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abril 10, 2011

Re-consciência

_Ei... – ela sentou e me segurou pela mão, fazendo com que eu a olhasse, ao invés de me vestir – ...o que foi?!
_Nada – disse com naturalidade, me soltando dela, aí desvirei a camiseta e coloquei-a no corpo.
_Nada?
_Nada, porra...
_Então, é isso?!
_É – me sentei do lado oposto do banco, meio sem saco para aquilo, acendendo um cigarro.
_O que foi? – ela me encarava, insistente – só fala, meu, não tem problema... O que? Você não gosta? É isso? Não quer que eu...? Meu, eu não preciso fazer nada, tipo, “com você”. Eu posso só...
_Não é isso...

Meu deus, ainda tem gente que acredita em passivas e ativas?!, pensei, estranhando o rumo da conversa. Para mim, isso tinha morrido há anos, junto com o coelhinho da Páscoa e a fada do dente.

_Ah, não é?! – ela me provocou, irritada, ainda sem acreditar.
_Não... – eu achei graça, tragando.
_Bom, então me explica, né... – continuou, meio ofendida – ...porque eu achei que estava indo tudo bem!
_Mas estava...
_E?!
_E nada, porra. E, sei lá, eu... não tô afim.
_Assim, de repente?!
_É.

Abaixei manualmente a janela para deixar a fumaça sair. Aí olhei para a calçada e notei o dia já bem mais claro, com resquícios da sujeira partyhard da madrugada de sábado. Como eu gosto de São Paulo, meu, observei, me sentindo em casa.

_Cara, você tem sérios problemas... – ela reclamou, murmurando, e cruzou os braços sentada ao meu lado, bravinha.
_Pois é – me enchi dela, num impulso grosseiro, e troquei o cigarro de mão, puxando a trava da porta ao meu lado para sair.  
_O que você está fazendo?!
_Eu posso andar até em casa... – justifiquei, agressiva, e saí.
_Não, meu... espera! – ela se apressou em escorrer pelo banco, em direção à calçada, e veio atrás de mim – O que diabos você está fazendo?! Calma, mano, eu te levo...
_Não, eu não quero que você me leve – virei para falar com ela, já cansada de estar ali; aquele dia de merda havia se prolongado demais – vai pra casa, meu. De boa... a gente... a gente bebeu demais e... sei lá.
_Mas que merda deu em você?! Não... não vou. Não! Você acha que eu vou te largar aqui, mano? Entra no carro, vai, eu te levo até lá, não custa nada...
_Eu tô bem, é aqui do lado, meu. Sério, eu quero ficar sozinha.
_Ficar...? – aí ela se estressou comigo, de repente – “Ficar sozinha”?! – levou uma das mãos à testa, encarando o chão por um instante, e depois me olhou de novo, irritada – então, por que raios você me ligou, porra?!?
_Mano, não... – comecei a rir, sem querer.
_Meu, qual é o seu problema?? Hein?!? – ela me encarou, nervosa, e eu parei de achar graça, aquele chilique do nada começou a me incomodar – o seu plano era o quê?! Sério, me fala... Me enrolar a noite toda e fingir que ia me comer?! Hein?!? – aí revirei os olhos, com o cigarro metido na boca, com preguiça de começar aquela discussão – e pra quê?! Pra chegar no carro e fazer graça por vinte minutos?! É isso?!
_Meu, na boa... não começa, vai, loirinha...
_Ah! E você acha que é justo?! Comigo?? Acha mesmo?!
_Espera aí... “justo”?!
_É, caralho!
_Tá. Você quer justiça, então... – levantei a voz, enfadada – O que é que você quer? Quer que eu te coma?! É isso? É isso que você quer?? Hein?! Então, vem... – peguei-a pela mão e marchei, irritada, até o carro – vamos lá, entra... – abri a porta bruscamente.
_Não, eu não d...
_O que?! Quer romantismo agora, porra?! – bati a porta, de novo.
_Não! Eu só quero entender porque voc...
_Olha, na boa, você não quer entender... – resmunguei, sem paciência alguma, passando por ela na calçada; descontando nela uma frustração violenta e que, no fundo, pouco tinha a ver com a situação em si – ...o que você realmente quer, garota, eu não tenho.
_Ah! É isso, então?!? – ela gritou na minha direção – Você simplesmente vai sair andando??
_É – disse, sem me virar, e continuei me afastando.

