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fevereiro 25, 2013

Como te extraño Clara

Segurei o meu fôlego. Há vinte e sete horas que esperava por qualquer oportunidade que fosse para soltá-lo. Mas não deu: primeiro eram as malas e então o albergue e os documentos ou os meus pais, as pessoas ligando pelo aniversário, o banco, os extratos, o roaming para o celular, os cálculos, as mil anotações, os horários antecipados no trabalho, era tudo. Eram todas estas coisas e tempo nenhum para respirar, desde que ligara para a Mia na entrada do metrô Brigadeiro. Ela se redimira algumas horas depois. Li a sua mensagem – “me desculpa, é seu aniversário. ñ queria brigar, fiquei meio atravessada e ñ tenho mto oq dizer tb. foi idiota! me perdoa?” –, ainda acordada com a Clara na frente do computador tentando achar algum lugar para ficarmos em Buenos Aires. Entupidas de café, despidas pela metade – e a luz do quarto irritando os olhos.

Respondi sem criar caso. A verdade é que estava aliviada por não ir viajar com aquela discussão besta na garganta. Mas agora segurava o fôlego. O nosso vôo chegava ao fim, menos de um dia depois das mensagens de madrugada. O alto-falante avisou que o pouso seria em poucos minutos. Merda. O meu estômago se revirou. Eu estava consideravelmente bêbada – meti todo álcool em que consegui colocar as minhas mãos goela abaixo, sem levantar suspeita das aeromoças de que me excedia, durante as piores duas horas e meia da minha vida. E fingi com muito esforço para a Clara que não estava com medo. De estar a dez quilômetros do chão, no mínimo. Puta merda. Metade do meu orgulho se desmanchava no desespero de sair logo daquela aeronave, enquanto a outra metade se escondia em temor à maldita descida que não acabava nunca. Argh.

3... 2... A Clara fazia como se não percebesse, apenas segurando a minha mão e ocasionalmente rindo; o meu estômago se contorceu por completo nos últimos segundos antes de tocarmos o solo. Sequer dei-me conta de que chegava em outro país. Tudo o que queria era me enfiar em um meio confiável de transporte – digo, um meio conhecido. Saímos pelo corredor e observei as amplas vidraças do aeroporto, a noite tornava-se densa do lado de fora. Passamos reto pela esteira com as malas, ao redor da qual os turistas se acumulavam. Nossas mochilas foram conosco no avião – a Clara disse que economizaríamos tempo, tinha experiência em viagens assim. Eu a seguia, sem ideia do que fazer em seguida. Era um pouco estranho ouvir uma outra língua sendo pronunciada nos anúncios do saguão.

A Clara ia à frente, nos arranjando as passagens de ônibus para o centro. Outra viagem de quase uma hora. De lá, pegamos um táxi até a “Plaza Serrana”. Observei as ruas durante o percurso, admirada. Ainda não me ocorria o quão longe eu estava de São Paulo, apenas me parecia um lado realmente descolado do universo. Descemos já lá pelas onze, um ventinho leve batia no rosto; tínhamos as mochilas nas costas. Bem em frente a uma calçada cheia de mesas tomadas por copos. Estes por sua vez, estavam cercados por argentinos barulhentos num certo caos ordenado, vibrante. Era excitante. Só então comecei a sentir um formigamento nos sentidos, dava-me conta de onde estava – e com quem. A Clara me puxava para dentro de um boteco, estilo boêmio-alternativo, com as paredes sujas e garotas em seus vinte-e-poucos de cabelos presos sobre a cabeça, meio desarrumados. Chamava-se Cronico.

Meu deus, eu vou me apaixonar insanamente por esta cidade – eu logo soube.

Tomaríamos a nossa primeira dose sem nem ter visto coisa alguma de Buenos Aires. “Amanhã vamos ter tempo”, a Clara riu e nos pediu duas cervejas portenhas, direto no balcão. Eu ainda segurava o fôlego. Tudo o que saía da sua boca para os atendentes me confundia, rápido demais para que eu acompanhasse. Em uma pobre associação com o português, eu sei. Bebemos alguns copos em sequência. Ela falava animada sobre o bar, que costumava frequentar com os amigos da capital e alguns dos colegas dos anos de estudo. Era o seu favorito em Buenos Aires. As pessoas ao nosso redor pareciam mais interessantes do que as que eu via na Augusta, mais donas de si de alguma forma. Tinham ares de intelectuais ou de artistas incompreendidos, sabe, com uns cortes de cabelo muito ruins e pareciam ouvir coisas como Bonobo ou Asaf Avidan. Eram estranhamente bonitos.

