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janeiro 24, 2013

Of all the strangers

Foram os dois minutos que eu precisava. Junto a todos aqueles outros, soltos pela cama. Sem ela e com tudo mais que me cercava, em pensamento – bêbada. Eu só queria você, me..., começava cada frase dela. Em tom sussurrado, as palavras desmedidas. De alguma forma a voz da Mia tinha um efeito insidioso em mim. Perdia o fôlego. Os seus lábios, o seu corpo todo pareciam contornar as letras que saíam da sua boca. Por que você, de todas as garotas? Eu me perguntava, agora ofegante, com o rosto amassado contra o travesseiro e sozinha, tendo terminado a que se dava aquela ligação. Nós ficamos em silêncio. Ouvia-a respirar do outro lado da linha e o meu corpo ainda pulsava, inebriado e cansado. Recuperava o fôlego, a sanidade.

Sorri. Por um breve momento, achando graça. Hmm. Logo, porém, o escuro do quarto impregnou. E senti os meus braços e pernas afundar no colchão – tomada por uma densidade alcóolica, de endorfina. O telefone ainda no ouvido. A presença sóbria da Mia do outro lado. E não sei por que porra não desliguei. Aqueles. Aqueles segundos que se seguiam eram quando ficava perigoso. Pois era quando nos dávamos conta de que ela, ela estava lá; e eu não. Eram os segundos comuns designados para qualquer carinho depois de um orgasmo extasiante, de uma puta foda. E quando, inevitavelmente, nos sentíamos sozinhos.

_Não é – a minha boca soltou, sem reconsiderar – suficiente.
_O que?!

A voz da Mia pareceu se assustar, como se não tivesse ouvido.

_Eu...

Pausei então. A minha linha de pensamento se engasgava em si, bêbada. E suspirei, afundando o rosto no travesseiro. Merda. Deixei o celular de lado por um instante – a parte sã que me restava sabia que eu não queria ter aquela conversa. Não conseguia, todavia, evitar me sentir confusa. Parada, ali. A minha cabeça rodando, o formigamento silencioso nas extremidades. As minhas veias ainda latejavam. Por que quando se está sozinha, em plena madrugada, com a garota que amou por tanto tempo no telefone, algumas coisas simplesmente parecem fazer sentido? Ainda que não o façam no resto do dia. Temos a ilusão de que as nossas palavras não vão soar tão sérias. Nem “tão ruins assim”. E as falamos conscientemente.

Retomei o celular e as murmurei:

_Você deveria estar aqui, Mia.

Os meus pulmões sentiam o peso da bebida. Havia seriedade na minha voz. E ela não respondeu de imediato, apenas suspirando, pesado. Imaginei se sorria do outro lado, surpreendida com as minhas palavras; ou se tinha os olhos apertados em lassidão, o coração complicado. Me escuta, garota. Eu te queria aqui, eu. Você. Pela primeira vez em muito tempo eu me permitia pensar tão apaixonadamente dela – ainda que embriagada até os ossos. E queria o seu cheiro ao meu lado. O toque das suas pernas, o colchão afundado no centímetro seguinte do meu corpo. Não pensava em mais ninguém. Não ainda.

_Eu também queria estar aí – ela respondeu então, com a voz fraca; e eu soube imediatamente que os seus olhos estavam fechados – Vamos, vamos ver se a gente se encontra esta semana, tá?

Acordei, “uh-hum”. E não sei quanto tempo se passou naquele quarto vazio, depois que desligamos, até que eu conseguisse fechar os meus olhos. Acordei na tarde seguinte com o sol atravessando a janela aberta, direto na minha cara agora já queimando de tão quente. A primeira coisa que avistei foi o cinzeiro sobre a mesinha de cabeceira, as bitucas apagadas pela metade na ansiedade da noite anterior. Levantei com certa dificuldade – a cabeça e o meu corpo doíam, como uma maquinaria enferrujada. Argh. Meti qualquer calcinha nas pernas e me dirigi, descabelada, até a cozinha. O Fer estava sentado frente à mesa, sem camisa.

_Bom dia, ressaca – ele disse e riu, ao me ver.
_Bom dia.
_Ô, não sabia se você ou o maluco tinham comprado – ele disse, comendo uma tigela de sucrilhos com leite –, mas peguei. Tem problema?
_Não. De boa. Acho que o Du nem comprou nada ainda, ele só fuma o dia inteiro.
_Isto... não faz sentido.