Puta merda, olhei subitamente para o meu cigarro e o vi quase rasgado, provavelmente amassado no meio do meu surto com a porta do carro e o “fazer justiça” ao encontro, agora pendendo torto na minha boca. Tentei endireitá-lo, já quase alcançando a esquina seguinte. O dia já havia clareado o suficiente e eu poderia muito bem pegar as duas estações de metrô que me separavam de casa, mas não tinha dinheiro suficiente. Então, andei. Paulista afora, metro por metro de chão, sentindo um nada imenso por dentro. Não pensei, em porra nenhuma, só andei. E andei direto, até a porta do prédio.

Quando entrei em casa, a sala estava em silêncio absoluto, amanhecendo. Me dirigi para a cozinha, largando as chaves ao lado das caixas de sucrilhos sobre a mesa, e peguei um copo no armário de cima. Abri a porta da geladeira, logo em seguida, e o enchi de água. Sede do caralho. Puxei uma cadeira frente à mesa e tirei o celular do bolso, largando-o ali, aí me sentei meio de qualquer jeito, afundada contra o encosto. Tomei a água em goles grandes, totalmente alcoolizada. Assim que terminei, fiquei parada olhando para o copo vazio. A minha respiração estava pesada. Merda.

Virei-me para o lado, perpendicular à mesa, apoiando os braços nas pernas e o rosto nas mãos. Começou a me voltar, de repente, todo o dia anterior à cabeça. Os acontecimentos, todos eles, ao mesmo tempo e sem motivo. Aquela porra de apartamento, a briga, a Mia, a mensagem, o Fer, a Mia... a Mia, a Mia, a Mia... os meninos, o Vegas, a loira, a merda do meu jeito, da minha vida, a Lê, a balada, a Mia, aquela traição toda... a Mia, a Mia, porra... e o bar, a droga daquela Bia, a minha grosseria estúpida, a Mia... a Mia, a Mia... a Marina... o ar começou a me faltar, de repente; senti um soco no estômago. Os meus olhos doíam, inchados numa rapidez embriagada e fora de si, e a minha garganta apertava-se.

Comecei a sentir uma agonia que vinha de dentro; um desespero sem controle. Olhava à minha volta, o apartamento, a pia, os armários, as cadeiras, o microondas, a geladeira, a torneira, o chão, a mesa, a porra do copo vazio, as minhas chaves, a porta para o corredor, a sala, e as coisas simplesmente não faziam sentido. Nada, porra, nada mais faz sentido nessa merda, senti as lágrimas me subindo doídas pela garganta, mas não quis chorar.

Me virei de novo para a mesa e coloquei os cotovelos apoiados nela, segurando forte ambos os olhos entre os dedos, relutando, com o rosto metido nas mãos. Inferno, o meu pensamento voltou à tarde do dia anterior. As minhas ações não faziam sentido, nada, nenhum. O que eu tô fazendo, meu deus?!, eu me condenei, bêbada e ciente demais das minhas próprias merdas. Eu não sabia como tudo havia chegado àquele ponto.

Peguei o telefone meio de qualquer jeito, em cima da mesa, num desespero impulsivo, e aí disquei para ela. Sentia a minha cabeça prestes a explodir, a implodir, a se rasgar, doída, completamente sem rumo. Eu não sei o que eu buscava, o que eu esperava ouvir – acho, na verdade, que eu não queria nada. Não dela. Só que não conseguia mais estar sozinha; estar ali, de novo. E que motivo egoísta, não é, para enfiá-la novamente na droga da minha vida, para trazê-la à minha realidade; mas eu não conseguia evitar, não conseguia pensar.