A Clara fazia sentido ali. Entre eles. Isto notei logo nos primeiros minutos, sentada à mesa. Com os olhos admirados voltados para ela. A Argentina parecia me tornar mais comedida, mais observadora do que uma comentadora ativa. E em sua regata preta, sobreposta por um lenço com pequenas flores vinho, ao redor do seu pescoço, num fundo cinza de algodão, a Clara puxava assunto com um trio sentado na mesa ao lado. Dois caras e uma garota, os três na casa dos trinta. Riam de algo que tocava no ambiente. Parecia explicar em seguida que eu não falava espanhol, porque todos começaram a me olhar e sorrir, fazendo comentários curtos aos risos. Eu abaixei a cabeça, dando um gole na minha quarta Quilmes. Sem jeito. Um deles tentou falar qualquer coisa comigo, em ritmo bastante lento – e eu olhava para a Clara em busca de qualquer tradução, ajuda urgente. Por certo que em qualquer outro contexto, eu teria entendido perfeitamente o que ele me dizia (espanhol não é lá tão monstruoso!), mas estava intimidada. Frescura, esta, que eu perderia logo na manhã seguinte.

Ficamos até a uma. Uma e alguma-coisa. As pessoas nos convidaram para uma balada a algumas quadras dali e a Clara recusou, argumentando que acordaríamos cedo. Eu comentei que até iria – depois que eles já tinham saído, isto é –, mas que preferia ir conhecer o colchão do albergue com ela. Estava louca para levá-la para a cama. Nunca tinha comido ninguém fora do país – e aquilo me parecia relevante, algumas cervejas já mais embriagada. “Te ensino todas as sacanagens que sei dizer em espanhol”, a Clara ria e me sussurrava no ouvido, puxando-me pela jaqueta. Ainda sentadas no bar, as pernas trançadas em intimidade. Começávamos a nos alterar de verdade. E impressionava-me com a irrelevância que os argentinos davam a um casal de mulheres, me apaixonando pela nossa normalidade entre eles.

Como somos injustos, pensei sobre as piadas brasileiras. Pagamos com os pesos que a Clara trouxera; o meu dinheiro ainda estava por trocar, mas apenas no dia seguinte. Seguiríamos a pé para o albergue. Chegando na esquina, todavia, a Clara me puxou a mão e fez atravessar noutra direção. “Vem”, brincou, “quero te mostrar uma coisa”. O ar estava úmido. As ruas eram iluminadas com charme e preenchidas por fileiras de árvores, o que deixava o ambiente ainda mais fresco. A Clara se adiantou alguns passos, tive que correr para alcançá-la.

_Está louca? – abracei-a num apreço bêbado – Me larga aqui e eu não volto mais para casa, meu. Não sei pronunciar nem o nome da rua do hotel!

Ela riu, se desvencilhando. O lugar que íamos era um pouco mais adiante, disse, e parou em frente a outro bar parecido. Ergueu os braços abertos sobre a cabeça e gritou – “Aqui, olha!”. Comecei a rir  também e a reprimi, chamando de louca pela segunda vez, acabáramos de sair de um. “Por mais que eu adore encher a cara...”, achei graça, me aproximando de novo; não havia chance de eu trocar o corpo dela sendo descoberto lentamente pela minha boca, com a fome que eu... estava... e a ansiedade em cada um dos meus dedos... hum, me perdi por um segundo, em pensamento. Digo, quer dizer, voltando: trocar por mais algumas cervejas.

_Não – riu –, o nome do bar!
_Como t...
_Como te extraño Clara – ela pronunciou, conforme eu lia, virada para o letreiro.
_É o nome mesmo do bar?
_É – arqueou as sobrancelhas, acendendo um cigarro do maço que compramos na saída do aeroporto – Quer dizer: “como sinto sua falta, Clara”. Fiz uma das minhas festas de despedida aqui, na última semana do intercâmbio. Eu brinco que é o “meu” bar.
_Animal... – sorri para ela, achando certa graça na forma como ela me apresentava os cantos da cidade que já conhecia tão bem, desde pequena.

Deu dois passos na minha direção, oferecendo-me o cigarro aceso. E me olhou nos olhos com a desinibição que dominava tão magistralmente. Satisfeita por eu estar ali, com ela; e encarando de repente todas as más intenções que eu já não escondia mais atrás das pupilas.  Mergulhou na minha cabeça, nos meus pensamentos flutuantes. Quis beijá-la – como quis; mas me fascinava a forma como era capaz de olhar tão dentro de mim. Sorri então para ela, com as mãos já envolvidas na sua cintura. E murmurei:

_Quer dizer, que... – sentia uma vontade imensa de consumir os seus lábios, que me ouviam entreabertos – ...você nem foi ainda e eu já tenho que sentir a sua falta?
_”Ainda”? – riu.
_Nunca.

28 comentários:

Anônimo disse...

Aii amando buenos aires <3 intenso! elas tão lindas.

Anônimo disse...

Clara, Clara, Clara ...

Davi Oliveira disse...

aiiii adorei o post :)
fiquei fa da clara ehehe acho que ela e a FM fazem um belo par ehehe
Buenos Aires vai dar muito que falar com elas as duas ehehehe
parabens Mel, mais um post incrivel
continua, estou adorandoooo
beijos

Anônimo disse...

