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janeiro 03, 2013

Luto breve

O movimento no quarto me acordou na manhã seguinte. A Clara levantara para trabalhar e a luminosidade machucava os meus olhos, entreabertos. Estava de ressaca. Escondi o rosto nos lençóis. E afundei inconsciente no cheiro que ela deixara. She sought death on a queen-sized bed. Escutava-a mover-se pelo cômodo, atravessando o piso de madeira, com calma e não tão distante de onde eu estava na cama. Os meus dedos deslizavam mornos pelo tecido frio em fluidez. Estiquei o braço por debaixo dos lençóis, até alcançar as suas pernas descobertas na beirada do colchão.

E toquei a parte de trás da sua coxa, estava a poucos centímetros da cama. O meu carinho por aquela garota matava um pedaço de mim, ainda que pequeno. Me desviava de quem eu era. E quem era mesmo? Observava-a sob os lençóis, admirada – mas em seus encaixes irreais comigo, eu não conseguia evitá-la. Sentia-me impelida a não machucar a Clara como fizera com outras. Ela era de alguma forma diferente. Estendi-me sob os lençóis e beijei a sua perna, logo atrás do joelho. E subi aos poucos pela sua pele macia. Touch me, yeah. Ela arrumava a chave e os documentos sobre a cômoda, ainda sem roupas. Procrastinava para sair. Make me feel like I am breathing, feel like I am human. Os meus lábios subiram pela linha da sua calcinha. E murmurei, desassossegada:

_Volta pra cama... – a sua mão afundou em meu cabelo e acariciei o rosto em sua cintura – ...vem, meu.
_Tenho que sair em quinze minutos, Bo...
_Você já foi na semana passada, porra – argumentei –, ninguém pode ir hoje pra você?

Ela sorriu, se deixando envolver pelos meus braços sôfregos. Ajoelhei na cama, ia perdendo o lençol conforme subia pelo seu corpo. E me esticava contra o dela. A minha boca engolia cada um dos seus meridianos, dos seus trópicos em curvas. Em linhas geográficas imaginárias. E eu navegava então pela fraqueza que ela ainda sentia por mim, pelos meus erros, e não a deixava ir. Fica, supliquei, injusta. E apesar dos meus esforços, recompensados com um orgasmo e quarenta minutos de atraso, ela não ficou. E eu também tive que ir, é claro. Sentada no metrô como se tivesse deixado o meu quarto há dias, numa viagem curta até a estação Consolação.

Desci a Frei Caneca num estranho stand by. Ao passo em que me aproximei do meu quarteirão, no entanto, avistei um rosto conhecido do outro lado da rua e não consegui evitar um sorriso. Sentado em frente ao prédio, fumando um cigarro, estava o traste do Fer. Com as tatuagens à mostra e aqueles ares de cachorro imprestável. Puxei-o pela mão e nos abraçamos forte, cumprimentando-nos. Fiquei feliz. Feliz de verdade, de vê-lo ali, mesmo que apenas dias tivessem se passado. Filho da mãe, que saudade. Ele me ofereceu um trago antes de jogar a bituca fora e aceitei, ainda sorrindo, meio boba. Pegou então a mochila no chão, encostada contra a grade do prédio. E apaguei o resto do cigarro num poste, soltando a fumaça e arremessando o resto na sarjeta, mais adiante.

_Vamos subir? – ele colocou uma das alças da mochila, rindo – Quero ver aí a cara do panaca que tá morando contigo.

“Fica quieto, vai”, fitei-o, avisando para que se comportasse lá dentro. E pegamos o elevador. Besta. Abri a porta do apartamento com a minha chave, indo adiante do Fer, e ele largou a mochila de qualquer jeito na sala, ao lado da entrada. Seguimos até a cozinha, onde parecia haver certa movimentação, e encontramos os garotos ali. Sentado sobre a mesa da cozinha, o Du dividia um baseado com o convidado da noite anterior, o a la The Week, ambos sem camisa. Apresentei o Fernando para ele e cumprimentou o Du com um breve aperto de mão. “Este é o meu amigo que morava aqui e este é o Du. E você, sei lá, não sei quem você é”, eu disse. O acompanhante riu e me informou um nome qualquer, que eu esqueci nos primeiros três segundos. Tirei o Fernando dali antes que fizesse algum comentário idiota e nos sentamos no sofá da sala.