_Hmm?! – ouvi-a do outro lado, sonolenta.
_Mia... – tentei falar e meus olhos começaram a se encher de lágrimas, me doendo inteira – Mia, eu... – parei, angustiada, e os segundos seguintes correram em silêncio, droga, retomei – Mia...
_O que aconteceu?! – ela soou mais desperta, assustada.
_Eu... – busquei fôlego, com dificuldade – ...eu não... eu não sei... eu... – não conseguia empurrar palavra alguma acima, uma angústia horrível me bloqueava a garganta, apertando-a a ponto de quase não deixar passar o ar.
_Alô?!

Quis desligar, de repente. Inferno. Senti me doer mais ainda; as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Puta que pariu. Tentei respirar fundo, mas não conseguia. Meu peito se enchia de angústia, apertado. Passei a mão no rosto. Eu estava perdendo a razão, merda. Apertei os olhos, bem fechados, e enxuguei as lágrimas com pressa, com raiva, tirando-as dali.

_Linda? O que foi?!
_Eu... – solucei contra a minha vontade, droga, sentindo uma tensão terrível tomar conta de mim, tentando entender na minha cabeça como, como diabos aquilo estava acontecendo comigo; a traição, a briga, ela, o apartamento, o meu amigo, como eu havia deixado a minha vida chegar àquele ponto; o quão idiota eu podia ser, caralho – ...eu... eu não devia ter te ligado... desculpa.

Então desliguei, do nada. E as lágrimas voltaram intensas.

28 comentários:

Carol Spenser disse...

mas como é bom acordar num domingo que teria tudo pra ser um tédio, e encontrar um post foda e intenso total aqui no blog <3

continue assim Mel *-*

Anônimo disse...

Mel, fez do meu domingo, mais feliz. <3
só pelo 'Linda' da Mia! HAHAHA

Ma disse...

Bichinha que quase chora junto com a FM.. PRESENTE! AHAHAHAHA

Acho que agora a Mia finalmente aparece de novo, né? :~
Aaaaaai, cadê a continuação disso, gente? Porque na minha cabeça a FM vai ficar sofrendo até o próximo post.. HAHAHAAHA TO COM DÓ! :'}

Amei! ;*

Anônimo disse...

Sério,melhor post ! parece que eu vivi cada palavra que vc escreveu aqui agora.

j.j. disse...

Acho q meu comentário não foi! MAs, ah!! Já me senti como ela tantas vezes... serio.

fazneime disse...

Como e bom entrar no PC logo "cedo" e ver um post tão perfeito e real da FM (L) Muita dó da FM tadinha '

Anônimo disse...

A FM ama demais ela... :/

Amanda disse...

Ah, pois eu não quase chorei junto com a FM de jeito nenhum, fiquei foi muito puta com a grosseria gratuita dela com a loirinha, a pobre não tinha nada a ver. Foi mó legal, fez tudo direitinho e a FM vai ser e começa a ser um boi com ela sem motivo nenhum, sacanagem.
E BLÉ BLÉ BLÉ pra Mia, não tenho mais 1 dedo de paciência pra ela.
Traz a Marina pra essa história que eu tô com saudade dessa linda que sempre é linda.

Marcos disse...

o mais curioso é a quantidade de coincidências q encontro nesse blog, parece q nossos domingos serão iguais, só espero que a FM tenha um futuro melhor q o meu =P

Dea disse...

vem pro colo da tia, FM... eu te compro um sorvete e a gente conversa, pode ser? :)

Sleepy disse...

Já andei com a rodinha do rato e não vi a continuação deste post! Quero maiiiiiiiiiis! :'-( buaaaaaaaaah

Amei
Continua assim

Anônimo disse...

