosos – eu ODIAVA aquela sensação, a abstração de todo controle. Argh. Mia. Puta que pariu – virei-me com o corpo de frente ao teto e apoiei apenas a nuca (de forma desconfortável) contra a cabeceira, acendendo um cigarro dos que restavam na mesa ao lado da cama. Lá vamos nós, de novo...

O quarto estava mudo, imóvel. À luz do dia tudo me parecia menos excitante e mais racional. Onde porra eu estava com a cabeça? – mas ela, ah, ela; ela estava tão linda, tão incrível. Como uma força inegável, irresistível nas minhas mãos. Os meus devaneios da noite anterior me eram vívidos, ainda intensos na minha memória. Não importa, foi bom. Sorri satisfeita. E um momento de silêncio se seguiu, incômodo – ou importa? E foi quando me dei conta de que eu estava sozinha naquela porra de cama, de novo, e a Mia dormia naquele mesmo instante no quarto do Fernando. Num impulso zangado, chutei a estrutura de madeira da cama e sentei o corpo em seguida, colocando os pés na lateral, no chão. Não começa com isto, caralho.

Senti o colchão sobre as minhas mãos, deslizando-as ao lado do meu corpo. E traguei mais uma vez, me forçando tranquilidade. Eu não preciso pensar sobre isto agora. E a noite anterior não precisava significar nada, nem a mais e nem a menos do que fora. Dane-se. Dane-se isto. Eu só estava de mau humor, eu sabia; aquele sentimento de vazio, de merda ia passar. A minha cabeça doía latejante e eu me irritava. Deixei a fumaça sair dos meus pulmões. E respirei com calma, limpando a mente em branco. Os ânimos estavam agitados, os meus e os dela, naquele chão da sala e a reverberação daquilo na manhã seguinte era no mínimo inconsequente, um movimento burro. Eu não posso fazer isto, não posso. Deixa pra lá. E apanhei as primeiras roupas que vi no armário, indo tomar um banho rápido antes de irmos.

Quando saí, a encontrei na sala junto ao meu tão logo não mais colega de apartamento. Estava bonita. Numa camiseta larga e os cabelos desalinhados, mas com certo charme – é possível eu te achar menos do que como a vejo? –; ela sorriu ao me dar ‘bom dia’. Tentei não agir de maneira diferente, ajudando-os a carregar a metade restante das caixas até o carro do Fer. Algo me incomodava, durante o início do processo. Enquanto ele levara a primeira cota dos discos, a Mia havia passado um café na cozinha e eu agora “desfrutava” de um dos piores chás cafeinados que eu tomara na vida, já em nossa segunda viagem à garagem do prédio. O clima se tornou bom, aos poucos, entre nós. Os três. E o Fernando me ajudou a destruir as habilidades da Mia na cozinha, completamente inexistentes, em comentários cruéis na descida de elevador. Ela ria, indignada.

_Muito agradecidos vocês... – disse e arqueou a sobrancelha ao repousar a última caixa, no chão sujo da garagem, sobre uma outra que eu trouxera.

Estavam todas lá. Quatro anos e meio de apartamento dividido em poucas caixas. Parecia, agora, tão pouco. Demos início então a um balé confuso, na tentativa de dominar todo o espaço disponível até fazer aquelas pilhas de papelão caberem todas no banco de trás e no porta-malas. Ao final da árdua tarefa, o reles automóvel popular mais parecia uma carreta de logística – a versão pobre, isto é. Com um fio passando, nada discreto, pelas janelas para segurar o colchão sobre o teto do carro. Muita classe.

