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outubro 11, 2012

O Ninho

Inclinei o corpo na direção da Mia, segurando-a pela cintura, num beijo rápido, inesperado. Sequer pensei. Em pé no hall de entrada do prédio por um instante, com sua boca na minha, a sua língua na minha. Mas ela logo se desvencilhou das minhas mãos, com o celular nas suas. E deu um passo para trás.

_Obrigada por “trazer”... – ela sorriu, bonita.

Comecei a rir.

_Você só pode estar brincando, né...

Encarei-a, achando graça, e a observei ir. Porra, garota... Ela sorria, satisfeita com o que ganhara; e eu era deixada como que de braços abanando despreparada para aquilo. Venho até aqui e você, você chega em mim deste jeito. Do nada. E eu, mano... isto é tudo o que eu ganho?! Ela me agradeceu, voltando lentamente de costas para o elevador, e arqueou a sobrancelha para mim. Eu ria.

_Te vejo esta semana, então? – comentei na sua direção e ela sorriu, dando de ombros; filha da puta.  

Me olhava, confiante. Eu achava graça na ceninha toda. Certo. E afinal, eu precisava mesmo voltar para o Fernando, que me esperava com o carro e as tralhas todas do lado de fora do prédio. Ri uma última vez na sua direção e fiz então um gesto com a cabeça, como indicasse que já estava indo; dei alguns passos para trás antes de me virar de vez. Ela não se despediu, apenas foi também, para o elevador, rindo. Gosto mais dessa nova Mia, pensei comigo mesma, me divertindo, antes de descer os degraus para o jardim da frente.  E mesmo a metros da calçada, pude ver a cara de desgosto do Fernando, esperando dentro do carro entulhado.

_Desculpa, demorei?
_Não, de boa... – respondeu, já baixando o freio de mão, assim que fechei a porta – ...só não quero chegar muito tarde lá, mano.

E não demoramos muito a atravessar até Santo Amaro, a cidade estava sem trânsito. Em quinze minutos chegamos. Mas não que isto tenha impedido, claro, que o pai do Fernando nos recepcionasse com um comentário desagradável logo de cara, indisposto. “Você disse que vinha na hora do almoço”, resmungou, “sua mãe ficou esperando”. O Fernando não respondeu nada, apenas bufando em silêncio do meu lado, conforme tirávamos as amarras do colchão, sem que o velho o ouvisse. O carro estava parado diretamente em frente à casa dos pais dele, numa rua calma do bairro. Descarregamos tudo em pouco menos de meia hora e as pilhas se acumularam do lado de dentro – era estranho estar de volta ao antigo quarto do Fer, anos depois do fim do colégio.

Ficamos parados, por alguns instantes, naquele cômodo vazio. Sem dizer nada. As caixas aglomeradas num canto, o sentimento de abandono permeando o resto do quarto. O Fernando coçou a parte de trás da cabeça, passando os dedos entre os fios raspados em máquina dois e com as tatuagens à mostra no braço. Estava visivelmente nervoso. Perguntei se queria ajuda para montar novamente a estrutura da cama e ele topou, como quem não tem nada melhor para ocupar a cabeça. Começamos a separar as vigas no chão, agachados. O clima se tornou progressivamente um lixo. Era triste – estar, estarmos ali. Depois de tanto tempo, de tudo que passamos. Olhei para cima, para ele; a montagem mal havia começado. Sentia a ressaca da madrugada anterior enfraquecer os meus braços, que encaixavam peça a peça consideravelmente pesada de madeira. Ele me ajudava, no lado oposto, com a expressão engasgada num humor sério. Apático. Nenhum de nós queria estar ali – e eu o queria de volta no apê.