HAHAHAHAHAHAHA Dea !

Anônimo disse...

Mel. Ta dificil nao implicar com Mia mesmo qdo longe... O nome dela apareceu no post e a TGFM chor\a?! Ta vendo? Mia esta na minha estante de pessoas duvidosas.
Post mega. amei.
sou fã
Ju T

Anônimo disse...

AAahhh q belo final de domingo ^^,

F.M trii fofa, super apaixonada e que bom q nao "comeu" a mina la û.û

jamile disse...

essa fm tá tão mudada, tão estranha. Ela era toda "me garanto" e agora ela tá sofrendo, nao acredito que a FM é humana :O hahahah brinks. tá foda mel, só traz a mia bonitinha e lesbica de volta s2

Anônimo disse...

Concordo TOTALMENTE com o comentário da Amanda.

Anônimo disse...

concordo com o comentário da Amanda tb, ela não precisava ser grossa com a loirinha daquele jeito a bichinha nem sabe da história coitada..de resto tá óoootimo!

Mikaylla disse...

Muito bom Mel. Adoro o modo como você mostra o lado podre e a capacidade de ser "escrotinha" (como ela foi com a pobre da loirinha) que a FM tem. Muito humano e realista. :)

Anônimo disse...

Só eu me amarro nesse jeito da FM?? Eu acho que ela é sincera com que ela sente, mesmo quando acaba sendo grossa e eu acho sexy meu. Fico louca!! Poucas meninas tem coragem de agir como querem, eu acho a atitude da FM foda pra caralho. Porque o contrário quando ela quer ficar com alguém acaba sendo tão intenso quanto. E adoro sua confusão interna, seus conflitos... esta demais Mel.

Bjs!

Monica disse...

nossa...


vergonha alheia por essa ligaçao...

tinha nada q ter ligado...

ques ridiculo rs

Pathy disse...

Mó filhadaPutice que a Fm fez com a Loirinha.. =/
e PORRA, pq diabos ela ligou pra Mia?! Eitah.. Deu Vontade de botar no coloooo.. :D

e pq Merda a Mia fala o "linda" isso me emputece.. hehehe

Resumindo.. não sei se amo ou odeio a mia! rsrsrsr

Anônimo disse...

Concordo plenamente com a anonima ai em cima que se amarra no jeito na FM !
Ela é o CÚMULO DO SEXY ! Sério, eu piro nela, além de não estar nem aí pra nada ela tem um timing fudido.Pra mim isso é SEXY PRA CARALHO !

Anônimo disse...

Odeio a Mia porque quero a FM para mim.

Anônimo disse...

Você quer que eu te coma então?!É isso?!Então vem !" Opaa, não pensaria 2 vezes hahaha

'duuda disse...

essa coisa de dar uma sumidinha daqui é boa porque tem uma porção de posts pra ler. mas e quando acaba hein? faço o que com a vontade insandecida de ler mais um? D:
tá demais, mel!
beijão

Rayssa disse...

ah eu adoro quando a devassa se fode e talz ou nao fode enfim
mas ah,nao gosto de gente chorando x_x

aaaaah me atualizei t1, gente como tinha coisa pra ler, enfim,nham nao qria falar q ta foda,fantastico e blabla,pq neah?fica repetitivo,mas tah incrivel como sempre,eeeee posta mais!

Anônimo disse...

Cara meu orgulho é muito fudido nem se tivesse pra morrer eu não ligava!... rs... Vergonha alheia²...kkkkkkk...chorava a noite inteirinha...mais não ligava...rs... a história está fodástica! Muito boa! Adoro esse blog! Você é ótima Mel!...
E ai... temos post novo à vista?...o povo quer ler!...kkkkkkk...Foi ser genial ...dá nisso...rsrsrs...
Bjo!...

Cota disse...

muito bom