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fevereiro 01, 2013

Impressões

Os dias se passaram com rapidez nos arredores da Frei Caneca. Vi o Fer outras duas vezes e me desdobrei entre os meus usuais almoços com a Marina, além de uma ida não-programada à Society com o Gui e o meu novo companheiro de quarto, o Du – que se provava cada vez mais uma boa companhia. A mim, à toa conversando pelos cômodos do apartamento, e a uma classe realmente elegante de homens. Já a minha nova condição com relação à Mia implicava, no entanto, em uma estratégia melhor do que o normal gasto nas minhas relações – e relativo esforço mental para arquitetar todos os meus encontros. Pois ainda que eu não fosse o melhor exemplo de fidelidade às minhas namoradas – e àquela altura, todos os meus amigos já o pensavam da Clara, independente das minhas ressalvas resmungadas à mesa de um bar qualquer da Augusta – e ainda que eu tivesse “incidentes” recorrentes por demais na época da Marina, ou de outras depois dela; eu não era lá uma pessoa de levar adiante casos concomitantes. Casos – com C maicúsculo. A verdade é que aquele em particular eu não podia evitar.

Podia, minto. Sempre podemos. Agimos como uns imbecis quando atribuímos a culpa a inexistentes forças externas. Mas a real é que nós, que podemos, simplesmente não queremos. Quem, afinal, ia querer evitar a atenção que recebe, os corpos que deseja tão inegavelmente, em segredo? Talvez haja algo de errado na forma como nos relacionamos a priori, eu pensava, entre um cigarro e um passo adiante, a caminho do trabalho numa terça de manhã. O maço já pela metade e os tênis sujos, graças às poças da chuva na noite anterior. Não. O que não queremos é enganar quem amamos, é isto; é ter que ver uma garota machucada. Cacete, não bastasse toda a merda que aguentamos por ser mulher, lancei um olhar de reprovação – “seu babaca” – a um cara que mexia comigo na rua, naquele mesmo instante, atravessando a Joaquim Eugênio. Quem disser, todavia, que sente vontade genuína de se desapegar da personalidade dos outros, daquela intimidade boba que se revela lenta e deliciosamente com o passar do tempo, está errado.

E por mais que os últimos tempos não tivessem me dado qualquer impulso irracional de acionar os números aleatórios da minha lista telefônica; excluir a Mia também estava fora de questão – ou a Clara. Não. Eu gostava demais das duas para isto. Me sentia dependente do que construíra com a Clara e, ao mesmo tempo, completamente absorvida pela nova fase com a Mia. E sendo assim, claro, eu entrava naquela dança sem escrúpulos dos horários, dos telefonemas escondidos. Arrastando toda uma situação para não ter que encará-la, fingindo para mim mesma que não precisava resolver coisa alguma. Que eu ainda tinha uma semana. E outra mais. E os dias se passaram assim, contínuos e despercebidos, entre cansativas gravações na produtora e algumas fodas muito boas, com a Mia, com a Clara, de tirar o cérebro e toda a razão do lugar.

Até que a manhã da quinta-feira chegou. Mais ou menos duas semanas desde a ida com o Fer ao boteco do bilhar. Argh. Fui acordada aos pulos pela Clara, que dormira comigo no apartamento e agora se jogava empolgada sobre o meu corpo ainda sonolento. Uma perna de cada lado meu. Abri os olhos, um pouco irritada, e me deparei com as suas curvas completamente nuas mais ou menos sobre a altura do meu estômago. A Clara sorriu. E fiz uma careta, esfregando o rosto com o antebraço – como se não estivesse preparada para acordar ainda. Senti a sua mão me tirar o braço da cara e a olhei, ainda atordoada de sono e desorientada. Eu também não tinha qualquer vestígio de roupa sobre o meu corpo e percebia agora – com frio – que ela empurrara o lençol para adiante no pé da cama. Devolve, pensei, em manha. E ela me observou com carinho, indiferente a todo o meu desgosto magistralmente expresso naqueles poucos segundos de interação matinal.  

_Bom... – tirou de trás das costas um pedaço de papel dobrado ao meio, em uma das suas mãos – ...feliz aniversário!

