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janeiro 08, 2013

Os ratos de boteco

_Arrasa-corações – cantei no ouvido do Fer, antes de encaçapar a próxima ímpar.

Ele riu do comentário e me contrariou com a cabeça, besta. Cinco pares na mesa, apenas três ímpares. Nem cinco da tarde no relógio. Ele assistia eu me debruçar sobre o bilhar, escada abaixo num boteco da Augusta. Em negação. Dividíamos a mesa com um cara que acabáramos de conhecer e a sua amiga, devidamente hétero e encantada pelas histórias que o Fernando contava. Tinha lá o seu charme cafajeste, o Fer. Já o cara era franzino, completamente gay. Nem uma hora antes, esperavam ao lado da nossa mesa para revezar partidas e, em algum momento, umas duas rodadas mais cedo, os convidamos para se juntar a nós. Eu e o Fernando começávamos já a ficar bêbados, entrando naquele clima sociável da Augusta. Agora, os dois haviam ido buscar mais cerveja no bar e nós ficamos.

_Nada a ver, mano – o Fer cruzou os braços, achando graça nos meus comentários, e se curvou para checar as pernas da garota escada acima na fila.
_Caralho, vai por mim...
_Nem. Conheço mulher, cara, sei como funciona. Ela é destas que dá abertura o dia todo só pra ver se pesca uns elogios, aqui e ali, mas na real não quer nada. Tô te falando, meu...
_Ah! E eu não conheço? – encarei-o, rindo.
_Não f...
_Você vai querer discutir mulher comigo?! – interrompi, aumentando o tom de voz, e ele se divertiu, me ouvindo falar bêbada – Sério? Você vai me dizer como funciona a cabeça das minas?! Fer, na boa. Escuta o que eu tô falando, essa aí tá te querendo.
_Não está.
_Tá bom, então. Fica vendo...

Dei de ombros, com o taco ainda em mãos e afastei-me da mesa. Ele deu mais uma olhada nas pernas da garota escada acima. Usava um shorts curto jeans e uma destas sandálias rasteiras que trançam na canela, lembrava-me alguém com quem ficara não tão recentemente. Talvez a Patti, pensei, vendo-a descer agora com uma Itaipava nas mãos. Novinha. Tinha 19 ou 20 anos, começava Arquitetura e meia tatuagem no braço. O amigo era um tanto geek, tinha cabelos ruivos e voz afeminada. Ambos consideravelmente mais novos do que nós; o que causava com que eu e o Fernando, claro, nos exibíssemos compulsivamente. Tagarelando caso atrás de caso das merdas que já havíamos feito nas sarjetas da Frei e da Augusta, alcoolizados; enquanto acabávamos com eles sem o menor esforço na mesa de bilhar.

_Cadê?! – o ruivinho se espantou ao aproximar-se – Vocês acertaram mais uma?
_Três a cinco – disse.
_Puta merda.
_Mas, assim... Três mesmo ou vocês “encaçaparam” uma com a mão, enquanto a gente tava fora? – a menina argumentou, encarando o Fer com uma atitude esperta; ela era bonita e agia como se mais velha do que realmente era.
_Três, porra... vou mentir? – ele confirmou, rindo.
_Acho melhor a gente mudar as regras...
_É. Troca aí esta aposta! – o amigo concordou com ela, oferecendo a garrafa.

O combinado era que os perdedores bancariam a cerveja da rodada seguinte. O que me economizou uma grana desde que os convidamos para jogar – logicamente. “Aposta é aposta”, retruquei e mandei que dessem sequência sem reclamar, pegando a garrafa. Era bom – até então eu é que estava desembolsando todas as loiras que eu ou o Fer pedíamos. Por insistência estúpida minha, óbvio, em homenagem à visita dele naquele sábado, agindo meio exageradamente como se não nos víssemos há meses. Uma semana para quem viveu junto a adolescência e os últimos anos todos, num apê daquele tamanho, cara, porra! É muito, eu me convencia, toda emocional depois de uns copos americanos de cerveja barata. As marcas redondas se acumulavam na lateral do bilhar.

Tive impressão que aquela semana durara uma eternidade, cheia de idas-surpresa da Mia e idas-e-vindas com a Clara. Não chegava sábado nunca, ao que pareceu. Virei mais um copo gelado, num só gole. E o Fernando matou mais duas na mesa, seguindo uma jogada nula deles. O garoto se revoltou e entregou o taco para ele, irritado, como se desistisse. Numa ceninha, todo dramático. Comecei a rir do outro lado do bilhar. A morena de shorts havia se sentado próxima ao Fer, que estava encostado contra a parede. Segurando os dois tacos, ele ergueu o queixo pro outro, o que abdicava, e disse com bom humor:

_Deixa de ser bicha, cara. Joga aí!
_Pra quê?! Cês já ganharam! – deu com as mãos no ar, de um lado pro outro.
_E daí, porra?!
_E daí que, que, sei lá. E, e que você tem contra bicha? – fingiu estar ofendido, já sem argumentos.
_Nada. Moro com uma aí, ó – o Fer me apontou, rindo.
_Morava.
_É. Morava.
_Nossa, mas até você?! – a garota me olhou, assustada – Caralho, meu, não existe mais hétero na Augusta!