Sentei no banco da frente, cumprindo meu papel de amiga sapatão necessária para ajudar em mudanças, e já estava prestes a fechar a porta; quando a Mia deu dois passos e me impediu. Ficou parada do lado do carro, como se esperasse algo de mim. Você só pode estar brincando, não é?, olhei para o Fer, na mesma hora. “Qual é, a casa dela é aqui do lado!”, ele argumentou e eu suspirei, abrindo o resto da porta para que ela sentasse no meu colo. Que situação agradável. Era o cúmulo do ridículo – nós duas, amassadas ali, com o Fernando bem do lado. Depois de todas as sacanagens e posições imprestáveis, indecentes que praticamos sem um pingo de vergonha na cara naquela madrugada. Eu quero morrer. Desviei os olhos (e as mãos) para bem longe das pernas da Mia durante todo o percurso, até chegarmos em Higienópolis e ela saltar.

Ufa.  
  
Me acomodei confortavelmente, agora podendo respirar de novo com naturalidade, mais calma e sozinha no banco da frente; e o Fernando baixou mais uma vez o freio de mão. Começamos a rodar o quarteirão em direção à Avenida Angélica quando, de repente, senti a lateral do meu banco vibrar. “One means somebody's lonely. Company means there are two...” – ouvimos uma voz começar a cantar. Aquele era o toque da Mia, droga. Alcancei o celular, que havia ficado no vão da porta do passageiro, e o atendi; conforme o Fernando já fazia o caminho de volta. “Sou eu, besta. Você esqueceu o celular no carro!”. Ela riu e pediu que eu levasse até ela, disse que estaria esperando no hall do prédio. Se você já vai descer, por que não vai até a calçada, meu? Desliguei, sem falar nada. Estávamos atrasados.

Em menos de cinco minutos, nos encontrávamos de novo em frente ao seu prédio. “Vai lá!”, o Fernando falou, estacionando o carro sem desligar o motor. Abri a porta e dei uma corrida até a portaria, apontando o celular em mãos para que abrissem logo. E abriram, para minha surpresa, sem interfonar – já estava avisado. Atravessei o jardim que ocupava o recuo do prédio num só fôlego e subi os três, quatro degraus que davam na porta do hall de entrada. A Mia já estava lá. Sorriu e, uma vez que eu me encontrei lá dentro, andou na minha direção com a mão esticada para pegar o telefone. Ao enfim segurá-lo, porém, me puxou num rápido movimento para perto dela e colocou os braços atrás do meu pescoço. Ah, garota. Ela então, abraçada em mim, me beijou.

37 comentários:

Anônimo disse...

FODA!!!! Mia cheia de atitude. Aposto q ela esqueceu o cel de proposito! hahahaha... vai foder com a mente da FM de vez..

Anônimo disse...

PUTA MERDA. Final perfeito!

Anônimo disse...

E a risadinha? Fez de proposito, ctz. s2

Marj disse...

Aiii Miaaa pq vc faz isso <3
cap mais fofo impossivel

Juliana Nadu disse...

Foi o post mais engraçado que eu já li!! shaushauhsausha

To com a cena da FM com as calças arriadas no joelho e caio na risada!! shaushaushauhsa

Eu sabia!! sabia que o Fer não ia pegar!! Agora sim vai começar o começo do fim!

ps: é delicioso as peripécias da Mia!! GTS!!!

Anônimo disse...

Ai meu sem orrrrr, como pode ser tão perfeita??? *-*

mkendow disse...

Por um mundo com mais Mias.

Anônimo disse...

essa Mia é uma linda mesmo <3

Anônimo disse...

AAAAAAAAHH NÃÃÃOOOOO!

Meu, eu juro que vou deixar acumular uns três posts pra não sofrer tanto.

Ôô, mas como sou a favor da prorrogação da prorrogação... (6)

Anônimo disse...

OBA,OBA,OBA,OBAAAAAAAAAAAA!
Mia, sua fofa, agora estou gostando...
Atitude!!!
Mais, please! rsrsrsrs

@livia_skw disse...

Mel, please, a continuação!

Anônimo disse...

Meu Deus esse post foi ótimo, olha só pra essa Mia toda cheia de atitude e corajosa, sem inibições fodendo com o a cabeça da FM mano.
Muito bom, muito bom mesmo! Por um mundo com mais Mias com certeza.
Não vejo a hora do próximo, pq tenho certeza que os capítulos vão ser uma delicia de se ler mais ainda agora! Parabéns Mel, cada dia melhor!