As vezes tenho a impressão de que a FM é tão nerd quando a Mel. Não sei se as observações detalhadas são de ponto de vista da protagonista, ou alta discrição da autora. Sendo uma coisa ou outra, eu adoro.

Anônimo disse...

Post tá muito gostoso de ler, Mia fofa se desculpando (team Mia!!), mas infelizmente Buenos Aires não é mais a mesma. A cidade eh linda e sempre foi uma delicia de se visitar. Mas varios amigos foram assaltados e roubados nas ruas, em Puerto Madero, no metrô. E algumas vezes com violencia. Uma pena.

@livia_skw disse...

A descrição (breve) da cidade é apaixonante! E aposto que esse bar existe de verdade, haha! Mel, você arrasa!

Amei essa vulnerabilidade da FM perante a Clara. Parece que ela realmente tá se permitindo viver algo grande com a Clara, apesar de amar a Mia...

Mais Argentina, por favor! ♥

Anônimo disse...

Coisa linda de ser ler! <33

( the girl fucking Mia ) disse...

Claro que existe! Os dois existem :) Google Street View tá aí pra isto, rs. Nunca fui pra Buenos Aires, não ainda.

Obrigada pelo comentário lindo!

francielli# disse...

Simplesmente lindoooooooooo .. Clara ta me ganha foi certo e a argentina ainda mais

Pathy disse...

Mel, a cada post contendo a Clara o meu amor por essa mulher aumenta. HAUAHAUAHUA
E arquear a sobrancelha é demais pra mim.. meu s2 dispara. ^^

(e acerveja Quilmes é muito boa, ganhei do meu cunhado, na verdade o meu pai ganhou só que ele deu um gole e não gostou e eu bebi o resto. u.u)

Bruna disse...

Mel arrasando na pesquisa e no post! ;)
Lindo lindo!

Di disse...

Não curti, pq não gosto da Clara. Hahaaha

TeamMia

Estou amadurecendo ir a B.A., mas minha iga disse q a cidade está um caos

Anônimo disse...

Lendo o post e arquitetando em mente uma viagem! Haha

"Nunca tinha comido ninguém fora do país"... é, bem FM isso!

Que venham mais aventuras em B.A!!!!!

Barbara Leão disse...

Aaaaaaaaaawnnn!!!!!
To amando!! Por favor, Mel, deixa essa viagem ser perfeita?!
Coloca ai q o celular da FM é da Tim e não funciona na Argentina, só p Mia não interferir!!!
Hehehehe
To achando muito lindo mesmo!
*________*

Erika disse...

"O ar estava úmido. As ruas eram iluminadas com charme e preenchidas por fileiras de árvores..."

É bem isso!!! =)

Estive em BUE ano passado e olhava pra tudo tão maravilhada qto a FM!

Adorei o post! Muito leve e gostoso!

Mais, mais, mais.. rs

Anônimo disse...

andei relendo a sequencia completa do aniversário da Mia... é a melhor parte do blog. A Clara é incrível, ela é... mas Mia fode tudo. exatamente como anda a minha vida. Esse blog é terapia.

Anônimo disse...

alias, uma obs, nao consigo comentar em posts antigos! é só cmg? o.O

Ketlen K disse...

Que post lindo do início ao fim! Pfvr, Clara <3

Flavs disse...

"Ainda?" "Nunca" awwwwwww :')

Ianca' disse...

"Nunca tinha comido ninguém fora do país" soou tão adolescente essa excitação repentina, achei uma gracinha hahahaha
Clara vai gabaritando, mas meu coração é da Mia. Desculpa.

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Patricia e suas taras.

Anônimo disse...

OMFG!! Tá gostosooo demais... tb amo a Mia... mas confesso q fico sorrindo de ver a FM boba assim!!

Rindo muito com o coments pedindo p o celular da FM ser da TIM!!

Mel obrigada por mais essa leitura tão delicinhaaa... vc sempre mandando muitooooo bem!! Vlw msm!!

E quero maissssssssssss!! Sempre!!
(ANA CURI)

Anônimo disse...

Alguém me leva pra Boi Nos Ares tbm, please! :P

Anônimo disse...

Delícia de post, MUITO bem escrito e tô viajando por buenos aires junto com elas!
Clara, so cute, mas...
Team Mia!
hahahaha

Babaloodeuva disse...

Lindo, to amando a FM romântica.

Anônimo disse...

Que apaixonante esse texto, amei a Clara um pouco mais.

Anônimo disse...

Simplesmente lindo e perfeito! Elas podiam ficar 30 dias na Argentina! uahuiahiuaa

Ari disse...

Nada mais perfeito que essa Clara. E eu, na minha vida, ainda escolho a Mia, a minha Mia. Ó decisão imbecil...

Juliana Nadu disse...

=O

Na moral!! Falaram que esse post era enorme!!

CADEEEE POHÃAAA!!!

EU QUERO MAIS!!!

NOSSA CARMEM... OPS QUERO DIZER CLARA TE QUIERO!! SHAUSHAUSHAUSHUA