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novembro 15, 2012

“You met Mia yet?”

E com suas mãos apoiadas no batente de madeira, despreocupadamente do lado do corredor, lá estavam eles. Os meus incontáveis meses de erro recorrente e amor não correspondido. Agora batendo, literalmente, à minha porta. Caralho. Num vestido preto soltinho, com pontinhos cinzas. A Mia sorriu genuinamente para mim, sem perceber a inconveniência da sua presença ali. Naquele maldito instante – a lasanha no forno e as chaves já sobre a carteira na mesa, pronta para sair. Me surpreendi.

_Oi?! O que... você está fazendo aqui? – perguntei e ela riu.
_Estou atrapalhando?
_Não. É que, ahm...
_Você disse que eu podia passar pra te visitar – argumentou, num sorriso imprestável e os meus olhos se perderam indefesos na curvinha formada em sua pele, logo na margem da bochecha –, não?

Droga. Eu tinha mesmo dito. Dois dias antes, alcoolizada como um gambá e sem um pingo de autopreservação, aparentemente, no chão da sala tagarelando imperturbada sobre o quanto “claro!”, ela podia “aparecer quando bem entendesse”. Trouxe isto a mim mesma, admiti minha parcela de culpa e comecei a pensar em como ia me livrar daquela agora. Não podia dizer que estava a caminho da casa da Clara. Argh. E não queria também me atrasar. No entanto, havia algo na forma como ela me observava de volta, serena, a cabeça apenas levemente caída para o lado à espera de um convite meu, que me impelia a deixa-la entrar.

_Eu... na real, estava pra sair. Ia só jantar antes – passei a mão na nuca e a olhei, parada espontaneamente na porta do meu apartamento numa terça à noite, não conseguindo evitar um sorriso ao final.
_Hum. Acho que você não quer sair... – deduziu, satisfeita.
_Não dá, meu. Já combinei. Se você tivesse ligado, eu...
_Sei. É a Clara?

Não faz isto com nós duas, garota.

_Mia... – suspirei.
_Liga lá, vai. Cancela.
_Não posso – ri.
_Claro que pode.
_E o que você está fazendo aqui, afinal?! – ergui o queixo, inquirindo-a, e a observei dar passos discretos em direção ao lado de dentro, com certa contenção e nenhuma pressa. Deslizou as costas pelo batente, virada para mim. E deu de ombros – ah, você “não sabe”?
_Por que tantas perguntas – achou graça –, de repente?
_Não fui eu que apareci “de repente”, na porta de ninguém.

Revirou os olhos, como se fosse irrelevante, e eu ri. Deu um passo curto, se aproximando, e arrancou de mim mais um sorriso; a situação era absurda. A encarei de volta. “E aí... você vai me convidar para entrar ou não?”, recomendou e eu ri, mais uma vez, abaixando a cabeça em consentimento. Enfim. Empurrei o resto da porta para trás. E dei-lhe espaço para passar, ela caminhou sala adentro. Fechei novamente a maçaneta e me virei. Ela deixava a sua bolsa sobre o sofá, o tecido do vestido parecia macio sobre suas pernas um tanto tentador –, e investigou sobre a mesa as minhas chaves e carteira.

_Hum, então, você estava mesmo de saída... – sondou, sorrindo.
_Ainda estou.

Ela me olhou, inflexível a alguns metros dela, e riu.

_Ok. Escuta, já venho, preciso ir lá ver o meu jantar. Fica à vontade aí, cê conhece a casa – brinquei e me dirigi para a cozinha; ela veio alguns passos atrás.

Começava já a me arrepender de tê-la deixado entrar. Abri a porta do forno e agachei-me à frente, para checar a lasanha. Caía a minha ficha agora de que, sem o Fernando no apartamento, as minhas desculpas para tirar a Mia dali se tornaram rapidamente escassas. E não me sentia tão confortável assim – ainda não –, com a saída recente dele, com aquela situação. Tomava-me, em algum plano subjetivo, por uma aproveitadora sem escrúpulos – ainda que fora ela quem aparecera ali, sem convite. Eu ainda assim abri a porta. Fechei a do forno e coloquei a travessa quente sobre uma das bocas do fogão, erguendo-me do chão. A Mia observava a cena, apoiada contra a mesa de ferro da cozinha.

