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outubro 25, 2010

Heterofobia alcoólica


Observava. As pernas, as coxas, os dedos e os corpos entrelaçados; os cochichos no ouvido e os sorrisos despreocupados; os antebraços de uma, apoiados nos ombros de outra; os quadris e braços leves, submersos na música; as mãos em qualquer lugar, na cintura da que estivesse à frente, ao lado, atrás; o suor e o calor fazendo com que prendessem o cabelo, improvisando coques mal-presos; as flores da Mia correndo pelas suas costas descobertas, a frente única preta contrastando com a sua pele, o movimento do tecido acompanhando o seu corpo.

E eu lá, a poucos metros dali, babando.

_Isso não é justo – reclamei para a Lê, que estava ao meu lado, soando já completamente alcoolizada e prestes a fazer uma análise antropológica da balada paulistana.
_O que não é? – perguntou, virando mais um gole da sua segunda cerveja.
_Olha aquilo, meu... Não, sério, olha aquilo!
_Que tem? – a Lê riu, acompanhando meus olhos até o meio da pista de dança, onde a Mia e as amigas dançavam, alheias à nossa atenção.
_Como o “que tem”? Tem que não é justo, porra! Por que eu não posso dançar lá no meio?
_Mas você po...

A Lê pôs-se a responder o óbvio, mas eu a cortei logo em seguida e continuei com o meu raciocínio, completamente embriagada. Parcialmente indignada e parcialmente fazendo graça.

_Eu tenho certeza, certeza, que se fosse eu lá com elas, o Fer ia me olhar torto dali... – fiz um sinal com os olhos, indicando o meu melhor amigo, que conversava numa rodinha a poucos metros das garotas – Quer dizer... Eu não, né? Eu não posso. Porque se você é sapatão, você vira uma porra de uma ameaça ambulante. Mesmo se eu não estivesse interessada em nenhuma delas. Sabe, isso é discriminação!
_Do que você tá falando?
_Dessas... minas “héteros”... – fingi aspas com os dedos, sendo irônica, e a Lê riu de novo, antes de dar mais um gole na cerveja – ...que ficam aí, sabe, se pegando na frente de todo mundo e ninguém fala merda nenhuma. É mão para cá, mão para lá, gracinha gratuita, selinho numa, selinho na outra... Caralho, meu!
_Acho que você já bebeu demais...
_Não. Eu acho assim... – fiz uma breve pausa, construindo o pensamento com o meu terceiro whisky em mãos – Ou você é sapatão ou não é. Entendeu? Não tem essa de ficar se esfregando na balada, agarrando a coleguinha, se insinuando para Deus e o mundo, e depois ir lá curtir pinto.
_Deixa as minas, meu. Foda-se!
_Não. Não! – discordei, séria, e dei outro gole – Se vai ser “das amigas” na balada, tem que ser “das amigas” na cama. Isso é ridículo!
_Que é? Você quer ir para cama com alguma delas?
_Quê?! Não! Eu só não acho que é coerente.
_Tá bom, Nietzsche.
_Vai me dizer que você não fica puta?
_O mundo é injusto mesmo, amiga... – a Lê concordou, com os olhos nas meninas e sua boca novamente na garrafa.
_Muito injusto! Enquanto isso, a gente, as minas que curtem mesmo o rolê... Nós somos obrigadas a ficar aqui, encostadas na parede, dando uma de cabeça fria e fingindo que não estamos nem aí. Olhando pro outro lado, sabe, enquanto meia ala feminina “se pega” de mentirinha.
_Bom, a gente não tá exatamente olhando pro outro lado, né...
_Que seja – virei o restante do meu copo, já perigosamente imune à bebida – Mesmo assim é um lixo.
_Hm, por falar nisso... Olha aquela ali...
_Quem?
_Aquela ali, de branco.
_Não tô vendo – disse, bêbada, meio confusa – Quem, aquela?
_Não. Mais para lá, a morena. Do lado do cara de jaqueta.
_Ahn... sei.
_O que você acha? Sapatão?
_Ah, sei lá, cara... tenta, ué.

E, simples assim, perdi minha companhia. Para uma paulistana metida à hippie, vestida com uma blusinha básica e calça de algodão, com aqueles ares lésbicos de quem cursa Artes Cênicas em universidade pública. Não deu nem cinco minutos e a minha amiga – tentando bater o recorde de bocas por noite, evidentemente – já se encontrava atracada com ela num canto qualquer.

O calor da Sarajevo havia fervido todo o álcool existente em excesso no meu sangue. Eu estava bêbada demais, começando a tropeçar nas minhas próprias palavras e provavelmente bem menos interessante do que a tal garota, pela qual fui trocada pela minha amiga recém-solteira. Argh, povinho alternativo de merda, resmunguei mentalmente, encostando-me na parede com certa birra. A verdade é que eu não tinha nada contra essas garotas pseudocults. Eu é que andava amarga e de saco cheio de todo mundo. Olhei novamente para a balada, voltando à realidade, e me deparei com a Mia vindo na minha direção.

Opa.

Ajeitei o cabelo, endireitei as costas e a observei caminhar até o meu lado da pista. Ela sorriu para mim, a poucos metros de onde eu estava, e eu a encarei de volta. Então, fez um sinal com a cabeça para a esquerda, como se quisesse que eu a seguisse. Apoiei o copo vazio no chão e a alcancei a caminho da saída de fumantes, ao pé de uma escada estreita. Olhei indiscretamente para a bunda da Mia, vestida em um jeans preto justo, quase sofrendo com a minha impotência naquela droga de lugar. Eu preciso parar de beber. A rua se encontrava um nível abaixo da pista de dança, após uma portinha que deixava o frio entrar nos primeiros dois ou três metros. Paramos a alguns passos antes da saída. Enfim, a sós.

5 comentários:

Amanda Arrais disse...

Genial o comentário sobre as meninas heteros que ficam de gracinha na balada e na cama correm atrás de pinto. A Devassa sabe tudo mesmo e como ela falou: ou é sapatão ou não é. Quero logo o outro, vamos, vamos!

Marina disse...

Que esquerdismo /\
Acho q ri mais com "ares lésbicos de gente que cursa Artes Cências em universidade pública", do q com o Fer detonando a FM
Sorte q eu resolvi ler o outro post antes d reclamar q a Mia ñ tinha reclamado da Marina =P

Ed disse...

Muitooooooooooo bom, muito bommmmmmmmmm, muito bom MEuL.....

Do caralho!!!!

adoroooooooo 8 x...

- Tucca disse...

Genial, tudo! FM bêbada super filosofando e me matando de orgulho. E Mia tava só esperando a Lê sair de perto? :x adorei, vou pro próximo post NOW *-*

Monica disse...

#umbjo pras cults...

as maiis gostosas...em tds os sentiidos da expressäo...

né @Tucca_xD?

666

Bgs pra queem eh!