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novembro 10, 2012

Círculos

Despedi-me da Marina com um abraço e cinco minutos depois a Clara passava por aquela mesma porta. Desencontraram-se – ufa. Chegara de táxi na Frei Caneca; os dedos ao redor de uma garrafa verde-escura de Jameson e os shorts de pijamas com abelhas estampadas combinados a uma ugg bege que usava para todo canto desde que voltamos a nos ver, a regata velha de dormir escondia-se debaixo de um moletom destes propositalmente largos que não cobrem a linha dos ombros. Só você mesmo, garota, ri do seu look caí-da-cama-e-vim-aqui-te-socorrer. De um jeito estranhamente descolado, estava charmosa – e garanto, qualquer outra pessoa ou par de pernas ficariam um desastre naquilo. Mas a Clara, a Clara nunca ficava.

Nos acompanhamos até a cozinha. Ligamos a música, colocamos uns álbuns velhos. Ela deu um pulo e sentou-se no balcão da pia; enchi os copos com o whisky que trouxera e me juntei a ela. Na segunda rodada, óbvio, já havíamos desistido dos copos – essas formalidades. E os nossos pés encontravam-se sobre a bancada ou dependurados. Por entre Tim Maia, Tom Waits, Grateful Dead; a música rodava boa e saudosa. Eu ainda tinha o álcool da noite anterior circulando em mim, a ressaca amenizara no decorrer do dia e não demorei a ficar realmente bêbada. Era como colocar mais sal em comida já previamente salgada. Cada gole me tirava mais de mim (com quatro vezes a eficiência normal). O que não era ruim, não naquela situação – estava desesperada para me distrair e não pensar na falta que o Fer me fazia naquele instante, naquela porra de apartamento vazio. A primeira noite sozinha. Ríamos.

A minha linha de pensamento se perdia, aos poucos.

Tornava-me tonta. E os meus olhos desacelerados eram atraídos à garrafa entre as suas pernas; à maneira como o vidro se moldava nas suas coxas, à sua pele. Descoberta, num shorts nulo, de algodão com suas pequenas abelhinhas.  “Isto não é justo”, eu dizia e ela ria; a admirava. Desci então da bancada para pegar o maço que ficara na mesa de cabeceira. E voltei do meu quarto com um dos cigarros em mãos. Passava-o entre os dedos, distraída, e trocávamos duas ou três palavras. Eu ainda em pé, frente a ela e à pia, enquanto o acendia. Os pensamentos instáveis; a caixinha em mãos. Tornara a colocar whisky nos copos. Deixei escapar o cigarro ao final da primeira tragada – merda –, que rolou para o chão e quase queimou as pernas da Clara pelo caminho. Pecado, contemplei-as descobertas.

_Vai, esperta! – a Clara pulou de susto, rindo da minha embriaguez.
_Foi... – abaixei para pegar o filtro no chão, murmurando atordoada, e me desequilibrei, claro; dando com a lateral do ombro na porta do compartimento que ficava ali, abaixo da pia e a alguns centímetros para lá de onde as pernas da Clara se dependuravam, no que me pareceu um movimento em câmera lenta – ...mal, argh! – acabei sentando meio sem jeito no chão, confusa com o que acontecera – ca... ra-lho!
_Está bem já, hein?!
_Merda de... cigarro! – coloquei-o na boca, direto do chão, e fui reacender com raiva.
_Melhor cê ficar aí embaixo... pra segurança sua e do resto mundo.

Ela divertia-se, fazia graça, e eu a ignorava, mais por acaso que outro motivo, concentrada em canalizar todas as minhas habilidades embriagadas para riscar o fósforo. Algumas tentativas se sucederam. Antes de você ser, eu sou – eu sou, eu sou, eu sou, amor, da cabeça aos pés; eu sou, eu, eu sou... eu sou, amor, eu sou..., os Novos Baianos gritavam agora no rádio da sala. A música embalava a minha ebriedade; e os pés descalços da Clara me cutucavam, por cima, os ombros. (...) e só tô beijando o rosto de quem dá valor, pra quem vale mais o gosto do que cem mil réis. As bochechas encostadas nas suas canelas lisas e, de repente, a vista dali debaixo tinha um encantamento irresistível; um quê. Magnífica. E eu tentava agora, escalando o balcão e rindo, debruçada bêbada sobre ela, entrar entre as suas pernas.