Ergui parte do corpo, apoiando os cotovelos no colchão. Curiosa. E a Clara me entregou a folha de sulfite, curvando-se para me dar um beijo conforme eu pegava entre dois dedos. Eu tinha aversão a aniversários. Não como a maioria das pessoas têm – por ansiedade de não serem reconhecidos, amados; ou ter que confrontar todo o carinho que creem não merecer em uma única data. Não era este o meu problema. Eu só achava aniversários fundamentalmente idiotas. E tinha aversão a toda a interação social a que me via obrigada. Logo o meu celular começaria a tocar e eu teria que gastar cinco minutos do meu dia agradecendo parentes que eu não via há anos pelo simples fato de existir um dia a mais do que ontem. Ou então os bons votos infindáveis da minha mãe – que depois passaria o telefone para o meu pai e assim por diante. Detesto aniversários.

Não via motivo para comemorar – a não ser que fosse o dos outros, regado a muita tequila e desordem. Achava aquela toda uma cultura inútil, baseada ainda por cima em um calendário que sequer tem a ver conosco de forma biológica. Se formos pensar, não há nada de humano em aniversários, apenas social. E eu odiava a sociedade na maior parte do tempo. Mas lá estava a Clara, plantada sobre a minha pessoa, com um sorriso sincero nas expressões e aguardando a minha reação. Isto eu podia apreciar. Presentes. Presença. Era o que fazia sentido naquele circo. Sorri de volta para ela, achando certa graça na sua ansiedade, e abri o papel na expectativa de encontrar um cartão rabiscado naquela mesma manhã.  

_O que é isto? – perguntei, sem entender, vendo uma página impressa em inglês.
_Lê aí.

12 comentários:

Dea disse...

folha sulfite dobrada ao meio... me lembrou os presentes da Mia de verdade :) será que tem um desenho bem bonito desenhado também? tou curiosa!

Pathy disse...

Como pode alguém viver com tanta incógnita na cabeça. Gente, dá dó só de pensar nesse fuzuê todo em que ela se encontra.
E você dona Melissa, sempre parando os post's em horários impróprios. hehe

Clara me matando de amor, essa mulher é Diva. ♥

P.S.: TeamMia não me matem.. até pq eu consigo amar as duas igual a FM. Mentira, tô indecisa, mas vamo que vamo. SHUSHAUSHASUHUAHUHHAS

Anônimo disse...

[AAAAAA] a Clara linda como sempre <3 '
HAHAAA PARABÉNS FM S2 , quero só ver o que vai ter taaanto nesse niver hmmm ;9

#QUEROO MAAAIS D:

Anônimo disse...

"quem disser, todavia, que sente vontade genuína de se desapegar da personalidade dos outros, daquela intimidade boba que se revela deliciosamente com o passar do tempo, está errado."

não está errado, está mentindo!

obrigada por descrever meus atuais sentimentos. vou usar essas palavras.

foda!

Babaloodeuva disse...

Só a FM pra aguentar essa vida maluca, onde será que isso vai parar

Davi Oliveira disse...

Curiosa para saber o que o papel dizia :) mais um post espectacular
Parabéns FM

Juliana Nadu disse...

Uma viagem!?

Anônimo disse...

FM e os seus vários amores *_* Como suportar duas mulheres lindas e insaciáveis?! Post ótimo!

Ianca' disse...

Parabéns FM liiiiinda *-*
Po, o que tem escrito? Solta logo hoje rapaz...
E a FM mais canalha do que nunca é bem lindo, e viva a liberdade, porra. Deixa a mulher com as duas, traindo o amigo e em busca de uma terceira que poderia ser perfeitamente eu ^^

Anônimo disse...

Amei o post e tô bem de acordo c o coments da Ianca...
Como decidir entre duas coisas tãoooo delicinhas... Viva a liberdade!! kkkk
Parabéns FM!! E parabéns Mel por mais um post massa!!
(ANA CURI)

Bárbara Leão disse...

Esse post foi do mal!
Pra tirar todo meu foco dos meus trabalhos da universidade, no fds, pra ser torturada pra saber o q tem na porra do bilhete!
Adorei, só não to curtindo a loucura de ficar "traindo" a Clara com a Mia, mas isso é coisa de gente fiel a namorada mesmo! hehehehe...
Aguardando ansiosamente pelo próximo post.

Bruna disse...

Aiai... posts assim com "finais de começo" são tensos!