O Fer ponderou e eu ri, concordando. “É. Não mesmo”. Me juntei a ele, puxando uma cadeira. E comemos o café-da-manhã, conversando como se ainda morássemos juntos. O Fernando fazia sentido naquela cozinha, mais do que qualquer outra coisa. E por mais estranho que fosse, não me sentia mal quanto à Mia na noite anterior. Convivemos por tanto tempo com a culpa que nos acostumamos com ela, talvez. Sentamos no sofá e rimos por toda a tarde, jogando videogame até escurecer do lado de fora. O Fer repetiu algumas vezes que não queria ir embora. Evitando o máximo que pode voltar para a casa dos seus pais naquele domingo. E pedimos uma pizza, convidando o Du no quarto para comer também. Quando ele, enfim, deixou o apartamento, me vi sentada na sala cercada de latas vazias de cerveja, vendo com o Du a reprise de algum reality show muito ruim gringo. Apenas dois pedaços remanescentes na caixa da pizza e um baseado sendo preparado sobre a mesa de centro, nas mãos dele.

_Você já sentiu – eu perguntei, aleatoriamente – como se pudesse amar muitas pessoas, ao mesmo tempo?
_Já. Não sei. Depende do que você considera “amar”...
_É estar realmente esmagado, o tempo todo. O seu corpo. De cima para baixo, como se o céu te empurrasse pra dentro de você.
_Acho que não.
_Hum.

18 comentários:

Carol Spenser disse...

assim, a FM e a Clara ficam lindas juntas, mas brother... a Mia é a Mia né! impossível não se apaixonar por essa linda :3~

amei o post, Mel <3

Anônimo disse...

Que que isso? Me deixou sem folego... quase me senti ali, vivendo as duas, em suas intensidades, em suas nostalgias...

Intensamente, lindo...

Juliana Nadu disse...

Mew!! Acho que esse post foi um dos que mais descreve a densidade de todos os sentimentos flutuantes d Mia e da FM... aqui senti claramente o sentimento que a Mia nutre pela FM. Parece que os sentimentos da FM estão se encaixando de tal forma que vá ajuda-la a se desenroscar dessa história toda... sei lá... não que o desenrosco não tenha consequências drásticas... mas que tudo estará de forma mais clara...

Ianca' disse...

Cara, senti um peso muito grande com esse post, sabe? Os sentimentos sobrecarregados, enfim... Acho que pude sentir um pouquinho, uma parcelinha do que a FM deve sentir. Que aflição, mew.
A Mia é a Mia. E não tem frase que a descreva melhor.

Babaloodeuva disse...

Intenso esse post, A FM está diferente. Maravilho palpavel as sensações dela. Intenso!
Amei.

Anônimo disse...

Eu quero sempre maaaaaaaaaaaaaaaisssss.

Pathy disse...

Cara, que loucura. Como lidar com todas essas sensações? como resolver esses "conflitos" que as cercam? Melissa de Miranda, não de nó no meu cérebro.

:(

Flavs disse...

Cadê a Clara? pfvr!

Anônimo disse...

Post mais que lindo! Mia realmente gosta da FM.

Anônimo disse...

Nossa!! Simplismente sem palavras...
Passou perfeitamente a intensidade dos sentimentos...
Chego a me reconhecer quando fala do desejo de ter a pessoa ao lado...
*_* "E queria o seu cheiro ao meu lado. O toque das suas pernas, o colchão afundado no centímetro seguinte do meu corpo. Não pensava em mais ninguém. "
Parabéns e obg mais uma vez Mel!!
(ANA CURI)

Vi disse...

Nossa..! Fazia um tempinho que n lia um post tão vagarosamente, n querendo que ele acabasse. Justo um tão curto assim!rsrs
Me encanta, qnd a FM mostra seus sentimentos mais verdadeiros. Sinceros. E as suas reflexões, tb. Como o costume com a culpa.

Amei, Mel!

Anônimo disse...

FM <3
Mia <3
Fer <3

Anônimo disse...

Gente, gente, geeeenteee...
Não adianta toda a "fofice" da Clara... O post mais emocionante, eletrizante, excitante e gostoso de ler é o que fala da FM e Mia.
Amor, amor...é inevitável, na minha opinião, que mais cedo ou mais tarde elas se rendam ao que sentem.
Só lamento pelo Fer, um menino querido...e um pouquinho pela Clara, né? Mas é a vida.
Parabéns, Mel. Lindo post.

Bruna disse...

"...como se o céu te empurrasse pra dentro de você."
Sério... descrição maravilhosa!
Demais Mel!

Davi Oliveira disse...

Ola, li alguns dos teus post e adoreiiiii
fiquei fã da tua escrita :)
bjs davi

( the girl fucking Mia ) disse...

Poxa, obrigada! :)

( the girl fucking Mia ) disse...

Aliás, obrigada a todas as lindas (e lindos!) que comentam aqui e interagem com o blog, comigo, com as personagens. Vocês fazem o meu dia! <3

Davi Oliveira disse...

Cada post e hipnotizante quando acabamos de ler, queremos continuar a espera k coloques mais :)
e vicianteeeeee :D
beijinhos davi