Arrumamos a estrutura da cama, trazendo o colchão para o quarto, sem dizer uma palavra. E ao final, sentamos para fumar um do maço contra a parede do quarto. Esticamos as pernas no chão. Ele tirou o tênis, empurrando um pé noutro, e ficou apenas de meia. Ao meu lado, eu ao dele. As primeiras tragadas ocorreram em silêncio. Eu observava o rodapé e o piso escuro de madeira, aquele espaço que encolhera com os anos, nostálgica. Aquele era o quarto em que ouvíramos CDs de punk trasheira por toda a nossa adolescência e fumáramos maconha escondido tantas vezes, onde falei para ele pela primeira vez que curtia meninas. E ele murmurou, moleque, com as pernas cruzadas e a cabeça baixa, “pra valer?” – eu disse que não sabia, que não tinha pensado direito a respeito. Muitos anos antes. E agora, em outra realidade, com outras cabeças por completo, dividíamos um cigarro sem falar o que tanto ele, quanto eu, queríamos de fato dizer um para o outro.

_Vai ser estranho... – hesitei para começar, num sussurro relutante e incômodo – ...sem você lá, depois desse tempo todo.

Eu falava baixo, quase para dentro, e o Fer me ouvia sem desviar o rosto do chão. Nós dois éramos, provavelmente, as duas piores pessoas no mundo quando se tratava em expor os nossos sentimentos. Eu nunca dizia o quanto o amava, o quanto prezava pela nossa amizade. O quanto aqueles anos morando juntos me mudaram, o peso dele na minha vida pela última década ou mais. Mas você, porra, você é o meu filho-da-puta favorito. E não tê-lo mais por perto todos os dias, de repente, me deixava – logo eu, que nunca dei a mínima para sentimentalismos e que sempre me virei melhor sozinha – mais insegura do que eu era capaz de admitir naquele momento. Ainda assim, eu insisti e ele se tornou perceptivelmente inquieto com o assunto.

_Cara, eu vou sentir sua falta. Eu sei... que a gente andou brigando esses dias, que eu me afastei esses anos – relutei em dizer, sabendo que o motivo inconsciente para aquilo era a Mia; e a minha incapacidade de encará-lo desde que me envolvera –; mas... sei lá, eu... acho que não sei mais viver sem você no quarto do lado ou na rua debaixo, eu...
_Não – ele suspirou, desconfortável, se re-ajeitando contra a parede e tragou, soltando a fumaça sem me olhar – Não começa com essas bichices, mano. Eu... – lamentou, a muito contragosto – ...já tô na merda pra caralho com essa história toda, meu. Se logo você ainda for...  
_Fala, cê vai chorar, né – eu ri, mudando o clima abruptamente da conversa, e o empurrei com a lateral do corpo; não queria que ele se chateasse ainda mais.
_É, vai, vai brincando... – ele riu também.

Eu sabia que aqueles meses na casa dos pais, em especial o convívio com o velho, não eram fáceis para o Fer engolir, àquela altura. Orgulho e goela abaixo, na segunda metade dos seus vinte anos. E conforme eu me despedia dele na porta, a certeza de que aquilo não era tão mais fácil para mim se concretizou como há semanas eu vinha evitando sequer pensar. Um peso desgraçado, de repente, dentro de mim, a cada passo e uma vontade de não voltar para o apê pela primeira vez sem ele, vazio. O nosso apê. Passei as mãos no rosto e acendi outro cigarro. Desci até o ponto de ônibus, sentindo-me estranha, sozinha; maldição. Eram talvez sete, ou oito, da noite e o sábado estava apenas começando para todos os que esperavam ao meu lado no ponto. Senti uma vontade desesperada de estar com alguém. E não podia ligar para a Mia, é, num senso distorcido de respeito – e nem ainda para a Clara, pelo exato mesmo motivo. Então, digitei o único outro número que eu sabia que me confortaria. E ela atendeu.

_Meu... – suspirei, chateada.
_O que aconteceu, flor?! – ouvi a voz da Marina do outro lado.
_Dorme comigo hoje?

26 comentários:

Bruna disse...

Owwwnn... Tadinhos!
Separações indesejadas são foda! =/

Anônimo disse...

AAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH. QUE POST! Eu não sei se comento da Mia, do Fer ou da Marina. Meu deus. *-*

Anônimo disse...

"Dorme comigo hoje?". Mel quer me matar.

Camyla disse...