_Não, não... – ela enrolava, sem se esforçar muito para desvencilhar-se das minhas mãos – ...não posso, meu. Não posso.
_Dá, sim... – eu insistia e causávamos a maior bagunça, em meio à cozinha; sujávamos uma a outra de whisky ao segurar o copo já molhado sem atenção e eu a mordia, lambia a sua pele, as gotas uma a uma e a beijava, por toda a parte interna das suas coxas, deslizava os meus lábios sobre a sua pele com gosto de álcool, com fome dela.
_Não, meu... – ela sorria e eu me colocava a dois centímetros da sua boca ávida – ...não dá –; nos beijávamos então, inebriadas pelo espírito irlandês daquela garrafa verde bendita – ...não começa, porra. Você já sabia, Bo.
_Não sabia. Não sabia de nada. Vai, eu preciso... só hoje, eu... – argumentava, com as mãos intrometendo-se em seus shorts; e ela as tirava, digamos, biologicamente impossibilitada de levar qualquer sacanagem adiante.
_Então vem aqui... – os seus dedos agarrados à minha blusa me puxavam, querendo resolver o problema; entrelaçada uma na outra sobre o pouco espaço que havia livre ali em cima, sobre o balcão da cozinha, e eu relutava.
_Não, não... – dizia, entre um beijo e outro – ...eu quero você.
_Não dá, amor. Não dá.

Maldição. Meses a fio juntas e os nossos ciclos ainda não haviam sincronizado, drama lésbico recorrente. Ainda ganhei – claro! – tudo o que tinha direito de receber em cima da superfície de granito escuro; e ainda distraí-me, em suadas e embriagadas horas de insistência, do fato que o Fernando não estaria mais ali para nos interromper. Nos enrolávamos, divertidas. Consegui tirar quase toda a sua roupa; e ela andava livre agora pelo apartamento. Eu a beijava então contra a parede do corredor, ambas sem blusa ou sutiã. E nos jogávamos no sofá para o milésimo round de discussão – ah, dava. Recebera um SMS do Du mais cedo naquele domingo, confirmando a mudança na quarta. Isto é, tínhamos ainda outros dois dias inteiros ali.

No seguinte, a Clara também dormiu no apartamento. Me livrando de mais uma noite sem o Fernando; tudo parecia o mesmo naqueles cômodos com ela lá. Me fazia bem, portanto, tê-la comigo. Para conversas de madrugada, para a companhia no café-da-manhã e todas aquelas coisas pelas quais eu não prezara nos anos antes. Convenci-a a tomar três ou quatro banhos comigo entre a noite de segunda e a manhã de terça, evidentemente. E depois nos separamos na estação Consolação para ir trabalhar. Íamos em direções opostas. Combinamos de nos ver mais tarde, eu passaria na sua casa. Almocei com a Marina naquela terça, que tagarelou sobre sua ficante, a tal Vivian. E voltei para o apartamento lá pelas sete, pretendendo ficar pouco – sozinha ali, sim, era estanho –; tomei um banho rápido e coloquei um pedaço de lasanha no forno. Estava terminando de guardar tudo na carteira, antes de comer e sair, quando a campainha tocou.

28 comentários:

Anônimo disse...

...quando a campainha tocou.
E lááááá veeeeem a Miaaaaa!
kkkkkkkkk
Todas torcem!

Ianca' disse...

Que dias corridos, poucas vezes te vi descrevendo tão rápido um parágrafo, o último, foi uma sensação gostosa.
Ê, finalmente, achei que essas mulheres não menstruavam hahahahaha

Achei o máximo, que saudadezinha >.<
Cadê dedicatória? #CobroMesmo

A Mia no apê? Seria estragar essa vibe maravilhosa, típico do blog ;x

Anônimo disse...

