Me afastei, andando pela calçada suja do Ana Rosa. Puta merda, olhei para o meu cigarro e o
vi quase rasgado, provavelmente amassado no meio do meu surto, agora pendendo
torto na minha boca. Tentei endireitá-lo, já quase alcançando a esquina
seguinte. Sabia que descontava na Isa uma frustração violenta – que, no fundo,
pouco tinha a ver com ela. É, eu sabia. O dia já tinha clareado o
suficiente e eu poderia muito bem pegar as quatro estações de metrô que me
separavam de casa, mas não tinha dinheiro suficiente.
Então, andei. Metro por metro de chão, um passo atrás do outro, me
sentindo um nada. Não pensei em porra
nenhuma, só andei. Até a porta do meu prédio. E aí, quando entrei em casa, quarenta
minutos depois, larguei as chaves sobre a mesa da cozinha e peguei um copo no
armário de cima. O enchi de água, numa sede do caralho. Então puxei uma cadeira
e tirei o celular do bolso, largando-o ali na mesa e me sentando meio de
qualquer jeito, afundada contra o encosto. Tomei a água em goles espaçados,
totalmente alcoolizada, exausta. E assim que terminei, fiquei parada olhando
para o copo vazio. A minha respiração estava pesada.
Merda.
Virei para o lado, apoiando os braços nas pernas e o rosto nas
mãos. Começou a me voltar, de repente, toda a cagada que eu tinha feito. E o ar
começou a me faltar. Senti um soco no estômago e os meus olhos doeram, inchados
com uma rapidez embriagada, já fora de mim. A minha garganta apertou. Comecei a
sentir um pânico que vinha de dentro, um desespero. Olhava à minha volta, o
apartamento, a pia, os armários, as cadeiras, o microondas, a geladeira, a
torneira, o chão, a mesa, a porra do copo vazio, as minhas chaves e a porta
para o corredor – e as coisas simplesmente não faziam sentido. Nada, porra, nada faz sentido nessa merda,
senti as lágrimas me subindo doídas pela garganta, mas não quis chorar.
Me virei de novo para a mesa e coloquei os cotovelos apoiados sobre
o tampo, segurando os olhos entre os dedos e relutando, com o rosto metido nas
mãos. Inferno. As minhas ações ultimamente
não faziam sentido, eu não fazia sentido. O que diabos eu tô fazendo?!, me torturei, perigosamente bêbada. Eu
não sabia como tudo havia chegado àquele ponto. Peguei o telefone meio de
qualquer jeito, em cima da mesa, num desespero impulsivo. E aí liguei para ela.
Não sei o que eu buscava, o que eu esperava ouvir – só sei que não conseguia
mais estar sozinha. E que motivo egoísta, não é, para enfiá-la à força na
minha vida, para trazer ela de volta, trazer ela para perto. Mas eu não
conseguia evitar. Sentia a minha cabeça prestes a explodir, completamente sem
rumo.
_Hmm...?!
A ouvi murmurar do outro lado da linha, sonolenta.
_Mia... – tentei falar e os meus olhos se encheram de lágrimas, me
doendo inteira – Mia, e-eu... – segurei as palavras na minha boca, angustiada,
e os segundos correram em silêncio, droga,
criei coragem e retomei – Mia...
_O que aconteceu?! – ela soou mais desperta, agora assustada.
_E-eu... – busquei fôlego, com dificuldade – ...e-eu não... eu não
sei... e-eu... – não conseguia empurrar palavra alguma para fora, numa angústia
horrível que me fechava a garganta, a apertando tanto que quase não deixava
passar o ar.
_Alô?! Alô??
Quis desligar, de repente. E senti me doer mais ainda – puta
que pariu. As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Tentava respirar fundo,
mas não conseguia. Meu peito se enchia de angústia, esmagado em si. Passei a
mão no rosto. Eu tô perdendo a razão, a noção, pensei, merda. Apertei os olhos, bem fechados, e enxuguei as lágrimas com pressa,
com raiva de mim mesma, as tirando dali. Mas elas tornavam a brotar.
_Você tá bem?? O que foi?!
_E-eu... – solucei, chorando
contra a minha vontade, sentindo uma tensão terrível tomar
conta de mim, sem entender como diabos aquilo estava acontecendo comigo, o
carro, a briga, a Mia, o apartamento, a porra do meu amigo, como eu tinha deixado
a minha vida chegar àquele ponto e o quão idiota eu podia ser, caralho – Eu... e-eu não devia ter te
ligado... desculpa.
Desliguei. E as lágrimas voltaram.