Nunca existiu, pensei comigo mesma.

_Na Augusta?! Mano, nunca existiu... – o Fer comentou, então, do lado dela e achei graça na nossa sintonia – Por isso não é uma merda que nem o resto de São Paulo.
_Vamos dominar o mundo... – comentei, cogitando ir até o lado de fora para fumar, na seca.
_É. Talvez mesmo.
_Tô vendo que vai sobrar pra gente, hein, repovoar a Terra... – ela brincou, cutucando o Fernando, e ele ficou imediatamente sem graça, erguendo os olhos na minha direção atrás de ajuda, enquanto eu me divertia.

Vai, eu ri, quem é que estava certa agora.

_Não, meu – ele respondeu e riu, disfarçando o nervosismo –; acho que a minha namorada não ia gostar, não.

E a garota então cochichou algo em seu ouvido, colocando uma das mãos sobre a sua perna. O Fernando pareceu ouvir, calmo, como quem não tem nada a perder, mas logo balançou a cabeça para ela e sorriu, encarecidamente declinando. Não escutei o que era. E nem me importava, virando no instante seguinte para ir fumar do lado de fora. Sabia que ele, apesar do incidente anos antes com a ex, até que era honesto. Ao contrário de mim, concluí. E saí na calçada abafada da Augusta, acendendo um cigarro, um dos últimos do maço. Conforme soltei a fumaça, checando o celular, dei-me conta de uma mensagem que chegara alguns minutos antes. Era da Mia. “Vai estar sozinha hj?”, ela perguntou, num SMS. E eu guardei o celular de volta no bolso, tornando a me concentrar no cigarro.

10 comentários:

Aléxia Carneiro disse...

"Vai estar sozinha hj?" "Não, to com seu boy gata"

Anônimo disse...

ihhhhhhhhhhhh......

Ianca' disse...

Sacanagem terminar aí, viu?
O Fer é todo fofo, mas acho que não vai dar em nada pq no fim ele vai dormir no apê, não? A FM podia colar lá no apê da Mia, mas como sempre vai rolar uma dificuldade. Ou eu sou besta e faço tudo que me pedem, enfim hahahaha

Anônimo disse...

To sentindo que é o snooker da peixoto gomide huashushuahsua
Ai que clima gostoso no post, ainda mais com as intensões da Mia

Anônimo disse...

ADOROOOO a FM e o Fer juntos... ele é um cara maneiro...
Mas qdo lembro da Mia só penso oq ela tá esperando p meter o pé na bunda dele e correr p FM!! A FM num vale nada mas é a FM né..kkkkk
Post delicioso.... Vlw Mel!!
(ANA CURI)

Anônimo disse...

Mia correndo atrás é amor <3

Anônimo disse...

Com certeza, Mia correndo atrás é amor ou ela tá muito nifomaníaca rsrsrs Mas pra não querer passar a noite com o Fer e discutir com ele e no dia seguinte querer ficar com a FM deve ser muito amor! E certeza que é o Snooker da Peixoto Gomide RSRSRS A Mina que tava afim do Fer se surpreender por a FM ser lésbica, quer dizer que ela não dá na pinta? Como assim? Imagino a FM muito com ares de sapatão mano, não aquelas lenhadoras, mas do jeito que você olha e já saca a preferencia sabe? rsrsr Enfim, louca para o próximo, sacanagem parar aí Mel. Tá uma delicia, mais delicia de se ler *----*

Dea disse...

Mia Clara Mia Clara Mia Mia Mia Clara Clara Clara Mia Clara... OH GOD! que difícil é essa vida, pai amado. tou sentindo que esse aniversário vai ser incrível! tipo o seu aniversário... mas o de 24 ;)

Juliana Nadu disse...

Quando eu digo que amo o Fer...

MELHOR COMENTÁRIO QUE UM AMIGO PODE FAZER: "Na Augusta?! Mano, nunca existiu..." "Por isso não é uma merda que nem o resto de São Paulo"

Só tenho uma coisa a dizer: AMO O FER ♥

Anônimo disse...

Ja fui como a FM, e hoje estou sofrendo por uma Mia do outro lado do mundo! fodaaa.... pensando em voltar como era antes *-* pelo menos ela esta feliz de alguma forma né :/