Ela ligou pra Marina *-*

Ai que triste a separação deles =/

Juliana Nadu disse...

aIII manoooo que dor!!! to com o olho cheio de lagrimas!! ='(

tava com saudade da Marina!

Desastres em Miniatura disse...

MARINAAAAA <3

Anônimo disse...

Adorei!..olha eu me atualizando no blog da Mel. Ok, ainda preciso entender pq o Fer saiu do apto.
By the way, sempre curti a Marina ;)


Déb disse...

Tava com saudade da Marina *-* Véi, na boa, que lindo isso *O*

Anônimo disse...

Só eu achei LINDA a cena dela contando pro Fer que curtia minas? Os dois adolescentes, amigos ♥

Anônimo disse...

Cara, quem ela chamo pra dormir ? pffffff né

Beatryz Almeida disse...

Marina.

Anônimo disse...

Mel arrasou...começou c Mia e aquela sensação de quero mais de gelar qlq estômago...passou pela agonia da despedida e termina com o gostinho de quero mais com a <3 Marina <3...
AIAIAI...de novo ansiosa pelo próximo...
(ANA CURI)

Pathy disse...

Eu sempre fico com um pé atrás quando a FM resolve falar com a Marina. #MedinhodeUmFlashBack :D

A Mia tá mto filha da puta, plmdds. u.u e os dois: Fer e FM é o casal mais lindo do mundo. :D

Anônimo disse...

Só eu achei LINDA a cena dela contando pro Fer que curtia minas? (2) foi demais !!!!

Ianca' disse...

Mariiiiiiiiiiiiiiiiiiiina *-*
A Marina nunca dormiu no apê, desde o começo do blog, sequer lembro dela lá ;s

Deu uma angústia com essa "separação" deles, deve ser tão doloroso. Maldito Fer, tão amável ¬¬

Anônimo disse...

Que triste. =(

Marina, claro.

Anônimo disse...

Eu necessito do post com a Marina, tem previsão?

Ketlen disse...

MARINA *-* Já tava com saudades dela <3

Anônimo disse...

eu jurava que ela ia pro ape da Mia! ou pelo menos ligar pra ela!!!!

Gabs disse...

Awwwn que post perfeito cara. *-*
Amizade linda demais. E ah, que saudade da Marina. []

c' disse...

Ah cara cara, um post desse abala as estruturas de qualquer um velho. Não aguento. "/

Aaaah , ah marina. Um post inteiro com ela please.
A marina super abala minhas estruturas tbm cara.

Anônimo disse...

Nossa acho q esse foi o melhor post q vc ja escreveu. Venho sempre aqui no fuckin mia e me surpreendo, mas este foi demais. Parabens mesmo Mel! Nao deve ser facil pra fm q sempre viveu com ele se separar do fer e eu nao tinha me dado conta ate ler este post, de quao dificil vai ser voltr pro ape sem ele. ma decada com ele sempre ali na rua ou no quarto do lado como ela disse eh muito! Imaginei ela conta pra ele q era gay. E de repente nao ter isto...A pessoa perde o chao, ela se tocou tarde demais disto. E a solucao com a marina, o recorrer a ela foi muito sensivel. Queria q tivesse sido com a mia, mas admto q nenhuma das duas opcoes (ela e a clara ) eram possiveis. Nossa post lindo Mel!

Parabens pelo trabalho de verdade!!

jamile disse...

gente adorei o post todo, tem mia, fer e marina =)))

Lorena Costa disse...

Nossa muito bom! Muito triste cara, e surpreendente o rumo que as coisas tao tomando...

@livia_skw disse...

Esse posto foi realmente foda. Conseguiu reunir uma variedade de sentimentos. A Mia sacana e toda saidinha, toda aquela nostalgia em volta da despedida do Fer (que cena linda, da FM contando pra ele que curtia meninas), e no fim, a FM se entregando, quebrando o muro, e admitindo que precisa de alguém e ligando pra Marina. Delirei bonito!

Mel, a cada dia que passa você me surpreende como escritora.

Anônimo disse...

Eu gosto tanto da Marina *-*