E quieta.

Perguntei se tinha fome, ela atenciosamente recusou. Comecei então a cortar só o meu pedaço, está bem. Alcancei um prato no armário sobre minha cabeça, em silêncio. Os talheres no escorredor da pia – tudo à mão. De costas para ela. Estávamos a alguns metros uma da outra, talvez uns três. Podia senti-la ali no cômodo, movendo-se milimetricamente sobre o meu ombro. Todavia não falávamos. Isto é ótimo. Tudo o que eu preciso agora é iniciar mais uma sequência de minutos mudos com esta garota – ela parecia não se importar. Era assim toda vez. A porra da nossa marca registrada.

Tomei o prato em mãos, já com a lasanha devidamente posta, e caminhei até a geladeira para pegar uma lata de cerveja. Esta não ofereci. Era a última, de qualquer forma. Dei mais alguns passos. E coloquei tudo na mesa, em pé ao seu lado, a olhando. A distância era próxima. Ela sorriu, nem uma palavra. Você vem até a minha casa, a esta hora de uma terça-feira, e não tem nada a dizer?, ri do absurdo daquilo, desviando o olhar automaticamente dela. Vi o seu corpo mover-se, mais abaixo, e ela aproximou-se, perguntando o que era tão engraçado. Eu tornei a encará-la.

_Não te incomoda? Como nunca falamos?
_Não – riu –, por quê? Incomoda você?

Dei de ombros, achando graça na naturalidade dela.

_Sabe... É como se sabe que encontrou alguém especial.
_O quê? – comecei a rir.
_Silêncios confortáveis, não?

Puta merda. Os meus olhos penetraram os seus, admirados. Então eu entendi. A desgraçada estava citando Pulp Fiction. Talvez para a maior fã de Tarantino de toda São Paulo, sem qualquer traço de dignidade. Não consegui não sorrir para ela, aquilo era o tipo de coisa que me fizera apaixonar por seus cabelos castanhos e as suas cerejeiras em primeiro lugar. A comida começava a esfriar ao meu lado, esquecida. “Está certo”, lhe respondi e ri.

35 comentários:

Anônimo disse...

Ahhhhhhhh, mel... não existe blogueira igual a vc! ♥ fico impressionada. PULP FICTION!

A citação foi perfeita pra cena, cara.

Anônimo disse...

Ai sem or, que lindaaaaaaas <3

Bruna disse...

Nossa... mandou muito no final com Pulp Fiction!

Anônimo disse...

MEL, ACHO QUE TE AMO !!

pAT disse...

Que lindas *-* o meu coração vai e vem entre a Mia e a Clara. Lindo post!

Ma disse...

GSJSBHSKANSGSKZJGAUQKANGYSJSJSHSOSJSGAG reli o final mil vezes! Que coisa mais lindaaaaaaa hahahahah ai, gente. Ai :')

kendow disse...

gente!!!!! ♥

Aléxia Carneiro disse...

meu comentário se reduz a "porraaaaaaaaas"

Anônimo disse...

Esse é o post mais perfeito de todo blog. Apenas.

Anônimo disse...

Status: vomitando arco-íris.

Anônimo disse...

Meu essa Mia é demais cara, demais, não acredito nisso. Eu adoro Pulp Fiction tbm é ótimo mano. Ótimo post, agora quero só ver como ela vai se livrar da Mia, toda facil assim, cheia de atitude. Está sendo ótimo acompanhar toda essa mudança e amadurecimento da Mia ao decorrer da história. Está ótimo Mel! Continua.

Clara disse...

Me impressiono com o realismo do blog...

Juliana Nadu disse...

hahhHHHAHAHhhhaa CA-RA-LHO!!!!

"Silêncios desconfortáveis. Por que sentimos a necessidade de tagarelar besteiras para ficar confortável?"

Eu amo de paixão essa parte!!!
Sempre levei isso pra mim a ferro e fogo... porque tagarelar tanto só pra se sentir confortável!?!?!? PORRA MEL!!

ai caralho não to acreditando nesse post! foda!! é por isso que eu sou #TeamMia

Sem mais................

Raianny disse...