Giovana Turioni disse...

Quero casar com a Mia. Apenas.

Ianca' disse...

Não sei o que foi melhor...
A Mia sem dotes culinários.
O carro abarrotado e o tal do fio, bem povão.
Ou a cara de pau da Mia em esquecer o celular pra dar uns beijos na FM, nas fuças do namorado dela. QUE AVANÇO, PORRA!

Desastres em Miniatura disse...

Que situação... kkkkk. Eu agiria como a mia... se não já agi..

Anônimo disse...

O que é THC? (Novinha sem conhecer a vida noturna, falando)

Anônimo disse...

Por um mundo com mais Mias. [2]

( the girl fucking Mia ) disse...

Anônimo (o penúltimo!), THC é uma substância química e o principal composto da maconha. THC é a sigla para Tetraidrocanabinol.

Pathy disse...

HAHAHAHAHHAHAHAHAHHA
Essa Mia é uma safada mesmo! uma safada adorável, diga-se de passagem. <3
O que tenho a dizer sobre tudo: DEIXA PEGAR FOGO, MEL.

\0/ \0/

Barbosa disse...

Ahh que post incrível Mel! Cômico, romântico, tudo de bom!

Anônimo disse...

Mel, eu já disse que te amo, mulher?! rsrs

Anônimo disse...

Como é que trabalha direito , c/ o pensamento num final desses .. Ah,garota .

Vitória Régia disse...

TÔ SHOCK! e se eu AMEI esse post? DEMAAAAAAAAAAIS <33
100% Mia hahahaha
ta de parabéns Mel!! :D

Giovana Turioni disse...

Esse post me fez reler os posts mais marcantes com a Mia. Como o primeiro beijo na porta do quarto. A primeira transa no sofá da casa da Mia. Alguns surtos de ciume... Ah, que post delicinha!

Anônimo disse...

Ain Mia, como você é linda.

Anônimo disse...

AMEI o toque da Mia! =)

Anônimo disse...

Esse é um daqueles posts que a gente terminha de ler com um sorriso ENORME no rosto A-ME-I..parabéns Melzita ;)

Di disse...

Cara, na boa, FODA!!
Essa Mia eh demais!



Esse é um daqueles posts que a gente terminha de ler com um sorriso ENORME no rosto A-ME-I..parabéns Melzita ;) +!

Anônimo disse...

Muitoooo fodaaa...

Como não se apaixonar pela MIA? Eu entendo a FM completamente poh....

E Mel...tô com a Pathy...DEIXA PEGAR FOGO +1!!! kkkkkk

E claro...parabéns... vc arrasou mais uma vez!!

(ANA CURI)

Anônimo disse...

se joga miaaaa... agora sim ela demostra q tem sangue nas veias...
adoooro a mia..to mais apaixonada ainda por ela...
;)
bjo mel tah d+

Babaloodeuva disse...

Gente ela é terrível mesmo, da até dó dessa moça ela maltrata ela, mas ela gosta né?

Anônimo disse...

Enfim.. Elas estão de volta.. Mia e FM.. Juntas! Maravilhosas! Gostosas! TDB.. Pega ela Mia... hehe

Anônimo disse...

Pensei que não dava pra amar mais ainda a Mia mas depois desse post...
TÔ MUITOOOO FELIZ!
Obrigada, Mel, deixou minha semana mais feliz ;)
bjo e GO MIA!!

Dea disse...

Mia e sua capacidade de não ter peso na consciência, ai ai...

mas o ápice do post foi a FM peladona no sofá, hahahaha! e o Fer ainda tirando uma com a cara dela! deu dó, de leve. mas foi incrível!

Anônimo disse...

fucking god. estou de cara, sem mais.

Bruna disse...

aaahhh... agora tá ficando boa a coisa! Isso aí Mia! Até q enfim! hehe...

Anônimo disse...

Eu gosto tanto do jeito que a F.M. usa "garota" para se referir à Mia e às suas meninas.