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abril 16, 2011

Pena, vaidade e outros problemas da humanidade

Mais três minutos e o celular começou a tocar de novo. Eu assistia imóvel enquanto ele vibrava, barulhento, em cima da mesa. Aquela era a segunda vez que ela me ligava de volta. As minhas mãos, os meus braços permaneciam inalterados, cruzados um no outro, indiferentes – ou aparentando – ao som que saía alto do aparelho. Eu não suportava desmoronar: não na frente dos outros, menos ainda dela. Aquilo me machucava o ego de uma forma violenta.

Quantas vezes, porra, quantas malditas vezes eu não quis que você me chamasse?, os meus olhos inchados observavam o nome da Mia na tela. Progressivamente ficando na defensiva, merda. Como eu quis. Que você aparecesse no meio da madrugada, que me ligasse..., aquilo me doía por dentro, caralho, me esmagando em silêncio, ...que quisesse saber de mim, porra?

Ah, mas agora... Agora, meu bem, era diferente.

Ao final do toque, já com certo rancor, peguei o celular e tirei a notificação de chamada perdida da tela inicial. Deletei. Depois o coloquei mais uma vez na mesa, largando-o ali, num movimento pesado. Isso é ridículo, mano, argh. Todavia lá estava eu, bêbada como um gambá, às 7 da manhã de um domingo desgraçado que não acabava nunca, sentada sozinha numa cozinha vazia, encarando o celular parado na mesa apenas para ver se ele começava a tocar de novo.

E, de fato, começou. Poucos segundos depois. Ahh, sua filha-da-puta..., balancei a cabeça e me forcei mais ainda para trás na cadeira. Acompanhei, afundada, com os olhos e ouvidos embriagados, enquanto o toque crescia e a tela se acendia insistente. Nem uma palavra, encarava-o, você não disse nada, meu. E agora lá estava ela, de repente, pronta para me ouvir. Engraçado como o ego de merda das pessoas funciona..., os meus pensamentos ecoaram pelo cômodo amanhecido, transformando frustração em desprezo, ...como reagimos com indiferença, com distanciamento ao amor.

O seu nome seguia piscando e o toque aumentava. A verdade é que já desgastamos cada maldita letra dessas três palavras de merda. “Eu te amo”, hun..., apertei as sobrancelhas com desgosto. De tão supersaturado, de tão falado a esmo, não causa mais impacto algum. Nada. Nos seus olhos, na sua boca: nada. Mesmo que, o meu, não fosse a esmo. Ah, mas a dor... a dor, sim. Passei a mão no rosto, me forçando a sair daquela brisa. Parei com ela sobre a boca, inquieta, observando o celular tocar. O aperto no peito me voltou, de repente, incômodo. No fundo, é só isso que você quer. É o que todo mundo quer.

Evidência, caos, isto é.

A confusão na voz, as lágrimas, os segundos entalados na minha garganta. Isso, sim, te enche de curiosidade; te faz pegar a porra do telefone. Senti o meu coração acelerar, aos poucos, no meu peito. Com um rancor desgraçado. É uma prova, é isso; é algo concreto, gotas de água salgada através do telefone; é ter o óbvio escancarado e soluçado no seu ouvido, mais do que apenas dito ou mostrado, para você saber de fato o quanto afeta a vida dos outros... senão são só palavras, pensei, e de que vale a minha, não é?

Pois: não. Ela não ia me ouvir chorar. Nem mesmo ela, não, não; eu me segurava, com dificuldade. Principalmente ela. Eu não ia atender. Não. Já havia pisado e atropelado todo o meu orgulho nos meses que se antecederam àquela droga de pós-balada na minha cozinha vazia. Desta vez, não. Desta vez, eu ia olhá-la tentar e tentar. E não ia me mexer. Mesmo que me doesse – e como doía – olhar o nome da garota que eu amava, a que me meteu na merda onde eu me encontrava, a que me tirava a cabeça do sério há meses, me chamando assim, sucessivamente. Senti as lágrimas subindo pela minha garganta e me machucando por dentro, contidas. Eu já te disse tudo o que tinha para dizer, no elevador, encarei bêbada o celular vibrando.

Até que parou. E a ligação finalmente caiu – direto na minha lista de chamadas perdidas. Peguei novamente o aparelho em mãos e tirei a notificação pendente na tela. Devolvi-o à mesa, colocando-o com mágoa sobre a madeira. O excesso de tequila me impedia de medir os meus movimentos, o meu aparelho acabava apanhando desnecessariamente. Você deve estar se achando realmente importante, não é..., olhei com desprezo para o celular mais uma vez, sem conseguir tirar a Mia da minha cabeça.

E não o era? Não? Passei as mãos, com pesar, no rosto e apoiei os cotovelos na mesa. Deixei os meus olhos fechados por um instante, acobertados pelos meus dedos emparelhados. Ela é, porra, pensei. E eu sabia que era. Contudo, às vezes, parecia querer me forçar a acreditar no contrário. Por pura auto-defesa. Da forma mais grosseira, estúpida e nitidamente magoada possível, eu tentava provar que não. Que eu podia não atender, que eu não ia ligar a mínima. Mas aí eu, claro, me importava. Ou me deixava afetar, de uma forma monstruosa...  

Merda.

Eu odiava a minha involuntariedade de sentimentos ao redor dela, ao redor da mera idéia dela. “Ela”. Você. Encarei mais uma vez o celular, agora apagado e quieto sobre a mesa, e desliguei-o de vez. Chega. Já não suportava mais agir daquele jeito – amargo e infantil – com a garota que eu sempre quis; eu me sentia horrível. Por outro lado também, não estava em quaisquer condições de atendê-la; não desta vez. Cama... é isso que eu preciso, me levantei, prevendo a ressaca terrível que se seguiria naquela tarde. E aí cambaleei até o corredor.