Ain... Como a Mia amadureceu, tão segura, tão linda. Ahhh!
Simplesmente adorando essa nova e confiante Mia.

Luisa Fernandes disse...

amo pulp fiction caralho kk serio msmo, melhor blog do univesro aff

jamile disse...

a Mia é mto sedução, cara s2 haahaha

Anônimo disse...

Oooh, my God!
Um post LINDO desses com Mia toda cheia de atitude, FM se derretendo e pra terminar Pulp Fiction...
Obrigada Mel!!!!

Anônimo disse...

ownnnnnn coisa mais linda essa Mia, essa Fm, tudo tão lindo

<3
Mel me salvando nesse feriado

Anônimo disse...

HAHA,que feliz coincidência,assisti Pulp Fiction esta madrugada pela primeira vez..quando a mia citou eu pensei"eu ouvi exatamente isto em algum lugar". ;).Maaaaãs vamos falar do post" NOTA DEZ!"

francielli# disse...

não tem como não amar neah ... espero a continuação hihihi

Anônimo disse...

"You met Mia yet?" (6)

@livia_skw disse...

Ai Mia² <3

Quando é que a Mel vai parar de só escrever sobre essas mulheres incríveis e começar apresentá-las pra gente?

Anônimo disse...

Pooorra, o melhor filme do melhor diretor no melhor blog já existente????????
hahahaha
é demais pra mim!
please, não pare!
♥-♥

Gabriele disse...

Ai quero mais *-*
Diálogo delas sempre dá vontade de ler e ler,reler e reler...muito bom.

Anônimo disse...

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh como eu queria uma Mia dessas na minha vida monótona.
Continuação p/ ontem, Mel.. PLEASE!!!

Bibi disse...

Taraantinoooooo *--------------*
Como não amar "Fucking Mia"??

Porraaaa!!

Ianca' disse...

Aiaiai esse blog é só amor. Que post delicioso, que Mia deliciosa. Acho que to me apaixonando.
Quanta atitude dessa nova Mia. Todo esse avanço... É um prazer fazer parte acompanhando este blog.

Di disse...

Foda! A Mia é demais!


Será q rola double post no feriadão?

Anônimo disse...

já li esse post 4 vezes, nem costumo reler postagens, mas essa está DEMAIS!

Anônimo disse...

Perfeito! Perfeito!
Que bom q vc voltou a escrever! =]

Anônimo disse...

Aaaaah Mia,Mia...
Lido e relido, tá uma delicinha este post Mel!
Deixa a lasanha esfriar de vez, tem coisa muito mais quente por vir hahaha

c' disse...

" E com suas mãos apoiadas no batente de madeira, despreocupadamente do lado do corredor, lá estavam eles. Os meus incontáveis meses de erro recorrente e amor não correspondido. Agora batendo, literalmente, à minha porta. Caralho. Num vestido preto soltinho, com pontinhos cinzas. A Mia sorriu genuinamente para mim, ..."

" _Sei. É a Clara?
Não faz isto com nós duas, garota.
_Mia... – suspirei.
_Liga lá, vai. Cancela.
_Não posso – ri.
_Claro que pode. "

Consigo recriar perfeitamente essas duas cenas na minha cabeça velho. Nooossa, perfeito demais.
Mia tao segura, cheia de si, tao confiante. Estou adorando essa nova fase avassaladora dela. Uma dessas na minha vida abala todas as minhas estruturas, de booooa.

Anônimo disse...

Bem que eu queria a minha Mia, batento em minha porta agora. Tão linda, tão cheirosa, garota vc me faz tão bem e nem seguer desconfia disso.

Anônimo disse...

"Paul: So, I hear you're taking Mia out tomorrow.
Vincent: At Marsellus's request.
Paul: Have you met Mia yet?
Vincent: Not yet."

(...)

;)

Anônimo disse...

" _Sei. É a Clara?
Não faz isto com nós duas, garota.
_Mia... – suspirei.
_Liga lá, vai. Cancela.
_Não posso – ri.
_Claro que pode. "

Como já disseram antes, tudo perfeitamente recriado na minha cabeça!

"How you met Mia yet?"
Sinceramente, esse é um dos poucos blogs que prestam!


Mariah