_E aí, que cê tá fazendo por aqui? – perguntei, enquanto descalçava os tênis.
_Vim numa entrevista na Haddock. O velho que arranjou pra mim, é a empresa de um amigo.
_Hum... E é legal? Parece que vai rolar?
_Que nada. Puta tédio, um bando de engravatado. Mesma merda. Mas paga, né. Sei lá, vamos ver... – riu, apoiando contra o encosto – E você, onde tava agora de manhã?
_Ah, dormi na Clá. A gente foi numa festa em Pinheiros ontem.
_Boa?

Ô, arqueei as sobrancelhas, sendo irônica.

_Quê?! Tava zoado?
_Não, a festa foi boa. Eu é... que fiz merda.
_Lógico – deu um tapa na parte de trás da minha cabeça, achando graça – Fala aí.
_Ah. Não foi uma merda tão grande – murmurei, sem muito orgulho do feito – Eu só meio que, tipo... dei em cima de outra mina na frente da Clara. E ela, óbvio, não gostou muito.
_”Não gostou muito”? – ele riu.
_É. A gente tinha bebido pra caralho também, meu, e eu ainda cheirei. Foi uma bosta. Ela quis brigar na saída, aí acabei discutindo de volta. Depois fui atrás dela... Na boa, puta rolo. Não sei de onde eu tiro tanta merda pra jogar nos outros, cara. Rolou maior drama. Ela não queria me deixar subir no prédio, fiquei lá embaixo implorando...
_Ah, podia ter sido pior...
_É – ri também, me conhecendo.  
_E fora isto, tudo bem?
_Normal. Sei lá. Saudades de você aí no apê, meu. E você ainda fica me mandando mensagem bicha, porra! Nem ia falar com a mina lá ontem, não fosse você aparecendo do nada de madrugada.
_Ah, é. Foi “culpa minha”, sim, aham – ele riu ainda mais, passando a mão na nuca –. Pô, mas é foda, mano. Tive puta noite de merda ontem com a Mia também. Cheguei em casa louco pra falar com você, meu. É muito estranho morar com os velhos de novo, parece que tô morando com duas paredes.
_Mas, espera... Noite de merda, por quê?

Talvez porque eu tenha comido ela. Duas horas antes.

_Ah, sei lá. Ela começou com aquelas paradas de novo! Tá fresca, acha tudo o que eu faço ruim, não sei explicar – talvez eu saiba... –. Ficou implicando com cada coisa que saía da minha boca, manja? Não queria ir dormir lá em casa... sei lá, mano.

É. Fiquei quieta. O desinteresse da Mia pelo Fernando, numa filha da putice involuntária e sem tamanho, cutucava cada uma das minhas palavras para a Clara na madrugada anterior. E me contradizia, colocando-me de novo para boiar numa piscina de incertezas. Ótimo. Quão errado é pensar isto agora, olhei para a cara do Fer e não disse nada, alcançando o meu maço na mesa.

_Mas, e aí? – ele se reajeitou no sofá, ao meu lado, mudando de assunto – E o aniversário, já sabe o que vai fazer?
_Não... – abaixei a cabeça, constrangida, pegando um dos cigarros.
_Ah, pode parar. Se você não fizer nada este ano, eu que vou fazer e você não vai poder dar um piu. Te obrigo a ir, mano. Sem chance! Cê nunca faz nada, porra.
_Por um motivo...
_Ou motivo nenhum.
_Por um bom motivo – desafiei-o, insistindo, e ele riu – Com a minha lista de amigos, não dá pra convidar todo mundo e não dar merda. Simplesmente.
_Ou amigas, né...
_Besta.
_Qual é! Cê vai fazer vinte e cinco, cacete!
_E daí? Aniversários são idiotas, mano.
_Cara, você não tem escolha... – ele riu e eu sabia, a partir daí, que estaria ferrada.

