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dezembro 28, 2011

À toa

De volta ao apartamento, após algumas horas vendo a Lê sofrer para adquirir sua carpa, já pelas 4 da tarde, passei pela porta de entrada e encontrei com o Fer e a Mia sentados na sala jogando videogame. Havia uma travessa de bolo de chocolate parcialmente cheia sobre a mesa de centro. Pediram que sentasse um pouco ali com eles, quer dizer, o Fer quis ver a tatuagem nova. Me acomodei ao seu lado no sofá, roubei a sua cerveja e, por um instante, puxei a lateral da camisa para a que visse, já tomando um gole. Os restos de tinta e um pouco de sangue haviam tirado um tanto da visibilidade por detrás do plástico; o Fer esticou-o com os dedos tentando não me machucar.

Sentada no chão ao seu lado – digo, do outro lado – a Mia levantou os olhos discretamente na minha direção e observou o desenho por um segundo. Depois tornou a olhar para frente, para a televisão. Fiquei algum tempo comentando a ida ao estúdio com o Fer, a blusa já abaixada e um dos pés sobre a mesinha de centro, segurando a cerveja em mãos. Retomaram a disputa, Guitar Hero, e eu acabei ficando por ali com preguiça de fazer qualquer outra coisa.

_Come um pedaço aí... – o Fer comentou, referindo-se ao bolo, sem tirar os olhos da televisão – ...a Mia que fez agora à tarde.
_Não, tô de boa. Acabei de tatuar, meu, nem posso comer chocolate...
_Nada a ver, mano, cala a boca. Não dá nada! Eu nunca faço essas merdas e todas as minhas tão normais, meu...
_Ah, sei lá, né... – respondi, não muito convencida.

Então olhei para a travessa, toda coberta com a calda de chocolate que sobrepunha o bolo, daquelas grossas e obviamente deliciosas. E aí, claro, mudei de idéia; esticando-me para pegar o que chamei de “tá vai, só um pedacinho”. O Fer riu de mim.

_Pô, ficou gostoso mesmo, hein... parabéns! – comentei, de boca cheia, e a Mia apenas me olhou por um instante sem me dar bola ou agradecer.

Num raciocínio dos não muito complexos, concluí que ainda me ressentia pela outra noite. Se bem que, na minha humilde opinião, elas nem eram tão amigas assim. Pensei comigo mesma, eu é que deveria estar brava, meu... Mas deixei quieto. Apenas me afundei no sofá, acomodada. Sem nada para fazer até aquela noite, o que era ótimo. A tarde começava agora a perder aquele calor todo das horas anteriores, tornando-se agradável pouco a pouco. Ainda assim, o ar entrava abafado pela janela aberta.

Bem queria poder arrancar as calças, que me incomodavam categoricamente toda vez que chegava em casa, mas de uns tempos para cá a presença da Mia passara a me inibir. Ela estava de mini-shorts preto e um sutiã da mesma cor por debaixo da regata branca; o Fer vestia uma bermuda qualquer e camiseta branca também. Só eu naquele pano todo, argh.

Tentei compensar na cerveja gelada, com preguiça de mover-me até o quarto e me trocar. Mandei uma mensagem para a Patti enquanto jazia ali, largada no sofá, bebendo afundada entre as almofadas. Combinei nossa saída à noite, assisti o jogo deles, disputei algumas partidas, depois fiquei à toa. Enchendo a cabeça de pensamentos aleatórios e de Stella, que era uma raridade num apartamento sempre pouco abastado.

_Ei, que cê tá toda brisando aí? – o Fer me perguntou um tempo depois, me cutucando com as costas da mão – Hein, tá pensando em quê?
_Nada... pensando só... – tomei mais um gole da minha terceira ou quarta cerveja – ...rolou uma parada, sei lá, estranha hoje.
_Conta aí, mano. Rolou o quê?!
_Ah, encontrei uma... mina... sei lá, não sei se você lembra dela... a Clara, manja?

Na mesma hora, os olhos da Mia voltaram à minha direção. Abaixou-os novamente ao chão, em seguida, e não falou nada, me ignorou. Fingiu não se interessar. O Fer, por outro lado, seguia interessado. Disse lembrar dela por todo o escândalo que eu fiz – enfatizou – no dia que a peguei com outra no Vegas, quando saí chutando todas as suas coisas na sala, e pela festa que demos dias depois no apê para me tirar da fossa. A mesma em que me tranquei no banheiro com a Mia, pela primeira vez. Beijara-a semanas antes daquilo, de madrugada no corredor; a Mia havia vindo bater na minha porta, inquieta. Havíamos discutido sobre a Clara naquele dia, na cozinha, primeira vez que a vi reagir, com ciúmes. E lembrei então da minha tarde com a Clara, a disputa pelas camisetas e por quem seríamos como estrelas do rock. As pernas dela sobre as minhas, as suas mãos. A pontinha da língua entre os dentes, rindo de mim. Minha cabeça divagou por um instante, encarando o Fer nos olhos enquanto ele falava. Sobre a festa, ainda.

5 comentários:

Ianca' disse...

E essas recordações? Adorei *-*
As reações da Mia ainda me deixam muito em dúvida, são ciúmes contidos, ou coisa do tipo, não sei...
A Clara não apareceu por nada, apareceu pra dar mais uma extravasada hahaha e espero muuuuuuito por isso...
Mas eaí Mel, como vai ser a noite com a Patti? Ela vai passar no apê?

Beatryz Ramos disse...

a Mia se fazendo de desinteressada agr.. quero só ver no decorrer da história quando ela perceber q perdeu o posto pra Patti.. queria poder ver a cara dela! rs

L. disse...

Tá na cara que a Mia tá se segurando pra esconder o ciúme né? Mas quando a Mia der de cara com a Patti, vai rolar B.O. pra FM, certeza! hohoho

Anônimo disse...

Muita nostalgia pra um post só, adorei!

Juliana Nadu disse...

Uhuuuuuuuu!! A Mia volta pra cena!!

\o/ Tava com muita saudade!!

O negócio é que a MIa é covarde! Ela não tem coragem de assumir que o que ela sente pela FM é real. E ela não quer admitir que o que ela sente pelo Fer é só carinho, pq o cara é mt foda!