_É você que tá fazendo esse barulho todo, caralho?! – vi o Fer parado, só de samba-canção e uma puta cara de sono, frente à porta aberta do seu quarto.
_Foi mal... – respondi de qualquer jeito e passei, com cara de poucos amigos, me dirigindo aos meus aposentos. Não tinha vontade alguma de confraternizar com ele, não mesmo, menos ainda depois da droga da briga no dia anterior.
_Porra, custa?! – ele reclamou comigo, igualmente sem saco para com a minha pessoa, nervoso – Desliga essa merda, né, caralho... a gente tá tentando dormir!
_Tá, tá! – fechei a porta do quarto.

Babaca. Andei até o armário, irritada, e tirei a camiseta que estava usando. Joguei-a lá dentro, arranquei os tênis e abaixei as calças, largando-as no chão. Aí escolhi uma blusa velha qualquer, alguma dos Strokes, e coloquei para dormir. Fechei a porta do armário, em seguida, me sentindo menos bêbada do que antes e mais tonta do que nunca. Então, me virei para ir para a cama. Mas espera, parei por um segundo, ainda em pé, “a gente” quem?

23 comentários:

( Gih ;p) disse...

Melissa, alem de jornalaista e escritora, você é pscicóloga... Cara, como você entende e transcreve o pensamento das pessoas?! Quando você fala do "eu te amo" e o que isso significa para a maioria hoje! MEU DEUS! Você é sublime!
Se eu pudesse, eu te beijaria de tão foda que você é! MEU DEUS!

Gravatinha disse...

Neeeemmmm gostei dessa sacanagem de acabar o post sem saber quem é que está no quarto!Hunf!
MAs tá perfeito o post, tenho que admitir!

AGora posta outro logo contando tudinhoooo!!!!

beeeeiijooooss

@lluanantunes disse...

Cara, "a gente" QUEM??? HAHAHA Fiquei curiosa ): Vai ter outro post né, Mel? Por favor! HAHA Ahhh, e parabéns por mais um post maravilhoso! Ta de parabéns pelo talento que tem!
Beijos :)

Ma disse...

Maaaaaaaaaaaaano.
Calmaê que ainda to absorvendo cada linha.. E to com a mesma pergunta do final na cabeça! Aaaaai puta merda! HAHAHAHAHA que agoniiiia! :s
Gente, e essa tripolaridade da FM? hahahaha aaaai pecado! :(
Ai, pelo menos ela tá acordando. D'uma forma terrííível, mas tá acordando!

Ameeeeeeeeei!
Parabééénss!
;**

Cadeee os 4341956473 comentários de todo mundo que disse estar demorandoooo? ahahahaha
Quero só verr.

Monica disse...

caraleo



tbm fikei com o "a gente" na cabeça


será possivel q a Mia voltou pro Fer soh pra fikr perto da FM de novo?

nao seria maiis facil fazer a coisa facil e ir ateh a FM?...

OH WAIT.. ela foi, encontrou o Fer, ficou sem desculpa e dormiiu com ele de novo?

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

minhas suposiçoes... sorry!

quero ver maiis...

bgs

j.j. disse...

Naum pode ser a mia!! ela tava ligando.. aposto que o fer foi curar dor de chifre kkkk

j.j. disse...

posta maissss!!

Sleepy disse...

Gambá?! Nunca vi um bêbado parecendo um gambá, não!!! Não ofendas o pobre do animal! :-P

Post Brutal!

Jokas

Cintia disse...

Nossa muito foda! Sério mesmo, agora tô super curiosa pra saber quem tava com o Fer. Droga tô muito curiosa. Mel você descreveu de tal forma cada cena meu, que consegui imaginar tudo em ricos detalhes, sério. Parabéns meu!

Anônimo disse...

VOU MORREEEEEEEEEER!

Não faz isso comigoo!



hahahahha

Está tudo perfeito minha linda Mel.

Glaucia disse...

Se eu pudesse eu te beijaria de tão foda que vc é... ²²²

Carol Carriel disse...

Aaaaaah mano que guria mauvadaa vc pow!

*-*

Raianny Duarte disse...

uau, nem consigo comentar..

jamile disse...

ameeeeei =)

Anônimo disse...

Ih Mel o povo quer te dar um beijinho hahaha..adorei o post e fiquei super curiosa como todo mundo, fez meu sábado..Obrigada!

Ianca' disse...

Se a mia tiver com ele, vou comer o cý dele cara ¬¬ e da mia tb porra'

Thais disse...

" A gente " quem????? QUEM?!?!?!?!

Ivett disse...

WHO? WHO? O.o

Pathy disse...

impossivel ser a Mia.. é IMPOSSIVEL ne mel???? hauhauhaha

Fodastica como sempreeee!! ;)

'duuda disse...

nossa, to nervosa! hahahaahha
mas se a mia tava ligando, não é ela né? .-.

beijooo!

Carol Spenser disse...

Eu me vi em cada palavra desse post. Descreveu exatamente uma situação que passei há um tempo. Genial, Mel.

E nossa, que post foda. E que ansiedade pra saber quem é que tá com o Fer D:

Anônimo disse...

Nossa! Se for a Mia, ela é muito escrotaa.



ps.: e esse titulo hein, Mel!? hahaha

Ludi disse...

Curiosidadeee ..mas se a Mia tava retornando a ligaçao da GFM ela nao deve estar ai com ele ..rs ..presumooo ..lalala