24 comentários:

Jessica Castro. disse...

Ai, por favor, Fer, para de ser lindo. Acho os dois tão lindos juntos. Por mais que a FM fique de sacanagem com a Mia. haha

Anônimo disse...

Aniversário da FM? :DDD
Qual será o presente que a Mia vai dar hein? hahhahahahha ♥

Anônimo disse...

quero mais.... Por favor ne *-*

Anônimo disse...

Acho lind esses dois, pfvr

Pathy disse...

Já tava toda boba com o lance da Clara e FM.. AÍ vem o Fer e manda essa. aiaiaiaia Melissa ¬¬

Reêh disse...

O Fê é tão gente boa que as vezes eu fico brava com a FM, mas daí me lembro do quanto a Mia é gata e me esqueço do Fê! Hahahaga

Anônimo disse...

OMFG!! Mais um post q me deixa desesperada pelo próximo!
O Fer é msm um lindo... Mais lindo q isso só a Mia deixando claro como a FM mexe c ela....
Obg Mel! Arrasou de novo...
(ANA CURI)

Anônimo disse...

" engolia cada um dos seus meridianos, dos seus trópicos em curvas" MORRI
Texto com sequencia de figuras de linguagem top! Sutileza incrivel, Mel! Adorei

Anônimo disse...

Mel só uma.pergunta, quem é gui? Nao era du o nome do menino que morava com ela?
Me perdi.

( the girl fucking Mia ) disse...

Du! Du! Oh, meu deus, o Gui é o amigo do Du que o apresentou à F.M. hahaha Escrevi com sono ontem e, enfim, foi mal. Obrigada por avisar :)

ps. Uma vez troquei o Gui com o Gabriel, outro amigo da F.M., mas este percebi sozinha. Acho que é o nome, hahahaha. ¬¬

francielli# disse...

baita post.. seus meridianos seus tropicos uiii.. oh piscinas de incertezas foi o melhor .. e que piscinas de incertezas hein...

Anônimo disse...

Se pensar a fm até q tem razão, foi meio culpa do fer... a menina soh falou com ela pq ele mandou msg e ela ficou bicha sorrindo!! kkkk

Anônimo disse...

Meeeu quando sai o próximo? Preciso ler agora, agora, agora! Tá ficando ótimo isso mano HSIUAHSUAH

Juliana Nadu disse...

Só tenho uma coisa a dizer:

AmO o Fer!

Bruna disse...

Fer super brother... Clara linda... Mia foda... FM no meio de tudo... tenso!

Aléxia Carneiro disse...

primeiro post de 2013::::;; LINDOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!

Anônimo disse...

Só a Mia pode chamar o Fernando de "Fê". Isso é pra alguma menina aí de cimaç

Anônimo disse...

Estação da consolação s2

Ianca' disse...

Sai Clara, sai daiiiiii!
Fer fofo <3
E esse niver? O que será? O que vai rolar? Aí sim, ansiedade demais!

Gabs disse...

A-D-O-R-E-I. Apenas.

c' disse...

Hahahahhaa, acontece nas melhores familia autora. O sono confunde a gente.
É qe no final a minha cabeça que ficou confusa. Mas agora está esclarecido.
A proposito, o post fico lindo.
O fer nunca cansa de ser um amigo foda nao?
Adorei muito.

Anônimo disse...

As vezes eu esqueço pq não gosto do Fer, dai lembro da Mia. Ahhhh a Mia aiaia.
Muito bom, ansiosa pelo proximo

Anônimo disse...

Ih , fica de boinha anonimo ai de "cima" , cada um chama de que quiser ue ;D elâia !

Anônimo disse...

Sim, sim, sim, Mia. Isso. Pensa na Mia. Mia, sim, Mia.