Tem de ser a Mia, pelo amor de Deussss!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

RAIVA ETERNA DESSE "NÃO DÁ, MEU" POR MOTIVOS DE: PASSEI POR ISSO ESSES DIAS HFOJSF;LDSBFJ[ODISNFPO


Esperando ansiosamente por: MIA <3

Vitória Régia disse...

tô com os dedos cruzados torcendo que seja a mia hahahahahahaha já tô com saudades <333

@livia_skw disse...

Brace yourselves Mia is coming! HAHA, e vai ser pra tirar a FM dos eixos (mais uma vez!)

Mel,você é demais! Escreveu um post assim, delicinha e com trilha fenomenal, em prazo recorde!


Novos Baianos! <3

@from_suburbio disse...

MIa!

#TodasTorcem

Anônimo disse...

QUERO A MIA NESSA PORRA JÁ!

Anônimo disse...

Vcs são LOUCAS!! A relação dela com a Clara,cara , é perfeita. Passei o capitulo td suspirando e qrendo ter uma parada assim com alguemm, elas sao livres e confortaveis uma com o corpo da outra e se entendem e é lindo demais <3 <3 <3 <3



#team clara

Anônimo disse...

A mia vai estragar td, vcxs vão ver....

Anônimo disse...

E a curiosidade sempre atiçada por vc né Mel! Sacanagem parar nessas horas HSIUAHSA Mia mano, certeza! Aí que vai fuder tudo agora HISUAHS continua pelo amor de Deus!

francielli# disse...

tá faltando um pouco de mia para quebrar a rotina =D

Anônimo disse...

Rio muito da FM bebada. Esse blog é demais!

Pathy disse...

A Mia sempre aparece pra dar ao blog um pouco mais de LesbianDrama. HAHAHAHAHAHHA
E como disse a Ianca, eu tbm achei que essas gurias não menstruavam. kkkkkkk

( the girl fucking Mia ) disse...

Claro que menstruam, haha. Eu só pulo estes tristes, entediantes dias e vou pros que interessam! ;)

Bruna disse...

Aiaiiii... lá vem!!

AMO/ODEIO esses finais!!!
haha...

Juliana Nadu disse...

Miaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!! ahahahhaah uhull \o/

Anônimo disse...

Ahhh, a Clara é tão fofa!!! E pra falar a verdade eu já tô meio enjoada da Mia...

Adorei você ter colocado música brasileira! Ainda mais Novos Baianos!!! Mandou muito bem!
Tem que entrar na próxima trilha!

Mariah

Anônimo disse...

Ahhhhhhhhhhhh por favor Mel, QUE SEJA A MIA!!!

Raianny disse...

Leitura em dia e com ela a ansiedade! Ain, me sinto muito bipolar. É muito torturante desejar que a Clara suma. =( Muito, muito, muito bom <3

Dea disse...

é impossível não querer entrar nessa história. nem que fosse pra acompanhar ao vivo. impossível. muita saudade de conversas longar e filosóficas sobre o blog...

Anônimo disse...

Recomendação de OST pro próximo post: lady grinning soul - bowie.

"and when the clothes are strewn
don't be afraid of the room
touch the fullness of her breast
feel the love of her caress

she will be your living end..."

Anônimo disse...

Ok Mia, pode aparecer, eu deixo kkk

Anônimo disse...

MIA MIA MIA *--*

Thais Figueiredo Palma disse...

Love it Love it Love it!

Hannah disse...

EH A MIAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!

Anônimo disse...

To pro fervo, então...
VEEEEEEM, MIIIIIIA!

Por mais fofas que Clara e FM sejam juntas,
Nada se compara à Mia......

Gabs disse...

Mia, Mia, Miaaaaaa. D:
~lê desepero aushaushuahsuashaushau